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	<title>Arquivos Dom e Bruno - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Fri, 08 Mar 2024 21:32:45 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Dom e Bruno - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Indigenistas entregam ao Congresso e ao MPF lista de &#8220;ações imediatas&#8221; para conter violência no Vale do Javari</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jun 2022 15:14:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Amazônia]]></category>
		<category><![CDATA[Bruno Pereira]]></category>
		<category><![CDATA[Dom e Bruno]]></category>
		<category><![CDATA[governo Bolsona]]></category>
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		<category><![CDATA[violência na Amazônia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Bruno espera que a morte dele seja usada para colocar a questão indígena e da Amazônia no centro das atenções do mundo, ele está nos dizendo para trabalhar intensamente nesse sentido”. Os verbos estão sempre no tempo presente quando o indigenista Leonardo Lênin dos Santos fala do seu amigo Bruno Pereira, assassinado no Amazonas junto [&#8230;]</p>
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<p>“Bruno espera que a morte dele seja usada para colocar a questão indígena e da Amazônia no centro das atenções do mundo, ele está nos dizendo para trabalhar intensamente nesse sentido”. Os verbos estão sempre no tempo presente quando o indigenista Leonardo Lênin dos Santos fala do seu amigo Bruno Pereira, assassinado no Amazonas junto com o jornalista britânico Dominick Phillips. “Quando vi a foto dele projetada na Torre de Londres, entendi que aquilo era um recado do Bruno para nós que ainda estamos aqui: ‘pautei nossa luta, agora vocês têm que trabalhar, porra!’”.</p>



<p>Enquanto a liderança indígena Eriberto Marubo, diretor do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados (OPI), e a antropóloga Beatriz de Almeida Matos, esposa de Bruno e vice-diretora do OPI estão no Recife para organizar o funeral do indigenista ao lado dos seus parentes pernambucanos, Leonardo, que também é indigenista com experiência de campo e também como coordenador da áreas de Povos Isolados da Funai, permanece em Brasília.</p>



<p>Sua responsabilidade é a articulação política, mantendo contatos com parlamentares, procuradores federais e jornalistas. A tarefa que lhe toma mais tempo é alimentar de informações as comissões criadas pelo Senado a Câmara dos Deputados para acompanhar as investigações. Como a maioria dos parlamentares e as respectivas assessorias desconhecem os conflitos e as ameaças aos indígenas, o trabalho é constante.</p>



<p>Leonardo explica que, no momento, o mais importante para os indigenistas e as lideranças indígenas, é a tomada de medidas urgentes, de curtíssimo prazo, para assegurar a vida de quem está no Vale do Javari.</p>



<p>“O primeiro ponto é garantir a imediata segurança dos vigilantes indígenas da Unijava [sigla da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari]”, adverte Leonardo. Os outros itens que, na visão do OPI, requer ações imediatas são a retomada do inquérito do assassinato do agente da Funai Maxciel Pereira dos Santos, morto em setembro de 2019, além do mapeamento dos inquéritos que existem na Polícia Federal e nas polícias estaduais estabelecendo elos do tráfico de drogas com atividades como o garimpo, extração ilegal de madeira e pesca ilegal.</p>



<p>A lista do que os indigenistas chamam de “ações imediatas” já está nas mãos dos deputados federais e dos senadores Humberto Costa (PT-PE) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP).</p>



<h2 class="wp-block-heading">Rotina de crimes na região</h2>



<p>A equipe da OPI também entregou aos parlamentares e ao Ministério Público Federal um levantamento de denúncias que apontam os vínculos entre os assassinos, o narcotráfico e as autoridades da região.</p>



<p>Em 8 de março, por exemplo, os indígenas da Unijava apreenderam no território da reserva um bote de alumínio com um potente motor Yamaha de 150HP carregado de 25 tracajás, duas tartarugas, 400 quilos de carne de pirarucu salgado e 300 quilos de carne salgada de porco queixada. As carnes de caça e a pesca teria como destino o abastecimento dos traficantes.</p>



<p>O bote e o motor foram entregues à Polícia Militar, que registrou oficialmente a apreensão do equipamento e o guardou em instalações da prefeitura de Atalaia do Norte. No dia seguinte, tudo havia sumido.</p>



<p>As denúncias, apresentadas desde setembro de 2021 até março de 2022, citavam textualmente os nomes ou apelidos dos suspeitos, incluindo o do assassino confesso Amarildo da Costa Oliveira, o <em>Pelado</em>. Dias antes de ser preso e já com as buscas pelos desaparecidos em andamento, o prefeito de Atalaia do Norte, Dênis Paiva (União Brasil), foi visto na casa de <em>Pelado</em> para uma suposta visita. </p>



<p>Abaixo, alguns dos trechos das denúncias feitas pela Unijava que foram entregues às comissões da Câmara e do Senado que acompanham as investigações:</p>



<ul class="wp-block-list"><li>&#8220;A turma seria composta por seis pescadores armados com espingardas calibre 16 em canoas pequenas, com caixas de isopor e gelo. Quem comanda a equipe é o pescador conhecido pelo vulgo de “Pelado”, (&#8230;) Segundo informações o mesmo também é responsável por alguns dos atentados com arma de fogo realizados contra a Base da Funai nos anos de 2019 e 2020.&#8221;</li></ul>



<ul class="wp-block-list"><li>&#8220;Temos a informar que um dos detidos, Carlo, é filho de famoso pescador invasor da TI Vale do Javari, conhecido por &#8216;Beré&#8217;, o qual foi flagrado três dias antes desta União dos Povos Indígenas do Vale do Javari apreensão tentando burlar a base de fiscalização da Funai e a EVU para avisar infratores que estavam no interior da terra indígena prontos para se evadir com grande carga de produtos ilegais da fauna&#8221;.</li></ul>



<ul class="wp-block-list"><li>&#8220;Os indivíduos presos na noite do dia 24/03/22 em Atalaia confessaram para as testemunhas presentes (policiais da FNSP, da PM e Civil, servidores da Funai e indígenas e indigenistas) que todo o material apreendido era do &#8216;Jane&#8217; e que o mesmo estava descendo para Atalaia numa embarcação e madeira e que ele teria pago duzentos reais a cada um dos jovens que foram presos para transportarem o ilícito para Atalaia em seu bote com motor 150Hp. É do<br>conhecimento de todos que esse bote e motor (avaliados em aproximadamente R$ 60 mil reais) é do &#8216;Jane&#8217;.&#8221;</li></ul>



<ul class="wp-block-list"><li>&#8220;&#8230; o bote e motor estariam com o maior comprador e financiador atual das invasões da da TI Vale do Javari, conhecido por “Colômbia”, o qual recepta esses produtos ilegais em sua balsa de compra de pescado em Islândia, no Peru, vizinha à Benjamin Constant-AM. O &#8216;Colômbia&#8217; tem um bote do mesmo modelo ao do Jane, porém com motor de 115Hp Yamaha que transporta os ilícitos de Islândia para Santa Rosa, no Peru, e Letícia, na Colômbia, na tríplice fronteira com Tabatinga-AM.&#8221;</li></ul>



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<p></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Seja mais que um leitor da Marco Zero…</strong></p><cite>A Marco Zero acredita que compartilhar informações de qualidade tem o poder de transformar a vida das pessoas. Por isso, produzimos um conteúdo jornalístico de interesse público e comprometido com a defesa dos direitos humanos. Tudo feito de forma independente.<br><br>E para manter a nossa independência editorial, não recebemos dinheiro de governos, empresas públicas ou privadas. Por isso, dependemos de você, leitor e leitora, para continuar o nosso trabalho e torná-lo sustentável.<br><br>Ao contribuir com a Marco Zero, além de nos ajudar a produzir mais reportagens de qualidade, você estará possibilitando que outras pessoas tenham acesso gratuito ao nosso conteúdo.<br><br>Em uma época de tanta desinformação e ataques aos direitos humanos, nunca foi tão importante apoiar o jornalismo independente.<br><br><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">É hora de assinar a Marco Zero</a></cite></blockquote>
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		<title>Ao falar que “A Amazônia é nossa”, Bolsonaro diz que “A Amazônia é do crime”, afirma jornalista britânica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Jun 2022 19:47:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Principal]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Amazônia]]></category>
		<category><![CDATA[BBC]]></category>
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		<category><![CDATA[jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[militares]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A jornalista inglesa Jan Rocha veio ao Brasil pela primeira vez em 1964, após assistir uma palestra em seu país sobre a Amazônia. Tinha 24 anos e voltou pra casa sabendo que voltaria, e que acabaria&#160; morando aqui. Em 1969, retornou, para sempre. Casou com o gaúcho Plauto Rocha e teve três filhos: Camilo, Ali [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A jornalista inglesa Jan Rocha veio ao Brasil pela primeira vez em 1964, após assistir uma palestra em seu país sobre a Amazônia. Tinha 24 anos e voltou pra casa sabendo que voltaria, e que acabaria&nbsp; morando aqui. Em 1969, retornou, para sempre. Casou com o gaúcho Plauto Rocha e teve três filhos: Camilo, Ali e Bruna, que tiveram que dividir a mãe com a sua grande paixão: o jornalismo, e suas intermináveis viagens por todo o território brasileiro, especialmente pela Amazônia.</p>



<p>Desde 1973, quando virou correspondente da BBC de Londres, Jan vem percorrendo o Brasil atrás de personagens e histórias que mostrem o Brasil que muitas vezes não aparece sequer no noticiário brasileiro, muito menos no exterior. Passou vinte anos na BBC, retratados no livro <em>Nossa correspondente informa: Notícias da ditadura brasileira na BBC de Londres: 1973-1985</em>) e depois emendou&nbsp; dez anos escrevendo reportagens de fôlego para o jornal The Guardian.</p>



<p>Escrever sobre a floresta Amazônica, índios, indigenistas, garimpos, violência, viajar em busca de informações que possam mostrar ao mundo a realidade brasileira, faz parte de sua vida até hoje.&nbsp; Pelo seu trabalho, recebeu ligações desaforadas, mas nunca foi ameaçada de morte. Nem&nbsp; mesmo durante a Ditadura.</p>



<p>Nesta entrevista para a Marco Zero, a correspondente inglesa fala sobre seu trabalho jornalístico, o impacto emocional que sentiu ao saber da morte do também jornalista inglês Dom Phillips e do indigenista brasileiro Bruno Pereira, no Vale do Javari, a emoção ao assistir à chegada dos restos mortais de ambos em Brasília, a relação do garimpo com a política, e diz que o presidente Jair Bolsonaro, ao dizer que “A Amazônia é nossa&#8221;, está, na verdade, dizendo que “a Amazônia é do crime”.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/jornalista-inglesa-que-venceu-a-censura-dos-militares-mostra-que-pauta-de-bolsonaro-e-a-mesma-da-ditadura/" class="titulo">Jornalista inglesa que venceu a censura dos militares mostra que pauta de Bolsonaro é a mesma da ditadura</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
            
		            </div>
	            </div>
        </div>

		


<p class="has-text-align-center"><strong>***</strong></p>



<p>Marco Zero: <strong>Qual foi o teu sentimento ao saber da morte do Bruno Pereira e do Dom&nbsp; Phillips?</strong></p>



<p><strong>Jan Rocha</strong>: O que eu senti quando vi a Policia Federal trazendo aqueles sacos plásticos pretos, sabendo que dentro deles tinha os restos, os restos de duas pessoas tão legais, tão dedicadas, pessoas vivendo, fazendo as&nbsp; coisas, tão vibrantes, o Bruno com dois filhos pequenos,&nbsp; dois homens tão queridos, e ver eles chegando daquele jeito, dentro de sacos plásticos pretos, nem mais corpos, mas restos… me deu uma revolta muito grande, mas uma enorme tristeza…</p>



<p><strong>Algo que ficou muito evidente, na atuação das forças de segurança, foi uma tentativa de esconder a importância da atuação dos indígenas do Vale do Javari no esclarecimento do crime. Como você viu isso?&nbsp;</strong></p>



<p>Ver aquela coletiva de Imprensa, em Manaus, que tem aquela fila de gente de uniforme,&nbsp; militares, bombeiros, policiais, e nenhum, nenhum representante da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), que na verdade liderou as buscas e foi quem sempre achou as coisas… O fato é que eles simplesmente foram excluídos,&nbsp; como se não tivessem feito nada de importante. Na verdade, era um exemplo do desprezo, da desconsideração&nbsp; e da ignorância das autoridades brasileiras com relação aos indígenas.&nbsp;</p>



<p>Todos os comentários feitos por Bolsonaro, e agora Mourão, mostram sua ignorância deliberada sobre a contribuição dos povos indígenas.</p>



<p>O Bolsonaro continua falando deles como uma espécie de “subespécie”, que vive como selvagens, e que seria muito melhor para eles serem incorporados à sociedade branca,&nbsp; apesar de sabermos, e toda a história mostra, que quando os povos são incorporados, é sempre no nível mais baixo. Para ser empregado, para ser peão, para ser sujeito a todos os vícios da periferia.</p>



<p>Esse é o destino que eles querem para os povos indígenas. Não querem povos independentes, capazes, mostrando que são pessoas humanas normais, muitas vezes superiores aos brancos, certamente muito superiores ao Bolsonaro, em termos de inteligência, capacidade e conhecimento. Porque eles têm este enorme conhecimento da Amazônia, que as autoridades querem simplesmente jogar fora, querem tripudiar em cima.</p>



<p>Então, realmente toda essa história de Dom e Bruno deu muita tristeza e muita revolta &#8211; em qualquer pessoa que conhece eles, que conheceu eles, e que conheça a Amazônia.&nbsp;</p>



<p><strong>Por outro lado, houve uma resposta ríspida do presidente da República ao Dom Phillips, quando ele fez uma pergunta sobre desmatamento na Amazônia,&nbsp; em 2019.</strong></p>



<p>Hoje vejo o que o presidente estava dizendo quando falou que “a Amazônia é nossa”. Nossa sendo o garimpo ilegal, madeira ilegal, grileiros, traficantes, etc. É deles, é “nossa”, não é de vocês.&nbsp;</p>



<p>E quando ele fala “vocês”, são os indigenistas, os próprios indígenas, as pessoas, as ONGs que trabalham para ajudar as comunidades,&nbsp; os ribeirinhos, os quilombolas, as pessoas que realmente vivem na Amazônia. Bolsonaro estava dizendo “A Amazônia não é de vocês. É do crime”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Policiais e militares fingiram ignorar o papel dos índígenas nas buscas. Crédito: Alberto César Araújo/Amazônia Real</p>
	                
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<p><strong>Como você vê a questão política, envolvendo a Amazônia?</strong></p>



<p>Esse é um dos problemas da Amazônia. É que os políticos eleitos, particularmente em Roraima, mas em outros estados também, na verdade são eleitos para defender interesses econômicos. Os interesses deles, muitas vezes ilegais e clandestinos. Clandestinos não, ilegais.</p>



<p>Fui para Roraima várias vezes. O meu interesse realmente era mostrar o terrível impacto nos Yanomamis de milhares de garimpeiros espalhando </p>



<p>doenças, prostituindo as meninas, alterando os costumes alimentícios etc.&nbsp;</p>



<p>Acabei publicando um livro sobre o tema [<em>Haximu: o massacre dos Yanomami e as suas consequências, </em>Editora Casa Amarela, 2007]. Foi um&nbsp; massacre que houve em 1993, cometido por garimpeiros. Foi a primeira vez que um tribunal brasileiro baixou um veredito de genocídio, por causa da matança de 16 indígenas, quase todos velhos, mulheres e crianças.</p>



<p>Antes disso, fui ao Acre para entrevistar Chico Mendes. Isso foi em 1987, um ano antes de ele ser morto. Era muito difícil encontrar com o Chico, porque ele estava vivendo meio clandestino. Mas finalmente, consegui encontrar com ele numa cidadezinha de fronteira, chamada Brasiléia. Eu o entrevistei sentado num banco de praça, eu com um microfone, e percebi que ele nunca olhava pra mim, olhava sempre para os lados. Aí percebi que ele estava esperando que alguém pudesse estar chegando com uma arma, para matá-lo. Aí percebi também que eu estava na linha de fogo… Infelizmente, um ano depois ele foi assassinado em casa.</p>



<p><strong>E o mundo do garimpo ilegal parece tem uma forte conexão com os políticos…</strong></p>



<p>Fui correspondente do The Guardian entre 1984 e 1994, mas continuei escrevendo sempre para a BBC. Fiz várias matérias sobre a Amazônia. Fui várias vezes a Roraima, para cobrir a questão dos garimpeiros, porque no fim dos anos 1980, houve uma invasão muito grande, em 1989 principalmente, estimaram 40 mil garimpeiros. Eu fui pra lá e queria ir para um lugar chamado Papuí, e tentei alugar um avião em Boa Vista, mas todos os pilotos me recusaram, com várias desculpas. Depois fiquei sabendo que o chefão dos garimpeiros, um senhor chamado Altino Machado, tinha proibido que qualquer piloto me levasse pra lá.</p>



<p>Hoje, esse mesmo Altino Machado é candidato a senador ou deputado federal, mas é candidato no Congresso. Ele continua mandando nos garimpeiros e nos garimpos, durante todos esses anos.</p>



<p>(José Altino Machado é pré-candidato a Deputado Federal pelo PL. . É responsável pela instalação de garimpos nas terras Yanomami entre os anos 1970 e 1980. Chegou a ter uma frota de 410 aviões)</p>



<p><strong>O mundo dos garimpos ilegais parece um mundo sem leis… Você acompanhou isso também fazendo documentários para a BBC.</strong></p>



<p>Nos anos 1980, fiz muitos documentários para a televisão. Trabalhei como pesquisadora e produtora também. Então nós filmamos no rio Tapajós, para mostrar as balsas, e como os garimpeiros usavam muito mercúrio, viajando sempre em pequenos aviões. Lembro que uma vez fomos para um lugar chamado Caporizão, e o avião ia sair, e depois pediram para esperar, e chegou um garimpeiro ferido a tiros, numa maca…. Essa era a vida nos garimpos, muita violência, bebida, prostituição. E também nas balsas.</p>



<p>Muita gente morreu nas balsas, porque eles mergulhavam, para achar&nbsp; o ouro, às vezes tinha alguma coisa errada com o equipamento, eles morriam. E muitas vezes não era possível avisar à família, porque eles eram conhecidos apenas pelo apelido: Piauí, Maranhão , ninguém sabia a verdadeira identidade. A verdadeira vida nos garimpos era muito precária, muito violenta, também.</p>



<p><strong>Você chegou a ser ameaçada, pelo seu trabalho?</strong></p>



<p>Fomos ao Mato Grosso do Sul, fazer um documentário sobre trabalho infantil nas carvoarias. Os donos locais não gostaram, porque a gente estava visitando as carvoarias, entrevistando as pessoas miseráveis, que era uma espécie de escravidão, por dívida, muita criança trabalhando.&nbsp;</p>



<p>Um dia, quando saímos do hotel, no final da tarde, o carro, que era um 4&#215;4, de repente derrapou na estrada e quase caiu. A gente descobriu que um dos pneus tinha sido cortado.&nbsp;</p>



<p><strong>Você acha que a repercussão internacional com o assassinato do Bruno e do Dom Phillips, pode provocar mudanças nesta questão indígena?</strong></p>



<p>Eu acho que, Infelizmente, o Brasil é um país onde tudo cai logo no esquecimento, não é? O que foi notícia principal, depois de uns dias, cai no esquecimento. Então eu acho que cabe aos próprios jornalistas, jornais, revistas, sites, manter esse assunto em evidência, mandando repórteres para lá, inclusive fazendo matérias sobre o assunto.</p>



<p>Esse negócio de a Polícia Federal dizer que o crime não tem mandantes, que era só aqueles dois pescadores, é óbvio que não pode ser verdade. Tem que continuar a pressão.</p>



<p>Agora, do lado de fora, do lado internacional, eu acho que sim, a coisa da&nbsp; presença de um jornalista inglês, foi um assunto que causou muita comoção, muito interesse, muito espanto, que vai provocar pressão sobre o governo brasileiro.&nbsp;</p>



<p>Isso não vai ter efeito nenhum sobre o Bolsonaro. Ele vai chorar aquelas lágrimas de crocodilo, vai fazer aquelas promessas falsas, mas a gente sabe que o desmatamento é o pior de todos os tempos nos últimos três meses, e a época dos incêndios nem começou ainda. Então não vai ter nenhum efeito, eu acho, sobre a política governamental.&nbsp;</p>



<p>Mas, se por acaso o Lula for eleito, essa pressão internacional vai ser muito importante, porque ele vai se sentir obrigado a fazer alguma coisa. Ele já prometeu criar o Ministério dos Indígenas. Então tem que ser cobrada, essa promessa dele. E tem que manter a pressão sobre o governo Lula, para realmente reverter esta situação.</p>



<p>Agora… sobre o governo Bolsonaro, que vai até o fim do ano, mais seis meses, eu duvido que ele vá mudar alguma coisa… infelizmente.</p>



<p><strong>Você tinha algum contato com o Dom Phillips?</strong></p>



<p>Conheci ele só um pouquinho, aqui em São Paulo. Na verdade, meus filhos realmente conheciam ele bem melhor, porque ele veio ao Brasil atrás de música, atrás de música eletrônica. Era o grande interesse dele. Escreveu um livro sobre isso. Então meu filho, que escreveu um livro sobre música eletrônica, ficou muito amigo dele, passou trabalhos pra ele, que escreveu trabalhos sobre a cena daqui, acabou conhecendo minha filha, a Ali.&nbsp;</p>



<p>Mas sei que foi um cara muito bem … todo mundo gostava dele. Era um cara muito simpático, acabou casando com uma brasileira, ficou aqui, como vários outros ingleses, inclusive eu.&nbsp;</p>



<p>A gente vem pra cá para ficar um anos, dois, e acaba ficando. E, no meu caso, é pelo resto da vida.</p>



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		<title>Os minutos finais de Dom e Bruno na comunidade São Rafael</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Jun 2022 16:18:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Cícero Pedrosa Neto*, enviado especial do portal Amazônia Real “Ele encostou o barco ali no porto da escola e perguntou se tinha café. ‘Café não tem, mas tem Nescau’, eu disse. Aí ele disse: ‘esse que é bom mesmo’”, relata Alzenira Gomes, 54 anos, a esposa de Manoel Vitor Sabino da Costa, conhecido como [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Cícero Pedrosa Neto*, enviado especial do portal <a href="https://amazoniareal.com.br/especiais/minutos-finais-de-bruno-pereira-e-dom-phillips/">Amazônia Real</a></strong></p>



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<p>“Ele encostou o barco ali no porto da escola e perguntou se tinha café. ‘Café não tem, mas tem Nescau’, eu disse. Aí ele disse: ‘esse que é bom mesmo’”, relata Alzenira Gomes, 54 anos, a esposa de Manoel Vitor Sabino da Costa, conhecido como “Churrasco”. Foram com essas palavras que Alzenira, por volta das 7 horas do domingo 5 de junho, convidou o servidor licenciado da Fundação Nacional do Índio (Funai) e consultor da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), Bruno Araújo Pereira, 41 anos, e o jornalista britânico Dom Phillips, 57 anos, a aportarem na comunidade ribeirinha de São Rafael. A localidade fica às margens do rio Itacoaí, no município de Atalaia do Norte, na fronteira do Amazonas com o Peru, fora dos limites da Terra Indígena Vale do Javari. Minutos depois dessa conversa, eles desapareceram. Há uma semana o mundo procura pistas para o paradeiro da dupla.</p>



<p>“Como o meu marido não estava, ele pediu um pedaço de papel para botar o número dele. Depois disso ele saiu e foi atrás daquele ali”, testemunha Alzenira, apontando para Jânio Freitas de Souza, 45 anos, a última pessoa conhecida com quem Bruno falou antes de seu sumiço. Jânio e “Churrasco” chegaram a ser detidos pela polícia como suspeitos do desaparecimento de Bruno na noite de segunda-feira (6), mas foram liberados no dia seguinte após abertura de inquérito.</p>



<p>Líder da comunidade São Rafael Manoel Vitor Sabino da Costa, o “Churrasco”, é tio de Amarildo da Costa de Oliveira, 41 anos, o “Pelado”, pessoa que é a peça-chave das investigações sobre o desaparecimento de Bruno e Dom e que está preso temporariamente no presídio de Tabatinga, cidade vizinha de Atalaia do Norte, na região do Alto Solimões (AM). “Pelado” foi apontado por uma testemunha ouvida pela&nbsp;<strong>Amazônia Real&nbsp;</strong>com&nbsp;<a href="https://amazoniareal.com.br/prisao-de-pelado/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a pessoa que ameaçou Bruno</a>, Dom e mais nove indígenas da vigilância da Univaja no dia 4 de junho, após ser flagrado tentando invadir a terra indígena. Dois homens não identificados que estavam com “Pelado”, também apontaram as espingardas. Dom teria filmado a ação. Bruno levaria a denúncia no dia 6 à Polícia Federal (PF). Até o momento, esses dois homens não foram citados pela PF se eles estão entre as seis pessoas ouvidas pelas investigações, que são&nbsp;divulgadas em notas oficiais à imprensa.&nbsp;</p>



<p>Neste domingo à noite (12), em outra nota oficial, a PF informou que pertences de Bruno Pereira e Dom Phillips foram encontrados próximos à casa de Amarildo, na comunidade São Gabriel. Nessa mesma área, foi encontrada uma outra embarcação que “aparentemente” pertence a “Pelado”. Antes, no período da tarde, o Corpo de Bombeiros havia informado que uma mochila havia sido encontrada, contendo um notebook e um par de sandálias, mas sem a confirmação de quem pertenceriam.</p>



<p>Segundo a Univaja, a última informação de avistamento do indigenista e do jornalista é deles visitando as comunidades São Gabriel e Cachoeira, que ficam rio abaixo a cerca de 40 minutos de Atalaia do Norte na voadeira rápida. Conforme a testemunha ouvida pela&nbsp;Amazônia Real, no domingo (5), Bruno e Dom deixaram a base da equipe no Lago Jaburu, distante da comunidade São Rafael cerca de 15 minutos pelo rio Itacoaí. Bruno pilotava a lancha com motor 40 HP e dispensou a segurança dos indígenas.</p>



<p>Na quinta-feira (9), ao avistar o barco com a equipe da reportagem chegando no trapiche da comunidade São Rafael, Jânio já esperava em uma maloca. Sabia do que se tratava e pareceu disposto a falar sobre a última vez que viu o indigenista e o jornalista. Disse que Bruno chegou alegre e fazendo piada. “Ele passou uns oito minutos lá na casa do ‘Churrasco’. Passou aí na frente e não me viu. Eu até brinquei com ele, dizendo que ele não me viu porque eu sou pequeno”, narra Jânio, dizendo que o indigenista e o jornalista estiveram na comunidade por volta das 7h20 de domingo.</p>



<p>Jânio, que se identificou como presidente da Associação dos Produtores Rurais da Comunidade São Rafael, conta que foi apresentado ao jornalista britânico naquele dia. “O Bruno me disse que o repórter estava fazendo um livro e aí queria saber se o manejo dava resultado aqui”.</p>



<p>Dom Phillips, colaborador assíduo do jornal&nbsp;The Guardian<em>&nbsp;</em>e que realizava pesquisas para um livro com o objetivo de ajudar a salvar a maior floresta tropical do mundo, perguntou sobre o manejo do pirarucu, o peixe-gigante da Amazônia. Jânio lembra de ter falado abertamente sobre o tema: “A gente mata peixe ilegal, não vou mentir, a gente pesca aí na frente. Mas tem gente que passa também para a área indígena e quem pega a culpa somos nós aqui da comunidade. Foi o que eu disse pra ele”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Jânio Freitas de Souza conversou com Dom e Bruno. Crédito: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real</p>
	                
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>O patrão peruano</strong></h2>



<p>O “aí na frente” se refere Jânio à Terra Indígena Vale do Javari, a segunda maior do país (atrás apenas da TI Yanomami) com 8,5 milhões de hectares, e que tem sido alvo frequente de narcotraficantes, pescadores e caçadores ilegais, garimpeiros e madeireiros. É a cobiça por essa imensa floresta ainda intacta da Amazônia e onde vivem mais de 6.317 indígenas de 26 povos, incluindo grupos isolados e não contatados, que formam o pano de fundo desse caso ainda sem explicação.</p>



<p>“O Pelado é um dos caras mais perigosos da região do rio Ituí. Já deu vários tiros na base e já trocamos tiros com ele. O Pelado é peça fundamental nesse quebra-cabeça, não pode ser solto”, afirmou uma fonte à reportagem, que citou outros nomes: Nei e “Colômbia”; que também estão envolvidos com a pesca ilegal e o tráfico de drogas.</p>



<p>“Colômbia” é o peruano Rubens Villar Coelho, que teria se contrariado com as ações de fiscalização coordenadas por Bruno Pereira,&nbsp;<a href="https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2022/06/lavagem-de-dinheiro-do-trafico-com-pesca-ilegal-pode-estar-ligada-ao-desaparecimento-no-am.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">segundo o jornal O Globo</a>.&nbsp;</p>



<p>Na tríplice fronteira do Brasil, sabemos que “Colômbia” (Rubens Coelho) coordena o envio de peixe de Letícia para Bogotá, capital colombiana, a partir de uma balsa que opera na Islândia, no Peru. Ele seria também suspeito de ter mandado assassinar Maxciel”, diz outra fonte à&nbsp;Amazônia Real. Mas o peruano não foi ouvido pelas autoridades policiais. “A Funai nunca teve acesso ao inquérito”, disse um amigo de Maxciel.&nbsp;</p>



<p>Em 6 de setembro de&nbsp; 2019, o indigenista Maxciel Pereira dos Santos foi morto com tiros em frente à sua família em Tabatinga. Dias antes, ele tinha recebido ameaças de morte de caçadores por sua atuação em defesa da Terra Indígena Vale do Javari.&nbsp;</p>



<p>Desde o início do desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira, circulam nomes como “Churrasco”, “Pelado”, “Caboclo”, Jânio e Nei, todos apontados como tendo alguma ligação com o caso. Mas “Colômbia” pode ser a peça que falta nesse quebra-cabeça. Ele possui propriedades no município de Benjamin Constant, também vizinha de Atalaia de Norte, e controla o fluxo de drogas no rio Itacoaí, ua das calhas da TI Vale do Javari mais invadidas por caçadores e pescadores ilegais. “Colômbia” é um traficante peruano que usa da pesca e caça ilegais para retroalimentar o tráfico de drogas e as práticas ilegais que afetam tanto os indígenas quanto os projetos de manejo desempenhados na região.</p>



<p>“Colômbia” seria o “patrão”, apontado por mais de uma fonte ouvida nos últimos dias pela reportagem, que estaria insatisfeito com a atuação do indigenista, por conta de sua atuação no Vale do Javari. É ele quem banca o comércio de tracajás (uma das espécies de quelônios de água doce mais consumidas na região, embora seja ilega), por exemplo, pagando 70 reais por unidade – os pescadores chegam a descer o rio com cerca de 800 tracajás por pescaria.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Conflitos se intensificam</h3>



<p>Para se proteger das invasões, e sem apoio da Fundação Nacional do Índio (Funai), a Univaja decidiu agir por conta própria. Formou uma Equipe de Vigilância, a EVU (sigla de Equipe de Vigilância da Univaja), munindo os indígenas de armas de caça, todas de baixo calibre, e equipamentos tecnologia de monitoramento. Bruno Pereira, licenciado da Funai, foi convidado a atuar com a EVU, ajudando-os a flagrar os crimes que ocorriam dentro da TI Vale do Javari com aparelhos de drones. Os indígenas são dos povos Marubo, Matís e Kanamary.</p>



<p>Na mesma região a Funai tem uma base nos rios Ituí e Itacoaí, onde a Força Nacional de Segurança participa das ações dos servidores para combater as invasões à Terra Indígena Vale do Javari. A equipe conta com o apoio no rio Jutaí de uma casa de madeira para quarentena antes do ingresso ao território. A base da Funai fica distante a 2 horas de viagem de barco veloz da sede do município de Atalaia do Norte e ela faz parte das ações de monitoramento e proteção dos indígenas isolados e de recente contato. Desde 2018, o local, cujo nome oficial é Base&nbsp;de Proteção Etnoambiental (Bape) do rio&nbsp;Ituí-Itacoaí, sofre ataques, muitos deles a tiros, de invasores.</p>



<p>Os embates entre a equipe de vigilância da EVU e os invasores do território se intensificaram em 2021, durante a pandemia de Covid-19. Fora da terra indígenas, as comunidades que estão em seu entorno são de pescadores e caçadores com históricos de invasões e suposto envolvimento com o narcotráfico. Essas famílias já viveram dentro dos limites na terra indígena e foram retirada com a homologação, em 2001, após 20 anos de conflitos, inclusive mortes de brancos por<a href="https://amazoniareal.com.br/indios-korubo-fazem-segundo-contato-em-18-anos-no-amazonas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">&nbsp;indígenas isolados Korubo.</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>No sábado, o pescador Jânio contou que Bruno havia mencionado, no domingo do seu desaparecimento, que teria levantado um drone e pelas imagens flagraram pescadores ilegais de pirarucu e tracajás no rio Itacoaí. Segundo Bruno relatou a Jânio, ele levaria o material para ser apresentado às autoridades no município vizinho, em Tabatinga, onde está localizada a sede da Polícia Federal e outros órgãos federais, como Ministério Público Federal.</p>



<p>“Ele disse que queria ajudar nós e que estava avexado (apressado) porque tinha uma reunião em Tabatinga com a Polícia Federal, e que ia me ligar lá pra uma hora da tarde. Eu esperei e nada. Como não tinha almoço aqui em casa, eu fui pro rio pescar”, relembra Jânio. Segundo ele, aquele foi o maior contato que teve com o indigenista até hoje. “A primeira vez foi essa, só tinha visto ele em umas reuniões por aí.”</p>



<p>Perguntado sobre um possível envolvimento de Amarildo da Costa de Oliveira, o “Pelado”, na emboscada contra Bruno e Dom, o pescador Jânio desconversou. Diz não ter relações com o acusado que teve sua prisão temporária decretada na noite do dia 9. Mas, ao final, não hesitou em defendê-lo: “Eu não acredito que tenha feito isso com ele [Bruno], porque o cara pra fazer um negócio desses com um cara conhecido como ele tem que ter peito”.&nbsp;</p>



<p>Jânio, que acompanha as notícias do caso pelo celular, aconselhou à reportagem a não seguir viagem até São Gabriel, a comunidade vizinha, por ser “perigosa”. É lá onde “Pelado” mora e foi preso pela Polícia Militar por porte de arma de uso restrito das Forças Armadas, no dia 7 de junho.</p>



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	                                        <p class="m-0">Buscas mobilizaram indígenas da região. Crédito: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real</p>
	                
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<p>Durante a audiência de custódia, dia 9, a Polícia Federal revelou que a perícia técnica&nbsp; encontrou sangue na lancha de “Pelado” e numa lona de plástico azul. O pescador nega seu envolvimento no sumiço de Bruno Pereira e Dom Phillips. Diz que foi torturado pela PM do Amazonas, como publicou a&nbsp;<a href="https://apublica.org/2022/06/suspeito-de-desaparecimento-de-jornalista-e-indigenista-denuncia-tortura-em-sua-prisao/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Agência Pública</a>.</p>



<p>Na sexta-feira (10), a Polícia Federal informou as equipes localizaram no rio Itacoaí, próximo ao porto de Atalaia do Norte,&nbsp;<a href="https://amazoniareal.com.br/lancha-de-pescador-pelado-passa-por-pericia-genetica/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">material orgânico&nbsp;aparentemente humano</a>. O material genético foi encaminhado para análise pericial ao Instituto Nacional&nbsp; de Criminalística da PF.</p>



<p>Em coletiva na sede da Polícia Federal, em Manaus, o&nbsp;<a href="https://amazoniareal.com.br/prisao-de-pelado/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">superintendente Eduardo Alexandre&nbsp;</a>levantou a hipótese de o narcotráfico estar relacionado ao desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips. “As investigações apuram o envolvimento de quadrilhas de tráfico de drogas na região. Estamos buscando saber se houve algum crime nesse desaparecimento”, disse.</p>



<p>Sobre sua detenção, Jânio preferiu não dar declarações e disse que estava “tentando ajudar o Bruno, mas é difícil, né?”. Ele não quis indicar de que maneira estava se empenhando para colaborar com as buscas ou com a elucidação do caso, tampouco apontou as dificuldades as quais se refere. Ele também não quis dar declarações sobre o depoimento à polícia.</p>



<p>Já no final da entrevista, em local mais reservado, Jânio fez questão de mostrar uma possível rivalidade ao mencionar que Bruno Pereira tinha práticas enérgicas contra os pescadores ilegais. “Se ele pegasse alguém pescando ilegalmente, ele tocava fogo em tudo mesmo, não tinha conversa. Era barco, malhadeira, o que tivesse! Ele estava na razão dele. Só que esse pessoal que pesca aí é pobre também”, justificou Jânio Freitas de Souza.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A contradição de “Churrasco”</strong></h3>



<p>Manoel Vitor Sabino da Costa, 58 anos, o “Churrasco”, pessoa que Bruno procurava na comunidade São Rafael – e com quem havia marcado uma reunião prévia – recebeu a&nbsp;Amazônia Real<strong>&nbsp;</strong>em frente à casa da filha, que vive em uma área vizinha à escola onde Bruno e Dom aportaram no domingo. De forma intempestiva e dizendo não ter nada a esconder, falando alto e sem pausas, “Churrasco” afirmou que não sabia que o conhecido consultor da Univaja iria visitá-lo naquele dia, e que também não sabia o que Bruno tanto queria falar com ele. Mas disse que seu irmão, Raimundinho, era quem o abrigava quando Bruno “ia lá pro lado do Jaburu”, se referindo justamente ao lago de onde partiu a dupla no dia da possível emboscada. “O Raimundinho sempre me dizia pra falar com ele, que ele poderia ajudar a comunidade”, disse “Churrasco”, afirmando conhecer Bruno apenas “de vista”.</p>



<p>Sobre a passagem de Bruno e Dom pela comunidade São Rafael, “Churrasco” afirmou: “Eu não estava em casa, tinha saído seis horas da manhã pra ir pescar, aí disseram que ele chegou aqui atrás de mim pra marcar uma reunião comigo. Só quem estava em casa era a minha esposa e ele (Bruno) disse pra ela: ‘Poxa, eu queria muito conversar com o seu ‘Churrasco’.’ Aí foi quando ele deixou o número dele lá com ela anotado num pedaço de papel, a federal até já viu esse papel”, declarou Manoel, indicando que a Polícia Federal já tinha periciado o papel – fato que se deu no dia 6.</p>



<p>“Pra estar esse tempo todo sumido desse jeito, ou está morto ou está amarrado por aí por dentro do mato, só pode”, afirmou “Churrasco”, quando perguntado sobre o que poderia ter acontecido com a dupla desaparecida.</p>



<p>Ao longo da entrevista, que durou cerca de oito minutos – o mesmo tempo que durou a passagem de Bruno e Dom na casa de “Churrasco” na companhia de sua esposa, Alzenira –, o pescador Manoel fez questão de frisar que só poderia testemunhar sobre o que viu, e que “depois que eles dobraram pro rumo dali [em direção à Comunidade São Gabriel, onde foi preso “Pelado”, o acusado], não me pergunte que eu não sei”.</p>



<p>Essa versão de Manoel da Costa contraria a declaração dada pelo advogado e indígena Eliesio Marubo, assessor jurídico da Univaja. O advogado reafirmou que Bruno Pereira foi à São Rafael porque havia uma reunião pré-agendada na comunidade. “O ‘Churrasco’ sabia, sim, da reunião. Ele me falou isso quando fui lá na comunidade ainda no domingo [dia cinco]”, disse Eliésio Marubo.</p>



<p>“Eu não tenho nada contra ninguém, nunca tive. Esse velho, todo aleijado, e não é por tá roubando ninguém e nem vendendo droga, isso foi um acidente que eu sofri… esse velho aqui bate no peito, pra dizer que nunca fez nada de ruim pra ninguém. Já fui preso sim, porque andava metido em confusão, mas não por tá fazendo mal pros outros…”, explicou-se Manoel. No Tribunal de Justiça, constam três processo contra “Churrasco” de baixa monta, como indenizações e perdas e danos.</p>



<p>“Churrasco”, assim como Jânio, faz parte do inquérito aberto pelas Polícias Civil e Federal, que investigam os envolvidos no desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira. Em nenhum momento da reportagem, Manoel informou que é tio de Amarildo, o principal suspeito pelo desaparecimento da dupla, conforme apurou a&nbsp;Amazônia Real. Perguntado sobre o acusado, ele preferiu não manifestar opiniões.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/06/AM_pedrosa-neto-Churrasco.jpg" alt="Homem aparentando mais de 60 anos, de pele escura, barba rala grisalha e cabelos curtos grisalhos, usando um boné escuro e camisa azul com as palavras Fly Emirates olha para a câmera exibindo um pedaço de papel onde estão anotados os telefones de Bruno e de Júnior PF.Ele usa um anel grosso dourado na mão esquerda e está do lado de fora de uma casa de madeira, com árvores ao fundo" class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">&#8220;Churrasco&#8221; diz que não sabia da visita do indigenista e do jornalista. Crédito: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real</p>
	                
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<h4 class="wp-block-heading"><strong>O apoio dos indígenas</strong></h4>



<p>Um mundo com todas as suas especificidades, sistemas e crenças, cercado de água doce, mata preservada e farturas de pescados. Mergulhado em conflitos, muitos interesses econômicos ilegais, e com vasto histórico de violações humanas, originárias e ao meio ambiente. É como pode ser definido o santuário indígena onde Dom Phillips e Bruno Pereira desapareceram no último dia 5, na tríplice fronteira amazônica do Brasil com o Peru e Colômbia.</p>



<p>Desde o sumiço da dupla, dezenas de indígenas dos cinco povos que habitam a região, Matis, Marubo, Kanamary, Korubo e&nbsp; Kulina, com apoio das forças policiais, se revezam em busca do “amigo” indigenista e do jornalista “gente boa” – como o definiram em entrevistas à reportagem.</p>



<p>“Pessoal, nós temos que ajudar a encontrar o nosso irmão. A gente tem que lembrar do apoio que ele deu sempre nós. E ainda tem o jornalista que a gente conheceu esses dias. A família dos dois merecem a nossa ajuda. Vamos ajudar com toda força”, clamava a liderança Higson Kanamary aos seus parentes, sentado no escritório da Akavaja (Associação dos Kanamary do Vale do Javari), na Univaja, quando a&nbsp;Amazônia Real&nbsp;o encontrou na tarde do dia 9 de junho, no quarto dia de buscas a Dom e Bruno.</p>



<p>Higson foi uma das últimas pessoas a ver os dois antes que eles embarcarem rumo à Atalaia do Norte levando consigo o material contendo imagens de crimes ambientais que seria entregue na sede da PF, no município de Tabatinga. “O Bruno disse que eles iam baixar sozinhos. A gente sabia que era perigoso, mas ele reuniu nós indígenas lá na base, tomou a decisão e nós aceitamos”, diz o líder indígena Kanamary sem esconder a tristeza e o desespero, expresso nas lágrimas incontidas e nas mãos nervosas que juntas escorregaram sobre sua cabeça até a testa.</p>



<p>Bruno e Dom partiram sozinhos no dia 4 de junho do porto de Atalaia do Norte em direção ao posto móvel da EVU, que àquela altura se encontrava nas imediações do lago Jaburu, próximo à TI Vale do Javari, que concentra o maior número de indígenas isolados do mundo. Portanto, no percurso não haveria necessidade de ter a autorização da Funai, uma vez que não é área indígena.</p>



<p>O indigenista Bruno Pereira, que conhecia como poucos a enormidade do rio Itacoaí (um dos afuentes do rio Javari) e suas dezenas de furos, foi pilotando a embarcação “possante da Univaja”, como narra Higson, equipada com um motor 40 HP, até chegar no fim da tarde ao posto onde estavam estacionados os guardiões indígenas – trajeto estimado em duas horas e meia, a considerar a potência do barco em que estavam.</p>



<p>Bruno estava em uma missão de fiscalização, desempenhada junto aos indígenas e outros membros da Univaja, como Orlando Possuelo, filho do sertanista Sydney Possuelo, o fundador do então Departamento de Indígenas Isolados e responsável pelo primeiro&nbsp;<a href="https://amazoniareal.com.br/indios-korubo-fazem-segundo-contato-em-18-anos-no-amazonas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">contato com os indígenas Korubo</a>, em 1996.&nbsp;</p>



<p>Entrevistado no local onde hoje se encontra o posto móvel da EVU, nas imediações da Comunidade Cachoeira, Orlando Possuelo estava visivelmente abatido e trabalhava no erguimento dos barracos construídos com os indígenas Matis, Marubo e Kanamary, que lá estavam de vigília havia dias. Segundo ele, os indígenas preferem se fixar em solo do que ficar nas estruturas da embarcação que serve de base à equipe de indígenas que trabalha no monitoramento e fiscalização da TI Vale do Javari.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/06/AM-unijava.jpg" alt="fachada de casa pintada de azul claro na metade inferior da parede e de branco na metade superior. Uma porta verde está aberta, com uma grade escancarada,. Há duas janelas também verdes, a do lado esquerdo está aberta e a do lado direito, mais próxima à câmera está fechada. O chão na frente da casa é de cimento marrom e está bastante molhado." class="" loading="lazy" width="675">
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	                                        <p class="m-0">Sede da Unijava, em Atalaia do Norte. Crédito: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real</p>
	                
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<p>“Eu estava esperando pela chegada do Bruno às 8 horas da manhã. Ele iria me pegar lá para seguirmos viagem até Tabatinga. Ele me mandou mensagem às 6 da manhã, por meio do SPOT que estava com os indígenas – ele estava com eles lá, próximo à entrada da terra indígena. Oito horas da manhã eu fui pro porto para aguardá-lo, e como ele não chegou nós preparamos um barco e começamos as buscas”, relembra Possuelo.</p>



<p>O relato de Possuelo indica que do horário em que Bruno e Dom aportaram até a comunidade de São Rafael e o início das buscas pela equipe EVU não ultrapassam as duas horas e meia. Significa que foi neste intervalo de tempo que o jornalista e o indigenista sumiram sem deixar rastro algum.</p>



<p>“Na noite de sábado (4), nós conversamos em grupo e praticamente tava alinhado vir dois ou três parentes com ele. Na madrugada de domingo (5), umas quatro da manhã, ele disse que baixaria só ele e o Dom. Iam baixar cedo por uma estratégia de sair às seis da manhã e não ter tantos perigos, para estar em Atalaia às 8 da manhã e seguir pra PF”, lembra Higson Kanamary. “Antes de vir pra cá ele já tinha alinhavado uma conversa com o delegado da PF. Ele tinha todas as provas das intimidações dos pescadores contra os indígenas.”</p>



<p>Dom acompanhava a missão de Bruno porque estava escrevendo um livro sobre as dinâmicas socioambientais da Amazônia e os conflitos sobre as comunidades tradicionais e originárias. Ele já havia estado no Pará em 2021, onde visitou Barcarena, no nordeste paraense, e esteve com comunidades quilombolas e ribeirinhas afetadas pelas indústrias transnacionais de transformação mineral que atuam na cidade. Além dela, Dom também esteve recentemente no Acre. Ele estava empenhado em confeccionar um acervo de reportagens divididas em capítulos, que contasse um pouco da situação de emergência em que vivem as populações amazônicas.</p>



<p>“Não havia apenas um interesse literário, jornalístico, quando Dom me procurou em Belém, no início de agosto do ano passado. Nos poucos contatos que tivemos, foi possível perceber que ele se angustiava e, mesmo por trás de sua fleuma britânica, percebia-se genuína preocupação com o meio ambiente”, narrou à reportagem o advogado socioambiental Ismael Moraes.</p>



<p>Em meio aos desassossegos causados pela pandemia de Covid-19, que acabaram também por atrasar a escrita de sua obra, Moraes explica que Dom estava interessado nas múltiplas formas de violências causadas pela mineração no estado do Pará e gostaria de conhecer Barcarena, cidade do nordeste paraense que sofre com a contaminação por metais pesados causada por indústrias transnacionais de transformação mineral,&nbsp;<a href="https://amazoniareal.com.br/especiais/barcarena-chernobyl-na-amazonia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">como a norueguesa Norsk Hydro</a>. “É pavoroso saber que não temos notícias suas”, lamentou o advogado paraense.</p>



<p>João e Alex Kanamary, jovens guerreiros aos 18 anos, contaram à reportagem que trabalharam incansavelmente desde domingo do desaparecimento de Bruno e Dom e que tiveram momentos de companheirismo e aprendizado com a dupla nos dias anteriores. Aldeados, falando pouco o português e retornando da base da EVU para descansar, os jovens indígenas contaram dos momentos angustiantes que viveram desde a notícia da emboscada.</p>



<p>“Eles estavam aqui com a gente bonzinho uma hora, depois desapareceram e a gente não consegue encontrar. Já batemos essa beira de rio todinha aí e nada. É muito triste pra nós”, contou João Kanamary.</p>



<h4 class="wp-block-heading">O barco apreendido</h4>



<p>Mesmo após a notícia trágica que se abateu sobre o Vale do Javari, as atividades ilegais não cessaram. A equipe da EVU durante as buscas a Bruno Pereira e Dom Phillips acabou encontrando uma embarcação lotada de pirarucus, distribuídos em seis caixas de isopor com gelo. Em algumas caixas, uma camada superficial de pescados, cuja pesca é permitida, disfarçava o carregamento ilegal. Delcimar Kanamary, presidente da&nbsp; Associação dos Kanamary do Vale do Javari (Akavaja), disse à reportagem que o barco em questão pertence ao acusado pela emboscada da dupla desaparecida, Amarildo da Costa, o “Pelado”, e que tinha sido apreendido no fim da tarde do dia 9.</p>



<p>Segundo ele, o barco estava escondido por folhagens quando foi descoberto. “Eles [pescadores ilegais] deixam esses barcos em locais estratégicos e saem em outros barcos menores para fazer a pesca. Conforme eles vão pegando, vão trazendo para esse barco de apoio para cortar as mantas e guardar no gelo. Quando não, eles salgam, por isso que tem sal aí dentro também”, explica o líder indígena Kanamary, indicando a saca de sal refinado que repousava num canto do assoalho da embarcação apreendida pela EVU e rebocada por uma guarnição da Marinha para ser periciada.</p>



<p>A reportagem, até o momento, não conseguiu confirmar com a Polícia Federal e com a Polícia Civil a procedência da embarcação, para onde ela foi levada e qual destino foi dado à carga ilegal que nela estava.</p>



<p>Sobre a tática dos pescadores para disfarçar a carga ilegal, Delcimar explica que “eles colocam outros peixes por cima pra disfarçar o crime. Eles colocam pacu, branquinha, tucunaré, piau, o curimatã, tudo por cima pra disfarçar as mantas de pirarucu que estão por baixo”.</p>



<p><strong>* Com colaboração de Kátia Brasil e Eduardo Nunomura</strong></p>



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