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	<title>Arquivos eleição em Pernambuco - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos eleição em Pernambuco - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Eleições 2022: Pernambuco feminiza a linguagem e a política</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 Nov 2022 18:00:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Juliana Romão* A história de Pernambuco ganhou um novo capítulo político e linguístico em 2022. As eleições moveram para o feminino as forças políticas mais importantes no estado, com Raquel Lyra (PSDB) a primeira governadora ao lado da vice Priscila Krause (Cidadania), após uma igualmente inédita disputa feminina contra Marília Arraes (Solidariedade) e a [&#8230;]</p>
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<p><strong>Por Juliana Romão*</strong></p>



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<p>A história de Pernambuco ganhou um novo capítulo político e linguístico em 2022. As eleições moveram para o feminino as forças políticas mais importantes no estado, com Raquel Lyra (PSDB) a primeira governadora ao lado da vice Priscila Krause (Cidadania), após uma igualmente inédita disputa feminina contra Marília Arraes (Solidariedade) e a vitória da primeira senadora do estado, Teresa Leitão (PT). Uma guinada ao mesmo tempo conservadora e progressista.</p>



<p>Contrariando as projeções, foram as mulheres que reconduziram a direita tradicional ao comando estadual após 16 anos de gestão do PSB. A vitória de Raquel e Priscila, aliançada ao centro e à extrema-direita pernambucanas, nova oposição ao Governo Federal com Lula na presidência, redesenha as forças políticas locais. A dupla feminina – nunca no Brasil uma chapa só de mulheres venceu no executivo, encontrará apoio numa Assembleia Legislativa mais conservadora e extremista, tendo nomes do PP e do PL de Bolsonaro como os mais votados, e uma bancada pernambucana na Câmara Federal com três mulheres, a maior da história, embora ainda mínima em relação aos 22 homens eleitos, a maioria nomes de famílias tradicionais da política. A esquerda estadual só terá maioria no Senado Federal.</p>



<p>Além da orientação ideológica dos próprios partidos das eleitas, a correlação de forças tende a <em>endireitar</em> mais o governo de Raquel, só não se sabe o quanto e de que forma a agenda conservadora se manifestará nos nomes para as pastas, na estrutura e endereçamento de prioridades. O tom da relação com o governo federal modulará as animosidades locais e é ponto de muita expectativa pela declaração de “não declarar” voto à presidência ressoada por Raquel durante a campanha.</p>



<p>É certo que a inédita lente de gênero no topo da hierarquia estadual impactará a gestão, ao trazer outros pontos de vista e interesses ao debate público. O fato de ser mulher, no entanto, não representa necessariamente avanços nos direitos sociais ou das próprias mulheres. O gênero importa, mas é insuficiente sozinho. Para transformar as estruturas e promover mudanças reais, deve estar compromissado com uma agenda de justiça social, que enfrente as desigualdades raciais (tema ausente da campanha) e econômicas, centrando as políticas na população feminina, a maior e mais vulnerável do estado. Melhorar a vida delas é qualificar exponencialmente todo o entorno. Neste sentido, a presença de mulheres realmente diversas na gestão e a abertura para uma ainda distante aproximação com os movimentos sociais e de mulheres seria uma sinalização bastante importante, apesar de improvável. A ver.</p>



<p>Do ponto de vista linguístico, a reviravolta foi mais progressista. O processo eleitoral reverteu temporariamente a invisibilidade narrativa que acompanha as mulheres políticas por sua baixíssima participação nos espaços de poder. Pernambuco proporcionou um momento raro na cena política de um país em que a maioria da população (52%) e do eleitorado (53%) é minoria nos espaços de decisão. Raquel agora se soma à governadora reeleita do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), e serão as únicas em todo o país.</p>



<p>Enquanto forem poucas, o feminino estará ocultado na fala cotidiana. Vale lembrar a primeira e até agora única presidenta da história do Brasil, Dilma Rousseff (PT), que teve o pedido para ser chamada de presidentA desprezado pela grande mídia e pela elite. Não era uma rejeição à palavra, mas ao poder que ela significa – uma mulher na cadeira máxima.</p>



<p>A linguagem emoldura as relações de poder, por isso nossa fala serve para manipular e emudecer, abastecendo posições de mundo dominantes, mas pode ser ferramenta de mudança e democratização, quando ativada em outra direção. A campanha local e os resultados das urnas promoveram esse contramovimento, empurrando em sentido “anti-horário” as engrenagens da língua para reconhecer e visibilizar as mulheres políticas nas narrativas. Não todas, como sabemos, mas de forma suficientemente contundente a evidenciar que o apoio político-partidário real torna candidatas tão competitivas quanto qualquer candidato.</p>



<p>A presença de mais mulheres, sobretudo as negras, indígenas, PCDs, LBTs altera o ecossistema ao redistribuir poder, reconfigurando agendas, demandas e prioridades. Não é trivial. A representatividade diversa reverbera na forma como falamos e pensamos, o que por sua vez ativa novos símbolos e, num círculo positivo de transformação, amplia a semelhança entre a foto do poder e a da população.</p>



<p>Estas eleições não apresentaram a diversidade necessária, apenas as mulheres brancas, com herança política de família competiram com chances de vitória. Ainda assim, houve a mobilização de um imaginário pouco acessado pelo eleitorado, de protagonismo feminino no poder executivo, o que se via não correspondia às palavras habitualmente usadas no masculino: “os candidatos”, “os entrevistados”, “os eleitores”.</p>



<p>Já no primeiro turno, as candidaturas de Teresa leitão e Marília Arraes mantiveram liderança estável nas diversas pesquisas de intenção de voto, tendo necessariamente que ser citadas e consideradas prioritárias nas coberturas, análises sobre o pleito e nas estratégias de campanha de todas as outras candidaturas, a maioria masculinas.</p>



<p>Essa <strong>presença</strong> demandou um suave deslocamento narrativo, começando pela flexão de gênero &#8211; senadora/senador, governadora/governador, candidata/candidato – e avançando em outras searas. Para conversar sobre as eleições, eleitoras, eleitores, imprensa, equipes de campanha, analistas, instituições, todo mundo foi instado a corresponder gênero e cargo em disputa.</p>



<p>A flexão é a ponta visível de toda uma metamorfose que acontece na mente, passando por um chacoalhar das expectativas quanto à capacidade das mulheres, da ambição política de outras mulheres e meninas, de reforço à superação das desigualdades, desmonte de estereótipos e de reparação da trajetória de desvantagens que o feminino plural e o diverso enfrentam para acessar as estruturas institucionais. Falar é fazer.</p>



<p>No segundo turno, o protagonismo inevitável das duas candidatas travou a tendência da fala perspectivada no masculino. Se a disputa fosse entre uma candidata e um candidato, a força centrífuga da hegemonia social dominaria as sentenças: “os candidatos em disputa”, “eles debaterão hoje”.</p>



<p>Não houve atalho para ausentar da linguagem o marcador feminino que dominou o processo: duas mulheres em campanha pelo comando do executivo estadual, visíveis e ativas em debates públicos, explicando propostas, articulando, concedendo entrevistas, sendo as falas mais aguardadas nos espaços, notícia diária nos jornais, rádios, tvs, redes sociais, vocalizando a si mesmas como políticas, em primeira pessoa e com o próprio timbre de voz.</p>



<p>O outro lado da moeda, no entanto, indica que não estamos num novo tempo, apenas demos um passo na jornada de enfrentamento às desigualdades, lembremos que o Brasil segura a lanterna dos indicadores mundiais de representação feminina na política. Além da ausência de mulheres negras no debate, inúmeras situações preconceituosas e sexistas tiveram palco ao longo da campanha, com reforço a estereótipos e cobranças desproporcionais, desconectadas da política e nunca direcionada a candidatos.</p>



<p>Foram recorrentes as especulações em torno do uso eleitoral do infarto fulminante do marido de Raquel, patrulhamento de roupas, cabelos e estética em geral. A demanda popular incorporada nas estratégias das campanhas garantiu o lugar de esposa-mãe negritado nas posturas e nos discursos, como uma autorização social para que ambas possam estar na política, sem falar nos questionamentos sobre como se daria a licença-maternidade caso Marília, grávida, fosse eleita.</p>



<p>A postura mais contida das candidatas muitas vezes tentou neutralizar o próprio feminino, talvez como estratégia preventiva às recorrentes associações a destemperos, “agressividade”, “pouca firmeza”, muito isso, pouco aquilo, num julgamento implacável ao gênero, que pesa nos ombros de toda e qualquer mulher na cena pública, mais ainda se ela for negra, periférica, trans. E a política? vem depois do julgamento. É caro o pedágio para estar na vida pública.</p>



<p>Elas transpuseram violências intrapartidárias e inúmeras barreiras até tornarem-se “socialmente” visíveis, conquistando o direito de “existir” na correlação de forças políticas e nas referências de fala. Não aleatoriamente, e por isso mesmo a visibilidade pontual não esteve franqueada às demais. As candidatas negras, LBTs e periféricas em geral receberam menos recursos, vivenciaram mais violências, usaram menos o microfone.</p>



<p>Raquel Lyra, Teresa Leitão e Marília Arraes participaram das eleições com estrutura e financiamento, o contrário da usual prática partidária de baixíssimo apoio real às candidatas. Atuaram em posição de destaque, ocupando a mesa principal e o centro do debate público. Estiveram no poder <strong>com poder</strong>.</p>



<p>Essa diferença é premissa das cotas eleitorais de gênero e raça, exigir dos partidos candidaturas femininas diversas e competitivas – presença, recursos e visibilidade – para equilibrar minimamente a disputa desigual e superar a sub-representação. Vem daí a imensa resistência partidária em cumprir a lei: mulheres plurais competitivas são eleitas, se multiplicam e impõem a distribuição do poder político e linguístico.</p>



<p>*<strong>Juliana Romão pesquisa a interseção entre gênero, linguagem e política. Consultora em comunicação política, jornalista e mestra em Comunicação (UnB). É cofundadora e cogestora do projeto-ação Meu Voto Será Feminista, integrante da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma Política e da Frente Pelo Avanço dos Direitos das Mulheres. <a href="mailto:julianagromao@gmail.com">julianagromao@gmail.com</a></strong></p>



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		<title>A neutralidade só desequilibra para o lado dos opressores</title>
		<link>https://marcozero.org/a-neutralidade-so-desequilibra-para-o-lado-dos-opressores/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Oct 2022 21:03:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[artigo de opinião]]></category>
		<category><![CDATA[bolsonaro fascismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Jair Pereira* Mais de 33 milhões de brasileiras e brasileiros passam fome neste momento. Destes, cerca de 4 milhões estão nestas condições em Pernambuco. No Agreste, onde fica a &#8220;Caruarulândia&#8221; da candidata Raquel Lyra, os números são ainda mais graves: a maior concentração de pobres de todo Estado: 59,62%. Ou seja, de cada 10 [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Jair Pereira*</strong></p>



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<p>Mais de 33 milhões de brasileiras e brasileiros passam fome neste momento. Destes, cerca de 4 milhões estão nestas condições em Pernambuco. No Agreste, onde fica a &#8220;Caruarulândia&#8221; da candidata Raquel Lyra, os números são ainda mais graves: a maior concentração de pobres de todo Estado: 59,62%. Ou seja, de cada 10 pessoas nesta Região, seis estão abaixo da linha da pobreza.</p>



<p>Bolsonaro não inaugurou uma só universidade, nem escola técnica. Não criou nenhuma escola de ensino fundamental. Mas o país assistiu à fundação de &#8211; pasmem! -, cerca de um Clube de Tiro por dia nos quatros anos do atual governo.</p>



<p>O Brasil deve atingir 700 mil mortos de covid-19 até o final do ano. A previsão orçamentária é um corte de 45% nos recursos destinados ao tratamento de pessoas com câncer em 2023, a segunda doença que mais mata no país. O Programa Farmácia Popular, de atendimento de remédios a quem sofre de hipertensão, diabetes, asma, assim como distribuição de fraldas geriátricas, dentre outras necessidades para os que mais precisam, sofrerá redução de 59%. E outros 50% de tesoura nas verbas do Mais Médicos.</p>



<p>É nesse cenário que encontramos a justificativa da candidata Raquel Lyra (PSDB) para não declarar o seu lado. Para não declarar o seu voto. É natural que ela não tenha condições políticas de se assumir de que lado ela vai sambar no próximo dia 30.</p>



<p>A tucana incorporou a personagem de uma entidade híbrida que, a um só tempo, quer carregar virtudes de Bolsonaro (como se houvesse alguma…) e de Lula (para atrair o voto dos derrotados ressentidos do primeiro turno e dos que vacilam na hora quando se mais precisa deles pra derrotar o fascismo).</p>



<p>Mas, no fundo, o motivo desse comportamento de &#8220;Pôncio Pilatos&#8221;, é um só: todas essas distorções de prioridades públicas, todos esses cortes previstos para os mais pobres serão revertidos para atender ao escândalo do Bolsolão (o chamado Orçamento Secreto), cuja base de sustentação política está toda entricheirada no palanque da candidata tucana e de sua vice, bolsonarista de carteirinha, Priscila Krause.</p>



<p>Na luta contra as desigualdades humanas, sociais, culturais e econômicas, as chances de possibilidades de neutralidade não existem. É zero. O homem é um ser social. Seu pensamento, suas ações, atitudes, comportamentos e valores são reflexos das contradições de classes existentes. A neutralidade, frequentemente defendida equivocadamente, só desequilibra para o lado dos opressores.</p>



<p>Portanto, nas circunstâncias que estão colocadas, a disputa eleitoral em Pernambuco entre Lula e Marília Arraes, de um lado; contra Bolsonaro e Raquel Lyra, do outro lado, a neutralidade política é uma soma de mito, ilusão, ingenuidade e que resulta, inexoravelmente, em farsa.</p>



<p><strong>*Jornalista, ex-secretário de Imprensa do governo Miguel Arraes (1995-1998).</strong></p>



<p><strong>** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Marco Zero Conteúdo</strong></p>
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		<title>Escolha difícil na eleição de Pernambuco</title>
		<link>https://marcozero.org/escolha-dificil-na-eleicao-de-pernambuco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Aug 2022 18:56:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[disputa eleitoral]]></category>
		<category><![CDATA[eleição em Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[esquerda]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Carmen Silva* Foi dada a largada. A campanha eleitoral está nas ruas. Mas ainda não pegou pique e nem volume. Depois de quase três anos de vida em pandemia, seis anos pós golpe parlamentar misógino contra a presidenta Dilma Roussef, passando pela prisão do presidente Lula, estamos na expectativa ainda que a campanha se [&#8230;]</p>
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<p><strong>Por Carmen Silva</strong>*</p>



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<p>Foi dada a largada. A campanha eleitoral está nas ruas. Mas ainda não pegou pique e nem volume. Depois de quase três anos de vida em pandemia, seis anos pós golpe parlamentar misógino contra a presidenta Dilma Roussef, passando pela prisão do presidente Lula, estamos na expectativa ainda que a campanha se agigante em mobilização popular. Com o começo dos grandes comícios semana passada e as entrevistas na emissora prateada por estes dias, se imagina que vai começar a esquentar. Enquanto isso, em Pernambuco, o embate segue nas mídias, reuniões, e tímidas bandeiras tremulando nos semáforos.</p>



<p>O volume de campanha não é apenas uma produção mercadológica. Historicamente tem muito a ver com adesão popular. E mais ainda, com o peso dos movimentos sociais e partidos de esquerda que tinham/têm atuação militante. Para crescer é preciso mais que pessoas pagas nas esquinas segurando bandeiras ao mesmo tempo em que olham o celular, é preciso a força viva do desejo de mudança que a militância tem e se expressa em número de pessoas nas ruas, em adereços nos carros e bicicletas, em camisetas estampadas no peito, em postagens espontâneas nas redes sociais e mais uma serie de manifestações. Esta semana que se inicia irá ser palco do crescimento deste desejo.</p>



<p>É preciso eleger Lula com uma grande campanha de rua, que paute no debate o projeto de bem viver para as maiorias deste país, e que encerre o jogo no primeiro turno. Isso pode acontecer e permitirá que a sua força, ao governar, seja maior. Embora as alianças construídas não sejam politicamente confortáveis para as pessoas de luta, é preciso agarrar esta possibilidade de imprimir uma forte derrota ao bolsonarismo miliciano e fundamentalista.</p>



<p>Além de garantir a vitória de Lula, ao mesmo tempo, as ruas e as redes são o espaço para construir uma grande bancada de esquerda no Congresso Nacional, o que não está fácil. As candidaturas proporcionais, por mais fortes e aguerridas que sejam, precisam de candidaturas majoritárias que puxem a campanha para cima, dando volume e consistência programática. Lula não pode ser o único puxador, até porque ele virou uma espécie de salvação nacional, ao qual todo mundo pode aderir.</p>



<p>Em Pernambuco o cenário eleitoral está muito complexo. Não represento aqui uma visão de conjunto da militância de esquerda, libertária, autônoma, de movimentos sociais e de partidos que se afinam com ela. Quero expressar, entretanto, a partir do lugar de militante feminista, um sentimento que chega a mim de vários coletivos que lutam por direitos e pessoas conscientes e preocupadas com os rumos das eleições em nosso estado, especialmente as majoritárias, mas sabendo que elas podem ter forte impacto sobre as proporcionais.</p>



<p>Tudo indica que a composição da chapa da maioria do eleitorado, considerando o voto para as majoritárias e para as proporcionais, não siga critérios programáticos e/ou partidários muito coerentes. Nem mesmo a votação da militância de esquerda, que é objeto desta reflexão aqui. Muita gente está compondo seu voto misturando partidos de direita, de centro e de esquerda, porque as ofertas também não estão muito coerentes e ai muitos se fixam nas trajetórias individuais de cada candidatura, o que, por sua vez, rebaixa o debate programático.</p>



<p>As candidaturas majoritárias para Senado e Governo do Estado têm um espectro político amplo, mas numericamente muito masculino e fortemente marcado pelas heranças familiares de poder, que são constantes no nosso sistema político nada afeito à renovação e à juventude. Para o Senado da República a escolha é mais simples. Temos duas candidaturas de mulheres de esquerda representativas de nossas pautas, da luta sindical e da cultura. Teresa Leitão, pelo PT, e Eugenia Lima, pelo PSOL, são possibilidades para a escolha de quem quer fortalecer os rumos da retomada de direitos em nosso país. As possibilidades de vitória hoje se apresentam mais para uma do que para outra, até porque são trajetórias políticas e leque de alianças muito diferentes. Todavia, vencer ou marcar posição pelo voto é uma definição que só existe na reta final da campanha.</p>



<p>Para o Governo do Estado, temos uma miríade de candidaturas que vai da extrema direita bolsonarista até aos partidos que se postam à esquerda de Lula, porém nenhuma daquelas que hoje aparecem com possibilidades de vitória defendem historicamente as pautas feministas populares. A maior tarefa nesta eleição em Pernambuco é combater o inimigo principal, impedir que aqui se fortaleça, com o governo, o bolsonarismo que queremos extirpar de nossa vida nacional. Daí, que um bom critério para escolha de candidata ou candidato a governador/a é o apoio a Lula para presidente da República. Mas, desta vez, muita gente apoia Lula.</p>



<p>Nas pesquisas de intenção de voto temos duas candidaturas de mulheres à frente, uma com larga vantagem e a outra variando entre segundo e terceiro lugar, em diferentes levantamentos de opinião. Isso poderia ser motivo de alegria para o movimento feminista, mas não é. Como já disse na quinzena anterior, representatividade importa, mas não é tudo. É preciso compromisso programático com nossas causas, e isso se faz ao longo de uma carreira política e não apenas no momento eleitoral. Ainda mais quando se faz questão de manifestar-se publicamente contra a legalização do aborto, sendo o aborto a principal causa de morte materna e sua criminalização um dos principais mecanismos legais de controle patriarcal sobre o corpo das mulheres.</p>



<p>Existe a hipótese de, em Pernambuco, a eleição para governo ser definida no primeiro turno. Mas é improvável. Existem cinco candidaturas fortes na disputa, entre as quais, uma à frente com largueza, o que garante a ida para o segundo turno, e quatro emboladas disputando segundo lugar, entre elas o candidato oficialmente apoiado pelo presidente Lula, mas que carrega nas costas os anos de domínio do seu partido no estado de Pernambuco e seu descaso com a vida do povo, além do seu próprio clamor entusiasta no momento do golpe de 2016. Claro que o chamado ‘peso da máquina’ e o apoio de Lula podem alavancar esta candidatura, mas, sem dúvida, a disputa irá para o segundo turno.</p>



<p>Pensando que a eleição para governo é em dois turnos, talvez a escolha seja mais fácil. Sim, porque o voto no primeiro turno pode ser mais de acordo com suas convicções políticas, com partidos e/ou visões de mundo que te interessa fortalecer na democracia brasileira. É aí que as candidaturas mais à esquerda podem crescer. Mas isso depende da capacidade de articulação e do fomento ao debate programático, construído a partir das pautas das lutas sociais. O discurso indiferenciado e insosso é o maior adversário deste campo político. Das posições programáticas adotadas depende o crescimento ou não das campanhas de esquerda para o Governo do Estado, mas sem esperança que uma delas chegue ao segundo momento da disputa.</p>



<p>No segundo turno, ocorrem novas composições político partidárias, e é possível configurar um novo espectro político nas candidaturas em disputa. O voto da militância de esquerda pode ir para aquela candidatura que apoiou Lula no primeiro turno. Na hipótese das duas terem feito isso, pode ir para a candidatura que o apoiou desde sempre. Parece apenas um jogo de palavras, mas pode ser uma estratégia para definições individuais e/ou para a escolha política de coletivos e movimentos que têm disposição para entrar na campanha eleitoral, contribuindo com esse momento histórico.</p>



<p>* <strong>Carmen Silva é socióloga, constrói o SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia, é militante do Fórum de Mulheres de Pernambuco e da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político.</strong></p>



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