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	<title>Arquivos empoderamento - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Mon, 08 Jun 2026 15:13:13 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos empoderamento - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>A poupança que junta gente: o movimento das mulheres que transformou a Ilha de Deus</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Jun 2026 19:45:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[empoderamento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O ano era 2008 e a comunidade pesqueira de Ilha de Deus vivia a efervescência de um processo de urbanização verdadeiramente participativo. A luta e a união da comunidade geraram uma promessa de campanha em 2006 do então candidato Eduardo Campos: transformar as precárias palafitas daquela área de estuário em uma vila com saneamento básico, [&#8230;]</p>
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<p>O ano era 2008 e a comunidade pesqueira de Ilha de Deus vivia a efervescência de um processo de urbanização verdadeiramente participativo. A luta e a união da comunidade geraram uma promessa de campanha em 2006 do então candidato Eduardo Campos: transformar as precárias palafitas daquela área de estuário em uma vila com saneamento básico, serviços públicos e moradias dignas. Entre as muitas reuniões e encontros que aconteciam naquela época, uma atraiu as então pescadoras e donas de casa Elivânia Rocha e Maria de Fátima da Silva. Seria uma reunião fechada para organizações e coletivos que atuavam na comunidade, mas elas foram mesmo assim.</p>



<p>Lá, foi apresentado um projeto de empoderamento feminino e de gestão financeira que não interessou a nenhuma das organizações presentes naquela reunião. Mas fez os olhos das duas mulheres brilharem. “Na reunião tinha um rapaz de São Paulo que participava de uma poupança comunitária, então quando ele falou sobre como a comunidade se organizava para poupar, eu pensei: &#8216;e por que a gente não traz para a nossa comunidade?'&#8221;, lembra Elivânia.</p>



<p>Surgia assim a Poupança Comunitária da Ilha de Deus, a primeira experiência do tipo em Pernambuco. As atividades não começaram envolvendo diretamente dinheiro. Primeiro, as mulheres fizeram um censo na comunidade. </p>



<p>Cercada pela água dos manguezais, de três rios e do mar da Bacia do Pina, a Ilha de Deus tem apenas um acesso por via terrestre – a ponte Vitória das Mulheres, inaugurada em 2009. Mesmo sendo uma área pequena, de cerca de 10 hectares na parte urbana, as futuras tesoureiras encontraram muitos moradores que haviam ficado de fora do cadastro da prefeitura do Recife. “A gente achava que conhecia o vizinho do lado. Mas a partir desse censo, a gente pôde se conhecer melhor, conhecer o nosso território, as nossas reais necessidades. Muitas famílias não iam receber casas, mas acabaram ganhando lugar onde morar graças ao nosso censo”, relembra Maria de Fátima.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ilha-de-deus-2.jpg" alt="A imagem mostra uma vista aérea da Ilha de Deus, uma comunidade ribeirinha localizada no Recife. Em primeiro plano, há uma praça circular com um mosaico colorido no chão, formado por triângulos em tons de vermelho, amarelo, verde e azul, lembrando uma flor ou um sol. No centro da praça, ergue-se um mastro de bandeira, e ao redor há degraus concêntricos que formam uma espécie de anfiteatro. À esquerda e ao fundo, vê-se um conjunto de casas simples com telhados de barro e paredes pintadas em cores variadas — azul, branco, bege — cercadas por árvores e vegetação. O céu está azul e repleto de nuvens brancas, e ao longe, na linha do horizonte, aparece o perfil moderno da cidade do Recife, com seus prédios altos contrastando com o ambiente mais tradicional e tranquilo da comunidade." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">A poupança comunitária ajudou a mudar a ilha desde que foi criada
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Com esse mapeamento da população, chegou a hora de entrar em campo para fazer com que as pessoas poupassem. Com cerca de 1,1 mil moradores em dados oficiais, as lideranças do projeto calculam que pelo menos 300 pessoas já foram poupadoras em algum momento. Qualquer pessoa da comunidade pode abrir uma caderneta, depositando o valor que quiser. O depósito é feito diretamente com uma das tesoureiras: cada um fica com um caderno onde os repasses são anotados.</p>



<p>“A gente sempre estimula que as pessoas façam também cadernetas coletivas, para juntar dinheiro para um objetivo em comum”, conta Maria de Fátima. Antes de entrar no grupo, cada poupador define um objetivo. Os mais frequentes são reformar a casa, fazer uma festa para o filho, comprar um eletrodoméstico, adquirir um barco. “Quando alguém vem sacar o dinheiro para outra coisa, a gente sempre lembra e reforça que estão poupando para um objetivo. Quando a Ilha de Deus não era urbanizada, muitos poupavam para ajeitar a casa, botar uma cerâmica, comprar algum móvel. Esses eram as metas mais comuns. E, quando eles vinham retirar o dinheiro, a gente dizia para esperar mais um pouquinho, não gastar e focar no objetivo”, lembra Elivânia.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Poupar para fortalecer vínculos</span>

		<p>A poupança comunitária nasceu na Índia nos anos 1970, a partir de um grupo de mulheres de baixa renda que viviam em condições precárias e sofriam ameaças de despejo. Elas decidiram juntar o pouco dinheiro que sobrava do dia a dia para formar um fundo coletivo. Com ele, conseguiram construir suas próprias casas – priorizando as que estavam em situação de maior vulnerabilidade.</p>
<p>O modelo atravessou fronteiras e chegou ao Brasil disseminado pela Slum Dwellers International (SDI), organização presente em 33 países da África, Ásia e América Latina, formada por uma rede de entidades da sociedade civil e iniciativas populares baseadas na autogestão.</p>
<p>No Brasil, a metodologia é representada pela Rede Interação, associação sem fins lucrativos fundada em 2004 em São Paulo, que já atuou em mais de 70 cidades em 18 estados. Foi por meio dessa rede que a poupança comunitária chegou à Ilha de Deus, em Recife, em 2008, trazida por Lúcia Siqueira, coordenadora da Rede Interação no Recife, que conhecia lideranças locais envolvidas no processo de urbanização da ilha.</p>
<p>Segundo a Rede Interação, a poupança tem dois propósitos centrais: melhorar a gestão financeira individual e coletiva e, principalmente, construir relações de confiança e fortalecer vínculos dentro da comunidade. “Não é um projeto, mas um processo. A metodologia que trabalhamos com organização comunitária é apoiada em um tripé com poupança comunitária, intercâmbios e autorrecenseamento”, explica Lúcia. “Eu acredito muito nessa metodologia. Primeiro, porque não personifica em uma liderança só, tem como base a organização comunitária. E não é um projeto pontual, é algo que coloca o protagonismo nas mulheres, que eram donas de casa e aos poucos foram se empoderando”, afirma a coordenadora.</p>
	</div>



<p>O dinheiro é depositado pelas tesoureiras em uma conta não solidária da Caixa Econômica Federal, que é uma conta conjunta que exige a assinatura de todos os envolvidos para fazer a retirada do dinheiro. Assim, quando um poupador avisa que pretende sacar o dinheiro que juntou, é preciso que as três tesoureiras do grupo compareçam juntas ao banco.</p>



<p>É um mecanismo que ajuda a evitar compras por impulso, ainda mais quando se leva em conta o índice de endividamento de 80,2% das famílias brasileiras registrado em março de 2026, o maior da série histórica iniciada em 2010, segundo a Confederação Nacional do Comércio. “Tem gente que tem cartão de crédito e pede para abrir uma poupança porque sabe que aqui consegue juntar o dinheiro”, conta Ana Mirtes Ferreira. “Essa exigência também ajuda as pessoas que já estão viciadas nesse negócio de jogo de tigrinho e nessas bets a economizar alguma coisa”, diz Fátima.</p>



<figure class="wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="ratio ratio-16x9"><iframe title="A poupança que junta gente: o movimento das mulheres que transformou a Ilha de Deus" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/QU9KVJXnAKY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading">Poupança ajuda a realizar sonhos</h2>



<p>Na Ilha de Deus, a maioria da população está envolvida de um jeito ou de outro com a pesca. A compra de um barco significa independência e a possibilidade de fazer um dinheiro rápido e certo. &#8220;Tem pessoas que têm cursos técnicos, formações de grau superior e, mesmo assim, pescam. A maré dá essa estabilidade para o pescador de fazer o seu horário, de não ter necessidade de bater ponto, nem de dar satisfação a ninguém”, diz Fátima.</p>



<p>Mãe solo de quatro filhos, Noêmia Fernandes dos Santos passava os dias nas águas da bacia do Pina e do porto do Recife. Ia em busca do sururu, que por tantos anos sustentou a família dela e de tantas outras mulheres da comunidade, mas lida diária era prejudicada por não ter um barco próprio: um balde de sururu ou marisco era usado como pagamento para o usar o barco dos outros.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ilha-de-deus-1.jpg" alt="A imagem mostra uma cena tranquila à beira de um rio, onde um homem e uma criança observam um pequeno barco que navega lentamente pela água. O homem está de pé, descalço, usando uma camiseta vermelha e preta com o número 7 nas costas, um chapéu azul e segurando um galão azul na mão direita. Ao seu lado, a criança está sentada, vestindo uma camiseta colorida com números e letras e um chapéu de aba larga. No fundo, o barco de madeira leva duas pessoas — uma de camisa cinza e outra de camisa rosa — enquanto a margem oposta é coberta por vegetação verde e densa, provavelmente um manguezal. A cena transmite calma e simplicidade, como um momento cotidiano de contemplação entre o adulto e a criança diante do movimento sereno do rio." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Possuir um barco significa a garantia de autonomia para quem vive da pesca
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>“Com muita dificuldade, fui economizando pouco a pouco, a poupança me ajudou a ter meu próprio barco. Confesso que foi muito difícil, porque criei quatro filhos sozinha, sem ajuda de ninguém”, conta Noêmia. “A minha trajetória de economizar meu trocado para fazer um barco para mim serviu para incentivar outras mulheres a economizarem também”, diz ela, que, em 2012, se tornou uma das tesoureiras do projeto. “Já teve muitas mulheres que pouparam comigo. Umas fizeram barco, outras construíram um muro ou reformaram a casa”.</p>



<p>Para ela, a poupança comunitária transformou mais do que a parte financeira. &#8220;Antes da poupança eu era dona de casa, pescadora, não participava de nada, não tinha vez e voz para nada. Quando comecei a formar grupos de poupança, veio fortalecimento tanto para mim como para outras mulheres”, reforça.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Da Ilha de Deus para o mundo</strong></h2>



<p>As líderes da poupança comunitária já fizeram intercâmbios em vários países, como Bolívia, África do Sul, Filipinas e Índia, para conhecer como funciona a poupança nesses países e trazer novas experiências para a Ilha de Deus. São lugares em que a vida é ainda mais difícil do que na Ilha de Deus – onde quase todo mundo tem casa de alvenaria com saneamento básico, há creche e posto de saúde para atender a comunidade.</p>



<p>Quando Fátima foi visitar a Índia, conheceu mulheres que faziam grupos de poupança para construir banheiros nas casas delas. “Elas poupam também para alimentação, para fazer sua moradia. Quando fui para a Índia, o que mais me interessou é que muitas delas não sabiam ler nem escrever, então usavam os lenços delas para usar como medida, no lugar da fita métrica, nas construções que faziam”, lembra a líder comunitária. “Muitas poupavam também para comprar comida em grande quantidade e, assim, economizar”, acrescenta.</p>



<p>Na Ilha de Deus, as necessidades também não são as mesmas de 18 anos atrás. Antes e durante a urbanização, que foi entregue em três etapas, fazer reformas e reparos nas casas eram os principais objetivos. Isso mudou com a entrega das casas aos moradores. “Em países como a Índia não existem as políticas públicas que a gente tem aqui, como habitação, benefícios sociais como o Bolsa Família, escola pública para todo mundo. Então lá as mulheres têm mais necessidades e levam mais a sério o hábito de poupar, porque eles poupam para construir, para educação. Aqui, com as melhorias que tivemos, já se poupa para algo individual”, compara Mirtes.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O futuro da poupança comunitária</h3>



<p>Na terceira vez que foi para a África do Sul, Fátima não viajou sozinha. Ao lado dela foram quatro jovens de outras comunidades do Grande Recife: Ilha de Deus, Caranguejo Tabaiares, Afogados e Tururu, em Paulista. Lá, conheceram experiências de jovens que se juntavam e poupavam um dólar por semana para produzir vídeos de conscientização sobre a importância da reciclagem, por exemplo.</p>



<p>A poupança jovem é vista pelas mulheres como uma forma de mobilizar o futuro da Ilha de Deus e fomentar novas lideranças. “Trabalhamos com temáticas. Por exemplo, pegamos o tema do direito da juventude e levamos os adolescentes para participar de fóruns da juventude, seminários, tudo voltado para que eles possam entender que existe uma lei que assegura os direitos da juventude na cidade do Recife. Os jovens começaram a se interessar e foram convidando um amigo, convidando outro e assim está crescendo”, diz Mirtes.</p>



<p>O tema das mudanças climáticas também é forte nas ações da Poupança Comunitária. “Não é só sobre dinheiro. O nosso objetivo principal é juntar as pessoas, formar novas lideranças. Mobilizar a comunidade para pensar sobre o futuro, pensar em modificar a nossa realidade juntos. Para a gente, é de extrema importância trabalhar com a juventude, porque eles darão continuidade a essa mobilização. O nosso trabalho não vai parar, nem vai morrer com a gente”, afirma Mirtes.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Quem quiser apoiar as ações da Poupança Comunitária pode fazer uma doação via Pix: <a class="underline underline underline-offset-2 decoration-1 decoration-current/40 hover:decoration-current focus:decoration-current" href="mailto:noemiafsantoslinda@gmail.com">noemiafsantoslinda@gmail.com</a></p>
        </div>
    </div>
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		<title>“Tecendo o futuro com as próprias mãos”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Jun 2025 22:35:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[artesanato]]></category>
		<category><![CDATA[Casa de Maria]]></category>
		<category><![CDATA[empoderamento]]></category>
		<category><![CDATA[empreendedorismo]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O que tem em comum entre uma bolsa de palha de carnaúba trançada em Cabreiro de Cima, distrito de Aracati (CE), e uma bolsa de crochê produzida na Casa de Maria, em Jaboatão dos Guararapes (PE)? Além de belíssimas, as duas peças são exemplos de como o trabalho manual, aliado a uma boa dose de [&#8230;]</p>
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<p>O que tem em comum entre uma bolsa de palha de carnaúba trançada em Cabreiro de Cima, distrito de Aracati (CE), e uma bolsa de crochê produzida na Casa de Maria, em Jaboatão dos Guararapes (PE)? Além de belíssimas, as duas peças são exemplos de como o trabalho manual, aliado a uma boa dose de empreendedorismo, vem gerando renda e empoderando dezenas de mulheres brasileiras.</p>



<p>São duas realidades bem diferentes uma da outra, mas, ao serem mostradas e colocadas lado a lado, elas se somam e ajudam a pintar um quadro mais completo da potência transformadora do artesanato no Brasil. Estamos falando de Aracati e seu entorno e da Casa de Maria, mas poderia ser de qualquer outro lugar do país.</p>



<p>Vamos começar a história por Cabreiro de Cima, ou melhor, por Natália Sena Costa. Nat, como é mais conhecida, tem trinta anos e trabalha com palha há sete, incentivada pela tia Socorro Saboia, 62 anos, que, por sua vez, aprendeu o ofício com a mãe. Como muitas das meninas da região, começou fazendo descanso de panela e depois passou para bolsas e cestos que são peças mais elaboradas. Tudo feito com palha de carnaúba, palmeira-símbolo do Ceará e principal matéria-prima para o artesanato da região.</p>



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	                                        <p class="m-0">Nat, a sócia Vanessa e tia Socorro. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O que diferencia Nat da maioria das mulheres que fazem trabalho com palha é a visão empreendedora. Antes do artesanato, ela já era ativa no Instagram, com uma conta sobre autoaceitação de pessoas com deficiência. Aqui cabe uma explicação: Natália nasceu com uma malformação na coluna vertebral chamada de escoliose. Em 2018, ela levou a experiência digital para o artesanato e abriu uma loja virtual. “Pesquiso tudo no Instagram. Sou muito curiosa. Aprendi sobre tráfego pago e estou usando. As vendas cresceram muito.”</p>



<p>Nat é uma influenciadora do bem. Somando seu perfil pessoal (<a href="https://www.instagram.com/costa_natt/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">@costa_natt</a>) e o profissional (<a href="https://www.instagram.com/natartartesanato/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><a href="https://www.instagram.com/natartartesanato/#">natartartesanato</a></a>) já está batendo os 100 mil seguidores. Mas ela não ficou apenas no “virtual”. “Com a paixão pelo artesanato e a vontade de empreender, decidi reunir as mulheres artesãs da minha família e criar a empresa Nat Art Artesanato em novembro de 2018. Minha primeira venda em atacado foi no mês seguinte”.</p>



<p>Natália começou seu negócio muito mais na intuição. “Comecei sem plano nenhum e ao longo dos meses as vendas foram aumentando”. Mas ela viu que só intuição, talento e boa vontade não seriam suficientes. Foi aí que resolveu investir em formação profissional. Fez vários cursos, entre eles o Empretec, uma metodologia criada pela ONU, oferecida pelo Sebrae no Brasil, com o objetivo de desenvolver o comportamento empreendedor e identificar novas oportunidades de negócio. Deu certo. “Já vendi para todos os estados do Brasil”.</p>



<p>Tudo isso fez de Nat um exemplo. “Meu trabalho incentiva outras mulheres com deficiência. Mas ainda há preconceito: por ser do interior, por ser deficiente. Sempre me perguntam se tenho capacidade de entregar.”</p>



<p>Vanessa da Silva Barbosa, 18 anos, é parceira de Nat nas vendas e produção. Desde os 12, trabalha com customização de palha. As duas formam uma dupla inseparável. Vanessa vê no artesanato uma forma de garantir renda e manter os laços com sua história.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Laços de palha e amizade</strong></h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Retrato das tardes de trançar palha e bater papo na casa de Santinha. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Natália é o que se pode chamar de “caso de sucesso”. Mas, como ela, existem milhares de mulheres que são responsáveis pela região do baixo Jaguaribe ser reconhecida pela excelência do artesanato feito com palha de carnaúba, técnica passada de geração em geração, com beleza, saber e resistência.</p>



<p>Na comunidade de Tabuleiro do Luna, em Itaiçaba (CE), por exemplo, a força da tradição se entrelaça com os fios da amizade. Francisca da Silva dos Santos, 75 anos, é uma referência pela qualidade do seu trabalho, bom humor e espírito agregador. Junto com outras nove mulheres, Santinha, como é conhecida, forma um grupo que produz de maneira compartilhada: cada uma é especialista em um ponto ou etapa. “Somos amigas desde os anos 1970.” Estão no grupo Rita Araújo (81), Ocirema Rodrigues (60), Maria de Lurdes (65) e seu marido Aluísio de Lima (74, que costura as esteiras), e Maria do Carmo Araújo (57), filha de dona Rita.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><em>O litoral leste do Ceará e o Baixo Jaguaribe — que inclui municípios como Aracati, Itaiçaba, Palhano, entre outros — é marcado por paisagens de carnaubais, mangues e dunas, com comunidades rurais e pesqueiras espalhadas entre vilarejos e zonas urbanas. Nessas áreas, o artesanato com palha de carnaúba é uma prática tradicional, especialmente entre as mulheres, unindo saberes transmitidos por gerações ao uso sustentável dos recursos naturais, e representando uma importante fonte de identidade e renda para a população local.</em></p>
        </div>
    </div>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-11-1024x683.jpg" alt="Francisca da Silva dos Santos, Santinha. Artesã de palha de carnaúba" class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Santinha e as tranças de carnaúba. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/MZ</span>
                                    </figcaption>
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<p>Santinha aprendeu a arte com a mãe e a avó. “As coisas que elas faziam eram mais simples&#8230; chapéus grosseiros. A inovação chegou e melhoramos o trabalho.” Ela nunca trabalhou em uma empresa. Construiu sua casa e criou os 12 filhos com a renda da palha. “Só um ainda trabalha com isso, cortando palha.” E lamenta: está cada vez mais difícil conseguir matéria-prima.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Da pintura ao banquinho de bode</strong></h2>



<p>Para que a bolsa, aquela que falamos no início da reportagem, faça sucesso no Instagram e nas lojas especializadas, existe antes uma cadeia de produção.</p>




	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Como a palha vira ouro</span>

		<p><strong>Matéria-prima:</strong></p>
<ul>
<li>Utiliza-se a folha da carnaúba, conhecida como “olho da carnaúba”.</li>
</ul>
<p><strong>Secagem:</strong></p>
<ul>
<li>A folha é colhida e passa por um processo de secagem ao sol que dura até 4 dias.</li>
</ul>
<p><strong>Riscagem:</strong></p>
<ul>
<li>Após a secagem, a artesã usa uma pequena faca para “riscar” o olho da carnaúba.</li>
<li>Nesse processo, separa-se o “lombo” da palha, parte que dá volume e estrutura à peça.</li>
</ul>
<p><strong>Armazenamento:</strong></p>
<ul>
<li>A palha é guardada em local arejado.</li>
</ul>
<p><strong>Preparação para uso:</strong></p>
<ul>
<li>Antes de ser trabalhada, a palha é umedecida com um pano para ficar mais maleável.</li>
</ul>
<p><strong>Confecção da peça:</strong></p>
<ul>
<li>A artesã inicia a criação usando pontos abertos e fechados.</li>
<li>Quando necessário, utiliza-se uma forma de madeira como molde para garantir o formato desejado.</li>
</ul>
	</div>



<p>Outro trabalho importante é a pintura das palhas. Em Itaiçaba, apenas três mulheres fazem esse trabalho de forma mais sistemática. Uma delas é Maria Lúcia Barbosa, 66 anos, que aprendeu a pintar palha observando a vizinha pela cerca no seu quintal. “O pacote de corante custa R$ 7 e pinta 75 olhos de palha. Preto e verde musgo são os que mais saem.”</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-6-300x225.jpg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-6-1024x768.jpg" alt="Maria Lúcia Barbosa artesã" class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Maria Lúcia tingiu a palha para que a reportagem conhecesse o processo. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Ela vende cada olho de palha pintado por R$ 3. O preço fica por R$ 2,50, se a palha for da cliente. Pinta cerca de 150 olhos por mês. “Trabalho quieta, mas firme. Tenho um casal de filhos.”</p>



<p>Já Iracema Maria de Lima, 51 anos, brinca dizendo que trabalha com palha desde “dentro da barriga da mãe”. Começou com camisa de litro, peça que veste as garrafas decorando-as, passou 15 anos em Petrópolis (RJ), mas voltou para casa. Hoje, faz roupas de palha e banquinhos em forma de bode e jumento. Peças únicas. Mora com a mãe, o marido e o filho de 14 anos. “É difícil fazer e nem sempre as pessoas dão valor.” Venceu três vezes o tradicional concurso de artesanato da festa da Pescaria da cidade, no Sete de Setembro.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Iracema e sua mãe, artesãs. Crédito: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Esvaziamento de uma tradição</strong></h2>



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	                                        <p class="m-0">Viveiro de camarão no distrito de Cabreiro de Cima, Aracati. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>A palha de carnaúba não é só matéria-prima. É símbolo de pertencimento e sobrevivência. Seu ciclo envolve cuidado com a natureza, técnica apurada e um olhar coletivo. É uma economia de afeto, saber e resistência, exatamente o oposto da carcinicultura, atividade econômica que se expande velozmente na região. Neste contexto, o aumento de áreas para criação de camarões tem provocado impactos negativos cada vez maiores na cadeia produtiva do artesanato local.</p>



<p>A principal preocupação, a mais visível e mensurável também, é a destruição de áreas naturais onde crescem as carnaubeiras, convertidas em fazendas de camarão. Como essas plantações exigem grandes extensões de terra e água, há uma redução nas áreas disponíveis para o cultivo e coleta da palha, essencial para a produção artesanal. Além disso, alterações ambientais provocadas pela atividade, como a poluição da água e perda de biodiversidade, também comprometem a qualidade da matéria-prima.</p>



<p>Outro efeito significativo da carcinicultura é a mudança na dinâmica econômica local. Com a promessa de empregos e lucros rápidos, a criação de camarões atrai investimentos e mão de obra que antes estavam ligados ao artesanato. Isso provoca um esvaziamento do setor artesanal, reduzindo a produção de peças em palha de carnaúba e enfraquecendo a cultura local. A longo prazo, esses impactos colocam em risco tanto o sustento de artesãos quanto a preservação desse saber tradicional.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-8-1024x683.jpg" alt="Artesanato como meio de mudança de vida das mulheres" class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Cerzina mostrando o trançado das bolsas de carnaúba. Crédito: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Cerzina Ferreira da Silva, presidente da <a href="https://www.instagram.com/arti.itaicaba/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Associação das Mulheres Artesãs</a>, que já teve mais de 200 integrantes, hoje conta com apenas cerca de 60 participantes ativos, fala das dificuldades que se acumulam: a redução das áreas de carnaubeira, a perda de qualidade da água e o desinteresse da juventude.</p>



<p>“De janeiro até maio, junho, por conta das chuvas, as famílias artesãs sofrem muito. As palhas mofam e o valor cai”, explica Cerzina. “É mais fácil um jovem ser vigia de um viveiro de camarão do que ir trabalhar com artesanato.” Além dos desafios materiais, há um sistema de exclusão mais profundo. “O sistema que está por trás disso tudo não deixa a gente crescer”.</p>



<p>“Aqui era cheio de carnaubeira. No caminho para Aracati era tudo carnaúba. Agora é só viveiro de camarão. Esculhambou o rio, esculhambou as carnaúbas, esculhambou tudo”, resume Dona Raimunda Ferreira, mãe de Cerzina.</p>



<p>O ex-secretário de agricultura Raimundo Nonato, 56 anos, conhece de perto esse cenário. Ele pagou os estudos com a renda do artesanato feito com a mãe. Formado em contabilidade e administração, teme que o saber que moldou sua trajetória desapareça. “Daqui uns dez anos, tenho medo que o artesanato com palha de Itaiçaba se acabe.”</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>OURO FEMININO</strong></h2>



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	                                        <p class="m-0">Aula de macramê na Casa de Maria. Crédito: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
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<p>Lembra a história de Santinha e suas amigas criando juntas peças de palha de carnaúba lá em Itaiçaba? Pois bem, em Pernambuco, mais especificamente em Jaboatão dos Guararapes, a lógica é a mesma. Aqui os nós do empreendedorismo já foram desatados, e, como nos pontos de macramê e de crochê, a <a href="https://www.instagram.com/projetocasademaria/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Casa de Maria</a> junta sempre o criar e empreender na mesma peça. A frase na entrada da sede do projeto resume o espírito do lugar: “Tecendo o futuro com as próprias mãos”.</p>



<p>Primeiro, é preciso entender o que é o projeto. A <a href="https://www.instagram.com/projetocasademaria/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Casa de Maria</a> nasceu, em 2017, a partir do compartilhamento de conhecimento de crochê entre as mães que aguardavam seus filhos atendidos pelo <a href="https://www.instagram.com/projetoariasocial/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Ária Social</a>. A ideia foi reconhecida e abraçada por Cecília Brennand, presidenta do Ária, que de imediato promoveu a profissionalização de artesãs, gerando renda através do empreendedorismo social. O nome vem da junção do “M” de mãe com o “aria” do projeto inicial, resultando em Maria.</p>



<p>Atualmente são atendidas 140 mulheres, divididas em cinco oficinas: macramê, crochê, amigurumi, tecelagem de jornal e costura. E não é só isso. A busca pela excelência é constante, está presente em todas as etapas da formação e na produção das peças para as coleções que são comercializadas nas <a href="https://projetocasademaria.com/?fbclid=PAZXh0bgNhZW0CMTEAAafHNqTd2Ch3UlFQhQHqoDckcd3Rxjh0uAAjQ0B8Lt9u5Jksr47QKANbo2Ts-Q_aem_ks9GBHl6CTvHEQf6I3vqrg" target="_blank" rel="noreferrer noopener">lojas do projeto</a>. Já passaram pela Casa designers renomados como Sérgio Matos e Luly Vianna, criando coleções com várias técnicas.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Inês fazendo o protótipo de uma bolsa. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
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<p>Maria Inês Costa Silva, é uma das responsáveis pela produção de bolsas em material sintético na Casa de Maria. “Eu tenho a responsabilidade de criar ou de tirar do desenho as peças, a gente recebe visitas de designers, pessoas que criam peças em desenhos, e eu sou responsável por tirar esse desenho do papel”, explica.</p>



<p>Ela participa do projeto desde 2016, quando acompanhava uma prima. “Eu aprendi a fazer crochê e passei a ensinar o que eu aprendi. Depois, Sérgio Matos chegou e trouxe também uma outra técnica, que a gente batizou de Sérgio Matos, porque a gente não sabe exatamente o nome”.</p>



<p>Inês afirma, com convicção, que a entrada no projeto transformou sua vida. “Mudou muito. Antes eu trabalhava como operadora de telemarketing. Gosto de estar aqui por conta da variedade de coisas que a gente consegue fazer. Não fico presa apenas a uma coisa. O tempo todo chega gente com ideias novas, com produtos novos.”</p>



<p>Gilliane da Silva Torres Lins, que está no projeto há sete anos, desde que sua filha começou a fazer aulas de balé, violão e dança contemporânea. “Comecei na Casa de Maria fazendo os cursos. Já fiz de tecelagem. Depois, fiz de macramê. E, agora, faço parte da equipe de produção de macramê da Casa. Faço a bolsa Freda que é toda em macramê com fio sintético. É uma bolsa que leva uns quinze dias para ficar pronta”, diz orgulhosa.</p>



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	                                        <p class="m-0"> Gilliane e a bolsa Freda. Na Casa de Maria o nome de todas as peças homenageiam mulheres. Crédito: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
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<p>Sempre tem novidade. “É muito bom o que acontece aqui, porque assim, além da gente aprender sempre uma coisa diferente, tem a socialização com as outras mães, a gente conversa bastante, aí uma vai ensinando pra outra, é um momento de descontração, de aprendizado, é um convívio muito bom”, complementa.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-artesanal-na-Casa-de-Maria_-9-1024x683.jpg" alt="Tatiana Lúcia da Silva aluna de crochê da Casa de Maria" class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Tatiana mostra suas ferramentas de trabalho. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>A transformação é profunda e, na maioria das vezes, rápida. Se Gilliane está há sete anos, Tatiana Lúcia da Silva, por exemplo, entrou no ano passado. “Minha filha tem 10 anos, faz balé, teatro e toca flauta. E, eu aprendi crochê do zero. Nunca peguei em uma agulha e hoje faço vários modelos de Amigurumi. Faço as peças da Casa de Maria e ainda faço peças para vender na lojinha que eu tenho em casa. Depois que eu vim pra cá, tudo melhorou muito”, comemora.</p>



<p>A história de Jaísas Lima reflete o caminho que a maioria das mães podem percorrer dentro do Ária. Entrou como aluna e hoje é professora.“Minha vida mudou depois que eu entrei aqui. Passei a ser reconhecida. A gente aprende coisas novas todo dia. Conseguimos chegar onde a gente quer, no nosso objetivo. Sempre digo isso para minhas alunas: não quero ouvir a frase, eu não posso. Ah, eu não consigo. Quando a gente quer, a gente pode e a gente consegue”.</p>



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	                                        <p class="m-0">O espírito de criação conjunta é registrado na aula de crochê de Jaísas. Foto: Inês Campelo/MZ
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<h6 class="wp-block-heading">A reportagem decidiu publicar foto de cada uma das mulheres que dedicou parte do seu dia contando um pouco da sua história.</h6>
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