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	<title>Arquivos enchentes em Pernambuco - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Wed, 13 May 2026 20:39:23 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos enchentes em Pernambuco - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<item>
		<title>À espera da dragagem, rio Beberibe transborda lixo, lama e doenças a cada enchente</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2026 19:18:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[enchentes em Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[Governo de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[rio Beberibe]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quase duas semanas depois das chuvas de 1º de maio, famílias que vivem às margens do rio Beberibe em Peixinhos, na periferia de Olinda, ainda estão limpando a lama e tentando reorganizar a vida e o que sobrou das casas. Enquanto imploram, há mais de uma década, por uma dragagem, comunidades como Beira Rio, Nova [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quase duas semanas depois das chuvas de 1º de maio, famílias que vivem às margens do rio Beberibe em Peixinhos, na periferia de Olinda, ainda estão limpando a lama e tentando reorganizar a vida e o que sobrou das casas. Enquanto imploram, há mais de uma década, por uma dragagem, comunidades como Beira Rio, Nova Esperança, Embalo, Condor e Cabo Gato enfrentaram mais uma enchente. Por causa da intensidade das chuvas, no dia seguinte o governo estadual decretou situação de emergência em 27 municípios, incluindo Olinda.</p>



<p>Moradores relatam que, no feriado do Dia do Trabalhador, “nadaram”, dentro de casa, com lixo, ratos e cobra, literalmente. Para muita gente, a cheia deste ano foi pior que a provocada pelas chuvas de maio de 2022. Agora, as famílias temem pelo aumento dos casos de arboviroses e leptospirose, como acontece todos os anos.</p>



<p>A <strong>Marco Zero</strong> esteve nas comunidades de Peixinhos, na semana passada, para acompanhar a situação. Debaixo da ponte Campina do Barreto, que liga Recife a Olinda, só o que restou, do lado olindense, foram entulhos e os porcos, em meio a muita sujeira e um odor forte de lixo misturado com bicho morto que não passa. “É o cheiro da cheia”, definem os moradores.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/55255329455_cfc998b7a0_c.jpg" alt="Foto aérea mostra um conjunto de barracos improvisados e estruturas de madeira deterioradas ao redor de um terreno coberto por lixo e entulho. Entre os resíduos, vários porcos circulam e procuram alimento. Há telhas quebradas, pedaços de metal enferrujado e restos de móveis espalhados pelo local. Ao fundo, um canal de água escura passa ao lado das construções, enquanto algumas árvores verdes contrastam com o cenário de degradação e pobreza." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Dias depois da enchente, mau cheiro ainda era forte às margens do Beberibe
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero Conteúdo</span>
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<p>A última vez que o Beberibe passou por uma dragagem foi em 2013, penúltimo ano da segunda gestão do então governador Eduardo Campos (PSB). Antes disso, uma dragagem tinha sido realizada em 1982. A calha do rio está bastante obstruída por resíduos sólidos, restos de construção, vegetação, troncos, galhos, sedimentos e plantas flutuantes. Por isso, a cada ano, o nível da água sobe mais quando chove forte, invadindo até mesmo casas mais distantes das margens, que são ocupadas por moradias irregulares.</p>



<p>Na sexta-feira (8), com o período chuvoso já tendo começado, a governadora Raquel Lyra (PSD) anunciou mais um serviço emergencial de limpeza do Beberibe, entre as pontes Dalva de Oliveira e avenida Cidade de Monteiro, no Recife — o que ajuda, mas não resolve o problema.</p>



<p>A gestão fez o mesmo há exato um ano: era dia 19 de maio quando o governo iniciou a limpeza (também emergencial) do rio, começando justamente por Olinda. Agora, mais uma chuva forte veio, outras estão à caminho e o questionamento das famílias de Beira Rio, Nova Esperança, Embalo, Condor e Cabo Gato é um só: “cadê a dragagem?”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/55254039927_05d5898aa1_c.jpg" alt="A imagem mostra uma vista aérea de uma área urbana densamente ocupada, com casas simples e construções improvisadas próximas a um rio de águas turvas. Um estreito passarela de madeira atravessa o rio, ligando os dois lados da comunidade. As moradias estão muito próximas umas das outras, e há vegetação misturada com entulho nas margens. No canto superior, vê-se um galpão e uma área pavimentada, sugerindo uma zona industrial ou comercial próxima." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Moradores de Peixinhos esperam por dragagem que não vem 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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<p>Em agosto de 2024, a vice-governadora Priscila Krause (PSD) celebrou o anúncio da dragagem que, segundo o discurso dela, estaria na iminência de ser licitada. &#8220;A dragagem no rio Beberibe já está com edital de contratação publicado e estamos garantindo R$ 84 milhões em obras &#8230; Vamos remover sedimentos acumulados no leito do rio e assim contribuir para melhorar a qualidade de vida dessa população que vive na divisa com a cidade do Recife&#8221;, <a href="https://www.instagram.com/p/DA5qL_zufVj/">anunciou Krause em seu perfil no Instagram</a>.</p>



<p>Quase dois anos depois, no entanto, a obra capaz de resolver boa parte do problema dessas famílias ainda não saiu do papel, apesar de a empresa contratada em fevereiro de 2025 já ter realizado os devidos estudos técnicos e elaborado os projetos executivos. </p>



<p>O governo informou, em nota, que está agora em fase final do processo licitatório para definição da empresa responsável pela execução do serviço, que será realizado entre o Recife e Olinda, da avenida Cidade do Monteiro, em Porto da Madeira, até a Escola Aprendizes de Marinheiro.</p>



<p>No mês passado, a licitação da dragagem foi parar no Tribunal de Contas de Pernambuco (TCE-PE), que determinou a suspensão do processo, por meio de medida cautelar, em razão da ausência de documentação ambiental relacionada aos serviços previstos no edital. Saiba mais no final da reportagem.</p>



<p>Em comunicado à imprensa, a gestão disse que a nova ação emergencial de limpeza “visa diminuir os riscos de inundação durante o período chuvoso, beneficiando todas as comunidades existentes ao longo do curso do rio. A operação inicia nesta sexta (8) e seguirá pelo tempo necessário, até que sejam concluídos os trabalhos em todas as áreas do rio. Os equipamentos empenhados na operação são quatro retroescavadeiras, oito caminhões caçamba e uma escavadeira”.</p>



<p>Com a ação, o governo prevê a retirada de 2 mil metros cúbicos de lixo, entulhos, vegetação aquática e demais materiais que potencializam os transbordamentos e as inundações.</p>





<h2 class="wp-block-heading"><strong>Rio Beberibe agoniza</strong></h2>



<p>Com as chuvas mais recentes, em alguns pontos da comunidade a água arrastou tudo que havia dentro das casas. Foi o caso de Socorro Maria Fernandes, de 57 anos. Analfabeta, ela vive com o pai acamado, de 88 anos. “Consegui colocar meu pai na casa da minha irmã. Ele terminou adoecendo, está com uma diarreia que não passa, eu não sei o que é. Esses dias, dormindo, começou a chamar pela minha mãe, já falecida, dizendo ‘Lica, cuidado com a cheia’”, conta a dona de casa.</p>



<p>Objetos, móveis e eletrodomésticos de Socorro foram levados para o quintal pela força da correnteza. Só o que ela conseguiu salvar foi uma geladeira. “Eu fiquei com a água na cintura e os ratos nadando e subindo pelas paredes”, detalha.</p>



<p>Um dos principais cursos d’água da região metropolitana, o rio Beberibe nasce em Camaragibe e passa por Recife e Olinda, percorrendo 24 km, até se juntar ao rio Capibaribe e desaguar no Atlântico. No lado recifense, estão os bairros Campina do Barreto, Porto da Madeira, Beberibe, Dois Unidos e Linha do Tiro. Já do lado olindense, estão Águas Compridas, Caixa D’água e Peixinhos.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/55255077853_7833d13f9b_c.jpg" alt="A imagem mostra uma mulher em pé entre muitos objetos acumulados, como caixas plásticas, baldes, um colchão encostado e outros utensílios domésticos. Ela veste uma camiseta vermelha com estampa de personagem e shorts jeans, e parece observar algo fora do quadro. O ambiente é apertado e improvisado, com uma parede de tijolos sem reboco ao fundo e diversos materiais empilhados, sugerindo um espaço de moradia em condições precárias." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Socorro Maria conseguiu retirar a tempo o pai acamado
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>Nesse curso, o rio arrasta bastante poluição, em meio ao saneamento básico precário e a construções irregulares, muitas inseridas em Áreas de Preservação Permanente (APP), por causa da falta de soluções habitacionais e de planejamento urbano. Quem vive às margens do Beberibe divide espaço com o lixo e a criação de porcos e cavalos, que ajudam no sustento.</p>



<p>Larissa Gomes da Cunha, de 19 anos, vivia com o filho de um ano e nove meses na beira do rio. Perdeu tudo. A reportagem esteve na casa dela, só havia lama e pedaços de objetos agora imprestáveis. Quando conversou com a <strong>MZ</strong>, Larissa estava no abrigo montado pela prefeitura na Escola Estadual Monsenhor Arruda Câmara. Sem moradia, ela não sabia para aonde ir depois do encerramento das atividades do abrigo, que chegou a receber mais de 400 pessoas no sábado (2).</p>



<p>Na casa de Aldeci Maria da Silva, de 54 anos, até cobra apareceu. “Minha neta, de 12 anos, pede o tempo todo ‘vó, vamos sair dessa casa’. Mas vamos para onde?”, questiona a faxineira, que ganha menos de um salário mínimo por mês.</p>



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	                                        <p class="m-0">Aldeci da Silva não tem para aonde ir com a neta de 12 anos
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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<p>Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação de Pernambuco (Seduh), “está prevista a implantação de 464 unidades habitacionais em área localizada ao lado da Compesa, no bairro de Peixinhos, bem como aproximadamente 700 unidades habitacionais adicionais, atualmente em fase de prospecção, destinadas ao atendimento da demanda identificada”.</p>



<p>Para quem vive em Olinda, o valor do auxílio-moradia é de apenas R$ 260 mensais. Atualmente, de acordo com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Habitação, 778 pessoas recebem o valor, em toda a cidade.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Dragagem vai parar no TCE</h3>



<p>Após a suspensão da licitação da dragagem pelo conselheiro Ranilson Ramos, no mês passado, através de uma medida cautelar, por causa de documentos ambientais, o Governo do Estado foi autorizado, no último dia 5, a dar prosseguimento ao processo licitatório, também por meio de cautelar, que agora seguiu para homologação na Segunda Câmara do TCE-PE, no próximo dia 19.</p>



<p>Depois do recurso apresentado pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação e pela Companhia Estadual de Habitação e Obras de Pernambuco (Cehab/PE), o conselheiro relator dos processos da Seduh autorizou a retomada. </p>



<p>A nova decisão levou em consideração a apresentação de medidas de viabilidade ambiental autorizadas pela Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH), além da situação de emergência decretada pelo Governo de Pernambuco em municípios do Estado no dia 2 de maio. O Tribunal de Contas informou que continuará acompanhando tanto a licitação quanto a execução dos serviços de dragagem do rio Beberibe.</p>



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	                                        <p class="m-0">Isto é tudo que sobrou da casa onde Larissa Cunha mora com o filho pequeno
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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	<p>O post <a href="https://marcozero.org/a-espera-da-dragagem-rio-beberibe-transborda-lixo-lama-e-doencas/">À espera da dragagem, rio Beberibe transborda lixo, lama e doenças a cada enchente</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Como podemos enfrentar a emergência climática em uma metrópole desigual?</title>
		<link>https://marcozero.org/como-podemos-enfrentar-a-emergencia-climatica-em-uma-metropole-desigual/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 31 Jul 2024 19:15:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[emergência climática]]></category>
		<category><![CDATA[enchentes em Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[mudanças climáticas]]></category>
		<category><![CDATA[UFPE]]></category>
		<category><![CDATA[urbanismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Patrícia Geittenes Tondelo* e Fabiano Rocha Diniz** O crescimento urbano na metrópole do Recife esteve frequentemente acompanhado de problemas de ordem social, econômica e ambiental que levaram à exposição da população mais pobre a diversas condições de vulnerabilidade, que tendem a se agravar devido às mudanças climáticas. O que assistimos neste ano de 2024 [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por</strong> <strong>Patrícia Geittenes Tondelo</strong>* <strong>e</strong> <strong>Fabiano Rocha Diniz</strong>**</p>



<p>O crescimento urbano na metrópole do Recife esteve frequentemente acompanhado de problemas de ordem social, econômica e ambiental que levaram à exposição da população mais pobre a diversas condições de vulnerabilidade, que tendem a se agravar devido às mudanças climáticas. O que assistimos neste ano de 2024 no Rio Grande do Sul já ocorreu no Recife em diversas ocasiões, como a cheia de 1975 que é lembrada até hoje. No contexto em que vivemos, diariamente vemos se confirmarem os impactos previstos do câmbio climático, com a ocorrência cada vez mais frequente e intensa de eventos extremos, como chuvas, inundações, deslizamentos e o aumento do nível da água do mar. Assim, cabe-nos questionar: o risco inerente aos aspectos climáticos é ampliado pelas condições de pobreza e precariedade nas cidades? Ou seria o contrário, nos lugares de extrema pobreza, as situações de precariedade urbana são exacerbadas pelas mudanças climáticas?</p>



<p>A cidade do Recife tem um histórico no qual os melhores locais para se viver sempre foram disputados (e conquistados) pelas camadas sociais de maior poder aquisitivo, enquanto que restaram as terras menos atrativas (morros ou áreas alagáveis, como mangues e bordas de rios) para as camadas de baixo rendimento. Segundo levantamento realizado pelo <a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-05/brasil-tem-1942-cidades-com-risco-de-desastre-ambiental.">Governo Federal</a>, o Brasil tem 1.942 municípios com grande suscetibilidade, com áreas frágeis, mais predispostas a desastres como deslizamentos de terras, enxurradas e inundações. Entre esses estados, Pernambuco é o terceiro com maior proporção da população residente em áreas de risco, 11,6% do total.</p>



<p> No Recife e na sua região metropolitana, os moradores das cidades presenciam todos os anos os transtornos causados pelas chuvas fortes, principalmente a ocorrência de alagamentos e deslizamentos. No entanto, essas consequências não são sentidas igualmente por todas as pessoas. Se, por um lado, os edifícios em altura com garagens nos pavimentos próximos ao solo são uma alternativa para morar na várzea inundável pelas classes de maior rendimento, por outro, as construções improvisadas nas encostas e margens de rios não são uma boa alternativa, porém é a única que existe para grande parte das classes de mais baixa renda.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/12-alagamento.webp" alt="A imagem mostra uma paisagem urbana durante uma enchente significativa. No primeiro plano, há um grande edifício de vários andares com telhado plano, cercado por água que inundou as ruas e submergiu parcialmente os veículos. Além deste edifício, é visível um bairro densamente povoado com várias pequenas construções, também afetadas pelas águas da enchente. Ao fundo, vê-se o horizonte da cidade com prédios mais altos envoltos em névoa, indicando chuva ou neblina. O céu está nublado, e a atmosfera geral parece sombria e úmida." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Edifícios em altura possibilitam maior segurança para morar em locais alagáveis.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Captura de imagem/G1</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A vulnerabilidade, como o grau de fragilidade de indivíduos ou comunidades, não é apenas resultante da exposição a riscos ambientais, mas uma condição que decorre também de processos históricos e sociais de consolidação das cidades. Assim, a vulnerabilidade pode ser ao mesmo tempo social e ambiental. No Recife, cidade das mais desiguais do país, essa situação ficou bastante evidente com os eventos climáticos ocorridos em maio de 2022, em que comunidades periféricas, precariamente consolidadas, foram fortemente atingidas por inundações e deslizamentos que levaram ao colapso do solo encharcado nas terras altas, inundaram áreas baixas, destruíram parte das moradias e acarretaram perdas de vidas humanas. </p>



<p>Esse foi o caso de Vila Arraes e Jardim Monte Verde, duas comunidades fortemente atingidas por inundações e deslizamentos provocados pelas chuvas. No mês de maio de 2022, morreram mais de 20 pessoas em Jardim Monte Verde, num total de mais de 130 mortes em toda região metropolitana.</p>



<p>Neste contexto de mudanças climáticas, muito se tem dito que a cidade precisa e deve ser resiliente, por isso precisamos entender melhor: o que é ser resiliente?</p>



<p>Comumente, este termo é traduzido com a capacidade que as pessoas, as organizações humanas ou as cidades têm de se recuperar, se reconstruir, após um acidente ou desastre. Entretanto, já se compreende que este &#8220;renascer das cinzas&#8221; não é mais suficiente. É preciso ir além, o verdadeiro desafio é reduzir ou erradicar as situações de risco, conviver com elementos que são vistos como hostis e causadores de problemas, como as águas das chuvas e dos rios. Objetivamente, construir sobre morros e sobre as águas (em palafitas, casas flutuantes ou sobre pilotis) é possível, se isso for feito de modo seguro e capaz de produzir um habitat de qualidade e culturalmente apropriado. Mas, para que isso aconteça, defendemos que o planejamento urbano, o controle urbanístico-ambiental e as medidas para reduzir a desigualdades e vulnerabilidades devem estar a serviço dos que mais precisam, os moradores dos assentamentos precários e vulneráveis.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                                        <p class="m-0">Jardim Monte Verde cenário dos deslizamentos de barreira ocorridos em maio de 2022
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>As comunidades e as zonas de especial interesse social (CIS e Zeis, como são chamadas) são os territórios que necessitam receber a atenção prioritária das gestões municipais. Sua urbanização, com implantação de infraestruturas e serviços urbanos de qualidade, com melhoria ambiental e qualificação das moradias e dos espaços públicos devem ser realizadas urgentemente.</p>



<p>Em ano de eleição municipal, oferece-se uma oportunidade aos futuros gestores da metrópole de considerar e, acima de tudo, reconsiderar propostas de intervenções urbanísticas que contribuam e promovam a resiliência climática e o direito à cidade. O urbanismo como campo profissional dedicado à organização e melhoramento das condições de vida nas cidades, é uma ferramenta a ser mobilizada para mitigar os impactos do clima e proporcionar cidades mais equitativas, saudáveis e com menos riscos para a população. É preciso valorizar e resgatar os esforços que deram origem ao <a href="http://www2.condepefidem.pe.gov.br/web/condepe-fidem/biblioteca-virtual"><em>Manual de Ocupação dos Morros</em></a> desenvolvido pelo Programa Viva o Morro (Convênio Nº 082/1999), cuja produção é fruto de um esforço conjunto da universidade pública, das prefeituras municipais da Região Metropolitana do Recife, do Governo do Estado de Pernambuco e da sociedade civil, com apoio de profissionais de múltiplas disciplinas.</p>



<p>O manual citado apresenta uma série de ações de resposta e prevenção aos acidentes em locais de risco, aplicáveis às regiões de morros do Recife e da RMR. São ações a longo prazo que envolvem estruturação do espaço urbano, dotando-o de infraestrutura urbana, regulação e controle da ocupação habitacional compatível com a fragilidade ambiental dos morros. O manual também busca romper com paradigma predominante de que os morros são inacessíveis e não favoráveis à urbanização e mudar a forma como são vistos e tratados pelos agentes públicos. Entende-se que os morros constituem um espaço parcialmente edificável, que precisa de orientação técnica para serem lugares de moradia seguros se requalificados, a partir da análise crítica de práticas consolidadas por parte da construção pública ou auto promovida pela população (FIDEM, 2004).</p>



<p>Mas por que estamos resgatando esse manual?</p>



<p>Primeiro, o material é um excelente exemplo de produção que considera o contexto local, abrangendo questões relativas ao relevo, geologia, clima, modo de construção e a cultura e a condições de habitar os morros da RMR. Segundo, o material vai ao encontro dos objetivos das atuais bases federais com o retorno do ministério das Cidades em 2023 e a criação da Secretaria das Periferias (Decreto nº 11.468, de 5 de abril de 2023).</p>



<p>De acordo com o artigo IV do decreto de criação, compete à Secretaria da Periferia “coordenar e apoiar as atividades relacionadas à redução de desigualdades e de riscos de desastres e as ações destinadas ao enfrentamento de necessidades habitacionais nos territórios urbanos vulneráveis, com foco na urbanização de assentamentos precários, na regularização fundiária urbana e na melhoria habitacional”. Com a criação do Programa Periferia Sem Risco, a recém instituída secretaria também já se posiciona diante das mudanças climáticas, cujo objetivo é fortalecer o desenvolvimento de capacidades locais de infraestrutura, planejamento, informação e participação social para enfrentamento das desigualdades e redução das vulnerabilidades relativas a riscos de deslizamento e inundação nas periferias brasileiras.</p>



<p>Deixamos aqui uma reflexão final: entendemos que relançar a luz sobre o <em>Manual de Ocupação dos Morros</em> nos permitiria perceber que não estamos na estaca zero frente às mudanças climáticas. Muito já foi feito e muito ainda está à espera da oportunidade para ser resgatado e aplicado nos territórios periféricos. Sabemos que habitar os morros reflete o dilema de muitas metrópoles brasileiras de Norte a Sul do país, cujo crescimento decorre de processos históricos de ocupação pelas populações mais carentes. Sugerimos irmos além da escala local e considerar também o potencial do Programa Viva os Morros, com adaptações, para aplicação em outros contextos nacionais.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/12-recorte.jpg" alt="A imagem é um guia informativo sobre a ocupação de morros na Região Metropolitana do Recife. No centro, há o título “Guia de Ocupação dos Morros”. A imagem contém várias ilustrações e fotos aéreas mostrando casas coloridas em áreas montanhosas densamente povoadas. Também há diagramas e mapas que parecem ser ferramentas de planejamento urbano para essas áreas. O texto está em português e inclui frases como “Programa Viva o Morro”, indicando uma iniciativa social ou governamental." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Recortes do Manual de Ocupação dos Morros da Região Metropolitana do Recife
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução Fidem</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	

    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*<span style="font-family: Times New Roman, serif;">Arquiteta e Urbanista, doutoranda no programa de Pós-Graduação de em Desenvolvimento Urbano (MDU) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisadora do Observatório das Metrópoles (Núcleo Recife).</span></strong></p>
<p><strong>**<span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPE, pesquisador do Observatório das Metrópoles (Núcleo Recife) e da Comunidade Interdisciplinar de Ação, Pesquisa e Aprendizagem (CIAPA)</span></strong></p>
    </div>
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