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	<title>Arquivos epidemia - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Tue, 26 Aug 2025 20:45:52 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos epidemia - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Tabocas, o povoado do sertão de Pernambuco que não esqueceu a peste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Aug 2023 18:07:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[bubônica]]></category>
		<category><![CDATA[epidemia]]></category>
		<category><![CDATA[exu]]></category>
		<category><![CDATA[peste em Pernambuco]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Tabocas, Exu &#8211; Pela estrada que está em melhores condições, são quase 30 quilômetros entre o centro do município do Exu e o distrito de Tabocas. De cima, do alto da Chapada do Araripe, se vê o vilarejo quase aos pés da serra, cercado por muito verde. Ainda é inverno no sertão e a estrada, [&#8230;]</p>
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<p><strong>Tabocas, Exu &#8211;</strong> Pela estrada que está em melhores condições, são quase 30 quilômetros entre o centro do município do Exu e o distrito de Tabocas. De cima, do alto da Chapada do Araripe, se vê o vilarejo quase aos pés da serra, cercado por muito verde. Ainda é inverno no sertão e a estrada, de terra batida, tem buracos e poças. Quando chove muito, ninguém passa.</p>



<p>Essa comunidade quase isolada, com pouco mais de 2 mil moradores, é toda enfeitada: era final de julho, mas ainda havia bandeirinhas de São João nas ruas. Há flores nos canteiros, sítios com muros de pedras e casarios do século passado. A chapada do Araripe se ergue bela e grandiosa, abraçando a vila. “Aqui é um pedacinho do céu”, resume a octogenária Irene Pereira, com um sorriso no rosto.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-esquecida-historia-da-mortal-epidemia-de-peste-em-pernambuco/" class="titulo">A esquecida história da mortal epidemia de peste em Pernambuco</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/saude/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Saúde</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>Tabocas também é um dos poucos lugares do Brasil onde a epidemia da peste não foi esquecida. Em poucas horas na cidade é possível se juntar um carrossel de histórias sobre a devastação que a doença provocou. “Todo mundo aqui perdeu um avô, uma bisavó, um tio para a doença”, diz o produtor cultural Bibi Saraiva, uma espécie de historiador da comunidade.</p>



<p>Na calçada, conversando com amigos, o aposentado Chico Romeiro lembra que o pai contava que perdeu um irmão para a peste. “Quando meu tio morreu, criança ainda, meu avô e outros parentes se revezavam na cova dele, armados, para que ninguém exumasse o corpo para tirar o fígado”, diz. Na verdade, na época, se tirava um dedo dos mortos para confirmar se havia sido de peste mesmo, explica <a href="https://marcozero.org/do-laboratorio-de-exu-saiu-alzira-almeida-uma-das-maiores-especialistas-em-peste-do-mundo/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a pesquisadora da Fiocruz-PE Alzira Almeida</a>.</p>



<p>Há registros de casos de peste na Chapada do Araripe desde 1919. “Mas a de 1935 foi registrada como a pior. Talvez tenha tido só uma outra epidemia tão violenta como essa só, que foi a de 1927/28 em Triunfo. E que é uma história também com pouca documentação”, afirma a jornalista e historiadora Cláudia Parente, que escreveu uma dissertação de mestrado em História sobre a peste em Tabocas.</p>





<p>Nascido em 1935, Paulo Manoel é hoje um dos moradores mais antigos de Tabocas. Ele lembra que os pais falavam que os ratos proliferavam nos paióis onde ficavam as colheitas do milho. “No sítio onde eu nasci, morreu muita gente, e morria rápido. Começaram a tocar fogo nos paióis de milho, para não empestear demais no povo. Era o que meus pais falavam”, lembra.</p>



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	                                        <p class="m-0">Paulo Manoel (Crédito: Arnaldo Sete/MZ)
</p>
	                
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<p>Tabocas era tão isolada na época que apenas quatro mortes por peste foram registradas no cartório mais perto, a 17 quilômetros dali. “Todas as quatro mortes eram de mulheres, e teve uma que foi registrada quase um ano após morrer”, conta Cláudia, que fez a busca nos cartórios da cidade para a dissertação. Foi em uma tese de doutorado de 1942, do cearense Marcelo da Silva Júnior, que a jornalista e historiadora encontrou o número de 195 mortes pela peste de 1935 em Tabocas, mas essa é a única fonte.&#8221;Se hoje não se tem certeza de quantas pessoas morreram na covid-19, imagine naquela época&#8221;, diz. </p>



<p>O mais provável é que nunca se saiba ao certo quantas pessoas morreram na epidemia de Tabocas. Os moradores de Tabocas relatam que quando os doentes morriam eram enterrados às pressas, nos próprios sítios onde moravam. “Em vários sítios e fazendas ainda hoje achamos cruzes, marcando o local onde as pessoas foram enterradas”, conta a professora Veralúcia Sampaio.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-peste-a-doenca-que-sempre-volta/" class="titulo">A peste, uma doença que sempre volta</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/saude/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Saúde</a>
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        </div>

		


<p>Durante vários anos, Veralúcia, que também é escritora, documentou com os alunos da escola do distrito a história de Tabocas. As epidemias de peste estavam sempre presentes na fala dos moradores mais velhos. Os relatos pareciam com as da idade média: casas com as portas batendo ao vento, porque todos os moradores dentro estavam mortos.</p>



<p>Quando a peste chegou ao Brasil, na terceira pandemia, já se sabia que era causada por uma bactéria e que era a pulga do rato que transmitia para o ser humano. Alexandre Yersin, o cientista que primeiro isolou a <em>Yersinia pestis</em>, também criou um soro antipestoso. Aqui no Brasil, a Fundação Oswaldo Cruz foi criada para combater a peste e o próprio Oswaldo Cruz também fez um soro antipestoso. Mas a eficiência desses soros nunca foi comprovada.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/do-laboratorio-de-exu-saiu-alzira-almeida-uma-das-maiores-especialistas-em-peste-do-mundo/" class="titulo">Do laboratório de Exu saiu Alzira Almeida, uma das maiores especialistas em peste do mundo</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/entrevista/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Entrevista</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/saude/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Saúde</a>
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<p>Na chamada fase portuária &#8211; quando a peste atingiu as capitais &#8211; os soros foram usados, com resultados não muito animadores. Mas havia o controle dos ratos e das pulgas. “Em Tabocas, não tinha tratamento para os doentes, não tinha o veneno rodenticida, contra roedores, nem inseticida contra pulgas. A sulfadiazina, que é muito eficaz, só foi descoberta na década de 1940 e, logo depois, a estreptomicina. Esses medicamentos é que foram heroicos no controle da peste. Tratando o doente, já se quebra a corrente de passar de pessoa para pessoa”, explica a pesquisadora Alzira Almeida.</p>



<p>Na epidemia de peste de Tabocas foi o rato doméstico o principal responsável por espalhar a doença. “A eliminação dos ratos e das pulgas controlou a epidemia. Depois do silêncio da peste na década de 1950, quando se pensou até que havia sido erradicada de Exu, a doença voltou nos anos 1960, mas não teve tantos casos em Tabocas, porque havia métodos eficazes de controle”, diz Alzira.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><strong>O revolucionário que morreu de peste</strong></p>



<p>Na seca dos anos 1930, a Chapada do Araripe, do lado do Crato, foi a terra da comunidade messiânica Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, liderada pelo beato José Lourenço, com proteção de Padre Cícero. Lá, camponeses pobres cultivavam a terra e dividiam a colheita. Era um lugar também que tinha água, o que atraiu muitos retirantes. Quando o protetor da comunidade faleceu, a comunidade passou a ser perseguida por ser “comunista”.</p>



<p>Em maio de 1937, no governo de Getúlio Vargas, Caldeirão foi palco do primeiro ataque da Força Aérea brasileira dentro do Brasil. Não se sabe ao certo quantas pessoas morreram, mas a comunidade se dispersou. O beato José Lourenço fugiu para Exu e morreu de peste bubônica em uma epidemia em 1946.</p>
</blockquote>



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	                                        <p class="m-0">Professora Veralúcia e seus alunos coletaram histórias da epidemia. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo
</p>
	                
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma epidemia esquecida </strong></h3>



<p>Apesar de ter causado tanto impacto no sertão de Pernambuco, a epidemia da peste foi esquecida. “É uma história fascinante, de como uma doença consegue promover um impacto tão grande nas pessoas. Mas no próprio município de Exu os moradores não conhecem essa história. Como memória não é algo fácil de se preservar, se você não tiver registro, se perde”, explica Cláudia Parente.</p>



<p>Natural de Exu, a jornalista conhecia a história da epidemia porque o pai trabalhou no Instituto Aggeu Magalhães e era amigo dos pesquisadores Alzira e Célio Almeida. Era uma história que ela sempre quis contar e decidiu que seria um bom tema para o mestrado. Um dos principais trunfos dela foi ter conseguido entrevistas com os últimos remanescentes da época, como Zé de Libana, que tinha 106 anos em 2016, quando foi entrevistado por Cláudia. “Dava uma febre de repente que o ‘cabra’ ficava da qualidade de fogo e se apagava logo. Eu nunca vi uma doença daquela na minha vida. Só vi aquela”, contou sobre a peste.</p>



<p>Outra entrevista muito interessante na dissertação é a de Maria Batista Filha, que, mesmo tantos anos depois, não pronunciava o nome “peste”, por medo de invocar a doença. Ao citar a doença na entrevista, ela se benzia três vezes e falava “armaria’, ‘armaria’, ‘armaria’, a bubônica!”. “Existem duas epidemias: a da doença e a da representação dela. Tem como ela é, biologicamente, e como ela é no imaginário do povo. Toda doença tem uma carga de culpa, de pecado”, explica Parente.</p>



<p>As entrevistas foram essenciais para entender o que ocorreu em Tabocas, já que não foram encontrados registros do Governo do Estado e havia poucos dados do Governo Federal. “E por que não se tem registro? porque não é interessante para nenhum governo registar algo que representa um fracasso. Em 1935, o Brasil produzia o soro antipestoso. Não era tão eficaz, mas foi usado no Rio de Janeiro. E se sabia que havia tido uma epidemia anos antes em Triunfo, com mais de 2 mil mortes, um absurdo em uma cidade tão pequena, por que não existia um serviço de vigilância em Exu? Houve falha do governo. No caso de Tabocas, quando o socorro chegou, o povo já havia morrido. Sem os testemunhos da população, teria sido muito difícil fazer esse trabalho”, diz.</p>



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	                                        <p class="m-0">Há poucos registros do surto da peste no distrito, ainda hoje bastante isolado. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>A pesquisa de Cláudia mostra que o Jornal do Commercio publicou apenas duas notas sobre a peste de 1935 em Exu. Nos outros dois grandes jornais da época, Diário da Manhã e Diario de Pernambuco, a epidemia serviu para troca de farpas políticas. “Os jornais têm o registro que o fato aconteceu, mas houve o uso político da epidemia, como aconteceu com a covid-19, usando a doença para disputar a narrativa política. O Diário da Manhã era do governador da época, CarlosdeLimaCavalcanti, então era teatro. E o Diario de Pernambuco fazia oposição ao governador”, comenta Parente.</p>



<p>Abandonadas pelo poder público, a população de Tabocas encontrou conforto na religião: a chegada de uma imagem de São Sebastião, que virou padroeiro do distrito, é vista até hoje como o fim da epidemia. A imagem segue na igreja de Tabocas. A memória da peste também, ainda que poucas pessoas fora de lá tenham tido interesse em saber disso. “Às vezes as pessoas querem esquecer. Quando você estuda memória, você também estuda esquecimento. Mas não entendi que houve esse esquecimento provocado por um trauma nas pessoas de Tabocas. Elas se dispuseram a falar. Não haviam falado antes porque ninguém nunca quis ouvir. Nunca ninguém havia ido lá para saber, para ouvi-los”, diz Cláudia.</p>



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		<title>Quando acabará a epidemia do coronavírus em Pernambuco?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 19 Sep 2020 11:09:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[epidemia]]></category>
		<category><![CDATA[epidemiologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Foi em um já longínquo 12 de março que Pernambuco confirmou os primeiros casos de coronavírus no estado. De lá para cá, foram 140.235 infectados e 7.971 mortos pela pandemia que tomou o mundo de assalto. O auge da doença na Região Metropolitana do Recife ocorreu em maio e, até julho, chegou ao topo em [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Foi em um já longínquo 12 de março que Pernambuco confirmou os primeiros casos de coronavírus no estado. De lá para cá, foram 140.235 infectados e 7.971 mortos pela pandemia que tomou o mundo de assalto. O auge da doença na Região Metropolitana do Recife ocorreu em maio e, até julho, chegou ao topo em todo o estado. A partir de então, óbitos e casos descem, mas ainda estão em patamar alto. Quando, então, poderá ser dito que a epidemia passou em Pernambuco?<br><br>Temporalmente seis meses já é muito tempo para a duração de uma epidemia. No livro <em>O carnaval da guerra e da gripe</em>, o escritor Ruy Castro relata que a epidemia da gripe espanhola (que, apesar do nome, surgiu no Kansas, nos Estados Unidos) durou menos de dois meses no Rio de Janeiro. Curta, mas destruidora: estima-se que matou 15 mil pessoas na cidade.<br><br>Com a Covid-19, o que vemos em Pernambuco é um patamar alto de casos, enquanto o número de mortes cai ou se estabiliza. No feriadão do 7 de Setembro, milhares &#8211; milhões? &#8211; de brasileiros desafiaram a ciência com a situação em que o vírus mais gosta, a aglomeração.<br><br>O que vamos ver nessas próximas semanas pode ser decisivo para saber como a epidemia ainda poderá pressionar o sistema de saúde em Pernambuco. A Marco Zero conversou com alguns profissionais de saúde e os efeitos do feriadão, nesses quase 15 dias depois, são sentidos em alguns hospitais, mas não em outros. &#8220;Há um aumento de casos, nada comparado a maio. Mas voltou a aparecer Covid em plantões em que há um mês nem se falava mais da doença. Isso era esperado. Aconteceu antes. Vem a grande onda, depois que flexibiliza vem as &#8216;ondinhas'&#8221;, conta um médico que atua na linha de frente em hospitais público e em particulares.<br><br>Se o aumento da infecção era esperado, e faz parte da dinâmica do vírus, a grande pergunta parece ser outra. &#8220;Precisamos observar o que vai acontecer com os óbitos. Se nada acontecer, se continuarmos com 20 e poucos óbitos, com as UTIs sem solicitação maior…será algo a ser estudado. Talvez signifique o vírus até tenha mudado o comportamento, mas teremos que esperar as próximas semanas&#8221;, diz o epidemiologista de dados Jones Albuquerque, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e do Instituto Para Redução de Riscos e Desastres de Pernambuco (IRRD), que vê as aglomerações do último feriado como &#8220;um grande experimento científico gratuito e voluntário&#8221;.<br><br>Pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz em Pernambuco, o epidemiologista Wayner Vieira também vê que o número de óbitos, mais do que de casos, é o que deve ser o foco da atenção. &#8220;Os óbitos em Pernambuco estão caindo constantemente há várias semanas, o que é uma boa notícia. Hoje a média móvel fica entre 18 e 25 óbitos quando já foi de 98. No dia 27 de maio, no auge da pandemia, foram 140 mortes&#8221;, relata.<br><br>Com a queda sustentada de óbitos em algumas cidades, a epidemia já até pode ter passado. Mas isso não é uma boa notícia. Ao contrário de regiões que chegaram a zero óbito e superaram a primeira onda, estaríamos então em uma fase endêmica &#8211; quando a doença já é instalada em um local -, mas com patamares ainda muito altos.</p>



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<blockquote class="wp-embedded-content" data-secret="K0bJ9YYvGo"><a href="https://marcozero.org/poderemos-chegar-a-mais-de-160-mil-mortos-por-covid-em-dezembro-diz-estatistico-gauss-cordeiro/">&#8220;Poderemos chegar a mais de 160 mil mortos por Covid em dezembro&#8221;, diz estatístico Gauss Cordeiro</a></blockquote><iframe class="wp-embedded-content" sandbox="allow-scripts" security="restricted"  title="&#8220;&#8220;Poderemos chegar a mais de 160 mil mortos por Covid em dezembro&#8221;, diz estatístico Gauss Cordeiro&#8221; &#8212; Marco Zero Conteúdo" src="https://marcozero.org/poderemos-chegar-a-mais-de-160-mil-mortos-por-covid-em-dezembro-diz-estatistico-gauss-cordeiro/embed/#?secret=5ypsz3wh3B#?secret=K0bJ9YYvGo" data-secret="K0bJ9YYvGo" width="500" height="282" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"></iframe>
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<p>&#8220;A pandemia vai ser declarada final mas vai ficar endêmica em alguns locais, alguns países vão ficar com o coronavírus. O Brasil com certeza vai, a América toda, provavelmente. O conceito de epidemia compreende um intervalo de tempo, é uma grandeza temporal. E seis meses é tempo suficiente para dizer que &#8216;adotamos&#8217; o vírus. Surtos são grandezas temporais pequenas, em semanas. Estamos há quase 30 semanas com o coronavírus. O pico de óbitos em Pernambuco já passou, o de infecção, estamos com ele, ficamos com ele&#8221;, explica Jones Albuquerque.<br><br>Desde o começo de agosto, a ocupação das UTIs de Covid no estado têm se mantido em cerca de 70%. &#8220;E o que seria um novo surto, nesse cenário endêmico? Seria os óbitos aumentarem. Por isso que esse feriadão é uma grande incógnita sobre o futuro da epidemia. Não temos mais como nos livrar do vírus. Temos que reforçar as medidas sanitárias, mas, sem vacina, vamos conviver muito tempo com o coronavírus&#8221;, diz o epidemiologista.</p>



<h2 class="wp-block-heading">As incertezas epidemiológicas</h2>



<p>Se você acompanha as notícias sobre coronavírus, já deve ter ouvido falar em <em>Rt</em> ou em taxa de transmissão. É aquele número que indica o ritmo de contágio: se está acima de 1, a epidemia está crescendo. Abaixo, diminuindo. Nesta semana, o Imperial College de Londres &#8211; que vem fazendo constantes previsões sobre o espalhamento da Covid-19 &#8211; calculou em 0,90 a taxa de transmissão no Brasil. Foi a mais baixa desde abril. Isso significa que 100 pessoas passariam a doença para outras 90, e assim sucessivamente.<br><br>&#8220;Em tese, assim a epidemia iria se resolver&#8221;, conta Jones. Esse cálculo, porém, tem se mostrado instável. Pernambuco, por exemplo, chegou a ter na primeira semana de setembro um <em>Rt</em> de 0,7. Mas, na quarta-feira (16), já estava em 1,2. Ou seja: epidemia acelerada. &#8220;O <em>Rt</em> não funcionou no mundo. E por quê? porque a Covid demandou um sistema de testagem muito rápido, o que é normal em pandemias. Mas a latência dos testes de Covid chega a 21 dias, é tempo demais&#8221;, explica Jones.<br><br>Um dos problemas também é o tipo dos testes usados em Pernambuco. Pouco mais de 50% é de teste rápido: ou seja, avaliam se o paciente já teve contato com o vírus, e não se está infectado naquele momento, como os testes do tipo RT-PCR. &#8220;Estamos olhando para o passado e não para o presente&#8221;, aponta Jones.<br><br>&#8220;Outro problema é que, como tudo na vida, há uma margem de incerteza&#8221;, observa Wayner. &#8220;Quando se divulga um número de taxa de infecção, vamos dizer 1, o que não se fala é que há uma margem que pode ir, digamos, de 0,6 a 1,4. É uma diferença grande&#8221;, explica Wayner. <br><br>&#8220;É uma taxa melhor usada para doenças estabelecidas, em que todos os parâmetros são bem conhecidos, como o sarampo&#8221;, pondera. &#8220;Estava falando com um colega do Rio de Janeiro e, no ápice da pandemia, ele colocava em um dos parâmetros que eram 15 dias de internação. Mas, na prática, depois viu que eram apenas três dias. Os pacientes chegavam tão mal que logo morriam. Isso interferia no <em>Rt</em>&#8220;, conta.<br><br>Um dado mais confiável e de fácil entendimento são as médias móveis mostradas na televisão. Mas elas também têm suas limitações. Pernambuco, por exemplo, está há várias semanas em estabilidade ou queda de óbitos. Mas na média móvel desta semana aparece em alta: isso porque o Governo do Estado decidiu retirar 65 óbitos de pacientes que vieram de outros estados, mas morreram aqui. Com isso, baixou as médias anteriores, que chegou a  ficar em 15, tendo agora uma alta artificial, com 22 óbitos por dia nesta sexta-feira (18).</p>



<h3 class="wp-block-heading">Imunidade coletiva ainda distante</h3>



<p>Na teoria, uma epidemia só acabaria quando a taxa de transmissão estivesse em 0. Para isso, deveria haver proteção das pessoas suscetíveis ao vírus, com imunidade coletiva, ou ao controle das fontes de transmissão. Neste último, o coronavírus impõe uma tarefa muito difícil, por conta do alto percentual de infectados assintomáticos.<br><br>Alguns locais fizeram esforços hercúleos. Na semana passada, Hong Kong testou quase um quarto da população de 7,5 milhões habitantes. Quarenta e dois assintomáticos foram encontrados e isolados. Mesmo assim, os casos não chegaram a zero, mas estão em um patamar baixíssimo: nesta quinta-feira, foram registrados apenas nove.<br><br>Sem uma vacina, a imunidade coletiva, no caso da Covid-19, implica em uma conta nefasta com centenas de milhares de mortos &#8211; o que, de certa forma, está ocorrendo no Brasil com nossos mais de 135 mil mortos.</p>



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<blockquote class="wp-embedded-content" data-secret="Ohah8ymC5f"><a href="https://marcozero.org/abaixe-suas-expectativas-o-longo-e-tortuoso-caminho-para-a-vacinacao-contra-o-coronavirus/">Abaixe suas expectativas: o longo e tortuoso caminho para a vacinação contra o coronavírus</a></blockquote><iframe class="wp-embedded-content" sandbox="allow-scripts" security="restricted"  title="&#8220;Abaixe suas expectativas: o longo e tortuoso caminho para a vacinação contra o coronavírus&#8221; &#8212; Marco Zero Conteúdo" src="https://marcozero.org/abaixe-suas-expectativas-o-longo-e-tortuoso-caminho-para-a-vacinacao-contra-o-coronavirus/embed/#?secret=NOBzkIBofO#?secret=Ohah8ymC5f" data-secret="Ohah8ymC5f" width="500" height="282" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"></iframe>
</div></figure>



<p>Uma <a href="https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.08.28.20180463v1">pesquisa sorológica da Universidade Federal do Maranhão </a>estimou que 40% dos habitantes daquele estado tiveram contato com o vírus. Em Pernambuco, em um cálculo a partir do número de mortos no estado, os dois epidemiologistas entrevistados acreditam que o percentual deve ficar em torno de 35 a 40%. &#8220;Não há razões para acreditar que aqui seria muito diferente do Maranhão&#8221;, diz Wayner.<br><br>Entre as muitas questões em aberto sobre o coronavírus, está qual seria a porcentagem para que a imunidade coletiva seja atingida. Mesmo sem essa respostas, epidemiologistas consideram que é cedo achar que Pernambuco ou o Recife já chegaram nesse patamar.<br><br>Autor do livro <em>As regras do contágio: Por que as coisas se disseminam &#8211; e por que param de se propagar</em>, o epidemiologista norte-americano Adam Kurchaski citou o (mau) exemplo do Maranhão em longo fio no Twitter sobre imunidade coletiva. Com essa faixa de 35-40% já haveria uma redução na velocidade da epidemia.&#8221;Mesmo que a epidemia esteja descontrolada e eventualmente termine em imunidade de rebanho, medidas de controle ainda podem reduzir o dano da doença a longo prazo&#8221;, escreveu.<br><br>E o longo prazo, em locais como Pernambuco, significa que até que uma vacina eficaz seja aprovada, e que boa parte da população seja vacinada, teremos que conviver com a Covid-19 assim como, há décadas, convivemos com a dengue. As medidas de contenção para o coronavírus, porém, são mais dolorosas: sem aglomerações, com máscaras, higienização das mãos, evitando locais fechados etc. &#8220;Eventualmente, poderemos ter surtos da Covid-19, com um aumento de mortes. Aí o estado deveria puxar as rédeas novamente na reabertura&#8221;, sugere Jones.<br><br>Mesmo sem uma vacina, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que só esteja amplamente disponível em 2022, a ciência fará com que a convivência com o vírus seja menos sofrida. De março para cá, por exemplo, houve muitas descobertas e avanços no tratamento. O que se pensava ser um vírus meramente respiratório, hoje sabemos que é multissistêmico, atacando de neurônios ao coração e até o sistema imunológico. &#8220;O HIV está aí há 40 anos sem uma vacina, mas ninguém morre mais de Aids se for medicado. Nesses seis meses de epidemia aprendemos muito sobre o vírus. O tratamento melhorou e a mortalidade também caiu. Teremos que conviver, claro, com as medidas sanitárias&#8221;, diz Wayner. A epidemia pode ter passado, mas o vírus, pelo jeito, vai ficar por um bom tempo.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/quando-acabara-a-epidemia-do-coronavirus-em-pernambuco/">Quando acabará a epidemia do coronavírus em Pernambuco?</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>&#8220;Os brancos estão sentindo o que os índios sempre sentiram&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Apr 2020 19:05:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[epidemia]]></category>
		<category><![CDATA[saúde indígena]]></category>
		<category><![CDATA[yanomami]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Os brancos estão sofrendo por causa de um vírus que veio com os estrangeiros. Pra nós, não é novidade: sempre sofremos com as doenças trazidas pelos brancos”. A frase do educador Dário Kopenawa, filho do escritor e xamã Davi Kopenawa, célebre por tornar conhecida internacionalmente a luta dos yanomami pelos direitos ao seu território, resumiu [&#8230;]</p>
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<p>“Os brancos estão sofrendo por causa de um vírus que veio com os estrangeiros. Pra nós, não é novidade: sempre sofremos com as doenças trazidas pelos brancos”. A frase do educador Dário Kopenawa, filho do escritor e xamã Davi Kopenawa, célebre por tornar conhecida internacionalmente a luta dos yanomami pelos direitos ao seu território, resumiu a forma como os indígenas da Amazônia lidando com a ameaça do coronavírus. </p>



<p>Dário Kopenawa foi um dos participantes da mesa-redonda
online promovida pelo Museu Paraense Emílio Goeldi entre pesquisadores e
lideranças indígenas. A mesa fez parte da programação da instituição paraense
na Semana dos Povos Indígenas.</p>



<p>Em sua fala, Kopenawa detalhou as circunstâncias
da primeira morte por covid-19 de um índio brasileiro, no da 8 de abril. “Era um
jovem que estudava português na cidade de Alto Alegre. Foi levad para o
Hospital Geral em Boa Vista, mas foi mandado pra casa porque os médicos
disseram que ele tinha malária”. O rapaz morreu na viagem de volta.</p>



<p>A morte do rapaz acionou o sinal de
alerta. “Estamos monitorando o que está acontecendo com a saúde do povo
Yanomami por rádio, as notícias de aldeia em aldeia são repassados pela nossa
rede de radiofonia”, informa Kopenawa. Os yanomami contam com 33 centrais de
rádio para se trocarem informações diariamente.</p>



<p>Durante a discussão, o historiador
Márcio Meira, ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), ajudou a
contextualizar a fala de Kopenawa. “O coronavírus está nos fazendo sentir
exatamente como os indígenas se sentem desde que o português chegou trazendo a
gripe, a tuberculose, o sarampo e a varíola: sem nenhuma imunidade”. </p>



<p>Meira lembrou que a primeira informação histórica de uma epidemia devastadora para os índios brasileiros é de 1690, registrada pelos padres jesuítas. Uma das mais documentadas foi a epidemia de gripe que matou 25% da etnia Zo’é no início de 1982 a 1988, após contato com missionários evangélicos.</p>



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	                                        <p class="m-0">Grupo Zo&#8217;é, etnia quase dizimadas por uma epidemia de gripe</p>
	                
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                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Índios isolados</strong></h2>



<p>De acordo com Meira, a desarticulação
entre a Funai e a Secretaria de Saúde Indígena do Ministério da Saúde é uma das
dificuldades a serem superadas para enfrentar a covid-19. “Essa dificuldade é
maior, principalmente, para atender aos índios voluntariamente isolados”. O
risco para os índios isolados é maior porque, desde 2015, iniciou-se o processo
de reaproximação desses grupos, intensificados no governo Bolsonaro.</p>



<p>Para dar ideia da falta de
coordenação entre os dois órgãos federais, Meira citou o fato do Ministério da
Economia ter liberado R$ 10 milhões para conter a pandemia entre os povos indígenas
e que a Funai ainda não conseguiu usar.</p>



<p>Até 1999, a Funai era responsável pela
saúde indígenas, mas a criação de um subsistema no SUS gerou a criação de 34
Distritos para atender as terras indígenas. Desde então, a estrutura não mudou
e está bastante sucateada.</p>



<p>“O enfrentamento da pandemia teria que ser feito com articulação e com diálogo entre as autoridades sanitárias e as entidades indígenas, afinal, pela sua experiência histórica, eles têm seus próprios conhecimentos e estratégias para lidar com doenças epidêmicas”, afirmou Meira.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>SUS distante</strong></h3>



<p>O distanciamento social diante de
uma nova doença também é uma das estratégias adotadas pelos índios. Um exemplo disso
foi dado pelo médico Douglas Antônio Rodrigues, da Escola Paulista de Medicina.
“A primeira vez que fui a uma aldeia foi exatamente a do cacique Raoni, durante
uma epidemia. Chegamos lá e estava vazia. Não tinha ninguém. Todos estavam
espalhados na floresta, em pequenos grupos, longe uns dos outros”. </p>



<p>Na prática, a falta de articulação mencionada
por Meira se dá pela pouca conexão entre o SUS e os 34 distritos de saúde
indígena. </p>



<p>Rodrigues explica: “No contexto da
saúde municipalizada, a tendência é os municípios encararem o subsistema de
saúde indígena como algo que não faz parte do SUS. Então, a grande dificuldade é
o acesso aos hospitais, aos leitos de alta complexidade, às UTIs”.</p>



<p>Assim, conforme Rodrigues, se as distâncias entre as aldeias e os centros urbanos podem ser um fator positivo para evitar que a doença alcance os povos indígenas, a desarticulação seria um fator que pode matar.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Quatro mortes</strong></h4>



<p>Durante a mesa-redonda do Emílio Goeldi, o antropólogoTiago Moreira dos Santos, analista de desenvolvimento do Instituto Socioambiental (ISA) detalhou como a ONG, em parceria com o projeto de dados abertos Brasil.io, está fazendo o <a href="https://covid19.socioambiental.org/">monitoramento da pandemia entre os povos indígenas</a>. A parceria entre as duas instituições usa como fonte de informação, os boletins da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). </p>



<p>Esses dados indicam que, na tarde de domingo, 26 de abril, havia 85 casos de covid-19 em 151 terras indígenas, com quatro mortes, sendo duas delas na região do Alto Solimões, uma na área rural de Parintins e uma em território yanomami. Os distritos do Alto Solimões, da região metropolitana de Manaus e de Parintins concentram 78 casos. </p>



<p>Tiago apresentou também o índice de vulnerabilidades das terras indígenas ao coronavírus. Para calcular esse indicador, o ISA e o Brasil.io consideraram “dados de vulnerabilidade social, disponibilidade de leitos hospitalares, números de casos por município, número de óbitos, perfil etário da população indígena, vias de acesso e outros fatores relacionados com a estrutura de atendimento da saúde indígena e mobilidade territorial”.</p>


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		<title>Cortes de R$ 20 bilhões no SUS do pós-golpe põem em xeque controle do coronavírus no Brasil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Mar 2020 21:28:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[epidemia]]></category>
		<category><![CDATA[governo Bolsonaro]]></category>
		<category><![CDATA[saúde]]></category>
		<category><![CDATA[SUS]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Os casos crescentes do novo coronavírus no Brasil estão escancarando as deficiências de financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS). A Emenda Constitucional (EC) 95/2016, conhecida como a &#8220;emenda do fim do mundo” e aprovada no governo Temer, congelou os gastos com saúde por 20 anos e agora o governo Bolsonaro ameaça também desvincular receitas [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Os casos crescentes do novo coronavírus no Brasil estão escancarando as deficiências de financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS). A Emenda Constitucional (EC) 95/2016, conhecida como a &#8220;emenda do fim do mundo” e aprovada no governo Temer, congelou os gastos com saúde por 20 anos e agora o governo Bolsonaro ameaça também desvincular receitas para área.</p>



<p>Um sistema já deficitário pode colapsar, segundo especialistas, se medidas urgentes não forem tomadas. Novamente os mais afetados pelas políticas de austeridade serão os mais pobres e já vulneráveis.</p>



<p>Segundo um estudo da Comissão de Orçamento e Financiamento (Cofin) do Conselho Nacional de Saúde (CNS), o SUS já perdeu R$ 20 bilhões de 2016 para cá. Ao longo de duas décadas, os danos são estimados em R$ 400 bilhões. “A autoproibição orçamentária que foi criada em 2016 é um suicídio econômico, político e social”, define o conselho.</p>



<p>O próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, evidenciou a urgência ao solicitar ao Legislativo, na semana passada, a liberação de R$ 5 bilhões para o SUS. </p>



<p>O ex-ministro da Saúde no governo Dilma, Arthur Chioro, em conversa com a <strong>Marco Zero Conteúdo</strong>, avalia que o Brasil teve uma primeira fase de combate à pandemia relativamente bem-feita, aquela que dependia basicamente de informação e acumulação de experiência na saúde pública. Mas, nesta atual fase de mitigação, ele se mostra preocupado e acredita que é necessário enfrentar a lacuna de recursos para ter eficiência.</p>



<p>“Vejo hoje todos elogiando o ministro da saúde, mas essa retórica inicial serviu para atenuar uma inoperância dessa segunda fase”, declara sobre o trabalho efetivo de coordenação da resposta da Pasta, lembrando que Mandetta foi um dos operadores que atuaram na liberação de emendas parlamentares num esforço pró-Reforma da Previdência.</p>



<p>“Cadê os R$ 13,4 bilhões que foram perdidos em 2019 no orçamento da saúde? Onde estão os médicos do Mais Médicos que eles diziam que era politicagem? Só estarão atuando efetivamente no final da epidemia? Cadê os respiradores, os leitos de UTI, o material de proteção?”, provoca Chioro.</p>



<p>Ele reafirma que, da unidade básica aos laboratórios oficiais, todos estão sofrendo os efeitos dos cortes. Sobre a postura do presidente Bolsonaro, Chioro é taxativo: “É uma desonra ao cargo de chefe da nação, não tem outra expressão, é um imbecil com faixa presidencial”.</p>



<p>Com a população brasileira envelhecendo, a tecnologia avançando, a inflação setorial crescendo e as condições de vida da população, sobretudo dos trabalhadores, se degradando desde o golpe, é mais do que óbvio que o sistema público precise de mais recursos. No entanto, as medidas dos últimos anos estão na contramão dessas necessidades.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Divisão desigual dos recursos</h2>



<p>A EC 95 impede que aumentos de arrecadação e ganhos reais vindos de um possível crescimento econômico sejam transferidos automaticamente para despesas de ações e serviços públicos de saúde. A rigor, a medida só permite que os gastos sejam reajustados pela inflação oficial do período.</p>



<p>“O sistema de saúde, que já tem um déficit histórico, possui um investimento per capita anual muito baixo e desigual nos territórios, incluindo recursos da união, estado e município. Há municípios em que o gasto por pessoa é de R$ 5 mil. Em outros, R$ 280. É necessário um investimento que leve em conta a desigualdade brasileira. Mas só é possível fazer isso se houver recurso. Senão vamos continuar fazendo uma ação e descobrindo outra”, alerta Islândia Carvalho, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Pernambuco.</p>



<p>&#8220;Nunca tivemos uma oportunidade tão grande quanto essa do coronavírus de denunciar publicamente a situação e rever as decisões&#8221;, avalia Ana Paula Soter, médica sanitarista, e doutoranda em Saúde Coletiva pela Unifesp.</p>



<p>Em um exercício com Bruno Moretti, economista e pós-doutor em sociologia pela UnB, Ana Soter calcula que se houvesse desvinculação de receita para a saúde, o SUS seria um terço do que é hoje. “Imagine enfrentar uma pandemia com o sistema dois terços menor. Seria caminhar para uma barbárie”, alerta.</p>



<p>A desvinculação de recursos da União, estados e municípios proposta pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, desobriga que os entes estaduais destinem 12% da Receita Corrente Líquida (RCL) para saúde e entes municipais 15%. E não se trata somente de leitos de UTI, mas de investimentos em pesquisa, insumos básicos, medicamentos, recursos para atenção básica e uma distribuição que leve em consideração as desigualdades regionais, explica a médica sanitarista.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Mobilização para reverter perdas</h2>



<p>Ana Paula, que também é ex secretária-executiva do Ministério da Saúde no Governo Dilma e integrante do Núcleo de Acompanhamento de Políticas Públicas vinculado ao PT, detalha que a força de mobilização e articulação de parte da classe médica e de uma fatia do Congresso tem pressionado por uma mudança urgente de rumos no financiamento da saúde neste momento.</p>



<p>Ela, também assessora parlamentar do Senador Humberto Costa (PT), espera que num momento de comoção como este a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) que está no Supremo Tribunal Federal (STF) em à emenda do teto de gastos também gere resultados.</p>



<p>O Conselho Nacional de Saúde declarou que, diante do quadro, é urgente que o Supremo Tribunal Federal (STF) declare como inconstitucional qualquer medida que retira dinheiro da saúde. Não só por causa do Covid-19, mas também pela necessidade constante de enfrentar a piora recente da mortalidade infantil e outras doenças, como dengue, sarampo, sífilis, HIV/Aids e tuberculose, além de desastres socioambientais como o de Brumadinho e o derramamento de petróleo no Litoral do país.</p>



<p>A cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, que, há anos, sofre com essas outras doenças, terá que enfrentar a pandemia de Covid-19 com 300 equipes de saúde da família a menos, extintas durante a gestão Crivella, 100 equipes incompletas e boa parte dos trabalhadores contratados por Organizações Sociais (OS) demitidos. Os números são da Rede Nacional de Médicos e Médicas Populares.</p>



<p>A rede coloca em questão a degradação das condições de vida da população desde a crise econômica mundial de 2008 no Brasil, o golpe de Estado de 2016 e a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. “Aumento do desemprego, da informalidade e de vínculos trabalhistas frágeis, enfraquecimento do sistema de proteção social por meio da reforma trabalhista, da reforma da previdência e do congelamento do orçamento da Saúde até o ano de 2036 são medidas que contribuíram para a situação atual”.</p>
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		<title>Desarticulação do atendimento no SUS prejudica crianças com microcefalia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Mariama Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Aug 2019 11:58:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Desde novembro de 2015, quando o Ministério da Saúde declarou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional por causa do surto do vírus Zika, algumas medidas foram tomadas para fortalecer a rede de atenção.&#160;Em Pernambuco houve a descentralização e a ampliação da rede para atender os nascidos com microcefalia, de duas instituições para atualmente 34 [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[Desde novembro de 2015, quando o Ministério da Saúde declarou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional por causa do surto do vírus Zika, algumas medidas foram tomadas para fortalecer a rede de atenção.&nbsp;Em Pernambuco houve a descentralização e a ampliação da rede para atender os nascidos com microcefalia, de duas instituições para atualmente 34 unidades de referência. Ainda assim as famílias relatam dificuldades para marcar consultas e tratamentos.

<strong>Leia a primeira parte da reportagem: </strong>

<a href="http://marcozero.org/?p=17863&amp;preview=true"><strong>Quatro anos depois do surto do Zika, crianças com microcefalia ainda não têm assistência adequada</strong></a>

“Sei de mães que esperam na fila por anos para ter acesso a uma fisioterapia.&nbsp;Muitas vezes só conseguimos marcar terapias de 15 em 15 dias. Isso prejudica o desenvolvimento porque elas precisam se estímulos diários, cada pequeno avanço é uma vitória”, explica Germana Soares, presidente da União de Mães de Anjos (UMA). “Imagine se seu filho só vai para escola de 15 em 15 dias? O que ela vai aprender?”, questiona.

Bernadete Perez, pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), acompanha crianças que nasceram com microcefalia no estado desde 2015, ano do pico do número de casos, para analisar rede de assistência do ponto de vista clínico e psicossocial. “O problema é que a rede pública é desarticulada. As equipes não se comunicam, os tratamentos não são coordenados e não se considera as particularidades do desenvolvimento de cada indivíduo”, analisa.

A pesquisa realizada por ela em Pernambuco&nbsp; constatou problemas como a demora da resposta por parte do poder público às complicações desenvolvidas pelas crianças ao longo do tempo de crescimento; a falta de continuidade de atendimento quando os bebês saem da maternidade; a falta de comunicação entre as equipes de saúde, entre outros.

Apesar de todas as queixas das mães e das constatações da pesquisadora, feitas com bases científicas, do ponto de vista do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) não há problemas da rede de assistência pública. Um inquérito de dois anos que investigava falhas nos atendimentos às crianças com microcefalia no estado foi encerrado no fim do ano passado e “todos os problemas foram sanados”, garante a promotora do MPPE, Helena Capela. “As famílias se queixavam que&nbsp;tinha que andar mais de 200 km para serem atendidas, isso foi resolvido com a descentralização das unidades. Também pediam a liberação do medicamento anticonvulsivante, o Kepra, que foi incorporado pela farmácia do Estado antes mesmo de ter sido incorporado no SUS”, detalha.

Sobre os problemas no SUS, a secretaria de Saúde de Pernambuco informou que tem incorporado medicações para atender às necessidades clínicas das crianças com microcefalia e feito investimentos na contratação de profissionais e na rede de assistência (reproduzimos&nbsp; parte das respostas no fim da reportagem). Por três vezes, o ministério da Saúde pediu que reenviássemos o e-mail com perguntas alegando não ter recebido a mensagem. O primeiro envio foi feito em 25 de julho. O último em 2 de agosto. Até o momento da publicação, a reportagem não recebeu respostas do ministério.
<h4><b>Sinal de alerta na saúde e desamparo social</b></h4>
Liana Ventura é médica da Fundação Altino Ventura (FAV), onde funciona um centro de atendimento que reabilita 156 crianças com microcefalia pelo SUS. Depois de uma avaliação global, elas recebem um plano terapêutico específico para cada caso com estímulos diversos. A família também é incluída no acompanhamento,&nbsp; que conta com grupo de apoio psicológico e social.

Esse modelo de assistência articulada e mais completo é o ideal por ser o que melhor contribui para o desenvolvimento dos pacientes, defende Liana, mas é preciso investir. Em vez de avançar neste sentido, a assistência pública mostra retrocessos. Por limitações financeiras, por exemplo, a FAV não consegue atender mais crianças no centro de reabilitação. Há meses o governo de Pernambuco atrasa repasses para a instituição. “O que recebemos cobre apenas o custeio no centro de reabilitação. Precisaríamos contratar mais profissionais para ampliar nossa capacidade de atendimento”, comenta a médica.

<div id="attachment_17917" style="width: 710px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/Credito-Izabele-Brito-12.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-17917" class="wp-image-17917 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/Credito-Izabele-Brito-12.jpg" alt="Centro de reabilitação da FAV incorpora vários tratamentos (Crédito: Izabele Brito/Fundação Altino Ventura)" width="700" height="467"></a><p id="caption-attachment-17917" class="wp-caption-text">Centro de reabilitação da FAV incorpora vários tratamentos (Crédito: Izabele Brito/Fundação Altino Ventura)</p></div>

O comprometimento dos investimentos na saúde pública é um problema no Brasil&nbsp; diante do endividamento de municípios, estados e dos contingenciamentos do orçamento Federal com a imposição do teto de gastos do governo. Tudo isso recai no sucateamento do SUS, no desabastecimento de medicamentos em farmácias públicas e em outros desajustes que aprofundam o abismo entre a assistência ofertada e as necessidades das crianças com microcefalia, cuja maioria é de baixa renda.
<blockquote><strong>90% das famílias de crianças com microcefalia em Pernambuco vivem com um salário mínimo, geralmente do Benefício de Prestação Continuada (BPC)</strong></blockquote>
O desamparo escancara o descaso do Estado com populações mais vulneráveis e pessoas com deficiência. &#8220;Quase que a totalidade das famílias vitimadas por essa epidemia são de baixa renda. Não têm acesso à saneamento básico, nem oferta de água permanente, fatores que contribuíram para que o vírus se alastrasse&#8221;,&nbsp;aponta a pesquisadora da Fiocruz, Tereza Maciel, autora de estudo sobre impactos sociais do Zika vírus.&nbsp;&#8220;O Estado é culpado tanto pela epidemia, quanto por não fornecer atendimento e qualidade de vida às crianças. Os governos nunca foram penalizados, as famílias jamais receberam qualquer indenização&#8221;, desabafa Germana Soares, que, além de presidir a UMA também é mãe de criança com microcefalia.

<a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/Perfil-das-famílias-de-crianças-com-microcefalia-associada-ao-Zika-em-Pernambuco.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-17933" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/Perfil-das-famílias-de-crianças-com-microcefalia-associada-ao-Zika-em-Pernambuco-623x1024.jpg" alt="Perfil das famílias de crianças com microcefalia associada ao Zika em Pernambuco" width="300" height="492"></a>

Germana narra a luta das&nbsp;mães, que muitas vezes cuidam das crianças sozinhas. &#8220;Todos os meses é uma briga. Quando não é a falta de leite, que já ficou quatro meses sem ser fornecido pela rede pública, é um tratamento que deixa de ser oferecido ou tem que insistir para liberar um remédio na Farmácia do Estado&#8221;, comenta. No mês passado, 22 famílias de crianças com microcefalia em Pernambuco tiveram o BPC bloqueado sem aviso prévio do Governo Federal. &#8220;As pessoas ficaram sem ter o que comer. Quatro anos depois do surto do Zika o BPC ainda não foi universalizado. Ou seja, se a família tiver outra fonte de renda é retirada do benefício”, comenta a presidente da Associação de Mães e Famílias Raras (Amar), Poliana Dias.

Tantas agruras no cotidiano também causam o adoecimento das famílias. &#8220;Essas pessoas sofreram todo tipo de preconceito e de violência psicológica&#8221;, comenta a médica Liana Ventura. Ela diz que quando os casos começaram a surgir, havia muita desinformação. Por isso, muitas mulheres só descobriram a condição dos filhos no parto. &#8220;As pessoas apontavam as crianças na rua, achavam que era contagioso. Era horrível&#8221;, lembra.

Nadja Bezerra recorda que Alice foi desenganada pelos médicos ainda na sua barriga. &#8220;Comecei a gritar no consultório. Alice não teve chá de fraldas, porque eu não tinha esperança que ela sobrevivesse. As coisas do quarto dela ficaram empacotadas durante toda a gestação&#8221;. O trauma da mãe jamais foi&nbsp;superado, até porque&nbsp;falta estrutura para acompanhamento psicológico direcionado às famílias dessas crianças no estado.

Tereza Maciel, da Fiocruz, lembra que a maioria dos bebês com microcefalia não vieram de uma gestação planejada. Embora a rede pública distribua contraceptivos, falta orientação. Foi assim no caso de Nadja, que não esperava engravidar novamente aos 42 anos, mas suspendeu o anticoncepcional por orientações médicas. &#8220;Ele disse que a essa altura da vida não tinha mais perigo de engravidar. Quando os sintomas da gestação apareceram, pensei que estava na menopausa”, recorda.

<div id="attachment_17902" style="width: 712px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/MZC_4250.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-17902" class="wp-image-17902 size-large" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/MZC_4250-1024x683.jpg" alt="Nadja se dedica integralmente à filha Alice (Foto: Inês Campelo/MZ Conteúdo)" width="702" height="468"></a><p id="caption-attachment-17902" class="wp-caption-text">Nadja se dedica integralmente à filha Alice (Foto: Inês Campelo/MZ Conteúdo)</p></div>

A dedicação dela à Alice é comovente. Ainda assim, ela diz que gostaria de voltar a trabalhar, mas os cuidados com a filha a impedem. Está com depressão. A maior carga dos problemas familiares termina recaindo sempre sobre os ombros das mulheres, lembra a pesquisadora da Fiocruz, Tereza Maciel. “Muitos maridos abandonaram o lar. Sobrou para a mãe cuidar da criança, abandonar o trabalho, o estudo, os sonhos”. O adoecimento psicológico é uma consequência. &#8220;Ninguém preparou essas mães para terem um filho com deficiência.&#8221;, ressalta Germana Soares da UMA. &#8220;A vida só foi lá e entregou a criança”.
<h4>Ameaça constante</h4>
A assistência de saúde tem regredido de modo geral no Brasil, na avaliação Bernadete Perez, pesquisadora da UFPE. Ela acreditam que essa realidade é fruto de um retrocesso social percebido no aumento da desigualdade, da pobreza, de doenças evitáveis como sarampo e da mortalidade infantil, que parou de cair. O enxugamento de financiamentos para pesquisas por parte do Governo Federal é outro sintoma dessa involução.
<blockquote><em><strong>“No começo do surto houve um investimento, mas agora deixou de ser prioridade. Se os cortes se confirmarem, o impacto na produção acadêmica pode atrasar a vacina contra o Zika, que ainda está sendo testada, e pesquisas importantes para antecipar complicações das crianças com microcefalia que podem orientar tratamentos”, considera Tereza Maciel, da Fiocruz.&nbsp;&nbsp;</strong></em></blockquote>
Como os problemas socioambientais não foram resolvidos, o vírus da Zika continua sendo uma ameaça constante no Brasil, assim como a dengue e a chikungunya, outras arboviroses transmitidas pelo mesmo mosquito. Depois de dois anos sem notificações, nascimentos de crianças com microcefalia pelo Zika foram registrados no final do ano passado. Em Pernambuco, um nascimento foi confirmado este ano e outros estão sendo investigados. Até maio, a secretaria estadual de Saúde de registrou crescimento de 158,1% nas notificações de Zika, 73,2% nas de chikungunya e 68,4% nas de dengue. A preocupação dos estudiosos e médicos é que os casos de microcefalia voltem a aumentar com a chegada do Verão, em dezembro, quando os mosquitos costumam se multiplicar.
<h4><strong>Leia alguns trechos das respostas enviadas pela secretaria de Saúde de Pernambuco:&nbsp;</strong></h4>
<blockquote><strong>Sobre os atendimentos:</strong>

As unidades de atendimento estão em todas as 12 Regiões de Saúde, ou seja, cada uma das Regiões conta com no mínimo um serviço estadual de referência para reabilitação e isto tem um impacto importante para estas famílias, que não precisam percorrer grandes distâncias para garantirem o atendimento. Atualmente, essa distância foi reduzida para menos de 50 quilômetros de distância.

<strong>Sobre treinamentos e profissionais de saúde na rede pública</strong>

Com o intuito de qualificar e padronizar o atendimento em todos os serviços de saúde que atendem as crianças com microcefalia, todas as equipes multidisciplinares dos serviços de referência para as crianças com SCZ/microcefalia receberam capacitação para prestar esse tipo de assistência. Entre 2016 e 2018, cerca de 3 mil profissionais de saúde de diversas especialidades e de diversos serviços, como das Unidades Pernambucanas de Atenção Especializada (UPAEs) e dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASFs), participaram de capacitações que abordaram temas como os atendimentos de urgência e emergência, estimulação precoce, reabilitação e o cuidado na puericultura. Entre as atividades, aulas teóricas e presenciais na AACD, unidade de referência de reconhecida expertise em reabilitação.

<strong>Sobre <em>home care</em> pelo SUS</strong>

O Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil não possui <em>home care</em> no seu rol de procedimentos, que é estabelecido pelo Ministério da Saúde (MS). O que existe é o serviço de assistência domiciliar, de responsabilidade dos municípios.

<strong>Sobre rol de procedimentos</strong>

O rol de procedimentos vem sendo ampliado de acordo com as necessidades apresentadas pelas crianças. A rede tem ofertado sessões de fisioterapia, cirurgias (gastrostomia, procedimentos ortopédicos), aplicação de toxina botulínica, entre outros. Importante reforçar que os tratamentos e planos terapêuticos são indicados pelas equipes multiprofissionais de acordo com a necessidade e evolução de cada paciente. Além disso, o Núcleo de Apoio às Famílias de Crianças com Microcefalia atua permanentemente para monitorar e acompanhar, de modo regionalizado, as crianças notificadas durante toda a linha do cuidado, além de prestar apoio às famílias e desenvolver estratégias para garantir seus direitos.</blockquote><p>O post <a href="https://marcozero.org/desarticulacao-do-atendimento-no-sus-prejudica-criancas-com-microcefalia/">Desarticulação do atendimento no SUS prejudica crianças com microcefalia</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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