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	<title>Arquivos fake news evangélicos - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos fake news evangélicos - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>ASA mobiliza semiárido para impedir que desinformação ameace vacinação na zona rural</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Mar 2021 11:34:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Articulação do Semiárido (ASA)]]></category>
		<category><![CDATA[desinformação]]></category>
		<category><![CDATA[fake news evangélicos]]></category>
		<category><![CDATA[Semiárido]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>De tanto receber mensagens assustadoras pelo WhatsApp, José Ferreira dos Santos, de 70 anos, já andava ressabiado, mas a imagem de uma técnica de enfermagem que, por engano, aplicou uma seringa vazia em uma idosa na fila de vacina em Alagoas foi a gota d’água. No dia em que assistiu ao vídeo – encaminhado em [&#8230;]</p>
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<p>De tanto receber mensagens assustadoras pelo WhatsApp, José Ferreira dos Santos, de 70 anos, já andava ressabiado, mas a imagem de uma técnica de enfermagem que, por engano, aplicou uma seringa vazia em uma idosa na fila de vacina em Alagoas foi a gota d’água. No dia em que assistiu ao vídeo – encaminhado em um grupo no aplicativo -, ele avisou à esposa, aos oito filhos e 22 netos que não queria se vacinar.</p>



<p>Sua decisão, contudo, não era assim tão firme. Os técnicos do <a href="http://irpaa.org/#(abrir em uma nova aba)">Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada</a> (IRPAA), organização não-governamental que há 30 anos atua no lado baiano do Vale do São Francisco, o convenceram a voltar atrás. Agora, ele está ansioso, esperando que as vacinas para sua faixa etária cheguem logo ao posto de saúde do distrito de Salitre, em Juazeiro. “A hora que a vacina chegar eu tomo. Pode ser qualquer uma. Eu quero é me livrar logo dessa peste”, garantiu Zé Reis, como o agricultor é conhecido na região por ter nascido em 6 de janeiro, dia de Reis.</p>



<p>Como Zé Reis está sempre presente nas atividades dos projetos de agroecologia implantados pelo IRPAA e ainda é bastante ativo, comercializando frutas, verduras e animais nas feiras de Juazeiro, não foi assim tão difícil afastá-lo da influência dos conteúdos distorcidos que chegavam pelo seu celular. Nem sempre é assim. Por isso, as quase três mil de entidades do campo que fazem parte da <a href="http://asabrasil.org.br">Articulação do Semiárido Brasileiro</a> (ASA) iniciaram uma campanha para reduzir o impacto da desinformação e das notícias falsas sobre as vacinas da covid-19 na região.</p>



<p>A mobilização para combater a desinformação virou prioridade na instituição que se notabilizou pela construção de mais de um milhão de cisternas nos nove estados do nordeste e norte de Minas Gerais.</p>



<p>O coordenador-geral da ASA, Alexandre Pires, chegou a passar uma mensagem pessoal para as equipes das entidades que atuam no campo pedindo para “que se articulem, exijam e defendam publicamente a vacina gratuita pelo SUS e também esclareçam a população do Semiárido sobre os benefícios da vacina em um esforço de fazer frente às <em>fake news</em> que ganham força no semiárido rural e têm dificultado a adesão da população à campanha de vacinação”.</p>



<p>A iniciativa de Alexandre destoa da prática usual da coordenação da ASA, que costumar se comunicar usando os canais institucionais, mas reflete o grau de urgência que o assunto assumiu.</p>



<p>Um dos editores do <a href="https://projetocomprova.com.br/">Projeto Comprova</a>, Sérgio Ludtke, considera fundamental a iniciativa da ASA. “Sempre repito que não cabe apenas aos jornalistas enfrentar a desinformação. É uma tarefa grande demais para o jornalismo. É necessário que as organizações da sociedade civil façam esse enfrentamento. Outros setores também precisam entrar nesse esforço. Já passou da hora, aliás”. O Comprova é uma articulação de dezenas de veículos para, de maneira colaborativa, “identificar e enfraquecer as sofisticadas técnicas de manipulação e disseminação de conteúdo enganoso”.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/nao-e-so-auxilio-emergencial-rede-de-desinformacao-mantem-popularidade-de-bolsonaro/" class="titulo">Não é só auxílio emergencial: rede de desinformação mantém popularidade de Bolsonaro</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/democracia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Democracia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<h2 class="wp-block-heading">Contra-ataque pelo WhatsApp</h2>



<p>A responsável pela comunicação da entidade, Fernanda Cruz, revelou que sua equipe recebeu a incumbência de “elaborar conteúdos, pensar estratégias para ativar a rede de comunicadores que já atua nos projetos da ASA e mapear novas pessoas que possam distribuir os conteúdos para enfrentar a desinformação”.</p>



<p>Fernanda explica que os primeiros alertas sobre os estragos da desinformação chegaram exatamente por meio da rede espalhada pelos 1.262 municípios do semiárido. “O objetivo é identificar quem, entre os milhares de agricultores que trabalham com as entidades, poderá atuar nos grupos de zap, de outros aplicativos ou mesmo grupos físicos, off-line, para esclarecer o que é verdade e se posicionar diante de quem repassa o conteúdo <em>fake</em>”, explica Fernanda.</p>



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	                                        <p class="m-0">Rede de comunicadores da ASA está enviando por zap conteúdos como este</p>
	                
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<p>Recorrer aos grupos de WhatsApp é uma tentativa de fazer o veneno virar remédio. De acordo com a equipe da ASA, nas áreas rurais o smartphone tem três usos mais frequentes: para fazer fotos ou vídeos, como telefone tradicional quando há sinal e, principalmente, para troca de mensagens de zap. “As pessoas não costumam ter crédito de 4G para navegar em sites de notícias, não costumam checar a informação e acreditam naquilo que foi enviado por parentes”, explica Fernanda.</p>



<p>Partiu da serra da Borborema, na Paraíba, um das primeiras iniciativas para conter a desinformação no semiárido. As entidades que formam o chamado Polo da Borborema &#8211; sindicatos de trabalhadores rurais, as 150 associações comunitárias, a EcoBorborema (associação regional de agricultores ecológicos) e a equipe da organização não-governamental <a href="https://aspta.org.br/">AS-PTA</a> &#8211; perceberam ainda no início da pandemia que era preciso se contrapor às mensagens fraudulentas que chegavam, impulsionadas pelo discurso do presidente Jair Bolsonaro.</p>



<p>O braço da ASA na Paraíba produziu e distribuiu uma série de “<a href="https://www.facebook.com/306856726186497/videos/239658007481527/">zap-novelas</a>”, pequenos áudios com diálogos entre personagens que desmentiam os conteúdos falsos que circulavam no momento. “A desinformação provocou uma interiorização rápida da doença, pois no meio da quarentena muita gente saiu das cidades para a zona rural sem tomar nenhum cuidado”, contou Adriana Galvão Freire, assessora técnica da AS-PTA, entidade que integra tanto o Polo Borborema quanto a ASA no estado.</p>



<p>No final de outubro, a ONG voltou a realizar encontros presenciais entre os agricultores e agricultoras, porém reduzindo o número de presentes. Naquele momento, Adriana percebeu que a maioria das pessoas ainda via a covid-19 como algo distante: “Isso mudou, agora todas as famílias têm pessoas que adoeceram, então agora já não é preciso insistir para que usem a máscara. No início, era preciso pedir, mas o contato pessoal foi importante para que pudéssemos argumentar e desconstruir a desinformação”.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Os evangélicos e as mentiras</strong></h3>



<p>A mentira encontra terreno fértil entre os evangélicos do semiárido. No oeste do Rio Grande do Norte, a técnica de campo do Centro Feminista 8 de Março (CF8), Arineide Carlos da Silva, revela que “a grande influência para aumentar essa reação às vacinas vem de algumas religiões. As mulheres evangélicas acreditam que não precisam tomar a vacina nem usar máscaras porque Deus vai curar”. Sediada em Mossoró, a 279 quilômetros de Natal, o CF8 atua oferecendo assessoria e formação a grupo de mulheres camponesas da região.</p>



<p>“A maior parte das mulheres com quem trabalhamos é católica. Entre essas, todas dizem que vão se vacinar e até fiscalizar quem está se vacinando, mas quando o grupo tem uma ou duas evangélicas, essas falam de forma que tentam meter medo nas outras”, revela Arineide. As integrantes do CF8 também passaram a priorizar o desmentido das informações falsas em sua rotina.</p>



<p>O papel central dos pastores, missionários e diáconos na disseminação da mentira também acontece na Paraíba. Adriana Galvão afirma que, apesar do catolicismo ainda ser predominante na Borborema, é exatamente entre os agricultores evangélicos que os impactos da desinformação são mais intensos.</p>



<p>Adriana também adiciona uma reflexão ao tema: “O fechamento das escolas também está contribuindo para a desinformação, pois a sala de aula é um espaço de diálogo constante entre professores e adolescentes, o que ajudaria a desconstruir essas narrativas falsas”, especula a técnica da AS-PTA. Numa região onde até quatro gerações de uma família convivem na mesma propriedade, os argumentos dos jovens poderiam ser o contraponto à desinformação que chega por zap.</p>



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	                                        <p class="m-0">Material distribuído por zap pelas organizações do campo</p>
	                
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<h4 class="wp-block-heading"><strong>Comunidade da fé</strong></h4>



<p>Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e integrante do <a href="https://coletivobereia.com.br/">Coletivo Bereia</a>, uma iniciativa de combate à desinformação formada por jornalistas e pesquisadores cristãos, Magali do Nascimento Cunha não se surpreende com as notícias de que os evangélicos são disseminadores de desinformação no semiárido. Segundo ela, “conhecendo as raízes históricas das igrejas evangélicas no Brasil é possível entender o contexto e o imaginário onde esses conteúdos falsos se propagam”.</p>



<p>A base conservadora das igrejas evangélicas no Brasil, principalmente das pentecostais, faz uma leitura literal da bíblia na qual os fiéis são formados para obedecer ao pastor, bispo e demais lideranças da igreja. “Essa obediência estende-se às autoridades. Com a aliança política entre Bolsonaro e essas igrejas, o discurso do presidente foi incorporado ao discurso dos pastores, inclusive para a pandemia”, explica Magali.</p>



<p>A pesquisadora, que é colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas, com sede na Suíça, continua a destrinchar as razões da desinformação entre os evangélicos: “Eles são muito apegados ao que se chama ‘comunidade da fé’, assim os conteúdos que circulam nessa comunidade, ou seja, entre os fiéis, têm muita relevância”. Nas ‘comunidades da fé’, de acordo com Magali, há a “demonização dos inimigos da fé”. A vacina e o vírus seriam parte de uma grande conspiração contra um governo aprovado por Deus.</p>



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		<title>Panfletos distorcem frase de Marília Arraes sobre a Bíblia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Nov 2020 23:03:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[desinformação]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições 2020]]></category>
		<category><![CDATA[fake news evangélicos]]></category>
		<category><![CDATA[Marília Arraes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Conteúdo verificado: Panfletos e posts no Facebook segundo os quais Marília Arraes, candidata à Prefeitura do Recife, quis proibir a leitura da Bíblia na Câmara dos Vereadores e que é impossível cristãos apoiarem sua eleição São enganosos os panfletos e posts afirmando que a deputada federal Marília Arraes (PT), candidata à Prefeitura do Recife, quis [&#8230;]</p>
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<p><strong>Conteúdo verificado</strong>: <strong>Panfletos e posts no Facebook segundo os quais Marília Arraes, candidata à Prefeitura do Recife, quis proibir a leitura da Bíblia na Câmara dos Vereadores e que é impossível cristãos apoiarem sua eleição</strong></p>



<p>São enganosos os panfletos e posts afirmando que a deputada federal Marília Arraes (PT), candidata à Prefeitura do Recife, quis proibir a leitura da Bíblia nas sessões da Câmara dos Vereadores da capital pernambucana quando era vereadora. Os materiais alegam que “cristão de verdade” não vota na petista e estampam um trecho de uma fala da candidata retirada de contexto.</p>



<p>Os conteúdos verificados dão a entender que a petista seria contra a Bíblia, mas escondem que a frase destacada envolvia uma defesa do estado laico e não uma ação anti-Bíblia.</p>



<p>A frase de Marília que aparece no panfleto é a seguinte: “Inclusive, na edição do novo regimento, me posicionei contra se manter o costume de se ler passagens da Bíblia e se falar em nome de Deus”. A candidata fez essa declaração em 2017, em entrevista à <a href="https://www.folhape.com.br/noticias/mppe-recomenda-proibicao-de-praticas-liturgicas-na-camara/25013/">Folha de Pernambuco</a>, ao comentar a decisão do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) de recomendar a proibição de práticas religiosas na Câmara.</p>



<p>Os panfletos não são assinados e, após um pedido da candidata, a <a href="https://jc.ne10.uol.com.br/politica/2020/11/amp/12001197-justica-eleitoral-proibe-distribuicoes-de-panfletos-contra-marilia-arraes.html">Justiça Eleitoral determinou</a> que eles não fossem mais distribuídos.</p>



<p>O <a href="https://pt.org.br/nao-caia-em-fake-news-marilia-arraes-nao-e-contra-a-biblia-e-pt-nao-persegue-cristaos/">site do PT</a>, partido da candidata, publicou um texto afirmando ser falso que Marília seja contra a Bíblia e os cristãos. O Comprova procurou a assessoria de imprensa da candidata, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.</p>



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<h2 class="wp-block-heading">Como verificamos?</h2>



<p>O Comprova buscou reportagens antigas, em jornais de Pernambuco e nos sites e redes sociais da Câmara de Vereadores do Recife, para descobrir se a frase atribuída a Marília Arraes existia e qual o contexto em que teria sido dita. A reportagem buscou também o Ministério Público de Pernambuco (MPPE), para ter acesso à resolução que motivou a declaração da candidata, e o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PE), para saber quais as medidas judiciais em torno da distribuição dos panfletos e publicações na internet.</p>



<p>A página que publicou as postagens foi procurada, bem como a assessoria de comunicação da petista e do candidato do PSB, João Campos. Também foram consultadas publicações nas páginas de redes sociais de ambos, e entrevistas anteriores, para saber o posicionamento de Marília sobre temas correlatos ao da declaração mencionada nas postagens checadas. O programa de governo da candidata e o site do PT também foram usados para a checagem.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Verificação</h3>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Marília e a leitura da Bíblia na Câmara dos Vereadores</strong></li></ul>



<p>A declaração de Marília Arraes, que aparece nas imagens publicadas na internet, foi extraída de <a href="https://www.folhape.com.br/noticias/mppe-recomenda-proibicao-de-praticas-liturgicas-na-camara/25013/">uma reportagem</a> publicada na Folha de Pernambuco, no dia 21 de abril de 2017. O jornal repercutiu entre os parlamentares uma resolução do Ministério Público de Pernambuco que recomendava que o presidente da Câmara de Vereadores do Recife se abstivesse de “autorizar/permitir a realização naquela casa legislativa e/ou seus anexos, de reunião/encontro ou assemelhado, em que haja a prática de liturgias e rituais próprios de cultuação religiosa.”</p>



<p>Marília Arraes foi consultada sobre a recomendação do MPPE por, na época, ocupar o cargo de líder da oposição na Câmara. De acordo com a reportagem, a frase completa dita por ela foi: “A defesa do Estado Laico é uma luta que vem sendo travada desde o primeiro mandato. Inclusive, na edição do novo regimento me posicionei contra se manter o costume de se ler passagens da Bíblia e se falar no nome de Deus. A gente tem que prezar pelo Estado Laico, principalmente pelo momento de retrocesso que a gente vive no Brasil”, ressaltou.</p>



<p>Segundo a reportagem, em continuação, Marília Arraes disse que iria estudar uma forma de retirar a Bíblia do plenário, porém que era “importante frisar que esse posicionamento nosso não é contra qualquer religião. Ele é, sim, a favor de todas elas e para que a gente tenha um Estado sem discriminação”. A <a href="https://www.youtube.com/watch?v=6F9y9AVrFyU">TV Câmara do Recife</a> registrou os posicionamentos dos parlamentares no plenário, no dia em que foi expedida a recomendação do MPPE, mas lá não consta a frase de Marília Arraes nem qualquer manifestação da petista.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>O contexto da fala de Marília Arraes</strong></li></ul>



<p>A frase foi dita por Marília Arraes no contexto da <a href="http://www.mppe.mp.br/mppe/sou-ministerio/diario-oficial-link-sou-mppe/category/474-diario-oficial-2017?download=4423:diario-oficial-do-estado-mppe">recomendação número 002/2017</a>, publicada pelo Ministério Público de Pernambuco no Diário Oficial do dia 20 de abril de 2017. Na época, a 27ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania da Capital Promoção e Defesa do Patrimônio Público fez a recomendação considerando um procedimento preparatório para apurar “o pretenso uso das dependências da Câmara Municipal do Recife para a realização de evento religioso.”</p>



<p>O MPPE deu 20 dias para que a Câmara dos Vereadores, na figura do presidente, informasse à Promotoria de Justiça sobre as providências adotadas em face da recomendação. O tema foi alvo de matérias na imprensa local, na <a href="https://www.folhape.com.br/colunistas/blogdafolha/2419-VEREADORAS-CONDENAM-RECOMENDACAO-SOBRE-CULTOS-CAMARA-RECIFE/2745/?fb_comment_id=1569166979760399_1569209799756117">Folha de Pernambuco</a>, <a href="https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/politica/2017/04/religiao-levanta-polemica-entre-vereadores-do-recife-e-ministerio-publ.html">Diario de Pernambuco</a> e no <a href="https://blogs.ne10.uol.com.br/jamildo/2017/04/24/depois-de-michele-collins-irma-aimee-sai-em-defesa-de-cultos-na-camara-do-recife/">Blog do Jamildo</a>, do Jornal do Commercio. O tema também motivou manifestações dos parlamentares em <a href="https://www.youtube.com/watch?v=bn8ZWl55eds">reuniões ordinárias</a> de abril de 2017.</p>



<p>O <a href="http://www.recife.pe.leg.br/atividade-legislativa/regimento-interno-1/regimento-interno-05062020.pdf">regimento</a> da Câmara dos Vereadores do Recife diz que “a Bíblia Sagrada deverá ficar, durante todo o tempo da reunião, aberta sobre a mesa, à disposição de quem dela pretender fazer uso” e também diz que “achando-se presente na Casa, pelo menos, a quinta parte do número total de Vereadores, desprezada a fração, o Presidente declarará aberta a reunião, proferindo as seguintes palavras: ‘Sob a proteção de Deus e em nome do povo recifense, iniciamos nossos trabalhos’”.</p>



<p><a href="https://projetocomprova.com.br/wp-content/uploads/2020/11/null-68.png?x70685">Por e-mail</a>, o Ministério Público afirmou que “a recomendação foi feita em caráter preventivo e que o MPPE não tomou conhecimento de que a Câmara de Vereadores do Recife tenha descumprido a recomendação.”</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Cartazes apócrifos motivaram ações</strong></li></ul>



<p>Os panfletos não possuem assinatura. A candidatura de Marília Arraes apresentou uma representação à Justiça Eleitoral para impedir a circulação desses panfletos e informou que eles estariam sendo entregues em frente a uma igreja no dia 22 de novembro. A defesa da candidata alegou que a campanha do adversário João Campos (PSB) “foi responsável pela confecção e patrocínio da entrega do material, pois os adesivos colados no carro utilizado na distribuição e o material elogioso do candidato entregue com a publicidade combatida apresentam design típico de sua campanha impresso em alta qualidade”.</p>



<p>Na decisão, a juíza da 7ª Zona Eleitoral de Recife, Virgínia Gondim Dantas, deferiu liminar em favor da candidata petista <a href="https://jc.ne10.uol.com.br/politica/2020/11/amp/12001197-justica-eleitoral-proibe-distribuicoes-de-panfletos-contra-marilia-arraes.html">proibindo a distribuição do material</a> e acolheu o argumento da coligação que sustentava se tratar de propaganda irregular, ao dizer que a distribuição dos materiais impressos foi “levada a efeito de forma irregular, por não constar em nenhum deles a identificação do responsável pela confecção, assim como quem o contratou e a tiragem”. Essas informações são obrigatórias em materiais de propaganda de candidaturas, segundo resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).</p>



<p>A magistrada também apontou na liminar que a propaganda “não poderia ser divulgada porque, além da característica [de campanha] negativa, apresenta contornos de fake news, uma vez que induz o eleitor que professa a fé cristã a ter sentimentos de ódio e ojeriza pela candidata, porquanto imputa fatos notadamente inverídicos e ensejadores do repúdio da população”, segundo um trecho da decisão.</p>



<p>A coligação liderada por João Campos se manifestou ao ser citada na representação da candidatura adversária e negou qualquer relação com os materiais. O grupo disse tratar-se de “propaganda apócrifa, sem qualquer informação acerca da coligação ou do responsável pela confecção”, e que não há prova de autoria ou de conhecimento do fato por parte da campanha de Campos.</p>



<p>Em uma série de <a href="https://www.instagram.com/p/CH8wo48lFKT/">postagens no Instagram</a> no dia 23 de novembro, João Campos também negou relação com os materiais e disse que “jamais autorizaria qualquer tipo de ataque de baixo nível”. Ele afirmou ainda que foi “o primeiro a pedir ao Ministério Público a apuração de denúncias sobre materiais apócrifos vistos no Recife. De minha parte, nunca irão surgir ataques pessoais, baixarias, acusações ou notícias falsas.”</p>



<p>Procurado pelo Comprova, a assessoria de Campos não retornou a mensagem até a publicação desta verificação.</p>



<p>Além da representação com pedido de liminar para proibir a circulação dos panfletos, a campanha de Marília Arraes também moveu uma Ação de Investigação da Justiça Eleitoral contra Campos e sua candidata a vice Isabella de Roldão (PDT) por suposta prática de abuso de poder econômico na distribuição dos materiais. Esta ação ainda não havia sido analisada pela Justiça eleitoral até as 13h de 26 de novembro de 2020.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Onde os panfletos foram compartilhados</strong></li></ul>



<p>As informações de que Marília Arraes teria tentado proibir a leitura da bíblia na Câmara de Vereadores foram publicadas em uma montagem com a foto da candidata à prefeita, acima da imagem de uma bíblia com sinal de proibição e uma frase entre aspas atribuída à Marília, dizendo que ela teria se posicionado contra a leitura da Bíblia “na edição do novo regimento”.</p>



<p>Este mesmo panfleto que circulou em versão impressa em Recife aparece publicado por usuários no Facebook em um grupo de apoio à candidata a prefeita de Recife, Delegada Patrícia (Podemos), que ficou em quarto lugar no primeiro turno e que recebeu apoio do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Um usuário publicou no mesmo grupo outra versão do panfleto com informações semelhantes, de que Marília Arraes “tirou a bíblia da Câmara do Recife”, de que o “PT persegue cristãos em todo o Brasil”, entre outras acusações.</p>



<p>A postagem do primeiro cartaz também foi replicada em um grupo chamado “Bolsonaro Pernambuco”. A fotografia desta montagem em formato impresso foi compartilhada ainda pela página “Assembleianos de VALOR” no Facebook. Neste caso, a imagem foi publicada junto com uma frase questionando se “um grande número de ‘cristãos’ votarão nela [Marília Arraes]?”. A postagem também copia um <a href="https://www.folhape.com.br/colunistas/blogdafolha/pastor-cleiton-collins-reafirma-apoio-a-joao-e-tenta-trazer-eleitor-cristao-para-o-psb-contra-o-pt/21698/">texto do jornal Folha de Pernambuco</a> sobre o apoio do pastor Cleiton Collins (Progressistas), que é deputado estadual e tem influência no meio evangélico, à candidatura de João Campos (PSB).</p>



<p>Procurada pelo Comprova, a página que compartilhou a foto do panfleto <a href="https://projetocomprova.com.br/wp-content/uploads/2020/11/image.png?x70685">respondeu</a> que o conteúdo estaria publicado no jornal Folha de Pernambuco. A página foi questionada se possuía alguma comprovação de que um pedido de retirada da Bíblia haveria partido de Marília Arraes, mas, até a publicação desta checagem, não enviou novas mensagens.</p>



<p>A página Assembleianos de VALOR tem 881 mil curtidas e publica a maior parte do conteúdo sobre religião. No entanto, no último mês há postagens favoráveis ao presidente Jair Bolsonaro e a candidatos apoiados pelo mesmo grupo religioso em capitais do país, como Bruno Covas, em São Paulo (SP).</p>



<h4 class="wp-block-heading">Por que investigamos?</h4>



<p>Em sua <a href="https://projetocomprova.com.br/publica%C3%A7%C3%B5es/projeto-comprova-inicia-terceira-fase-com-28-veiculos-de-comunicacao/">terceira fase</a>, o Projeto Comprova verifica conteúdos que viralizam nas redes sociais ligados às eleições municipais, às políticas públicas do governo federal e à pandemia.</p>



<p>Esta verificação é inédita para o Comprova, pois iniciou-se com panfletos distribuídos fisicamente – é o primeiro caso de desinformação checado pela equipe que não começou nas redes sociais. Ao descontextualizar afirmações de Marília e acusar indevidamente uma candidata ao segundo turno, os conteúdos colocam o processo democrático em risco. Somados, os posts tinham, até 26 de novembro, mais de 500 compartilhamentos.</p>



<p>O Comprova já averiguou outros conteúdos relacionados às eleições deste ano, como o de um <a href="https://projetocomprova.com.br/publica%C3%A7%C3%B5es/video-retira-de-contexto-frase-de-ana-arraes-sobre-agressao-do-neto-joao-campos/">vídeo que retira de contexto uma frase de Ana Arraes sobre ‘agressão’ do neto João Campos</a>, uma postagem que acusou, também erroneamente, o <a href="https://projetocomprova.com.br/publica%C3%A7%C3%B5es/e-falso-que-boulos-tenha-cobrado-aluguel-de-moradores-sem-teto/">candidato paulistano Guilherme Boulos</a> de cobrar aluguel de moradores sem-teto, e o que enganava ao afirmar que votos recebidos por <a href="https://projetocomprova.com.br/publica%C3%A7%C3%B5es/e-falso-que-votos-recebidos-por-candidata-a-vereadora-no-tocantins-tenham-reduzido-ao-longo-da-apuracao/">vereadora no Tocantins</a> teriam diminuído durante a apuração. O processo eleitoral também esteve presente nas checagens da equipe, que produziu investigações desmentindo que o <a href="https://projetocomprova.com.br/publica%C3%A7%C3%B5es/software-usado-em-urnas-eletronicas-brasileiras-nao-e-o-mesmo-que-dos-eua/">software usado nas urnas brasileiras</a> seria o mesmo dos Estados Unidos e que o <a href="https://projetocomprova.com.br/publica%C3%A7%C3%B5es/ataque-de-hackers-no-sistema-do-tse-nao-viola-seguranca-da-eleicao/">ataque de hackers</a> no sistema do TSE violaria a segurança da eleição (produzido em parceria com a agência Aos Fatos).</p>



<p><a href="https://projetocomprova.com.br/about/">Enganoso</a>, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos; que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano; ou que é retirado de seu contexto original e usado em outro, de modo que seu significado sofra alterações.</p>



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		<title>Evangélicos progressistas viram votos na reta final da eleição</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 27 Oct 2018 17:21:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[evangélicos com Bolsonaro]]></category>
		<category><![CDATA[Evangélicos com Haddad]]></category>
		<category><![CDATA[fake news evangélicos]]></category>
		<category><![CDATA[Frente Evangélica pelo Estado de Direito]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na reta final do segundo turno das eleições presidenciais, um grupo de evangélicos progressistas está ativo nas redes e nas ruas da Região Metropolitana do Recife para virar votos de Bolsonaro entre os fiéis. Elas e eles integram a Frente Evangélica pelo Estado de Direito &#8211; criada nacionalmente em 2016 para defender a democracia e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[Na reta final do segundo turno das eleições presidenciais, um grupo de evangélicos progressistas está ativo nas redes e nas ruas da Região Metropolitana do Recife para virar votos de Bolsonaro entre os fiéis. Elas e eles integram a Frente Evangélica pelo Estado de Direito &#8211; criada nacionalmente em 2016 para defender a democracia e o mandato da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) em meio ao golpe jurídico-parlamentar que levou Michel Temer (MDB) ao poder. Agora, formaram o grupo Evangélicos com Haddad.

As ações da Frente se intensificaram nesta última semana com panfletagens no Corredor da Fé, na Avenida Cruz Cabugá, no Centro, onde há maior concentração de igrejas evangélicas. Neste segundo turno, o grupo tem distribuído quatro pequenos folhetos no formato que os cristãos estão acostumados a ler nas igrejas. Eles contém carta assinada e escrita pelo presidenciável Fernando Haddad (13) para a comunidade evangélica.

Na carta, o candidato petista diz que para chegar à reta final das eleições precisou enfrentar uma campanha difamatória e de mentiras no Whatsapp, lembra sua gestão à frente do Ministério da Educação (“abri as portas para os mais pobres”), explica que sua gestão vai trazer “justiça e paz” e milhões de empregos para os brasileiros num governo pautado pelo “bem comum”.

Nas redes, a Frente produziu dois vídeos de um minuto cada para serem distribuídos especialmente pelo Whatsapp e Instagram. O primeiro com depoimento dos próprios integrantes do movimento no Recife. Citando trechos bíblicos, eles e elas se posicionam contra a violência, pela igualdade de salários entre homens e mulheres, por mais direitos e mais empregos.

O segundo vídeo intercala imagens de entrevista de Bolsonaro defendendo a tortura com imagens do filme <em>A Paixão de Cristo</em>, de Mel Gibson, na cena em que Jesus é brutalmente torturado pelas tropas romanas. O vídeo começa com texto interrogando “Você é cristão?” e na sequência cita trecho bíblico: “Amarás ao próximo como a ti mesmo (Mateus 22:39)”. No final pede o voto em Haddad pela “democracia, a tolerância e o amor”.

Integrante da Frente, a jornalista Ailce Moreira, 32, explica que a linguagem é fundamental para alcançar a empatia e abrir algum diálogo com os evangélicos que votam em Bolsonaro. “Nos identificamos como pessoas que professam a mesma fé e que estamos, de alguma forma, do mesmo lado. Mostramos que entendemos o cristianismo como filosofia de vida, como lugar de salvação”.

Para Ailce, criar uma relação de proximidade com o evangélico é o primeiro passo para desconstruir o discurso de Bolsonaro. “É super importante a gente criar mecanismos de identificação para que possamos realmente questionar e, a partir daí, desse questionamento, levar as pessoas a pensarem sobre a divergência que existe entre o discurso desse candidato e o cristianismo. Se você não entende o que rege a vida dela enquanto crença, nada do que você falar vai atingir o coração daquela pessoa”.

A peça mais elaborada produzida no segundo turno para convencer os evangélicos a rejeitar o discurso de ódio promovido por Bolsonaro é um filme de quase cinco minutos de duração fruto de parceria entre a Associação Brasileira de Documentaristas, a Associação de Curtas-Metragistas de Pernambuco e a Frente Evangélica pelo Estado de Direito. O vídeo mostra cenas de um linchamento evitado por Jesus, mais uma vez lembrando passagem bíblica. Os agressores trocam as pedras por armas de fogo e usam máscaras do candidato do PSL.

<iframe src="https://www.youtube.com/embed/NhByeh08MVo" allowfullscreen="allowfullscreen" width="560" height="315" frameborder="0"></iframe>

O filme foi produzido em menos de uma semana e lançado nas redes sociais e no Whatsapp na manhã da terça-feira (23). Na mesma terça, à noite, a Frente realizou culto pela democracia e pela paz na sede do Movimento dos Trabalhadores Cristãos (MTC), na Boa Vista. O ato contou com a participação de cerca de 70 pessoas. Nas falas ficava evidente a emoção de todos os presentes e o receio do que pode estar por vir com a eleição de Bolsonaro.

Lá estava Nena Moraes, 47, professora, arte-educadora e também integrante da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito. “O trabalho da gente é todo voltado para perguntas e reflexão. Quando a gente está na rua, a gente mais pergunta do que afirma para que o crente caia em si com as próprias respostas que ele tem na Bíblia. Não aderimos ao modelo de atuar nos cultos porque a gente não quer o culto profanado. A política tem que ficar aqui fora”, defende.

<div id="attachment_11595" style="width: 489px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/10/crentes.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-11595" class="wp-image-11595" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/10/crentes-300x225.jpg" alt="crentes" width="479" height="360"></a><p id="caption-attachment-11595" class="wp-caption-text">#PraCegoVer Culto pela democracia em sala ampla, com várias pessoas em pé, louvando. Do lado direito uma banda. Crédito: Laécio Portela/MZ Conteúdo</p></div>

Nena conta que em algumas igrejas em São Paulo os pastores usaram até telão com vídeos explicando e defendendo o que seria o governo de Bolsonaro. “Infelizmente, 90% das igrejas estão assim, especialmente as denominações mais conservadoras. Elas foram o maior cabo eleitoral dele”, conta.

Mas Nena acha que o “escândalo das fake news” contra Haddad (financiadas por empresários, conforme denúncia da Folha de S. Paulo) está ajudando a mudar a opinião de muitos evangélicos. “Estamos fazendo um trabalho de formiguinha. Quando os abordamos, em cinco minutos de perguntas percebemos que são inocentes, sem informação política nenhuma. Aí mostramos o que são as fake news. Eu pego o número de telefone da pessoa, adiciono no meu zap e fico ali trabalhando&#8230; É uma luta desigual, mas não desistimos”.

<strong>VOZES MARIAS</strong>

Não é só na rua que os evangélicos da Frente têm que trabalhar para reverter votos. Assistente social de formação, Rayane Lins, 24 anos, sabe bem disso. Ela é batista como a mãe. O pai é da Assembleia de Deus. “Minha mãe dá muito crédito ao que eu falo. Meu pai posta algumas coisas em apoio a Bolsonaro. A ele eu digo que o que está em jogo é meu trabalho e minha vida”.

Rayane integra o coletivo Vozes Marias, o primeiro coletivo de mulheres cristãs evangélicas que se intitula feminista no Brasil, fundado em 2015, no Recife. Quando fala que seu trabalho ficará comprometido com a eleição do candidato do PSL, Rayane não está exagerando. Ela faz pós-graduação e estuda justamente “as discriminações e preconceitos da bancada evangélica”. “Uma das análises de discurso que eu estou fazendo é do próprio Bolsonaro”, revela.

<div id="attachment_11491" style="width: 310px" class="wp-caption alignright"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/10/221018_Frente_Evalgeligos_005.jpg"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-11491" class="wp-image-11491 size-medium" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/10/221018_Frente_Evalgeligos_005-300x200.jpg" alt="Recife, 22 de outubro de 2018. Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito. Na foto: Rayane Lins. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo." width="300" height="200"></a><p id="caption-attachment-11491" class="wp-caption-text">#PraCegoVer Rayane Lins, está sentada, usando camisa branca, brincos grandes e óculos. Ela olha pro lado direito. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo</p></div>
<p style="text-align: left;">O Coletivo Vozes Marias tem realizado, desde o ano passado, ações voltadas para a discussão de gênero e violência contra a mulher nos espaços eclesiásticos dentro e fora das igrejas. Em 2016, realizou o curso itinerante de formação Mulher, Fé e Política, em parceria com a Universidade Católica de Pernambuco.</p>
“Na verdade, temos mais espaço para atuar fora do que dentro. Neste momento das eleições, temos participado das manifestações de rua enquanto coletivo. Fomos para o ato #EleNão e estivemos também no evento do último sábado. Temos colocado a cara na rua para denunciar e nos posicionar diante do atual cenário político”.

Não são poucas as resistências que Rayane e os evangélicos progressistas sofrem. “Existe pouca abertura para o diálogo. Quando as pessoas se mostram abertas, a gente tenta conversar da forma mais didática possível para não afastá-las. Muitas vezes somos taxadas de esquerdistas, como se isso fosse algo ruim&#8230; Questionam a nossa fé, dizem que estamos fazendo uma interpretação errada do Evangelho”, explica Rayane.

<strong>MOVIMENTO NEGRO EVANGÉLICO</strong>

Se a discussão sobre gênero é um tabu dentro das igrejas, o mesmo ainda se pode dizer sobre a discussão de raça. Coordenador do Movimento Negro Evangélico em Pernambuco, o estudante de ciência da computação Jackson Augusto, 23, afirma que o debate sobre racismo vem ganhando corpo nos últimos anos, mas muitas igrejas evangélicas não se abrem para o tema. “A gente consegue atingir essa galera negra, evangélica e jovem, que hoje tem mais acesso ao ensino superior e valoriza a questão da identidade. Evangélicos que começam a se perguntar: o que a minha fé tem a ver com isso?”.

<div id="attachment_11492" style="width: 310px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/10/221018_Frente_Evalgeligos_008.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-11492" class="wp-image-11492 size-medium" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/10/221018_Frente_Evalgeligos_008-300x200.jpg" alt="Recife, 22 de outubro de 2018. Frente de Evangálicos pelo Estado de Direito. Na foto: Nena Moraes. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo." width="300" height="200"></a><p id="caption-attachment-11492" class="wp-caption-text">#PraCegoVer Jackson Augusto, está sentado, usa camisa preta e óculo. Ele olha para o lado direito. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo</p></div>

O Movimento Negro Evangélico surgiu em Pernambuco na passagem de 2016 para 2017, com as discussões sobre o golpe e a mudança no cenário político nacional. “Os membros do movimento estão saindo nas ruas para fazer campanha. Aqui todos do nosso núcleo votam contra Bolsonaro. Ao contrário do que aconteceu no Rio. A gente já trabalhou tanto com o discurso antirracista que a gente não pode tolerar pessoas que comparam pessoas negras a arrobas de animais (como fez Bolsonaro)”.

Jackson e Rayane atuam nos seus grupos evangélicos específicos, focados nos segmentos de gênero e raça, mas também fazem parte da Frente Evangélica pelo Estado de Direito. “Todas as atividades que o movimento vem fazendo de fala, de atuação, a gente está fazendo em conjunto com a Frente ou com movimentos que estão ligados à campanha de Haddad. Estamos tentando atuar em conjunto nessa reta final para nos fortalecermos”, explica Jackson.

Foi dentro desse espírito de coletividade que a Frente Evangélica participou de dois atos inter-religiosos, com representantes da igreja católica, no Jordão Baixo, no Recife, na quarta-feira(24), e em Camaragibe, na sexta-feira (26). No Jordão, houve panfletagem e celebração com cânticos na praça central.

“A gente entende que a vida eterna começa aqui. Tentamos, no contexto atual, trazer justamente isso para a igreja. Um evangelho que não se concentre nas quatro paredes e se esqueça dos problemas que existem no país. Mas que seja um evangelho atuante, político, não necessariamente político-partidário, mas politico no sentido de realmente de ir em busca dos direitos da população”, afirma Renata Lopes, 26 anos, formada em serviço social, e também integrante da Frente Evangélica pelo Estado de Direito.

Como Rayane, Renata sente dentro de casa a força do discurso conservador de Bolsonaro. “Minha mãe nos ouve muito. Sempre que tem uma dúvida, ela me pergunta. Meu pai, a gente precisou virar o voto porque ele queria votar nulo, mas tinha umas posturas pró-Bolsonaro. Eu e meu marido sentamos com ele e desmentimos as fake news. Disse pra ele: como é que uma campanha pode se apoiar na mentira, quando o pai da mentira é o diabo?”. Questionada pelo repórter se o voto do pai em Haddad está garantido, Renata brinca: “A gente virou o voto, mas tá sempre confirmando quando passa por ele. É 13, né painho?”.

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