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	<title>Arquivos favela - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos favela - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Nada neste país se conquistou de graça. Jesus chorou, mas também lutou</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Oct 2022 18:09:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2022]]></category>
		<category><![CDATA[favela]]></category>
		<category><![CDATA[fundamentalismo religioso]]></category>
		<category><![CDATA[jesus cristo]]></category>
		<category><![CDATA[periferia]]></category>
		<category><![CDATA[racionais mc]]></category>
		<category><![CDATA[religião e política]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Cadê meu sorriso? Onde tá?Quem roubou?Humanidade é má e até JesuschorouLágrimas, lágrimasJesus chorou” &#8211; Racionais MC Por Myrella Santana Dentro da favela a gente conhece duas versões de Jesus. A primeira, é apresentada na igreja (católica conservadora e evangélica, principalmente, pentecostal). Que é branco, de olhos claros, barbudo, o salvador benevolente que morreu por nós [&#8230;]</p>
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<p><em>“Cadê meu sorriso? Onde tá?<br>Quem roubou?<br>Humanidade é má e até Jesus<br>chorou<br>Lágrimas, lágrimas<br>Jesus chorou” &#8211; Racionais MC</em></p>



<p><strong>Por Myrella Santana</strong></p>



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<p>Dentro da favela a gente conhece duas versões de Jesus. A primeira, é apresentada na igreja (católica conservadora e evangélica, principalmente, pentecostal). Que é branco, de olhos claros, barbudo, o salvador benevolente que morreu por nós e por isso devemos nossa vida a ele. Aquele que sabe o que faz e devemos deixar tudo no controle dele. Apanhando do marido? Peça a Deus para que toque o coração dele. Foi estuprada? Peça a Deus que te ensine a perdoar. Um modelo de família, um sonho de vida, uma possibilidade de dignidade. Todo jovem preto já sonhou em ser um homem trabalhador e de Deus, aquele que vai ser honrado.</p>



<p>A segunda versão, na verdade, foi a primeira que eu conheci, quando escutei Jesus Chorou, Vida Loka parte 1 e Negro Drama de Racionais MC. Um jovem preto, olhos escuros, distantes e atentos, que já nasceu sabendo o que é pecado, mas raramente sabendo o que é paternidade. O Jesus esquecido, o Cristo que foi crucificado. O que não defende tortura ou violência. O que foi chamado de bandido e foi morto. Que vem da periferia, filho de Maria’s, Vera’s e Ana’s. O Jesus que não é neutro, e como diz o próprio Racionais: “Vigia os ricos, mas ama os que vem do gueto”.</p>



<p>Todo jovem preto favelado conhece essas duas versões. A primeira, através de uma idealização e expectativa de ter uma vida minimamente digna. Eles vendem a ideia de que o problema desse jovem é não ter aceitado Jesus, mas não dizem que aceitar Jesus não vai mudar o racismo, a falta de políticas públicas e a garantia de direitos básicos. Ao longo de toda a história eles utilizaram a religião para controlar e manipular, hoje não é diferente. Dizem que Deus não é político, mas política sempre é sobre Deus. A outra versão é a realidade. É o Brasil real que não dá pra esconder quando a pregação acaba, é a realidade favelada.</p>



<p>Nesses últimos 10 anos, pudemos observar um avanço gradativo do fundamentalismo e do conservadorismo em todo o país. Não há uma favela que você entre e não encontre uma igreja. E eu me pergunto, será que de fato as favelas estão cada vez mais se tornando conservadoras ou elas veem nesses espaços uma esperança de vida digna, como coloquei acima? Desde 2018, a esquerda tem feito um movimento para tentar cada vez mais responder a seguinte pergunta: como chegar nos evangélicos e evangélicas dentro das periferias?</p>



<p>Essas são perguntas que não me arrisco a responder, mas me questiono se o resultado do primeiro turno dessas eleições no estado de Pernambuco não poderiam ter sido diferentes se soubéssemos essas respostas. Os dois mais votados para deputados federais e estaduais são aqueles que hoje carregam a marca do fundamentalismo na sua faceta mais violenta e perversa. André Ferreira (PL), Clarissa Tércio (PP), Junior de Tércio (PP) e Coronel Alberto Feitosa (PL), os dois primeiros para federais e os dois últimos para estaduais, respectivamente.</p>



<p>Falam em nome de Deus, mas defendem tudo o que ele não é. A moral e os bons costumes que sempre silenciou mulheres e passou a mão sobre a cabeça de agressores. A família tradicional, que é construída a partir das mais plurais formas de violência, a mesma que tira foto com arma na mão e a bíblia debaixo do braço. A hipocrisia materializada em nome de um Jesus que nunca existiu. O Jesus real sabe que a família tradicional brasileira foi descrita por Racionais, quando ele falou que:</p>



<p><em>“Daria um filme<br>Uma negra e uma criança nos braços<br>Solitária na floresta de concreto e aço<br>Veja, olha outra vez o rosto na multidão<br>A multidão é um monstro sem rosto e coração<br>Hei, São Paulo, terra de arranha-céu<br>A garoa rasga a carne, é a Torre de Babel<br>Família brasileira, dois contra o mundo<br>Mãe solteira de um promissor vagabundo”</em></p>



<p>A maioria dos lares deste país são chefiados por mulheres. São mães, avós, tias, vizinhas. Essa é a configuração real da maioria das famílias. Que, inclusive, nunca foi representada na política brasileira tradicional. Essas mulheres que sempre estiveram na luta e no front, sendo ponta de lança para qualquer construção ou mudança efetiva em todo o país. Na luta para manter seus filhos vivos, na luta pela dignidade, na luta pela garantia de direito. As mesmas mulheres que vão fazer oposição a essas bancadas fundamentalistas que, apesar de terem se fortalecido, a gente também se fortaleceu. Os mais de 80 mil votos em Robeyoncé Lima é a prova materializada que Pernambuco é muito mais. Dani Portela, Rosa Amorim e Tereza Leitão eleitas deputadas e senadoras também.</p>



<p>O trabalho não começou agora e não tá nem perto de acabar. O primeiro turno das eleições mostrou para a esquerda que rever as estratégias é fundamental, junto ao que de fato estamos priorizando na hora de materializar esse projeto de sociedade que tanto defendemos. Já para o segundo turno, os desafios triplicaram. Eleger Lula presidente e, aqui em Pernambuco, quem tem minimamente coragem de se opor ao atual Governo Federal e subir no mesmo palanque do nosso futuro presidente Lula. Na última semana, movimentos sociais, partidos e figuras políticas importantes têm declarado voto e apoio crítico à candidatura de Marília Arraes. A única candidata disputando o segundo turno que fez e faz campanha para Lula.</p>



<p>A cada pesquisa uma nova esperança na possibilidade do Brasil sair desse buraco sem fundo que ele entrou. Na rua, a luta não é apenas para tentar virar voto para Lula e Marília, mas convencer as pessoas que Jesus é muito mais do que a primeira versão apresentada nesse texto e que Bolsonaro não é messias. O Brasil é um país constitucionalmente laico. Entretanto, o assunto principal dessas eleições tem sido o debate religioso. Nesse último final de semana fui chamada pelos meus irmãos para conversar com um colega deles de 14 anos que era bolsonarista. No primeiro minuto de conversa, ele falou que Lula disse que ia fechar as igrejas, que o Brasil é um país cristão e que Bolsonaro nunca proibiu ninguém de ter outra religião, mas que os brasileiros cristãos deveriam ter privilégios em detrimento dos outros.</p>



<p>Eu, mulher de axé, tenho falado de Jesus e do cristianismo nos últimos 10 dias mais do que os próprios cristãos. Não acredito que o Brasil esteja se tornando majoritariamente conservador, acredito que as pessoas estejam sedentas por alguém que possa salvá-las do Brasil real descrito por Racionais e de todos os males que acreditam ter nos levado para esse buraco. Procuram um herói na mesma medida que procuram alguém para culpar. É o fantasma do comunismo, o PT, Lula, a esquerda, as feministas, o MST. O avanço dos projetos neoliberais é fruto do medo, não de quem se opõe a ele, mas principalmente de quem o defende. </p>



<p>Nada neste país se conquistou de graça. Jesus chorou, mas também lutou. As igrejas lotadas dentro das periferias não são compostas majoritariamente por quem tem dinheiro, mas por quem precisa de uma esperança para se manter vivo. Uma esperança de seus filhos vivos e não encarcerados. Uma esperança de vida digna e não da miséria. Um Brasil nunca visto é um Jesus só conhecido nas periferias. Bolsonaro vai sair e o nosso desafio para além de derrotar a barbárie, é apresentar outras possibilidades de esperança para este país. Olhar a favela e a juventude como principais instrumentos de mudança na configuração atual, entendendo que não se deve voltar para a base pra fazer política, porque toda política já é feita nela.</p>



<p>*<strong>Myrella Santana é graduanda em Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco. Integra a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e a Articulação Negra de Pernambuco. É Diretora Operacional e pesquisadora na Rede Internacional de Jovens LBTQIA+.</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><p><em>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado como esse da cobertura das Eleições 2022 é caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa</em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">página de doação</a><em>ou, se preferir, usar nosso</em><strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em></p><p><strong>Nessa eleição, apoie o jornalismo que está do seu lado.</strong></p></blockquote>
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		<title>População negra, favelas e racismo estrutural: emergências negligenciadas e consequências no contexto da Covid-19</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Apr 2020 18:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[alto do pascoal]]></category>
		<category><![CDATA[coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[covid-19]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Suzana Santos* Considero importante iniciar dizendo os motivos pelos quais optei por assim começar esse artigo, ou ao menos indicar o que se destaca entre eles. Já ouvi de muitas pessoas o quanto é chato esse “papo” repetitivo sobre racismo. A frase “ahh, mas vocês também veem racismo em tudo” é mais clichê do [&#8230;]</p>
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<p><strong>Por Suzana Santos</strong>*</p>



<p>Considero importante iniciar dizendo os motivos pelos quais optei por assim começar esse artigo, ou ao menos indicar o que se destaca entre eles. Já ouvi de muitas pessoas o quanto é chato esse “papo” repetitivo sobre racismo. A frase “ahh, mas vocês também veem racismo em tudo” é mais clichê do que a “mas eu tenho amigos negros” (pasmem)&#8230;O fato é que se vemos e sentimos o racismo, é por um motivo bem óbvio: ele existe. Tratar didaticamente sobre esse tema tem sido um exercício exaustivo, porém, cotidianamente praticado por muitas pessoas negras em uma perspectiva de desconstrução de um modelo de construção histórica da nossa sociedade que estrategicamente é disseminado e validado. Desse modo, observemos, a fim de escurecimento, a definição trazida pelo professor dr. Silvio Luiz de Almeida (2018)¹ sobre o tema em questão: “é uma forma sistemática de discriminação que tem a raça como fundamento, e que se manifesta por meio de práticas conscientes ou inconscientes que culminam em desvantagens ou privilégios, a depender do grupo racial ao qual pertençam”.</p>



<p> Embora, segundo o antropólogo e professor dr. Kabengele Munanga², o conceito de raça não possua aplicabilidade biológica, pressupôs-se que distinções físicas entre determinados grupos indicariam qualidades e deficiências naturais abrindo largos caminhos para materialização da hierarquização entre as raças. Desse modo tais teorias representam a permissividade para estabelecer uma equivalência de concepções que sustentaram e sustentam os sistemas de dominação racial. Negligenciar o fato de que a colonização brasileira foi caracterizada pela exploração, dominação e extermínio é se contrapor à veracidade de um processo extremamente doloroso baseado nessa ideologia de hierarquia entre as raças que fundamentou, e fundamenta, as relações de poder custando a vida de milhares de pessoas negras e indígenas.</p>



<p> Negar a existência e a capacidade estrutural do racismo, e logo seu poder de se desdobrar em vários formatos na contemporaneidade, é, por assim dizer, alimentar a falácia de que vivemos em uma democracia racial e que este é o país das três raças que vivem harmonicamente. Brincou, né?! As consequências desse processo se mostram tanto ainda no período escravocrata, quando se estabelece um dos modos mais cruéis e desumanos de “negócio” do mundo moderno, quanto no pós-abolição onde muitos escravizados libertos foram jogados à própria sorte. As implicações resultantes desse “negócio” hediondo refletem negativamente até hoje na situação de quase 54% da nossa população.  </p>



<p> Imagino que a partir daqui fique um pouco mais fácil de compreender os motivos pelos quais vemos racismo em tudo: é porque ele está em tudo. O racismo, desde a colonização, tem se estruturado na construção da nossa sociedade e permeado as nossas relações sociais, ou seja, acaba por ter um papel determinante na vida de pessoas negras.</p>



<p> Diferentemente da forma que é propagada, a “abolição” da escravatura nem de longe representou uma real ruptura, pois, na verdade, a massa de escravizados, então libertos, seguiu negligenciada sem qualquer auxílio estatal em âmbitos educacionais, de moradia ou saúde, não sendo permitido aos mesmos condições adequadas pra reconstruírem suas vidas. A essas pessoas foram negadas quaisquer oportunidades de inclusão social, propiciando situações de precarização socioeconômicas e tornando a população negra liberta alvo da política higienista que a condicionou a se distanciar dos centros urbanos constituindo o que hoje conhecemos por favelas.  </p>



<p> Em suma, a população negra que era tida como pilar da economia brasileira passa a ser escanteada pela mesma, impulsionando processos como o de marginalização. Novamente aqui o racismo se mostra como responsável pela condição, inclusive atual, da população negra brasileira, pelas suas limitações e escassez de representatividade em determinados espaços, como aqueles considerados de poder e de decisão. </p>



<p> A herança escravocrata resulta num “tratamento” diferenciado à população negra, relegando-a a posições tidas como inferiores na sociedade. De algum modo, todo corpo negro e periférico sabe, arrisco a dizer que mesmo que em seu inconsciente, que não há risco maior do que estar no lugar que foi condicionado a ocupar. Ainda que não tenham total certeza, e nem poderiam visto o tanto de acessos limitados, se apoiam na vivência para fundamentar suas suposições. </p>



<p>Embora os reais motivos não estejam negritados a todos nós, nesse contexto de pandemia por conta da Covid-19, não é muito difícil enxergar que existe uma cobrança singular da prática da empatia, da responsabilidade social e da solidariedade que nunca nos foi apresentada por parte dos nossos “próximos” que, contraditoriamente, estão mais distantes de nós do que qualquer outra coisa.  </p>



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	                                        <p class="m-0"> Avenida Governador Agamenon Magalhães, Recife (08/03/2019). Crédito: Priscilla Melo (@olhospretoss) </p>
	                
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                    </figure>

	


<p> A realidade das periferias brasileiras sempre contou com a presença de problemáticas que foram nutridas ao longo da nossa história e que somente foram acentuadas com a chegada da pandemia. Quem contesta essa desigualdade? Quem contesta essa condição? Considero muito rica a fala do filósofo camaronês Achille Mbembe³, <a href="https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/03/pandemia-democratizou-poder-de-matar-diz-autor-da-teoria-da-necropolitica.shtml">em entrevista realizada para o jornal Folha de São Paulo</a>, quando afirmou que “a pandemia democratizou o poder de matar” e trás ainda que “o isolamento é justamente uma forma de regular esse poder”. Tais afirmações só me levam a ter mais certeza do privilégio que é a possibilidade de se praticar o isolamento social em meio a essa pandemia e, consequentemente, ter o mínimo de poder de decisão sobre sua vida.  </p>



<p>
O
cenário que
menciono aqui é marcado pela violência,
pelo desemprego e pela promoção do ócio. É onde as doenças se
proliferam tão rápido quanto balas perdidas.
Composto por famílias hegemonicamente
matriarcais, muitas vezes vítimas do “aborto” paterno,
que dividem
casas de cômodos estreitos, insalubres, sem acesso a qualquer tipo
de saneamento, como água encanada e recolhimento diário do lixo,
além de, geralmente, comportar uma quantidade de pessoas que vai bem
além do adequado. Logo, se percebe que as dificuldades enfrentadas
pelas tantas favelas localizadas em todo o país são decorrentes da
mesma problemática: a ausência de políticas públicas e sociais
(intervenções por parte do Estado que aqui representam o mínimo de
reparação histórica). 
</p>



<p> O que trago aqui é somente uma das tantas formas possíveis de se interpretar a realidade social e racial brasileira, constituída sob pilares racistas e consequentemente desiguais onde é muito explícito o papel que o Estado tem assumido ao longo dos anos, quando segue favorecendo expressamente a hegemonia branca e rica à custa da naturalização das dores de pessoas negras através da manutenção de estereótipos, preconceitos e discriminação.  </p>



<p> Ainda em entrevista, Mbembe é muito preciso em afirmar que “a lógica do sacrifício sempre esteve no coração do neoliberalismo”, a quem prefere chamar de necroliberalismo. Existe sim um projeto de retirada de direitos, sucateamento e privatização que já estava em curso anterior à Covid-19 e que também contribuiu para que chegássemos a esse ponto de colapso. Contudo, anterior ao vírus, e em maior proporção, temos o projeto de genocídio da população negra que sempre esteve materializado na negação das garantias fundamentais e na retirada de direitos, que não se restringe somente ao campo da saúde pública, mas que tange tudo o que conquistamos a duras penas até então.  </p>



<p> O racismo é tão perverso que culpabiliza o indivíduo não só pela condição vulnerabilizada a qual se encontra, mas ainda o responsabiliza por qualquer consequência que a mesma possa trazer. É o caso das milhares de pessoas que se amontoam nas longas filas das agências bancárias à espera de um auxílio, que deveria honrar a nomenclatura que recebe (emergencial). Fica evidente o desinteresse do Estado em fornecer uma estrutura adequada para a entrega do benefício, fazendo com que os usuários e usuárias desse serviço optem por morrer de fome ou se arriscarem ao contágio. Uma manifestação expressa do racismo estrutural.  </p>



<p> Para concluir, Achille continua dizendo que “esse sistema sempre operou como um aparato de cálculo. A ideia de que alguém vale mais que os outros. Quem não tem valor pode ser descartado”. A lógica neoliberal que orienta as ações do Estado não só garante que as poucas medidas adotadas tornem necessidades secundárias como prioridade, como ainda alimentam e legitimam a necropolítica (como o Estado escolhe quem deve viver e quem deve morrer a partir da hierarquia racial posta) e ignoram os direitos humanos sem sentir o menor constrangimento. Afinal, a casa grande não enfrenta filas de lotéricas.<br><br><strong>* Suzana Santos (@surhvivor) é ativista do Coletivo de Juventude Negra Cara Preta e do Movimento Ocupe a Praça Camaragibe, Graduanda do curso de Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambuco, pesquisadora na área de Desigualdades e Direitos Humanos e integrante do Grupo de Estudo de Ética em Serviço Social (GEPE).</strong></p>



<p><strong>Fotografias por Priscilla Melo (@olhospretoss). Ativista do Coletivo de Juventude Negra Cara Preta, do Coletivo Fala Alto, Coletivo Encruzilha, Coletivo Amarna, fotógrafa, editora e videomaker.</strong></p>



<p><strong> REFERÊNCIAS:</strong></p>



<p>1. ALMEIDA, Silvio Luiz de. <strong>O que é racismo estrutural?</strong>. Belo Horizonte (MG): Letramento, 2018.</p>



<p> 2. MUNANGA, Kabengele. <strong>Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia</strong>. Palestra proferida no 3° Seminário Nacional de Relações Raciais e Educação – PENESB – RJ, 05/11/03.</p>



<p> 3. MBEMBE, Achille<strong>. Pandemia democratizou poder de matar, diz autor da teoria da &#8216;necropolítica </strong>[Entrevista concedida a Folha de São Paulo] concedida a Diogo Bercito. </p>



<p>4. QUIJANO, Anibal. <strong>Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina.</strong> CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, 2005.</p>
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		<item>
		<title>Raull Santiago: ‘Na pandemia, descaso do governo impacta mais a favela’</title>
		<link>https://marcozero.org/raull-santiago-na-pandemia-descaso-do-governo-impacta-mais-a-favela/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Mar 2020 02:10:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[#coronanasperiferias]]></category>
		<category><![CDATA[compexo do alemão]]></category>
		<category><![CDATA[favela]]></category>
		<category><![CDATA[raul santiago]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Arthur Stabile, da Ponte Jornalismo Isolamento e lavar as mãos são algumas das iniciativas para combater a proliferação do coronavírus. Mas como evitar o contágio nas favelas, em locais com várias pessoas e a maioria trabalhadora, que não pode interromper seu ganha pão senão não terá o que comer? Ações para incluir a favela no [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p> Arthur Stabile, da <a href="https://ponte.org/">Ponte Jornalismo</a></p>



<p>Isolamento e lavar as mãos são algumas das iniciativas para combater a
 proliferação do coronavírus. Mas como evitar o contágio nas favelas, em
 locais com várias pessoas e a maioria trabalhadora, que não pode 
interromper seu ganha pão senão não terá o que comer? Ações para incluir
 a favela no combater a pandemia são levantadas por Raull Santiago, 
ativista do Rio de Janeiro que mora e atua no Complexo do Alemão, zona 
norte da capital fluminense.</p>



<p>Carros de som, cartazes e faixas são uma das formas de informar as 
pessoas. Coletivos das próprias comunidades têm feito essas ações, sem 
contar com ajuda do poder público.  “Como sempre, o senso de comunidade,
 um pelo outro, é o que tem crescido, todos juntos, mas cada um no seu 
quadrado, se fortalecendo. Tenho visto mais avanço das iniciativas das 
próprias pessoas que vivem essa realidade da dificuldade”, afirma Raull.</p>



<p>Segundo o ativista, a falta de água e a fome, que começam a se  intensificar nas casas mais pobres, são alguns dos principais pontos a  serem combatidos, seja pelo poder público, que tem sido omisso, segundo  ele, ou pela própria comunidade. “A pandemia veio para expor a gravidade  do país, o quanto a desigualdade é gritante. Ficamos em segundo plano  tendo que sobreviver por conta própria, pedindo doação para o mundo  inteiro”, lamenta. </p>



<h4 class="wp-block-heading">Ponte<strong>–</strong> Como as favelas estão se organizado para combater o coronavírus?</h4>



<p><strong>Raull Santiago –</strong> Fundamos no Complexo do Alemão um 
gabinete de crise. Uma moradora ativista da luta por moradia, Camila 
Santos, provocou alguns de nós, como <a rel="noreferrer noopener" href="https://www.vozdascomunidades.com.br/" target="_blank">Voz das Comunidades</a> e o <a rel="noreferrer noopener" href="https://www.facebook.com/ColetivoPapoReto/" target="_blank">Coletivo Papo Reto</a>
 e outras pessoas foram se aproximando. Esse gabinete evoluiu para 
fortalecer um movimento anterior que existia através da junção de várias
 instituições do Alemão, chamada Juntos Pelo Complexo do Alemão. E aí o 
movimento começou a fazer duas frentes de trabalho: uma de 
conscientização interna sobre a importância de fazer o máximo para 
evitar que o coronavírus chegue na realidade da favela, e outra, com uma
 pressão para fora, para o poder público e a sociedade perceberem a 
gravidade e a diferença, a marca da desigualdade social na realidade do 
tratamento do corona na favela para dentro e na favela para fora. Para 
isso também começamos a pedir algumas doações. </p>



<h4 class="wp-block-heading">Leia mais na Ponte:</h4>



<p><a href="https://ponte.org/conheca-iniciativas-para-combater-os-efeitos-do-coronavirus-entre-os-mais-pobres/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Conheça iniciativas para combater os efeitos do coronavírus entre os mais pobres</a></p>



<p><a href="https://ponte.org/sem-direito-a-quarentena-carregadores-seguem-se-arriscando-a-toda-velocidade/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sem direito a quarentena, entregadores seguem se arriscando nas ruas</a></p>



<p><a href="https://ponte.org/lavamos-as-maos-nas-pocas-quando-chove-a-populacao-de-rua-e-a-pandemia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">‘Lavamos as mãos nas poças quando chove’: a população de rua e a pandemia</a></p>



<h4 class="wp-block-heading">Ponte<strong>–</strong>O que pode ser feito para evitar a disseminação?</h4>



<p><strong>Raull Santiago –</strong> O que acontece: primeiro que a 
distribuição de água aqui no Complexo não é regrado, algo diário em que 
todos os dias as pessoas têm água. Tem muitos pontos que faltam água. 
Inclusive hoje postei no meu Facebook pedindo para a galera comentar 
onde não tinha água e houve vários comentários de muitos pontos. Então a
 gente não consegue seguir as dicas básicas da Organização Mundial da 
Saúde, do Ministério da Saúde sobre, por exemplo, lavar as mãos o tempo 
inteiro quando chegar ou sair para a rua, quando tiver contato com outra
 pessoa. Essa higienização básica de lavar com água e sabão, que é mais 
barato do que o álcool em gel, nem todo mundo consegue fazer nesse 
momento. Já tem essa marca da desigualdade. </p>



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	                                        <p class="m-0">Raull é morador e atua no Complexo do Alemão, zona norte do Rio | Foto: Reprodução/Facebook</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h4 class="wp-block-heading">Ponte<strong>–</strong> Há outras questões?</h4>



<p><strong>Raull Santiago –</strong> Tem muitas famílias extremamente 
pobres, que vivem uma vida muito difícil e não têm condições de comprar 
sabonete antisséptico, álcool gel e todos esses materiais indicados por 
serem substâncias capazes de remover ou evitar que o coronavírus entre 
no corpo dessas pessoas. Não tem água e para muitos desses mais pobres 
também não existe grana para comprar esses materiais, então fica esse 
limbo de dificuldade. Ainda nesse conjunto de pessoas extremamente 
pobres, muitas delas sobrevivem de seu trabalho diário: camelôs, 
catadores, reciclistas, pedreiros, a tia da cantina. Várias pessoas que 
têm no seu dia a dia a sua renda principal, desde a proposta de 
quarentena e isolamento, estão começando a passar dificuldade. A pessoa 
vive do dinheiro que entra todo dia para suprir suas necessidades 
mínimas. Hoje, tanto no Voz da Comunidade e no Papo Reto, temos recebido
 muitas pessoas falando da dificuldade e da fome. Não é a completa fome,
 mas gente que não tem mais arroz, tem só o feijão, e não tem o dinheiro
 para comprar. Começa a essas faltas acontecerem. </p>



<h4 class="wp-block-heading">Ponte<strong>–</strong> Como combater? </h4>



<p><strong>Raull Santiago –</strong> Temos feito uma mobilização para 
ajudar nas pressões públicas importantes que estão surgindo, como a 
renda básica: um projeto de lei, iniciativa de várias instituições, 
pressionando o Estado para garantir a renda mínima dessa pessoas, mas 
também doação de dinheiro e de produtos como água sanitária, álcool em 
gel e alimento. Alimento por quê? Porque acreditamos que uma das coisas 
que pode gerar contaminação é a quantidade de pessoas que ainda estão na
 rua. Por mais que esteja diminuindo, que a conscientização tenha 
avançado, são muitas pessoas na rua. Mas elas estão na rua pela 
necessidade, são as que dependem do dia a dia para gerar uma renda e 
comprar comida. Elas que estão vagando aleatórias, esperando fazer um 
bico, um trabalho qualquer, uma ajuda que venha para conseguir ter o que
 comer.</p>



<h4 class="wp-block-heading">Ponte<strong>–</strong> Como evitar essa situação?</h4>



<p><strong>Raull Santiago –</strong> Garantir essa renda mínima e uma 
cesta básica legal, que dure um mês, que garanta que aquela família e 
garanta as pessoas. É mais uma ferramenta para que elas não fiquem nas 
ruas e se concentrem em casa por não estarem passando fome. Temos 
tentado chamar atenção a isso: não tem como fazer muitas vezes essa 
higiene minima e é grave evitar que o vírus chegue e se prolifere porque
 todo mundo que conhece a realidade da favela é que são casas humildes, 
muito próximas, com poucos cômodos e muitas pessoas. A possibilidade de 
quarentena, de isolamento do indivíduo, é algo impossível. Na minha 
própria casa, se alguém de nós fica doente não tem possibilidade de 
isolamento, moro com cinco pessoas. Não tem como destinar um cômodo para
 uma só pessoal. </p>



<h4 class="wp-block-heading">Ponte<strong>–</strong> Quais ações para informar as pessoas?</h4>



<p><strong>Raull Santiago –</strong> Um processo é a tentativa de 
fomentar uma comunicação interna que dialogue de forma profunda com a 
realidade da favela. Ainda hoje, muita pessoas não têm televisão, não 
têm acesso à internet. Mesmo as dicas básicas que nem sempre se encaixam
 na nossa realidade, tem gente que nem isso acessa. O que fizemos? 
Usamos a principal estratégia que dialoga com todo mundo dentro da 
favela, que é colocar faixas nas entradas, colar cartazes com dicas em 
pontos estratégicos, como o moto-táxi, de transporte alternativo, 
farmácias e também circular um carro de som com as dicas e as indicações
 da OMS [Organização Mundial da Saúde] e Ministério da Saúde, mas também
 dicas locais, como doar água para o vizinho que não tem, fomentando a 
coletividade. </p>



<h4 class="wp-block-heading">Ponte<strong>–</strong> E o que tem visto entre os moradores?</h4>



<p><strong>Raull Santiago –</strong> Nas comunidades e favelas tem 
rolado muito essas iniciativas de conscientização coletiva. Um pelo 
outro, um pela outra, monitoramento dos idosos… Vejo algumas pessoas 
andando pela rua e quando passam por um idoso perguntam para onde estão 
indo, fala para tomar cuidado. Usando a leveza da fala, mas por um 
cuidado real. Nos grupos de WhatsApp tenho visto crescer os áudios das 
pessoas, não os compartilhados, mas gravados por elas mesmas, chamando a
 atenção para o cuidado. </p>



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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Aviso com informe de como as pessoas devem se proteger | Foto: Bento Fábio/Papo Reto</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h4 class="wp-block-heading">Ponte<strong>–</strong> Vêm algo por parte do governo?</h4>



<p><strong>Raull Santiago –</strong> Efetivamente, de ações do governo, 
não tenho visto coisas reais acontecendo. Estamos vendo proposta de PL 
[Projeto de Lei], um monte de reunião, de vai, não vai, mas nada 
avançando, pelo contrário. Quando observamos a nível federal, a nível 
Jair Bolsonaro, temos um completo descaso, ouso dizer até um crime, o 
que tem sido trazido de discurso pelo presidente do país que trata o 
coronavírus, que tem matado tanta gente no mundo, inclusive no Brasil, 
como “viruzinho”, uma coisa que vai passar… Esse desdém é triste. Há 
mais um descaso do governo, se somando a todo histórico de desigualdade 
que a gente já vive, na pandemia, especificamente, um descaso e 
desrespeito com a sociedade como um todo, mas que impacta mais a favela.
 </p>



<h4 class="wp-block-heading">Ponte<strong>–</strong> Mas há alguma ação de fora?</h4>



<p><strong>Raull Santiago –</strong> Como sempre, o senso de comunidade,
 um pelo outro, é o que tem crescido, todos juntos, mas cada um no seu 
quadrado, se fortalecendo. Tenho visto mais avanço das iniciativas das 
próprias pessoas que vivem essa realidade da dificuldade, mais algumas 
pessoas parceiras do mundo artístico, com alta visibilidade, do que 
estratégia do governo, que está batendo cabeça. O governo sabe que a 
histórica desigualdade da favela não será resolvida de uma vez, não dará
 para fazer de uma vez tudo o que não foi feito para ajudar essas 
pessoas. A pandemia, falei isso hoje, veio para expor a gravidade do 
país, o quanto a desigualdade é gritante. Ficamos em segundo plano tendo
 que sobreviver por conta própria, pedindo doação para o mundo inteiro.</p>



<h4 class="wp-block-heading">Ponte<strong>–</strong> Como vê propostas como as de mandar pessoas doentes para navios ou para estádios?</h4>



<p><strong>Raull Santiago –</strong> Sobre mandar para navios ou  estádios, é muito grave. Nos outros países do mundo, quando estão  mandando pessoas contaminadas ou para hotéis ou para navios, não tem uma  distinção se é rica ou pobre. As pessoas são tratadas como iguais em um  serviço para a coletividade. Aqui, não. Há um recorte específico para a  populações negras, periféricas, faveladas. Me preocupa quais as  condições e formatos de acompanhamentos das pessoas nesses espaços, se é  um local de isolamento, aprisionamento desses corpos que “precisam sair  de circulação porque não são bem vistos na realidade que vivemos, estão  vamos isolar elas daqui”, ou qual outro motivo? É muito preocupante  essa ser a principal solução e, ao mesmo tempo, escancara o quanto o  distanciamento social é grande no nosso país.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/raull-santiago-na-pandemia-descaso-do-governo-impacta-mais-a-favela/">Raull Santiago: ‘Na pandemia, descaso do governo impacta mais a favela’</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>ENTREVISTA // Taísa Machado: O AfroFunk Rio e a reinvenção da ideia de cultura periférica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Débora Britto]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Jul 2018 20:51:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma oficina de dança com potencial para debater o local da mulher na sociedade, sua relações com o corpo, a sensualidade e a cultura nasce da população negra na periferia do Rio de Janeiro e começa a se espalhar pelo Brasil. O AfroFunk Rio, criado peladançarina, atriz e pesquisadora Taísa Machado, avançou também para uma [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/a-ciencia-do-rebolado-ou-como-a-danca-pode-reinventar-a-ideia-de-cultura-periferica/">ENTREVISTA // Taísa Machado: O AfroFunk Rio e a reinvenção da ideia de cultura periférica</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Uma oficina de dança com potencial para debater o local da mulher na sociedade, sua relações com o corpo, a sensualidade e a cultura nasce da população negra na periferia do Rio de Janeiro e começa a se espalhar pelo Brasil. O AfroFunk Rio, criado peladançarina, atriz e pesquisadora Taísa Machado, avançou também para uma investigação de danças que têm o rebolado como base e as mulheres comoprotagonistas. O AfroFunk Rio se define como &#8220;um mergulho no universo das danças contemporâneas produzidas pelas periferias cariocas e suas essências ancestrais&#8221;, mas vai além.</p>
<p>A &#8220;ciência do rebolado&#8221;, ideia que surge das oficinas, constrói propostas concretas para lidar com temas como a libertação dos corpos femininos, o enfrentamento ao racismo e a circulação por territórios periféricos. Além disso, a oficina enxerga a dança como possibilidade de reinventar a percepção que se tem sobre a produção cultural das periferias, especialmente as favelas cariocas, local onde nasce o funk.</p>
<p>Em 2014, quando começou o Afrofunk Rio, Taísa mergulhou nouniverso deritmos brasileiros, afrolatinos e diaspóricos (de populações africanas que foram deslocadas de seus territórios de origem devido à escravidão). A partir dos estudos e depois da primeira experiência de aula, em que a turma lotou de mulheres inscritas, adançarina começou a observar e buscar referências do papel das mulheres em diferentes danças. Taísa pesquisou desde asculturasem que as mulheres são consideradas sagradas até o funk carioca, que, nas palavras dela, &#8220;não tem nada de sagrado&#8221;.</p>
<p>Desde então, o viés educativo se conectou com o prazer de estar entremulheres, homens e crianças para pensar a dançar como instrumento de libertação, de empoderamentopara transitar em espaços não seguros equestionar a ideia que se tem do funk como uma cultura menor.</p>
<p>As duas modalidades de oficinasdesenvolvidaspeloprojeto &#8211; &#8220;Ancestralidade do Tamborzão&#8221; e a &#8220;UniverCidade da Ousadia&#8221; &#8211; abordam diferentes aspectos da história das danças que Taísa traz para as aulas e conecta com os movimentoscompartilhados pelo funk. Pensar o espaço urbano como produtor dessa cultura periférica é o objetivo. As oficinas abordam, ainda, elementos da ancestralidade africana que, ao longo do tempo, por meio das resistências da população afrobrasileira, foram se adaptando, tomando novas formas.</p>
<p>Para além dos movimentos técnicos da dança, do rebolado, as oficinas são permeadas por rodas de conversa sobreoContinente Africano, a história do Brasil e dos Orixás. Todos esses temasdialogam com ofunk carioca, o balé, kuduro, o samba e outras referências de danças africanas. É assim que discussõessobre igualdade de gênero, racismo e machismo são trabalhadas nas oficinas.</p>
<p>Para Taísa, a possibilidade de utilizar as aulas da dança parainiciar processos de libertação de padrões sobre os corpos das mulheresé também fundamental. A retomada do próprio corpo e o exercício da sensualidade como fator de empoderamento das mulheres é algo que ela destaca. Além disso, as aulas, quase sempre, acabam em diversão, conta Taísa. &#8220;A ideia é explorar as diversas possibilidades da expressão corporal, da herança ancestral, da musculação do órgão de expansão e fertilidade, a manutenção de afeto entre as mulheres e o poder do ventre&#8221;, explica.</p>
<p>O AfronFunk Rio esteve no Recife e realizou um ciclo de oficinas gratuitas em comunidades periféricas e também aulas remuneradas para quem desejasse aprender sobre o tema.A reportagem da Marco Zero Conteúdoconversou com a idealizadora do AfroFunk Rio, Taísa Machado, sobre esses temas e outros, na videoreportagem abaixo:</p>
<p><iframe src="https://www.youtube.com/embed/u4caEq6A8OM?rel=0" allowfullscreen="allowfullscreen" width="560" height="315" frameborder="0"></iframe></p>
<p><em>Agradecimento pelas imagens do vídeo ao <a href="https://www.facebook.com/revelar.si/">Grupo Revelar.Si &#8211; Coletivo de Fotógrafas do Coque</a></em></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/a-ciencia-do-rebolado-ou-como-a-danca-pode-reinventar-a-ideia-de-cultura-periferica/">ENTREVISTA // Taísa Machado: O AfroFunk Rio e a reinvenção da ideia de cultura periférica</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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