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	<title>Arquivos feira de orgânicos - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos feira de orgânicos - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Feira agroecológica das Graças comemora 25 anos de existência</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Nov 2022 21:20:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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<p>A feira agroecológica das Graças, na zona norte do Recife, a famosa “feirinha de orgânicos por trás do colégio São Luís”, completou 25 anos de existência e a festa será neste sábado, 5 de novembro. A data do aniversário, na realidade, foi no dia 16 de outubro, mas os agricultores e feirantes decidiram comemorar após o segundo turno das eleições. A feira foi a primeira do estado a comercializar produtos agroecológicos e nasceu no coração do bairro das Graças, para estabelecer conexão entre o campo e a cidade, agricultores, agricultoras, consumidoras e consumidores.<br><br>Na feira, os produtos são oriundos da agricultura familiar, produzidos de forma orgânica, respeitando os ciclos da natureza e o meio ambiente. Atualmente, 33 milhões de brasileiros e brasileiras estão passando fome, vivendo em situação de insegurança alimentar, como aponta o Mapa da Fome de 2022. E os espaços agroecológicos são fontes de renda para famílias agricultoras neste contexto de crise financeira.<br><br>A comemoração inicia às 6h, contando com diversas atrações culturais. A feira fica situada na Rua Souza de Andrade, no bairro das Graças, no Recife, e de acordo com o coordenador do Centro Sabiá, Alexandre Pires, a feira agroecológica das Graças é um espaço de consumo responsável e acima de tudo é um encontro semanal com a qualidade de vida.<br><br>“Comprar os alimentos diretamente de quem os produz, diminuindo as cadeias de atravessamento do nosso consumo, nos aproxima e nos conecta com a comida de verdade e nos faz pensar no que e como consumimos, como nos alimentamos. Além de fortalecer a agricultura familiar e contribuir para a geração de renda dessas famílias agricultoras”, afirmou Alexandre.</p>



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		<title>Diário dos povos dos Sertões das Américas</title>
		<link>https://marcozero.org/diarios-dos-povosss-dos-sertoes-das-americas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Jun 2018 22:33:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[agroecologia]]></category>
		<category><![CDATA[américa central]]></category>
		<category><![CDATA[Articulação do Semiárido (ASA)]]></category>
		<category><![CDATA[El Salvador]]></category>
		<category><![CDATA[feira agroecológica]]></category>
		<category><![CDATA[feira de orgânicos]]></category>
		<category><![CDATA[Guatemala]]></category>
		<category><![CDATA[intercâmbio]]></category>
		<category><![CDATA[Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO)]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Último dia (30/06/2018) Pi-tom-ba O grupo de guatemaltecos, salvadorenhos e um hondurenho chegou à feira agroecológica das Graças, vizinha ao museu do Estado, quando o movimento já havia diminuído, às 7:30min. Nada demais, o objetivo era só conhecer o espaço e a lógica da relação com o público urbano. Mesmo assim, deu pra aproveitar a [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div id=":416" style="color: #222222;">
<div id=":416">
<div id=":416">
<div id=":416">
<h2>Último dia (30/06/2018)</h2>
<p><strong>Pi-tom-ba</strong></p>
<p>O grupo de guatemaltecos, salvadorenhos e um hondurenho chegou à feira agroecológica das Graças, vizinha ao museu do Estado, quando o movimento já havia diminuído, às 7:30min. Nada demais, o objetivo era só conhecer o espaço e a lógica da relação com o público urbano. Mesmo assim, deu pra aproveitar a música de <em>Biu Sanfoneiro</em>, o animador oficial da feira, que, além de vender seus produtos, sempre traz a sanfona.</p>
<p>O instrumento musical e o forró, contudo, já tinham sido apresentados aos visitantes em fartas doses ao longo da viagem pelo interior da Paraíba e Pernambuco. A novidade foi a pitomba. Esta sim, arrancou suspiros de encantamento, alcançando a unanimidade da qual a jaca ficou distante. Rosaura Díaz, Andrea Campos, Mariano Peñate, Marcial López, José Lorenzo e Pedro Fernandez foram os primeiros a garantir seus cachos. O saco de jaca ficou todo nas mãos de Santos Dias Hernandéz.</p>
<p>Depois da feira, os visitantes tiveram uma breve conversa com os feirantes sobre o comportamento dos consumidores, logística e estratégias de comercialização.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/SAM_2933.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-9544 aligncenter" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/SAM_2933.jpg" alt="SAMSUNG CAMERA PICTURES" width="448" height="336"></a></p>
<p><strong>Lembrancinhas verdes e amarelas<br />
</strong></p>
<p>Depois, outra reunião num restaurante do bairro, desta vez para avaliar os pontos altos e baixos da viagem de intercâmbio. A Marco Zero foi educadamente convidada a participar dessa avaliação. Dissimuladamente, o repórter fingiu não ter escutado o convite.</p>
<p>No início da tarde, a agenda finalmente foi flexibilizada, incluindo passeio de catamarã e visita a um mercado público para comprar camisas da seleção e bandeiras do Brasil, objeto de desejo de pelo menos metade da comitiva desde o desembarque em Recife.</p>
<p>Os agricultores, professores, agrônomos e funcionários da FAO embarcam de volta no final da tarde de domingo, mas o intercâmbio não acaba. Em agosto, a ASA irá organizar um curso de construção de cisternas. Uma delas deverá ser construída território salvadorenho e a segunda do outro lado da fronteira, na Guatemala.</p>
<h2>Dia 5 (29/06/2018)</h2>
<p><b>Seca sem fim</b></p>
<p>Por algum insondável mistério cartográfico, depois da visita à comunidade do sítio Feijão, em Bom Jardim, o grupo de intercâmbio acabou indo dormir num hotel previamente reservado em Caruaru. De acordo com o Google Maps, a mais de 100 quilômetros de distância por estrada. De manhã cedo já estávamos de novo na estrada, voltando em direção à zona rural de Cumaru, um dos poucos lugares do semiárido onde a seca de seis anos ainda não terminou, pois choveu apenas 240 milímetros entre março e maio.</p>
<p>A primeira parada foi na casa de Ivoneide Santos Silva e Severino Estevam, um casal que enfrenta a escassez de chuva com duas cisternas e disposição para se adaptar. Por adaptação, entenda-se só plantar perto de casa para aproveitar a chuva ao máximo, aproveitar cada pedacinho de terra e reduzir a criação de animais ao mínimo. &#8220;Nem sempre é fácil&#8221;, antecipa Ivoneide na acolhida em frente à casa.</p>
<p><b>Intercâmbio com todas as letras</b></p>
<p>No roçado de Ivoneide, que está em fase de transição para tornar-se uma agrofloresta, dois breves momentos justificaram todo o investimento da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) e os esforços da Articulação do Semiárido (ASA) em promover o intercâmbio entre agricultores. Tudo começou quando a dona da casa mostrou a técnica agroecológica que utiliza para irrigar árvores recém plantadas com a ajuda de uma garrafa pet.</p>
<p>Colocada de cabeça para baixo, com o gargalo enfiado na terra, a água no interior da garrafa vai gotejando e umedecendo a área próxima à raiz da planta. Parecia uma ideia ótima até a guatemalteca Glória Díaz oferecer uma alternativa: ela cortou uma garrafa e a colocou desemborcada, cobrindo um copo cheio d&#8217;água.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/WhatsApp-Image-2018-06-29-at-17.04.31-1.jpeg"><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-9538" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/WhatsApp-Image-2018-06-29-at-17.04.31-1-1024x576.jpeg" alt="WhatsApp Image 2018-06-29 at 17.04.31 (1)" width="702" height="394"></a></p>
<p>&#8220;A água evapora, o vapor vira água novamente em contato com a parede da garrafa e desce à terra. Glória mantém cinco mil mudas de frutíferas dessa forma em Plan de Jocote&#8221;, explicou o agrônomo Gustavo García, da FAO em Guatemala, enquanto Glória demonstrava a mesma coisa para para sua &#8220;hermana&#8221; brasileira. O coordenador da ASA, Antônio Barbosa, esclareceu que a técnica da guatemalteca é superior, pois amplia a circunferência úmida, dura mais tempo sem precisar de reposição e não há risco de entupimento do buraco da tampa</p>
<p>Ivoneide retribuiu na hora: mostrou um canteiro de hortaliças que permanece molhado o tempo todo graças a um plástico, colocado no fundo quando foi escavado antes do plantio.</p>
<p><b>A palavra mágica</b></p>
<p>A visita seguinte &#8211; última da jornada &#8211; foi aos sete hectares de Joelma Pereira, na comunidade de Pedra Branca. Joelma é considerada pelos técnicos da ASA e da ONG Centro Sabiá como uma das principais referências no País quando o assunto é convivência com o clima.</p>
<p>Apesar do cansaço, o grupo de visitantes foi tomado pelo entusiasmo quando a anfitriã pronunciou a frase &#8220;vamos agora conhecer o biodigestor&#8221;. Não imaginavam eles que &#8220;biodigestor&#8221; é uma palavra que tem o dom de suscitar dezenas de indagações e comentários.</p>
<p>A parada ao lado do mal cheiroso equipamento foi demorada. Os agricultores centroamericanos queriam saber tudo da técnica de produzir adubo de qualidade com estrume e lixo doméstico. Paciente, Joelma explicou tudo com riqueza de detalhes a um nível escatológico que deixou os visitantes satisfeitos.</p>
<p><b>Rumo ao Recife</b></p>
<p>Após visitar a Casa de Sementes da associação de agricultores e agricultoras de Cumaru, o grupo tomou a estrada a caminho do Recife, cenário da última etapa da jornada de intercâmbio.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/IMG-20180628-WA0028.jpg"><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-9526 size-large" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/IMG-20180628-WA0028-1024x576.jpg" alt="IMG-20180628-WA0028" width="702" height="394"></a></p>
</div>
<h2>Dia 4 (28/06/2018)</h2>
</div>
<p><strong>Anotações sem freio</strong></p>
<p>Hora de voltar para Pernambuco. O destino é Bom Jardim, a pouco mais de uma hora de Campina Grande, que um problema qualquer nos freios do micro-ônibus transforma em duas horas e mais uns quebrados. O repórter preferiu não checar qual o defeito. Às vezes, é mais saudável manter a ignorância.</p>
<p>A viagem serviu para repassar algumas informações interessantes, que acabaram não sendo aproveitadas nos textos anteriores, apresentadas abaixo em forma de anotações dispersas:</p>
<ul>
<li>Mesmo na seca e em meio a crise econômica, o número de feiras agroecológicas nas cidades do Cariri paraibano. Antes, só havia a de Juazeirinho. As feiras de Soledade, Cubati e Tenório são resultado tanto do aumento da produção das famílias que aderiram à agroecologia quanto do interesse do público pelos alimentos orgânicos.</li>
</ul>
<ul>
<li>O custo total de uma cisterna de placas fabricada pela metodologia da Articulação do Semiárido sai em torno de US$ 1.000,00, dos quais US$ 200,00 destinam-se à mobilização social e capacitação das famílias beneficiadas.</li>
</ul>
<ul>
<li>No planalto da Borborema, o agricultor Givaldo Firmino da Silva garante que é mais vantajoso vender mudas de pés de laranja e limoeiro do que comercializar as frutas propriamente ditas. No final de semana anterior à visita dos centroamericanos, ele vendeu 1.200 mudas por R$ 3,00. Garantiu o sustento da família por um mês.</li>
</ul>
<ul>
<li>O engenheiro agrônomo Edwin Escoto, de Honduras, torce para o Brasil retomar o caminho do desenvolvimento social: “Toda a latinoamérica cresceu na época de Lula. Nicarágua primeiro e Guatemala depois, tiveram de criar seus programas Hambre Zero (Fome Zero)por pressão da sociedade local”.</li>
</ul>
<ul>
<li>Maria das Graças, esposa de Givaldo Firmino, revela que só vai na cidade para comprar produtos de limpeza, de higiene e “a mistura”,ou seja, carnes. “Se eu tivesse tempo, fazia até sabão aqui na propriedade para não ter de comprar”.</li>
</ul>
<p><strong>Do Sítio Feijão (ou Frijoles?) para as Graças</strong></p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/IMG-20180628-WA0018.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-9529 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/IMG-20180628-WA0018.jpg" alt="IMG-20180628-WA0018" width="432" height="243"></a></p>
<p>O terceiro dia para valer de intercâmbio foi na comunidade de 118 famílias responsável por abastecer a mais conhecida e mais antiga “feira de orgânicos” do Recife, o Espaço Agroecológico das Graças, junto ao colégio São Luís. É no sítio Feijão, na zona rural de Bom Jardim, onde mora a maior parte dos agricultores e agricultoras que, todos os sábados, viajam 100 quilômetros para vender legumes, frutas, verduras, doces e polpas para consumidores da classe média recifense.</p>
<p>A recepção, na casa de Pedro Custódio e Elisângela, foi seguida de uma breve roda de conversa que antecipou aquilo que os centroamericanos encontrariam nas visitas a duas propriedades, ambas com sistema de agrofloresta. Estimulados a se apresentar, mais uma vez os guatemaltecos e salvadorenhos emocionaram os anfitriões e não mediram palavras para traduzir a importância da troca de experiências em suas vidas e para suas comunidades.</p>
<p><strong>Futebol e luta</strong></p>
<p>O professor e agricultor salvadorenho Ronny Girón foi categórico: “É muito bom conhecer a alegria, a música, o talento para bailar e para o futebol dos brasileiros. O mais importante, todavia, é saber da coragem para lutar dos homens e mulheres do semiárido”.</p>
<p>Sua conterrânea Andrea Campos, também professora e agricultora, contou que sempre ouviu falar do Brasil como o país do verde da Amazônia. “Não sabia que existia esse lugar ainda mais seco que nossa terra. Muito menos de como essas pessoas conseguiram mudar suas vidas”, afirmou. Antes de encerrar sua fala, ela fez uma revelação: “Ainda em minha terra, comprei um bilhete da sorte e nele estava escrito que o Brasil será campeão”.</p>
<p>Os salvadorenhos levam a sério futebol e luta social.</p>
<p><strong>Vida melhor</strong></p>
<p>Na propriedade de João Ribeiro e Zefinha (ela prefere o apelido, nem disse o nome de batismo), os visitantes escutaram e se impressionaram um relato de rápida melhoria de qualidade da vida graças a duas cisternas construídas a partir de 2010. “Antes era 340 metros morro abaixo e morro acima para encher uma lata d’água que tinha de durar o dia todo”, contou João.</p>
<p>Depois de comprar um picape nova para reduzir os custos com transporte até a feira das Graças, o casal sonha alto. “Eu quero continuar vivendo aqui, tendo comida boa para comer, podendo criar os meninos em segurança. É isso que eu sonho”, afirma Zefinha, sem medo de errar.</p>
<p><strong>Produzir no meio da mata</strong></p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/IMG-20180628-WA0020.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-9527" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/IMG-20180628-WA0020.jpg" alt="IMG-20180628-WA0020" width="1040" height="585"></a></p>
<p>A visita à agroflorestal foi um dos pontos altos do intercâmbio. No sistema agroecológico em que se produz alimentos depois de se plantar e esperar uma pequena floresta crescer, os visitantes centroamericanos realmente conhecerem algo que nunca tinham visto e fizeram várias perguntas de como se cultivar banana, jaca, acerola e manga.</p>
<p>Ao saber que João já estava conseguindo produzir café, o agrônomo Escoto empolgou-se: “Você fez bem. Primeiro plantou um bosque, depois plantou café. Em meu país, destruíram os bosques para plantar café, Coisa de louco”.</p>
<p>Depois de explicar como acelerar o amadurecimento das bananas guardando elas abafadas com maracujá, João Ribeiro ouviu o guatemalteco Santos Arias Hernandez detalhar como usar uma flor comum em Bom Jardim, a flor-de-mel como matéria orgânica capaz de triplicar a produção de feijão e milho.</p>
<p><strong>O de sempre</strong></p>
<p>O dia acabou como todos os outros: sanfona, tapioca, canjica, pamonha e estrada em quantidades colossais.</p>
<h2 style="text-align: left;">Dia 3 (27/06/2018)</h2>
</div>
<p><strong>Pragmatismo sob o sol</strong></p>
<p>Sem as recepções festivas do primeiro dia da agenda, o intercâmbio entre agricultores do semiárido brasileiro e do ‘corredor seco’ centro-americano teve um dia mais pragmático.O dia começou com o café da manhã no hotel em Campina Grande, seguido de um deslocamento curto até a sede da AS-PTA no município de Esperança, entidade que atua nacionalmente com foco na agricultura familiar e agroecologia.</p>
<p>A passagem pela sede da ONG, às margens da BR-104, foi rápida. O grupo se dividiu em dois e seguiu para conhecer as experiências de duas famílias nas comunidades de Riacho do Boi e Sítio Carrasco. Desta vez, não tinha nuvem alguma para esconder o sol no planalto da Borborema.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/IMG-20180627-WA0026.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-9514 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/IMG-20180627-WA0026.jpg" alt="IMG-20180627-WA0026" width="370" height="208"></a></p>
<p><strong>Micro propriedade com super produtividade</strong></p>
<p>Na propriedade de Givaldo Firmino e Maria das Graças Vicente, os visitantes custaram a crer na quantidade e diversidade da produção que o casal obtém em um terreno de apenas 1,25 hectare. Num espaço que, em qualquer local das américas, é considerado um minifúndio, há uma farta colheita de pelo menos cinco variedades de laranja, duas de limão, cana-de-açúcar, pimenta malagueta, feijão, cajá, jabuticaba, manga, hortaliças e o orgulho da família: o milho orgânico, devidamente certificado.</p>
<p>“Vivemos muito bem aqui. Não temos direito de reclamar. Nem tempo”, repete Givaldo.</p>
<p><strong>Seca nunca mais</strong></p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/IMG-20180627-WA0020.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-9516" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/IMG-20180627-WA0020.jpg" alt="IMG-20180627-WA0020" width="1040" height="585"></a></p>
<p>Nem sempre foi assim. Até o ano 2000, ele tinha de andar 40 minutos para trazer duas latas d’água nas costas. “Só tinha água ali, no pé daquele morro. Agora, tem água limpinha para beber e cozinhar aqui junto de casa”, explica o agricultor, beneficiado com uma das primeiras cisternas de placas construídas no programa ‘Um milhão de cisternas’.</p>
<p>A cem metros da casa, uma cisterna-calçadão, equipamento com capacidade para 52 mil litros d’água acumulado a partir de uma grande “calçada” de cimento por onde a água escorre, alimenta o sistema de irrigação por gotejamento. “Para não desperdiçar”, justifica.</p>
<p><strong>Qualidade de vida</strong></p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/IMG-20180627-WA0015.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-9508 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/IMG-20180627-WA0015.jpg" alt="IMG-20180627-WA0015" width="453" height="255"></a></p>
<p>Ao ser apresentada à cozinha da família, transformada em unidade de produção de polpa de fruta, “caiu uma ficha” para a guatemalteca Gloria Díaz: “Nossos irmãos brasileiros vivem em condições climáticas piores que a nossa [no corredor seco, chove quase o dobro que no semiárido], mas tem melhores condições econômicas”. Para ela, isso acontece graças à organização, capaz de conquistar apoio do governo.</p>
<p>O relato feito pelo casal ajuda Gloria, líder de uma cooperativa de mulheres apresentada aos leitores da Marco Zero na reportagem <a href="http://marcozero.org/sertoes-das-americas/">‘Sertões das Américas’</a>, a compreender como as coisas aconteceram no Semiárido. “A gente comprou a despolpadeira e o freezer por causa dos programas de agricultura familiar do governo Lula”, afirma Givaldo.</p>
<p><strong>Não é só água</strong></p>
<p>Não bastam as cisternas para transformar tanto a vida das famílias. “A agroecologia é o outro segredo da fartura”, afirma a convicta Maria das Graças, que prefere ser chamada de Nina, apelido de infância. “A melhor coisa é produzir isso tudo sem veneno e sem química. A gente gasta menos e só come coisas que fazem bem à saúde”.</p>
<p>Além das técnicas da agroecologia, a assessoria da AS-PTA ajudou a incorporar na rotina do casal o registro de tudo o que é produzido, vendido, doado ou trocado. Na coluna ao lado da quantidade de cada produto, é anotado o valor de mercado. O registro faz parte de uma estratégia da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) para jogar luz sobre os valores movimentados anualmente pelas famílias que adotam a agroecologia.</p>
<p>“Eles fazem parte de uma pesquisa nacional que irá dar visibilidade a essa economia invisível, afinal um dos argumentos do agronegócio é que a agroecologia é economicamente insignificante”, defende Adriana Galvão Freire, técnica da ONG.</p>
<p>Outra visitante, Doris Chavarria, ressaltou a importância desse registro: “Assim a gente sabe o quanto poupou”.</p>
<p><strong>Tarde sem Copa</strong></p>
<p>Apesar da agonia de alguns visitantes, a AS-PTA manteve o pragmatismo durante o período da tarde, realizando uma série de apresentações sobre a articulação ‘Polo da Borborema’, com os movimentos de mulheres, de jovens, outras ONGs e sindicatos da região. Apesar da agenda rigorosa, alguns participantes do intercâmbio conseguiram escapar e acompanhar a vitória do Brasil, inclusive o repórter da Marco Zero &#8211; numa atitude nada profissional &#8211; e até alguns integrantes da equipe da Articulação do Semiárido (ASA).</p>
<h2>Dia 2 (26/06/2018)</h2>
</div>
<div style="color: #222222;">
<div id=":3q7" class="ii gt">
<div id=":3wr" class="a3s aXjCH m1643e3d41a0e91d7">
<div dir="ltr">
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US"><b>Exaustão versus excitação</b></span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US">Para quem tinha acabado de enfrentar quase dois dias de viagem desde suas aldeias no departamento de Chiquimula, na Guatemala, ou do Oriente em El Salvador, não foi fácil dormir cinco horas e retomar a jornada às 6h. A excitação e a curiosidade, contudo, colocaram a exaustão dos camponeses e camponesas de El Salvador, Guatemala e Honduras em segundo plano.</span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US">No trajeto de duas horas entre o hotel em Campina Grande e a comunidade Sussuarana, em Juazeirinho, Doris Chavarria contou que estava curiosa e ansiosa. Nem precisava, não dava para disfarçar. &#8220;Quando nos visitaram, em abril, me impressionaram o compromisso e o amor dos agricultores brasileiros pelos recursos naturais, pela terra, pela água, pelos alimentos&#8221;, recordou.</span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span style="color: #36363d;"><span lang="en-US"><b>Aula no ônibus</b></span></span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US">No meio do caminho, um dos coordenadores da Articulação do Semiárido, Antônio Barbosa, deu uma pequena aula de português para facilitar a compreensão de alguns termos que seriam muito usados dali em diante. &#8220;Manzana no Brasil não é medida de área como na América Central, se traduz apenas como maçã e mais nada&#8221;. Maiz = milho. Frijoles = feijão. Yuka = macaxeira. Semillas = sementes. O bastante para dar início ao diálogo.</span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US"><b>Forró e comida boa</b></span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US">A recepção no terreiro em frente à casa de seu Petrônio Fernandes e Ivoneide Nunes foi em grande estilo: sanfoneiro, zabumba, triângulo, pamonha, tapioca, queijo coalho, cuscuz, banana, mamão, café com leite. Os visitantes não esperavam tanto.&#8221;Estoy atónita&#8221;, balbuciou a guatemalteca Glória Diaz. Ela quase chora.</span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US">Foi bonito mesmo. A visita às propriedades &#8211; um grupo ficou com o casal anfitrião, outro seguiu em comboio de carros para um sítio na vizinhança &#8211; começou no final da manhã e prolongou-se até início da tarde. O céu nublado ajudou.</span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US"><b>Anfitriões e protagonistas</b></span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/Foto-1-dia-2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-9500 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/Foto-1-dia-2.jpg" alt="Foto 1, dia 2" width="448" height="252"></a></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US">Aos 53 anos, Petrônio admitiu nunca ter imaginado que, um dia, seu pequeno sítio seria modelo a ser seguido por agricultores de três países. &#8220;Já chorei umas cinco vezes. Quando acordei, já fui chorando quando lembrei que a visita seria hoje&#8221;.</span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US">Petrônio e Ivoneide foram escolhidos por várias razões: o protagonismo de Ivoneide no sindicato dos trabalhadores rurais e na comissão municipal de projetos sociais, além dos ótimos aproveitamento e manejo da água captada por várias tecnologias apropriadas para o Semiárido.</span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><b>Fácil e barato</b></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/Foto-2-dia-2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-9501" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/Foto-2-dia-2.jpg" alt="Foto 2 - dia 2" width="1040" height="585"></a></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US">Diante da cisterna de placas com 16 mil litros de água da chuva, os visitantes quiseram saber do custo, ficando impressionados com o valor de apenas US$ 1.000,00. O salvadorenho Victor de Leon Gomes não entendeu como podem ter morrido um milhão de nordestinos na seca de 1983, se o valor era tão baixo. Os técnicos da ASA explicaram que, na época, o Brasil vivia sob uma ditadura militar que proibia a organização do povo e que a técnica de construção da cisterna só chegou no final dos anos 1990, a partir da experiência da China.</span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US">Santos Arias Hernández, também da Guatemala, ficou interessado no sistema de reuso das águas utilizadas pela família. &#8220;É fácil. Dá para fazer na minha terra&#8221;.</span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US"><b>Muita água, pouco tempo</b></span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US">Foram mais de duas horas percorrendo os cinco hectares da propriedade. Conheceram o barreiro cheio até a borda, a barragem subterrânea, as forrageiras para o gado, a diversidade de frutas, verduras, legumes e plantas ornanentais vendidos na feira agroecológica de Juazeirinho.</span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US">Petrônio disse que, depois de seis anos de seca, ele quase não tem tempo para plantar tudo o que quer. &#8220;Falta tempo, é tanta água que até fico besta&#8221;. Ivoneide emendou: &#8220;há tempo não via tanta água. A última vez que esse açude encheu foi em 2012&#8221;.</span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US"><b>100% de aproveitamento</b></span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US">A visita terminou diante de outra cisterna, a &#8220;de enxurrada&#8221;, para 52 mil litros, abastecida a partir de vários caminhos que conduzem as águas da chuva para o interior do equipamento. O tamanho surpreendeu os centroamericanos, mas o brasileiro Vicente Puhl, da agência de cooperação suíça Heks, sediada em Brasília, acredita que a dimensão da cisterna não era o mais importante: &#8220;A família sabe como usar as águas e as tecnologias de maneira combinada. É muito inteligente&#8221;.</span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><b>Preocupação</b></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US">No final do dia, uma sombra pairava sobre o entusiasmo dos visitantes. A salvadorenha Mariana García, o funcionário da FAO na Guatemala Gustavo Garcia e o técnico hondurenho Edwin Escoto estavam tensos.</span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US">A programação da quarta-feira prevê uma roda de conversa sobre experiências com mulheres e jovens da região para o horário das 14:30min. Mariana explicou o porquê da angústia: &#8220;Nós centroamericanos torcemos muito pelo Brasil. Em todas as Copas, El Salvador pára nos dias de jogos da seleção brasileira. Não podemos perder essa partida estando aqui&#8221;.</span></p>
<p class="m_-4155741548619262229gmail-western" style="color: #000000;" lang="en-US"><span lang="en-US">O repórter da Marco Zero e o representante da agência Heks prometeram negociar com a ASA uma mudança na agenda. Se não der certo, não estão descartadas sabotagem ou fuga. Os visitantes estrangeiros concordaram com todas as opções.</span></p>
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<h2>Dia 1 (25/06/2018)</h2>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/AsaGatemala1a.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-9455" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/06/AsaGatemala1a.jpeg" alt="AsaGatemala1a" width="856" height="421"></a></p>
<p>Primeiro um grupo de agricultores de todos os estados do semiárido brasileiro visitou, em abril, a região do &#8216;corredor seco&#8217;, na América Central, para conhecer experiência de organização popular dos campesinos e campesinas da Guatemala e El Salvador. Hoje, 13 agricultores desses dois países, além de um hondurenho, desembarcaram no aeroporto dos Guararapes para conhecer o que os camponeses paraibanos e pernambucanos fazem para produzir alimentos saudáveis, captar água da chuva e enfrentar o desmantelamento das políticas públicas promovidas pelo governo Temer.</p>
<p>A Marco Zero é um dos três veículos que irão acompanhar mais essa etapa do intercâmbio entre os povos das regiões secas, promovido pela Articulação do Semiárido (ASA) em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). Durante esta semana, vamos registrar o dia a dia dos encontros entre os centroamericanos e as famílias de comunidades rurais de Juazeirinho (PB), Esperança (PB), Cumaru (PE) e Bom Jardim (PE)</p>
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		<title>O ato de consumir como um ato político</title>
		<link>https://marcozero.org/o-ato-de-consumir-como-um-ato-politico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Joel Santos Guimarães]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 20 Jun 2015 22:03:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[agricultura orgânica]]></category>
		<category><![CDATA[consumo responsável]]></category>
		<category><![CDATA[economia solidária]]></category>
		<category><![CDATA[feira de orgânicos]]></category>
		<category><![CDATA[orgânicos]]></category>
		<category><![CDATA[Solidare]]></category>
		<category><![CDATA[Thais Mascarenhas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A sociedade brasileira, na forma de movimentos sociais organizados, está promovendo uma revolução pacífica e silenciosa em diversos setores de atividade. Um dos exemplos é uma nova relação, direta, que vem se estabelecendo entre consumidores e agricultores familiares, como uma alternativa para fugir da “ditadura” de supermercados e grandes distribuidoras. Essa relação direta, sem intermediários, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>				A sociedade brasileira, na forma de movimentos sociais organizados, está promovendo uma revolução pacífica e silenciosa em diversos setores de atividade. Um dos exemplos é uma nova relação, direta, que vem se estabelecendo entre consumidores e agricultores familiares, como uma alternativa para fugir da “ditadura” de supermercados e grandes distribuidoras.</p>
<p>Essa relação direta, sem intermediários, vem construindo opções saudáveis e responsáveis de produção, comercialização e consumo.</p>
<p>A movimentação ganhou força a partir de 2000, se baseia nos princípios da <strong>economia solidária</strong> e tem um nome: <strong>consumo responsável</strong>. Há Grupos de Consumo Responsável organizados em vários estados brasileiros.</p>
<p>Em entrevista exclusiva ao blog <a title="Ir para o site" href="http://agenciasolidare.com.br/">Agência Solidare</a> (reproduzida pelo Marco Zero Conteúdo), a economista Thais Mascarenhas, coordenadora de Projetos do Instituto Kairós − Ética e Atuação Responsável, ONG que tem como foco a educação, assessoria e pesquisa em consumo responsável e comércio justo e solidário, explica que “os Grupos de Consumo Responsável são consumidores e produtores organizados que se propõem a transformar seu ato de consumo em um ato político, visando à sustentabilidade da própria experiência e do bem-estar do planeta”.</p>
<p><strong>CONFIRA A ENTREVISTA:</strong></p>
<p><div id="attachment_663" style="width: 292px" class="wp-caption alignright"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Thais-Mascarenhas.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-663" class="size-full wp-image-663" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/Thais-Mascarenhas.jpg" alt="Thais Mascarenhas. Foto: Reprodução" width="282" height="332" /></a><p id="caption-attachment-663" class="wp-caption-text">Thais Mascarenhas. Foto: Reprodução</p></div></p>
<p><strong>O que é consumo responsável e que o diferencia do consumo tradicional?</strong><br />
<strong>Thais –</strong> O consumo responsável é um conjunto de hábitos e práticas que fomentam um outro modelo de desenvolvimento, comprometido com a redução da desigualdade social. Seu objetivo é melhorar as relações de produção, distribuição, aquisição e uso de produtos e serviços, de acordo com os princípios da economia solidária, soberania alimentar, agroecologia e o comércio justo e solidário. É a valorização e a vivência de atitudes éticas para a construção conjunta de um novo panorama social e ambiental.</p>
<p>O consumo responsável adota critérios que, muitas vezes, as pessoas não levam em conta, quando optam por escolher um determinado produto. Ao invés do mais gostoso, mais bonito, ou mais útil, precisamos levar em conta se o produto que se vai comprar é realmente necessário. Além disso, o consumidor deve considerar quais os caminhos que aquele produto percorreu até chegar as prateleiras e que suas escolhas diárias afetam a sua qualidade de vida, a sociedade, a economia e a natureza.</p>
<p><strong>Ou seja, o consumidor precisa levar em conta além da produção e da distribuição as questões sociais e ambientais?</strong><br />
Sim. Por isso, é importante que o consumidor olhe para o produto além do que está ali na sua frente. É preciso saber como ele foi produzido, as condições de trabalho de quem o fabricou e considerar ainda como os trabalhadores o produziram, levando em conta a parte social e as questões ambientais.</p>
<p><strong>Muitas vezes, um produto é fabricado levando em conta todos esses pontos que você citou. Mas, como enfrentar a questão da distribuição desses produtos, controlado em sua maioria pelas grandes empresas do setor, até que eles cheguem ao consumidor final?</strong><br />
Precisamos olhar especificamente para o sistema de distribuição também. É que, às vezes, a produção é feita de maneira solidária, mas, quando chega na distribuição, acaba beneficiando outros atores, que monopolizam esses canais de distribuição, que não levam em conta aqueles que fabricaram os produtos e também não se preocupam em buscar um preço acessível a mais consumidores.</p>
<p>Praticar um consumo responsável, na verdade, é refletir criticamente sobre o seu consumo e tentar buscar esse tipo de informação e considerar esse tipo de critério nas suas escolhas.</p>
<h2>Responsável x consciente</h2>
<p><strong>Quando essa visão ou conceito de consumo responsável chegou ao Brasil?</strong><br />
O Instituto Kairós começou a trabalhar com esse tema em 2000. Antes, havia algumas poucas instituições que trabalhavam com o tema. Mas de outra forma. O conceito de “consumo consciente”, por exemplo, vai menos na linha de entender como o produto foi produzido e distribuído e mais no sentido individualista. Mais no sentido de discutir alguns hábitos de consumo e não entra no questionamento no modo de produção. Mesmo porque algumas dessas instituições têm parceria com empresas que produzem esses produtos. Já o “consumo responsável” olha o produto desde a sua produção e busca questionar o modo de produção e distribuição atual e construir alternativas.</p>
<p><strong>Nesse caso, qual deve ser o comportamento do consumidor responsável?</strong><br />
Ele precisa buscar informações importantes sobre o que compra e usa. Avaliar não comprar produtos de empresas que exploram seus trabalhadores, por exemplo. O boicote é bastante comum na Europa e nos Estados Unidos. Além disso, deve denunciar essa situação para não fortalecer esse tipo de produção. Tem os famosos 4Rs: reduzir, reusar, reciclar e repensar o seu consumo. O Kairós, quando começou a trabalhar com consumo responsável, tinha um foco muito na formação de professores e multiplicadores. Mas a gente foi vendo que, na verdade, só problematizar o consumo não era suficiente. Era preciso também procurar e ajudar a encontrar alternativas a esse modo de produção e de distribuição tradicional.</p>
<p><strong>E a movimentação pelo consumo responsável encontrou alternativas? Quais?</strong><br />
A partir disso, a gente se aproximou do movimento de economia solidária, que tem justamente essa proposta de um modo de produção onde não existe patrão nem empregados, mas trabalhadores que, em suas cooperativas ou associações, decidem coletivamente o que e como produzir e como vão se organizar para fazer aquele trabalho. O que buscamos agora é encontrar meios para fortalecer esse modo de produção.</p>
<h2>Economia solidária</h2>
<p><strong>E como foi essa aproximação com a economia solidária?</strong><br />
O Kairós foi se aproximando da economia solidária atuando mais no movimento mesmo. Em termos de projeto, o Kairós se focou em projetos ligados à agricultura familiar. Tivemos dois projetos com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e outro com a prefeitura de São Paulo. O objetivo era fazer essa discussão do consumo responsável para quem estava produzindo na agricultura familiar e para os técnicos que trabalham com os agricultores. Trabalhamos os conceitos do consumo responsável e a questão da diversificação dos meios de distribuição e comercialização. Agora estamos com um projeto com o Ministério do Trabalho para o fortalecimento de uma rede de Grupos de Consumo Responsável.</p>
<p><strong>E qual a importância da economia solidária para o consumo responsável?</strong><br />
A economia solidária é o caminho que mais se alinha com essa proposta do consumo responsável. Não funciona como o capitalismo tradicional, pois ela não visa ao lucro, mas à melhoria da renda e da qualidade de vida dos trabalhadores. Com a economia solidária, trabalhamos o acesso a outros canais de comercialização, como a venda pelos agricultores familiares para a alimentação escolar das escolas públicas, que, por lei, são obrigadas a comprar 30% do que consomem da agricultura familiar.</p>
<p>Há aí várias dificuldades, porque as escolas precisam entender o que o produtor do entorno tem disponível e os agricultores conseguirem fazer um planejamento maior da produção para ter uma frequência de entrega daqueles produtos naqueles volumes para as escolas. E a nutricionista tem que adaptar o cardápio para esses produtos que são fornecidos pela agricultura familiar.</p>
<p><strong>É possível fazer isso? De que maneira?</strong><br />
Para um agricultor familiar colocar o seu produto no mercado convencional é muito difícil, pois as condições de vendas são muito ruins. O que trabalhamos com eles é que diversifiquem esses canais de comercialização ou encontrem meios alternativos, que seria a venda para as escolas públicas ou nas feiras, por exemplo. E que as feiras não sejam apenas um local de vendas, mas também de encontro de pessoas, de formação, de socialização, que os consumidores e vendedores possam trocar receitas.</p>
<p><strong>Essas feiras têm uma proposta que as diferencia das feiras tradicionais?</strong><br />
Sim. Por exemplo, agora estamos trabalhando com a Feira Orgânica do Modelódromo do Ibirapuera, que é uma feira bem diferente das outras feiras, já que quem está vendendo são os próprios produtores. Ou seja, há um encontro direto entre os produtores e os consumidores. É uma feira semanal, que acontece sábado de manhã e que sempre tem atividades formativas, um chef ensinando a fazer uma receita gostosa e saudável, um bate-papo com nutricionistas ou algum especialista relacionado a algum tema como a saúde, agricultura, produtos orgânicos etc.</p>
<p><div id="attachment_661" style="width: 1088px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/2014_08_30_feira_organicos_2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-661" class="size-full wp-image-661" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/06/2014_08_30_feira_organicos_2.jpg" alt="Feira de Orgânicos do Centro Esportivo do Modelódromo, na região do Parque Ibirapuera, na zona sul de São Paulo. Foto: Fábio Arantes/Fotos Públicas" width="1078" height="718" /></a><p id="caption-attachment-661" class="wp-caption-text">Feira de Orgânicos do Centro Esportivo do Modelódromo, na região do Parque Ibirapuera, na zona sul de São Paulo. Foto: Fábio Arantes/Fotos Públicas</p></div></p>
<p><strong>O que é vendido nessas feiras?</strong><br />
Produtos orgânicos ou que estão em transição para o orgânico: frutas e hortaliças e produtos beneficiados como suco, molho de tomate etc.</p>
<p><strong>E como o agricultor familiar e o próprio consumidor podem se organizar para que o consumo responsável possa ser adotado por um número cada vez maior de consumidores? Existe um levantamento sobre isso?</strong><br />
Não temos um acompanhamento sistemático disso. Fizemos um trabalho no Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e São Paulo. Fizemos uma cartilha do controle social na alimentação escolar e de como o público pode se organizar para que essa compra aconteça, e ela deve ser cobrada pela sociedade civil. E também materiais sobre as outras estratégias de comercialização. São três as estratégias que a gente trabalha: feiras, alimentação escolar e organização de Grupos de Consumo Responsável, que são iniciativas de consumidores que, a partir dessa discussão sobre o consumo, se juntam para viabilizar canais de acesso alinhados com seus princípios.</p>
<h2>Cooperativismo de consumo</h2>
<p><strong>O que exatamente são e como funcionam esses Grupos de Consumo Responsável?</strong><br />
Experiências de consumidores e produtores organizados que querem transformar o seu ato de consumo em um ato político visando à sustentabilidade da própria experiência ao bem-estar do planeta. Importante lembrar que em diversos momentos da história há a formação de organizações para aquisição de bens e serviços. Há referências de que o chamado cooperativismo de consumo surgiu no século 19, na Inglaterra, como uma das primeiras manifestações dos trabalhadores contra a exploração que sofriam por parte dos patrões.</p>
<p>Essa forma de organização do consumo serviu, durante décadas, como alternativa para o abastecimento de pessoas em diversas partes do mundo, até cair em decadência em consequência do predomínio pelos modelos de distribuição em massa (super e hipermercados) a partir da metade do século 20.</p>
<p><strong>Quantos Grupos de Consumo Responsável existem hoje em todo o País?</strong><br />
O Kairós tem mapeado cerca de 20 grupos em todo o País, quase a metade deles no Estado de São Paulo. Esses grupos de consumo atuam ou no que classificamos de redes singulares ou em redes capilares. Redes singulares são grupos formados por um coletivo de consumidores que são responsáveis pela gestão e distribuição de produtos (entrega/retirada) e que se relacionam diretamente com os produtores. Uma rede capilar é um grupo de consumo formado por diferentes núcleos de consumidores, que são responsáveis pelas entregas aos consumidores. Um exemplo de rede capilar é o MICC (Movimento de Integração Campo Cidade), que fica na zona leste da cidade de São Paulo. É um grupo super interessante porque trabalha com consumidores de baixa renda.</p>
<p>Esse grupo, especificamente tem o apoio da igreja. Começou em 1986, na Vila Alpina. Esse grupo começou a fazer um trabalho em um assentamento, nos arredores de São Paulo e organizaram essa logística das cestas para a cidade de São Paulo. Começou com essa ideia de integrar campo e cidade a partir da produção do campo que é levada para a cidade. Hoje eles entregam cestas para cerca de 1.000 famílias, com variedades de hortaliças com preços bem baixos. Tem alguns pontos de entregas onde as famílias do bairro vão buscar.</p>
<p><strong>O fortalecimento do consumo responsável e a sua expansão entre os consumidores é uma consequência da atuação dos movimentos sociais?</strong><br />
Sim, ele vem se fortalecendo nos últimos anos. Há políticas públicas específicas voltadas para isso e, de outro lado, tem o movimento social crescendo, pressionando e se articulando, e se fortalecendo e encontrando novas saídas e novas soluções para os desafios que vêm aparecendo.</p>
<p><em>Entrevista publicada originalmente no blog <a title="Ir para o site" href="http://agenciasolidare.com.br/">Agência Solidare</a>, especializado em Economia Solidária</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong> Saiba mais</strong></p>
<p>[list style=&#8221;arrow-right&#8221;]<br />
[li]Para saber quais e onde são as <strong>feiras orgânicas em Recife</strong>, conheça o mapa elaborado pela Sociedade Vegetariana Brasileira: <a title="Ir para o site" href="http://www.svbrecife.org/mapa-de-feiras-organicas">www.svbrecife.org/mapa-de-feiras-organicas</a>[/li]<br />
[li] Quem estiver fora do Recife, pode usar o mapa disponibilizado pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) para descobrir qual é a feira mais perto de sua casa: <a title="Ir para o site" href="http://feirasorganicas.idec.org.br">feirasorganicas.idec.org.br</a>[/li]<br />
[/list]		</p>
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