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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Mandatos coletivos se estruturam para vencer resistência no Legislativo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Aug 2019 21:44:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Por Débora Britto e Maria Carolina Santos Novidade na política brasileira, os mandatos coletivos não possuem um formato definido nem cartilha a ser seguida. Nas últimas eleições, candidaturas coletivas no Nordeste e no Sudeste venceram e agora descobrem e constroem no dia a dia um novo modo de fazer política nas casas legislativas. Em [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/roda-ocupa-4.jpeg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-18031" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/roda-ocupa-4.jpeg" alt="roda ocupa 4" width="1280" height="94"></a></h1>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Por Débora Britto e Maria Carolina Santos</strong></p>
<p>Novidade na política brasileira, os mandatos coletivos não possuem um formato definido nem cartilha a ser seguida. Nas últimas eleições, candidaturas coletivas no Nordeste e no Sudeste venceram e agora descobrem e constroem no dia a dia um novo modo de fazer política nas casas legislativas.</p>
<p>Em São Paulo e no Recife, Bancada Ativista e Juntas têm várias representações em uma única cadeira nas assembleias. Em Minas Gerais, a Gabinetona conseguiu construir uma espécie de super estrutura que dá conta de duas cadeiras na Câmara Municipal de Belo Horizonte, uma na Assembleia estadual e uma na Câmara Federal. Nas três experiências, o tempo tem mostrado o que dá certo, mas nenhuma fórmula é certeira se o contexto em que estão inseridas não for bem estudado.</p>
<p>Em comum, os mandatos coletivos também têm o fato de construírem o movimento Ocupa Política. Representações dos mandatos participarão do evento realizado no Recife, no final de agosto, para compartilhar as estratégias e aprendizados dos últimos meses.</p>
<blockquote><p><a href="http://marcozero.org/ocupa-politica-chega-ao-recife-para-inspirar-candidaturas-coletivas-e-de-ativistas/"><strong>Ocupa política chega ao Recife para inspirar candidaturas coletivas e de ativistas</strong></a></p></blockquote>
<p>Conheça como se formaram e como funcionam os mandatos coletivos.</p>
<h2><b>Juntas, primeiro mandato coletivo feminista</b></h2>
<p>Formado por cinco mulheres, o mandato feminista das Juntas (Psol) foi o fenômeno político-eleitoral nas eleições de 2018 em Pernambuco e continua provocando solavancos no dia a dia da Assembleia Legislativa do estado (Alepe). Em pouco mais de seis meses de mandato, as Juntas compraram briga com a bancada evangélica ao disputar e ganhar a presidência da Comissão de Direitos Humanos e tensionaram o corporativismo ao votar contra o aumento da verba de gabinete e denunciar em plenário casos de racismo que integrantes do gabinete e a codeputada Jô Cavalcanti sofreram nas dependências da Casa.</p>
<p>Compõem o mandato coletivo a trabalhadora do comércio informal Jô Cavalcanti, a advogada trans Robeyoncé Lima, a produtora audiovisual Carol Vergolino, a professora Kátia Cunha e a presidente do Conselho Municipal de Juventude de Surubim, Joelma Carla. Todas filiadas ao Psol.</p>
<p>O reconhecimento pelos pares &#8211; outros deputados e deputadas &#8211; tem sido um desafio comum a todos os mandatos coletivos. Com as Juntas não foi exceção, mas nem por isso elas abriram mão de garantir, inclusive no regimento, a participação das cinco codeputadas nos processos internos da Alepe. Ainda assim, apenas Jô Cavalcanti, representante formal, pode acessar o plenário da Casa. &#8220;Esse formato de mandato coletivo traz novas perspectivas de políticas e vamos avançando sempre nas nossas pautas, nas nossas sujeitas, bases e nos territórios. Esse é o diferencial da gente. Eu acho que é por isso que incomoda tanto alguns deputados de dentro da Assembleia”, analisa Jô.</p>
<p>De lá para cá, a &#8220;mandata&#8221;, como reivindica ser chamada, tem trabalhado para ampliar a inserção das pautas dos movimentos sociais no dia a dia do Legislativo estadual. Até maio, conseguiram protocolar quatro projetos de lei, realizar nove audiências públicas e dez plenárias temáticas com diversos segmentos da sociedade. Entre eles, a população LGBT, grupos feministas, trabalhadoras e trabalhadores do comércio informal, movimento negro, povos de terreiro, evangélicos do campo progressista, pessoas com deficiência, juventude, ativistas do direito à cultura e também do direito à moradia. Dos projetos de lei, um foi aprovado e cria o dia de defesa dos defensores dos direitos humanos, 14 de março, data do assassinato da vereadora Marielle Franco (Psol-RJ).</p>
<div id="attachment_18056" style="width: 712px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/47170014142_3ca172c928_h.jpg"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-18056" class="wp-image-18056 size-large" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/47170014142_3ca172c928_h-1024x683.jpg" alt="Posse das Juntas na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Foto: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="702" height="468"></a><p id="caption-attachment-18056" class="wp-caption-text">Posse das Juntas na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Foto: Inês Campelo/MZ Conteúdo</p></div>
<h3><b>Nova política e novas estruturas<br />
</b></h3>
<p><span style="color: #000000;">Sendo cinco representantes de movimentos diversos, a incidência das Juntas se reflete na diversidade de temas em que têm atuado. &#8220;Essa diversidade que as cinco trazem de lutas e bandeiras para dentro da mandata é ponto positivo. Porque a gente, inclusive, consegue se dividir nos trabalhos. É possível ter uma no interior do estado, uma no plenário, uma na comissão. Uma ou duas no gabinete. A gente consegue se dividir melhor nas atividades, atuando de uma forma mais ampla e atendendo melhor as pessoas, a sociedade, a população que nos procura e que traz suas demandas”, conta a codeputada Joelma Carla.</span></p>
<p><span style="color: #000000;">Com tantas pautas, no entanto, o fato de ser uma mandato feminista não fica em segundo plano. Para Robeyoncé Lima, codeputada negra e trans, ainda é pouco que dez das 49 cadeiras da Alepe sejam ocupadas por mulheres. No caso das Juntas, uma cadeira ocupada por cinco pessoas por si só provoca mudanças na estrutura parlamentar que, aos poucos, vai reconhecendo a legitimidade de um mandato coletivo. &#8220;Ninguém imaginava cinco mulheres ocupando o mesmo lugar institucional em uma Assembleia, né? De cinco, três são negras e a gente dentro da Assembleia desconfigura um pouco o que seria esse ser político e imaginário. Do que seria esse ser político que é uma pessoa branca, heterossexual e masculinizada”, analisa.</span></p>
<p>A estrutura decisória das Juntas passa pelas codeputadas, mas existe também um conselho político externo formado por representantes de movimentos sociais diversos. &#8220;Todas as decisões são coletivas realmente. Quando a gente não decide entre as cinco, a gente leva para as coordenações, as cinco coordenadoras. A gente ouve também o conselho político, ouve as pessoas na plenária e acredita que a coletividade vem dando realmente certo”, explica a codeputada Kátia Cunha.</p>
<p>A mandata também tem por princípio a igualdade salarial de todas. Codeputadas e coordenadoras repassam parte dos salários para um fundo usado pelo gabinete para custear ações coletivas. Modelo inspirado na Gabinetona, de Minas Gerais.</p>
<h2><b>Bancada Ativista, movimento e mandato</b></h2>
<p>De movimento social e político para renovar quadros a partir de uma outra forma de fazer política, a Bancada Ativista surgiu em 2016 apoiando candidaturas de fora do movimento e, em 2018, decidiu construir uma candidatura própria e se tornou, com o mesmo nome, um mandato coletivo na Assembleia Legislativa de São Paulo.</p>
<p>Com nove integrantes, a candidatura eleita tinha nas urnas o nome de Mônica Seixas, mas sempre deixou claro que ela seria a porta voz oficial do grupo. Com 149.844 votos distribuídos em 89% dos municípios de São Paulo, a Bancada ganhou um assento na Assembleia Legislativa e o desafio de construir o primeiro mandato coletivo no estado. &#8220;Foi uma campanha radicalmente coletiva, apresentando os nove codeputados e codeputadas em todas as peças de comunicação. Essas pessoas eram todas diversas. Foi uma combinação de vários ativismos, pautas e identidades dentro desta campanha”, conta Caio Tendolini, confundador do movimento Bancada Ativista e assessor parlamentar do mandato eleito.</p>
<p>Radicalmente coletiva é como se define a Bancada. Depois de eleita, um dos principais desafios foi construir um modelo que funcione. O mandato é composto por uma coordenação política que define o rumo e as estratégias, e da qual os codeputados e codeputadas fazem parte. O gabinete se organiza em círculos de comunicação, mobilização, jurídico e outros que atendem às demandas e prioridades políticas.</p>
<p>A tomada de decisões é feita em coletivo, sempre por consenso. Em casos de divergência, o&nbsp; codeputado que trabalha e tem experiência naquela pauta específica tem prioridade ou, em certos casos, a palavra final sobre o posicionamento do mandato. Eles se inspiraram na experiência das Muitas, de Minhas Gerais, para desenhar esse modelo.</p>
<p>Diferente das Juntas, a Bancada não tem uma instância externa de conselho político. São os nove codeputados e codeputadas que fazem a ponte e o diálogo com os movimentos, coletivos e organizações de origem que representam.</p>
<div id="attachment_18053" style="width: 712px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/37402432_2048986562086259_7107210958279278592_o.jpg"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-18053" class="size-large wp-image-18053" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/37402432_2048986562086259_7107210958279278592_o-1024x475.jpg" alt="Bancada Ativista é o primeiro mandato coletivo a ocupar deputância estadual em São Paulo. Foto: Bancada Ativista" width="702" height="325"></a><p id="caption-attachment-18053" class="wp-caption-text">Bancada Ativista é o primeiro mandato coletivo a ocupar a Assembleia de São Paulo. Foto: Bancada Ativista</p></div>
<h3><b>Laboratório legislativo para ativistas</b></h3>
<p>Para a codeputada Raquel Marques, se algo pode ser dito sobre a chegada à Alesp é que, na perspectiva institucional, ainda há muito a ser conquistado. Mudar o regimento, por exemplo, é algo fora de perspectiva devido ao contexto político da Assembleia &#8211; a presidência da Casa e o comando do Governo do Estado são ocupados há anos pelo PSDB.</p>
<p>Diante das limitações impostas pelo rito parlamentar, o mandato vem assumindo como carro chefe o que chama de “pedagogização&#8221; da política. O mandato educativo tem colocado energia principalmente no apoio e fortalecimento dos ativistas que estão nas ruas. “O Legislativo tem questões muito específicas que no campo federal faz sentido, mas no âmbito estadual é muito incipiente. As matérias que a gente pode legislar não são muitas. Há um esvaziamento do que a gente pode fazer. As pessoas chegam com demandas muito concretas e 90% dos casos estão relacionados a alguma coisa que só o federal ou o município pode legislar”, explica Raquel.</p>
<p>Segundo ela, a Alesp tem historicamente um ritmo lento. Cada deputado consegue ter, no máximo, dois projetos aprovados por ano. No início da legislatura essa perspectiva foi um balde de água fria na expectativa de um mandato mais propositivo, com muitos projetos de lei. Para contornar essa condição, o mandato tem apostado em formações para intervenção no Legislativo.</p>
<p>Um dos mecanismos para garantir maior participação de ativistas e movimentos foi a criação do Laboratório Legislativo. O espaço reúne ativistas e pessoas diretamente atingidas por temas ou propostas de lei para que se debrucem sobre o <em>modus operandi</em> legislativo e aprendam como ele funciona. A partir daí, as pessoas formulam alternativas, projetos e emendas. Neste ano, já foram realizados dois laboratórios com as temáticas da maternidade e LGBTI. Para agosto está agendado um outro sobre a questão indígena.</p>
<p>Raquel acredita que o mandato coletivo tem assumido um papel importante de abrir o trabalho legislativo para a sociedade paulista. &#8220;Estar no lugar de influência, de fazer diálogo com o Executivo para poder dar a mão para quem está nas ruas parece pouco, mas faz uma diferença muito grande”, diz.</p>
<h2>Gabinetona, integração de pautas e equipe</h2>
<p>A experiência da Gabinetona, em Minas Gerais, é diferente das Juntas e da Bancada Ativista. Mas tem semelhanças. Ao contrário dos outros mandatos, não surgiu de uma campanha de mandato coletivo. Após as eleições de 2016, as ativistas Cida Falabella e Bella Gonçalves terminaram as eleições com apenas 30 votos de diferença. Cida entrou na Câmara de Vereadores, Bella não. As duas faziam parte da campanha Muitas, formada por doze integrantes de movimentos, organizações, coletivos e ativistas independentes de Belo Horizonte.</p>
<p>Além de Cida, quem também entrou na Câmara no mesmo ano e fazia parte das Muitas era Áurea Carolina, que obteve 17.420 votos, se tornando a vereadora mais votada da história da cidade. As três são do Psol. Com pautas em comum e do mesmo coletivo, Áurea e Cida decidiram unificar os gabinetes: derrubaram as paredes e fizeram uma sala só, com uma equipe única, atuando em conjunto.</p>
<p>Logo depois, convidaram Bella Gonaçalves para integrar a Gabinetona, como foi chamada a integração, em uma proposta de covereança. “As lutas que eu já trabalhava, como direito à cidade, ocupações e trabalhadores informais, foram incorporadas aos mandatos”, conta Bella.</p>
<div id="attachment_18045" style="width: 650px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-18045" class="size-full wp-image-18045" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/29415788607_fbb960c91f_z.jpg" alt="Bella Gonçalves em 2018 durante uma audiência pública ao lado de Áurea Carolina e Cida Falabella. Foto: Abraão Bruck/CMBH" width="640" height="406"><p id="caption-attachment-18045" class="wp-caption-text">Bella Gonçalves em 2018 durante uma audiência pública ao lado de Áurea Carolina e Cida Falabella. Foto: Abraão Bruck/CMBH</p></div>
<p>Durante os anos de 2017 e 2018, Bella Gonçalves atuou em todos os espaços possíveis como covereadora. Só não tinha acesso ao plenário. “Eu estava na parte de preparação para as plenárias, nas reuniões com o Executivo e com outros vereadores. Participava das comissões. Sempre apresentando a figura da covereança. Já diziam “as três vereadoras”. E foi muito legal como a institucionalidade recebeu isso. O Executivo e a Câmara reconheciam o lugar da covereança como uma invenção legítima”, lembra Bella, que, oficialmente, tinha o cargo de assessora de articulação política no gabinete de Cida.</p>
<p>Durante os dois anos de covereança, elas não chegaram a apresentar nenhuma medida para tentar “legalizar” o mandato coletivo na Câmara de BH. “Eu acho que é preciso que outras formas de ocupação institucional sejam reconhecidas. Na verdade, as regras institucionais incluem muitas travas à invenção. Existem formas dadas para se expressar, tanto nas questões de base, oposição, blocos&#8230;quanto na centralidade da figura do parlamentar, que é uma das coisas que o mandato coletivo tenta desconstruir. A gente ia tentando navegar pelas brechas, mas quebrar esses limites institucionais é uma tarefa bastante árdua”, diz Bella.</p>
<h3>Nova configuração nos três níveis legislativos</h3>
<p>Na eleição de 2018, a Gabinetona se expandiu e a proposta chegou às três esferas do legislativo. De vereadora, Áurea Carolina passou a deputada federal. Andréia de Jesus, também do movimento Muitas, foi eleita para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais. E Bella Gonçalves, que era primeira suplente, assumiu oficialmente na Câmara, continuando a atuar ao lado de Cida Falabella.</p>
<p>Quando Bella assumiu, sua atuação foi ampliada. “Há algumas diferenças, principalmente a questão do plenário, de estar presente lá. E, como figura de representação, tanto no plenário, como nas comissões, tive que me apropriar de maneira mais ampla sobre as diferentes lutas que compõem a Gabinetona”, detalha.</p>
<p>Hoje, a Gabinetona funciona em um casarão no bairro de Floresta, em Belo Horizonte, além dos gabinetes nas casas legislativas. É uma equipe com 90 pessoas trabalhando em uma pauta integrada entre as deputadas e vereadoras. Há uma única equipe de comunicação, de jurídico e assessores políticos. Todos trabalhando no que chama de mapa de lutas: mais de 20 temas em áreas como direito à cidade, feminismo, agroecologia, direitos LGBTQI+, mineração etc. “Varia muito a atuação das lutas, que às vezes se organizam presencialmente, às vezes por um grupo de WhatsApp”, conta a assessora política Danúbia Gardênia, que integra a equipe da Gabinetona.</p>
<div id="attachment_18046" style="width: 970px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-18046" class="size-full wp-image-18046" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/gabinetona1.jpg" alt="Gabinetona hoje: Cida, Andréia, Bella e Áurea. Foto: Fernando Olze/Divulgação" width="960" height="664"><p id="caption-attachment-18046" class="wp-caption-text">Gabinetona hoje: Cida, Andréia, Bella e Áurea. Foto: Fernando Olze/Divulgação</p></div>
<p>Todo mês, há uma reunião de articulação política envolvendo as quatro legisladoras. Um exemplo de como a integração da Gabinetona funciona na prática é a questão da mineração – que inicialmente não era uma pauta dos mandatos, mas se tornou após os crimes das barragens de Mariana e Brumadinho. Em Brasília, Áurea Carolina acompanha a comissão interna da Câmara e a CPI da mineração. Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, Andréia de Jesus trabalha com as comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas, afetadas pela mineração. Já na Câmara de Vereadores, Bella discute a segurança hídrica na CPI das águas e barragens.</p>
<p>Uma das políticas internas da Gabinetona é a isonomia salarial. Não há diferença se um assessor está oficialmente lotado no Assembleia ou na Câmara. A exceção é para quem trabalha em Brasília, por conta do custo de vida da cidade. Formalmente, cada gabinete tem seus assessores e se responsabiliza pelos pagamentos deles.</p>
<p>A experiência inicial da Gabinetona foi apresentada como inspiração no Ocupa Política de 2017. A nova configuração será apresentada na deste ano. “É uma experiência incrível de uma proposta de democratização das relações. Os mandatos institucionais engessaram muito, e os coletivos estão vindo inovar. E inovam principalmente na construção de confluências. Na descentralização da ideia do parlamentar. O intercâmbio entre lutas potencializa muito. É mais do que a soma, é uma multiplicação da nossa potência. E os mandatos coletivos pegam a diversidade, que vem sendo tão atacada na política de hoje, como elemento de força. É uma experiência incrível de aprendizado pessoal e construção de pontes” , afirma Bella.</p>
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		<title>Mulheres negras no poder potencializam a reestruturação da esquerda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Débora Britto]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Dec 2018 12:27:50 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Forjadas nos movimentos sociais e nas práticas coletivas de mulheres negras que, de modo ancestral, já praticam o mantra recentemente difundido de não soltar as mãos de ninguém, Mônica Francisco e Áurea Carolina, eleitas deputada estadual pelo Rio de Janeiro e deputada federal por Minas Gerais, respectivamente, são forças políticas que estão reorganizando a esquerda [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Forjadas nos movimentos sociais e nas práticas coletivas de mulheres negras que, de modo ancestral, já praticam o mantra recentemente difundido de não soltar as mãos de ninguém, Mônica Francisco e Áurea Carolina, eleitas deputada estadual pelo Rio de Janeiro e deputada federal por Minas Gerais, respectivamente, são forças políticas que estão reorganizando a esquerda brasileira. As duas se candidataram pelo Psol e constroem não apenas o partido, mas o campo da esquerda a partir de uma visão crítica.</p>
<p>Não à toa, as duas emergências políticas e subjetivas que essas mulheres representam trazem aprendizados e reflexões para o momento político brasileiro. Sem pedir licença e sem tutela das estruturas e correntes tradicionais, mesmo dentro do Psol, suas eleições mostraram uma força que não estava contabilizada nas assembleias de esquerda &#8211; nem na conta das direitas tradicionais &#8211; e surpreendem pela nova forma de fazer política.</p>
<p>O desafio colocado para as duas parlamentares é gigante: construir mandatos que continuem próximos dos movimentos sociais, que reencantem as pessoas pela política, e com atuação propositiva no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A multiplicação de quadros também é uma preocupação de ambas, que lembraram a colega de partido e amiga Marielle Franco como símbolo da importância de ter mais mulheres nos espaços de poder.</p>
<p>Áurea Carolina foi a vereadora mais bem votada de Belo Horizonte nas eleições de 2016 e fundou a Gabinetona, experiência de mandato coletivo compartilhado com a vereadora Cida Falabella, e a articulação para ocupar a política institucional intitulada <em>Muitas</em>. Já Mônica Francisco, ativista com mais de 30 anos de lutas nas favelas cariocas, integrou o gabinete de Marielle Franco e era incentivada por ela a disputar um mandato. Foi após a execução da vereadora, em março deste ano, que ela aceitou a missão.</p>
<p>No Recife para um debate sobre os desafios das mulheres no atual cenário político, as duas deputadas eleitas foram entrevistadas com exclusividade pela Marco Zero Conteúdo.</p>
<div id="attachment_11963" style="width: 410px" class="wp-caption alignright"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_013.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-11963" class="wp-image-11963" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_013-200x300.jpg" alt="30/11/2018. Recife, entrevista com as deputadas Áurea Carolina de Freitas e Silva, Federal em Belo Horizonte, e Mônica Francisco, Estadual no Rio de Janeiro. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="400" height="599"></a><p id="caption-attachment-11963" class="wp-caption-text">Feminista evangélica, Mônica Francisco compôs o mandato de Marielle Franco e ocupará uma cadeira na Alerj em 2019</p></div>
<p><b>Mônica Francisco: o desafio de construir um mandato quilombo</b></p>
<p>Há muita discussão por que mandato quilombo se não tem só preto, só preta. Mas a gente pode ter um problema com o movimento negro. Eu estou tentando recuperar o sentido de um mandato quilombo pensando nesse momento de que um mandato é uma ferramenta.</p>
<p>Até 14 de março a gente tinha um pensando, depois outro. Depois da prisão de Lula, depois da intervenção federal também mudou. Depois das eleições, com esse resultado o dia a dia de um mandato já vira outra coisa fora do que a gente tem como clássico de um mandato. <strong>O sentido do mandato quilombo é você se reorganizar, se reestruturar, criar estratégias que venho chamando de tecnologias de guerrilha. Os nossos coletivos na vida já faziam isso para garantir sua sobrevivência e a gente agora traz para o mandato.</strong> É muito difícil separar essa nossa personalidade de movimento dessa nova tecnologia de guerrilha que a gente tem e que tem que ser ao mesmo tempo um quilombo no sentido de acolher os movimento sociais, a sociedade civil organizada e de estar alinhada na luta, na convergência daquilo que a gente entende como pautas prioritárias e fundamentais</p>
<p>A gente precisa, às vezes, despertar as pessoas para esse momento que estamos vivendo, o que é esse contexto. As nossas vidas estão de fato em risco. Desde o risco da morte, de sermos mortas de alguma maneira, mas também a nossa vida em sociedade está em risco. O projeto que a esquerda veio construindo está em risco, está em xeque. Vemos agora o avanço de um projeto conservador que é muito maior do que nós e que passa pela submissão e aniquilação das mulheres pretas, principalmente.</p>
<p>A gente está no momento em que o mandato não é só o espaço de construção de projetos de lei. As pessoas querem saber como vai ser o mandato, mas é o tempo em que a gente tem que formular, em que tem que estruturar justamente para não cair na reatividade. Porque a gente não está lidando com imbecis. Podem ser rasos no sentido da política. A gente está lidando com um sentimento neofascista que não tem apreço por nada. Porque eles não precisam de nada que a gente precisa. A gente deixa de ser parlamentar, a gente vai voltar para o nossos lugar, esses caras não.</p>
<p>Minha experiência parlamentar foi na assessoria de Mariellle Franco. A gente vem com o que a gente tem de elementos dessa experiência, mas, para além disso, temos a relação com os movimentos sociais. É preciso não perder essa dimensão da realidade, do território. Eu sou favelada, não fazer essa desconexão é uma forma de preparar para o mandato. Porque assim a gente faz uma leitura da realidade, nesse contexto de extrema instabilidade democrática que a gente está vivendo, da dificuldade de ocupar esse espaço no parlamento, da histórica negação da capacidade cognitiva, de produzir e formular política pública.</p>
<div id="attachment_11962" style="width: 410px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_012.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-11962" class="wp-image-11962" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_012-200x300.jpg" alt="30/11/2018. Recife, entrevista com as deputadas Áurea Carolina de Freitas e Silva, Federal em Belo Horizonte, e Mônica Francisco, Estadual no Rio de Janeiro. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="400" height="599"></a><p id="caption-attachment-11962" class="wp-caption-text">Áurea Carolina foi a vereadora mais votada em 2016, em Belo Horizonte, e tem experiência de mandato coletivo com Gabinetona</p></div>
<p><strong>Áurea Carolina: o</strong><b>cupando a política coletivamente</b></p>
<p>O que nos sustenta é uma trajetória de atuação em movimentos sociais, em lutas muito diversas, em construções que ora alcançam a institucionalidade, ora estão mais multiplicadas nos territórios. A Gabinetona em Belo Horizonte foi uma super construção de mandato coletivo, aberto, popular. É nossa matriz para chegar na Câmara dos Deputados. Em Minas, elegemos deputada estadual Andrea de Jesus, das <em>Muitas</em>. O mandato em Belo Horizonte agora vai ser expandido em três esferas. A gente já tem um antecedente de vivência dentro do sistema político que nos traz alguns aprendizados, uma atenção e alguns alertas.</p>
<p>Nas últimas semanas estamos em transição e planejando essa expansão. Eu localizo meu preparo nessa reunião de parceiras, pessoas que são mais diretas da articulação política. É com essas pessoas que estamos tecendo essa rede do mandato. Além disso, estou cuidado do preparo subjetivo também. Estou muito consciente de que preciso ter espaço meu de reflexão, de descanso, de formação própria e autocuidado. Nem sempre consigo colocar em prática, mas estou consciente disso e é um amparo que vem dessas outras mulheres que atravessaram esses espaços antes.</p>
<p>No Congresso eles vão fazer de tudo para fritar a gente na reatividade. A gente está a todo momento tentando pegar ar. A gente não pode ficar na resposta quente às provocações. A gente vai ter que desenvolver alguma sagacidade para continuar as denúncias, mas também pautar. Nós já estamos pautando, mas temos que pautar cada vez mais para tentar equilibrar isso. <strong>Não podemos ficar reféns de uma armação intencional deles para consumir todas as nossas energias. A gente pede capacidade organizativa. O vira voto foi isso, em vez de ficar falando de fascismo, a gente foi construir o vínculo com as pessoas. Entendo que nossos mandatos são recursos a serviço das lutas. A gente usa para fazer formação. Isso expande nosso potencial, não fica só ali reagindo</strong>.</p>
<p>O vira voto escapou completamente do controle dos partidos, dos movimentos mais tradicionais. A cidadania ativa se deu conta de que precisava fazer alguma coisa, tinha que virar o resultado e foi para cima, para a rua. Se não fosse o vira voto a gente tinha levado uma balaiada. E a gente demonstrou com essa rebeldia crítica, não muito consciente, mas efetiva, que tem outros jeitos de conectar essa rede.</p>
<blockquote><p><strong>Limites e desafios das esquerdas: i<span style="color: #000000;">nterseccionalidade, construção do Psol e estratégias para 2019</span></strong></p></blockquote>
<div id="attachment_11965" style="width: 460px" class="wp-caption alignright"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_016-e1543662048649.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-11965" class="wp-image-11965" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_016-e1543662048649-300x200.jpg" alt="30/11/2018. Recife, entrevista com as deputadas Áurea Carolina de Freitas e Silva, Federal em Belo Horizonte, e Mônica Francisco, Estadual no Rio de Janeiro. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="450" height="300"></a><p id="caption-attachment-11965" class="wp-caption-text">Mônica Francisco (Psol), deputada estadual pelo Rio.</p></div>
<p><strong>Mônica Francisco</strong> &#8211; Nossa presença nesse contexto, casualmente ou não, e de estar no Psol significa uma reorganização da esquerda. Quando se fala em reorganização da esquerda, essa disputa de narrativa está muito na boca dos homens brancos da esquerda, das figuras que de alguma maneira são as figuras que capitanearam a esquerda até esse momento e que falam desse nirvana de união da esquerda, ou de unidade das esquerdas, ou reorganização das esquerdas no Brasil frente ao avanço desse neofascismo. Essa já é com certeza. Se não é pelo menos o processo inicial dessa reorganização da esquerda que se reorganiza a partir das mulheres, das mulheres negras. <strong>As mulheres negras são a vanguarda. Tenho quase que certeza profética de que as mulheres negras são a vanguarda da reorganização da esquerda</strong>.</p>
<p>Claro que com contra ofensivas que virão. O marco disso foi a execução da Marielle, mas não só. É também um horizonte para que a gente se debruce quando a gente está discutindo cuidados e redes de segurança e prudência, cuidado com a vida mesmo, sobrevivência. Porque isso também é extremamente traumático para a esquerda machista.</p>
<p>É muito traumático esse desconcerto que a nossa presença traz nesse cenário porque a gente é tachada como não puro sangue do partido, mas por outro lado, olhando da nossa perspectiva, dessa vanguarda feminista, a gente é a resposta que o partido ou os partidos estão construindo &#8211; não digo individualmente, mas esse coletivo de mulheres negras e que avançam nessa bancada feminista &#8211; com essa outra dinâmica mais alinhada aos movimentos sociais. Essa relação é dinâmica e quando chega dentro do partido isso é um choque, mas isso é um processo de reorganização da esquerda que passa pelo acesso das mulheres negras.</p>
<p>É uma resposta da própria dinâmica histórica da política. Acho que a gente só vai ter dimensão daqui a uns cinco anos porque a gente está fazendo a história agora. É uma reorganização fora da narrativa tradicional que vem dos homens brancos, sindicalistas. Quando a gente diz que a classe tem cor e tem gênero, ela é localizada socialmente em um determinado lugar. Não dá para pensar reorganização da esquerda sem repensar classe trabalhadora nesse contexto. A gente tem que pensar o que é o trabalho e pensar nas outras formas de trabalho. E há um discurso que avançou e cresceu exponencialmente depois de 2013 de fora partido, fora bandeira, fora sindicato, que está sob ataque e que a gente tem que, de alguma maneira, defender. É um momento para muita reflexão.<b></b></p>
<p>Lembrei da nossa cultura antropofágica. Lembrei de um artigo do Michel Lowy que diz que a gente tem que recuperar o marxismo revolucionário e a utopia surrealista. Que loucura para falar de Exu. Porque é isso, é essa outra cara que chega , que é outra coisa. A gente precisa digerir, ruminar esse marxismo que não cabe mais na nossa leitura. Ou é interseccional ou não é. Não tem como construir política na prática, de verdade, sem interseccionalizar a pauta. Não é racializar o debate, é colocar o racismo no centro do debate marxista. É outra lógica e a gente vem trazendo isso tudo para dentro e causa um rebuliço necessário. É a famosa dialética marxista revolucionária. O que vai dar isso a gente ainda vai ver. Não dá para pensar política hoje desde o micro ao macro sem pensar nas dimensões espirituais, seja da nossa conexão com o todo, as relações que a gente tem que arrumar.</p>
<div id="attachment_11957" style="width: 460px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_022-e1543662266620.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-11957" class="wp-image-11957" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_022-e1543662266620-300x200.jpg" alt="30/11/2018. Recife, entrevista com as deputadas Áurea Carolina de Freitas e Silva, Federal em Belo Horizonte, e Mônica Francisco, Estadual no Rio de Janeiro. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="450" height="300"></a><p id="caption-attachment-11957" class="wp-caption-text">Áurea Carolina (Psol), deputada federal eleita por Minas Gerais.</p></div>
<p><strong>Áurea Carolina</strong>&#8211; Eles ficam falando de união, de unificação, reorganização desse campo genérico das esquerdas, mas têm uma atitude extremamente hegemonista e competitiva. Na prática, a maior parte das figuras que têm influência nos partidos e nas grandes organizações do campo continuam reproduzindo as suas formas viciadas de se relacionar. Não adianta falar em unidade, em aproximação, se o gesto é sempre o contrário. A gente viu isso nas eleições. Até mesmo na competição entre os partidos. O que foi a trama do PT tirando o PSB e o que isso impactou efetivamente no resultado eleitoral? Isso é só um exemplo muito evidente para nós. E como que isso desce até o nível imediato da convivência. Eles não têm autoridade ética para reivindicar essa unificação porque eles se desconectaram completamente da forma e do conteúdo das coisas que eles dizem e fazem. Isso para nós é muito mais caro, nas práticas feministas, negras, periféricas. Não dá para a gente ficar separando essas coisas. Claro que nem sempre a gente consegue resolver, mas a gente tem uma tradição no sentido de uma experiência e não como enquadramento normativo, de fazer mais aquilo que a gente diz. A gente vê como construímos uma comunidade de ajuda mútua, de possibilitar a vida das pessoas.</p>
<p><strong>Não basta reorganizar. Se você tira uma peça, muda de lugar, você move. Eu gosto da provocação da Rob (Robeyoncé Lima, codeputada das <em>Juntas</em> eleita para a Alepe) que falou sobre desconfigurar. Você desprograma, dá um curto circuito. Quando você desconfigura o sistema surta. Eu gosto dessa ideia de desconfigurar, de transformar, que não é simplesmente mover os atores.</strong> A gente precisa ter outras atitudes mentais. E a questão da unidade é isso. Precisa contar com os saberes que hoje são desconfortáveis dentro dos partidos, que são um incômodo. Não contavam que a gente seria essa grande força de renovação. Nós estamos indo na dianteira, fora do cálculo deles. Eles não esperavam, fomos sem pedir autorização.</p>
<p>Esses controladores dos partidos tudo que fazem é tentar conter a própria dinâmica da dialética, como se pudessem determinar uma unificação. Aí não contavam com a gente, nós escapamos do plano, só que nós somos um dado da realidade não previsto pela maior parte deles. Uma outra coisa é que a gente precisa lidar com essa multiplicidade de experiências, mesmo que elas sejam mais ou menos problemáticas, mais ou menos hierárquicas, para tentar enfrentar os ataques cada vez mais pesados que estão vindo aí. A gente tem que construir os lugares de mais confiança e ir fazendo pontes. Nós somos criaturas de fronteira, a gente atravessa muitos mundos. Exu faz isso. A gente tem que ter mais essas mediações. Entre os nossos espaços mais seguros com esses outros espaços que são de menos confiança, menos proximidade. A minha inserção no partido eu vejo dessa forma. Não é um espaço totalmente seguro para mim, mas eu consigo criar uma retaguarda em outros lugares que me permitem fazer uma travessia ali. Da mesma forma, transpondo do partido para uma relação com outro partido ou com outros movimentos, a gente tem que ter essa percepção. Se não for assim a gente não tem condição de sobreviver coletivamente. Aí é que está a generosidade que o momento exige, mas não como uma bondade, mas sim como estratégia. Por mais problemática que seja essa rede das esquerdas, ela precisa operar com algum grau de cooperação e virar rede efetivamente e não um apanhado de organizações que vive sempre em rota de colisão. Se tem uma unidade possível, no sentido mais geral, eu acho que é essa.</p>
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