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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Reunião do &#8220;gabinete das sombras&#8221; foi solicitada por médicos pernambucanos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Jun 2021 00:51:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[CPI da covid]]></category>
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<p>Uma das perguntas da Comissão de Inquérito Parlamentar (CPI) sobre a pandemia da covid-19 no Brasil é se houve ou ainda há uma espécie de Ministério da Saúde paralelo atuando no governo Bolsonaro. Na sexta-feira passada, <a href="https://www.metropoles.com/brasil/exclusivo-videos-mostram-ministerio-paralelo-orientando-bolsonaro-contra-vacinas">o site Metrópoles resgatou trecho de um vídeo</a> em que Bolsonaro se reunia com vários médicos, liderados pelo ex-ministro Osmar Terra. Em certo momento, o virologista Paolo Zannoto sugere que o presidente crie um &#8220;shadow cabinet&#8221;, um gabinete das sombras. &#8220;Esses indivíduos não precisam ser expostos, digamos assim, à popularidade&#8221;, disse Zanotto, na reunião, que foi exibida em uma<em> live </em>no facebook em setembro de 2020.<br><br>Três médicos pernambucanos participaram daquela reunião e, ao final, posaram para fotos com Osmar Terra, a médica Nise Yamaguchi, já ouvida pela CPI da Covid, e o próprio Bolsonaro. São o oftalmologista Antônio Jordão, o pneumologista Blancard Torres e a pediatra Tilma Belford. </p>



<p>Eles não eram meros espectadores: a reunião foi um pedido do grupo Médicos pela Vida, um dos principais propagadores do &#8220;tratamento precoce&#8221; no Brasil, liderado pelo pernambucano Antônio Jordão. Blancard Torres também faz parte da coordenação do grupo, que reúne sete médicos, dos quais cinco são de Pernambuco. Jordão ficou coordenando a reunião, com Bolsonaro ao lado e Osmar Terra na outra ponta de mesa. Jordão também entregou um documento com apoio e reivindicações para o presidente. </p>



<p>Já Blancard, que ficou conhecido por ser o médico de Frei Damião, foi ao microfone para se queixar que levou uma advertência do Hospital Português, onde diz trabalhar há 42 anos. &#8220;Porque eu falei (em um vídeo) que os genocidas eram os governadores, como Paulo Câmara, e os prefeitos, (como) Geraldo Júlio. Eles negam essas medicações&#8221;, reclamou, afirmando que desde março de 2020 fazia vídeos defendendo a hidroxicloroquina.<br><br>Blancard também reclamou que o Conselho Regional de Medicina do Estado de Pernambuco (Cremepe) é contra o tratamento precoce e pediu que o presidente proteja os médicos que o apoiam. &#8220;Como eu posso fazer vídeo instruindo o povo se eu não tenho o presidente dizendo que não pode me atacar? porque se me atacar, ataca o senhor. Eu sou o seu soldado, você é meu capitão. O senhor tem que estar ao meu lado&#8221;, suplicou. </p>



<p>Bolsonaro respondeu que os conselhos de medicina deveriam pedir uma ação preventiva para que os médicos pudessem receitar o tratamento sem ser incomodados. &#8220;Vamos acertar com a Saúde pra ver o que a gente pode fazer&#8221;, completou o presidente. <a href="https://www.facebook.com/watch/?v=1260166757657138" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Nos vídeos ainda disponíveis na página de Bolsonaro</a>, não há falas de Tilma Belford. <br><br>Seguindo a linha da extrema-direita de sempre se manter na ofensiva, o grupo não recuou com a CPI da Covid. Pelo contrário. Em um abaixo-assinado que começou a circular dias antes do começo da Comissão, defendem uma sequência de medidas que mostram o porquê do Brasil ser o segundo colocado no mundo em mortes por covid-19. Vai da negação às vacinas e medidas de prevenção &#8211; chegam a chamar o uso de máscaras de &#8220;desumano&#8221; &#8211; à solicitação de que a hidroxicloroquina por inalação seja uma &#8220;alternativa&#8221; à intubação.<br><br>O Conselho Federal de Medicina (CFM) não só não se cala sobre o grupo como mantém com ele relação estreita. Representantes do CFM e de conselhos regionais participaram de eventos do Médicos pela vida, como mostrou <a href="https://theintercept.com/2021/03/19/cfm-290-mil-mortos-por-covid-19/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">reportagem do The Intercept</a>. Na terça-feira passada, quando a médica bolsonarista Nise Yamaguchi foi questionada na CPI, o Médicos pela Vida emitiu uma nota de repúdio contra &#8220;posturas inaceitáveis de políticos&#8221;. No dia seguinte, o CFM também emitiu uma nota &#8220;para manifestar sua insatisfação com a postura de membros da CPI&#8221;.<br><br>Quando o tema é tratamento precoce e o uso de medicamentos já comprovadamente ineficazes ou até prejudiciais, o CFM tem recorrentemente usado o argumento da autonomia médica.<br><br>A Marco Zero perguntou ao Cremepe se há alguma investigação sobre a conduta do Médicos pela vida. Perguntou também sobre como ficou a investigação sobre o <a href="https://marcozero.org/medicos-com-patrocinio-politico-e-planos-de-saude-promovem-uso-da-cloroquina/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">grupo Médicos da verdade</a>, que teve início há mais de um ano e era patrocinado pela deputada estadual Clarissa Tércio. A resposta do Conselho foi de que &#8220;todas as denúncias que chegam a este Conselho são averiguadas e correm em sigilo processual para não comprometer a investigação&#8221;.</p>



<p>Antônio Jordão foi procurado pela Marco Zero Conteúdo. Ele respondeu ao contato e marcou horário para a entrevista, mas não atendeu às ligações.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Autonomia médica é outra coisa</h2>



<p>Em contraponto à postura dos conselhos de medicina, a Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares e a Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia (ABMMD) costuraram um <a href="https://drive.google.com/file/d/1JbEuaLe51h1TvEwClJcLjOuettcTJRc9/view?usp=sharing" target="_blank" rel="noreferrer noopener">documento</a> pedindo que a CPI da Covid apure as responsabilidade da atual diretoria do CFM. O documento, que foi entregue na semana passada ao senador Humberto Costa (PT-PE), critica a negligência e a afinidade do CFM com &#8220;a política genocida do Governo Federal de estímulo ao uso do chamado &#8216;tratamento precoce&#8217; para a covid-19&#8221;.<br><br>Representante da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, a médica Camila Boff desconstrói o argumento do CFM em prol da autonomia da prática médica. &#8220;Estão fazendo uma interpretação errada da autonomia médica, que não significa que pode ser passado qualquer remédio, para qualquer doença. Existe para cada doença algumas alternativas de tratamento que são eficazes e, dentro dessas alternativas, posso selecionar o que vai funcionar melhor. Isso é que é a autonomia médica. E não selecionar algo que possa fazer mal ou que não tem efeito bom para o paciente. Isso é mais próximo do erro médico do que qualquer outra coisa&#8221;, diz.<br><br>Ela vê como um retrocesso a falta de posicionamento do CFM. &#8220;O grupo dos Médicos Pela Vida foi o grande responsável por difundir a prescrição do tratamento precoce entre os médicos. O conselho, enquanto entidade federal, apoia esse grupo, já que representantes dos conselhos participam dos eventos. É algo que choca. Porque há muitos anos se usa a medicina baseada em evidências, com uma uniformidade de entendimento mundial que não tínhamos há 50, 100 anos atrás. E aqui temos um governo que colocou o &#8216;eu acho&#8217; acima de tudo que estava se estudando e um Conselho Federal de Medicina que assinou embaixo&#8221;, critica.<br><br>Ela lembra que as sociedades médicas, como a de infectologia e a de pneumologia, fizeram, de certa forma, o papel dos conselhos, ao se posicionar contra o chamado tratamento precoce. Mas que seria papel do CFM ter se posicionado antes e com força. &#8220;O preocupante disso tudo é que há um grupo grande de médicos que defendem esses tratamentos e fica extremamente confuso para a população saber a quem deve ouvir. A medicina não é matemática, não há consenso em tudo. Mas o que está acontecendo no Brasil é surreal. Grupos médicos organizados fazendo a defesa de tratamentos ineficientes e o CFM sem fiscalizar&#8221;.<br><br>A CPI da Covid ainda não anunciou se o presidente do CFM, Mauro Luiz de Britto Ribeiro, ou algum membro da diretoria será chamado para depor. Após a divulgação do vídeo na sexta-feira, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) apresentou requerimentos de convocação para que o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) e o médico Paolo Zanotto prestem depoimento à comissão.</p>



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		<title>Movimento de médicos que mistura aborto com cloroquina tem ligações com Ministério da Saúde</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Apr 2021 18:02:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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<p><strong>por Mariama Correia, da <a href="https://apublica.org/2021/04/movimento-de-medicos-que-mistura-aborto-com-cloroquina-tem-ligacoes-com-ministerio-da-saude/">Agência Pública</a></strong></p>



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<p>“Quem defende a vida não pode ser a favor do aborto”; “atendimento precoce salva sua vida”. Essas mensagens estão em dez outdoors espalhados por Fortaleza (CE). A ação é do “Ainda Há Bem”, um movimento formado por médicos conservadores do Ceará que surgiu de forma um tanto misteriosa. Sem divulgar a lista de seus integrantes, lançaram, em pleno feriado da Semana Santa, uma articulada campanha de marketing, com publicações em redes sociais, mídia exterior, jornais e distribuição de alimentos em bairros periféricos. Embora se diga apartidário, o grupo, que associa aborto e um suposto tratamento precoce contra a covid-19, tem ligações com gestores do Ministério da Saúde e com o grupo político do senador Eduardo Girão (Podemos).</p>



<p>Girão é autor do Projeto de Lei (PL) 5.435/2020, que ficou conhecido como “bolsa estupro”, porque queria criar um incentivo financeiro para que as vítimas de estupro não abortassem. Esse dispositivo foi retirado do PL depois da grande repercussão na mídia, mas os movimentos feministas defendem que a proposta seja cancelada por completo. “A ‘bolsa estupro’ é apenas um detalhe sórdido em um projeto cujo objetivo final é criminalizar ainda mais o aborto no Brasil”, comentou Jolúzia Batista, do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea).</p>



<p>Nas redes sociais, o “Ainda Há Bem” se apresenta como um movimento estadual de médicos cristãos que pretende se tornar nacional. O site do movimento foi registrado no fim de março em nome da Inovates, uma organização que trabalha com o desenvolvimento de soluções sustentáveis para empresas. O responsável pelo domínio, de acordo com o site Registro.BR, é Gabriel Fabres Beliqui, diretor-presidente da Inovates. No registro aparece também o nome de Vinícius Nunes Azevedo, diretor do Ministério da Saúde. Ele é sócio de Gabriel Beliqui e de Anselmo Buss Júnior – o presidente da Inovates – na Inovates Consult, que tem outro CNPJ, mas o mesmo telefone e o mesmo endereço eletrônico da Inovates no cadastro da Receita Federal.</p>



<p>Vinícius foi nomeado diretor do Departamento de Gestão da Educação na Saúde (Deges) em julho do ano passado, ainda na gestão do ministro Eduardo Pazuello, substituído pelo médico Marcelo Queiroga em março deste ano. Chegou a ser exonerado do cargo em fevereiro pelo ministro chefe da Casa Civil, general Braga Netto, mas a decisão foi revista poucos dias depois. A reportagem procurou o Ministério da Saúde para esclarecimentos, mas não obteve retorno até a publicação.</p>



<p>Em abril, pouco depois da aparição do “Ainda Há Bem”, Marcelo Queiroga designou Vinícius como substituto eventual da secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, atualmente Mayra Pinheiro, a pediatra cearense conhecida como “capitã cloroquina”. Mayra ganhou relevância no Ministério da Saúde durante a gestão de Pazuello, quando virou uma espécie de porta-voz do chamado “tratamento precoce da covid-19”, que inclui ivermectina e cloroquina – medicações sem eficácia comprovada no combate à doença e que têm sido associadas a sérios efeitos colaterais, como hepatite.</p>



<p>A secretária Mayra divulgou o lançamento do “Ainda Há Bem” no seu perfil do Facebook. A postagem, em 31 de março, mostra os outdoors que já estavam sendo instalados em várias avenidas de grande circulação de Fortaleza e no município de Juazeiro do Norte, região do Cariri cearense. Cada outdoor custa aproximadamente R$ 750, segundo funcionários da Divulcart, empresa que assina as peças. Porém, ainda de acordo com as fontes consultadas pela reportagem, as dez peças da campanha de mídia exterior do “Ainda Há Bem” foram instaladas “sem custo, a pedido de representantes da empresa Coco Bambu”. A rede de restaurantes nascida no Ceará pertence ao empresário bolsonarista Afrânio Barreira, que, assim como o presidente, é devoto da cloroquina.</p>



<p>Pelo WhatsApp, Gabriel Beliqui informou que é “apoiador do projeto” que chamou de “bela iniciativa”. Ele disse que ajudou “apenas com o registro do domínio” do movimento Ainda Há Bem e negou que a Inovates tenha envolvimento institucional com o grupo, embora o site esteja registrado com o CNPJ da empresa.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O senador e a secretária negacionistas</h2>



<p>Em 17 de março, pouco antes do lançamento do “Ainda Há Bem”, a secretária do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, se reuniu com o senador Eduardo Girão (Podemos) e com o presidente do Conasems (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde), Wilames Freire Bezerra, que são seus conterrâneos. A reportagem solicitou detalhes sobre o assunto da reunião, mas não recebeu resposta do Ministério da Saúde.</p>



<p>A relação entre o empresário e senador Eduardo Girão e a secretária bolsonarista é antiga. Ela se candidatou ao Senado em 2018, formando chapa com ele, que conseguiu se eleger na época pelo Pros. Eles compartilham pautas conservadoras e são nomes fortes do ativismo antiaborto no Ceará. Como presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará, ela mobilizou apoio para o movimento Pró-Vida de Fortaleza.</p>



<p>Desde 2008, a capital cearense é palco da Marcha pela Vida, um dos principais eventos do gênero Brasil, apoiado por artistas de relevo, como a cantora Elba Ramalho. A organização é do Movida (Movimento a Favor da Vida), pertencente a Eduardo Girão. Antes de assumir o mandato, Girão frequentava manifestações e audiências públicas, algumas ao lado da atual ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O papel do Sindicato dos Médicos do CE</h3>



<p>No Ceará, o sindicato dos médicos ainda é comandado pelo grupo político ligado à secretária Mayra Pinheiro. Conselheiro fiscal da atual gestão, o cirurgião Marcelo Esmeraldo Holanda apresenta o movimento de médicos anti-aborto e pró-cloroquina “Ainda Há Bem” em um vídeo. “Nós somos contra o aborto e a favor da vida porque somos cristãos por convicção”, diz na gravação. Ao lado dele está Fernando Dantas, da Associação Anjo Rafael, por meio da qual o grupo de médicos anti-aborto distribuiu alimentos na comunidade do Barroso, em Fortaleza.</p>



<p>“O grupo que está no comando do sindicato é muito ligado a pautas reacionárias. Defende cegamente Bolsonaro (mesmo com mais de 350 mil mortes por covid-19 no País), tratamento profilático ou precoce com medicações que as evidências científicas já demostraram ser ineficazes e inadequadas”, afirma o Coletivo Rebento/Médicos em Defesa da Vida, da Ciência e do SUS do Ceará, que reuniu assinaturas de 1.113 médicos do estado, em oposição a uma nota de apoio a Bolsonaro lançada por médicos de Fortaleza, cuja lista de assinaturas inclui o vice-reitor da Universidade Federal do Ceará, o médico José Glauco Lobo Filho; a secretária do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro; Marcelo Esmeraldo e Edmar Fernandes de Araújo Filho, que é diretor financeiro do Sindicato dos Médicos do Ceará.</p>



<p>Edmar foi presidente da entidade na gestão anterior e candidato a vereador pelo Pros, mesmo partido que elegeu Eduardo Girão no Senado. Em seu perfil no Instagram, ele defende o uso profilático de azitromicina e ivermectina no combate à covid-19, ambos remédios do chamado “kit covid”, que, como já dito, não têm eficácia comprovada contra a doença.</p>



<p>Por telefone, a comunicação do sindicato dos médicos do Ceará informou que o Ainda Há Bem é um movimento independente e que a adesão do médico Marcelo Esmeraldo não tem relação com a entidade. A comunicação da entidade disse não ter informações sobre a participação de outros integrantes da diretoria no movimento de médicos conservadores. O ‘Ainda Há Bem’ informou, pela página do Facebook, que responderia os questionamentos da reportagem por telefone, mas não fez contato até a publicação.</p>



<p>Até o momento da publicação, não recebemos informações do ministério da Saúde sobre o envolvimento dos seus servidores no movimento de médicos pró-cloroquina e contra o aborto. Também não conseguimos contato com o diretor Vinícius Nunes Azevedo.</p>



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<h4 class="wp-block-heading">Extrema-direita de jaleco</h4>



<p>O “Ainda Há Bem” não é o único movimento de médicos conservadores articulado em defesa de tratamentos ineficazes contra a covid-19 no Brasil. O próprio Conselho Federal de Medicina tem se alinhado com o discurso bolsonarista pró-cloroquina. Em fevereiro deste ano, 11 grandes jornais brasileiros publicaram um informe publicitário pró-cloroquina da Associação Médicos pela Vida, que é bancada por indústrias farmacêuticas, como revelou o Estado de S. Paulo e tem manifestos na internet com mais de 4 mil assinaturas.</p>



<p>A secretária Mayra Pinheiro e o senador Eduardo Girão também estão envolvidos na Associação Médicos pela Vida. Eles até mesmo aparecem em um vídeo do movimento. “Todo brasileiro tem direito à sua própria autonomia de receber as medicações cloroquina e hidroxicloroquina associadas à azitromicina”, diz Mayra no vídeo. “A gente vai garantir isso ao povo cearense”, completa.</p>



<p>“Nunca tínhamos visto tantos movimentos articulados de médicos conservadores no Brasil como há agora”, comenta Cristião Rosas, ginecologista obstetra, representante da Rede Médica pelo Direito de Decidir. “Esses profissionais têm se empoderado politicamente e articulado redes estaduais e nacionais, com forte discurso religioso”, observa.</p>



<p>Cristião Rosas alerta que “políticas públicas de saúde – como o enfrentamento da covid-19 e do aborto, que é legalizado no Brasil quando a gestação traz riscos para a saúde da mulher, é resultante de um estupro ou se o feto for anencéfalo – não podem ser pautadas pela religião. “Sou presbiteriano, mas entendo que descriminalizar o aborto é reduzir as mortes das mulheres, sobretudo negras e pobres. Também sou médico pela vida, mas pela vida das mulheres. Ser pró-vida não é ser antidireitos”, diz.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Seja mais que um leitor da Marco Zero</strong>…</p><cite>A Marco Zero acredita que compartilhar informações de qualidade tem o poder de transformar a vida das pessoas. Por isso, produzimos um conteúdo jornalístico de interesse público e comprometido com a defesa dos direitos humanos. Tudo feito de forma independente.<br><br>E para manter a nossa independência editorial, não recebemos dinheiro de governos, empresas públicas ou privadas. Por isso, dependemos de você, leitor e leitora, para continuar o nosso trabalho e torná-lo sustentável.<br><br>Ao contribuir com a Marco Zero, além de nos ajudar a produzir mais reportagens de qualidade, você estará possibilitando que outras pessoas tenham acesso gratuito ao nosso conteúdo.<br><br>Em uma época de tanta desinformação e ataques aos direitos humanos, nunca foi tão importante apoiar o jornalismo independente.<br><br>É hora de assinar a Marco Zero <a target="_blank" href="https://marcozero.org/assine/" rel="noreferrer noopener">https://marcozero.org/assine/</a></cite></blockquote>
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		<title>O mundo começa a vacinar, mas a Hapvida ainda obriga médicos a receitar cloroquina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Dec 2020 23:35:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[cloroquina]]></category>
		<category><![CDATA[covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[hidroxicloroquina]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O estoque de cloroquina da Hapvida parece ser infinito. No momento em que as vacinas começam a tornar-se realidade e passam a ocupar o centro do debate público mundial, o maior plano de saúde do Brasil ainda insiste em distribuir para seus pacientes a ineficaz cloroquina como solução para a Covid-19. Pior: a empresa continua [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O estoque de cloroquina da Hapvida parece ser infinito. No momento em que as vacinas começam a tornar-se realidade e passam a ocupar o centro do debate público mundial, o maior plano de saúde do Brasil ainda insiste em distribuir para seus pacientes a ineficaz cloroquina como solução para a Covid-19.</p>



<p>Pior: a empresa continua a constranger os médicos de suas unidades de atendimento a prescrever e entregar as caixas do medicamento utilizado contra o lúpus e a malária, mas comprovadamente inútil para tratar a Covid.</p>



<p>Seis meses depois de ser acusada de demitir um médico e de ameaçar outros profissionais por não prescreverem a droga, a Hapvida persiste em intimidar os clínicos que atendem na sua rede exclusiva de 33 hospitais, 20 serviços de pronto-atendimento e 90 clínicas espalhadas por 14 estados. Duas médicas confirmaram a pressão recebida e descreveram o ambiente pesado na empresa.</p>



<p>“Há um tempo que a Hapvida vem forçando um protocolo que só ela está usando. Queria muito provar como eles estão nos coagindo, mas agora só fazem isso pessoalmente, não estão mandando mais mensagens”, relatou uma profissional que trabalha em um pronto-atendimento do Recife. Ela enviou uma imagem da tela do sistema da Hapvida usado pelo seu corpo de médicos.</p>



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	                                        <p class="m-0">A recomendação é clara: &#8220;Não deixe de prescrever&#8221; cloroquina</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Outra médica, também do Recife, contou que o clima de intimidação gera boatarias e fofocas: “Pra você ter ideia de como estão as coisas, há uns 15 dias houve o boato de que o superintendente do Hapvida iria nas unidade escolher dois médicos aleatoriamente e perguntar se conheciam o estudo e se prescrevem cloroquina rotineiramente”. Essa conversa aconteceu no dia 30 de novembro, mas até o fechamento desta reportagem, as visitas surpresas não tinham acontecido.</p>



<p>O estudo ao qual a médica se refere chama-se “Risco de hospitalização para pacientes ambulatoriais Covid-19 tratados com vários regimes de medicamentos no Brasil: análise comparativa”. Não se trata, contudo, de um estudo independente realizado por algum instituto de pesquisa reconhecido no meio científico. Ao contrário, foi realizado nas unidades da Hapvid, por médicos do próprio plano de saúde em colaboração com pesquisadores de outras instituições, e assinado também por um controverso cientista americano da universidade de Yale.</p>



<p>Voltaremos ao estudo que sustenta a prática da Hapvida mais adiante.</p>



<p>Por enquanto, vale registrar que o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe) confirmou a existência de uma investigação sobre a prática da operadora, mas que o sigilo é mantido em virtude do código de ética da profissão. A denúncia também chegou à 11ª Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde, mas foi enviada ao Cremepe por se tratar de questão relacionada ao exercício da profissão.</p>



<figure class="wp-block-embed-wordpress aligncenter wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-marco-zero-conteudo"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<blockquote class="wp-embedded-content" data-secret="NZm53iij0S"><a href="https://marcozero.org/maior-operadora-do-brasil-hapvida-entra-no-jogo-politico-da-hidroxicloroquina/">Maior operadora do Brasil, Hapvida entra no jogo político da hidroxicloroquina</a></blockquote><iframe class="wp-embedded-content" sandbox="allow-scripts" security="restricted"  title="&#8220;Maior operadora do Brasil, Hapvida entra no jogo político da hidroxicloroquina&#8221; &#8212; Marco Zero Conteúdo" src="https://marcozero.org/maior-operadora-do-brasil-hapvida-entra-no-jogo-politico-da-hidroxicloroquina/embed/#?secret=MwhGG7zyQO#?secret=NZm53iij0S" data-secret="NZm53iij0S" width="500" height="282" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"></iframe>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>“Alguém aí tem lúpus?”</strong></h2>



<p>No dia 2 de dezembro, o autônomo Lucas Souza Pinto, de 30 anos, foi às redes sociais fazer uma oferta: “Alguém que tenha a doença Lúpus ou conhece quem tenha e que esteja precisando de Hidroxicloroquina?” Em seguida explicou que estava fazendo o oferecimento porque tinha recebido o remédio numa emergência da Hapvida e não pretendia tomá-lo.</p>



<p>“Eu e minha companheira começamos a sentir os sintomas no dia 25 de novembro. Fomos três vezes na unidade da Hapvida. Na segunda vez, ela pediu uma consulta pra requisitar também um teste pelo Hapvida, que acabou não sendo realizado. Mesmo sem sermos testados e não passarmos por nenhum exame, recebemos o kit-desperdício com seis comprimidos de cloroquina. Minha companheira levou apenas uma injeção pelo cansaço. Mais nada”.</p>



<p>Quando procurou o pronto-atendimento pela terceira vez na esperança de ser testado, Lucas foi atendido por um médico que fez questão de interagir mais. “O atendimento foi bem melhor e o próprio médico perguntou logo se tínhamos tomado e recomendou que não era pra tomar. Ele também confirmou que não adianta ir no Hapvida atrás de teste porque estão acabando e eles só estavam testando os internados com gravidade”.</p>



<p>Lucas e a companheira, a professora Mariana Prímola, de 28 anos, melhoraram sem a hidroxicloroquina, mas ainda estão com dor de cabeça e de garganta. A tosse e a fadiga passaram.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O estudo da Hapvida</strong></h3>



<p>A Marco Zero enviou três perguntas para a assessoria de comunicação da Hapvida:</p>



<ul class="wp-block-list"><li>A Hapvida determina sua equipe de médicos a, compulsoriamente, prescrever a cloroquina para pacientes com covid?</li></ul>



<ul class="wp-block-list"><li>Os médicos são punidos se não prescreverem?</li></ul>



<ul class="wp-block-list"><li>Qual a base científica para a prescrição da cloroquina?</li></ul>



<p>Após a publicação da matéria, a empresa enviou a seguinte nota:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>NOTA DE RESPOSTA</strong><br>A operadora de planos de saúde reitera que não interfere na relação médico-paciente e na conduta médica escolhida pelo profissional, apenas aconselha qual a melhor alternativa indicada.</p><p>Sobre a prescrição de cloroquina ou hidroxicloroquina, a operadora afirma, ainda, que fica a critério do profissional, inclusive 50% dos médicos não prescrevem.</p><p>A empresa ressalta o compromisso com todos os seus clientes e profissionais e segue empenhando esforços em meio à pandemia.</p></blockquote>



<p>Para responder à terceira questão, foram enviados o link para a publicação do estudo e um vídeo de pouco menos de seis minutos apresentando o tal estudo publicado na edição novembro/dezembro do jornal científico Travel Medicine and Infectious Disease (Medicina de viagem e doenças infecciosas, em inglês) e já compartilhado pelos perfis bolsonaristas. O estudo pode ser encontrado nesta <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1477893920304026">página</a>.</p>



https://youtu.be/UOtzZ-eevs4



<p>Longe de ser uma pesquisa científica independente, o estudo nasceu dentro da própria Hapvida. Metade dos seus 10 autores são funcionários da empresa, incluindo uma diretora de hospital da operadora no interior de São Paulo. A validação nos parâmetros científicos foi feita pela comissão de ética da Universidade de Fortaleza (Unifor), uma instituição privada da capital cearense, cidade onde a Hapvida tem sua sede. </p>



<p>Os resultados  indicam que “o uso de hidroxicloroquina (HCQ), prednisona ou ambos reduziu significativamente o risco de hospitalização em 50-60%”. Foram analisados os dados dos prontuários de 717 pacientes da operadora de plano de saúde.</p>



<p>Os médicos mais curiosos, porém, poderão encontrar na página desse estudo outro link, bem ao lado (ver imagem abaixo), para outro artigo cujo titulo alerta para a “toxicidade cardíaca” da cloroquina e hidroxicloroquina e porque elas “não devem ser usados rotineiramente no tratamento da doença covid-19”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                </figure>

	


<h4 class="wp-block-heading">Yale versus Yale</h4>



<p>O vídeo é uma peça de propaganda do estudo e tem como âncora o médico americano Harvey Risch, apresentado como professor de Epidemiologia e Saúde Pública da Universidade de Yale. O título impressiona, mas uma breve consulta na internet revela que outros 20 professores de Medicina de Yale atacaram duramente a defesa obstinada que Risch fez da cloroquina.</p>



<p>O jornal da própria universidade, o <a href="https://yaledailynews.com/blog/2020/08/16/ysph-professor-criticized-for-promoting-unproven-drug-to-treat-covid-19/">Yale News, publicou no dia 16 de agosto</a> uma detalhada matéria sobre o choque entre Risch e seus colegas professores. A reportagem informa que, no dia 27 de maio, Risch publicou no American Journal of Epidemiology (Jornal Americano de Epidemiologia) um artigo defendendo que “a combinação de drogas [hidroxicloroquina +azitromicina + corticóides] pode prevenir efetivamente a hospitalização para a maioria dos pacientes ambulatoriais de alto risco sintomáticos e que é segura para uso em curto prazo no início do curso da infecção”. Semanas antes, Donald Trump havia endossado o uso do medicamento como capaz de curar a Covid-19.</p>



<p>Assim que foi publicada a tese foi contestada por pesquisadores de Yale e de vários outros centros de pesquisa.</p>



<p>Vinte docentes de Yale publicaram um artigo conjunto dizendo que “Risch, um epidemiologista de câncer respeitado, tem o direito de expressar suas opiniões”, mas afirmaram estar preocupados “com a segurança dos pacientes e a coerência de nossa resposta nacional de emergência Covid-19, em meio a desinformação sendo disseminada por pessoas como Risch quando existem evidências contrárias claras”.</p>



<p>Albert Ko, chefe do departamento e professor de epidemiologia da Escola de Saúde Pública de Yale, foi enfático e disse que “não conhece pessoalmente nenhum médico que continue a prescrevê-la em Yale”.</p>



<p>Da Universidade de Minnessota, o cientista David Boulware enviou em um e-mail irônico para o Yale News: “Se a Universidade de Yale apoia o Prof. Risch, por que a Universidade de Yale ou a Escola de Saúde Pública de Yale não financiam o ensaio clínico duplo-cego randomizado controlado por placebo para provar que o mundo está errado que hidroxicloroquina + azitromicina + zinco funcionam como terapia para Covid-19 ? ”</p>



<p>Boulware não poderia imaginar tanto interesse da Hapvida em apoiar o doutor Harvey Risch.</p>



<p><em>(Atualizada às 15h50 do dia 11/12/2020 para acrescentar a nota de resposta da Hapvida)</em></p>



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		<title>Maior operadora do Brasil, Hapvida entra no jogo político da hidroxicloroquina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 May 2020 21:44:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[cloroquina]]></category>
		<category><![CDATA[coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[Hapvida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Organização Mundial de Saúde (OMS) suspendeu os testes com a hidroxicloroquina em pacientes com a Covid-19. Estudos vêm apontando ineficácia, riscos colaterais e aumento dos casos de morte. Mas nada disso impediu que o Ministério da Saúde &#8211; com ministro interino há 13 dias &#8211; publicasse um protocolo, com intenções mais políticas do que [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A Organização Mundial de Saúde (OMS) suspendeu os testes com a hidroxicloroquina em pacientes com a Covid-19. Estudos vêm apontando ineficácia, riscos colaterais e aumento dos casos de morte. Mas nada disso impediu que o Ministério da Saúde &#8211; com ministro interino há 13 dias &#8211; publicasse um protocolo, com intenções mais políticas do que sanitárias, com orientações para o uso da droga em casos leves. Também não impediu que a maior operadora de saúde do Brasil, a Hapvida, seguisse receitando e doando a medicação para uso em casa.</p>



<p>Para piorar, médicos da empresa denunciam que estão sendo pressionados a prescrever o remédio. Segundo profissionais ouvidos pela reportagem, a comunicação da chefia, via WhatsApp, começou amena, mas foi ganhando tons de pressão pela necessidade de seguir o protocolo da Hapvida, que indica a medicação no início dos sintomas.</p>



<p>O caso da Hapvida, que é líder no Norte e Nordeste, se soma a médicos com patrocínio político da deputada bolsonarista Clarissa Tércio (PSC) e grupos empresariais que vêm promovendo a hidroxicloroquina. Eles se intitulam “Doutores da verdade” e prescrevem e doam a droga em comunidades da periferia do Recife, como mostramos <a href="http://marcozero.org/medicos-com-patrocinio-politico-e-planos-de-saude-promovem-uso-da-cloroquina/">aqui</a>, há algumas semanas.</p>



<p>Após o alerta dos riscos da medicação no combate ao novo coronavírus dado pela OMS, a Prefeitura do Recife e o Governo de Pernambuco informaram, no início da semana, que retiraram o remédio de seus protocolos.</p>



<p>A <strong>Marco Zero Conteúdo</strong> teve acesso a algumas dessas mensagens de WhatsApp. Nelas, está dito que não se pode deixar de seguir o protocolo institucional e profissionais que não estiverem receitando o remédio, que faz parte de um kit de medicações, terão que explicar pessoalmente as razões.</p>



<p>A comunicação pede ainda que os médicos parem de falar sobre os riscos da hidroxicloroquina, uma vez que os pacientes que estão indo para casa com o kit estão tendo melhoras e não estão retornando às unidades com agravamento de quadros. Uma matéria publicada nesta quinta-feira (28) pela Folha de São Paulo relata que já houve demissão na Hapvida.</p>



<p>Acontece que o protocolo de manejo de pacientes com a Covid-19, da Hapvida, ao qual a reportagem também teve acesso, cita um artigo de evidências in vitro e o outro que é de um estudo clínico não randomizado, sem critério de inclusão e já amplamente refutado. Isso sem contar que a própria Hapvida cita como referência um artigo que mostra as complicações cardíacas resultantes do uso da hidroxicloroquina.</p>



<p>A denúncia contra a Hapvida chegou ao Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe), inclusive com temor de retaliações, por isso o anonimato dos denunciantes. Em nota, a entidade informou que “a posição do sindicato é o respeito à autonomia do médico e do paciente, já afirmada em nota pública” e informou que enviou a denúncia ao Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe).</p>



<p>Consultado, o Cremepe se restringiu a reforçar que “o tratamento do paciente é autonomia do médico, seguindo o que foi estabelecido pelo <a href="http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=28672:2020-04-23-13-08-36&amp;catid=3">CFM</a> (Conselho Federal de Medicina)”.</p>



<p>Nos pacientes sem indicação para internação, a recomendação é o isolamento domiciliar por 14 dias, o oferecimento dos serviços de teleatendimento para orientações e retirada de dúvidas, e a prescrição da ivermectina, do prednisona e da hidroxicloroquina, de acordo com a idade e a presença de comorbidades. Tudo isso mediante a assinatura de um termo de consentimento do paciente.</p>



<p>O documento, cuja última atualização é de 22 de maio, reconhece que não há tratamento recomendando para a Covid-19, mas, ainda assim, insiste em manter a  hidroxicloroquina no protocolo da operadora. Está lá escrito: “Apesar de não haver nenhum tratamento recomendado atualmente para o combate à infecção pelo novo coronavírus, alguns estudos em seres humanos sugerem benefício com o uso da hidroxicloroquina em pacientes infectados, devido ao seu efeito imunomodulador e de redução da replicação viral, devendo ser usado, portanto, preferencialmente nos primeiros dias de sintomas”.</p>



<p>O documento da Hapvida fala também da possibilidade de associação ao antibiótico azitromicina: “O seu uso pode ser potencializado em associação ao azitromicina em pacientes que possam ser monitorizados (em internação hospitalar)”.</p>



<p>No entanto, um <a href="https://www.thelancet.com/pdfs/journals/lancet/PIIS0140-6736(20)31180-6.pdf">estudo</a> feito pela Universidade de Harvard com 96 mil pacientes e publicado pela renomada revista britânica The Lancet, na semana passada, mostrou que usar cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19 não traz nenhum benefício. E pior: aumenta o risco de arritmias cardíacas e de óbitos.</p>



<p>Quando associada ao antibiótico, a droga pode ser ainda mais perigosa: a taxa de mortalidade foi a maior do estudo, de 23%. E, ao contrário do que propagam muitos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, a publicação científica fala da ineficácia quando o tratamento é “iniciado precocemente após o diagnóstico”.</p>



<p>A pesquisa francesa que listava os benefícios da hidroxicloroquina combinada ao azitromicina e vinha sendo bastante citada por quem defende a associação das drogas foi retirada do ar recentemente pelos próprios autores. Aliás, nesta quarta-feira (27), França e Itália proibiram o uso da medicação para tratar Covid-19 e a Bélgica emitiu um alerta contra a droga.</p>



<p>O tal estudo francês, que nunca foi publicado em revista científica com revisão por pares, ganhou repercussão e se popularizou depois de uma publicação da Fox News, nos Estados Unidos. Foi ele que embasou a campanha #TeichLiberaCloroquina nas redes sociais pressionando o então ministro da Saúde, Nelson Teich, a liberar o uso nos tratamentos do novo coronavírus.</p>



<p>Além disso, em parecer conjunto, Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Sociedade Brasileira de Infectologia e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia não recomendam, por consenso, o uso da hidroxicloroquina para tratar o novo coronavírus.</p>



<p>“A polêmica da hidroxicloroquina já está desvendada. É um medicamento antimalárico, relativamente seguro, e usado como imunomodulador em algumas doenças autoimunes como artrite reumatóide e lúpus. Não deve ser endemoniado por essas indicações, mas infelizmente não se mostrou eficaz contra a Covid-19. Nós bem que estamos torcendo para que surja uma droga que impeça a multiplicação viral ou mesmo que reduza os danos causados pelo novo coronavírus, mas ainda não temos essa alternativa terapêutica”, reforça Ana Brito, médica infectologista e pesquisadora da Fiocruz Pernambuco.</p>



<p>A reportagem vem há uma semana tentando um posicionamento da Hapvida, mas, através de sua assessoria de imprensa, o grupo disse que não tinha uma resposta para os questionamentos da reportagem.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Hapvida faz aceno político</h2>



<p>Em linha com os anúncios do governo federal, a indicação de uso da hidroxicloroquina pela Hapvida é um aceno político de apoio ao presidente Jair Bolsonaro. Com 6 milhões de usuários, 39 hospitais, 185 clínicas e 42 pronto-atendimentos, o Sistema Hapvida, que abriu seu capital na bolsa há dois anos, é quem mais atende brasileiros depois do Sistema Único de Saúde (SUS).</p>



<p>Ao mesmo tempo em que o Brasil vivia um aprofundamento do desmonte do SUS e o congelamento dos gastos com saúde e educação, após o golpe de 2016, a família Pinheiro expandia seus negócios, de estrutura altamente verticalizada, com a popularização dos planos de saúde.</p>



<p>Aliás, os cortes do sistema público de saúde calculados em R$ 20 bilhões vêm colocando em xeque a capacidade de combate ao vírus, como mostramos em <a href="http://marcozero.org/cortes-de-r-20-bilhoes-no-sus-do-pos-golpe-poem-em-xeque-controle-do-coronavirus-no-brasil/">reportagem</a> logo no início da pandemia.</p>



<p>No final de março, numa reunião por videoconferência organizada pelo presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, um grupo de mega empresários se prontificou a ajudar o governo federal nas demandas de saúde. Na presença de ministros (o da Saúde, na época Luís Henrique Mandetta, não estava), Bolsonaro fez um apelo para que o setor produtivo do país não pare diante da pandemia.</p>



<p>Entre os participantes estava Candido Pinheiro, presidente do Conselho de Administração da Hapvida. O segmento de saúde suplementar faturou R$ 213,5 bilhões em 2019.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Jorge Pinheiro, presidente da Hapvida</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Enquanto as farmácias estão desabastecidas da hidroxicloroquina para pessoas com lúpus ou artrite reumatóide, a Fundação Ana Lima, braço social da Hapvida, fez uma doação da medicação às operadoras do sistema. O presidente da companhia, Jorge Pinheiro, citado pela Forbes em 2019 como um dos homens mais ricos do mundo, com um patrimônio de US$ 1,2 bilhão na época, assegurou haver tratamento com a droga para 20 mil pessoas. “Mas estamos trabalhando para ampliar essa quantidade”, adiantou.</p>



<p>A reportagem questionou a Hapvida sobre com quem e como adquiriu tantas unidades do remédio, já que ele está em falta nas farmácias. Mas ficamos sem a resposta.</p>



<p>O Sistema Hapvida já investiu mais de R$ 70 milhões em ações contra o novo coronavírus, com compra de insumos médicos, equipamentos de proteção individual, materiais, medicamentos, equipamentos tecnológicos e reforço na infraestrutura. Também fretou aeronave para distribuir insumos para sua rede própria em todo o país e fazer o remanejamento de equipes para as áreas com maior incidência da doença.</p>



<p>Com mais de 400 mil casos e 25 mil mortes por coronavírus no Brasil, Jorge disse, esta semana, em <a href="https://br.reuters.com/article/businessNews/idBRKBN22X2E7-OBRBS">teleconferência</a> com analistas ao comentar uma suposta redução da curva de contaminação: “Já estamos vendo sinais de que isso pode estar acontecendo em algumas de nossas regiões de atuação. Estamos muito otimistas de que o evento pode estar em curva descendente e estamos discutindo planos de desmoblização de algumas praças”.</p>



<h3 class="wp-block-heading">A pressão pela polarização</h3>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">(crédito: Barcroft Media Getty Images)</p>
	                
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<p>“A discussão é uma distorção do ponto de vista científico e da medicina baseada em evidências. Então me parece que o uso é uma questão muito mais no campo da política”, avalia Fausto Pereira dos Santos, diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) entre os anos 2003 e 2010, durante o governo Lula.</p>



<p>Ele lembra que, a todo tempo, se polarizou a discussão e se tentou reduzir no Brasil o papel das evidências, principalmente as internacionais, numa discussão muito rasa, como se as instituições e os governos de outros países que adotaram medidas contra a propagação da Covid-19 tivessem uma atuação contra o governo brasileiro e as ideias que se pregam no Brasil.</p>



<p>“Isso é uma paranoia, uma alucinação completa e uma resistência a tudo que se tem feito no restante do mundo”, critica Fausto.</p>



<p>“O sistema de saúde suplementar sempre buscou nas discussões internas e na incorporação de novas medicações a base das evidências. Então é de se estranhar que agora essas mesmas empresas lancem mão de uma ferramenta ao contrário de tudo que é discutido dentro do aparato regulatório”, complementa.</p>



<p>Daniel Dourado, médico, advogado sanitarista, professor e pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Direito Sanitário da Universidade de São Paulo (USP), pondera ainda quenenhum desses medicamentos citados no kit da Hapvida têm registro para tratamento da Covid-19, então, em tese, nem poderiam fazer parte de um protocolo oficial.</p>



<p>Para ele, isso mostra claramente que o governo federal está “forçando a mão” e nem todos querem bancar o custo jurídico e político disso, não à toa que secretários e dois ministros saíram de seus cargos de chefia da pasta de Saúde, que segue com um ministro interino.</p>



<p>“De onde foi tirada essa posologia? Não há evidência nenhuma. É off label, fora de bula”, provoca Daniel, para quem, no cenário atual de publicações científicas e posicionamentos de entidades de classe, qualquer incentivo ou pressão pelo uso da hidroxicloroquina é “muito grave”.</p>



<p>A <strong>Marco Zero Conteúdo</strong> também procurou a Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge) para repercutir a denúncia, mas a entidade se restringiu a dizer que vem acompanhando as iniciativas lideradas pelo Ministério da Saúde e “tem orientado suas associadas a atuarem em consonância com as melhores práticas de políticas públicas”.</p>



<p>“É importante lembrar ainda que não há no mundo uma orientação definitiva para o tratamento de Covid-19, não existe um protocolo único a ser seguido. A recomendação do tratamento é uma soberania médica, que leva em conta o histórico individual de saúde de cada paciente, que tem de consentir com o mesmo. Todas as alternativas objetivam alcançar o melhor resultado assistencial e a preservação da vida das pessoas. A única opção que não é levada em consideração é deixar o paciente desassistido”, diz a nota.</p>



<p><strong>Atualização</strong></p>



<p>Nesta sexta (29), dia seguinte à publicação desta matéria, a Hapvida enviou uma nota à reportagem. Segue o texto na íntegra:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p> O Sistema de saúde, fundado por um médico, em seus mais de 40 anos de atuação, sempre respeitou a soberania médica. O profissional médico é sempre a autoridade máxima, quando o principal compromisso é salvar vidas.</p><p>Prova disso, no que se refere à prescrição da hidroxicloroquina dentro das nossas unidades, é que pouco mais que a metade dos pacientes recebeu a medicação por prescrição médica e consentimento do cliente (55%). Cerca de metade dos médicos adotou a droga como tratamento, em comum acordo com os pacientes.</p><p>A outra metade dos pacientes não recebeu, porque não houve prescrição médica (cerca de 45%). Prova da soberania do médico. O profissional teve total liberdade de tomar outra condução terapêutica</p><p>Nosso corpo médico das emergências e urgências é formado por 2 mil médicos. Se houve alguma demissão, seguramente, esse não foi e nem será o fator decisório.<br>A medicação é doada aos pacientes, que contam com a prescrição como forma de afiançar o acesso ao tratamento, visto que a medicação não é mais encontrada à venda nas farmácias das cidades.</p><p>A operadora segue determinada no combate à pandemia, com investimento de mais de 70 milhões de reais em equipamentos, profissionais e insumos que auxiliem na promoção à saúde dos pacientes. </p></blockquote>
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