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	<title>Arquivos homem trans - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos homem trans - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Visibilidade trans: “Gerar e amamentar não faz de mim menos homem”, diz Hecthor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Jan 2019 15:18:12 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/01/rodadeuOpcao2.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-12985" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/01/rodadeuOpcao2.jpg" alt="rodadeuOpcao2" width="1075" height="47"></a></p>
<p>Em uma tarde de agosto do ano passado, após oito horas de espera por um ultrassom no Hospital das Clínicas, Hecthor Iago ouviu do técnico: “Parabéns! Você vai ser papai”. A gravidez já havia sido sugerida pela médica que o havia atendido durante aquele longo dia, mas isso não diminuiu o choque. “É uma menina!”, continuou o técnico. Ao ser descoberta, a gravidez já estava no sexto mês. Durante todo este tempo, Hecthor estava em terapia hormonal, recebendo a cada 21 dias injeções de testosterona. Era o primeiro homem trans, em plena transição, a descobrir uma gravidez em Pernambuco.</p>
<p>Há três anos sem menstruar por conta da hormonização, Hecthor não pensava em engravidar. Já estava perto de realizar a tão esperada mastectomia – faltavam apenas mais quatro pessoas na longa fila de espera por cirurgia no HC. Três meses antes havia ficado desconfiado e feito um teste de urina, que deu negativo. Assim, os vômitos no primeiro semestre, as pernas inchadas e o aumento da barriga haviam sido negligenciados como problemas relacionados à diabetes – doença que o acompanha de forma voraz desde a primeira infância.</p>
<p>O atendimento médico displicente que recebeu também contribuiu com a demora. Mais ou menos um mês antes da descoberta, ele havia procurado uma unidade de saúde em um município do Grande Recife. Diagnóstico: infecção bacteriana.</p>
<blockquote><p><strong><a href="https://marcozero.org/homens-trans-lutam-por-reconhecimento-e-servicos-de-saude/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Homens trans lutam por reconhecimento e serviços de saúde</a></strong></p></blockquote>
<p>O antibiótico que o médico então prescreveu, claro, não afastou os sintomas. Só os piorou. Foi apenas quando foi para a consulta no Espaço Trans do Hospital das Clínicas que Hecthor recebeu a atenção que tanto necessitava. Lá, foi encaminhado para uma nefrologista (ele acreditava que era um problema nos rins), que logo desconfiou da gravidez.</p>
<p>No dia seguinte, já foi internado. Nos meses restantes da gravidez dividiu com quatro mulheres um quarto do HC. Lá, todas elas o tratavam pelo nome que escolheu, usando artigos e pronomes no masculino. Se sentiu acolhido pelas grávidas, mas sofreu transfobia de uma enfermeira. “Ela dizia que eu estava errado, que não tinha conhecido um homem de verdade”, lembra. Denunciada, a enfermeira não entrou mais no quarto de Hecthor.</p>
<blockquote>
<h2>Testosterona e gravidez</h2>
<p>O médico endocrinologista Eric Trovão, do Espaço Trans do Hospital das Clínicas, explica que o uso de testosterona não impede a gravidez. “O uso regular inibe a ovulação, mas não é uma garantia de 100%. É muito importante que isso seja alertado aos homens trans. Quando há relação sexual com penetração é necessário que se adote um método de barreira, como a camisinha”, explica o médico.</p>
<p>Sem entrar no caso específico de Hecthor, ele afirma que a gravidez em homem trans não é algo comum, mas tampouco é rara. “A literatura médica está repleta de exemplos”, diz.</p>
<p>O único hormônio que os homens trans recebem na hormonização é a testosterona. As mudanças que ela causa no corpo variam muito de pessoa para pessoa. “Tanto é que em alguns casos os pelos crescem muito lentamente ou muito pouco. Geralmente a voz é uma das características que tem uma mudança mais rápida”, explica.</p>
<p>Por conta de problemas de saúde em outras áreas, Hecthor afirma que seu caso está sendo estudado pelos endocrinologistas do HC. Mesmo antes da gravidez, os efeitos da testosterona eram brandos no seu corpo. “Demorei a ter pelos e quando tive não eram muitos”, lembra Hecthor, que sentiu efeitos adversos do hormônio, como dores de cabeça. “O que os médicos acham que pode ter acontecido comigo é de que a testosterona não era absorvida completamente pelo meu corpo, que havia um bloqueio”, diz.</p></blockquote>
<p>Era um dia de festa na casa da avó, em São Paulo. Na década de 1990, a cidade fria, as crianças brincavam na rua de moletom. Os pais de Hecthor trabalhavam muito. Ela, costureira. Ele, eletricista, faz-tudo. Muitos dias Hecthor ficava aos cuidados da irmã, mais velha. Para tentar de certa forma compensar a ausência, dona Helena, mãe de Hecthor, preparou um presente surpresa: dois vestidos, coloridos e enfeitados.</p>
<p>Ao colocar a roupa, ela notou que a criança não estava gostando. E foi logo de vestido para a rua e brincar. Voltou triste, aos prantos. A mãe correu para rua ver o que tinha acontecido: “Ele é bicha”, gritou um dos meninos da rua. Atordoada, dona Helena demorou para entender. “Como assim? Vocês brincam juntos na rua, mas ela é uma menina!”, retrucou. “É uma bicha”, reafirmou o menino, já em disparada.</p>
<p>Na ceia daquela noite, Hecthor não tocou em nada. Ao retirar o vestido do filho, dona Helena escutou uma frase que nunca esqueceu, e que obedeceu: “Nunca mais você vai me obrigar a usar uma roupa dessas”. Hecthor tinha então seis anos de idade.</p>
<p>Hoje, aos 28, Hecthor começou a transição hormonal há cinco, quando estava em um relacionamento sério com uma mulher.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/assine/"><img decoding="async" class="size-full wp-image-13083 aligncenter" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/01/bannerAssine.jpg" alt="bannerAssine" width="730" height="95"></a></p>
<p>Mesmo desde pequeno se identificando como homem, a escolha de passar pela hormonização – que nem todos os homens trans escolhem ou precisam fazer – não foi fácil. Ao ver vídeos no YouTube de João Nery – um dos pioneiros do ativismo trans no Brasil, falecido no ano passado – ficou cada vez mais seguro em passar pelo processo. “João Nery sempre falava comigo pelas redes sociais. Até chamada de vídeo ele fez comigo, querendo saber como estava minha transição e se eu havia falado com minha noiva”, lembra Hecthor, com carinho.</p>
<p>A conversa não foi fácil. A então noiva pediu uma semana para pensar. Voltou disposta a continuar o relacionamento – que se estendeu por outros quatro anos.</p>
<p>A conversa com a mãe demorou mais para acontecer. “Ela me perguntou: ‘Você está preparado para enfrentar o preconceito que tem no mundo? Se você estiver, a gente vai caminhar junto, lado a lado’. Eu disse que estava e comecei então com a testosterona”, lembra. “Minha mãe foi a primeira pessoa que me viu de barba. Ela nunca me disse para eu não ser quem eu sou ”, conta.</p>
<p>O pai, evangélico, não aceita até hoje.</p>
<h2>Parto de cesárea e amamentação</h2>
<p>Hecthor estava solteiro na época da descoberta da gravidez. O ex-namorado, um homem gay, acompanhou a gravidez como amigo – e agora é também um pai presente na vida da pequena Isís. Presenciou o nascimento na sala do parto. “A preocupação no hospital era se eu iria tentar o parto normal e também sobre a amamentação”, lembra Hecthor.</p>
<p>“Parto normal é muito feminino. Mas se a minha natureza dissesse para eu tê-la por parto normal, isso não iria me fazer menos homem”, afirma.</p>
<p>O parto acabou sendo por cesárea. A amamentação também não se mostrou um obstáculo. Com três meses e meio, a bebê tem uma rotina de sono, pouco choro e muito leite. “Também não me sinto menos homem ao amamentar. Sou um homem que amamenta. Fico feliz de poder fazer isso por ela. É ótimo vê-la crescendo com saúde”.</p>
<p>Para o futuro, Hecthor pretende retomar os estudos e a hormonização. “Vou fazer outros exames para ver porque a testosterona não teve muitos efeitos em mim. Também quero tentar fazer a mastectomia”, conta. Outra pendência é trocar o nome oficialmente no cartório, e incluí-lo na certidão de nascimento da filha. “Quero fazer assim que puder. Tenho medo dos retrocessos que o governo Bolsonaro pode trazer”, diz.</p>
<p>Os planos de Hecthor para a pequena Isís são de que ela cresça sabendo que tem dois pais. “O mais importante é que ela vai ser criada com muito, muito amor. Sabendo que é aceita do jeitinho que ela é”.</p>
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		<title>Visibilidade trans: aceitação familiar fortalece saúde mental</title>
		<link>https://marcozero.org/visibilidade-trans-aceitacao-familiar-fortalece-saude-mental/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Jan 2019 12:42:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
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		<category><![CDATA[transexuais]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>É com uma voz mansa, mas sempre assertiva, que Gabriel Ventura fala do passado e do presente como se tivesse muito mais estrada do que seus dezoito anos. É que, no pouco tempo que tem de vida, ele conseguiu enfrentar vários desafios que pessoas trans comumente encontram pelo caminho: a auto-aceitação e a aceitação da [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img decoding="async" class="alignleft wp-image-12985 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/01/rodadeuOpcao2.jpg" alt="" width="1075" height="47"> É com uma voz mansa, mas sempre assertiva, que Gabriel Ventura fala do passado e do presente como se tivesse muito mais estrada do que seus dezoito anos. É que, no pouco tempo que tem de vida, ele conseguiu enfrentar vários desafios que pessoas trans comumente encontram pelo caminho: a auto-aceitação e a aceitação da família.Estudante de Letras, Gabrielencontrouna educação seu caminho para lutar contra o preconceito e o estigma social.</p>
<p>Morador de Igarassu, Gabriel ia todo dia, de ônibus, para o bairro de Apipucos, Zona Norte do Recife, onde cursava o ensino médio na Escola de Referência Professor Cândido Duarte. Eram tempos difíceis: Gabriel não encontrava um nome que pudesse descrevê-lo. “Desde os quatro anos eu apresentava indícios de transexualidade. Queria fazer xixi em pé, andar sem camisa, jogar futebol com os meninos. Minha mãe sempre percebeu isso. Eu tirava vestido, tirava maquiagem. Mas para ela essas atitudes eram algo da sexualidade, de que eu era lésbica”, conta.</p>
<blockquote><p><a href="https://marcozero.org/homens-trans-lutam-por-reconhecimento-e-servicos-de-saude/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><strong>Homens trans lutam por reconhecimento e serviços de saúde</strong></a></p></blockquote>
<p>Na puberdade, os indícios se acentuaram. “Fui cortando o cabelo e rejeitando cada vez mais outros símbolos de feminilidade. Ficava com garotas, mas não me sentia uma garota lésbica. Fui perguntando: o que está se passando? O que eu era?”, lembra. Em um grupo de estudos de gênero na escola, ele teve pela primeira vez contato com o termo transexualidade. “Fui procurando mais e me identifiquei. O quebra-cabeça foi se encaixando. Eu disse: sou isso”, conta Gabriel.</p>
<p>A experiência o libertou de uma angústia, mas ele se deparou com outra. “Eu necessitava da aceitação da minha família também. Foi um processo de um ano para isso acontecer. Minha mãe começou a se afastar de mim, porque ela é cristã. Foi um momento muito depressivo. Me senti muito sozinho. E comecei a beber muito”, diz.</p>
<p>A depressão e outros sofrimentos mentais são comuns na adolescência de homens e mulheres trans. “A mudança no corpo traz questionamentos. E há sofrimento psíquico com o surgimento dos caracteres sexuais secundários. Não acontece em relação à questão da sexualidade, de ser hétero ou homo. É algo que vai muito mais além”, explica a psicóloga Carla Maciel, que atende no ambulatório LGBT do Cisam.</p>
<p>É nesta fase delicada que o jovem mais precisa do apoio da família e dos amigos. “Os casos mais sérios de depressão, tentativas de suicídio e abuso de substâncias, como álcool e drogas, na maioria das vezes são resultado do preconceito que os transexuais sofrem, e não da identificação de gênero ou da sexualidade&#8221;, explica a psicóloga. Ela cita um estudo realizado com 250 transexuais em 2016, no México, e que foi essencial para que a transexualidade deixasse de ser considerada um transtorno mental – o que ocorreu no ano passado naquele país.</p>
<p>A pesquisa, publicada no <a href="http://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366(16)30165-1/abstract" target="_blank" rel="noopener noreferrer">The Lancet</a>, revelou que era o estigma socialo maior responsável pelos problemas. Do grupo entrevistado, 76% afirmaram ter sofrido rejeição social – a maioria, da própria família. E 63% também haviam sido vítimas de violência. Ao fazer o acolhimento nas <a href="https://marcozero.org/homens-trans-lutam-por-reconhecimento-e-servicos-de-saude/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">clínicas especializadas em LGBT</a>, os pacientes transexuais passam também por avaliação psiquiátrica. “É para fazer o diagnóstico referencial de alguém com inadequação de identidade de gênero, intersexo ou transtorno mental de fato, ou seja, de alguém que delira pensando que é outra pessoa. Este últimodiagnóstico é bastante incomum nos ambulatórios LGBT”, diz Carla Maciel.</p>
<p>Para Gabriel Ventura, o ano em que passou afastado da família foi o mais difícil até agora, mas está sendo superado. Mãe e filho fazem acompanhamento psicológico. “Hoje ela já me chama de Gabriel e estamos restabelecendo nossa relação”, comemora ele, que saiu de casa recentemente para morar com a namorada. Nos próximos anos, Gabriel quer se formar para que, assim como aconteceu com ele, os estudantes possam aprender sobre transexualidade também dentro das escolas &#8211; diminuindo assim o preconceito e, quem sabe, ajudando a evitar anos de sofrimento para outras pessoas trans.</p>
<p><a class="http://www.marcozero.org/assine" href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/01/bannerAssine.jpg" rel="http://www.marcozero.org/assine"><img loading="lazy" decoding="async" class="http://www.marcozero.org/assine alignnone wp-image-13083 size-full" title="#AssineMarcoZero" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/01/bannerAssine.jpg" alt="bannerAssine" width="730" height="95"></a></p>
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