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	<title>Arquivos hospital de campanha - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Wed, 28 Feb 2024 22:13:54 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos hospital de campanha - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Goiana quer reabrir UPAe inaugurada no início da pandemia e desativada pelo Estado em outubro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Apr 2021 21:33:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[atendimento médico]]></category>
		<category><![CDATA[covid-19]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Inaugurada em maio de 2020 para atendimento especializado aos pacientes de covid-19, a Unidade Pernambucana de Atenção Especializada (UPAe) do município de Goiana, na Zona da Mata Norte, está desativada desde outubro do ano passado. Construída e equipada pelo Grupo Fiat-Chrysler Automobiles (FCA), que possui a fábrica da Jeep no município, e gerida pelo Governo [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Inaugurada em maio de 2020 para atendimento especializado aos pacientes de covid-19, a Unidade Pernambucana de Atenção Especializada (UPAe) do município de Goiana, na Zona da Mata Norte, está desativada desde outubro do ano passado. Construída e equipada pelo Grupo Fiat-Chrysler Automobiles (FCA), que possui a fábrica da Jeep no município, e gerida pelo Governo do Estado, a unidade de saúde contava com 30 leitos em funcionamento, sendo três para pacientes com quadros respiratórios graves. A estrutura era capaz de assegurar tratamento adequado para dezenas de pessoas, mas agora está inutilizada.</p>



<p>Em outubro, ao anunciar a desativação da UPAe, o Governo de Pernambuco alegou que a taxa de ocupação dos leitos estava abaixo de 60%. Entretanto, meses após a desativação da unidade de saúde, o número de casos de covid-19 na cidade segue apresentando um crescimento alto e, com a falta de leitos, pacientes precisam ser transferidos frequentemente para receber tratamento em outras cidades do estado.</p>



<p>No dia 26 de outubro de 2020, data do fechamento da UPAe, o município contava com 1.231 casos confirmados, 79 óbitos e 1.004 recuperados da covid. No boletim epidemiológico divulgado no dia 26 de abril de 2021, exatamente seis meses após o fechamento da unidade, a cidade totalizava 4.782 casos confirmados, 120 óbitos e 4.016 pacientes recuperados. Ou seja, um aumento de mais de 3.500 casos confirmados da doença.</p>



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	                                        <p class="m-0">Boletim epidemiológico da Prefeitura de Goiana do dia 26 de outubro de 2020. Crédito: Reprodução / Site da Prefeitura de Goiana</p>
	                
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	                                        <p class="m-0">Boletim epidemiológico da Prefeitura de Goiana do dia 26 de abril de 2021. Crédito: Reprodução / Site da Prefeitura de Goiana</p>
	                
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<p>Ao comunicar a desmobilização dos leitos para pacientes da covid-19 na UPAe, o Governo do Estado garantiu que a unidade voltaria a funcionar com consultas ambulatoriais especializadas de assistência à população goianense e da região. No entanto, desde então, o hospital segue sem realizar atendimentos médicos. Ao invés disso, a unidade passou a funcionar como uma sede da XII Gerência Regional de Saúde (Geres) apenas com funções administrativas.</p>



<p>Atualmente, a unidade de referência em atendimento a pacientes com covid-19 é a Upinha da cidade, que conta com 14 leitos de enfermaria e dois leitos de área vermelha, para casos graves. De acordo com Paula Brito, chefe de enfermagem da Upinha, alguns casos graves conseguem ser tratados na unidade, mas quando há necessidade de intubação os pacientes são transferidos.</p>



<p>Nenhum hospital municipal ou estadual de Goiana conta com uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), dificultando ainda mais o tratamento dos pacientes que apresentam um quadro de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), uma das principais causas de morte provocadas pelo novo coronavírus.</p>



<p>Um levantamento oficial da Prefeitura de Goiana apresenta dados alarmantes sobre o número de internações, atendimentos de emergência e funcionários da Upinha que testaram positivo para a covid-19 nos últimos cinco meses. De acordo com os dados, em outubro de 2020 o número de atendimentos de emergência realizados na unidade de saúde foi 436. Já em março de 2021, foram 3.464 atendimentos. No mesmo período, o número de internamentos subiu de sete para 41. São registros que revelam a superlotação da Upinha e a urgência do aumento do número de leitos no município.</p>



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	                                        <p class="m-0">Levantamento oficial da Prefeitura de Goiana com dados sobre o Hospital de Campanha da covid-19, em funcionamento na Upinha da cidade.</p>
	                
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<h2 class="wp-block-heading">Reabertura segue indefinida</h2>



<p>Com apenas a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade e o Hospital Belarmino Correia funcionando para atendimento à população, e com poucos leitos de internação para casos graves da covid-19, o prefeito de Goiana, Eduardo Honório, solicitou a devolução dos equipamentos e o reestabelecimento das atividades na UPAe.</p>



<p>No mês de março, em pronunciamento oficial, o gestor alegou que o município tem capacidade de gerir a unidade e colocou à disposição os profissionais de saúde para atuar no hospital de campanha. &#8220;Novos casos de covid-19 estão surgindo em nossa região e precisamos combater essa doença. Por isso, queremos que o governador Paulo Câmara devolva a unidade de saúde com todos os equipamentos e a nossa prefeitura assume com os profissionais da saúde&#8221;, declarou o prefeito em coletiva de imprensa.</p>



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	                                        <p class="m-0">Reunião entre o prefeito de Goiana, Eduardo Honório e o secretário executivo de Saúde de Pernambuco, Humberto Antunes. Crédito: Reprodução / Instagram Prefeitura de Goiana</p>
	                
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<p>Após apresentar a solicitação oficial para o restabelecimento das atividades na UPAe, Eduardo Honório se reuniu com o secretário executivo de Saúde de Pernambuco, Humberto Antunes. Na ocasião, o secretário afirmou que o Governo do Estado teria grande interesse em reativar a unidade, mas, até o momento, nenhuma declaração oficial sobre a devolução dos equipamentos ou mesmo uma data para a reabertura foi estabelecida.</p>



<p>A Marco Zero Conteúdo procurou a Secretaria Estadual de Saúde do Governo de Pernambuco, mas até a publicação desta reportagem não obteve nenhuma resposta. O prefeito Eduardo Honório afirmou que prefere não dar nenhuma entrevista sobre o caso até conseguir uma resposta definitiva do Governo do Estado. </p>



<p>Apesar de não ter nenhuma resposta da Secretaria Estadual de Saúde, a reportagem apurou que no dia 6 de abril foi publicado no Diário Oficial uma licitação de seleção pública para organizações que tenham interesse em assumir a gestão da UPAe Goiana.</p>



<p>A licitação está avaliada em R$ 20.297.818,92 para a prestação de serviços de gerenciamento, operacionalização e execução de atendimento da unidade de saúde. A primeira etapa do certame, que consiste no envio das propostas das empresas, chegou ao fim no dia 26 de abril. As demais etapas não apresentam um prazo final e, de acordo com a licitação, a habilitação e a classificação final das propostas ainda precisam ter prazos estabelecidos, podendo ser suspensas em decorrência de alguma irregularidade.</p>



<p>Ainda de acordo com a licitação, A UPAe Goiana deverá ser um Centro de Diagnóstico e Orientação Terapêutica Ambulatorial de alta resolubilidade, apta a realizar consultas e procedimentos de média complexidade, voltada ao atendimento aos usuários referenciados pelas unidades de Atenção Primária de Saúde (APS). A unidade beneficiará os municípios de Aliança, Camutanga, Condado, Ferreiros, Goiana, Itambé, Itaquitinga, Macaparana, São Vicente Ferrer e Timbaúba.</p>
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		<title>Histórias de vida e morte no hospital de campanha</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 10 Jul 2020 14:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[hospital de campanha]]></category>
		<category><![CDATA[profissionais de saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Durante quase três meses – exatos 85 dias &#8211; o estacionamento da Policlínica e Maternidade Barros Lima, na Zona Norte do Recife, foi ocupado pela enorme tenda onde funcionou um dos hospitais de campanha da capital pernambucana para isolamento de pacientes de covid-19. A estrutura ainda está lá, foi mantida por precaução, porém desde o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Durante quase três meses – exatos 85 dias &#8211; o estacionamento da Policlínica e Maternidade Barros Lima, na Zona Norte do Recife, foi ocupado pela enorme tenda onde funcionou um dos hospitais de campanha da capital pernambucana para isolamento de pacientes de covid-19. A estrutura ainda está lá, foi mantida por precaução, porém desde o dia 1º de julho o que passou a funcionar foi uma unidade para triagem, leitos para pacientes com casos suspeitos leve serem medicados ou aguardarem transferência em caso de agravamento.</p>



<p>Os relatórios da secretaria municipal de saúde indicam que 4.080 pessoas foram atendidas no hospital provisório. Ficaram internadas 509, das quais 147 saíram curadas e 323 foram transferidas. Trinta e nove homens e mulheres morreram. A taxa de mortalidade de 7,7% é praticamente igual a do restante do estado (7,9%).</p>



<p>Com a queda de números de casos em Recife, a prefeitura reduziu a estrutura. Dos 155 profissionais que trabalhavam no hospital de campanha no período mais difícil, principalmente entre o final de abril e meados de maio, apenas a metade foi mantida. Para a maioria, foi a experiência mais difícil de suas vidas.</p>



<p>Três desses profissionais contaram um pouco do que viram e viveram no hospital de campanha. São relatos de dor, sofrimento e ansiedade, mas também de coragem, dedicação e solidariedade. Coisas que o balanço da prefeitura é incapaz de revelar.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O enfermeiro Clóvis</h2>



<p>A morte e a tragédia fazem parte da vida de Clóvis Henrique Barros e Silva muito antes da pandemia. Aos 54 anos, passou boa parte de sua vida profissional na sala vermelha do maior pronto-socorro de Campina Grande. Além disso, como enfermeiro intensivista, ou seja, especialista em trabalho em UTI, já enfrentou um surto de uma superbactéria em outro hospital público de Paraíba.</p>



<p>Por isso, não hesitou quando foi chamado para assumir a vaga que conquistou por ter passado na seleção pública realizada pela prefeitura do Recife em 2018. Ele começou na Barros Lima no dia 3 de abril, antes mesmo da inauguração oficial que só aconteceria três dias depois.</p>



<p>“Nessa rotina de trabalho, a gente acaba criando barreiras de defesa, senão enlouquece. Mas tem hora que é difícil de aguentar”, confessa, emendando com a lembrança dos momentos em que foi difícil suportar: “Foram três plantões seguidos. Um óbito em cada um”.</p>



<p>Duas dessas mortes desconcertaram toda a equipe. “A primeira foi de a de um homem que havia passado quase uma semana no isolamento, ele melhorou a ponto de receber alta clínica e voltou para casa. Quatro dias depois, deu entrada novamente no início do meu plantão. Já chegou mal, com falta de ar. Morreu no mesmo dia. Quando a família chegou, soubemos que ele estava fazendo aniversário naquele dia”.</p>



<p>A outra morte desconcertante foi a de um técnico de enfermagem, profissional de outro hospital público. “Simpático, boa gente, fez amizade com todos os colegas que o atendiam. Passou dois ou três dias conosco. Estável, tudo indicando que iria escapar. De repente, do nada, começou a piorar rapidamente. Foi entubado e veio a óbito. Essa noite foi difícil encontrar paz, a gente não conseguia nem olhar um para o outro”.</p>



<p>Para o enfermeiro Clóvis, outra grande dificuldade de trabalhar na linha de frente é manter o distanciamento social até mesmo dentro de casa. “Não quero contagiar minha mulher e filhos. Almoço e janto em horários diferentes da minha família, durmo longe de minha esposa. É duro, mas não quero que eles fiquem doentes”.</p>



<p>Clóvis foi um dos poucos de sua equipe de plantão que não adoeceu. “Se tive contato com o vírus, fiquei assintomático. Não é milagre, não. Ao contrário de muitos colegas, sei usar bem os equipamentos de proteção por causa dos meus anos numa UTI.”</p>



<p>Com a estrutura funcionando parcialmente, Clóvis continua acordando às 4h30min para sair de João Pessoa a tempo de chegar na avenida Norte antes do plantão começar. “Chegar cedo é um dos segredos, pois dá tempo de se paramentar com cuidado, revisar EPI por EPI, e iniciar o plantão com segurança. Mas agora está bem mais tranquilo, antes a gente entrava no isolamento e não podia mais sair”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Gisléa, Dália e Clóvis contaram suas experiências na linha de frente</p>
	                
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>As psicólogas Gisléa e Dália</strong></h2>



<p>As equipes médica e de enfermagem foram surpreendidas com a informação de que psicólogas participariam do atendimento no hospital de campanha. Mais surpresas ainda ficaram Dália Costa e Gisléa Ferreira quando, alguns dias depois de saberem que tinham passado no concurso da prefeitura, foram avisadas por telefone que já seriam convocadas para trabalhar.</p>



<p>Por ter no currículo um estágio no Hospital da Restauração, Dália encarou o chamado com mais naturalidade. Com Gisléa foi diferente, como se verá mais adiante.</p>



<p>“O maior receio foi levar o vírus para casa e infectar as pessoas que amo”, admite Dália, explicando que, no final de março, ainda vivia com os pais. Antes mesmo do primeiro plantão, alugou um apartamento e foi morar só aos 32 anos para proteger o pai e a mãe.</p>



<p>Na manhã de 27 abril, começou a trabalhar e, já no fim do plantão, começou a sentir fraqueza. Era covid-19. “Testei positivo. É claro que a contaminação não aconteceu no trabalho, não deu tempo”, explica. Os primeiros 14 dias de contrato ela passou em seu próprio isolamento. “Em compensação, quando voltei ao trabalho, estava mais segura por ter adquirido alguma imunidade, mesmo que isso ainda não seja comprovado. Acabou sendo positivo”.</p>



<p>As videochamadas entre os pacientes isolados e seus parentes não eram previstas para o trabalho do serviço das psicólogas e assistentes sociais, mas acabaram se tornando bem importantes na rotina do hospital de campanha. “As chamadas são fundamentais, são as visitas virtuais. Todas eram emocionantes”, garante Dália.</p>



<p>“Fazíamos chamadas tanto entre jovens de 18 anos e seus pais ou irmãos quanto entre idosos e seus filhos e filhas. Quando tínhamos tempo, ligávamos para vários filhos que moravam em lugares diferentes”, conta a psicóloga. O celular enviado pela prefeitura contém vários aplicativos de conversas online, mas quase todas as chamadas foram feitas com whatsapp por ser o de uso mais corrente.</p>



<p>Exatamente minutos antes de fazer uma videochamada aconteceu o fato que mais abalou Dália no hospital de campanha. “Eu estava atendendo a uma senhora bastante debilitada, mas percebi que ela piorou durante o atendimento. Quando a técnica de enfermagem estava tentando encontrar sua veia para colocar acesso para medicamento, ela infartou e faleceu. Presenciei tudo”, recorda Dália.</p>



<p>Do lado de fora do isolamento, mais emoção: uma das filhas que mora no interior do estado havia chegado com a esperança de visitar a mãe. “Ela não tinha conseguido vir no dia das mães, então a diretoria fez uma concessão e permitiu que ela visse o corpo. Foi muito triste”.</p>



<p>Hoje, o cotidiano está mais leve, mas, segundo Dália, os sintomas de ansiedade ainda estão muito presentes entre as pessoas que chegam para a triagem. “Isso muda o ritmo da respiração e dificulta o trabalho dos médicos que precisam fazer o diagnóstico”.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Da pesquisa para a linha de frente</strong></h3>



<p>Quando prestou o concurso público, Gisléa imaginava trabalhar com saúde mental em algum Centro de Atenção Psicossocial (Caps), por exemplo. Um trabalho assim viria a calhar com sua formação, pois, aos 31 anos, ela é mestre em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A pandemia atropelou suas expectativas.</p>



<p>“Fiquei estatelada quando soube que teria de entrar no isolamento e ter contato direto com as pessoas doentes. Meu marido é que me acalmou”, revela. O medo inicial de contrair a doença e contaminar o marido logo cedeu e ela passou a ver a convocação como uma oportunidade. “Mesmo assim, durante o primeiro mês de trabalho esse foi o único tema em minhas sessões de terapia” diz ela, com humor e sem constrangimento.</p>



<p>O primeiro plantão, em 28 de abril, foi exaustivo. “Era tudo muito intenso. O isolamento estava lotado, com os 30 leitos ocupados. Do lado de fora, as famílias amedrontadas querendo informações”, relata a psicóloga. Segundo ela, inicialmente o primeiro trabalho foi construir o próprio espaço da psicologia na rotina do hospital, pois os médicos nem sabiam do atendimento psicológico.</p>



<p>Se a colega Dália tinha passado por um estágio hospitalar no HR, Gisléa saiu da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e foi direto para a pesquisa em Saúde Pública. “De repente, estava ali testemunhando óbitos acontecendo, assistindo a procedimentos de reanimação e vendo como médicos e enfermeiros se comunicam intensamente nos momentos críticos com todo o cuidado para que outros pacientes não percebam o que está ocorrendo”, afirma.</p>



<p>A cada morte, Gisléa entendia a importância do seu papel. Em meados de maio, um homem de 28 anos morreu durante seu plantão. Além de informar a morte para a mãe, teve de orientá-la e acompanhá-la no momento em que essa mulher contou à neta de oito anos que o pai havia morrido e que ninguém poderia ver o corpo.</p>



<p>“A psicologia pode contribuir tanto para humanizar o ato de informar um óbito quanto para que as famílias possam encontrar uma forma de viver o luto num contexto em que sequer podem se despedir da pessoa amada. Numa pandemia, o impacto na saúde mental da população é ainda maior e mais numeroso do que o da própria doença ”, concluiu.</p>
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