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	<title>Arquivos jeans - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Thu, 22 Feb 2024 13:26:37 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos jeans - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Trabalho precário de mulheres sustenta indústria do jeans em Toritama</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 May 2023 10:07:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>por Adriana Amâncio, em parceria com o site Gênero e Número Desde a década de 1970, a atividade de produção de calçados de couro, até então predominante em Toritama, cidade do agreste de Pernambuco, foi substituída pela produção doméstica de pequenas peças de roupa. Hoje, a base da indústria têxtil da cidade é o Ouro [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Adriana Amâncio, em parceria com o site <a href="https://www.generonumero.media/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Gênero e Número</a></strong></p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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<p>Desde a década de 1970, a atividade de produção de calçados de couro, até então predominante em Toritama, cidade do agreste de Pernambuco, foi substituída pela produção doméstica de pequenas peças de roupa.</p>



<p>Hoje, a base da indústria têxtil da cidade é o Ouro Azul, nome dado ao jeans. A matéria prima essencial dessa atividade econômica elevou o Produto Interno Bruto (PIB) do município de <a href="https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pe/toritama/panorama" target="_blank" rel="noreferrer noopener">47 mil</a> habitantes, encravado no Semiárido, a <a href="https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pe/toritama/pesquisa/38/47001?tipo=ranking&amp;indicador=47001" target="_blank" rel="noreferrer noopener">R$ 707 milhões</a>, em 2020 &#8211; seis vezes maior que o registrado em 2005. </p>



<p>Em 2017, o setor teve um faturamento de <a href="https://agrestetex.com.br/conheca-o-mercado-de-confeccoes-do-agreste-pernambucano/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">R$ 3,5 bi</a>, segundo a Agreste Tex. Por ano, o Império do Jeans produz 800 milhões de peças e é responsável por <a href="https://www.sebrae.com.br/Sebrae/Portal%20Sebrae/UFs/PE/Anexos/RELATORIO-TORITAMA-FINAL.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">15%</a> da produção consumida no Brasil, segundo o Sebrae. </p>



<p>Tudo isso ocorre com uma estrutura básica, que conta essencialmente com as facções, como são chamados os espaços onde se dá a etapa final de produção das peças e onde a força de trabalho é majoritariamente feminina.&nbsp;</p>



<p>Em Pernambuco, de acordo com a PNAD-2015 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), 270 mil pessoas trabalham na indústria da transformação, onde se insere a atividade das costureiras do jeans de Toritama. No setor, três de cada quatro trabalhadores são homens e menos de um terço deles trabalha sem carteira assinada.</p>



<p>Para as mulheres, que representam um quarto da força de trabalho na indústria da transformação do estado, a informalidade predomina: mais da metade das trabalhadoras do setor não tem vínculo por regime de CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).</p>



<p>Em 2021, Toritama registrava 2.265 trabalhadores formais na indústria da transformação, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Na capital do jeans, onde a principal atividade econômica é sustentada por mulheres, elas representam apenas um de cada quatro trabalhadores com direitos no setor.</p>



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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Trabalhar doente</strong>&nbsp;</h2>



<p>Luana Silva, 33 anos, é dona de uma facção no Sítio Oncinha, área rural de Toritama. A costureira responde às solicitações de entrevista com áudios curtos, nos quais é possível ouvir o som do motor da máquina de costura ao fundo. Ela parece estar sempre com pressa e o barulho é persistente, mesmo fora do horário comercial.</p>



<p>“Eu já trabalhei com febre, porque se eu não trabalhar, não sai mercadoria. A gente vem trabalhar doente mesmo, que é para a meta não cair”, dispara Luana, que é mãe e única cuidadora de quatro filhos &#8211; de 19, 13, sete e quatro anos.&nbsp;</p>



<p>“No início dos anos 2000, com a abertura econômica e o discurso neoliberal, começa a ideia de que as pessoas deveriam empreender”, analisa Marilane Teixeira, economista, professora e pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais do Instituto de Economia da Unicamp.</p>



<p>É sob o incentivo de organismos multilaterais nos arranjos produtivos locais, especialmente em regiões com mais dificuldades econômicas, como o Nordeste, que o Império do Jeans dá os seus primeiros passos. Esses arranjos produtivos com a embalagem de empreendimentos dão a tônica do comércio do ouro azul.&nbsp;</p>



<p>“Quando dá bom, eu faço mil peças na semana e ganho R$1 mil”, afirma Luana Silva, que não desgruda o olho da meta lançada pelo empresário. Caso ela não consiga cumpri-la, perde o cliente. Na facção de Luana, além de seu filho de 19 anos, Isnaldo, trabalham outras três mulheres contratadas.</p>



<p>Quando começou a trabalhar na indústria do jeans, Luana tinha 10 anos. Em Toritama, é comum que as crianças realizem pequenas atividades de limpeza da peça de roupa. Esses trabalhos, considerados como ajuda, são a porta de entrada para uma longa jornada.&nbsp;</p>



<p>A acessibilidade do serviço, que pode ser realizado em casa, apenas com uma máquina de costura, somada à pouca exigência quanto ao nível de formação, fez da produção do jeans a única alternativa para muitas mulheres. Para Luana, que cursou até o quarto ano do Ensino Fundamental I, a costura é a tábua de salvação.</p>



<p>Entre os trabalhos que as costureiras de Toritama realizam estão colocar bolsos e reatas (alças que ficam no cós da calça por onde o cinto passa), travetar (reforçar a costura da braguilha e em torno dos botões), abrir as casas (abrir os espaços onde se abotoa a calça), colocar vista (pespontar os bolsos laterais e traseiros) e embotar (abrir a ponta do cós da calça e colocar o botão logo acima do zíper).&nbsp;</p>



<p>Por cada uma dessas tarefas paga-se entre R$0,10 e R$0,25. O salário semanal final é o resultado da soma do valor pago por esses serviços ao do valor pago pelo total de peças produzidas. Quem realiza apenas uma ou duas dessas atividades ganha centavos por cada aplicação. </p>



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<p>Ao longo de sete anos, Luana trabalhou em uma fábrica com carteira assinada. Há dez anos, possui a própria facção. Nesse período, ela deu à luz a três filhos. Em todos os casos, voltava à máquina alguns dias depois do parto. No trabalho informal do jeans, ter mais um filho representa a necessidade de mais trabalho para arcar com as novas despesas, o que encurta o tempo do puerpério.</p>



<p>Além de coordenar o espaço e negociar com os empresários, Luana também costura para compor o salário. Ela ganha, por peça, R$ 0,60 com o próprio trabalho, mais R$ 0,40 por cada peça produzida pelas costureiras que usam suas máquinas, o que totaliza R$1 mil por semana. “Eu pego das 7h às 11h, volto às 13h e fico até&nbsp; 17h30. Às terças, quintas e sextas faço serões até meia noite”, conta.</p>



<p>Essa mão de obra intensiva, que catapultou os números em uma cadeia de produção precária, fez com que Toritama se tornasse a capital do jeans. A cidade pode ser considerada um parque fabril a céu aberto. A cada esquina, praticamente em cada casa, há uma facção.&nbsp;</p>



<p>No rio Capibaribe, que corta a cidade, e nos córregos e lagos, a água tem coloração azul. Até as pedras e a vegetação que margeia os cursos hídricos é azulada pelo resíduo da lavagem do jeans, que, em grande parte, não é tratado.</p>



<p>A meta a ser batida dita o ritmo da cidade. De segunda a quinta, motos, carros com carroceria transportam peças em jeans para lá e para cá. A sinfonia das máquinas de costura é entoada por horas, em cada canto da cidade, e se intercala com movimentos repetitivos de mãos e pernas.&nbsp;</p>



<p>Às quintas-feiras, quando acontece a Feira do Jeans, no Parque das Feiras, a cidade é tomada por pessoas de diversas localidades do estado de Pernambuco e do Brasil. O frisson toma conta daqueles que veem nas horas de venda a oportunidade de escoar ao máximo a mercadoria.&nbsp;</p>



<p>Pela cidade, moradores celebram a atividade. O agricultor Gersino Gomes, 75 anos, acredita que a indústria do jeans é um divisor de águas. “Antes, Toritama era uma cidade que o povo passava fome. Agora, homem, mulher, menino tem o seu dinheirinho.<em> [O jeans]</em> é o braço forte da cidade”, arremata.</p>



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	                                        <p class="m-0">Córrego poluído ao lado de uma das lavanderias localizada no centro da cidade. Foto: Arnaldo Sete/GN.</p>
	                
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Trabalho infinito</strong></h3>



<p>Na visão de Marilane Teixeira, o trabalho no jeans não é empreendedorismo. “Empreendedorismo é quando você, a partir da sua&nbsp; criatividade, desenvolve um trabalho e busca mercado. Essas relações não têm nada a ver com empreendedorismo, pois são marcadas pela presença de alguém, que demanda por esse trabalho e estabelece como ele deve ser realizado”, avalia a pesquisadora.</p>



<p>Se a fabricação do jeans se desse em uma linha de produção, as mulheres teriam uma jornada de trabalho com possibilidade de descanso adequado. Quem viveu a maior parte do tempo essa rotina foi Roseane da Silva, 46 anos, que trabalhou durante 29 anos em fábricas. Há um ano, ela possui uma facção no bairro Novo Alvorecer, no centro de Toritama.&nbsp;</p>



<p>“Na fábrica é bom porque ganha mais, mas eu não posso trabalhar porque eu sofri um AVC [Acidente Vascular Cerebral] e não sirvo, porque não dou mais produção. Esse braço meu <em>[aponta o braço direito]</em> não levanta”, comenta a costureira.&nbsp;</p>



<p>Devido a limitação do movimento no braço, um dos membros mais usados na lida com o jeans, Roseane foi descartada como uma peça que deu defeito. Muitos empresários preferem terceirizar o trabalho nas facções, porque o custo é mais barato que o de manter um profissional na linha de produção. Nas facções, os empresários impõem metas curtas para produção de milhares de peças e não precisam barganhar muito para que alguém aceite o desafio.</p>



<p>Hoje, com a sua facção, Roseane trabalha apenas com a produção da frente de calças, durante três dias da semana, trabalho pelo qual recebe R$ 1.300 por mês. Com esse dinheiro, ela sustenta a casa e dois filhos. Há alguns meses, sua filha Doralice Batista, 18 anos, começou a trabalhar com a mãe.</p>



<p>Como a facção fica em frente à casa de Roseane, ela caminha alguns passos até a cozinha, onde o almoço é preparado, enquanto avança na produção do jeans. Em geral, as facções são montadas dentro de casa ou em um local muito próximo. É aí que o trabalho doméstico e o trabalho fabril se misturam, o que torna a jornada ainda mais exaustiva. </p>



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<p>Para Erica Silva, diretora da Mulher de Toritama e autora do trabalho de conclusão de curso (TCC) <a href="https://attena.ufpe.br/bitstream/123456789/42757/4/2-%20TCC%20%c3%89RICA%20MONIQUE-%20AUTODEP%c3%93SITO%20BIBLIOTECA.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">“O descosturar da trajetória de mulheres de Toritama”</a>, a atividade permite a conciliação com as tarefas domésticas. “Na verdade, não é uma dupla jornada, as jornadas se unificam, uma vez que acontece tudo ao mesmo tempo”. </p>



<p>“Tem gente que pensa que é fácil porque tem a facção, mas não é. Com o passar do tempo, muda muito o psicológico, esse negócio de bater a meta mexe muito com a mente”, afirma Lidiane da Silva, 37 anos, que está há 27 anos na produção de jeans, três deles dedicados à própria facção.</p>



<p>Segundo Lidiane, ela só não vive mais agitada mentalmente porque não acumula os serviços domésticos. Ela dá uma “ajuda” &#8211; uma quantia em dinheiro &#8211; à sogra para remunerar tarefas como preparo do almoço, limpeza da casa e outros serviços domésticos.&nbsp;</p>



<p>“Eu me acho fraca para dar conta da produção do jeans e ainda cuidar da casa, entende? Hoje, faço mais serviço doméstico durante o fim de semana”, explica Lidiane.&nbsp;</p>



<p>A meta a ser cumprida transforma a vida das mulheres do jeans em um eterno presente, já que o mais importante é ganhar o sustento no dia a dia. É assim que o trabalho na fabricação do jeans e o serviço doméstico convergem como atividades infinitas, que têm hora para começar, mas não têm hora para acabar.&nbsp;</p>



<p>Em Toritama, é comum que as mulheres tenham uma máquina de costura em casa para realizar pequenos reparos. A experiência anterior com a costura de peças em couro também contribuiu para a predominância delas na indústria do jeans. Tudo isso é reforçado pela falta de ofertas de outros postos de trabalho e a baixa escolaridade. “Só tem isso, por isso tem que trabalhar no jeans”, afirma Larissa Carla da Silva* (nome fictício), 58 anos, que trabalha há 28 no setor.&nbsp;</p>



<p>A jornada de Larissa, que está prestes a se aposentar na categoria atividade agrícola, começa às 8h e vai até as 17h. Em dias de serão, ela segue até as 21h. Ela pediu para não ser identificada na reportagem por medo de que isso comprometesse o avanço do processo de concessão da sua aposentadoria.&nbsp;</p>



<p>Luana Barbosa, 23 anos, filha de Larissa, nasceu em meio ao ruído persistente das máquinas e há um ano se rendeu à produção do jeans. Hoje, ela sustenta a filha de um ano pregando reatas. Por cada peça, ela ganha R$ 0,16. “É bom! Só tem isso para fazer, não tem emprego em outra área, então a gente se acostuma”, declara resignada, após um longo suspiro.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Ao longo da pesquisa de campo, Erica Silva, entrevistou diversas costureiras e afirma que a frustração é um sentimento comum entre elas. “A gente encontra mulheres frustradas porque tiveram que escolher entre a família e o trabalho, nesse caso, a costura, que é o que dá para conciliar com o trabalho doméstico. Frustradas por não terem concluído os estudos, que ficou no cantinho dos sonhos”, comenta.</p>



<p>Elaine da Silva, 38 anos, tem três filhos e trabalha na facção de Lidiane da Silva. Vítima de depressão pós-parto e de violência psicológica em casa, ela afirma com convicção: “Eu prefiro estar aqui <em>[na facção]</em> do que em casa. Em casa eu não tenho paz. Na facção, o tempo passa sem eu perceber”, afirma. </p>



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	                                        <p class="m-0">Lidiane Patrícia fundou sua própria facção, mas chega a trabaljar 14 horas por dia. Foto: Arnaldo Sete/GN.</p>
	                
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Adoecer de trabalho</strong></h3>



<p>Muitas das costureiras do jeans em Toritama, com menos de 40 anos, convivem com dores na coluna, na cabeça e nas pernas que tornam o trabalho cada dia mais inviável.&nbsp;</p>



<p>A médica e pesquisadora em Saúde Ocupacional da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), de São Paulo, Maria Maeno, alerta para a insalubridade do ambiente de trabalho dessas mulheres.&nbsp;</p>



<p>“O trabalho com o tecido gera poeira, que as prejudica. Elas fazem muitos movimentos com as mãos e passam muito tempo sentadas, além de perseguirem a meta, o que mexe com o psicológico. Essas mulheres são extremamente sobrecarregadas física e psiquicamente”, Maeno.</p>



<p>“O que eu mais sinto doer é a coluna, a cabeça e as pernas. Sinto muita dor nas pernas por causa do movimento na máquina”, reclama Luana Barbosa, que começou a trabalhar na indústria do jeans aos sete anos e já acumula 16 anos de trabalho. “Eu peço para ter saúde e continuar trabalhando no jeans. E que não mude a função <em>[atividade econômica]</em>, porque se aparecer uma coisa que tenha que ter estudo, não sei como vai ser”, afirma com temor.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Pulverização da demanda dificulta controle&nbsp;</strong></h4>



<p>Procurado pela reportagem, o Ministério Público do Trabalho de Pernambuco (MPT-PE), afirma que realiza forças-tarefa na indústria têxtil de Toritama. Grande parte dessas ações se concentram nas lavanderias, onde já ocorreram acidentes e onde há necessidade de regularizar as condições de segurança. A reportagem visitou alguns desses espaços e viu que essa etapa é uma das que conta com menos participação das mulheres.&nbsp;</p>



<p>Já na linha de produção, a procuradora do MPT-PE, Vanessa Patriota, afirma que foram feitos levantamentos com base em visitas realizadas a cerca de 150 facções. A ação resultou em um mapeamento que, dentre outros problemas, constatou que, além de viver em condição de trabalho intensivo, essas mulheres não possuem acesso à creche, o que torna obrigatória a montagem da facção na própria casa.</p>



<p>De acordo com Vanessa, há uma grande pulverização da demanda do serviço nas facções, o que dificulta ações de regulamentação. “Em Santa Catarina, as facções atendiam a lojas como Renner e Riachuelo, que inclusive já foram ajuizadas por excessos na forma de demandar o trabalho. Em Toritama, as facções atendem pessoas físicas, jurídicas e pequenos comerciantes que vendem na Feira do Jeans. É preciso fazer um mapeamento para identificar essa parte da cadeia”, explica.</p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Arnaldo Sete/GN.</p>
	                
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		<title>Água: um bem para quem pode pagar</title>
		<link>https://marcozero.org/agua-um-bem-para-quem-pode-pagar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Jul 2022 13:31:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[carros pipa]]></category>
		<category><![CDATA[indústria têxtil]]></category>
		<category><![CDATA[jeans]]></category>
		<category><![CDATA[lavanderias]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[toritama]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Enquanto as empresas chegam a gastar até 70 litros do recurso na lavagem de uma única peça, moradores e moradoras da cidade ficam dois meses sem nada nas torneiras Por Observatório da Vida Agreste (OVA/UFPE) Porque é na água do rioque eles se perdem(lentamentee sem dente).Ali se perdem(como uma agulha não se perde).Ali se perdem(como [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>Enquanto as empresas chegam a gastar até 70 litros do recurso na lavagem de uma única peça, moradores e moradoras da cidade ficam dois meses sem nada nas torneiras</em></p>



<p><strong>Por </strong><a href="https://reportagensespeciais.medium.com/4%C3%A1gua-um-bem-para-quem-pode-pagar-4c59730607a3" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Observatório da Vida Agreste</strong> <strong>(OVA/UFPE)</strong></a></p>



<p id="a965"><em>Porque é na água do rio<br>que eles se perdem<br>(lentamente<br>e sem dente).<br>Ali se perdem<br>(como uma agulha não se perde).<br>Ali se perdem<br>(como um relógio não se quebra)</em></p>



<p id="7545"><em>(O cão sem plumas, João Cabral de Melo Neto)</em></p>



<p id="7fee">Em Toritama, a chegada das lavanderias de jeans em meados dos anos 1980 evidenciou falhas no sistema de abastecimento e distribuição de água: é comum viver dias, até mesmo meses, sem nada nas torneiras. Isso nos bairros mais próximos ao centro da cidade — em lugares mais afastados como Deus é fiel, Coqueiral e Independente, a água nem chega. A alternativa para as famílias, que diariamente precisam economizar o recurso (chegando a tomar banho dentro de bacias a fim de reutilizar a água), é abastecer suas cisternas com caminhões pipas que custam em média entre R$ 150 a 200. Sim: o acesso ao líquido de maior qualidade (pelo menos em tese) está disponível somente a quem puder pagar mais. Segundo Hilário Siqueira de Lima, autor da dissertação<em>As lavanderias de jeans de Toritama: uma contribuição para a gestão das águas</em>, o município é um dos campeões em escassez de água no Estado. No trabalho, ele evidenciou que 93% do recurso usado nas empresas de lavagem é comprado justamente dos caminhões pipa.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Ainda é comum na cidade ver animais sendo usados para o transporte de água. Crédito: Maria Júlia Vieira</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Na cidade, é muito comum ouvir reclamações relacionadas à falta de abastecimento, principalmente em ruas onde há lavanderias. A razão: a vazão e a pressão que antes davam (mal) conta de abastecer áreas apenas residenciais passaram a ser “divididas” com estas empresas. Em ruas como a Surubim, por exemplo, a água, quando chega, sai em gotas das torneiras. Não enche as cisternas e só volta 30 a 40 dias depois. A saída: comprar. Em um país com inflação acima dos dois dígitos e cesta básica corroída por conta da alta dos preços, é outro problema que uma população empobrecida precisa enfrentar. Júlio*, que mora na periferia da cidade, diz que compra água para passar o mês, já que a Compesa, empresa de abastecimento estadual, só destina o recurso para a sua rua a cada 15 dias.</p>



<p id="c276">No loteamento Arlindo, a situação é mais dramática: a água nunca chegou. Rafael Santos, 33 anos, vendedor, conta que mora há catorze anos no bairro e desde sempre compra água. “Primeiro, nem rede de saneamento existe aqui. O encanamento central que vem da adutora de Jucazinho passa a 200 metros da minha rua. Gasto em média R$ 200 por mês, algo que acaba comprometendo a minha renda”. A água que vem em caminhões pipas é armazenada em uma cisterna, reservatório comum na casa de famílias do Agreste pernambucano.</p>



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<p id="5a7d">Na casa do cantador João Joaquim, 84, no Centro, a família chega a ficar um mês sem receber água. Ele diz que em outras comunidades mais distantes, a situação é ainda mais dramática: são até dois meses sem recebê-la. “Às vezes temos que tomar banho dentro de uma bacia e aquela água do banho usamos para outras atividades”, explica. Há relatos de casos em que a água não chega devido a problemas na manutenção dos hidrantes, o que compromete o abastecimento das casas. Carlos*, conta que, depois das lavanderias, bairros como Cohab e a rua Surubim passaram a sofrer: o recurso não chega até às últimas casas e, quando chega, é de forma lenta. Passam mais de um mês sem água nas torneiras.</p>



<p id="d19d"><strong>ADUTORA DO AGRESTE: UMA LENDA?</strong></p>



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	                                        <p class="m-0">Canal começou a ser construído em 2013 e até agora não foi concluído: retrato da instabilidade e das disputas políticas que marcam o cenário político nacional. Crédito: Ascom Compesa</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p id="05e2">A Adutora do Agreste, obra de responsabilidade do governo federal, governo estadual e executada pela Compesa, surge nesse cenário de seca como uma possível solução de segurança hídrica. No entanto, o empreendimento, que teve início em 2013 e deveria ter ficado pronto em 2015, ainda não foi concluído. O investimento da obra foi de R$ 3,2 bilhões: ele compreende o eixo leste da transposição, que leva água do Rio São Francisco do município de Floresta (sertão de Pernambuco) até Monteiro (Paraíba). São 217 quilômetros de canal construídos pelo governo federal, que também ficou a cargo de viabilizar o ramal do agreste, um canal que vai levar a água do eixo leste da transposição até a barragem do Ipojuca, em Arcoverde, no Sertão do estado. Esse trecho, com 70 quilômetros, ficou pronto no ano passado. É dessa barragem que a Compesa deve pegar a água e, depois, tratá-la e distribuí-la para quase 70 cidades do agreste. Uma malha de tubulações deve percorrer 1.500 quilômetros. Há oito anos, a promessa era garantir água nas casas de dois milhões de moradores de municípios do Agreste e do Sertão. Até agora, somente sete cidades contam com o abastecimento desse novo equipamento.</p>



<p id="c72e">Questionada sobre o que deu errado na execução da obra e por que Toritama, que deveria ser uma das primeiras cidades atendidas pela adutora, ainda enfrenta tantos problemas com o abastecimento de água, a Compesa culpabiliza a falta de repasses federais. Em nota divulgada ano passado, a companhia afirmou que, durante todo ano de 2021, a gestão federal não repassou &#8220;nenhum único centavo ao Governo de Pernambuco para o andamento das adutoras”. Em abril de 2021, o governo federal vetou o repasse de R$ 161 milhões previstos para a obra. Curiosamente, em outubro do mesmo ano, Jair Bolsonaro<a href="https://br.noticias.yahoo.com/bolsonaro-inaugura-obra-hidrica-que-ainda-nao-pode-funcionar-em-pernambuco-121331585.html" rel="noreferrer noopener" target="_blank">esteve em Sertânia para inaugurar a obra, que ainda está sem funcionar</a>. Sem receber, diversas empresas contratadas para executar a obra abandonaram os trabalhos. A segunda etapa, que vai levar água para 45 municípios, ainda nem começou.</p>



<p id="42f4">Também por meio de nota, a Compesa diz que somente a partir de julho de 2023 a &#8220;capital do Jeans&#8221; receberá água da Transposição do Rio São Francisco por meio de outras obras hídricas que são as Adutoras do Agreste, Alto do Capibaribe e Serro Azul. De acordo com a companhia, o sistema de abastecimento de água de Toritama é composto por uma captação na barragem de Jucazinho, localizada em Surubim, em uma rede de distribuição que alcança 80% do município.</p>



<p id="a95f">Enquanto a solução não chega, diante das inúmeras reclamações feitas diariamente pela população, outros caminhos são percorridos. O vereador da Edmilson Dionísio (conhecido como Loló, PSD) fala que chegou a realizar uma comitiva chamada “Vereadores de Toritama” com o intuito de levar as questões da população à Compesa, que está ciente dos apertos enormes passados principalmente por quem já não tem mais como comprometer seus baixos salários com um recurso que, em tese, deveria ser universal. &#8220;Na Compesa, tudo o que conseguimos foram promessas&#8221;, diz Loló. Enquanto isso, as torneiras seguem fechadas.</p>



<p id="0301"><em>*Os nomes de alguns personagens foram modificados a pedido dos mesmos</em></p>



<p id="34fb"><strong>LEIA MAIS</strong></p>



<ul class="wp-block-list"><li><a href="https://marcozero.org/propostas-para-adiar-o-fim-de-um-mundo-agreste/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Proposta para adiar o fim de um mundo agreste</strong></a></li><li><a href="https://marcozero.org/nordeste-e-o-fim-do-mundo-toritama-entre-o-fim-do-mundo-e-a-chance-de-sobrevivencia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Página Inicial e Menu</strong></a></li></ul>



<p><strong><em>O projeto dessa reportagem foi contemplado no edital nacional do Instituto ClimaInfo com apoio financeiro do Instrumento de Parceria da União Europeia (com Ministério Federal Alemão para o Meio Ambiente, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear eda Iniciativa Climática Internacional). Os conteúdos dessa publicação são de inteira responsabilidade dos seus organizadores e não necessariamente refletem a visão dos financiadores.</em></strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em><strong>Uma questão importante!</strong></em> </p><p>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa <a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">página de doação</a> ou, se preferir, usar nosso <strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong>. </p><p><strong>Apoie o jornalismo independente!</strong></p></blockquote>
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		<title>Propostas para adiar o fim de um mundo agreste</title>
		<link>https://marcozero.org/propostas-para-adiar-o-fim-de-um-mundo-agreste/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Jul 2022 13:30:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[indústria têxtil]]></category>
		<category><![CDATA[jeans]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Especialistas e donos de lavanderias apontam ações estratégicas para uma otimização da gestão de água frente aos desafios das mudanças climáticas Por Observatório da Vida Agreste (OVA/UFPE) Liso como o ventrede uma cadela fecunda,o rio crescesem nunca explodir.Tem, o rio,um parto fluente e invertebradocomo o de uma cadela.(João Cabral de Melo Neto) Pois é, João: [&#8230;]</p>
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<p id="b2fc"><em>Especialistas e donos de lavanderias apontam ações estratégicas para uma otimização da gestão de água frente aos desafios das mudanças climáticas</em></p>



<p><strong>Por <a href="https://reportagensespeciais.medium.com/propostas-para-adiar-o-fim-de-um-mundo-agreste-a074922ceac" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Observatório da Vida Agreste (OVA/UFPE)</a></strong></p>



<p id="caca"><em>Liso como o ventre<br>de uma cadela fecunda,<br>o rio cresce<br>sem nunca explodir.<br>Tem, o rio,<br>um parto fluente e invertebrado<br>como o de uma cadela.</em><br>(João Cabral de Melo Neto)</p>



<p id="13be"><strong>Pois é, João: o rio não exatamente cresceu. Mas explodiu.</strong></p>



<p id="1010">Em Toritama, são mais de 3 mil empresas produtoras de jeans e 73 lavanderias (uma de grande porte produz uma média de 120 mil peças de jeans por mês). O número chama ainda mais atenção quando são revelados quantos litros de água são usados, em média, para lavar uma única peça: cerca de 70 litros no processo de tingir, lavar e finalizar o produto.</p>



<p id="181a">Com os efeitos da destruição ambiental mundial no clima nordestino, esta é uma configuração insustentável. De acordo com a pesquisadora Cláudia Ribeiro Pereira Nunes (presente no livro<em>Os impactos das mudanças climáticas no Nordeste brasileiro</em>, organizado por Alana Ramos Araújo, Germana Parente Neiva Belchior e Thaís Emília de Sousa Viegas), as regiões Norte e Nordeste do Brasil são as mais vulneráveis às mudanças atuais por serem extremos climáticos nos quais grandes precipitações e/ou longas estiagens são comuns. No artigo<em>As mudanças climáticas a partir da implantação de empresas de capital estrangeiro no Nordeste: estado regulador?</em>Cláudia analisa os aspectos econômicos desse cenário e afirma: todos os empreendimentos sofrerão direta ou indiretamente com o aquecimento global e suas consequências. As perdas econômicas são inevitáveis. “Particularmente, de modo direto, sem qualquer adaptação, as empresas terão dificuldades em manter os atuais níveis de produção e eficiência operacional e, de modo indireto, os consumidores serão mais exigentes, examinando minuciosamente suas práticas sustentáveis”, escreve.</p>



<p id="d2ce">A pesquisadora chefe de gestão ambiental da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Soraya El-Deir chama atenção para um fato importante: essas mudanças climáticas não se configuram em algo para o futuro — estão acontecendo agora. “Estamos vivenciando no nosso dia a dia o que era previsto para daqui a 20 anos”. É agora também que já se registra em algumas lavanderias a prática do reuso, vista como uma das mais interessantes no sentido não só de poupar água, mas de assegurar um descarte responsável no Capibaribe. A questão é que apenas as empresas maiores realizam esse processo no qual parte de resíduos sólidos (como cloro, detergente, sabão, corantes e amaciantes) é separado e posteriormente tratado.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Lavanderias de maior porte, como a Céu Azul, conseguem reutilizar mais de 80% da água. Mas essa não é uma realidade em diversas empresas que funcionam na ilegalidade (foto: Maryane Martins)</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Para o reuso nas lavanderias, a água utilizada passa primeiramente pelo sistema de gradeamento ou filtragem. Na segunda etapa, a água é transferida para o tanque de equalização onde ocorre a homogeneização dos efluentes. Na terceira, são retiradas as impurezas no tanque de decantação por meio de produtos químicos (cal, sulfato de alumínio). Após esse processo, o lodo têxtil, resíduo que fica no tanque após a decantação, é colocado em um leito de secagem. Esse processo dura em média 60 dias e, após esse período, o lodo é recolhido por caminhões e destinado a um aterro sanitário. A água tratada volta a ser utilizada na lavagem do jeans.</p>



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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Lodo têxtil proveniente de insumos químicos utilizados na lavagem do jeans (foto: Maria Júlia Vieira)</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><a rel="noreferrer noopener" target="_blank" href="https://reportagensespeciais.medium.com/esta-reportagem-%C3%A9-a-primeira-parte-do-projeto-o-nordeste-e-o-fim-do-mundo-que-ser%C3%A1-formado-por-8c590f8ba211"></a>É o caso da lavanderia Céu Azul, que reutiliza 80% da água consumida na lavagem das peças a partir de um sistema de tratamento dos insumos. Pedro Henrique, proprietário da empresa, diz que a parte não reutilizada na lavagem após o tratamento vai diretamente para o Rio Capibaribe. Essa mudança no sistema de tratamento de água da empresa ocorreu a partir de 2004, com a formalização do Termo de Ajuste de Conduta (TAC) firmado entre o Ministério Público de Pernambuco (MPPE), a prefeitura municipal e assinado pelas lavanderias. Com esse termo, 77 empresas se comprometeram a uma adequação tecnológica a fim de evitar a poluição e o descarte irregular de resíduos sólidos. Esse TAC foi substituído pela Lei Municipal 1643/2018, a chamada<a href="https://transparencia.toritama.pe.gov.br/uploads/5404/1/atos-oficiais/2018/cduma/1641905075_lein1643de2018leidaslavanderias.pdf" rel="noreferrer noopener" target="_blank">Lei das Lavanderias</a>(documento completo no link). De acordo com a Secretaria de vigilância sanitária, 63 lavanderias se comprometeram fazer o reuso da água seguindo o novo documento.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                </figure>

	


<p id="ed44">Outra lavanderia que aposta no reuso da água é a LGN. Fundada há 17 anos, a empresa conta com um sistema de reaproveitamento de até 85% do recurso utilizado. Segundo o proprietário, Luiz Neto, a água que não é reempregada no processo de lavagem do jeans é destinada para irrigação de plantas e limpeza. Com um consumo diário de 70 mil litros de água na empresa, Luiz Neto diz que foi preciso pensar em alternativas para suprir a escassez hídrica na região. A solução encontrada por ele e outros empresários do ramo de lavanderias foi a perfuração de poços artesianos, além do abastecimento por caminhões pipas vindos de localidades vizinhas. É preciso dizer que as duas alternativas são, primeiro, possíveis para quem tem maior recurso financeiro e, segundo, também podem ter impactos ambientais sérios.</p>



<p id="6c50">No texto<a href="http://eventos.ecogestaobrasil.net/congestas2014/trabalhos/pdf/congestas2014-et-13-015.pdf" rel="noreferrer noopener" target="_blank"><em>Um estudo sobre poços artesianos em Santa Cruz do Capibaribe</em></a>, o contexto da utilização da água subterrânea no agreste é analisado justamente pelo seu caráter de exclusão social, uma vez que se trata de um processo caro do qual a maioria da população acaba apartada. Já a pesquisa<a href="https://www.ibeas.org.br/congresso/Trabalhos2020/VIII-003.pdf" rel="noreferrer noopener" target="_blank"><em>Impactos ambientais causados por perfurações de poços clandestinos — estudo de caso</em></a>, analisa, no âmbito de Recife, como a perfuração (muitas vezes ilegal) causada pela falta de acesso a água tem um grande potencial destrutivo e está relacionado ainda com o desconhecimento de questões da legislação.</p>



<p id="9316">Uma das maiores lavanderias da cidade, a Mamute, fundada há 32 anos, pertence ao atual prefeito do município, Edilson Tavares (MDB). Segundo a pesquisa<a href="https://periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/gaia/article/view/29117/27390" rel="noreferrer noopener" target="_blank"><em>Índice de desempenho da gestão ambiental (IDGA) aplicado ao setor têxtil: um estudo em duas lavanderias industriais do Agreste Pernambucano</em></a>(2019), ali são utilizados 300 mil litros de água em cada um dos três turnos diários (6h-14h; 14h-22h; 22h-6h) da empresa. No entanto, o diretor da empresa, Luiz Carlos de Souza, informa que hoje gasta bem menos que a quantidade mostrada na pesquisa citada: seriam 50 mil litros de água por dia. Essa queda, segundo o próprio, aconteceu por conta da pandemia. A água usada pela empresa vem do Rio Capibaribe por meio de barragem privada e ainda de poços artesianos e da estrutura pública da Compesa. A estação de tratamento de efluentes consegue reaproveitar de 85% a 95% do recurso. O restante também vira resíduo sólido e é destinado ao aterro sanitário .</p>



<p id="38d6">A pesquisadora Soraya El-Deir diz que a indústria têxtil é uma cadeia complexa com diferentes potenciais de impacto a depender das tecnologias utilizadas. Apesar de todo o cenário preocupante apresentado por diversos estudos sobre emergência climática, ela aposta em um futuro menos sombrio. “O que eu percebo a médio e a longo prazo é que, cada vez mais, nós vamos ter tecidos inteligentes e que terão maior resistência. Por isso, usaremos menos recursos naturais. Então se apostarmos que as tecnologias sustentáveis vão avançar no polo têxtil do Agreste e em outros segmentos da sociedade, migraremos para uma sociedade sustentável. Eu tenho certeza que isso vai acontecer, como também tenho certeza do papel definidor das políticas públicas e das universidades trabalhando em prol da sociedade.”</p>



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	                                        <p class="m-0">Soraya El-Deir, da UFRPE, diz que tecidos inteligentes são uma das saídas para uma indústria menos poluente</p>
	                
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<p id="4462">Outra alternativa viável para as lavanderias é apontada por Hilário Siqueira, autor da dissertação<em>As lavanderias de jeans de Toritama : uma contribuição para a gestão das águas,</em>defendida no mestrado de Gestão Pública para o Desenvolvimento do Desenvolvimento do Nordeste (UFPE). O autor defende em sua pesquisa uma gestão ambiental de recursos hídricos nas lavanderias a partir da manutenção do aprovisionamento e adaptação de recursos, conservação do patrimônio natural, bem como uma renovação dinâmica de recursos naturais. Essas alternativas só serão possíveis se as empresas cumprirem os requisitos legais relacionados ao meio ambiente.</p>



<p id="58db">No Brasil, empresas como a Riachuelo se destacam por otimizar a gestão de água no processo de fabricação de jeans a partir de tecnologias como o ozônio, que permite a limpeza e o clareamento das peças sem o uso da água e químicos, chegando a reduzir o consumo na produção do jeans para 12 litros de água. Já em processos mais avançados, a fábrica consegue reduzir o consumo para apenas três litros por peça.</p>



<p id="3cc3">Nos níveis estadual e municipal, o Rio Capibaribe tem o monitoramento das suas águas realizado pela Companhia Pernambucana de Recursos Hídricos (CPRH) juntamente com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Com o objetivo de mitigar os impactos ambientais, os proprietários das lavanderias são orientados pela Secretaria de Meio Ambiente sobre quais procedimentos são necessários para a regularização dos empreendimentos junto à CPRH e assim obter o licenciamento ambiental. O órgão informa que exige: estrutura física ideal para funcionamento da lavanderia; gerenciamento e destinação de resíduos sólidos (lodo, cinza, e embalagens de produtos tóxicos); tratamento da água; manutenção dos tanques; controle da emissão de fumaça devido à queima da algaroba; renovação da licença ambiental. Sem essas normas, a lavanderia pode ser fechada.</p>



<p id="c383">O livro<em>Os impactos das mudanças climáticas no Nordeste brasileiro</em>está na íntegra<a href="https://fundacaosintaf.org.br/arquivos/files/Ebook%20impactos%20das%20mudancas%20climaticas%20no%20nordeste%20brasileiro.pdf" rel="noreferrer noopener" target="_blank">aqui.</a></p>



<p id="2c72"><strong>LEIA MAIS:</strong></p>



<ul class="wp-block-list"><li><a href="na luta por oxigênio e espaço" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Capibaribe: na luta por oxigênio e espaço</strong></a></li><li><strong><a href="https://marcozero.org/nordeste-e-o-fim-do-mundo-toritama-entre-o-fim-do-mundo-e-a-chance-de-sobrevivencia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Página Inicial e Menu</a></strong></li></ul>



<p><strong><em>O projeto dessa reportagem foi contemplado no edital nacional do Instituto ClimaInfo com apoio financeiro do Instrumento de Parceria da União Europeia (com Ministério Federal Alemão para o Meio Ambiente, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear eda Iniciativa Climática Internacional). Os conteúdos dessa publicação são de inteira responsabilidade dos seus organizadores e não necessariamente refletem a visão dos financiadores.</em></strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em><strong>Uma questão importante!</strong></em> </p><p>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa <a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">página de doação</a> ou, se preferir, usar nosso <strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong>. </p><p><strong>Apoie o jornalismo independente</strong>!</p></blockquote>
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		<title>Toritama: entre o fim do mundo e a chance de sobrevivência</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Jul 2022 01:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[indústria têxtil]]></category>
		<category><![CDATA[jeans]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[rio Capibaribe]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A cidade é passada pelo riocomo uma ruaé passada por um cachorro;uma frutapor uma espada. O rio ora lembravaa língua mansa de um cão,ora o ventre triste de um cão,ora o outro riode aquoso pano sujodos olhos de um cão (O cão sem plumas, João Cabral de Melo Neto) Esta reportagem é a primeira parte [&#8230;]</p>
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<p id="de45"><em>A cidade é passada pelo rio<br>como uma rua<br>é passada por um cachorro;<br>uma fruta<br>por uma espada.</em></p>



<p id="50f0"><em>O rio ora lembrava<br>a língua mansa de um cão,<br>ora o ventre triste de um cão,<br>ora o outro rio<br>de aquoso pano sujo<br>dos olhos de um cão</em></p>



<p id="8746"><em>(O cão sem plumas, João Cabral de Melo Neto)</em></p>



<p id="9451">Esta reportagem é a primeira parte do projeto<em><strong><a href="https://reportagensespeciais.medium.com/abertura-8bb1b2f56fc4" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O NORDESTE E O FIM DO MUNDO</a></strong></em>, que será formado por duas investigações longas, documentário, ensaio fotográfico, podcast e debates. Desenvolvido pelo <strong><a href="https://medium.com/@ovaufpe" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Observatório da Vida Agreste (OVA/UFPE)</a></strong>, o material foca em uma das cidades centrais da indústria têxtil nacional, Toritama, agreste de Pernambuco. O fabrico de jeans e outras confecções é o motor que sustenta a economia do município e das cidades vizinhas (em especial Caruaru e Santa Cruz do Capibaribe). Mas ele é também uma das razões do alto nível de destruição do Rio Capibaribe, que corta o município e serve para abrigar rejeitos de toda sorte. Essa questão se agrava justamente por Toritama ser uma das cidades pernambucanas mais impactadas pela falta de água — quer dizer, pela falta que atinge a maioria da população empobrecida, mas não as lavanderias que podem custear carros-pipa, perfurar poços e construir barragens.</p>



<p></p>



<iframe width="850" height="510" src="https://www.youtube.com/embed/jT44x1t_7YI" title="YouTube video player" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen=""></iframe>



<p></p>



<p id="4e85"><strong><em>Toritama: entre o fim do mundo e a chance de sobrevivência</em></strong>joga luz sobre a emergência climática no Nordeste, uma das regiões que será mais afetada pelas mudanças ambientais. O projeto foi contemplado no edital nacional do Instituto ClimaInfo com apoio financeiro do Instrumento de Parceria da União Europeia (com Ministério Federal Alemão para o Meio Ambiente, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear e Iniciativa Climática Internacional). Nesta reportagem, você vai conhecer as memórias de quem já teve o Rio Capibaribe como um local de lazer, diversão e sobrevivência; vai saber como a falta de água impacta o cotidiano de quem passa até dois meses sem ver o recurso chegar às torneiras; entender como as lavanderias estão fazendo para lidar com os efeitos da crise hídrica e quais soluções estão sendo praticadas para poupar a água. Vai saber um pouco mais sobre as razões pelas quais a Adutora do Agreste, que prometia solucionar a falta de água na região, praticamente ainda não saiu do papel apesar de ter sido iniciada em 2015. Finalmente, você ainda poderá ouvir as canções do cantador João do Cavaquinho sobre o Capibaribe e conferir o mini documentário realizado por nossa equipe.</p>



<p id="42df">O especial foi desenvolvido pelas repórteres Maria Souza, Maíra Welma Silva, Maryane Martins e Maria Júlia Vieira, as duas últimas responsáveis também pelo documentário que você assiste aqui. Também na equipe, Layane Lima (artes e redes sociais) e Márcio Correia (artes, redes sociais e site). A reportagem especial é também fruto de uma parceria entre o laboratório OVA e a Marco Zero Conteúdo. A equipe também contou com cursos de formação sobre mudanças climáticas oferecidos pelo ClimaInfo, com excelentes mentorias realizadas pelos jornalistas Maristela Crispim, Cristina Amorim e Marco Schaeffer. A reportagem tem coordenação e edição da jornalista e professora da UFPE Fabiana Moraes.</p>



<p id="5bce">***</p>



<p id="dea0">Nesta viagem ao agreste, seremos também acompanhadas por João Cabral de Melo Neto e seu poema<strong>O cão sem plumas</strong>, que fala sobre o Capibaribe, da sua nascente até seu desaguar no mar de Recife, e as pessoas às suas margens.</p>



<p id="74f9">***</p>



<p><strong>LEIA MAIS:</strong></p>



<p id="336d"><a href="https://marcozero.org/o-rio-era-a-vida-da-gente/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>1. “O rio era a vida da gente”</strong></a></p>



<p id="617a"><a href="https://marcozero.org/agua-um-bem-para-quem-pode-pagar/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>2. Água: um bem para quem pode pagar</strong></a></p>



<p id="f02e"><strong><a href="https://marcozero.org/propostas-para-adiar-o-fim-de-um-mundo-agreste/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">3. Propostas para adiar o fim de um mundo agreste</a></strong></p>



<p id="c1c9"><strong><a href="https://marcozero.org/capibaribe-na-luta-por-oxigenio-e-espaco/">4. Capibaribe: na luta por oxigênio e espaço</a></strong></p>



<p id="54f9"><em>Os conteúdos desta publicação são de inteira responsabilidade dos seus organizadores e não necessariamente refletem a visão dos financiadores</em>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em><strong>Uma questão importante!</strong></em> </p><p> Colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa<a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">página de doação</a>ou, se preferir, usar nosso<strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong>.</p><p><strong>Apoie o jornalismo independente!</strong></p></blockquote>



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