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	<title>Arquivos literatura - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Fri, 12 Sep 2025 16:48:48 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos literatura - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>&#8220;O pobre e o negro precisam saber quem são seus inimigos&#8221;, afirma Jessé Souza na Flup</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Sep 2025 16:48:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[periferias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Até este domingo (15) o vão de entrada do Compaz do Alto Santa Terezinha recebe a Festa Literária das Periferias de Pernambuco, a Flup-PE. A noite de abertura, na quarta-feira (10), contou com uma instigante conversa entre o sociólogo Jessé Souza e a escritora Bianca Santana sobre a juventude negra e seus desafios, com mediação [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Até este domingo (15) o vão de entrada do Compaz do Alto Santa Terezinha recebe a Festa Literária das Periferias de Pernambuco, a Flup-PE. A noite de abertura, na quarta-feira (10), contou com uma instigante conversa entre o sociólogo Jessé Souza e a escritora Bianca Santana sobre a juventude negra e seus desafios, com mediação da educadora Jéssica Santos. Para uma plateia cheia, Jessé e Bianca falaram sobre como a esquerda precisa se comunicar com esse numeroso e importante público – e que, em tempos de capitalismo selvagem, sonhar e imaginar outros mundos é imprescindível.</p>



<p>Em uma de suas falas, Jessé argumentou que a esquerda brasileira falhou em transmitir suas ideias de forma eficaz, focando apenas em políticas econômicas sem conseguir conectar-se verdadeiramente com as massas. O sociólogo citou uma pesquisa que coordenou em 2010 com pessoas das periferias que haviam ascendido social e economicamente pelos programas dos governos de esquerda. Ao serem questionadas a quem atribuíam sua melhoria de vida, a maioria atribui a convicções religiosas, sem reconhecer as ações governamentais.</p>



<p>Para mudar essa realidade, Jessé Souza aponta que o caminho é a informação. “O pobre e o negro precisam saber quem são seus inimigos&#8221;, afirmou. &#8220;Você tem que reconstruir uma interpretação que faça com que o jovem negro saiba quem é o inimigo dele. O inimigo dele tem nome, está na Faria Lima. É esse pessoal que vai comprar o Congresso, que tem a imprensa, que vai dominar o Banco Central, que vai montar o sistema de juros”, continuou.</p>



<p>O sociólogo, que é um dos idealizadores do <a href="https://iclnoticias.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Instituto Conhecimento Liberta (ICL)</a>, acredita que é necessário um esforço conjunto para reconstruir a interpretação do mundo dos brasileiros, de forma crítica e bem informada. “Não temos um DNA que vai definir como é que vai ser o nosso comportamento. Nós somos seres humanos. Isso significa que as ideias são o que é mais importante no mundo. Se você muda a interpretação que você tem de você e do mundo na sua cabeça, você já mudou. Uma população que é oprimida, reduzida à miséria, precisa ser esclarecida. E a maior parte das pessoas que estão com a mão na massa da política sequer percebem isso como uma necessidade”, criticou.</p>



<p>“Sem tocar na questão da hegemonia das ideias, não vamos conseguir mudar o Brasil. Há muita gente que acha que isso é uma questão acadêmica. Não, isso é um assunto prático. Se você não tem informação plural para formar sua própria opinião, você vai ser manipulado, você vai ser feito de imbecil”, pontuou. “Temos no país, já há algum tempo, coisas boas que são feitas pela imprensa alternativa. Mas não chega na periferia, não chega no interior. É consumido pela classe média, basicamente. Eu acho que faltam políticas públicas para informar a população”, disse.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Imaginar novos mundos</h2>



<p>Para Bianca Santana, a disputa de narrativa, de que o Jessé Souza fala, passa também pela produção de literatura, arte, cultura e mídia. “Passa por a gente disputar no imaginário coletivo qual é a verdade, qual é a nossa história e o que a gente deseja”, disse.</p>



<p>Bianca falou sobre a importânica de pessoas pretas produzirem literatura e descreveu o conceito da escrevivência, proposto pela escritora Conceição Evaristo. “A escrevivência surge como um ato de apropriação da pena, em que as mulheres negras passam a contar suas próprias histórias e as histórias do Brasil a partir de suas próprias experiências vividas e dos seus corpos, escrevendo em primeira pessoa, falando de si mesmas, desafiando as narrativas dominantes”, detalhou.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/09/WhatsApp-Image-2025-09-11-at-22.33.28-300x200.jpeg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/09/WhatsApp-Image-2025-09-11-at-22.33.28-1024x683.jpeg" alt="A foto mostra um momento de debate em um palco. Em primeiro plano, à esquerda, está Bianca Santana, uma mulher negra de pele parda e cabelo crespo curto, usando um vestido ou túnica branca. Ela segura um microfone próximo à boca e fala para o público, com expressão séria e concentrada. Ao lado dela, um pouco mais ao fundo, há outra pessoa, também vestida de branco, sentada em uma poltrona e observando atentamente. O fundo do palco é vermelho, com a sigla “Flup” e a frase “A Festa Literária das Periferias” em destaque, além de um painel amarelo com outros elementos gráficos." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">A escritora Bianca Santana falou sobre a importância de ler para imaginar novos caminhos
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Juliana Amara/FlupPE/Divulgação</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A escritora afirmou que hoje as pessoas negras produzem literatura de todo tipo, para todo gosto. “E, ainda assim, a gente precisa demais. Porque quando eu leio essa literatura – que pode ser sobre um lugar perto da gente, ou sobre o futuro, ou uma redenção do passado, até de um lugar muito diferente do meu – isso me abre possibilidades novas de existência. Eu posso imaginar, por exemplo, para mim, para a minha família, para o meu coletivo, o que eu não tinha imaginado ainda. Eu posso inventar possibilidades  que eu não teria condições de inventar se eu não tivesse lido”, afirmou.</p>



<p>Além das mesas com discussões, a Flup-PE conta com uma feira de livros e barraquinhas com comidas vegetarianas. Um dos destaques do festival é a presença do premiado escritor Itamar Vieira Júnior, nesta sexta-feira, às 19h. O Compaz do Alto Santa Terezinha fica na avenida Aníbal Benévolo, s/nº. Não é necessário reservar ingresso, é só chegar por lá.</p>



<p>Confira a programação completa da festa, que nesta primeira edição em Pernambuco homenageia o poeta Solano Trindade:</p>



<p></p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>SEXTA-FEIRA (12 de setembro)</strong><br />
<strong><br />
15h</strong> &#8211; Lançamento de autores independentes: Samuel Santos (Maria Preta), Luciene Nascimento (Tudo nela é de se amar) e Marcondes FH (Rosa Menininho)</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>17h</strong> &#8211; Mesa 1: A força e a resistência do sagrado em Pernambuco</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>● Palestrantes: Pai Ivo, Mãe Beth de Oxum</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>● Mediação: Pai Lívio</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>18h30</strong> &#8211; Mesa 2 : A arte como vetor, movimento e inspiração</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>● Palestrantes: Salgado Maranhão, Isaar</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>● Mediação: Luciana Queiroz</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>20h</strong> &#8211; Mesa 3: A quem a arte incomoda? E a quem deve servir?</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>● Palestrantes: Itamar Vieira Jr, Vitor da Trindade</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>● Mediação: Lenne Ferreira</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>21h30</strong> &#8211; Lançamento de Livros de Itamar Vieira e Vitor da Trindade</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>SÁBADO (13 de setembro)</strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>14h</strong> &#8211; Lançamento de Livros de autores independentes: Eron Villar (editor de O Carnaval de Capiba), Vera Lúcia e Wedna Galindo (Espanador não limpa poeira) e Fátima Soares (Ossos)</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>15h</strong> &#8211; Mesa 1: Sonhos vivos: o poder da cultura na construção social</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>● Palestrantes: Jeff Alan, Andala Quituche</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>● Mediação: Thayane Fernandes</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>16h30</strong> &#8211; Mesa 2: O futuro é agora e feminino. E a literatura também</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>● Palestrantes: Marilene Felinto, Lorena Ribeiro</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>● Mediação: Bell Puã</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>18h30</strong> &#8211; Mesa 3: Pioneiras, sim! Sozinhas, não!</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>● Palestrantes: Sônia Guimarães, Robeyoncé Lima</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>● Mediação: Renata Araújo</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>18h</strong> &#8211; Lançamento de livros com Thayane Fernandes, Lorena Ribeiro, Marilene Felinto</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>20h30</strong> &#8211; “Se eu fosse Malcolm” &#8211; apresentação teatral de Eron Villar e DJ Vibrasil</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>DOMINGO (14 de setembro)</strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>14h</strong> &#8211; Lançamento de livros de autores independentes: João Gomes (Revezamento Secreto), Célia Martins (Ara-Y), Maria Cristina Tavares (As aventuras de Bayo em Terras Africanas) e Robson Teles (Ave, Guriatã)</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>15h</strong> &#8211; Mesa 1: Acessos e permanências: nosso lugar é todo lugar</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>● Palestrantes: Luciany Aparecida, Amanda Lyra</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>● Mediação: Érico Andrade</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>16h30</strong> &#8211; Lançamento de livros</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>● Érico Andrade e Luciany Aparecida</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>17h</strong> &#8211; Mesa 2: Entre sons e sensações: palavra é música e música é poesia</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>● Palestrantes: Ellen Oléria, Lucas dos Prazeres</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>● Mediação: Marta Souza</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>19h</strong> &#8211; Encerramento com apresentação artística de Lucas dos Prazeres e participação da cantora Ellen Oléria</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>
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			</item>
		<item>
		<title>Livro discute o futuro da população negra no Brasil com foco nas políticas públicas</title>
		<link>https://marcozero.org/livro-discute-o-futuro-da-populacao-negra-no-brasil-com-foco-nas-politicas-publicas/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Nov 2024 19:27:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Políticas Públicas]]></category>
		<category><![CDATA[população negra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O mestre em Políticas Públicas em Direitos Humanos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Vitor Matos lança o livro “Existíamos, Existimos e Existiremos: Passado, Presente e Futuro do Negro Brasileiro Sob a Ótica das Políticas Públicas”. A obra, publicada pela editora Appris, traz uma análise sobre as desigualdades raciais no Brasil e os [&#8230;]</p>
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<p>O mestre em Políticas Públicas em Direitos Humanos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Vitor Matos lança o livro “Existíamos, Existimos e Existiremos: Passado, Presente e Futuro do Negro Brasileiro Sob a Ótica das Políticas Públicas”. A obra, publicada pela editora Appris, traz uma análise sobre as desigualdades raciais no Brasil e os desafios enfrentados pela população negra, que representa 55,5% do país, segundo o Censo de 2022. O lançamento acontece em Salvador e também em São Paulo no dia 15 de novembro.</p>



<p>O livro conduz o leitor a imaginar uma sociedade livre da herança colonial e instiga reflexões sobre o futuro da população negra a partir de perspectivas históricas e contemporâneas.  Na obra, o autor explora conquistas importantes, como as cotas raciais no ensino superior e em concursos públicos, ressaltando o impacto positivo dessas políticas na formação de lideranças e no combate ao racismo estrutural.</p>



<p>“A formação em universidades de excelência traduz-se em transformações de olhares da sociedade a respeito de negros e negras. O ‘lugar de negro’ finalmente começa a ser qualquer lugar, o que atinge a raiz do preconceito racial no Brasil, que é a marca”, destaca Vitor Matos.</p>



<p>Apesar de avanços significativos, Matos alerta para os desafios persistentes. Altas taxas de mortalidade infantil, violência obstétrica, evasão escolar, disparidades salariais e a intolerância religiosa contra crenças de matriz africana são algumas das questões analisadas. “É uma realidade que se impõe e atua como uma camada extra de obstáculos, o que representa um cenário de total desmotivação pelo futuro”, afirma. Vitor Matos também aponta como a violência policial e a exclusão social dificultam ainda mais o caminho para a igualdade de direitos.</p>



<p>A obra aborda ainda o impacto das redes sociais na construção da subjetividade de jovens negros. Para o autor, esses ambientes virtuais podem ser perigosos, tanto pelo medo do cancelamento quanto pela crueldade de reações e julgamentos. </p>



<p>Com prefácio da jornalista e pesquisadora Mônica Sanches, o livro é um convite à reflexão sobre o presente e o futuro das políticas públicas voltadas à população negra. Além disso, evidencia como a educação, o consumo e a mídia desempenham papéis centrais na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. </p>
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		<item>
		<title>Na Bahia, bibliotecas comunitárias estimulam educação antirracista na primeira infância</title>
		<link>https://marcozero.org/no-sul-da-bahia-bibliotecas-comunitarias-estimulam-educacao-antirracista-na-primeira-infancia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Aug 2024 13:24:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Bahia]]></category>
		<category><![CDATA[educação antirracista]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Karina Costa, do site Conquista Repórter (BA) Era uma vez três mulheres que descobriram nos livros a possibilidade de transformar a vida de dezenas de crianças e suas famílias. Em Vitória da Conquista, município localizado na região sudoeste da Bahia, elas decidiram criar espaços onde meninos e meninas pudessem brincar, imaginar e, principalmente, ler [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Karina Costa, do <a href="https://conquistareporter.com.br/bibliotecas-comunitarias-estimulam-educacao-antirracista-na-primeira-infancia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">site Conquista Repórter (BA)</a></strong></p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:27% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="339" height="124" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/08/conquista.jpeg" alt="" class="wp-image-65199 size-full"/></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Era uma vez três mulheres que descobriram nos livros a possibilidade de transformar a vida de dezenas de crianças e suas famílias. Em Vitória da Conquista, município localizado na região sudoeste da Bahia, elas decidiram criar espaços onde meninos e meninas pudessem brincar, imaginar e, principalmente, ler e ouvir histórias nas quais se sentissem representados através de protagonistas negros e negras. </p>
</div></div>



<p>Esses lugares, chamados de bibliotecas comunitárias, estão em pontos geográficos onde o acesso a equipamentos culturais, muitas vezes, não é garantido.</p>



<p>Carolina Maria de Jesus, Nelson Mandela, Dandara e Zumbi dos Palmares são algumas das figuras negras históricas que os pequenos passam a conhecer através dos livros disponíveis nessas bibliotecas. Presentes em áreas rurais e periféricas de Conquista, elas buscam proporcionar a crianças na primeira infância uma educação antirracista a partir do acesso à leitura.</p>



<p>De acordo com o Censo 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IGBE), dos mais de 370 mil habitantes da cidade,<a href="https://primeirainfanciaprimeiro.fmcsv.org.br/municipios/vitoria-da-conquista-ba/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">9,12% têm de 0 a 6 anos,</a>faixa etária que compreende uma fase crucial para o desenvolvimento infantil. Isso representa mais de 30 mil crianças, sendo que 66,01% são negras. Além disso, o município do interior baiano abriga a<a href="https://blogdosena.com.br/vitoria-da-conquista-e-a-10a-cidade-com-maior-populacao-quilombola-do-pais/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">10ª maior população quilombola do país em números absolutos</a>.</p>



<p>E é exatamente em um território quilombola,<a href="https://conquistareporter.com.br/beco-de-vo-dola-e-reconhecido-como-primeiro-quilombo-urbano-de-vitoria-da-conquista/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">certificado em janeiro de 2024 pela Fundação Palmares,</a>que está situada a Biblioteca Comunitária Kilombeco, no bairro Pedrinhas. O nome faz referência à palavra “quilombo” e à travessa estreita onde fica a instituição: o “Beco de Vó Dôla”, batizado assim em homenagem a Maria Petronilha, uma das primeiras mulheres negras a ocupar a localidade. Sua neta, Laiz Gonçalves Souza, é uma das pessoas que leva adiante seu legado e coordena a biblioteca da comunidade, criada há quatro anos.</p>



<p>Em uma pequena<strong> </strong>casa revestida de azulejo na fachada, a Kilombeco atende cerca de 30 crianças a partir dos dois anos de idade. O projeto começou em 2020, durante a pandemia da covid-19, quando Laiz precisou ajudar sua filha e suas sobrinhas com as aulas remotas. Mas logo ela percebeu que outras famílias também necessitavam do apoio. Dessa forma, uma atividade pontual se tornou uma iniciativa permanente que muda a vida de muitas pessoas, principalmente de meninos e meninas negras do Quilombo de Vó Dôla.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/08/conquista-1.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/08/conquista-1.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/08/conquista-1.jpg" alt="A imagem mostra a fachada de uma pequena casa com uma placa que diz “KILOMBECO BIBLIOTECA COMUNITÁRIA KILOMBO DE VÓ DÔLA”. A casa tem uma fachada de azulejos com padrões geométricos verdes e brancos. À esquerda, há uma janela com grades e, à direita, uma porta aberta que leva para o interior. Junto da grade da porta aberta há uma mulher jovem, negra, de óculos, cabelos compridos por cima dos ombros vestindo roupas casuais (camiseta branca e calça jeans). Ela está de pé encostada à parede de azulejos." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Laiz Gonçalves, neta de Vó Dôla, em frente à casa onde funciona a biblioteca comunitária Kilombeco
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Afonso Ribas/Conquista Repórter</span>
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<h2 class="wp-block-heading">Impacto na autoestima</h2>



<p>Isadora Oliveira, de 7 anos, é uma menina que tem orgulho do seu <em>black power</em>. Ela mora em uma casa situada a poucos metros da Kilombeco. Desde os três anos de idade, frequenta o espaço coordenado por Laiz. Quem a acompanha de perto, como a mãe Luciana Silva, e a voluntária da biblioteca, Maiane Moreira, consegue perceber o quanto a garotinha se desenvolveu ao longo do tempo, inclusive quando o assunto é autoestima.</p>



<p>“Um dia eu falei pra ela brincando: ô Isa, quando você crescer e aguentar secador, vou alisar seu cabelo. Na hora ela respondeu: meu cabelo mesmo não, ele é lindo, é black”, relembra a mãe sorrindo.</p>



<p>Numa folha de papel branca, com giz de cera preto, Isadora desenhou o seu cabelo afro e me pediu que fizesse os cacheados das amiguinhas. “Naiumi, Kiara, eu, Raíssa, Luiza e Lívia”, disse apontando para as figuras. Ela me mostrava quem eram as meninas no seu desenho.</p>



<p>Naquela ocasião, Isa contou que gosta do seu cabelo de qualquer jeito e explicou que é principalmente sua tia quem lhe arruma com diferentes penteados. Disse também que gosta de ir para a escola, mas que lá não costuma ouvir histórias de meninas parecidas com ela.</p>



<p>Na Biblioteca Comunitária Kilombeco, Laiz e as voluntárias do projeto buscam apresentar para as crianças obras literárias que celebram a cultura afro-brasileira e o protagonismo negro, a exemplo do livro “Meninas Negras”, da<a href="https://mazzaedicoes.com.br/dt_team/madu-costa/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">autora mineira Madu Costa,</a>que de maneira lúdica busca reforçar a autoestima da criança a partir da valorização de seus antepassados.</p>



<p>A rejeição da própria imagem e a dificuldade de confiar em si mesmo são alguns dos possíveis efeitos do racismo no desenvolvimento infantil, de acordo com estudo do <a href="https://ncpi.org.br/publicacoes/wp7-racismo/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI)</a>. Por isso, a introdução de referências artístico-literárias que valorizam a identidade e a cultura negra representa um primeiro passo para auxiliar crianças como Isadora na construção da autoconfiança e do senso de pertencimento.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/08/conquista-2.jpg" alt="A imagem é um desenho infantil que mostra seis figuras que representam pessoas negras, desenhadas com giz de cera ou lápis de cor. As figuras estão lado a lado e variam em cores, sugerindo diversidade. Cada figura tem diferentes estilos de cabelo e cores de roupas, como verde, amarelo, roxo, rosa, laranja e marrom. Acima das figuras, há estrelas desenhadas em tons de vermelho e rosa. O fundo é uma folha de papel branca colocada sobre uma superfície de madeira." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Desenho feito por Isadora, de sete anos. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Karina Costa/Conquista Repórter</span>
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<p>Para Laiz Gonçalves, uma mulher negra e candomblecista, nascida no Quilombo de Vó Dôla, é um orgulho ver que as novas gerações de sua comunidade não têm medo ou vergonha de afirmar de onde vêm. “Antigamente a gente não falava que era do Candomblé, do Beco ou das Pedrinhas, porque tínhamos medo do preconceito, do racismo. E hoje as crianças falam que são do quilombo onde tem um terreiro”, conta a coordenadora.</p>



<p>O Terreiro de Xangô, inclusive, foi o primeiro espaço físico a abrigar as crianças da Kilombeco. Só foi possível alugar um local específico para as atividades da biblioteca após o projeto ser oficialmente<a href="http://culturaviva.gov.br/agente/253753/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">reconhecido como Ponto de Cultura.</a>A certificação foi concedida pelo Ministério da Cultura, por meio da Secretaria de Cidadania e Diversidade, através da Lei Cultura Viva<a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l13018.htm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">(13.018/2014)</a>. O reconhecimento possibilitou que a entidade recebesse apoio financeiro para a manutenção e o desenvolvimento das ações socioculturais.</p>



<p>Não há como negar a extrema importância do investimento de órgãos públicos em iniciativas como a Kilombeco. Mas o alicerce que mantém o projeto vivo é a união e o empenho das mulheres negras do Beco de Vó Dôla. Lideradas por Laiz, elas trabalham juntas para garantir que seus filhos, sobrinhos e netos tenham acesso à educação e, principalmente, consigam viver suas vidas orgulhosos de suas raízes.</p>



<p>Durante a manhã, as crianças de zero a 6 anos frequentam a Creche Municipal Tia Zaza. Já no turno vespertino, elas vão até a biblioteca, onde têm acesso à leitura e outras atividades lúdicas, como desenho e pintura. “A gente sempre escuta das professoras que os alunos daqui estão um pouco mais avançados. É uma benção para a comunidade ter um lugar assim”, explica Maiane Moreira, uma das voluntárias do projeto.</p>



<p>Enquanto creches e escolas ainda são espaços onde o racismo é reproduzido, iniciativas como a Kilombeco surgem para acolher crianças negras em suas particularidades e ensinar sobre o respeito à diversidade étnico-racial. “A gente tinha um problema na creche. Antes de comer o lanche, os meninos tinham que fazer uma oração. Até que nós conversamos com a diretora e explicamos que o culto deles é outro. Agora eles mesmos já sabem que podem dizer não”, conta Laiz Gonçalves Souza.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Lugares de resistência</h3>



<p>A cerca de 10km do Beco de Vó Dôla, está um outro espaço construído por uma mulher negra que é referência para a sua comunidade. Mickelle Xavier é pedagoga e conselheira tutelar. Foi a partir de uma experiência como estudante na Universidade Federal da Bahia (UFBA) que nasceu a Biblioteca Comunitária Miro Cairo. Entre 2018 e 2019, ela atuou como estagiária em um espaço de educação não formal: a Associação Conquistense para Atendimento Especializado à Pessoa Autista (Acaepa).</p>



<p>Quando Mickelle viu Vitória Aparecida, mãe de uma criança autista, iniciar por conta própria um projeto social que pudesse atender outras mães atípicas, ela compreendeu que também precisava fazer algo pela sua comunidade. “Todos nós temos responsabilidade quando o assunto é a educação e a oferta de dignidade para uma criança. Então comecei a pensar sobre isso e não me vi fazendo nada para ajudar essa causa”, conta.</p>



<p>Decidida a contribuir com o futuro das crianças do seu bairro, o Miro Cairo, ela inscreveu a biblioteca como um projeto de extensão da UFBA. No início, conseguiu 300 livros doados por uma empresa do ramo dos recicláveis. Com esse acervo, iniciou atividades como reforço escolar e clubes de leitura em uma área comum de um condomínio residencial, construído através do<a href="https://www.gov.br/cidades/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/habitacao/programa-minha-casa-minha-vida/sobre-o-minha-casa-minha-vida-1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">programa do Governo Federal “Minha Casa, Minha Vida”</a>.</p>



<p>Porém, o local não era adequado para receber os alunos. Não tinha banheiro, nem água ou energia elétrica. Mickelle então decidiu transferir as atividades para a garagem de sua casa. Cinco anos depois, em 2024, o projeto saiu da residência da pedagoga e agora é realizado em um espaço próprio: uma casa alugada graças ao recurso que a iniciativa recebeu do Ministério da Cultura, através da Lei Cultura Viva<a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l13018.htm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">(13.018/2014)</a>.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/08/conquista-3.jpg" alt="A imagem mostra três meninas sentadas no chão, dentro de um ambiente fechado, envolvidas em uma atividade artística. A criança à esquerda está desenhando em uma folha de papel branco com um lápis, e há um copo de plástico transparente cheio de lápis de cor ao lado dela. A criança no meio está segurando um lápis de cor perto do rosto, e há outro copo de plástico transparente cheio de lápis de cor à sua frente. A criança à direita está observando, com as mãos no colo." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Crianças atendidas pela biblioteca comunitária Miro Cairo durante uma manhã de contação de histórias e desenhos
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Afonso Ribas/Conquista Repórter</span>
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<p>Assim como tantas outras bibliotecas comunitárias no Brasil, a Miro Cairo partiu da mobilização de uma pessoa da sociedade civil. A pesquisa <a href="https://rnbc.org.br/publicacao/o-brasil-que-le-bibliotecas-comunitarias-e-resistencia-cultural-na-formacao-de-leitores/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">“O Brasil que Lê”,</a> publicada em 2018, aponta que esses espaços “refletem movimentos de resistência à exclusão e de luta por direitos e cultura”. É exatamente esse o fio condutor do trabalho realizado por Mickelle.</p>



<p>O bairro Miro Cairo, composto principalmente por conjuntos habitacionais do Minha Casa, Minha Vida, está localizado às margens do anel do contorno rodoviário, em Vitória da Conquista. É uma comunidade situada a quilômetros de distância de equipamentos públicos como museus e centros culturais. Diante de tantas ausências, a biblioteca surge como uma forma de aproximar as famílias, e principalmente os meninos e as meninas, do universo da leitura.</p>



<p>Cerca de 80 crianças são atendidas pelo projeto. A maioria delas são filhos de catadores de recicláveis ou de trabalhadores das indústrias. Para a primeira infância, a biblioteca oferece o Clube de Leitura Mirim, onde os pequenos ouvem histórias e, aqueles que já sabem ler, podem fazer leituras para os coleguinhas.</p>



<figure class="wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Leitura de &quot;O menino Nito&quot;, por Safira, na Biblioteca Comunitária Miro Cairo" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/bQzSW64OJTU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h3 class="wp-block-heading">Protagonismo negro</h3>



<p>O acervo da Biblioteca Comunitária Miro Cairo já ultrapassou a marca de 5.000 títulos. Grande parte das obras é fruto de doações. Mas além disso, Mickelle compra um ou outro livro sempre que o seu orçamento permite. Quando nossa equipe de reportagem visitou o local, numa manhã de sábado, encontramos em exposição diversas produções que trazem nas capas meninos e meninas negras ou abordam temáticas que tratam da diversidade étnico-racial.</p>



<p>“Minha mãe é negra sim!”, de Patrícia Santana; “Que cor é a minha cor?”, de Martha Rodrigues; “E foi assim que eu e a escuridão ficamos amigas”, de Emicida; “O pequeno príncipe preto”, de Rodrigo França. Essas são algumas das literaturas que descobrimos fazer parte do acervo da biblioteca. No novo espaço, crianças corriam, desenhavam e brincavam enquanto aguardavam o momento da contação de histórias.</p>



<p>Uma dessas crianças era Miguel, de 5 anos. Ele estava acompanhado de sua avó, Fátima Vieira. Naquela manhã, o pequeno não estava contagiando a todos com sua alegria costumeira. Há algumas semanas um episódio de violência havia abalado o seu emocional. Dentro do transporte escolar, foi agredido por garotos mais velhos por causa da religião da qual ele e sua mãe são adeptos: o<strong></strong>Candomblé Angola.</p>



<p>O racismo religioso é uma problemática que a Biblioteca Comunitária Miro Cairo busca combater através da educação e da leitura. Ao apresentar para os leitores mirins histórias que retratam os orixás e outros elementos das religiões de matrizes africanas, Mickelle acredita que é possível realizar uma transformação, mesmo que a passos pequenos.</p>



<p>Quem também confia no potencial transformador do projeto é Jolucia Santos. Ela é voluntária na biblioteca e mãe de Safira, uma menina que começou a frequentar o espaço com três anos. “É uma ação muito importante. Na periferia, a maioria das crianças são negras e elas precisam se ver nos livros. A minha filha quando vê uma menina com as trancinhas iguais às dela na capa já quer logo ler aquela história”, relata.</p>



<p>De acordo com Lucimar Rosa Dias, pedagoga, mestra em Educação e membro do Comitê Científico do Núcleo Ciência pela Infância (NCPI), as bibliotecas comunitárias podem atuar como aliadas na promoção de uma educação antirracista para crianças, mas existem fatores que precisam ser levados em consideração, a exemplo da seleção dos livros.</p>



<p>Segundo a pesquisadora, é necessário que seja feita uma curadoria especializada para que não sejam distribuídas obras literárias que se dizem antirracistas, mas na verdade reforçam estereótipos. Além disso, ela aponta que é essencial prestar atenção em quem escreve os livros. “É preciso saber quantos títulos foram de fato produzidos por autores e autoras negras comprometidos com a perspectiva antirracista”, destaca Lucimar.</p>



<p>Desde a sua concepção, a Biblioteca Miro Cairo busca apresentar para as crianças obras que colocam a população negra como protagonista. Mas ainda assim, Mickelle procura formas de ampliar essa atuação com foco no combate ao racismo. “A partir de agora vamos adquirir livros de escritoras negras daqui da cidade e da região. Estamos articulando também a compra de 50 títulos para um clube de leitura preta”, explica.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/08/conquista-4.jpg" alt="A imagem mostra uma prateleira com vários itens em exposição. À esquerda, há duas bonecas com pele escura e cabelo cacheado; uma está usando óculos e uma camisa verde, enquanto a outra está com um vestido laranja. No centro e à direita da prateleira, há cinco livros em pé com capas coloridas. As capas dos livros apresentam ilustrações e designs artísticos, mas os detalhes específicos como títulos ou autores não são visíveis. Abaixo desses itens, há uma fileira de livros coloridos dispostos horizontalmente, sugerindo que esta pode ser uma estante em uma biblioteca ou livraria voltada para literatura infantil ou representação cultural. Ao fundo, há parte de um quadro acolchoado azul, indicando que este pode ser um ambiente educacional." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">O acervo da Biblioteca Comunitária Miro Cairo já ultrapassou a marca de 5.000 títulos.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Afonso Ribas/Conquista Repórter</span>
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<h3 class="wp-block-heading">Primeiros passos</h3>



<p>Enquanto Mickelle Xavier caminha para ampliar o acervo de obras escritas por autores e autoras negras, a professora Juliana Brito dá os primeiros passos para fazer da Biblioteca Comunitária Donaraça uma aliada na luta contra o racismo. Situado na zona rural de Vitória da Conquista, no distrito Cabeceira do Jiboia, o projeto começou a tomar forma em 2014.</p>



<p>Foi naquele ano que Juliana e seu esposo, Josué, adquiriram um sítio no povoado. Mais tarde, em 2018, quando ambos já tinham criado laços com moradores da comunidade, a professora começou a dar aulas de reforço para crianças e adolescentes. O casal também passou a emprestar livros do seu acervo pessoal para vizinhos e pessoas próximas.</p>



<p>Dois anos depois, em 2020, o que antes não tinha nome se tornou oficialmente uma biblioteca comunitária. Uma das principais ações do projeto é a Capanga Literária, que funciona como uma espécie de delivery de literatura. Dentro de uma bolsa, Juliana coloca livros que ela mesma seleciona. Posteriormente, o material é entregue nas casas dos leitores e leitoras que tomam os títulos emprestados por algumas semanas.</p>



<p>Além dos empréstimos de obras literárias, a Donaraça oferece o seu espaço para que mulheres da comunidade possam estudar para concursos públicos, processos seletivos e realizar outros tipos de formação, como aprender artesanato, por exemplo. Joelma Oliveira, de 38 anos, foi uma das pessoas que começou a frequentar o local para receber esse tipo de auxílio e, durante essas visitas, costumava levar junto o seu filho mais novo.</p>



<p>Com pouco mais de três anos de idade,<strong></strong>Rafael, que não estava matriculado em uma creche, passou a visitar a biblioteca e, assim, tomar gosto pela literatura mesmo antes de aprender a ler. “Eu via o meu filho criar as histórias a partir das imagens dos livros. Então, eu percebo que a Donaraça ainda tem muito a oferecer para a nossa comunidade”, relata Joelma, que hoje atua como voluntária no projeto criado por Juliana e Josué.</p>



<p>A moradora do Cabeceira do Jiboia conta que o acesso aos livros por meio da biblioteca comunitária foi essencial para o desenvolvimento do seu filho. Com 5 anos de idade, o menino começou a frequentar a escola e, quando chegou lá, surpreendeu os educadores porque já conseguia ler. “A professora me chamou e disse que ia ter que dar uma avançada nele. A gente fica até emocionada e orgulhosa com tudo isso”, destaca.</p>



<p>Histórias como as de Rafael e Joelma fazem Juliana e Josué, dois apaixonados pela literatura e pelos livros, acreditar na importância da Donaraça para aquela comunidade. Com quatro anos de existência do projeto, o objetivo agora é ampliar as atividades e o acervo da biblioteca, inclusive para incluir obras que celebram autores e autoras negras.</p>



<p>No sábado em que nossa reportagem visitou a biblioteca, as crianças estavam reunidas para ouvir uma contação de histórias afro-brasileiras e indígenas. A atividade foi promovida em parceria com o projeto social Maria Nilza. Naquela manhã, era a primeira visita de muitos meninos e meninas à Donaraça. Para a pedagoga Juliana Varges Ferraz, iniciativas como essa precisam ser permanentes, principalmente para crianças na primeira infância.</p>



<p>“Estamos tão acostumados a ver apenas o negativo quando falamos das culturas africanas, que o nosso papel agora é fazer um movimento contrário, não somente falar do sofrimento. E é essencial que esses contos sobre ancestralidade sejam apresentados para crianças nessa faixa etária de aprendizado”, destaca a voluntária do Maria Nilza.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/08/conquista-5.jpg" alt="A foto mostra uma mulher de pele clara, óculos de aros grandes, com cabelos pretos presos por trás do pescoço, em um ambiente interno, segurando uma pilha de livros coloridos. A pessoa está vestindo uma camiseta branca com desenhos gráficos e texto. No fundo, há vários objetos, incluindo um modelo de esqueleto à esquerda, uma porta azul no centro e itens decorativos como vasos e quadros na parede." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Juliana Brito, coordenadora da biblioteca comunitária Donaraça, segurando um livro em ambas mãos
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Victória Lôbo/Conquista Repórter</span>
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    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Essa reportagem foi contemplada pelo edital ‘Bolsas de Reportagem: A Primeira Infância como Pauta Prioritária’, promovido pela<a href="https://ajor.org.br/"><strong><em> Ajor (Associação de Jornalismo Digital</em></strong></a><strong><em>) e a </em></strong><a href="https://www.fmcsv.org.br/pt-BR/"><strong><em>Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal</em></strong></a><strong><em>.</em> </strong></p>
    </div>



<p></p>
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		<title>Motivos para ler &#8220;O avesso da pele&#8221;</title>
		<link>https://marcozero.org/motivos-para-ler-o-avesso-da-pele/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Erika Muniz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Mar 2024 13:39:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[censura]]></category>
		<category><![CDATA[extrema-direita]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[livros]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quanto de reflexão crítica, poesia e identificação com os personagens é capaz de morar em 189 páginas de uma obra literária? A leitura do livro O Avesso da Pele (2020), de Jeferson Tenório, vencedor do Prêmio Jabuti de Romance Literário em 2021 traz muitos temas relevantes para a história do Brasil. Da complexidade das relações [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quanto de reflexão crítica, poesia e identificação com os personagens é capaz de morar em 189 páginas de uma obra literária? A leitura do livro <em>O Avesso da Pele</em> (2020), de Jeferson Tenório, vencedor do Prêmio Jabuti de Romance Literário em 2021 traz muitos temas relevantes para a história do Brasil. Da complexidade das relações étnico-raciais no país às subjetividades de homens negros, o romance aborda questões cruciais para a nossa sociedade.</p>



<p>Nascido no Rio de Janeiro, Jeferson Tenório, que também já publicou os romances <em>O Beijo na Parede</em> (2013) e <em>Estela Sem Deus</em> (2018), é radicado em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul – estado majoritariamente habitado por pessoas brancas. E é nesse cenário, localizado na região Sul que a narrativa se passa, trazendo a emocionante história da família de Pedro, o narrador, a cada capítulo.</p>



<p>Incluído no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), do Ministério da Educação (MEC), <em>O Avesso da Pele</em> vem sendo alvo de censura. Em vídeo postado pela diretora da Escola Estadual de Ensino Médio Ernesto Alves de Oliveira, na cidade de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, o livro foi criticado. Houve também ações de censura destinadas à obra pelo Núcleo Regional da Educação de Curitiba, no Paraná, além das ordens de recolhimento pela Secretaria Estadual de Educação de Goiás e do Mato Grosso do Sul.</p>



<p>Por conta da repercussão desses episódios autoritários, diversos artistas, personalidades e instituições ligadas às artes, à leitura e à educação – além da Companhia das Letras, editora responsável pela publicação de <em>O Avesso da Pele</em> – se posicionaram e publicaram notas em repúdio à censura e em defesa do autor e do livro.</p>



<p>Em entrevista exclusiva, o escritor Jeferson Tenório conversou sobre o romance <em>O Avesso da Pele</em>, como recebe as notícias de censura, como percebe a importância de políticas voltadas à leitura no país e conta um pouco sobre o processo de escrita por trás dessa obra.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/jeferson-capa.jpeg" alt="Capa do livro “O Avesso da Pele”, escrito por Jeferson Tenório. Em tom azul claro, a ilustração da capa retrata uma pessoa em pé sobre um trampolim, olhando através de uma janela aberta. O título e o nome do autor estão posicionados abaixo da ilustração." class="" loading="lazy" width="241">
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                                            <span>Crédito: Divulgação</span>
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<p>Marco Zero<strong> &#8211; Qual é a sua maior alegria como escritor?</strong></p>



<p><strong>Jeferson Tenório </strong>&#8211; Minha maior alegria como escritor é conseguir ser lido, principalmente por quem está se formando como leitor. Um dos meus projetos literários é de formação de leitores. Escrevo os meus livros pensando nesse público – alguém que está se formando ainda como leitor.</p>



<p><strong>Em</strong><em><strong> O Avesso da Pele </strong></em><strong>(2020), você traça – entre outros temas – a subjetividade de um homem negro no nosso país. Queria que você contasse como foi a escrita desse livro e os atravessamentos dessa obra para você.</strong></p>



<p>O <em>Avesso da Pele</em> (2020) foi pensado já há muitos anos, antes mesmo de eu escrever o livro anterior, que é o <em>Estela Sem Deus</em> (2018). Eu já vinha pensando em escrever sobre a história de um professor que tinha dificuldades na escola e tinha dificuldades também com o filho. No primeiro momento, era fazer uma análise sobre esse professor, fazendo uma crítica também ao sistema educacional. Essa era a premissa do livro. Com o passar dos anos, fui percebendo que outros temas poderiam também entrar nesse livro, a questão racial acabou aparecendo e a violência policial também. Percebi que o tema principal do livro seria essa relação entre pai e filho e o quanto essa relação estava sendo atravessada por todas essas questões que passam pela violência e pelo racismo. Quando, em 2019, fechei o contrato com a editora, decidi pegar tudo o que eu já tinha pensado e comecei de fato a escrever o livro. Demorei em torno de um ano e meio para escrever. Esse processo de você escrever um personagem negro e as suas subjetividades partem daí, primeiro, de contar essa relação entre pai e filho e depois ver as peculiaridades. Ou seja, o que faz esse personagem negro que seja diferente de outras vivências, levando em consideração que é uma pessoa que vive no sul do país, onde majoritariamente as pessoas são brancas.<br><br><strong>A obra </strong><em><strong>O Avesso da Pele </strong></em><strong>(2020) vem sofrendo censura. Primeiro, por uma professora do Rio Grande do Sul, mas também foi pelo Núcleo Regional de Educação, no Paraná, além de Goiás, </strong><strong>onde,</strong><strong> inclusive, o governado</strong><strong>r Ronaldo Caiado (União Brasil) admitiu não ter lido o livro. </strong><strong>Como você recebe esses episódios e o que, na sua percepção, significa para a sociedade brasileira?</strong></p>



<p>Acho que é um ato que não é desconhecido. A gente já tem um histórico de recolha de livros, de proibições, de censura. É algo que já aconteceu na história do Brasil. Acho que o diferencial de hoje é que a gente tem o apoio das redes sociais, que é muito forte. De certo modo, a gente aprendeu também a reagir de maneira contundente. Foi o que aconteceu agora com <em>O Avesso</em>. Eu recebi muitas notas de apoio, pessoas, instituições, políticos, escritores, colegas se posicionando. Isso demonstra o quanto é grave, o quanto a gente entendeu que é grave essa recolha de livros. E também nos deixa atento para entender que há uma sofisticação desses atos autoritários. Para a recolha dos livros, o argumento que se utilizou é de que eles estavam sendo recolhidos para uma “avaliação pedagógica”, sendo que a gente sabe que os livros já foram avaliados. <em>O Avesso da Pele </em>já foi avaliado. Então, a gente tem aí um discurso autoritário, mas que vem disfarçado de um argumento pedagógico. Acho que a gente tem que ficar bastante atento, é muito sério o que está acontecendo e a gente não pode normalizar esse tipo de ação.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;A gente precisa de mais livrarias, menos farmácias. Menos farmácias, mais livrarias!&#8221;</p>
</div>


<p><strong>Se você não fosse escritor e professor, o que você gostaria de ser ou você acha que seria?</strong></p>



<p>Eu, sinceramente, não sei. Costumo dizer que a minha carteira de trabalho é um mosaico de carimbos de tantos lugares que já passei e que eu não me senti a vontade. Trabalhei com muitas coisas antes de me tornar professor. O lugar onde eu mais me senti confortável e que me dava motivação foi a sala de aula. Então, não consigo perceber o que eu faria se não fosse professor ou escritor. Acho que eu só consigo fazer isso da minha vida. Dar aulas e escrever.<br><br><strong>Como é conciliar esses dois ofícios?</strong></p>



<p>Estou fora da sala de aula desde 2022, fazem dois anos que saí. Eu dava aula em escolas públicas e particulares e, depois que <em>O Avesso da Pele</em> foi publicado, comecei a ter muita demanda de viagens e de palestras. Então, hoje a minha relação com a escola é diferente, é uma relação de eu ir na escola para falar com os alunos sobre o livro. Mas sinto bastante falta desse ambiente escolar, da troca de ideias na sala de aula.<br><br><strong>Qual a importância de políticas voltadas à formação de um público leitor e de fomento à leitura no Brasil?</strong></p>



<p>Acho que a gente tem tido bons projetos de leitura, sejam por políticas públicas ou por iniciativas das escolas. Há um trabalho sendo feito pelos professores em sala de aula, principalmente no Ensino Fundamental. No Ensino Fundamental I, o trabalho de valorização do livro, do autor, da leitura é ainda mais forte. O que falta talvez sejam projetos de lei que deem continuação a essas políticas públicas para que, se um próximo governo venha, elas não deixem de existir. É o que acontece, uma descontinuação de projetos de leitura, seja no ambiente estadual, federal, municipal. Acho que a gente precisa de leis que garanta que esses projetos sigam em frente. Além disso, a gente não pode achar que a escola é o único espaço de formação de leitores. Ela é um espaço importante. A gente precisa de bibliotecas comunitárias públicas. A gente precisa de mais livrarias, menos farmácias. Menos farmácias, mais livrarias! A gente precisa ter acesso ao livro de maneira mais fácil, mais barata. A própria confecção do livro, as editoras precisam de incentivos fiscais para conseguirem publicar mais livros, a circulação de autores pelo Brasil, mais festivais literários, mais bibliotecas nas escolas. É uma série de ações que eu acho que fazem com que a gente tenha, de fato, a formação de um público leitor.</p>



<p><br><strong>Vi que, após esses episódios de censura, </strong><em><strong>O Avesso da Pele</strong></em><strong> (2020) teve um aumento de vendas de mais de 1000%, querendo ou não vai chegar a mais pessoas. Como você recebe essa notícia?</strong></p>



<p>Acho que é efeito da censura. A censura e a proibição acabam atiçando a curiosidade das pessoas. Acho que também é uma reação positiva, no sentido de as pessoas entenderem que: “Bom, se estão proibindo, então, vamos comprar o livro, vamos distribuí-lo, vamos fazê-lo chegar em mais lugares.” Acho isso muito positivo, mexe também com o sistema editorial. Você tem aí livreiros envolvidos, gráficas, a própria editora, eu. Então, movimenta todo um sistema editorial. Isso é ótimo, é maravilhoso. Agora, o que me preocupa, e acho que é uma questão que a gente tem que pensar, é o que motiva as pessoas a irem atrás de um livro. Se a gente partir dessa ideia de que um livro só é procurado quando ele tem eventos extraordinários ou quando ele sofre algum tipo de violência, algum tipo de censura, é preocupante, porque a leitura não pode ser algo extraordinário – ou seja, eu não posso ir atrás do livro só porque ele foi censurado. Acho que a gente também tem que ter políticas públicas, incentivos de leitura que normalizem a presença do livro na sociedade e na vida das pessoas. Somos um país de quase 250 milhões de pessoas e o público leitor não chega a 2% de toda essa população. É pouca gente tendo acesso ao livro. Acho que a gente precisa pensar as motivações e, nesse sentido, até tenho brincado que a extrema-direita tem sido mais eficiente para levar as pessoas a lerem o livro.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/jeferson-debate.jpeg" alt="Foto colorida de um grupo de pessoas reunidas em um ambiente interno, onde uma mulher branco de cabelos loiros encaracolados que escondem seu rosto está falando ao microfone, enquanto as outras estão ouvindo atentamente. Entre as que estão ouvindo, sentado em uma poltrona marrom em frente a ela está Jeferson Tenório, homem negro, de cabelos curtos e barba preta já com fios grisalhos, vestindo uma camisa preta, com as pernas cruzadas. Parece ser um momento de comunicação e engajamento. em um debate ou roda de conversa." class="" loading="lazy" width="642">
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	                                        <p class="m-0">Escritor largou emprego de professor para atender a convites para eventos 
</p>
	                
                                            <span>Crédito; Instagram/@jeferson.tenorio.9</span>
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<p><strong>Antes de um grande escritor, há um grande leitor. Como a escrita começou a fazer parte da sua vida?</strong></p>



<p>A escrita começou muito cedo, ela começou bem antes da leitura. Sempre fui uma pessoa muito imaginativa, uma pessoa que gostava de brincar sozinho. Isso me levou a criar histórias muito cedo. Aos 13, 14 anos, eu já tinha vários diários que escrevia sobre a minha vida. Mas eu não era um leitor, na verdade. Fui alfabetizado, fui para a escola, houve algumas tentativas das professoras de me fazerem ler, mas era algo que não me atraía. A leitura era algo que não estava nos meus planos. Aos 18 anos, escrevi a minha primeira novela, chamada<em> O perdão do destino</em>. Nunca foi publicada e nem será publicada. Era uma história bastante ruim, mas era a minha primeira tentativa de construir uma narrativa longa. Depois quando entrei na universidade, já aos 24 anos, no curso de Letras, eu comecei a ler literatura. Ali, eu percebi o quanto era difícil escrever. Tive acesso a Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Shakespeare e assim por diante. Fiquei um tempo, uns três ou quatro anos, sem escrever. Até que eu voltei já como leitor. Aí, comecei a escrever poemas, depois vieram os contos e depois vieram os romances. Mas a escrita sempre esteve presente em mim. Ela foi anterior à leitura.</p>



<p><strong>Como você percebe o avanço da extrema-direita nos últimos anos – sobretudo no sul do Brasil, que como você disse, há um maior número de pessoas brancas?</strong></p>



<p>Acho que essa extrema-direita, que tem ganhado espaço, de uma maneira que é assustadora, porque ela não causa muitos alardes. Por exemplo, a gente tem células nazistas sendo encontradas em Santa Catarina. Parece-me, pelas notícias, que essa questão está bem séria. Acredito que devem ter também em outros lugares. No sul do país, como é uma região majoritariamente de pessoas brancas, a situação das pessoas negras é muito delicada, principalmente no interior dos estados, tanto no Paraná, quanto Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, onde você tem uma tradição muito forte de imigrantes europeus e culturalmente também ela é valorizada. Essa valorização acaba apagando a contribuição de pessoas negras nesses estados. E consequentemente também vem junto o preconceito, o racismo. Há algumas propostas, principalmente no Rio Grande do Sul que eu tenho acompanhado mais, da bancada negra de vereadores que foi eleita em Porto Alegre, por exemplo, que tem se debruçado também em valorizar a cultura negra em Porto Alegre e também no Rio Grande do Sul, demonstrando o quanto a formação do estado deve muito também à população negra. Vejo que há esse esforço, de também trazer essa valorização. De certo modo, <em>O Avesso da Pele</em> também é um livro sobre isso, de valorizar a contribuição da cultura negra para a construção do estado.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;&#8230;somos seres políticos. Não tem como fazer literatura, sem acreditar na política&#8221;.</p>
</div>


<p><strong>Você acredita na política?</strong></p>



<p>Sim, acredito na política, acredito que somos seres políticos. Não tem como fazer literatura, sem acreditar na política.<br><br><strong>E no amor, você acredita?</strong></p>



<p>Também! Acho que esse é um tema bem interessante, principalmente, para nós, escritores negros, que temos que ser sempre combativos, que estar sempre militando e denunciando. Aí o afeto e o amor, eles acabam ficando meio de lado. Nos meus livros, sempre procuro contrabalancear isso. Em <em>O Avesso</em>, quando vou tratar do “avesso da pele”, ou seja, dos afetos, procuro justamente humanizar os meus personagens pelo amor, pelo afeto, pelas relações que se estabelecem com as outras pessoas. Acho que é um tema bem importante e acredito muito. É um sentimento transformador.<br><br><strong>O que você desejaria para o Brasil?</strong></p>



<p>Muitas coisas, mas talvez o que mais desejaria e que acho que mudaria o Brasil seria, pelo menos, a diminuição da desigualdade. Desigualdade em todos os setores, seja desigualdade racial, de gênero, econômica. Diminuir ou terminar a desigualdade é o que eu desejaria para o Brasil.</p>



<p><strong>Qual o livro, verso ou texto que de tão bom, você gostaria de ter escrito?</strong></p>



<p>Acho que tem momentos da minha vida que vou escolhendo livros que me atravessam nesses termos. Mas acho que ultimamente o que tem mais me provocado e sustentado também as coisas que eu penso é o livro <em>Terra Estranha </em>(1962), do James Baldwin, escritor norte-americano. Ele foi um dos primeiros autores negros que eu li. Ele tem uma passagem muito interessante nesse livro, que depois que um personagem negro morre, dois personagens brancos conversam. Esses dois eram muito amigos dele e um dos dois diz o seguinte: “Como pode? A gente viveu no mesmo bairro, a gente viveu as mesmas coisas, os dois eram pobres e por que isso aconteceu com ele?” Ele se questiona porque o personagem negro morreu. A outra personagem branca responde: “Claro que todos nós passamos pelas mesmas coisas. Fomos pobres, sofremos a violência por causa da miséria, mas uma coisa é você passar por isso por circunstâncias da vida e outra coisa é você passar por isso por causa da cor da pele.” Acho que isso é muito significativo. Você tem a contingência da vida de você passar por determinadas situações, mas isso é agravado por causa da cor da pele, que é algo que você não pode arrancar, que você não pode tirar e guardar no bolso. Acho que é uma reflexão que eu gostaria de ter tido, que eu gostaria de ter escrito.</p>



<p><strong>Em 2021, </strong><em><strong>O Avesso da Pele</strong></em><strong> venceu o prêmio Jabuti, na categoria de melhor romance literário. O que você percebe que mudou para você, como escritor, e em relação à validação do livro?</strong></p>



<p>O Jabuti é um prêmio bastante reconhecido, bastante importante. Lembro que quando eu fui indicado, fui olhar o histórico dos autores que já tinham ganhado e fiquei bastante ansioso porque, imagina, escritores que sempre admirei: Jorge Amado, Clarice Lispector, Rubem Fonseca, autores que ganharam o prêmio Jabuti de melhor romance literário. Ele tem esse apelo, esse reconhecimento. Mesmo as pessoas que não são ligadas ao mundo do livro, reconhecem que é um prêmio importante. E o livro já vinha numa caminhada de reconhecimentos de leitores, de crítica e tal. Quando chega o prêmio Jabuti, no final de 2021, quando virou para 2022, eu já não consegui mais ficar na escola porque a quantidade de convites, feiras, festivais que tinha que participar começou a ficar muito grande e não consegui mais conciliar a sala de aula com essas viagens. Nesse ponto de vista, acho que o prêmio Jabuti abriu muitas portas para mim. Continua abrindo. Mas sobretudo acho que tem esse selo de reconhecimento: “leiam porque foi reconhecido pelo Jabuti.” Acho que nesse sentido é bem interessante.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;&#8230;a leitura não pode ser algo extraordinário – não posso ir atrás do livro só porque ele foi censurado&#8221;.</p>
</div>


<p><br><strong>Sobre instituições ligadas às letras no Brasil, elas ainda são espaços – tanto de ideias, mas também quanto à presença – de predomínio de pessoas brancas. Mas Machado de Assis era um homem negro, que a história tentou enbranquecer. Agora, falando da Academia Brasileira de Letras, que Machado foi um dos fundadores, e que, recentemente, elegeu a historiadora Lilia Schwarcz, além de Gilberto Gil e Ailton Krenak que também foram eleitos “imortais” há pouco tempo. Mas a escritora Conceição Evaristo, que é um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea, não recebeu esse título. Como você percebe a importância de existir uma maior pluralidade em instituições ligadas às letras no país?</strong></p>



<p>Acho que o caso da ABL é mais peculiar. Porque, primeiro, não se trata de uma instituição pública, é uma instituição privada. Aí, eles estabelecem critérios. Esses critérios também têm a ver com toda uma tradição da Academia, que eu desconheço totalmente, o que sei é de reportagens. É também um lugar que por ter uma tradição tão longa, demora acho que bastante para conseguir acompanhar os movimentos da sociedade. Nesse sentido, a ABL é um pouco conservadora de entender os movimentos da sociedade e de agir também rapidamente. No caso da Conceição Evaristo, acho que a não entrada da Conceição, quem sai perdendo é a Academia de Letras. Isso eu já disse outras vezes. Quem está perdendo é a Academia Brasileira de Letras, de não ter uma intelectual, uma escritora como a Conceição Evaristo. Por outro lado, a não entrada da Conceição, de certo modo, também abalou a ABL, que foi bastante criticada e isso fez com que, de certo modo, pavimentasse a entrada de escritores que não fazem parte desse perfil que a gente está acostumado a ver. Então, a entrada do Gilberto Gil, Ailton Krenak. A entrada da Lilia Schwarcz, acho que ela é uma das poucas intelectuais brancas, no Brasil, que se debruça sobre a questão racial há muitos anos. Na década de 1990, ela já estava escrevendo e escreveu um livro bastante importante chamado <em>O Espetáculo das Raças</em> (1993). Foi por onde comecei o meu letramento racial. Enquanto os intelectuais brancos não estavam falando sobre isso, pelo menos a Lilia já estava falando. Então, não é uma coisa de moda, é um percurso que é bastante importante. Acho que a entrada dela lá também deve ser comemorada, nesse sentido, de alguém que é aliado, porque todas as pessoas brancas foram beneficiadas pelo processo escravagista. Todas. Mas nem todas as pessoas brancas são signatárias do racismo. Nem todas as pessoas brancas são racistas, essa é a questão. As pessoas brancas que são aliadas, a gente tem que dialogar, que conversar e essas pessoas, que são aliadas, podem usar o seu prestígio, o seu privilégio para conseguir minimizar o racismo e promover ações antirracistas. E mais do que isso, fazer com que a branquitude se pense. Acho que é uma pena que a Conceição não entrou e acho que é um lugar merecido para ela. Mas também fico feliz que quem tenha entrado seja uma pessoa como a Lilia, que é alguém comprometida com a causa. E não é de agora.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/jeferson-livro-suecia.jpeg" alt="Foto colorida de diversos livros expostos em uma livraria. Os títulos dos livros estão em sueco, entre eles uma edição de capa dura de O avesso da pele, cujo título em sueco é Hudens avigsida. A capa do livro é semelhante à edição brasileira, com ilustração de homem negro sem camisa, sobre um trampolim, prestes a mergulhar em uma piscina azul claro." class="" loading="lazy" width="509">
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	                                        <p class="m-0">&#8220;O avesso na pele&#8221; exposto em livraria na Suécia
</p>
	                
                                            <span>Crédito; Instagram/@jeferson.tenorio.9</span>
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<p><strong>Para muitos leitores seus, você se torna uma referência, a partir da experiência da leitura de suas obras. O que você gostaria de dizer, antes de finalizarmos, para seus leitores, sobretudo os daqui de Pernambuco que vão ler ou já leram seus livros?</strong></p>



<p>Já estive no Recife algumas vezes, é uma cidade que gosto muito. Gosto muito de voltar a Pernambuco e, nas vezes que fui, vi coisas muito bonitas. Embora <em>O Avesso da Pele</em> tenha sido escrito dentro do contexto do sul, as pessoas se identificam com várias passagens do livro. Isso me deixa muito feliz e contente: fazer um livro que vem de um lugar específico, mas que as pessoas de outros lugares conseguem se identificar. Então, fico muito grato aos leitores de Pernambuco, nas escolas em que eu fui. E faço um convite para quem não leu ainda chegar n’<em>O Avesso da Pele</em>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>O ressurgimento de Cassandra Rios, a escritora mais censurada do Brasil</title>
		<link>https://marcozero.org/o-ressurgimento-de-cassandra-rios-a-escritora-mais-censurada-do-brasil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Apr 2019 13:18:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[cassandra rios]]></category>
		<category><![CDATA[censura]]></category>
		<category><![CDATA[debate]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ela estava longe de ser comunista e seus livros mal falavam sobre política. Mesmo assim, Cassandra Rios foi a escritora mais censurada pela ditadura militar. Até 1985, 37 dos seus livros haviam sido, em algum momento, retirados do mercado. A editora CBS, que editava suas publicações, chegou a ser fechada pelos militares. A censura não [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Ela estava longe de ser comunista e seus livros mal falavam sobre política. Mesmo assim, Cassandra Rios foi a escritora mais censurada pela ditadura militar. Até 1985, 37 dos seus livros haviam sido, em algum momento, retirados do mercado. A editora CBS, que editava suas publicações, chegou a ser fechada pelos militares. A censura não era algo novo para Cassandra. Ela, queestreou na literaturaem 1948, já havia sido processada pelo Estado em 1952, durante o governo eleito de Getúlio Vargas. Na democracia ou na ditadura, o crime foi o mesmo: expor em livros o prazer feminino.</p>
<blockquote><p>“A vagina é oca. Nela cabe a mão inteira. A minha coube. Senti-a entrando, penetrando, alargando caminho. Dedos unidos, espremidos. Todos. Dentro da vagina de Desirée. Socando, socando. Ela gemendo e eu assustada, mais do que isso, angustiada, ouvindo-a dizer, enquanto em minha mente uma cortina de pó branco rebrilhava, caindo como uma estranha chuva fina numa prato de sopa:<br />
&#8211; Mete mais, põe tudo, assim, neném, com força&#8230;me rasga&#8230;faz forte.”</p>
<p>Trecho de <i>Eu sou uma lésbica</i>, de 1980</p></blockquote>
<p>O nome de Cassandra Rios entrou no ostracismo em meados dos anos 1980, mas ainda ressoa forte em muitas gerações. Foi uma prolífica autora de romances eróticos – ela rechaçava o adjetivo de “pornográfica”, que era como os censores classificavam sua obra. Chegou a dizer que eram “livros de amor”.</p>
<p>Acumulou pioneirismos e recordes: escrevendo e publicando desde cedo, foi uma das poucas escritoras a viver somente com o dinheiro dos direitos autorais. Era imensamente popular. Foi a primeira a atingir 1 milhão de cópias vendidas no Brasil – antes de Jorge Amado, que se dizia fã dela, e de Paulo Coelho. Costumava declarar que, se era a mais censurada, era porque era a mais vendida. &#8220;Só cajueiro doce recebe pedradas&#8221;, dizia.</p>
<p>Agora, Cassandra Rios está voltando a ser lida. Aos poucos, graças ao ativismo LGBT, a obra dela vem sendo retirada de debaixo dos colchões para pesquisas acadêmicas, saraus, debates. Foi o que aconteceu na noite da terça-feira (23), no anfiteatro lotado do Centro de Ensino de Graduação da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) para a exibição do documentário “Cassandra Rios – a safa de Perdizes”, que contou com debate com a diretora Hanna Korich, dentro do projeto de literatura lésbica<em>Vulvas políticas</em>.</p>
<p><div id="attachment_15255" style="width: 712px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15255" class="size-large wp-image-15255" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/04/cassandra2-1024x454.jpg" alt="Cassandra prestando depoimento em 1962. E deixando um tribunal em 1964. Fotos: Vermelho.org/Reprodução" width="702" height="311"><p id="caption-attachment-15255" class="wp-caption-text">Cassandra prestando depoimento em 1962. E deixando um tribunal em 1964. Fotos: Vermelho.org/Reprodução</p></div></p>
<p>Nascida Odete Rios em 1932, em uma família burguesa de imigrantes espanhóis, Cassandra era abertamente lésbica no convívio pessoal. Gostava de sair com roupas masculinas, mas fugia do questionamento sobre sua sexualidade em entrevistas. No documentário, a atriz Nicole Puzzi relembra que era advertida por amigos da pornochanchada por ser amiga da escritora. Mesmo em um meio supostamente liberal, a homossexualidade feminina ainda era vista como um tabu.</p>
<p>Puzzi foi a musa de Cassandra. Estrelou três filmes baseados em títulos dela. A versão de <em>A Paranóica</em>, que nas telas virou o drama erótico <em>Ariella</em>, se transformou numa espécie de filme cult,marcado pela estreia de Christiane Torloni no cinema. Teve mais de um milhão e trezentos mil espectadores em 1980.</p>
<p>Com o dinheiro dos livros e filmes, Cassandra levou uma vida confortável. Comprou carros (chegou a ter cinco), o apartamento em que morou no final na vida no centro de São Paulo, uma casa no bairro de Interlagos.</p>
<p>A censura a obrigou a fazer péssimos contratos editorais. Como não podia assinar suas obras, escolhia pseudônimos masculinos. “Todos com sobrenomes que eram a tradução de Rios, como Rivers e Rivières”, lembrou a autora em entrevista a Jô Soares em junho de 1990. As editoras se aproveitavam da situação – alegavam que não teriam lucro sem o nome dela – e ficavam com os direitos autorais dos pseudônimos.</p>
<p>Ao longo das perseguições, Cassandra recebeu pouco apoio da militância de esquerda. Em 1977, um manifesto contra a censura assinado por centenas de artistas – conhecido como “Manifesto dos Intelectuais” – não citava o seu nome. A Comissão Nacional da Verdade (CNV), no entanto, reconheceu a perseguição. O relatório final afirma que ela teve 36 obras censuradas durante a ditadura e que 16 processos judiciais foramabertos contra o livro <em>Eudemônia</em>. &#8220;As acusações iam sempre no sentido de que seus textos continham conteúdo imoral e aliciavam o leitor à homossexualidade… Pode-se afirmar que Cassandra Rios foi a artista mais censurada deste país durante a ditadura militar&#8221;, diz trecho do relatório da CNV.</p>
<p>Cassandra teve uma rápida passagem pela política: em 1986 chegou a se candidatar pelo PDT para o legislativo paulista, mas não teve votos suficientes para ser eleita. Após a redemocratização, Cassandra viveu uma fase mais reclusa. Com os livros fora de catálogo,ela vendeu quase todos os seus bens. Trabalhou também como editora e <em>ghost writer</em>.</p>
<p><div id="attachment_15272" style="width: 971px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15272" class="wp-image-15272 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/04/capasdoslivros.jpg" alt="Capas de livros de Cassandra Rios" width="961" height="336"><p id="caption-attachment-15272" class="wp-caption-text">Capas de livros de Cassandra Rios</p></div></p>
<p>Os jornais dedicaram poucas linhas ao falecimento dela no hospital Santa Helena, em 8 de março de 2002, vítima de câncer. A amiga de longa data Yáskara afirma no documentário que a morte de Cassandra foi tranquila e aconteceu em um bom hospital graças ao auxílio da hoje deputada federal Luiza Erundina.</p>
<p>Na última entrevista que concedeu, um ano antes de falecer aos 69 anos, <a href="https://books.google.com.br/books?id=0ysEAAAAMBAJ&amp;pg=PT11&amp;redir_esc=y&amp;hl=en#v=onepage&amp;q&amp;f=false" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Cassandra contou para a revista TPM</a> que ainda escrevia todos os dias. Se recusou a se declarar lésbica (“A Cassandra sim (..) acho que pelo menos a Odete deve ficar incógnita”) e comentou que “nunca quis pertencer a nenhuma igrejinha” ao falar da esquerda.</p>
<p>Confessou também que vivia há anos em um voto de castidade – uma promessa feita com a mãe na UTI. “Fui massacrada (por ser mulher). Desde os primórdios da civilização a mulher luta pelo direito de falar, de pensar. Se o homem escreve, ele é sábio, experiente. Se a mulher escreve, é ninfomaníaca, tarada. Nunca pensei desse jeito. Escrevi com a ingenuidade de quem nasce escritor”, afirmou.</p>
<p>Mesmo posta repetidamente à margem, Cassandra sabia bem do valor da sua obra. Ao ser perguntada, nesta última entrevista, qual era o lugar que lhe cabia na literatura brasileira, ela foi certeira: “Na mão do leitor!”. &#8220;Não quero receber troféus, honrarias ou méritos. Quero ser lida, mesmo que achem uma droga&#8221;.</p>
<blockquote><p><i>“Eu sou uma lésbica. Deve a sociedade rejeitar-me?<br />
(…)<br />
Em que situação uma homossexual deve ser rejeitada, compreendida ou aceita? Quando engana o homem com as suas dissimulações ou quando enfrenta a sociedade abertamente, sem esconder o que é?”<br />
Trecho do livro de 1980</i></p></blockquote>
<h2>O pioneirismo de Cassandra Rios e a academia</h2>
<p>Cassandra tinha 16 anos quando pediu aos pais: queriapublicar um livro. Eles desembolsaram o valor de uma pequena tiragem sem ler o conteúdo – mais um pedido da filha, atribuído à timidez de iniciante. A <i>Volúpia do desejo</i>, porém, nada tinha de tímido: narrava o despertar sexual entre duas adolescentes. Foi lançado em 1948, bem antes da francesa Violette Leduc escrever (1954) e publicar (1966) <em>Teresa e Isabel</em>, com a mesmíssima temática.</p>
<p>Quando se fala em brasileiras na literatura erótica, há de se lembrar de Hilda Hilst. As duas foram contemporâneas, mas a semelhança quase que se encerra neste ponto. Há um abismo na forma de se expressar. Cassandra queria ser lida. Escrevia para as multidões: seu texto base é o romance de folhetim, suas descrições de atos sexuais são gráficas. O estilo popular, sem ousadia estética, a afastou da esquerda intelectualizada (ela também se considerava uma “conservadora”) e apenas nos anos 2000 a academia se abriu para a obra dela.</p>
<p>No debate na UFRPE, um depoimento crítico foi o que gerou mais respostas sobre o documentário de Korich. A professora de literatura brasileira da USP e pesquisadora Eliane Robert Moraes tira por menos a importância literária de Cassandra, ao considerar seu texto “honesto” e restringir sua importância ao ativismo lésbico. Para <a href="http://www.revistagenero.uff.br/index.php/revistagenero/article/view/233/154" target="_blank" rel="noopener noreferrer">o pesquisador Rick Santos</a>, da Universidade Estadual de Nova York, também citado no documentário, a literatura de Cassandra Rios é um “kitsch literário”: uma enxurrada de referências da “alta” cultura e da cultura popular, permitindo vários tipos de acesso ao seu texto.</p>
<p>No evento, a professora de Letras da UFRPE Renata Pimentel fez uma apaixonada defesa da importância de se debater a obra de Cassandra no meio acadêmico. “Me cansa a estupidez de uma autointitulada <em>intelligentsia</em> de julgar por um paradigma único. E toda vez que a literatura traz algo tematicamente que foge de um recorte específico intelectualizado, é colocado um adjetivo: ‘ah, é a literatura LGBT’. O que é mais político do que se falar sobre a existência? (&#8230;) É importante quebrar o paradigma elitista da academia que quer ser a única autoridade a definir como se julga”, falou.</p>
<p>Atualmente a obra de Cassandra Rios se encontra fora de catálogo. Dos cerca de 50 livros que publicou (alguns em fascículos), os mais fáceis de se encontrar em sebos são os reeditados em 2005 pela editora Brasiliense, como <em>As traças</em>. Alguns livros são vendidos em formato de e-book em sites de livrarias, como <em>Eu sou uma lésbica</em>e <em>Carne em delírio</em>, este último com trama heterossexual.</p>
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		<title>&#8220;Uma sociedade precisa ler&#8221;, diz Mia Couto na passagem por Pernambuco</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Mariama Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 20 Apr 2019 11:38:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Mia Couto]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O escritor moçambicano Mia Couto veio a Pernambuco este mês para duas palestras, uma no Recife (16) e outra em Vitória de Santo Antão (17). As vagas esgotaram em poucas horas.&#160;Na Universidade Católica de Pernambuco, o autor falou sobre o livro Grande Sertão Veredas, de João Guimarães Rosa, em razão da nova edição lançada pela [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O escritor moçambicano Mia Couto veio a Pernambuco este mês para duas palestras, uma no Recife (16) e outra em Vitória de Santo Antão (17). As vagas esgotaram em poucas horas.&nbsp;Na Universidade Católica de Pernambuco, o autor falou sobre o livro <em>Grande Sertão Veredas</em>, de João Guimarães Rosa, em razão da nova edição lançada pela Companhia das Letras. Em Vitória, discorreu sobre o tema<span style="color: #000000;">&nbsp;“Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? – O Continente Africano numa Perspectiva Literária” para um público de aproximadamente 250 pessoas.&nbsp;</span></p>
<p>Sem a oportunidade de ouvir pessoalmente o autor do romance <em>Terra Sonâmbula</em>,&nbsp;<span style="color: #222222;">considerado um dos 10 melhores livros africanos do século XX, e do livro de contos <em>Fio das Missangas,</em> a</span>&nbsp;reportagem da Marco Zero Conteúdo realizou uma entrevista por telefone na quinta-feira, dia 18.&nbsp;&nbsp;Mia foi sucinto. Escolheu um tom&nbsp;diplomático durante a conversa e evitou se comprometer com análises políticas, embora tenha assumido que a visita ao Brasil o ajudou a entender melhor a realidade atual do país, diante do avanço do conservadorismo.</p>
<p>O autor também se disse preocupado com a abertura para exploração da Amazônia por empresas estrangeiras, anunciada pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL). O avanço do desmatamento e outros impactos ambientais causados pelos países desenvolvidos, na opinião dele, são os grandes responsáveis pelos desequilíbrios que terminam em desastres naturais, a exemplo do ciclone Idai, que devastou seu país.</p>
<p><b>Ouvi uma entrevista recente em que você disse que os moçambicanos te abordam na rua e te enxergam como um mensageiro. Nesta sua visita ao Brasil, qual é a mensagem que você acha que os moçambicanos querem transmitir aos brasileiros?</b></p>
<p>Na verdade há várias mensagens, mesmo que seja uma ilusão que eu possa ser o portador. A primeira mensagem é de gratidão porque Moçambique deve muito ao Brasil. Digo em termos da cultura, pela produção cultural da música, da literatura brasileiras. Também acho que os moçambicanos querem transmitir um abraço aos brasileiros pelo sofrimento nas tragédias de Brumadinho, de Mariana, e agora no Rio de Janeiro.</p>
<p><b>Quais suas as impressões sobre Pernambuco e sobre o Brasil que ficaram nesta visita? Serviu, de alguma forma, para aprofundar seu entendimento sobre a realidade atual do país? Quais as suas percepções sobre o panorama político brasileiro?</b></p>
<p>É a quarta vez que eu venho ao Recife, gosto muito desse lugar que tem um sotaque e sabores particulares. É um povo muito caloroso, que recebe bem. Nesta visita fiquei mais consciente do que está acontecendo. Como estrangeiro não posso me intrometer muito, mas vejo as pessoas preocupadas e tristes.</p>
<p><b>A que você atribui essa tristeza das pessoas? Na sua percepção, estamos vivendo um momento de perdas de conquistas sociais no Brasil?</b></p>
<p>Sim. Acho que inclusive as pessoas talvez ainda estejam um pouco distraídas em relação ao que as autoridades estão dizendo e fazendo. Mas, do ponto de vista de conquistas sociais, culturais, ambientais, as notícias que chegam são preocupantes. É um momento grave.</p>
<p><b>Alguma notícia em especial te chamou atenção?</b></p>
<p>Por exemplo, o convite (do presidente Jair Bolsonaro) para que os recursos da Amazônia sejam explorados por empresas estrangeiras. Isso é uma coisa sobre a qual falo um pouco mais à vontade porque acho que proteger a Amazônia não é somente um dever dos brasileiros, mas do mundo inteiro.</p>
<p><b>Inclusive o desmatamento da Amazônia e outras questões que levam ao desequilíbrio ambiental também estão relacionadas com desastres naturais, a exemplo do ciclone Idai que atingiu Moçambique, Zimbábue e Malawi deixando milhares de mortos e impactando a vida de pelo menos 2,6 milhões de pessoas.&nbsp;&nbsp;</b></p>
<p>As questões ambientais são mundiais. Moçambique é muito vulnerável a questões climáticas e a ciclones porque temos uma costa de&nbsp;quase três mil quilômetros de extensão. Moçambique sempre foi vulnerável, mas, com as mudanças climáticas, a frequência e a intensidade desses desastres aumentaram. Nesse ponto subscrevo o que Eduardo Agualusa (escritor angolano) disse: a ajuda que os países os desenvolvidos dão quando ocorrem essas tragédias deveria ser encarada como uma indenização porque eles são os reais causadores de problemas como o efeito estufa. Não são os países pequenos, são os grandes que causam os maiores impactos.</p>
<p><b>O ciclone Idai inclusive continua causando tragédias em Moçambique. Depois mortes vieram as perdas agrícolas, os problemas financeiros, os surtos de doenças. Como você avalia a cobertura que a mídia tem feito sobre esses dramas, no Brasil e no mundo?&nbsp;</b></p>
<p>Dois dias depois do desastre, grandes cadeias televisivas já estavam com equipes em Moçambique. A tragédia foi matéria de destaque em vários veículos de comunicação mundiais. Mas percebi que no Brasil as notícias chegaram tarde e com relevo menor. Esperava que o Brasil desse mais atenção ao tema, até pela relação forte que existem entre os países.</p>
<p><b>A ajuda humanitária que chega do Brasil e de outros países estrangeiros tem sido suficiente?</b></p>
<p>Um desastre daquela escala &#8211; um das mais graves no Hemisfério Sul- não pode ser enfrentado pelo governo de Moçambique sozinho. Nem pela população do país e também do Zimbábue e de Malauí, que foram atingidos pelo ciclone. Mas a mobilização diante de um caso como o incêndio de Notre-Dame, onde em apenas em um dia se conseguiu arrecadar 450 milhões de dólares&nbsp;de doações, ajuda a medir os critérios da mobilização das pessoas. No caso de Notre-Dame, fico feliz pelas doações porque se trata de um patrimônio mundial. Porém,&nbsp;durante um mês inteiro, tudo que se conseguiu arrecadar para ajudar as vítimas do ciclone Idai, que deixou milhares de mortos, foram 88 milhões de dólares.</p>
<p><b>Você disse em entrevista recente que “o Brasil está de costas viradas para a África”. Essa é uma percepção sua baseada em ações recentes da política externa? Houve algum estremecimento depois da eleição do atual governo?&nbsp;</b></p>
<p>Na verdade ainda penso que é um pouco cedo para perceber se a condução da política externa vai mudar com o atual governo brasileiro ou se a África continuará sendo vista com a importância devida.</p>
<p><strong>Estamos em um momento de muita tensão no Brasil, inclusive sob um risco constante de censura de veículos de comunicação e de artistas. Você percebeu isso? Se sentiu censurado (de forma explícita ou parcial) em algum momento da sua visita?</strong></p>
<p>Ninguém me disse o que eu poderia falar ou não, mas sei que não devo me meter em assuntos da soberania brasileira. Fico preocupado, contudo, quando o governo brasileiro fala de apagar a memória da ditadura militar, que foi um momento de muita censura. É um momento que não pode ser apagado, a história não pode ser mutilada.</p>
<p><b>Você já disse que é visto como um mensageiro pelos moçambicanos, mas que não é essa sua principal motivação na escrita. Que você escreve por necessidade pessoal. Diante da ameaça de censura, do avanço do conservadorismo no Brasil e também no mundo, você acha que o papel do escritor e, dos artistas de modo geral, muda?&nbsp;</b><b>A literatura é uma forma de resistência?</b></p>
<p>Obviamente os artistas têm que traduzir esse sentimento porque os governos conservadores, de extrema direita, atacam os apoios à cultura. Porque consideram artistas e jornalistas uma ameaça. Eu acho que tenho essa missão, não em relação ao Brasil, mas ao mundo e ao meu país. De duas maneiras, como cidadão e como escritor.</p>
<p><b>No livro <em>O último voo do flamingo</em>,&nbsp; uma equipe de estrangeiros chega na cidade e a primeira dama manda “chamar a cultura” pra se apresentar, mas fica a indignada quando dizem a ela que ninguém vai, porque não vai de graça. Essa situação de achar que os artistas populares têm que trabalhar de graça para “divulgarem seus saberes&#8221; também acontece aqui, onde os artistas, sobretudo os populares, são pouco valorizados. Estamos, inclusive, em um momento de desmonte de incentivos para produções culturais. Como você vê essa desvalorização dos artistas?</b></p>
<p>Há uma desvalorização essencial porque se considera que os que fazem cultura fazem algo quase inútil. Quando vejo músicos populares tocando na rua penso que essa gente que produz alegria e felicidade e deveria ser paga. O papel de um governo é subsidiar a cultura. Sem isso os livros, por exemplo, ficam inacessíveis, muito caros. Acontece que o acesso aos livros e à cultura não é interessante para muitos governos, e para quem só se interessa pelo lucro. Não é interessante que as pessoas leiam. Mas uma sociedade precisa ler, até sob o viés econômico,&nbsp;uma sociedade precisa ler e estar&nbsp;preparada culturalmente para crescer.</p>
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