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	<title>Arquivos livro - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Fri, 06 Feb 2026 21:16:00 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos livro - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Guia Comum do Centro do Recife traz curiosidades, ruínas e memórias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Feb 2026 18:56:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[centro do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[guia do centro do recife]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>
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<p>Um edifício chamado Coelho. E com uma linda escultura de um coelho no topo dele. Uma loja que praticamente só vende cadarços: tem de todos os tipos, de todas as cores. Se você quiser um pão em formato de jacaré, tem. Se preferir com a forma de uma tartaruga, também tem. Uma ponte que é chamada de giratória, mas fica sempre ali, paradinha. Árvores inteiras – com galhos, troncos e raízes – que (sobre)vivem emparedadas em prédios há muito abandonados. Uma livraria em que o roubo de livros era visto com parcimônia e um mural de um dos maiores artistas brasileiros do século 20.</p>



<p>É claro que estamos falando do centro do Recife, também chamado simplesmente de “cidade”. Em pouco mais de 100 páginas, o livro <em>Guia Comum do Centro do Recife </em>apresenta uma cidade que já foi e ainda é, mesmo que seja somente na memória, única e cheia de descobertas surpreendentes. Lançado em 2015, por meio de um projeto do Funcultura, o livro ganhou uma reimpressão por meio de um financiamento coletivo e será relançado neste sábado (07), das 09h às 13h, no Chá Mate Brasília.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/brunarafaella-1024x727.png" alt="A foto mostra o interior de uma pequena lanchonete com balcão metálico e decoração simples. Atrás do balcão está um homem de uniforme branco e boné, provavelmente funcionário do local. Do outro lado, uma mulher sorri enquanto conversa com ele, transmitindo um clima descontraído e acolhedor. Sobre o balcão há uma garrafa de vidro de Coca-Cola. Ao fundo, vê-se um painel com cardápio em português, relógio de parede e equipamentos como liquidificador e dispensador de sucos, reforçando o ambiente típico de um ponto tradicional de bebidas e lanches." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Bruna Rafaella com José Pinheiro, sócio e atendente do tradicional Chá Mate Brasília.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Isabela Cunha/Divulgação</span>
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                    </figure>

	


<p>Assim como a cidade é múltipla, o <em>Guia</em> também é. Na equipe, há artistas, designers, ilustradores, urbanistas, jornalistas e fotógrafos explorando diferentes linguagens – tem poema, reportagem, partitura musical, muitas ilustrações e fotos – para fazer um <em>tour</em> poético e político pela identidade urbana do centro do Recife. O índice poético do livro traz 15 categorias que propõem diferentes passeios como “lugares para levantar o olhar”, “lugares para baixar o olhar”, “lugares invisíveis”, “lugares que são becos”, “lugares para comer pão em formato de bicho”.</p>



<p>“O centro, de todas as cidades, é o espaço da vida pública. É o espaço de circulação das novas ideias, das trocas com o diferente. É onde você vai encontrar gente do interior, como eu, circulando, onde você vai encontrar gente de várias gerações. Onde se vê os ciclos da cidade: agora são as compras de pré-carnaval e início de aulas. Não é só o consumo no sentido do poder aquisitivo, é o da circulação desse ciclo da vida, dessa passagem de estudar, trabalhar, comer, se divertir. É como se o centro convergisse todo esse ciclo de vida”, conta a artista visual e pesquisadora Bruna Rafaella Ferrer, idealizadora e organizadora do livro.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/distrito-guararapes-vai-ter-873-kitnets-com-metro-quadrado-mais-caro-que-a-media-do-recife/" class="titulo">Distrito Guararapes vai ter 873 kitnets com metro quadrado mais caro que a média do Recife</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/moradia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Moradia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>Inicialmente, o projeto era para falar das ruínas do centro do Recife. Ao longo de dois anos de pesquisa, se transformou no Guia. Como não é uma nova edição, não há atualização das informações – virou também um retrato de como era aquele centro de dez anos atrás. De lá pra cá, houve mais permanências que mudanças, mas parece que a cidade se aproxima mais daquela ideia inicial de ruína. “Há lugares que estão no meio do caminho entre existir e não existir ou na iminência de não existirem mais, mas que ainda persistem seja materialmente no espaço seja simbolicamente na memória afetiva das pessoas”, conta Bruna Rafaella.</p>



<p>Nos últimos meses, ela fez algumas ativações do Guia, fazendo <em>tours</em> pelos lugares da cidade que constam no livro. “Tem lugares que eu não tinha ido novamente em 10 anos. Eu acho que o ponto de partida da ruína viva está mais forte ainda agora, dez anos depois. Eu tinha muita curiosidade, por exemplo, na casa do cadarço, que era algo muito específico, muito inusitado. Eu fui lá e deu uma dó, tinha só uns cadarçozinhos lá pendurados, mas eu não tive coragem nem de bater para saber se tinha alguém dentro. Muitos lugares do Guia ainda estão vivos, mas é como se o esqueleto estivesse mais à vista do que a carne”, disse.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/Foto_-Rafael-Ceu-300x199.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/Foto_-Rafael-Ceu-1024x680.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/Foto_-Rafael-Ceu-1024x680.jpg" alt="A foto mostra um livro aberto, segurado por duas mãos. As páginas são impressas em papel cor-de-rosa. À esquerda, há um título em destaque: “Gárgulas do Mercado de São José”, acompanhado de uma ilustração de gárgula e um texto em português que fala sobre a arquitetura e a história do mercado no Recife. À direita, aparece uma fotografia em preto e branco da parte superior de um edifício, onde duas gárgulas estão posicionadas nos cantos. Abaixo da foto, há informações práticas sobre o local, como endereço e horários de funcionamento." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Ilustrações e fotos também contam a história do centro do Recife no livro. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Rafael Céu/Divulgação</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Natural de Vitória de Santo Antão, Bruna Rafaella cresceu visitando o Recife e se surpreendendo e encantando pela avenida Guararapes, com seus sebos de discos e livros debaixo das marquises dos prédios. Toda a atual discussão política e econômica sobre os rumos do centro do Recife foi um incentivo a mais para a reimpressão do livro, mas a ideia é fazer um projeto de financiamento para uma segunda edição atualizada do guia.</p>



<p>O preço do livro, R$ 100, é salgado porque a reimpressão foi toda custeada pela venda dos exemplares, que são poucos. “Todos os serviços de produção como gráfica, confecção de camisetas e compra de materiais foram realizados em estabelecimentos no centro da cidade. É um projeto concebido do centro para o centro”, conta Bruna.</p>



<p>Como ao longo desses dez anos o livro tem sido usado em sala de aula, há a possibilidade de professores e professoras conseguirem o livro de forma gratuita. Quem quiser saber mais detalhes, pode entrar em contato pelo Instagram do guia:<a href="https://www.instagram.com/guiacomumdorecife" target="_blank" rel="noreferrer noopener">@guiacomumdorecife</a>.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Serviço</span>

		<p>Relançamento do <em>Guia Comum do Centro do Recife</em></p>
<ul>
<li><strong>Quando:</strong> Amanhã (07/02), das 09h às 13h</li>
<li><strong>Onde:</strong> Chá Mate Brasília (R. Alarico Bezerra, 279 &#8211; Loja 28, Santo Antônio)<br />
Conversa com a organizadora do livro e DJ set do artista e curador Aslan Cabral. Também terá entrega do livro para quem comprou na campanha de financiamento, lançamento de um novo sabor de chá mate (chá de erva mate com limão, abacaxi e hortelã) e de cartões postais do Guia.<br />
O acesso é gratuito e o Guia Comum do Centro do Recife estará à venda por R$ 100</li>
<li><strong>Mais informações:</strong> <a href="https://www.instagram.com/guiacomumdorecife" target="_blank" rel="noreferrer noopener">@guiacomumdorecife </a></li>
</ul>
	</div>



<p></p>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Livro abre arquivos da DOPS-PE e revela histórias inéditas de mulheres na ditadura Vargas</title>
		<link>https://marcozero.org/livro-abre-arquivos-da-dops-pe-e-revela-historias-ineditas-de-mulheres-na-ditadura-vargas/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Dec 2025 13:09:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[arquivo]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[era vargas]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[repressão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 1931, foi criada em Pernambuco a Seção de Ordem Política e Social, que surgiu junto com a Secretaria da Segurança Pública do estado. Em 1934, a Inspetoria de Ordem Política e Social. Um ano depois, a Delegacia de Ordem Política e Social, a famosa DOPS, que só foi extinta em 1990, por decreto do [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 1931, foi criada em Pernambuco a Seção de Ordem Política e Social, que surgiu junto com a Secretaria da Segurança Pública do estado. Em 1934, a Inspetoria de Ordem Política e Social. Um ano depois, a Delegacia de Ordem Política e Social, a famosa DOPS, que só foi extinta em 1990, por decreto do então governador Miguel Arraes. Lançado no final de 2025, o livro online <em>Mulheres e Resistências &#8211; caminhos de insubmissão nos arquivos da Delegacia de Ordem Política e Social de Pernambuco</em> mergulha nos arquivos dos anos iniciais da DOPS até 1946 com um recorte original: as mulheres que foram fichadas em Pernambuco durante a ditadura do Estado Novo, os anos mais autoritários de Getúlio Vargas no poder.</p>



<p>O livro, <a href="https://drive.google.com/file/d/1Ctwfr02tMQQEReieNdqUZl6YMMjupuYF/view?usp=sharing" target="_blank" rel="noreferrer noopener">de acesso gratuito por meio deste link</a>, foi idealizado pela jornalista e produtora cultural Clarice Hoffmann, responsável também pela sistematização dos dados dos cerca de 400 prontuários analisados, e traz ensaios das sociólogas Anita Pequeno e Sophia Branco. Os prontuários da DOPS estão no Arquivo Público de Pernambuco, no centro do Recife, e foram digitalizados em 2017.</p>



<p>O livro foi lançado em 16 de dezembro com uma mesa de debates no auditório do Arquivo Público, com a participação das autoras e mediação de Maria Betânia Ávila, uma das fundadoras do SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia. Na mesa, ela falou sobre o apagamento da memória e o silenciamento das vozes femininas. </p>



<p>“Esse apagamento é ferramenta histórica de regimes autoritários para manter estruturas de poder, ao excluir as mulheres da narrativa oficial da resistência. Tradicionalmente, a história do Brasil, seja da repressão ou do exílio, é contada a partir de uma perspectiva masculina, enquanto as mulheres foram frequentemente reduzidas a um papel biológico ou natural, o que as situava fora do processo histórico. Esse mecanismo, sustentado pelo patriarcado, pelo capitalismo e pelo racismo, busca negar às mulheres o status de sujeitos sócio-históricos e políticos, consolidando uma dominação que é também de natureza colonial e epistemológica”, disse.</p>



<p>Para Sophia Branco, esse material é uma oportunidade de ter acesso a uma parte da vida política do Recife pouco conhecida, que é a atuação de mulheres comunistas em classes populares. “Mulheres negras, operárias, tecelãs, lavadeiras e de várias outras ocupações que se organizavam em associações, em sindicatos, que se organizavam em partidos. E eram perseguidas porque se organizavam politicamente, porque estavam em reuniões, nas ruas, porque recebiam e distribuíam jornais . Quando se pensa na memória da atuação comunista, que foi muito efervescente na cidade do Recife, se pensa no nome de comunistas homens, e não em mulheres, sobretudo não em mulheres com esse perfil social”, afirmou a socióloga na mesa de lançamento do livro, no Arquivo Público de Pernambuco.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Onde ler o livro Mulheres e Resistências:</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">O e-book está disponibilizado gratuitamente através de link no perfil </span><a href="https://www.instagram.com/mulhereseresistencias" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">@mulhereseresistencias </span></a><span style="font-weight: 400;">e </span><a href="https://www.instagram.com/arquivopublicodepernambuco" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">@arquivopublicodepernambuco </span></a>no<span style="font-weight: 400;"> Instagram. <a href="https://drive.google.com/file/d/1Ctwfr02tMQQEReieNdqUZl6YMMjupuYF/view?usp=sharing" target="_blank" rel="noopener">Também está neste link aqui</a>. Todas as imagens do livro são audiodescritas, possibilitando o acesso de pessoas com deficiência visual. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O projeto</span><i><span style="font-weight: 400;"> Mulheres e Resistências </span></i><span style="font-weight: 400;">foi contemplado no Edital de Ações Criativas LPG e conta com o apoio do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (Apeje) e o incentivo do Governo do Estado de Pernambuco e Ministério da Cultura.</span></p>
	</div>



<p>Entre as várias mulheres citadas no livro, estão também figuras históricas como Adalgisa Cavalcanti – a primeira mulher eleita deputada estadual na história da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), em 1947, e que inspirou o <a href="https://marcozero.org/category/adalgisas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">projeto Adalgisas, da Marco Zero</a> – e a primeira vereadora do Recife, Júlia Santiago. Ambas eram mulheres negras, comunistas e que tiveram suas rotinas monitoradas pela polícia.</p>



<p>O DOPS-PE possuía centenas de páginas sobre Adalgisa Cavalcanti, revelando que ela foi vigiada pela polícia por décadas, inclusive durante seus mandatos parlamentares. Os delegados da DOPS a descreviam com preconceito, afirmando que ela &#8220;relegava a vida doméstica a um plano secundário&#8221; em favor do comunismo. “Bem que dona Adalgisa já se aproximando dos seus sessenta anos assaz vividos, poderia estar ao lado do seu marido, cuidando do bom velho, fazendo tricô e ouvindo novela. Mas, qual o que, prefere andar por aí afora, tramando contra tudo e contra todos […] Tem jeito não, para dona Adalgisa.”, diz trecho de um pedido de prisão contra ela.</p>



<p>“Assim como esse, existem outros exemplos desses julgamentos morais sobre a conduta dessas mulheres. É um relato quase cômico, mas é importante que se diga que esse tipo de gesto estava muito mais próximo da perversidade do que da loucura ou da graça”, contextualizou Sophia no evento. “Esse mesmo delegado, Álvaro Gonçalves da Costa Lima, por exemplo, está na lista dos torturadores da ditadura militar que foram denunciados na Comissão Estadual da Verdade”, disse.</p>



<p>A socióloga Anita Pequeno lembrou que o anticomunismo tem uma forte dimensão moral: no discurso oficial da Era Vargas, o comunismo era acusado de destruir famílias e desvirtuar homens e mulheres. Misoginia e anticomunismo caminhavam juntos. “No contexto específico da Era Vargas, a mulher aparece como muito fundamental, quase como o sustento da nação. Mas qual mulher? A mãe de família, a mulher que seria responsável pelo governo do lar. É quase aquela expressão: &#8216;bela, recatada e do lar&#8217;. Então, se esperava que a mulher encarnasse esse ideal público. Que a honra dessa mulher fosse a própria encarnação da moral pública. As mulheres que apresentassem qualquer dissidência – como algumas que foram listadas associadas à prostituição, ou mulheres que perdiam a virgindade muito cedo – eram assunto de polícia. A virgindade das mulheres era assunto de polícia porque a honra delas tinha a ver com a honra pública”, afirmou Anita Pequeno no evento de lançamento do livro.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Complacência com as mulheres nazistas</h2>



<p>Apesar das afinidades ideológicas de Vargas com o nazifascismo, em 1942 o Brasil entrou na II Guerra Mundial contra os países do Eixo. Com isso, a repressão política em Pernambuco passou a focar intensamente em mulheres estrangeiras (sobretudo alemãs, italianas e japonesas) sob suspeita de espionagem e nazismo.</p>



<p>Na ficha da alemã Hertha Dorotea Sachser está escrito, que em sua declaração, ela afirmou que “como alemã, consequentemente, é nazista e que tem certeza da vitória da Alemanha. Diz que não praticou nenhum ato de espionagem, mas que considera o espião um bom patriota”.</p>



<p>Mas há uma grande diferença entre o tratamento da polícia com essas mulheres e com o das mulheres brasileiras comunistas da classe operária. “É interessante a dinâmica que se dá aqui em Pernambuco. Essas mulheres, as que eram nazistas de fato, tinham uma ideia de que eram superiores de tal forma que elas diziam isso na cara dos policiais. E a impressão que dá é que os policiais concordavam que elas eram melhores que eles. Os policiais eram muito mais complacentes com elas. Então, essa dinâmica racial também estava apresentada”, disse Anita Pequeno.</p>



<p>No último texto do livro, que se chama <em>Notas Cromáticas</em>, as pesquisadoras se dedicam a escrever sobre como era minuciosa a descrição dos corpos das mulheres que eram fichadas. “Nas mulheres mais pobres, essa parte da cor está sempre preenchida e nas outras nem tanto. Nós vimos que nas mulheres negras, nas mulheres racializadas, a semântica das cores era muito complexa”, disse Anita Pequeno.</p>



<p>“Termos tais como “parda”, “parda clara”, “parda escura”, “morena”, “branca trigueira”, “preta” e “preta fula” aparecem como marcas de uma lógica classificatória ambígua que, longe de neutralizar o racismo, o sofisticava. Historicamente, as gradações de cor, associadas ao acesso desigual à cidadania, pavimentaram o caminho para a formulação posterior do mito da democracia racial e buscavam fragmentar a identidade dessa parcela da população. Como sabemos, apesar dos malabarismos orquestrados pelo Estado para camuflar e perpetuar as hierarquias sociais, e mesmo com o fortalecimento do mito da democracia racial — forjado desde o Império e consolidado como ideologia nacional —, o racismo seguia operando de forma estruturante”, diz trecho do livro.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Em novo livro, Guilherme Boulos aponta caminhos para a esquerda do Brasil</title>
		<link>https://marcozero.org/em-novo-livro-guilherme-boulos-aponta-caminhos-para-a-esquerda-do-brasil/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Aug 2025 17:42:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Guilherme Boulos]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Deputado federal mais votado na história da esquerda brasileira, Guilherme Boulos (Psol) está viajando pelo país para lançar seu quinto livro, Para onde vai a esquerda? (editora Contracorrente). Nesta quinta-feira, Boulos cumpriu uma extensa agenda no Recife, com aula pública na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), reuniões e o lançamento recifense do livro na livraria [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Deputado federal mais votado na história da esquerda brasileira, Guilherme Boulos (Psol) está viajando pelo país para lançar seu quinto livro, <strong><em>Para onde vai a esquerda?</em></strong> (editora Contracorrente). Nesta quinta-feira, Boulos cumpriu uma extensa agenda no Recife, com aula pública na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), reuniões e o lançamento recifense do livro na livraria O Jardim, na Boa Vista.</p>



<p>Boulos chegou ao evento com uma hora de atraso e falou por 15 minutos para uma plateia cheia. Na fala, o deputado explicou que o livro não traz uma resposta pronta para a pergunta do título, mas aponta caminhos. O deputado, psicanalista e professor propõe que a esquerda saía da defensiva e que paute o debate público. Mas fazer isso, claro, não é nada fácil.</p>



<p>Boulos acredita que a esquerda deve adotar uma série de estratégias. Antes de tudo, é preciso reconquistar a confiança popular. “Por isso, não é um debate só do que a gente faz agora ou em 2026. É um debate de como fazer para que a esquerda volte a despertar esperança. Como a gente refaz a nossa imaginação política para que o nosso campo <em>(político)</em> seja visto pelas gerações que estão vindo como uma alternativa de futuro, como foi com gerações anteriores. A esquerda perdeu um pouco a capacidade de motivar sonhos e visões de futuro em milhões de pessoas”, disse.</p>



<p>Para Boulos, é essencial recuperar o &#8220;espírito missionário&#8221; que caracterizou o campo da esquerda e que, hoje, em parte, está com o outro lado. “A extrema direita está ganhando nesse ponto, disputando ideias e valores na sociedade, ainda que de forma enviesada e usando métodos &#8216;rebaixados&#8217;. É fundamental criar uma contra-ofensiva e um contra-ataque”, disse.</p>



<p>Nessa retomada, o deputado acredita que é importante disputar o campo online, principalmente das redes sociais, em uma mobilização permanente. “Ao contrário do que acontece atualmente, onde o campo da esquerda desmobiliza após as eleições, enquanto o outro lado continua ativo”, comparou Boulos, que deu como um bom exemplo do uso das redes pela esquerda a mobilização pela taxação dos super-ricos.</p>



<p>O online é importante, mas o tão falado trabalho de base nos territórios também deve ser intensificado. “A direita, inclusive, aprendeu esse método com a própria esquerda – com a Teologia da Libertação, as comunidades eclesiais de base, os movimentos sociais dos anos 80 – e a esquerda precisa retomar esse espaço que foi perdido”, disse Boulos, que também citou que é urgente uma nova estratégia para dialogar com a classe trabalhadora atual, dispersa e informal. “Sem uma nova estratégia, a extrema direita avança com discursos como o de que ‘são todos empreendedores de si mesmos’”, afirmou.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="649" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/686d2d86c888868ba11469a4_siteBanner_paginaDeProduto-649x1024.png" alt="" class="wp-image-71948 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/686d2d86c888868ba11469a4_siteBanner_paginaDeProduto-649x1024.png 649w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/686d2d86c888868ba11469a4_siteBanner_paginaDeProduto-190x300.png 190w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/686d2d86c888868ba11469a4_siteBanner_paginaDeProduto-768x1212.png 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/686d2d86c888868ba11469a4_siteBanner_paginaDeProduto-973x1536.png 973w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/686d2d86c888868ba11469a4_siteBanner_paginaDeProduto-1298x2048.png 1298w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/686d2d86c888868ba11469a4_siteBanner_paginaDeProduto-150x237.png 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/686d2d86c888868ba11469a4_siteBanner_paginaDeProduto.png 1420w" sizes="(max-width: 649px) 100vw, 649px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><a href="https://www.editoracontracorrente.com.br/product/pra-onde-vai-a-esquerda" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Para onde vai a esquerda? </a></strong>é um livro curtinho, com 135 páginas, e custa R$ 35. Boulos contou que a ideia veio por conta da angústia deste momento histórico, com a esquerda na defensiva e a extrema direita avançando. “Fiz um grande esforço de síntese para o livro ser curto. O ritmo hoje em dia é moldado por conteúdos curtos, como stories de 15 segundos e vídeos do YouTube. Fica mais difícil as pessoas pararem para ler e estudar livros mais extensos. Fiz um livro fininho para aumentar as chances de as pessoas lerem”, explicou. “O livro é, acima de tudo, um chamado à ação e à militância”.</p>
</div></div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Três perguntas rápidas para Guilherme Boulos</strong></h2>



<p><em>Logo após a fala na livraria e antes de começar a autografar os exemplares do livro, Guilherme Boulos falou rapidamente com a Marco Zero.</em></p>



<p><strong>Como você vê essa interferência tão forte dos Estados Unidos, já visando as eleições de 2026? Aqui na abertura você falou que via como uma oportunidade para a Lula, para o fortalecimento da esquerda. </strong></p>



<p>Sim, porque eu acho que quando acontece o que está acontecendo hoje, com a interferência do Trump e com a extrema-direita atuando como traidora da pátria, a gente desmistifica e deixa claro quem são os verdadeiros patriotas no Brasil. Essa gente usou os símbolos nacionais nos últimos anos de uma maneira absurda, se colocando como patriotas, se vendendo como patriotas. Hoje ficou claro quem é patriota de verdade e quem é traidor da pátria. Agora, acima disso, também é nos momentos de crise, de dificuldade, que as coisas se mostram. Em um momento em que a maior potência do mundo quer fazer o Brasil se curvar, ter um presidente que fortaleça e valorize a nossa soberania nacional – e que tome medidas inclusive para fortalecer, garantir os empregos dos setores afetados pelo tarifaço dos Estados Unidos –, eu acho que também evidencia para o povo brasileiro de que lado o povo deve ficar.</p>



<p><strong>No livro, você traz uma análise sobre como o mundo do trabalho foi corroído pela pejotização e o trabalho por aplicativos. Isso dificulta a esquerda chegar nesses trabalhadores?</strong></p>



<p>Eu acho que a esquerda estava acostumada a um determinado perfil da classe trabalhadora, que foi o que se fortaleceu ao longo do século XX. Esse perfil mudou. Parte do que eu propus no livro é como a esquerda deve buscar dialogar com esse outro segmento, essa nova classe trabalhadora, ou essas novas classes trabalhadoras que estão cada vez mais fragmentadas. Tem que ir atrás deles.</p>



<p><strong>Você também fala das redes sociais no livro, de como a esquerda deve se mobilizar para sempre estar nas redes. Mas as big techs são alinhadas à direita e hoje (ontem) inclusive o perfil de Jones Manoel foi retirado do ar pela Meta, sem nenhuma justificativa. Como é que você vê a regulamentação dessas redes no Brasil?</strong></p>



<p>A regulamentação é essencial. Nós buscamos votar o PL das fake news e houve um lobby imenso das big techs que impediu isso. Mas eu acho que nós estamos em um momento que tem uma janela de oportunidade para aprovar a regulamentação. O ataque dos Estados Unidos e a atuação das big techs em conluio com o Trump é uma oportunidade para que se tire aquela visão mentirosa de que falar em regulação é falar em censura. Tem que deixar claro que isso é soberania digital, isso é defesa da democracia e isso é, acima de tudo, proteção nacional.</p>
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			</item>
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		<title>&#8220;Tomara que você seja deportado&#8221;: Jamil Chade fala sobre o fim do sonho americano na era Trump</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 Aug 2025 18:26:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[jamil chade]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>
		<category><![CDATA[migração]]></category>
		<category><![CDATA[Trump]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Após 24 anos morando em Genebra, na Suíça, o jornalista Jamil Chade se mudou no ano passado para Nova York. A mudança, por curto tempo, foi por questões familiares, mas ele logo percebeu que era uma oportunidade profissional riquíssima, com o período coincidindo com a campanha presidencial e, depois, os primeiros e tenebrosos meses do [&#8230;]</p>
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<p>Após 24 anos morando em Genebra, na Suíça, o jornalista Jamil Chade se mudou no ano passado para Nova York. A mudança, por curto tempo, foi por questões familiares, mas ele logo percebeu que era uma oportunidade profissional riquíssima, com o período coincidindo com a campanha presidencial e, depois, os primeiros e tenebrosos meses do segundo mandato do republicano Donald Trump. O resultado de quase um ano trabalhando nos Estados Unidos é o livro <strong><em>Tomara que você seja deportado – Uma viagem pela distopia americana</em></strong> (<a href="https://editoranos.com.br/produto/tomara-que-voce-seja-deportado-uma-viagem-pela-distopia-americana/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">editora Nós</a>; R$ 79), que vai ser lançado no Recife nesta quinta-feira, às 19h, na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), no Derby.</p>



<p>O título do livro vem de uma ofensa que o filho dele escutou de uma colega no pátio de uma escola primária em Nova York. “A novidade certamente não é a existência de uma discussão entre crianças. Mas o surgimento de uma nova maneira de agredir, baseada no ódio, que é instrumentalizado por uma ala ultraconservadora que chegou ao poder”, escreve Chade no livro.</p>



<p>Com prefácio do cineasta Walter Salles, <strong><em>Tomara que você seja deportado</em></strong> reúne 48 textos inéditos e outros publicados na <a href="https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">coluna do jornalista no UOL</a>. São crônicas e reportagens, apresentadas de forma cronológica, que narram as transformações que os Estados Unidos vem passando. O livro não se resume a cidades como Nova York e Washington, com Jamil Chade viajando para a fronteira com o México e para estados como Mississipi, Arkansas e Arizona.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="371" height="494" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/jamilchade.jpg" alt="" class="wp-image-71906 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/jamilchade.jpg 371w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/jamilchade-225x300.jpg 225w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/jamilchade-150x200.jpg 150w" sizes="(max-width: 371px) 100vw, 371px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>“Foram textos escritos ainda no assombro daquela situação. Quando eu reuni os textos para publicar, mesmo os escritos para a coluna, eu não os modifiquei. Deixei exatamente como eles estavam no dia no qual aquilo ali foi escrito. Inclusive para tentar trazer um pouco da surpresa em relação àquela situação”, contou Jamil Chade em entrevista para a Marco Zero. “É um diário. No fundo, um diário do desmonte da democracia dos EUA”, diz.</p>



<p>Na entrevista abaixo, Jamil Chade fala sobre a política migratória desumanizante do governo Trump, o papel do jornalismo e o enfraquecimento da democracia nos Estados Unidos.</p>
</div></div>



<p><strong>A indústria cultural dos Estados Unidos sempre vendeu o país como uma terra de oportunidades. Na Estátua da Liberdade há os versos <em>(de um poema de Emma Lazarus)</em> ‘dê-me seus cansados, seus pobres, suas massas aninhadas que anseiam respirar livremente’. Mas, hoje, os Estados Unidos não é visto mais como um país de oportunidades para imigrantes. Esse discurso, esse pilar dos Estados Unidos como sendo um país de imigrantes, era mais frágil do que era vendido?</strong></p>



<p>Eu acho que o que aconteceu, acima de tudo, foi que o mito desse país da oportunidade, que é também traduzido como o sonho americano, se desfez nos últimos anos. E aí não foi por conta da extrema direita, foi, acima de tudo, pelo fracasso da democracia e pelo aprofundamento da disparidade social. Então, foram esses dois elementos que desfizeram a ideia de que ali existe uma terra de oportunidades.</p>



<p>Quem está na camada mais pobre não vai migrar para a classe média. Isso não está acontecendo. No fundo, o que está acontecendo é um aprofundamento da desigualdade. Essa nova realidade desfez o sonho americano. E aí, essa é a grande pergunta: O que acontece com uma sociedade quando um dos seus mitos fundadores se desfaz? Eu não tenho a resposta, mas o que a gente tem visto é que a extrema direita, charlatães, vendedores de ilusão, populistas, desembarcam oferecendo uma alternativa. Dizendo que, &#8216;comigo, nós vamos voltar a ser esse país do sonho americano&#8217;. &#8216;Comigo, vamos retomar aquela ideia de que ascensão social é de novo possível&#8217;. Então, é uma tentativa justamente de resgatar o ‘sonho americano’ que, em primeiro lugar, jamais foi para todo mundo. É só perguntar aos escravizados se eles tinham algum sonho americano. Nos últimos 20 anos, o que nós vimos é uma instrumentalização desse desamparo por parte da extrema direita para chegar ao poder.</p>



<p>Essa é a história que nós estamos hoje. O desamparo é profundo, é real. No livro, eu tento trazer várias situações desse desamparo e um movimento político que, para chegar ao poder, vai buscar justamente nessa decepção popular o seu motor para ganhar votos.</p>



<p><strong>Você abre a segunda crônica do livro com espanto por uma declaração de Trump, ainda na campanha presidencial, dizendo que imigrantes estariam comendo animais de estimação de americanos. O que temos visto nesses últimos meses são denúncias de imigrantes presos sem comida, sem alojamento adequado. Teve até o envio de imigrantes para os seus países de origem em aviões de carga. Isso mostra uma desumanização dessas pessoas, desses imigrantes. Por que você Trump aposta nisso?</strong></p>



<p>A extrema direita – e aí não é só o Donald Trump, mas o movimento inteiro – precisa criar o outro. E o outro, dessa vez, somos nós, os latinos. O outro, na história americana, já foram os japoneses, por exemplo. Na Segunda Guerra Mundial, os japoneses foram inclusive internados em campos de concentração no próprio território americano. Os outros já foram os árabes, depois do 11 de setembro, dos ataques às Torres Gêmeas. E agora os outros somos nós, os latinos. Então, esses outros precisam ser desumanizados para que você possa justamente passar por cima em termos de direitos. Você só pode retirar o direito de um grupo de pessoas que, no fundo, não são tão seres humanos como nós. Então, é algo deliberado, é algo construído justamente para tirar até a dignidade daquelas pessoas.</p>



<p>Quando você tira tudo isso, você permite que possam fazer os maiores absurdos. Não só prisões com situações absurdas, mas também imigrantes enviados para Guantánamo, para Alcatraz do Jacarés (centro de detenção de imigrantes localizado em uma área pantanosa nos Everglades, na Flórida), para El Salvador. Claro, aquela ideia de que serão presos ou deportados só os criminosos era mentira. O que nós temos visto é que qualquer um que esteja de forma irregular nos Estados Unidos pode, eventualmente, ter esse destino.</p>



<p>Tem um segundo elemento nessa história, que é que ao criar uma situação dessa, você, acima de tudo, gera pânico, gera medo. Inclusive daqueles que não têm nada a dever às autoridades, a não ser a condição de não estar com todos os seus documentos de forma regular. Mas não são criminosos, estão apenas de forma irregular. E, ao longo dos últimos meses, muitos desses imigrantes tomaram a decisão, por si só, de deixar os Estados Unidos. O que fica ainda mais barato para o governo Trump, porque ele não precisa nem deportar essas pessoas. Eu conheci muitas dessas pessoas, inclusive um brasileiro, que decidiu, por conta própria, voltar para o seu país de origem.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">O que acontece com uma sociedade quando um dos seus mitos fundadores se desfaz? Eu não tenho a resposta, mas o que a gente tem visto é que a extrema direita, charlatães, vendedores de ilusão, populistas, desembarcam oferecendo uma alternativa</p>
</div>


<p><strong>O governo Trump anunciou nesta semana a cobrança de uma caução de até 15 mil dólares para turistas de dois países africanos, Malaui e Zâmbia. Mas, recentemente, o mesmo governo acolheu imigrantes da África do Sul, da minoria branca de lá, afirmando que são perseguidos. Há um componente racista muito forte nas decisões migratórias de Trump.</strong></p>



<p>Profundamente racista. É uma política migratória que estabelece um muro, e o muro não é na fronteira entre o México e os Estados Unidos. O muro é em qualquer lugar da sociedade no qual ele define que aquele outro basicamente não deve ter os mesmos direitos. Então, é uma política profundamente racista, com base em movimentos supremacistas brancos. Não há nenhuma dúvida sobre o caráter racista dessa política migratória.</p>



<p>No caso da África do Sul, é ainda mais espantoso, porque enquanto ele fecha o país para latinos e africanos, ele acolhe esses sul-africanos brancos, não apenas dando visto para essas pessoas. O que foi estabelecido é um programa em que essas pessoas recebem uma casa, cada um dos adultos daquela casa recebe um telefone celular, já com chip colocado, comida na geladeira e ajuda para procurar emprego.</p>



<p><strong>Lembra a política de migração do Brasil do começo do século XX, que trazia italianos e alemães para &#8216;embranquecer&#8217; a população.</strong></p>



<p>Exatamente. Nesse caso, obviamente é um número muito pequeno, mas quando você fecha o seu país inteiro para 19 países no mundo, e todos eles são países ou africanos ou latinos, e você estende o tapete vermelho para brancos sul-africanos, que supostamente estão sendo perseguidos – porque existe uma reforma agrária no país, depois de 30 anos do fim do Apartheid – fica evidenciada que é, acima de tudo, uma política racista. É institucionalizada. O racismo passa a ser institucional. Volta a ser, na verdade, nos Estados Unidos.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">O jornalismo profissional é ainda mais relevante. E qualquer tipo de ajuste, de acomodação, de não publicar algo porque eventualmente teremos problemas, é basicamente um sinal de fraqueza</p>
</div>


<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
</blockquote>



<p><strong>Tem um texto em que você fala que começou a assistir os noticiários da extrema direita para ver o que eles estavam falando. Como é que você vê o papel do jornalismo nessa derrocada da democracia?</strong></p>



<p>É ainda mais fundamental. Quando eu assisto, por exemplo, às televisões e canais da extrema direita americana, eu penso que os canais oficiais da China ou da Arábia Saudita ou do Irã ficariam morrendo de inveja. É muito mais oficial, é muito mais chapa branca do que qualquer ditadura que eu já tenha visto. Eu tenho como hábito, quando eu chego num país como esses, de assistir a esses canais, porque eu quero entender o que está sendo transmitido. E é impressionante o que acontece nos Estados Unidos, porque vem com um caráter não só de notícias oficiais, de desinformação, etc., mas vem com um componente quase hollywoodiano, sabe? De transformar aquilo também num espetáculo. Além de ser uma injeção de desinformação, ela vem revestida num pacote hollywoodiano muito impressionante. É realmente muito assustador que esse seja o caminho.</p>



<p>Agora, isso significa que o jornalismo profissional fica ainda mais relevante. E qualquer tipo de ajuste, de acomodação, de não publicar algo porque eventualmente teremos problemas, é basicamente um sinal de fraqueza. Vejo também um outro aspecto. Quando o Trump, por exemplo, ataca o jornalismo profissional, ele não está só atacando o jornalismo – e ele diariamente ofende, principalmente, as mulheres jornalistas –, ele está intimidando. Ele também intimida abrindo processo contra o Wall Street Journal, pedindo indenização de 10 bilhões de dólares. Na verdade, não é uma indenização: o que ele está falando é &#8220;não ousem levantar nenhum tipo de suspeita em relação a mim, porque eu levarei vocês à falência&#8221;.</p>



<p>Esse comportamento é uma estratégia justamente para enfraquecer um dos pilares da eventual resistência pela democracia. Há dois pilares que estão na mira principal, o judiciário e o jornalismo. Uma estratégia justamente para desmontar a capacidade da justiça de atuar e da imprensa de denunciar.</p>



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	                                        <p class="m-0">Segundo Chade, Trump escolheu latinos como novos inimigos dos EUA. Foto: Joyce N. Boghosian/US Gov/Divulgação
</p>
	                
                                            <span>Foto: Joyce N. Boghosian/US Gov/Divulgação</span>
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<p><strong>Li recentemente uma <a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/ckgje1zjx8yo" target="_blank" rel="noreferrer noopener">entrevista na BBC </a>sobre como não está havendo nenhuma manifestação de órgãos internacionais, de instituições multilaterais, sobre as ferramentas econômicas que Trump está usando para atacar o Brasil. Na mídia norte-americana tradicional, Trump é muito citado como sendo um <em>bully</em>, um valentão. Você acha que há um medo disseminado de outros países sofrerem represálias, como o Brasil está sofrendo?</strong></p>



<p>Sem dúvida nenhuma. O mundo foi construído de uma forma, principalmente o Ocidente, no qual a economia americana tem um papel fundamental para setores inteiros das economias de outros países, de setores de outros países. E o que nós estamos vendo é que governos estão sofrendo uma pressão muito grande dos seus setores privados para que não abram conflitos com o seu maior comprador.</p>



<p>Por exemplo, o setor do vinho da França estava fazendo uma pressão impressionante sobre o governo francês porque não quer perder o mercado americano, que é o principal mercado de exportação para esse produto. Agora, o que você tem ao ceder? Você não tem do outro lado uma compreensão, ‘agora vamos fechar alguma coisa’, etc. Você tem ali, para o governo Trump, uma sinalização de fraqueza que depois vai ser utilizada justamente para ampliar ainda mais esse <em>bullying</em>, essa chantagem.</p>



<p>Na maioria das vezes, o que nós temos visto é que quando um país cede, num sinal de boa vontade, o que tem do lado do governo americano é a utilização dessa suposta boa vontade para, obviamente, ampliar ainda mais os seus interesses e pressões.</p>



<p><strong>Qual o paralelo que você faz entre o primeiro governo Trump e o segundo? Parece que nesse segundo ele está com mais empenho em destruir os pilares da democracia?</strong></p>



<p>Em primeiro lugar, ele vem muito mais radicalizado do que no primeiro mandato e ele vem muito mais preparado do que o primeiro mandato. Essa preparação a gente tem visto sendo transformada em uma intensificação da adoção das políticas de desmonte. Eles também tiveram quatro anos <em>(o tempo do governo de Joe Biden)</em>, então eles desembarcaram extremamente preparados para essa ofensiva. Isso fica evidente quando você vê, por exemplo, as ordens executivas, que são os nossos decretos, que estão sendo aplicados. Eles não foram inventados agora. Isso fazia parte de um arsenal que ao longo de quatro anos foi cuidadosamente construído.</p>



<p>Por isso que eu insisto que precisamos parar de ficar fazendo memes e ironizando a extrema direita, achando que são um bando de malucos e um bando de pessoas incapazes. Muitos são: principalmente a massa que vai ser alvo de manobra. Mas no comando dessa extrema direita tem gente com muito dinheiro, com uma ambição muito grande e com um plano muito concreto.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">O que temos visto é que quando um país cede, num sinal de boa vontade, o que tem do lado do governo americano é a utilização dessa suposta boa vontade para ampliar ainda mais os seus interesses e pressões</p>
</div>


<p><strong>Na última crônica, você fala que o que acontece nos Estados Unidos não é apenas a história americana. Está em jogo o destino da democracia como experiência humana. E fala também que esse neocolonialismo está bem forte. E estamos vendo que Trump está agora com um hiperfoco no Brasil, inclusive já está interferindo nas próximas eleições. Você acha que há chances do Brasil não cair novamente nas mãos da extrema direita?</strong></p>



<p>A chance existe. Mas a gente vai ter que ter um projeto de país agora. Chegou a hora. Quer dizer, já passou da hora. A gente não poderia ter dependido de um governo estrangeiro atacar os interesses nacionais para finalmente criar um projeto de país. Mas a gente apenas vai ter esse projeto se houver, obviamente, uma compreensão do que esse ataque representa&#8230; Não é um ataque comercial. É um ataque político, acima de tudo. É uma tentativa de desestabilização do país para que, obviamente, em 2026, a eleição esteja amplamente aberta para a extrema direita. Esse é o grande objetivo. Não é o suco de laranja, não é a tarifa, não é o açúcar, não é o etanol, não é nada disso. O grande objetivo é realmente desestabilizar o país.</p>



<p><strong>Pela Constituição dos Estados Unidos Donald Trump não poderia concorrer a um terceiro mandato. Mas ele já deu entrevista dizendo que poderia concorrer. Você acha que a democracia dos Estados Unidos resiste a um terceiro mandato de Trump?</strong></p>



<p>É uma ameaça não só se houver uma mudança constitucional para que isso seja possível, como também outras mudanças. Por exemplo, a de dar mais poder ao presidente. Hoje, nos Estados Unidos, que é um pouco diferente do que nós temos no Brasil, o poder executivo e o poder legislativo têm uma igualdade de poder. O projeto da extrema direita é concentrar mais poder na própria presidência. Esvaziar outros poderes. Então, não é só um terceiro mandato. É um terceiro mandato com uma presidência ainda mais fortalecida. E esse é o perigo: a reeleição com o fortalecimento da presidência. E isso, para a democracia, pode ser absolutamente fatal.</p>



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<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="803" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/tomaraquevcsejadeportado_site3-803x1024.jpg" alt="" class="wp-image-71901 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/tomaraquevcsejadeportado_site3-803x1024.jpg 803w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/tomaraquevcsejadeportado_site3-235x300.jpg 235w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/tomaraquevcsejadeportado_site3-768x979.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/tomaraquevcsejadeportado_site3-150x191.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/08/tomaraquevcsejadeportado_site3.jpg 958w" sizes="(max-width: 803px) 100vw, 803px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Serviço</strong></p>



<p>Lançamento do livro: <em><strong>Tomara que você seja deportado – Uma viagem pela distopia americana</strong></em><br><strong>Participação:</strong> Jamil Chade e o senador Humberto Costa com mediação do jornalista Rossini Barreira.<br><strong>Quando: </strong>Quinta-feira (07), a partir das 19h<br><strong>Onde:</strong> Sala Aloísio Magalhães da Fundaj (Rua Henrique Dias, 609, Derby)<br><br><strong>Entrada aberta ao público</strong></p>



<p><em>O evento integra a programação da XV Bienal Internacional do Livro de Pernambuco</em></p>
</div></div>
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		<title>Livro de fotografias sobre quartos de empregadas terá noite de autógrafos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 May 2025 22:12:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>
		<category><![CDATA[quarto de empregada]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nesta terça-feira (27), às 19h, a Livraria Pó de Estrelas, localizada em Casa Forte (rua dos Arcos, 60), realiza uma noite de autógrafos do livro Suíte Master e Quarto de Empregada, do fotógrafo José Afonso Jr, que também é professor da pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A publicação estará à venda [&#8230;]</p>
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<p>Nesta terça-feira (27), às 19h, a Livraria Pó de Estrelas, localizada em Casa Forte (rua dos Arcos, 60), realiza uma noite de autógrafos do livro <em>Suíte Master e Quarto de Empregada</em>, do fotógrafo José Afonso Jr, que também é professor da pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A publicação estará à venda no local durante o evento, promovido em parceria com a livraria.</p>



<p>Lançado recentemente, o livro reúne fotografias de interiores de casas e apartamentos da Região Metropolitana do Recife. Mais do que registrar ambientes, a obra propõe uma reflexão crítica sobre o espaço doméstico como expressão das desigualdades sociais e do racismo estrutural que atravessam a sociedade brasileira. O título — que contrapõe os extremos de uma mesma moradia — já antecipa o incômodo que orienta o olhar do autor.</p>
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		<title>Da arte de Debret aos mamíferos da Parmalat, o que as imagens da branquitude têm a ver com Pablo Marçal</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Oct 2024 18:43:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[branquitude]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Erika Muniz* Faz parte do nosso existir o ato de contar histórias. Mas as histórias podem ser contadas e recontadas de diferentes maneiras, a partir de vários pontos de vista, modificando o resultado que terá na vida de seus ouvintes, espectadores ou leitores. Nós, como brasileiros e brasileiras, somos feitos de histórias, que foram [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Erika Muniz</strong>*</p>



<p>Faz parte do nosso existir o ato de contar histórias. Mas as histórias podem ser contadas e recontadas de diferentes maneiras, a partir de vários pontos de vista, modificando o resultado que terá na vida de seus ouvintes, espectadores ou leitores. Nós, como brasileiros e brasileiras, somos feitos de histórias, que foram contadas, recontadas, desmentidas ou reelaboradas e que ajudaram a construir quem nós somos. Essas narrativas, porém, ao longo de mais de cinco séculos de Brasil nos fizeram entender de onde viemos, mas também ajudaram a reforçar verdades tidas como únicas e seus lugares de poder. Nos últimos anos, os fatos históricos, as figuras tidas como líderes dessas narrativas e a própria ciência História em si tem sido repensada, questionada e revisitada de maneira crítica.</p>



<p>Desse modo, publicações e estudos que trazem reflexões sobre as posições de poder, que usufruem de privilégios, na nossa sociedade, são importantes. Nas últimas décadas, estivemos trazendo debates feministas relevantes, refletindo sobre a participação e o apagamento das mulheres, a partir de uma perspectiva de gênero. As questões étnico-raciais também nos fazem refletir sobre o silenciamento e as violências vivenciadas pela população negra no nosso país. Agora, a pesquisadora Lilia Schwarcz, em seu novo livro <em>Imagens da Branquitude</em>, realiza uma leitura profunda sobre as imagens que fazem parte da nossa História. Ela analisa obras de arte, fotografias e em outros documentos visuais, destravando as mensagens e narrativas inscritas em cada uma dessas imagens.</p>



<p>Entre análises de pinturas do artista Jean-Baptiste Debret, datadas do século XIX, que estampam livros didáticos em escolas pelo país, nas quais pessoas brancas aparecem em situações de usufruto de seus privilégios e de exploração de pessoas negras durante o período da escravidão, até leituras sobre as representações étnico-raciais em campanhas publicitárias famosas mais recentes, como a série “Mamíferos da Parmalat”, que trazia crianças vestidas de animais, que foi febre nos anos 1990.</p>



<p>Em entrevista à Marco Zero Conteúdo, a historiadora e professora da USP comenta sobre o que propõe com a sua nova publicação, refletindo sobre o que seria a branquitude, qual a importância de desestabilizar o que é entendido como natural e como ela percebe a extrema direita brasileira – que trabalha reforçando lugares de poder, como o masculinismo e a branquitude, por exemplo – no Brasil de agora.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Lilia Schwarcz
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Renato Parada/Divulgação</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Marco Zero &#8211; <strong>Os debates sobre imagens fixadas, normalmente partem de um pressuposto da diferença étnico-racial e/ou de gênero, ou seja, de que existe uma norma e ela usufrui de privilégios, ao contrário dos que não habitam essa norma. No título de seu novo livro, estão as imagens de branquitude, assim, o que seriam essas imagens? E, de que forma falar sobre branquitude é desnaturalizar uma suposta transparência e neutralidade da branquitude?</strong></p>



<p><strong>Lilia Schwarcz</strong> &#8211; O conceito de imagem vem de magia. E, não à toa, ele é a raiz da ideia de imaginários. Então, as imagens que nos constituem – e ainda mais no período contemporâneo e a partir do século XIX, com o advento da fotografia – são imagens marcadas por um determinado lugar social, que é o lugar da branquitude, que é, evidentemente, um lugar de privilégio social. Não à toa, a branquitude social é um conceito que se pauta no passado, mas se prescreve no tempo presente. Então, a ideia do subtítulo <em>A presença da ausência</em> é que, de um lado a presença enquanto privilégio da branquitude é imensa, mas, ao mesmo tempo, se trata de uma imensa ausência, porque as imagens naturalizam esse lugar. Falar de branquitude, ensinar a ler imagens é uma maneira de desnaturalizar esses que são documentos visuais muito poderosos. Porque estamos acostumados a interpretar um documento escrito, mas pouco acostumados a perceber que uma imagem carrega uma série de convenções visuais, uma série de códigos, uma série de<em> pathos</em>, que, de alguma forma, nos convencem sem que nós percebamos exatamente isso. Por isso que é tão importante esse movimento de ler imagens. Como ler imagens? Pela reiteração, pelos detalhes, como uma contranarrativa, ou seja, a partir daquilo que o profissional não quer que se leia, mas cuja mensagem evoca.</p>



<p><strong>A seu ver, até que ponto nós, pessoas brancas progressistas que tentamos ter uma prática antirracista, conseguimos romper com o pacto narcísico da branquitude (conceito mencionado pela Cida Bento)? De que forma o pacto narcísico continua operando nas relações, quando pessoas brancas refletem sobre os seus privilégios?</strong></p>



<p>Não sei se eu entendi muito bem essa sua segunda questão, mas vou tentar reagir a ela de alguma maneira. A Cida Bento, uma grande intelectual, educadora negra, na sua tese e no seu livro, desenvolve esse conceito de &#8220;pacto narcísico&#8221;. Narciso foi um personagem que, ao que diz a lenda, ao que diz a tradição, ficou se olhando na sua imagem refletida na água de tal maneira que passou a só ficar dominado por ela. Então, o que acontece? Como é que pessoas progressistas e brancas, como eu sou, por exemplo, podem ter uma atitude antirracista? É muito importante que nós, primeiro, entendamos que o racismo é uma contradição da sociedade brasileira e não apenas das pessoas negras, como diz Cida Bento no mesmo livro. É importante entender a escravidão, não só a partir da vitimização das pessoas negras e de suas agências, mas também o que significou para as populações brancas viver essa situação de monopólio do poder durante tanto tempo. Esse é o primeiro ponto. Segundo ponto, a população negra no Brasil não é uma minoria, é uma maioria populacional – porque corresponde a mais de 56% da população brasileira –, mas minorizada na representação. Então, não estamos falando exatamente de minorias, mas de maiorias que não estão contempladas, não só na representação visual, como na representação pública e na representação privada. É preciso falar dessas questões entre pessoas brancas para que nós tenhamos um movimento na direção de qualificar a nossa democracia, para que a democracia brasileira inclua setores secularmente excluídos da participação.</p>



<p><strong>Qual a importância de repensar os arquivos históricos e artísticos que constroem os símbolos de poder e as suas ausências? Por que pensar as representações de diferentes vivências que habitam esse território nas obras de arte, por exemplo, refletindo sobre como pessoas não brancas foram representadas até o século XX?</strong></p>



<p>Nesse livro, eu trabalho branquitude e negritude como relações. Negritude foi um conceito criado pelo Movimento Negro como um conceito afirmativo, ainda no começo do século XX, no movimento <em>Harlem Renaissance</em>, nos Estados Unidos, e também na França. A branquitude sempre foi um conceito de recusa. A branquitude, muitas vezes, não se aceita pensar a partir desses conceitos e o toma como uma categoria de acusação, que não é. Eu justamente uso as imagens para que as pessoas possam ler essa situação de privilégio. Os arquivos históricos, os museus, são instituições que foram criadas no contexto colonial e que carregam esse mesmo direcionamento, no sentido de estabilizar o privilégio das populações europeias, das populações brancas, que dominaram o mundo, sobretudo a partir da modernidade, a partir do século XVI. Dominaram com uma máquina de violência muito grande. Dentre as violências, está o apagamento da memória. Os arquivos, os museus, são as instituições que lembram e esquecem também. Vivemos num momento em que é preciso perguntar aos arquivos por outras populações, por outras questões, para que a gente, de fato, crie uma historiografia, Ciências Humanas e um processo de memória cada vez mais plural e inclusiva. A memória é uma virtude republicana.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/10/Lilia-3.jpg" alt="A foto em preto e branco mostra uma família de quatro pessoas brancas ladeada por duas negras, sendo uma mulher adulta à direita e uma menina despenteada à esquerda. No centro, há dois adultos, provavelmente os pais, sentados; o adulto à esquerda está segurando um bebê, enquanto o adulto à direita está em pé atrás da figura sentada. O fundo consiste em uma cena de paisagem pintada em uma tela ou pano de fundo." class="" loading="lazy" width="593">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Muitas histórias ficaram de fora da História do Brasil por muitos anos e muitas ainda permanecem silenciadas. Mas, por que é preciso trazer essas outras histórias para o conhecimento coletivo? E, com elas, podemos refazer a memória do povo brasileiro sobre o nosso país?</strong></p>



<p>Bom, é muito importante que nós convoquemos a memória. Memória e história são categorias distintas. Em geral, a história desconfia da memória, porque acusa a memória de se pautar em critérios apenas subjetivos. E a memória disputa esse tipo de direito à representação com a história, que se pauta apenas em documentos, assim ditos, racionais. É muito importante que a historiografia brasileira deixe de ser apenas e tão somente masculina, europeia e das elites. Aquilo que nós chamamos durante tanto tempo de uma história universal foi, sobretudo, uma historiografia europeia. A historiografia brasileira, durante muito tempo, foi uma historiografia quase que exclusivamente sudestina. E por que é importante contar muitas histórias? Porque o conhecimento, como você bem diz na sua pergunta, precisa ser coletivo. E ao ser coletivo, ele precisa ser plural. Ele precisa dizer respeito às populações que constituem esse país, e não só a apenas um segmento.</p>



<p><strong>Você que já pensa sobre o autoritarismo brasileiro, como reflete sobre as mudanças na extrema direita brasileira, neste 2024, com a chegada de Pablo Marçal? E que características a extrema direita brasileira tem de diferença das de outros países, como os EUA (Trump) e Argentina (Milei)?</strong></p>



<p>O crescimento da direita radical data dos anos [em torno de] 2016, com a crise dos anos [em torno de] 2016. É nesse contexto que figuras como Orbán, na Hungria, Donald Trump, nos Estados Unidos, ganham uma projeção internacional. É nesse momento também que ocorre uma grave crise da democracia com esses políticos retrógrados sequestrando a pauta da democracia, que não tem nada a ver com golpe de Estado, defesa da liberdade de expressão com interesses espúrios. A chegada de uma figura como Pablo Marçal, que concorreu à prefeitura na cidade de São Paulo, é um fenômeno também que não diz respeito exclusivamente a São Paulo. Eu acho que ele representa, ao extremo, esse lado midiático da política. De um lado, uma política sem efeitos, ou seja, sem projetos, uma política que se encerra nas suas causas, o que significaria aparecer para o público cada vez mais. Pablo Marçal representa essa antipolítica, que Donald Trump também representa. Não há projetos, não há debate de ideias, não há respeito pela diferença das pautas. Há, única e exclusivamente, palavras de ordem e expressões para as câmeras – e que depois se convertem em cortes para conseguir mais<em> likes </em>e conseguir mais projeção e conseguir mais seguidores. Existem muitas diferenças entre os vários políticos de extrema direita, eu não teria tempo de responder aqui. O que há em comum entre eles é uma espécie de populismo digital. Populismo sempre foi uma forma de fazer governo que se pauta na tentativa de dar respostas fáceis para situações complexas e também em políticos que se apresentam como espécies de Messias, de pessoas que têm soluções, que são individuais e pessoais. São também, no período contemporâneo, pessoas que se manifestam contrárias a qualquer tipo de diferença. Portanto, são pessoas profundamente antidemocráticas, se nós pensarmos que a democracia se pauta na liberdade de expressão, na igualdade de direitos, no respeito às opiniões divergentes, na transparência e, principalmente, no respeito à verdade e ao bem comum. As <em>fake news</em> são uma atitude oposta à democracia, porque distorcem a verdade, manipulam a opinião pública e impedem o debate honesto e, de fato, informado. O candidato Marçal acumulou na sua figura todos esses pedaços de atitudes nada republicanas e nada democráticas.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/10/Lilia-imagens-racismo.jpg" alt="A imagem é um pôster de propaganda vintage. Ela apresenta dois personagens: um adulto com cartola e gravata borboleta, segurando um livro ou pacote com o rótulo “AREGOS”, e uma criança vestindo uma roupa xadrez. Os rostos dos personagens estão cobertos por retângulos marrons, provavelmente para manter a privacidade ou por efeito ilustrativo. O fundo é amarelo, e há um texto em português que diz “…só falta metade…” na parte superior. Abaixo dos personagens, mais texto diz “SABONETE AREGOS EMBRANQUECE E CURA A PELLE”. Há também informações sobre os locais onde o produto pode ser encontrado em Lisboa: “DEPOSITOS: EM LISBOA: BOTICA DO BATALHA - R. SANTA JUSTA 69”." class="" loading="lazy" width="520">
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	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação</span>
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                    </figure>

	

    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>*Jornalista, formada em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e em Comunicação Social pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). Pesquisa a área de cultura, assinando trabalhos na Revista Continente, Quatro Cinco Um, Revista O grito! e JornaldoCommercio.</p>
    </div>
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		<title>Sem apoio e sem recursos, bibliotecas comunitárias ameaçam fechar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Apr 2024 20:04:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[bibliotecas comunitárias]]></category>
		<category><![CDATA[Dia Mundial do Livro]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Fabiana Coelho Pernambuco é pioneiro no movimento de criação e articulação política de bibliotecas comunitárias. Há mais de dez anos, esses espaços de leitura, originados e inseridos em diversas comunidades do estado, atuam em rede no fortalecimento de políticas públicas que garantam o acesso ao livro e à leitura. No entanto, a despeito do [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Fabiana Coelho</strong></p>



<p>Pernambuco é pioneiro no movimento de criação e articulação política de bibliotecas comunitárias. Há mais de dez anos, esses espaços de leitura, originados e inseridos em diversas comunidades do estado, atuam em rede no fortalecimento de políticas públicas que garantam o acesso ao livro e à leitura. No entanto, a despeito do papel que exercem e do reconhecimento adquirido nacionalmente, o apoio dos poderes públicos é pífio e, sem recursos, algumas destas bibliotecas ameaçam fechar as portas.</p>



<p>É o caso da Biblioteca Popular do Coque. Desde que foi encerrado o programa de apoio às bibliotecas comunitárias pela Fundação Itaú, no final do ano passado, a gestora do espaço, Betânia Andrade, tem tirado do bolso as despesas para manutenção mínima da biblioteca. São R$ 600 de aluguel, R$ 40 de energia elétrica, R$ 80 de Internet; além de água e material de limpeza. O espaço também precisa de manutenção e, sem conseguir arcar com os custos, Betânia desanima: “Eu não queria desistir depois de mais de 15 anos de luta. Mas tem sido cada vez mais difícil”.</p>



<p>Criada em 2007 a partir da parceria de Betânia com grupos de jovens da comunidade, a Biblioteca Popular do Coque lançou as sementes do que hoje é a Rede de Bibliotecas do Coque. Junto com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), por meio do Centro de Estudos em Educação e Linguagem (Ceel), a rede articula a biblioteca comunitária e espaços de leitura nas diferentes escolas do local. “A gente percebe a diferença. A quantidade de jovens que busca o empréstimo de livros e que gosta de ler é muito maior atualmente. Isso é efeito de um trabalho articulado, de longo prazo”, conta a gestora.</p>



<p>A Biblioteca Popular do Coque também é uma das fundadoras da Releitura – Rede de Bibliotecas Comunitárias da Região Metropolitana do Recife. Em mais de 15 anos, a atuação articulada rendeu para os dez espaços que participam ou já participaram da rede a possibilidade de formação continuada, acervo qualificado, inserção na luta por políticas públicas, fomento e apoio a outras iniciativas comunitárias. “O papel da rede na condução de ações públicas voltadas ao livro e à leitura é reconhecida nacionalmente e até internacionalmente, mas não se converte em apoio público”, opina Rogério Andrade, da Biblioteca do Nascedouro, em Peixinhos.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Recursos humanos</h2>



<p>Diferente do que ocorre com bibliotecas como a do Coque, Amigos da Leitura (Alto José Bonifácio), Educ Guri (Mangueira) e Poço da Panela, a Biblioteca Multicultural do Nascedouro não paga aluguel.<br>O espaço é hoje parte de um Centro Cultural inaugurado pela Prefeitura do Recife em 2006, porém a biblioteca é muito mais antiga e remonta ao período em que grupos da comunidade ocuparam o antigo Matadouro abandonado para revitalizar o local com ações culturais. “Hoje a gente fica em uma situação instável, sempre à mercê das políticas de gestão que, de uma hora pra outra, podem decidir ocupar o espaço com outras ações”, afirma Rogério.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/04/livro-Betania.jpg" alt="Foto de Betânia Andrade, mulher negra de meia idade, com cabelos pretos cortados acima do ombro, usando camisa pólo preta, onde se lê as palavras Releitura - Bibliotecas comunitárias em rede." class="" loading="lazy" width="269">
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	                                        <p class="m-0">Betânia Andrade
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação/Releitura</span>
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<p>Mas embora esta seja uma preocupação constante &#8211; assim como pagamento de custos permanentes como Internet, material de limpeza e água, o problema mais difícil tem sido garantir os recursos humanos para a atuação na biblioteca. “A gente trabalha de forma voluntária, sempre dependendo de algum eventual projeto. Mas estamos sem dinheiro nem para o transporte”, desabafa.</p>



<p>Este é, aliás, um drama que atinge a maioria das bibliotecas comunitárias: espaços que dispõem de acervo e de pessoal qualificado que, no entanto, não pode se dedicar ao trabalho por falta de recursos. Na Biblioteca do Coque, por exemplo, os gestores Betânia e Rafael tiveram que buscar outras possibilidades de sobrevivência: ambos estão empregados como educadores em instituições de ensino e a biblioteca só tem conseguido abrir graças à parceria com a UFPE, que garante a presença de uma bolsista no local.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Muita história</h2>



<p>Com 24 anos de existência, a Biblioteca Multicultural do Nascedouro é uma das mais antigas da Rede – assim como a do Cepoma (Centro de Educação Popular Mailde Araújo), em Brasília Teimosa. E, nestes mais de 20 anos de atuação, as parcerias têm sido sobretudo co organizações internacionais ou privadas.<br>O Cepoma, por exemplo, é mais antigo que a biblioteca. São 42 anos de uma instituição que une a educação e a cultura popular. Um trabalho que iniciou com mestres mamulengueiros do bairro, cresceu e hoje tem sede própria, biblioteca e um maracatu de crianças que é referência, o Nação Erê. Em todos estes anos, o parceiro mais constante tem sido uma instituição alemã, que garante, ao menos, os custos com dois educadores.</p>



<p>Um dos principais parceiros na história das bibliotecas comunitárias foi o Instituto C&amp;A. Com o projeto “Prazer em Ler”, a instituição fomentou nacionalmente as ações articuladas de livro e leitura, fomentando, fortalecendo e qualificando as redes de bibliotecas comunitárias em todo o país. Com fim da parceria, a Releitura conseguiu garantir o apoio da Fundação Itaú que, embora não tivesse o alcance do programa Prazer em Ler, garantia recursos para as despesas básicas. No final do ano passado, a parceria foi encerrada.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Pouco apoio público</h3>



<p>Em todos estes anos, as bibliotecas comunitárias contam nos dedos os projetos aprovados pelos poderes públicos. A maioria foram editais federais, lançados nas primeiras gestões do presidente Lula. Quase todas as bibliotecas comunitárias são Pontos de Leitura, o que garantiu acervo e equipamentos por meio de projetos federais.</p>



<p>Mas nesta atual gestão, o projeto de apoio às bibliotecas comunitárias lançado pelo Governo Federal contemplou apenas três dos espaços da Rede. “São apenas R$ 30 mil para o ano inteiro. Além disso, estamos quase no meio do ano e os recursos ainda não foram liberados”, reclama Rogério – um dos contemplados, com a Biblioteca do Nascedouro.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/04/livro-Isamar.jpg" alt="Foto de Isamar Martins, mulher de meia idade, de cabelos brancos encaracolados, usando óculos pretos de aro retangular. Ela usa uma camisa pólo preta com as palavras Releitura - Bibliotecas Comunitárias em Rede na altura do peito." class="" loading="lazy" width="329">
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	                                        <p class="m-0">Isamar Martins
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação/Releitura</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Por meio da Releitura, as bibliotecas comunitárias tiveram papel fundamental na construção do Plano Estadual do Livro e da Leitura. No entanto, reclamam que ainda falta muito para que as ações de fomento descritas no plano se convertam em ações. Uma das queixas é de que não existe um edital específico para as bibliotecas comunitárias. “Concorremos com outros projetos culturais, em editais como o Funcultura. São projetos voltados para ações de mediação, que não contemplam a manutenção ou custos permanentes”, critica Rogério.</p>



<p>Ele conta que a Biblioteca Multicultural do Nascedouro aprovou um único projeto no Funcultura, em 2012. Com outras bibliotecas não é diferente: a Biblioteca Popular do Coque, por exemplo, conseguiu garantir dois projetos no Funcultura em mais de 15 anos de existência.</p>



<p>Na biblioteca do Cepoma, os projetos são feitos em nome do Maracatu Nação Erê – o que garante algum benefício para a instituição como um todo. Mas, em relação às ações específicas da biblioteca, Isamar confessa que não se anima para inscrição nos editais estaduais: “É muita burocracia e poucos resultados”, explica Isamar Martins, da Cepoma. A reportagem entrou em contato com as secretarias da Cultura e da Educação do Estado, mas não obteve retorno.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Burocracia emperra</h3>



<p>No final do ano passado, uma boa notícia animou as bibliotecas da Releitura: o lançamento, pela Prefeitura do Recife – por meio da Rede de Bibliotecas pela Paz (secretaria de Segurança Cidadã) -, de um edital de apoio às bibliotecas comunitárias. No entanto, bastou uma leitura no edital, para que elas percebessem que o acesso a este apoio seria praticamente impossível. “A exigência de documentação e de burocracia inviabilizou a participação de quase todas as bibliotecas comunitárias”, afirma Isamar.</p>



<p>Brasília Teimosa, Coque, Caranguejo Tabaiares… várias das bibliotecas são situadas em Zeis – Zonas Especiais de Interesse Social. São, portanto, dispensadas de IPTU. No entanto, este era um dos documentos exigidos. “Chegamos a buscar na Prefeitura uma declaração de que estávamos em Zeis, fomos ao cartório para cumprir todas as formalidades exigidas. Mas não adiantou nada”, diz Betânia.</p>



<p>Para a Biblioteca Multicultural do Nascedouro, outro problema se impôs: funcionamos em um equipamento que, em tese, pertence à Prefeitura do Recife. Mas nosso CNPJ é de Olinda e, por isso, fomos excluídos”, conta Rogério. Para várias outras bibliotecas comunitárias, sem recurso e sem pessoal disponível, a regularização de CNPJ e documentação exigida pelo edital era missão impossível.</p>



<p>Coordenadora da Rede Bibliotecas pela Paz, da Prefeitura do Recife, Débora Etcheverria reconhece estes entraves burocráticos. “As documentações são uma exigência da Procuradoria Geral do Município, que necessita de amarrações jurídicas para os editais que envolvem aporte financeiro”, diz.</p>



<p>Segundo ela, o edital fez parte do programa Recife, Cidade Leitora, lançado em 2022. Entre os eixos, além do apoio às bibliotecas comunitárias, o projeto inclui ações de ampliação de pontos de leitura e a intenção de construir o Plano Municipal do Livro e da Leitura. “A gente tem consciência do papel das bibliotecas comunitárias nas ações de estímulo e acesso à leitura. Também temos previstas ações de parceria com realização de formações. Quanto ao edital, estamos buscando alternativas”, diz Débora.</p>
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		<title>Os diários de Mércia Albuquerque, advogada de mais de 500 presos políticos</title>
		<link>https://marcozero.org/os-diarios-de-mercia-albuquerque-advogada-de-mais-de-500-presos-politicos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Aug 2023 21:45:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[direitos humanos]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura militar]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>
		<category><![CDATA[Mércia Albuquerque]]></category>
		<category><![CDATA[presos políticos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 1993, quando fazia as pesquisas sobre o assassinato do militante mineiro José Carlos Novais da Mata Machado, assassinado no DOI-CODI do Recife em outubro de 1973, recebi uma informação importante da família Mata Machado:“Procure a advogada Mércia Albuquerque. Ela conseguiu localizar o local onde o corpo foi enterrado, conseguiu fazer a exumação e mandou [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><br>Em 1993, quando fazia as pesquisas sobre o assassinato do militante mineiro José Carlos Novais da Mata Machado, assassinado no DOI-CODI do Recife em outubro de 1973, recebi uma informação importante da família Mata Machado:<br><br>“Procure a advogada Mércia Albuquerque. Ela conseguiu localizar o local onde o corpo foi enterrado, conseguiu fazer a exumação e mandou para Belo Horizonte”.<br><br>Parecia um delírio, uma advogada conseguir uma façanha como aquela, no auge da ditadura. Entrei em contato, agendei uma entrevista e fui recebido em um apartamento simples, no centro do Recife, onde tivemos três longas conversas.<br><br>Chamava a atenção o pouco espaço para móveis e coisas de sua vida pessoal, e a grande quantidade de pastas, repletas de documentos, cartas, relatos, que ela foi guardando, do período em que se especializou em defender presos políticos durante o regime militar. Além de material da advogada, havia seus escritos, diários que certamente tinham muito do que ela viveu e sentiu na pele, porque se tornou amiga de muitos de seus “clientes”, que muitas vezes não tinham como pagar por seu trabalho. Muitas vezes, ela era que dava alguma ajuda. Muitas vezes, sequer a família sabia onde eles estavam presos. Foi ameaçada de morte muitas vezes.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Acervo no RN e a força dos diários</h2>



<p>Após a morte da advogada, em 2003, uma notícia pegou de surpresa os pernambucanos que conviveram com ela, ao longo de tantos anos. Seu marido, Otávio Albuquerque, por motivos afetivos, resolveu doar todo o material para o Centro de Direitos Humanos e Memória Popular, do Rio Grande do Norte, dirigido pelo economista<a href="https://saibamais.jor.br/2023/07/quem-foi-mercia-albuquerque-advogada-de-presos-politicos-tera-historia-contada/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> Roberto Monte</a>.</p>



<p>É um material valioso, que já rendeu dissertação de mestrado, tem inspirado uma peça teatral no Rio de Janeiro, e resultou no livro <em>Diários de Mércia Albuquerque: 1973-1974</em>, publicação da Editora Potiguariana, sob a coordenação do próprio Monte. O lançamento será hoje, às 18h30, na Universidade Católica de Pernambuco, durante o 8° Encontro de Comitês e Comissões da Verdade.</p>



<p>O livro tem 182 páginas, com inúmeras fotos do acervo da advogada. Na orelha do livro, o militante político pernambucano Marcelo Mário de Melo, que passou quase dez anos preso, resume a importância da advogada naqueles anos de repressão e prisões arbitrárias, muitas vezes sem qualquer notificação judicial: &#8220;Ela era um pronto socorro jurídico permanente”.<br><br>Só nos diários de 1973-1974, são citadas 100 pessoas, entre torturadores, delegados, carcereiros e pessoas conhecidas. “O material jurídico do acervo é imenso. Ela defendeu seguramente mais de 600 pessoas. Toda a sua atuação na Justiça Militar está registrada. Mas ela guardou muitas cartas bilhetes, telegramas, um material de toda a vida”, diz Monte.</p>



<p>Em 1998, lancei o livro <em>Zé</em>, sobre a vida do mineiro José Carlos Novais da Mata Machado. Um dos capítulos, “A luta pelo corpo”, é todo sobre a batalha da advogada para encontrar o corpo do Zé, a pedido do pai do militante, o respeitado jurista mineiro Edgar de Godoy da Mata Machado. O militante foi assassinado sob torturas no DOI-Codi do Recife, em 28 de outubro de 1973, e enterrado como indigente no cemitério da Várzea.</p>



<p>Mércia conseguiu encontrar a vala, fazer a exumação do corpo e mandá-lo para Belo Horizonte, numa luta feroz com os agentes da repressão e da Justiça Militar.</p>



<p>Foi a pessoa mais corajosa que conheci. Se tinha medo, era&nbsp;segredo&nbsp;seu.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Leia alguns trechos do livro:</strong></h3>



<p><br><strong>23 de abril de 1974</strong> &#8211; &#8220;Gostaria de voltar a ser criança porque criança não tem passado. É maravilhoso não ter o que recordar por melhor que seja lembrança, deixa sempre aquela pontinha de saudade.&#8221;<br><br><strong>19 de maio de 1974</strong> &#8211; ”Sinto-me tão mal como se fosse morrer. E não pretendo por enquanto. Meu coração é um desgraçado está sempre me pregando peças. Odiarei a pessoa que suspeita do meu mal. Não quero viver respeitada por uma saúde delicada. Todos têm vindo a apressar os meus dias. Quero ser gente, não um vaso rachado em uma vitrine que ninguém se atreve a tocá-lo para não despedaçá-lo”.</p>



<p><strong>24 de janeiro de 1974</strong> &#8211; “Não sei se pare, não sei se recue, não sei se avance. Parar é deixar a luta, é covardia . Covardia maior, é recuar. O que me resta então a fazer? É avançar . Avançar pode trazer a morte, matar o que importa se certa estou eu da minha luta? Lutar e morrer, lutar é viver, viver é lutar. Muitas vezes é melhor morrer do que viver.<br>Conheço mortos vivos e vivos mortos. Serei morta-viva, não serei viva morta. Estou presente com meus amigos ausentes, em lembranças ternas, que ressuscitarão”.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>O lançamento em Recife acontece nesta segunda-feira, dia 28 de agosto, às 18h30min, durante o 8º Encontro Norte e Nordeste de memória verdade e justiça, dia 28 as 18:30 na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), na rua rua&nbsp;do&nbsp;Príncipe.</strong></li></ul>



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	                                        <p class="m-0">Capa do livro publicado pela Editora Potiguariana. Crédito: Divulgação</p>
	                
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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong><br><br><em>Se você chegou até aqui, já deve saber que colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa&nbsp;</em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>página de doaçã</strong></a><strong><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o</a>&nbsp;</strong><em>ou, se preferir, usar nosso&nbsp;</em><strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em></p><p><strong>Apoie o jornalismo que está do seu lado</strong></p></blockquote>
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		<title>As trilhas da memória de um ativista da luta pelos direitos das pessoas com deficiência</title>
		<link>https://marcozero.org/as-trilhas-da-memoria-de-um-ativista-da-luta-pelos-direitos-das-pessoas-com-deficiencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Jul 2023 22:32:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Cabo de Santo Agostinho]]></category>
		<category><![CDATA[Geraldo Feitosa]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>
		<category><![CDATA[livro de memórias]]></category>
		<category><![CDATA[pessoas com deficiencia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Rafael Negrão* A deficiência visual nunca foi um empecilho na vida de Geraldo Feitosa, 69 anos, professor aposentado, poeta, cordelista, músico, ex-esportista, e escritor que, na sexta-feira (30), lançou na Câmara de Vereadores do Cabo, o segundo volume do livro Das Tralhas às Trilhas, que é dividido em 30 capítulos explorando enredos peculiares, convidando [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Rafael Negrão*</strong></p>



<p>A deficiência visual nunca foi um empecilho na vida de Geraldo Feitosa, 69 anos, professor aposentado, poeta, cordelista, músico, ex-esportista, e escritor que, na sexta-feira (30), lançou na Câmara de Vereadores do Cabo, o segundo volume do livro <em>Das Tralhas às Trilhas</em>, que é dividido em 30 capítulos explorando enredos peculiares, convidando o leitor a uma conversa tranquila numa varanda, ora para assistir aos folguedos de crianças travessas, para, logo depois, entregar-lhe a tensão de algum acontecimento dramático.&nbsp;</p>



<p>Feitosa explica porque a deficiência visual nunca limitou a sua escrita: “a visão não está no olho, mesmo o olho sendo um excelente ponto de visão, mas a visão está no cérebro, então, se você gosta de escrever, sabe que isso não é um problema. Temos várias possibilidades de escrever, pois existem vários editores de texto. Outrora, a maior dificuldade da pessoa cega é escrever um livro em braile, porque é necessário ter muita paciência, porque se errar uma letra tem que se refazer todo o texto”, revelou o autor.&nbsp;</p>



<p>Presente no evento e companheiro dos diversos movimentos ligados à luta das pessoas com deficiência, Manoel Aguiar, administrador de empresas com mestrado em Gestão Pública, traduziu a importância da obra e representatividade do escritor. “Eu sou uma pessoa com deficiência visual que conheço Geraldo há muitos anos. Fiquei muito emocionado com mais essa obra, porque é a história de uma pessoa vitoriosa. O livro cativa o leitor, porque expõe a desigualdade social do cidadão comum. A publicação é um misto de emoção e realidade social”, afirmou Manoel, um dos fundadores da Associação Pernambucana de Cegos (APEC).</p>



<p>Quem também prestigiou o lançamento do livro foi a advogada Iane Kraucs, que reside no Rio de Janeiro, mas está de passagem na casa dos pais, em Maria Farinha, em Paulista, e veio junto com os familiares prestigiar esse importante momento do escritor. “Conheci Maria Farinha ainda mais com a leitura da obra de Geraldo, que é sem dúvida, um excelente escritor e um ser fantástico de muito talento”, afirmou a advogada. </p>



<p>O lançamento do livro foi acompanhado por amigos, amigas, ex-colegas de trabalho, familiares e a população que se fez presente para prestigiar o escritor que viveu dez anos no município do Cabo de Santo Agostinho. “Eu fiz muitos amigos aqui, porque morei na década de 1980, e é muito bom voltar a cidade, e notar que o Cabo cresceu e muita coisa mudou”, afirmou Geraldo, que revelou que os dois filhos nasceram na cidade.</p>



<p>Vale destacar, os dois volumes do livro <em>Das Tralhas às Trilhas</em> foram traduzidos para o braille, e na ocasião do lançamento, o escritor Geraldo entregou um exemplar para Arsérgila Neves da coordenação da Educação Inclusiva do Cabo de Santo Agostinho. O livro está disponível através deste link por R$ 60,00: <a href="https://shp.ee/nww4sw2" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://shp.ee/nww4sw2</a>.</p>



<p>A obra faz arte de uma trilogia autobiográfica destacando a história do menino George, cego desde a sua primeira infância, que é o personagem central de toda a narrativa. É notório o crescimento do garoto e o despertar de uma inteligência vivaz, cultivada e estimulada pela própria mãe, sua primeira e maior educadora. Feitosa explica que a intenção é contar a história do que viveu porque “trilhas que são caminhos, pois eu espero através da minha escrita construir caminhos para outras pessoas enxergarem para além das limitações”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Feitosa entrega livro para a educadora Arsérgila Neves, Crédito: Rafael Negrão</p>
	                
                                    </figcaption>
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Quem é Geraldo Feitosa</strong></h3>



<p>Feitosa é poeta cordelista, escritor, professor de Língua Portuguesa, professor de braille, analista de tecnologia da informação, mas se notabilizou como ativista das lutas pelos direitos das pessoas com deficiência, atuando em em várias organização não governamentais, conselhos e instituições públicas nessa área. Não bastasse, Feitosa é músico e compositor, tendo fundado o grupo Flor de Macambira, no qual atuou como produtor, coordenador, instrumentista e vocalista.</p>



<p>*&nbsp;<strong>Rafael Negrão é jornalista e comunicador social, atuando como assessor de comunicação do Centro das Mulheres do Cabo (CMC).</strong></p>
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		<title>Livro comemora 140 anos de João Pernambuco, o esquecido &#8220;poeta do violão&#8221;</title>
		<link>https://marcozero.org/livro-comemora-140-anos-de-joao-pernambuco-o-esquecido-poeta-do-violao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Jun 2023 21:21:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[cultura popular]]></category>
		<category><![CDATA[João Pernambuco]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Abrindo as comemorações dos 140 anos do nascimento de João Pernambuco, o primeiro músico a compor para violão solo no Brasil, será pré-lançado, nesta quarta-feira (28), no Recife, o livro Raízes e Frutos da Arte de João Pernambuco &#8211; Uma Infinita Viagem, do jornalista José Leal, fundador do Instituto de Arte Popular João Pernambuco. Autodidata, [&#8230;]</p>
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<p>Abrindo as comemorações dos 140 anos do nascimento de João Pernambuco, o primeiro músico a compor para violão solo no Brasil, será pré-lançado, nesta quarta-feira (28), no Recife, o livro <em>Raízes e Frutos da Arte de João Pernambuco &#8211; Uma Infinita Viagem</em>, do jornalista José Leal, fundador do Instituto de Arte Popular João Pernambuco.</p>



<p>Autodidata, o pernambucano João Teixeira Guimarães (1883-1947) é considerado um patrimônio da música popular brasileira, autor da famosa toada “Luar do Sertão” e conhecido como “Poeta do violão”. No entanto, é um gênio que Pernambuco esqueceu, como mostrou a <strong>Marco Zero</strong> em <a href="https://marcozero.org/joao-pernambuco-genio-que-pernambuco-esqueceu/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">matéria</a> publicada em 22 de novembro de 2022, data em que se comemora o Dia do Músico.</p>



<p>O evento será às 19h no museu Paço do Frevo, no Bairro do Recife. Do livro de José Leal, nasce o desejo de reconciliar João Pernambuco no presente com essa memória esquecida, proporcionando ao grande público ter acesso a sua majestosa arte musical.</p>



<p>Nas palavras do jornalista, “o livro <em>Raízes e Frutos da Arte de João Pernambuco &#8211; Uma Infinita Viagem</em> proporciona ao Instituto de Arte Popular João Pernambuco realizar o inédito retorno do legado de João Pernambuco para seu estado natal. Essa importante iniciativa possibilita ampliar a difusão da arte musical do grande protagonista da história do violão e relevante personagem da música popular brasileira para conquistar o meritório reconhecimento”.</p>



<p>O livro é parte do projeto “João Pernambuco &#8211; Coração de Violão”, que também será pré-lançado nesta terça (27), um selo com realização do Instituto de Arte Popular João Pernambuco e da Fundação Brasil Meu Amor. </p>



<p>O projeto, que terá lançamento em novembro, irá percorrer seis cidades do sertão pernambucano (Tacaratu, Inajá, Floresta, Petrolândia, Jatobá e São José do Egito), além do Recife, reconstruindo a trajetória do músico, para a criação de um produto audiovisual. A caravana vai promover rodas de diálogos, registros de histórias orais de familiares, depoimentos de músicos que tocaram com João Pernambuco e de violonistas intérpretes de suas canções.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/joao-pernambuco-genio-que-pernambuco-esqueceu/" class="titulo">João Pernambuco, o gênio que Pernambuco esqueceu</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/cultura/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Cultura</a>
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	            </div>
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<h2 class="wp-block-heading">Do Sertão de Pernambuco para o Brasil</h2>



<p>Ferreiro de profissão, violonista e compositor por vocação, João Teixeira Guimarães nasceu em Bebedouro de Jatobá, no sertão pernambucano. Aos 8 anos, começou a dar seus primeiros acordes no violão com violeiros e cantadores locais. Em 1895, se muda com a família para o Recife. Aos 15 anos, já integrava as rodas de músicos populares da capital.</p>



<p>Em 1904, em busca de melhores condições de vida, João se muda para o Rio de Janeiro. Soube cultivar com maestria as raízes e os frutos de sua arte e, por ser tão dedicado à cultura pernambucana, ficou conhecido como o genial músico João Pernambuco.</p>



<p>Em sua trajetória artística, criou obras com ricos desenhos melódicos e figuras rítmicas, movendo-se por belos caminhos harmônicos. Por essa razão, foi reconhecido como o autor instrumentista que compunha lindos poemas com notas musicais, o que lhe valeu o título de “Poeta do violão”.</p>



<p>De espírito agregador e uma criativa energia coletiva, formou diversos grupos musicais, como o famoso “Grupo Caxangá”, conquistando imenso sucesso no período de 1913 a 1918, fazendo o sul e sudoeste do Brasil “pernambucarem”. João Pernambuco integrou o lendário grupo “Os Oito Batutas” e influenciou vários grupos musicais, consagrando-se como precursor da difusão da música nordestina nos variados recantos do Brasil.</p>



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