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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Lula deve assumir compromisso de garantir democracia para a população negra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Nov 2022 20:21:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2022]]></category>
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<p><strong>Por Myrella Santana</strong></p>



<p>Viver o dia 30 de outubro de 2022 foi emocionante. Não tem outra palavra pra descrever o que foi a noite desse dia, o que foi a ansiedade, os fogos, a festa, os gritos, o choro. A cidade do Recife foi tomada de gente festiva do centro a periferia. Todo dia nessa semana que antecedeu o segundo turno das eleições, todas as vezes que eu colocava os pés pra fora de casa, ainda cedinho, meus vizinhos perguntavam: domingo a gente ganha né? E ganhamos!</p>



<p>Eu vi a favela festejar como há muito tempo não via. Eu vi esperança nos olhos da minha mãe e a única coisa que importava naquele momento, era essa felicidade que inundava todo mundo. Lula presidente! Quatro anos de muitos pesadelos acabaram, mas ainda não significa que o sonho começou. Antes de falar desse sonho de Brasil, queria falar de Pernambuco. Raquel Lyra foi eleita a primeira mulher governadora de Pernambuco.</p>



<p>Um mandato que será abertamente de direita e que teve a campanha no segundo turno apoiada por ninguém mais e ninguém menos que os Collins e Tércios. O Brasil tem um presidencialismo de coalizão, o que não nos permite ter a ilusão ingênua que, escolher subir no palanque com Raquel ao invés de escolher a “neutralidade” foi apenas pela necessidade política de se posicionar.</p>



<p>Me questiono sobre quais lugares estão sendo pensados para essas duas famílias em seu governo. A escolha dessas secretarias me preocupa muito mais do que os ministérios na conjuntura nacional. As famílias que defendem a família, mas vão pra frente do Cisam chamar uma criança de assassina depois de ter sido abusada.</p>



<p>Até as pessoas mais conservadoras que conheço, e que são contra a descriminalização do aborto, entendem que é desumano não assegurar esse direito nos casos isolados já garantidos em lei, como no de estupro. Vi vários veículos de comunicação falarem novamente sobre isso nesse último mês, e de fato, não podemos deixar esquecer.</p>



<p>Uma segunda coisa que me incomoda é essa neutralidade sem medida da futura governadora. No seu discurso, no domingo, disse que traria Lula pra junto com a intenção de fazer uma gestão integrada com o governo federal, mas durante a sua campanha não tomou lado uma única vez, o que avalio ter relação direta com a minha primeira pontuação: o palanque bolsonarista que, além das duas famílias, reúne também a família Coelho.</p>



<p>Não assume compromisso com o piso salarial e não sabe o que pensa sobre câmera na farda dos polícias, Raquel sabe de pouquíssimas coisas quando já deveria saber de tudo. Muito semelhante ao governo PSB que ela tanto critica. Quero saber o que Raquel acha do pacto pela vida e do atual modelo de escola em tempo integral. De uma coisa eu tenho certeza, toda essa neutralidade vai impactar diretamente a periferia, como sempre. O problema é que não sabemos ainda até que ponto ou em que medida.</p>



<p>Vale reafirmar que, para nós, mulheres feministas, termos Raquel Lyra governadora de Pernambuco não significa efetivamente nenhum avanço para nós mulheres, pois ela não tem compromisso com nenhuma das nossas pautas. Essa neutralidade materializa ainda mais isso. Além disso, Pernambuco é um dos 10 estados com a maior população negra do Brasil e não tem absolutamente nada em seu plano de governo sobre isso. No observatório da segurança pública de Pernambuco, ela não pretende levar o quesito raça/cor em consideração? Os desafios para os movimentos sociais e organizações aqui em Pernambuco triplicaram.</p>



<p>Desde o meu primeiro texto aqui na Marco Zero Conteúdo coloco abertamente a minha insatisfação com relação à solução, melhoria e avanços nesse país sempre estar no colo da branquitude. A mesma que nunca resolveu nada. A favela ficou feliz como nunca, a gente celebrou tudo o que podia celebrar, a gente merecia descansar e chorar, depois de quatro anos com medo até de falar. Entretanto, sabemos que a eleição de Lula não significa 1% a menos de luta para nós, mulheres negras. E a luta agora é fazer com que o dia 2 de janeiro não seja como o 14 de maio de 1888.</p>



<p>Essa vitória tem que vir acompanhada de melhorias efetivas para o maior grupo demográfico residente neste país: as mulheres negras. Paridade de raça tem que ser considerada nos ministérios, o compromisso com a erradicação do racismo tem que ser prioridade na construção de toda e qualquer política pública. A eleição de Lula significou a preservação do sistema democrático, mas esse foi um sistema que nós nunca experienciamos.</p>



<p>Em 2023, um dos maiores compromissos que Lula deve assumir é que a população negra possa conhecer e desfrutar dessa democracia que tanto foi defendida ao longo da campanha. A fome, a miséria, a bala, a morte, não chegou na favela em 2018 e ele sabe disso. E como falei anteriormente: a esquerda branca precisa se responsabilizar pelas pedras que colocaram no nosso caminho. Não queremos estar sub-representadas, queremos estar no governo Lula. Queremos condições concretas para, em 2026, termos a primeira mulher negra eleita presidenta da República. Os partidos de esquerda precisam ter esse compromisso. Esse é o sonho do Brasil que queremos.</p>



<p>Na tarde desta terça-feira (1), Jair Bolsonaro fez seu primeiro posicionamento público depois da derrota amarga do domingo. Um discurso que pode dizer tudo e que também pode dizer nada, como sempre.  Questionou a legitimidade do processo eleitoral, fez o agradecimento mais vazio que já vi e pronto. Isso nos pede uma atenção redobrada para os próximos dois meses, o neoliberalismo se alimenta do pavor e caos gerados. É isso que Bolsonaro vem tentando fazer com seu silêncio.</p>



<p>Essa eleição, pra mim, foi a oportunidade de construir outras possibilidades. O futuro precisa ser agora. Eu quero ver a favela celebrando por ter um dos nossos lá. Eu quero que a igreja não seja a única a oferecer esperança de outros futuros possíveis e reais. Emicida traz, em um trecho de Ismália, que pra mim fala muito sobre tudo isso:</p>



<p>“Olhei no espelho, Ícaro me encarou:</p>



<p>&#8220;Cuidado, não voa tão perto do sol</p>



<p>Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei&#8221;</p>



<p>O abutre quer te ver drogado pra dizer:</p>



<p>&#8220;Ó, num falei?!””</p>



<p>Que a eleição de Lula seja uma oportunidade de caminho, mas jamais o fim. Que possamos rever as estratégias, visualizar novos horizontes e entender que a mudança não se faz no processo eleitoral, mas o processo eleitoral depende da mudança que fazemos no dia a dia. E que o Brasil se prepare para o que está por vir: uma mulher negra travesti fazendo seu discurso presidencial de reintegração de posse. Quando me perguntam o que quero, eu digo que quero tudo. Principalmente, meu nome escrito no jornal e não é por notícia policial.</p>



<p>Ver a favela celebrando a vitória de Lula reafirmou que a política de verdade se faz lá, nós levamos esse país nas costas. Que esses próximos quatro anos sejam de esperança, avanços e muita luta. Para além de todos os desafios colocados até aqui e dos milhões de outros que vão suceder, só conhece o peso dessa vitória quem sabe as dores e delícias de uma construção coletiva.</p>



<p>*<strong>Myrella Santana é graduanda em Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco. Integra a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e a Articulação Negra de Pernambuco. É Diretora Operacional e pesquisadora na Rede Internacional de Jovens LBTQIA+.</strong></p>



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		<title>Lula venceu, a luta continua!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Nov 2022 13:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[campanha na internet]]></category>
		<category><![CDATA[democracia]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2022]]></category>
		<category><![CDATA[Lula eleito]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Carmen Silva* Chegamos ao final da eleição de 2022. No domingo parecia que chegava o fim do mundo e não terminava a apuração. Foi muito tenso. Todas as pessoas democratas que acompanharam a eleição e, mais ainda, a apuração, estavam produndamente preocupadas com os destinos deste país. A hipótese assustadora de que Bolsonaro pudesse [&#8230;]</p>
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<p><strong>Por Carmen Silva*</strong></p>



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<p>Chegamos ao final da eleição de 2022. No domingo parecia que chegava o fim do mundo e não terminava a apuração. Foi muito tenso. Todas as pessoas democratas que acompanharam a eleição e, mais ainda, a apuração, estavam produndamente preocupadas com os destinos deste país. A hipótese assustadora de que Bolsonaro pudesse permanecer presidente do Brasil era por demais catastrófica. Enfim, Lula venceu. Nos envolvemos todes no livre exercício do direito à alegria. Foram muitas comemorações. Apesar da turba bolsonarista ainda estar tentando impressionar com bloqueios nas estradas, o que demonstra que esta transição não será simples, já é hora de avaliarmos o que aconteceu e projetar desafios para o futuro breve que o próximo período pode contemplar.</p>



<p>Importa reconhecer que não obstante nós tendêssemos mais para a crítica, a amplitude política da frente democrática possibilitou a eleição de Lula. Ela conquistou a vitória e gerou condições para que, no decorrer do próximo período, a questão das relações democráticas do trato político entre adversários de ideias não se transforme em polarizações baseadas em anulação do outro, mas em debate de projetos de país. É um sonho? Pode ser. Mas, certamente, sem a vitória de Lula ele não poderia ser sequer sonhado. Nesta seara, muito precisa ser feito para que possamos realmente retomar e radicalizar a democracia, especialmente a participação social, rumo a construção do poder popular.</p>



<p>Os movimentos sociais e, mais precisamente, os movimentos populares serão reconhecidos pelo novo governo como sujeitos políticos com causas próprias e não apenas como apoiadores da linha traçada nos gabinetes do planalto. É um sonho maior ainda? Pode ser. Mas há que se ver que sem os movimentos, coletivos periféricos, comitês populares, a campanha não teria chegado ao enraizamento que chegou. Sem as músicas em todos os ritmos, os piseiros, as mobilizações locais, a produção de material de propaganda próprio, as banquinhas de vira voto, a campanha não teria tomado a dimensão que tomou. É preciso que estes sujeitos sejam ouvidos com suas próprias vozes. E o movimento feminista popular é um deles.</p>



<p>A disputa nas redes sociais, por sua vez, demonstrou a sua importância, mas, ao mesmo tempo, apresentou a dificuldade de uso do todo o potencial tecnológico e pragmático que as redes têm sem que se perca a perspectiva ética da política, que é cara para a esquerda. O mundo paralelo que o bolsonarismo criou é muito dificilmente acessado pelos que transitam na esfera pública como a conhecemos. Neste campo, este momento pode contribuir para a aprendizagem sobre o que de fato acontece massivamente com as pessoas a partir de campanhas sistemáticas de desinformação, manipulação das emoções, articulação simbólica de referências e produção de novas sociabilidades levadas a efeito pelos aplicativos mensageiros e redes sociais com potencial imagético. Vai ser necessário debater o que isso implica no sentimento do que é verdade ou mentira e nas identidades políticas que vão sendo construídas ao longo do tempo e que se manifestam em um momento de enorme fluxo de relações de poder como é o momento eleitoral.</p>



<p>Os desafios que enfrentamos nesta campanha estão vivos: a divergência que bifurcou o país, seguirá. Não que todos os eleitores de Bolsonaro sejam bolsonaristas, não o são. Muitas pessoas foram capturadas pela polarização, pelo antipetismo, pela orientação de voto dada pelo pastor ou pelo patrão e pela desinformação em geral. A campanha mobilizou muitos sentimentos que ainda precisam ser estudados. Mas importa reafirmar que cada eleitor dele tinha um Bolsonaro pra chamar de seu, ou seja, eles trabalharam com a ideia de grupos perfilados e cada perfil de grupo social recebia imagens de Bolsonaro que se adequavam aos seus desejos.</p>



<p>Os mecanismos comunicacionais usados pelo bolsonarismo em quatro anos, e não só na campanha, toldaram o debate eleitoral. Isso desafia a reconstrução do país em bases democráticas, incluindo aí a comunicação pública. É preciso discutir o sistema de comunicação e, mais ainda, a internet, tanto no sentido das desigualdades regionais e sociais de acesso, como na ausência total de padrões éticos que inibam manipulações como as que assistimos. As pessoas, e nossas subjetividades, estão sendo capturadas pelas grandes corporações através dos algoritmos. Produzimos dados para elas e elas manipulam nossas preferências, emoções, sentimentos e linhas políticas gerais. Certamente é possível resistir, mas para ampliar nossa força precisamos garantir uma ambiência a ser gerada pela democratização da internet. Esta é uma pauta fundamental para o próximo período.</p>



<p>Um outro desafio que teve centralidade no reduzido debate programático da campanha foi a questão ambiental, e mais precisamente a Amazônia. Eu diria que se trata de uma questão de justiça socioambiental. A discussão deve ser, na nossa perspectiva, sobre a mudança de padrão da relação entre nós seres humanos e os outros entes vivos, a quem chamamos de natureza. E quais implicações esta relação tem para nossas condições de vida e das futuras gerações. Aqui há muito a ser revisto em relação ao primeiro período do governo petista, e muito a ser feito.</p>



<p>Não é possível neste espaço resgatar todos os desafios que o momento político coloca para a sociedade brasileira. Todavia, quero fechar trazendo à tona o debate sobre o direito ao aborto. Na legítima disputa pelo voto dos contrários, Lula colocou na pauta do último debate de TV esta questão. Ele, que em outros momentos já defendeu que o aborto é uma questão de saúde pública, neste momento trouxe o tema para fazer a crítica ao adversário colocando-o no lugar de defensor. Ocorre que a fala de Bolsonaro, de trinta anos atrás, citada no debate, defendia, a bem da verdade, o controle da natalidade usando como método o aborto. O controle da natalidade, contrário ao planejamento familiar, é uma prática eugenista de impulsionar o desenvolvimento reduzindo a população pobre, majoritariamente preta. Ele foi implantado no Brasil com a esterilização em massa de mulheres negras e submetidas à pobreza na década de 1970, situação que foi confrontada pelo nascente movimento feminista. Lula poderia ter usado o mesmo discurso para expor a tendência nazista do adversário. Para nós, do movimento feminista, o aborto é um direito, fundamentado em nossa autodeterminação reprodutiva e na autonomia sobre nossos corpos. E desta luta não abrimos mão.</p>



<p>*<strong>Carmen Silva é socióloga, constrói o SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia, é militante do Fórum de Mulheres de Pernambuco e da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político.</strong></p>



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