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	<title>Arquivos Lula presidente - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos Lula presidente - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>&#8220;Democracia para sempre&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Jan 2023 00:14:56 +0000</pubDate>
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<p><strong>por Vasconcelo Quadros*</strong>, <strong>especial para a Marco Zero</strong></p>



<p>As 16h53m deste domingo, 1º de janeiro de 2023, numa caminhada de dois minutos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, subiu a rampa do Palácio do Planalto, recebeu a faixa verde e amarela presidencial, ajeitada em seu peito pela catadora de papelão Aline Souza, dirigiu-se ao parlatório para falar ao país durante 28 minutos e, logo em seguida, sentou na cadeira cujo símbolo foi tão desrespeitado nos últimos quatro anos.</p>



<p>Lula encerrou assim a cerimônia do capítulo mais importante de sua trajetória de 42 anos na política, calando extremistas de direita que há dois meses ocupam o Quartel General do Exército, em Brasília, para pedir golpe militar em cima do delirante bordão “não vai subir a rampa”. Lula subiu com tranquilidade duas rampas, a do Congresso, onde foi formalmente empossado, e a do Planalto.</p>



<p>No discurso de 28 minutos no parlatório, o segundo do dia, chorou várias vezes ao falar da volta da miséria, mas prometeu um amplo governo de reconstrução cuja tônica será o combate às desigualdades, justiça social, solidariedade e amor ao próximo, práticas que nos quatro anos de seu antecessor, sobretudo na eleição, deram lugar ao ódio, desesperança e mentira.</p>



<p>“A ninguém interessa um país em permanente pé de guerra, ou uma família vivendo em desarmonia. É hora de reatarmos os laços com amigos e familiares, rompidos pelo discurso de ódio e pela disseminação de tantas mentiras. O povo brasileiro rejeita a violência de uma pequena minoria radicalizada que se recusa a viver num regime democrático. Chega de ódio, fake news, armas e bombas. Nosso povo quer paz para trabalhar, estudar, cuidar da família e ser feliz. A disputa eleitoral acabou”, afirmou o presidente.</p>



<p>Desde que subiu a rampa, Lula se manteve sempre ao lado da primeira dama, Janja, do vice-Geraldo Alckmin, da mulher deste, Lu, e de um grupo que representou o povo brasileiro na transmissão da faixa presidencial, o mais conhecido deles o cacique caiapó Raoni. “Não existem dois brasis. Somos um único país, um único povo, uma grande nação. (&#8230;) Juntos, somos fortes. Divididos, seremos sempre o país do futuro que nunca chega, e que vive em dívida permanente com o seu povo.”, observou.</p>



<p>Lula afirmou que o Brasil voltou a ser um dos países mais desiguais do mundo. “Há muito tempo não víamos tamanho abandono e desalento nas ruas. Mães garimpando lixo em busca de alimento para seus filhos. Famílias inteiras dormindo ao relento, enfrentando frio, a chuva e o medo. Crianças vendendo bala ou pedindo esmola, quando deveriam estar na escola vivendo plenamente a infância que tem direito”, disse o presidente que, voz embargada, não conseguiu conter o choro quando citou o dilema de desempregados. “Trabalhadores e trabalhadoras desempregados, exibindo nos semáforos cartazes de papelão com a frase: por favor, me ajude”, lembrou o presidente, se comprometendo a cuidar de todos os brasileiros, independentemente do partido ou candidato em quem votaram.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O otimismo de Lula</strong></h2>



<p>Ele prometeu acabar com a fome, que está de volta e atinge cerca de 33 milhões de brasileiros, 5% a mais do que encontrou em 2003, ao assumir o primeiro mandato, e resgatar da pobreza mais de 100 milhões de pessoas à beira da miséria. “Reassumo o compromisso de tirar o pobre da fila do osso para colocá-lo novamente no orçamento da União”, garantiu.</p>



<p>Foi um discurso otimista cujas linhas básicas, da economia às necessidades sociais, reforçam a intenção de ampliar a democracia tantas vezes ameaçadas, reconstruir as políticas públicas desmontadas ao logo dos últimos quatro anos, dinamizar a economia e atrair investimentos estrangeiros tirando o Brasil da condição de pária internacional em decorrência da permissividade do governo anterior com crimes ambientais. Prometeu que o país voltará a níveis de desmatamento e emissão carbono zero, se ajustará às políticas climáticas e fará a roda da economia voltará a girar com o consumo da população no papel central.</p>



<p>O presidente garantiu que vai valorizar o salário mínimo, acabar com as filas no INSS e, do diálogo entre governo empresários e sindicatos, proporá uma nova legislação trabalhista ao país, conciliando liberdade de empreender com proteção social. O plano de economia inclui também investimentos na indústria do conhecimento, estratégia conectada ao diálogo com o setor produtivo, bancos públicos e estatais no estímulo a pesquisa.</p>



<p>A herança do bolsonarismo, segundo o presidente, é um legado de destruição dos órgãos públicos e de uma economia com reservas de R$ 370 bilhões deixadas pelo governo petista. “Infelizmente, muito do que construímos em 13 anos foi destruído em menos da metade desse tempo. Primeiro, pelo golpe de 2016 contra a presidenta Dilma. E na sequência, pelos quatro anos de um governo de destruição nacional cujo legado a História jamais perdoará: 700 mil brasileiros e brasileiras mortos pela covid-19, 125 milhões sofrendo algum grau de insegurança alimentar, de moderada a muito grave, 33 milhões passando fome”, disse.</p>



<p>O presidente citou um trecho do relatório produzido pelo grupo de transição mostrando que o país bateu recordes de feminicídios, as políticas de igualdade racial sofreram severos retrocessos, houve desmonte generalizado das políticas de juventude ao mesmo tempo em que os direitos indígenas “nunca foram tão ultrajados na história recente do país”. Segundo ele, não há recursos para merenda escolar ou para a Defesa Civil combater acidentes e desastres, nem chegaram a ser editados os livros didáticos para este ano letivo, faltam remédios no programa Farmácia Popular e, enquanto a pandemia da covid-19 dá sinais de retorno, não há estoques de vacinas no país.</p>



<p>“Quem está pagando a conta deste apagão é o povo brasileiro”, afirmou Lula. O presidente não poupou críticas a Bolsonaro, mas garantiu que não agirá com ressentimento ou revanchismo e que os crimes praticados serão investigados pelas instituições e seus responsáveis punidos na forma da lei. “A liberdade que eles pregam é a de oprimir o vulnerável, massacrar o oponente e impor a lei do mais forte acima das leis da civilização. O nome disso é barbárie”, apontou Lula.</p>



<p>“Não carregamos nenhum ânimo para ódio de revanche contra os que tentaram subjugar a nação a seus designíos pessoas e ideológicos, mas vamos garantir o primado da lei. Quem errou, responderá por seus erros, com amplo direito de defesa. O mandato que recebemos, frente a adversários inspirados no fascismo, será defendido com os poderes que a Constituição confere à democracia”, afirmou, se referindo às tentativas golpistas da direita inconformada com a derrota. “Ao terror e a violência responderemos com a lei e suas mais duras consequências”, afirmou, lembrando que se no processo de redemocratização o slogan era “ditadura nunca mais!”, diante dos desafios impostos pelo bolsonarismo é necessário um novo bordão: “Democracia sempre!”, enfatizou.</p>



<p>Lula repetiu a necessidade de reconciliar políticos, recuperar as instituições e remontar os programas sociais interrompidos, sem deixar de lembrar que a direita tentou destruí-lo através de ações da Operação Lava Jato, o impeachment sem motivação de sua correligionária Dilma Rousseff, em 2016, sua prisão, em abril de 2017, e condenações que o impediram de se candidatar em 2018, anuladas no mesmo período em que o juiz de Curitiba que o sentenciou, o senador eleito Sérgio Moro, foi julgado parcial pelo Suprem Tribunal Federal (STF) por ter politizado e usado artifícios ilegais no processo dirigido contra o petista. O desafio mais recente de calá-lo, lembrou, veio da avalanche de crimes eleitorais praticados pelo antecessor com uso escancarado do Estado para tentar evitar uma derrota desenhada desde que deixou a prisão, em novembro de 2019, depois de 580 dias de encarceramento em Curitiba.</p>



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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Desafios: a economia e os militares</strong></h3>



<p>Ao assumir o governo para um inédito terceiro mandato pelas urnas, Lula terá pela frente uma série de desafios na área econômica, entre eles o controle da inflação, a reforma tributária que terá de negociar com governadores e Congresso e a reconstrução das pontes destruídas por Bolsonaro na relação com países importadores como a China, Estados Unidos e União Europeia, que já aprovou sanções contra produtos brasileiros que se originem de áreas desmatadas ou alvo de crimes ambientais.</p>



<p>Na política, o presidente vai enfrentar uma oposição que não saiu das ruas e, ruidosa, ameaça com ações violentas numa nova tentativa de gerar caos na vã tentativa de atrair forças militares para o golpismo. Uma fonte do PT disse que ninguém acredita que o extremismo encontre apoio para aventuras autoritárias, mas lembrou que é necessário ficar atento a movimentos que possam fomentar um cenário de caos que possa gerar instabilidade entre governo e Congresso. Nesse sentido, o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, serve como alerta para as novas conspirações: os golpes não se dão mais com tanques nas ruas, mas pela via parlamentar.</p>



<p>Especialistas ouvidos pelo Marco Zero avaliam que o maior desafio do presidente Lula, diante das arruaças e ameaças de atentados a bomba por manifestantes acampados em frente aos quartéis, será a relação que o novo governo terá com as Forças Armadas. Do golpe que derrubou a monarquia, em 1889, à derrocada do projeto de poder com a derrota de Bolsonaro, o militarismo é um enclave na política que, graças à fragilidade e o medo de governantes civis, se colocou acima das demais instituições, ora como protagonista, como na ditadura de 21 anos que se encerrou em 1985, ou como uma espécie de eminência parda ameaçadora durante os quatro anos em que Bolsonaro flertou, sem sucesso, com a aventura autoritária.</p>



<p>O projeto golpista não foi em frente porque Bolsonaro recuou por temer represálias do Supremo Tribunal Federal, onde se sobressaíram as decisões do ministro Alexandre de Moraes, presidente do TSE, bastante aplaudido quando seu nome foi citado na posse de Lula neste domingo no Congresso.</p>



<p>Embrião de organizações paramilitares, os extremistas de direita, formado em seu núcleo principal por empresários do agro, militares da reserva e ex-policiais, encontraram voz e inspiração no silêncio condescendente de Bolsonaro. É no mínimo simbólico que esses grupos tenham escolhido áreas de controle militar para acampar e, um surrealismo sem paralelo, pedir intervenção das Forças Armadas para impedir a posse de um governante legitimamente eleito diante do silêncio constrangedor dos comandantes militares.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Porta dos fundos</strong></h3>



<p>Bolsonaro passou o ano novo em Orlando, nos Estados Unidos, para onde viajou dois dias antes do encerramento do mandato, com retorno em aberto e incerto diante do cerco judicial do qual é alvo por uma série de crimes, que vão da sabotagem ao combate da pandemia ao uso desbragado da máquina pública para tentar evitar a derrota. Sem imunidade, o ex-presidente teme uma prisão dada como certa por seus advogados. Repetindo gestos antidemocráticos que marcou seu governo, abandonou o país e a liturgia para não entregar a faixa presidencial a Lula. Esperava-se que o então vice, Hamilton Mourão o fizesse.</p>



<p>O senador eleito também se desviou, mas não deixou passar a oportunidade de, à véspera da posse, fazer um pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão, no qual, muito diferente do silêncio de quatro anos, sem citar o nome, criticou duramente Bolsonaro por este ter estimulado manifestantes que pediam golpe militar.</p>



<p>“Lideranças que deveriam tranquilizar e unir a nação em torno de um projeto de país deixaram com que o silêncio ou o protagonismo inoportuno e deletério criasse um clima de caos e de desagregação social e de forma irresponsável deixaram que as Forças Armadas de todos os brasileiros pagassem a conta, para alguns por inação e para outros por fomentar um pretenso golpe”, disse Mourão, num sinal de que tem apoio de parte da cúpula militar para abandonar Bolsonaro e se colocar como possível candidato presidencial em 2026 na guerra intestinal pelo controle do eleitorado de direita.</p>



<p>O capitão e o general que comandaram o insólito governo não inovaram na quebra da liturgia: o marechal Floriano Peixoto e o general João Batista de Figueiredo em gestos igualmente arrogantes já haviam deixado o governo pela porta dos fundos, sem entregar a faixa aos sucessores. Lula deixou claro que não via relevância além do cumprimento do ritual do poder, mas aproveitou a deixa para homenagear o povo brasileiro: preferiu receber a faixa de um grupo formado pelos grupos que mais foram perseguidos ou ignorados pelas políticas públicas no governo que se encerrou. O presidente evitou de tratar da questão militar nas solenidades de posse, mas tem apoio da classe política para definir um novo papel às Forças Armadas.</p>



<p><strong>* foi correspondente do Jornal do Brasil, entre 2005 e 2006, na Amazônia; entre 2006 e 2002, em São Paulo, com passagens pela Agência Estado, Folha da Tarde, Diário Popular, sucursal do Jornal do Brasil e revista IstoÉ; de 2002 até 2019, já em Brasília, passagens pelas sucursais da IstoÉ, Estadão, Jornal do Brasil, entre outros, sempre atuando na editoria de Brasil (antiga Nacional ou Geral).</strong></p>



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		<title>Há muito o que comemorar, e ainda mais a resistir</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 03 Nov 2022 18:52:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Bia Pankararu Nunca antes na história das eleições, desde a redemocratização do país, tivemos um segundo turno com uma diferença tão pequena entre os dois concorrentes a Presidência da República. Mesmo com a máquina pública a seu favor, Bolsonaro é o primeiro presidente que não consegue se reeleger e Lula o desbancou recebendo 2 [&#8230;]</p>
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<p><strong>Por Bia Pankararu</strong></p>



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<p>Nunca antes na história das eleições, desde a redemocratização do país, tivemos um segundo turno com uma diferença tão pequena entre os dois concorrentes a Presidência da República. Mesmo com a máquina pública a seu favor, Bolsonaro é o primeiro presidente que não consegue se reeleger e Lula o desbancou recebendo 2 milhões de votos a mais que o atual presidente, consolidando sua vitória com 50,90% dos votos válidos.</p>



<p>A vitória de Lula, por mais apertada que pareça à primeira vista, pode ser considerada uma vitória histórica e heroica. Dias antes da eleição, o diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal, Silvinei Vasques, publicou em suas redes sociais mensagens de apoio e pedidos de votos para o atual presidente Bolsonaro. A parcialidade e o aparelhamento das polícias ficou escancarada quando no domingo, dia 30, operações nas rodovias federais e estaduais causaram transtornos, atrasos e uma onda de revolta naqueles que se deslocavam para exercer o direito máximo do voto. Foram registradas 549 operações da PRF em pleno domingo de eleição, sendo 272 destas no Nordeste. Ou seja, 49,50% da operações se concentraram na região que indicava levar a vitória ao ex-presidente Lula. Coincidência?</p>



<p>Mesmo com todas as artimanhas possíveis e imagináveis do bloco bolsonarista, com as Fake News, o orçamento secreto à disposição para compra de votos e a clara manobra da PFR em dificultar a locomoção dos eleitores, mais de 60 milhões de brasileiros compareceram às urnas para sacramentar a saída de Bolsonaro da cadeira presidencial. O primeiro grande passo foi dado para que possamos retornar ao caminho progressista e de civilidade democrática, mas ainda há muito o que ser feito para derrotarmos de vez os ideais bolsonaristas que flertam com o fascismo, o fundamentalismo, a teocracia e o autoritarismo diante da classe trabalhadora e menos favorecida do país.</p>



<p>Lula irá assumir o governo daqui dois meses, mas já estamos de volta ao rol político mundial, retomando o respeito e a credibilidade que Bolsonaro jogou na lata de lixo da diplomacia. Dezenas de chefes de Estado comemoraram e cumprimentaram nosso mais novo presidente eleito. Os investidores externos já sinalizam interesse em reforçar os negócios por aqui e esse sinal se deu com a queda do dólar e a valorização do real um dia após a eleição. As pautas ambientais e climáticas aguardam ansiosas pela participação do governo Lula e temos tudo para sermos protagonistas na defesa do meio ambiente do planeta Terra.</p>



<p>Os povos indígenas conseguem respirar um pouco mais aliviados. Depois de segurar o fôlego por quase quatro anos sofrendo ataques diários, invasões e perseguições em vários territórios ancestrais de norte a sul, com diversas lideranças indígenas e defensores de direitos humanos executados, como Bruno Pereira e Dom Phillips, um caso que ganhou repercussão mundial, mas foi minimizado por Bolsonaro. A promessa de Lula em criar o Ministério dos Povos Originários traz à tona a urgência em termos mais seriedade e protagonismo para aqueles que garantem a preservação de 80% da biodiversidade do mundo. Investimentos em tecnologia, ciência e pesquisas com participação internacional, manejo sustentável e reforço à política socioambiental foram palavras fortes durante a campanha de Lula.</p>



<p>A certeza de que teremos no próximo governo prioridades como o combate à fome e às desigualdades sociais nos trazem de volta ares de esperança em dias melhores. Combater o racismo e a misoginia, defender as crianças e adolescentes, investir na educação para recuperar o atraso escolar causado pela má gestão durante a pandemia serão tarefas constantes para a equipe de Lula. Sem falar na saúde que foi deteriorada de dentro para fora, com vários indícios de corrupção, desvio de verbas e sucateamento do SUS visando as privatizações. Não será uma transição fácil. Não pegaremos a casa organizada e o quanto eles puderem dificultar, irão fazer.</p>



<p>Nesse momento, bolsonaristas estão nos entregando cenas ridículas e vergonhosas pelas estradas do país. Inconformados, vários grupos fecharam BRs por não aceitar a derrota de Bolsonaro nas urnas. De pedidos de intervenção militar, golpe de estado, fechamento do STF, até placas dizendo “ninguém irá comer o meu cachorro”, a realidade paralela em que essas pessoas estão vivendo ultrapassaram, há muito tempo, os limites da liberdade de expressão e chegam a crimes. A mesma PFR que foi tão ativa para realizar operações no dia da eleição segue inerte, compassiva e cumplice dos arruaceiros. Mesmo com a determinação do STF para que os bloqueios das rodovias fossem cessados imediatamente, já são três dias de um show de horrores antidemocráticos em vários pontos do país. Para quem achava que a vitória do PT transformaria o país numa ditadura, pedir golpe de estado para Bolsonaro seguir no poder é a prova da ignorância vil e da incoerência em que essas pessoas vivem. Enquanto os militantes bolsonaristas estão nas estradas causando tumulto, aqueles que os financiam seguem no submundo da civilidade.</p>



<p>Existe uma parcela considerável da população que seguirá se identificando com os discursos e comportamentos racistas, machistas, homofóbicos, xenofóbicos e de total desprezo pelos mais pobres. É exatamente contra essa parcela da sociedade que precisamos seguir em resistência. Células neonazistas estão crescendo no sul do país, principalmente em Santa Catarina. Nesse dia de finados, uma cena escabrosa onde militantes bolsonarista fizeram a saudação nazista, de braços estendidos em direção da bandeira enquanto tocava o hino nacional. São criminosas e doentias ações como essa e devem ser combatidas com veemência.</p>



<p>Como disse Caetano Veloso, “é preciso estar atento e forte”. Uma onda de euforia tomou parte do nosso povo com a volta de Lula, mas uma onda reacionária também toma conta de parte da população e precisamos de estratégia para trazer de volta a sanidade coletiva. Tenho certeza que esse trabalho não será apenas para um mandato de quatro anos, será um trabalho para a nossa geração. É preciso conhecer o passado para pode analisar o presente e, só assim, vislumbrar um futuro. Nosso presente está obscuro demais quando temos, em plena luz do dia, pessoas fazendo saudações nazistas e pedindo um golpe de estado e nada acontece, ninguém é responsabilizado e punido.</p>



<p>Não existem dois Brasis, mas existem dois modelos de sociedade em pauta. Tiramos Bolsonaro da presidência, mas ainda teremos um Congresso e um Senado cheio de bolsonaristas. Nossa missão é entender que o bolsonarismo não representa a maioria do povo brasileiro. A maioria do povo deseja saúde, educação, emprego, comida na mesa e um projeto de sociedade com mais igualdade social. Vamos comemorar sim, vamos encher nossos pulmões de esperança, mas sem baixar  a. Nossa jovem democracia passa por momentos turbulentos e cabe a cada um de nós fazer a nossa parte por um presente e um futuro melhor para todos. A eleição de Lula trouxe um sopro de vitalidade e autoestima na nossa gente, e esse sopro irá acender a chama de bons tempos que virão. Que assim seja.</p>



<p>*<strong>Bia Pankararu tem 28 anos, é mulher indígena, sertaneja, mãe de Otto, LGBT+, técnica em enfermagem e produtora cultural e audiovisual. Ativista pelos direitos humanos e ambientais. Comunicadora da rede @povopankararu.</strong></p>



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		<title>Lula deve assumir compromisso de garantir democracia para a população negra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Nov 2022 20:21:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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		<category><![CDATA[Raquel Lyra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Myrella Santana Viver o dia 30 de outubro de 2022 foi emocionante. Não tem outra palavra pra descrever o que foi a noite desse dia, o que foi a ansiedade, os fogos, a festa, os gritos, o choro. A cidade do Recife foi tomada de gente festiva do centro a periferia. Todo dia nessa [&#8230;]</p>
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<p><strong>Por Myrella Santana</strong></p>



<p>Viver o dia 30 de outubro de 2022 foi emocionante. Não tem outra palavra pra descrever o que foi a noite desse dia, o que foi a ansiedade, os fogos, a festa, os gritos, o choro. A cidade do Recife foi tomada de gente festiva do centro a periferia. Todo dia nessa semana que antecedeu o segundo turno das eleições, todas as vezes que eu colocava os pés pra fora de casa, ainda cedinho, meus vizinhos perguntavam: domingo a gente ganha né? E ganhamos!</p>



<p>Eu vi a favela festejar como há muito tempo não via. Eu vi esperança nos olhos da minha mãe e a única coisa que importava naquele momento, era essa felicidade que inundava todo mundo. Lula presidente! Quatro anos de muitos pesadelos acabaram, mas ainda não significa que o sonho começou. Antes de falar desse sonho de Brasil, queria falar de Pernambuco. Raquel Lyra foi eleita a primeira mulher governadora de Pernambuco.</p>



<p>Um mandato que será abertamente de direita e que teve a campanha no segundo turno apoiada por ninguém mais e ninguém menos que os Collins e Tércios. O Brasil tem um presidencialismo de coalizão, o que não nos permite ter a ilusão ingênua que, escolher subir no palanque com Raquel ao invés de escolher a “neutralidade” foi apenas pela necessidade política de se posicionar.</p>



<p>Me questiono sobre quais lugares estão sendo pensados para essas duas famílias em seu governo. A escolha dessas secretarias me preocupa muito mais do que os ministérios na conjuntura nacional. As famílias que defendem a família, mas vão pra frente do Cisam chamar uma criança de assassina depois de ter sido abusada.</p>



<p>Até as pessoas mais conservadoras que conheço, e que são contra a descriminalização do aborto, entendem que é desumano não assegurar esse direito nos casos isolados já garantidos em lei, como no de estupro. Vi vários veículos de comunicação falarem novamente sobre isso nesse último mês, e de fato, não podemos deixar esquecer.</p>



<p>Uma segunda coisa que me incomoda é essa neutralidade sem medida da futura governadora. No seu discurso, no domingo, disse que traria Lula pra junto com a intenção de fazer uma gestão integrada com o governo federal, mas durante a sua campanha não tomou lado uma única vez, o que avalio ter relação direta com a minha primeira pontuação: o palanque bolsonarista que, além das duas famílias, reúne também a família Coelho.</p>



<p>Não assume compromisso com o piso salarial e não sabe o que pensa sobre câmera na farda dos polícias, Raquel sabe de pouquíssimas coisas quando já deveria saber de tudo. Muito semelhante ao governo PSB que ela tanto critica. Quero saber o que Raquel acha do pacto pela vida e do atual modelo de escola em tempo integral. De uma coisa eu tenho certeza, toda essa neutralidade vai impactar diretamente a periferia, como sempre. O problema é que não sabemos ainda até que ponto ou em que medida.</p>



<p>Vale reafirmar que, para nós, mulheres feministas, termos Raquel Lyra governadora de Pernambuco não significa efetivamente nenhum avanço para nós mulheres, pois ela não tem compromisso com nenhuma das nossas pautas. Essa neutralidade materializa ainda mais isso. Além disso, Pernambuco é um dos 10 estados com a maior população negra do Brasil e não tem absolutamente nada em seu plano de governo sobre isso. No observatório da segurança pública de Pernambuco, ela não pretende levar o quesito raça/cor em consideração? Os desafios para os movimentos sociais e organizações aqui em Pernambuco triplicaram.</p>



<p>Desde o meu primeiro texto aqui na Marco Zero Conteúdo coloco abertamente a minha insatisfação com relação à solução, melhoria e avanços nesse país sempre estar no colo da branquitude. A mesma que nunca resolveu nada. A favela ficou feliz como nunca, a gente celebrou tudo o que podia celebrar, a gente merecia descansar e chorar, depois de quatro anos com medo até de falar. Entretanto, sabemos que a eleição de Lula não significa 1% a menos de luta para nós, mulheres negras. E a luta agora é fazer com que o dia 2 de janeiro não seja como o 14 de maio de 1888.</p>



<p>Essa vitória tem que vir acompanhada de melhorias efetivas para o maior grupo demográfico residente neste país: as mulheres negras. Paridade de raça tem que ser considerada nos ministérios, o compromisso com a erradicação do racismo tem que ser prioridade na construção de toda e qualquer política pública. A eleição de Lula significou a preservação do sistema democrático, mas esse foi um sistema que nós nunca experienciamos.</p>



<p>Em 2023, um dos maiores compromissos que Lula deve assumir é que a população negra possa conhecer e desfrutar dessa democracia que tanto foi defendida ao longo da campanha. A fome, a miséria, a bala, a morte, não chegou na favela em 2018 e ele sabe disso. E como falei anteriormente: a esquerda branca precisa se responsabilizar pelas pedras que colocaram no nosso caminho. Não queremos estar sub-representadas, queremos estar no governo Lula. Queremos condições concretas para, em 2026, termos a primeira mulher negra eleita presidenta da República. Os partidos de esquerda precisam ter esse compromisso. Esse é o sonho do Brasil que queremos.</p>



<p>Na tarde desta terça-feira (1), Jair Bolsonaro fez seu primeiro posicionamento público depois da derrota amarga do domingo. Um discurso que pode dizer tudo e que também pode dizer nada, como sempre.  Questionou a legitimidade do processo eleitoral, fez o agradecimento mais vazio que já vi e pronto. Isso nos pede uma atenção redobrada para os próximos dois meses, o neoliberalismo se alimenta do pavor e caos gerados. É isso que Bolsonaro vem tentando fazer com seu silêncio.</p>



<p>Essa eleição, pra mim, foi a oportunidade de construir outras possibilidades. O futuro precisa ser agora. Eu quero ver a favela celebrando por ter um dos nossos lá. Eu quero que a igreja não seja a única a oferecer esperança de outros futuros possíveis e reais. Emicida traz, em um trecho de Ismália, que pra mim fala muito sobre tudo isso:</p>



<p>“Olhei no espelho, Ícaro me encarou:</p>



<p>&#8220;Cuidado, não voa tão perto do sol</p>



<p>Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei&#8221;</p>



<p>O abutre quer te ver drogado pra dizer:</p>



<p>&#8220;Ó, num falei?!””</p>



<p>Que a eleição de Lula seja uma oportunidade de caminho, mas jamais o fim. Que possamos rever as estratégias, visualizar novos horizontes e entender que a mudança não se faz no processo eleitoral, mas o processo eleitoral depende da mudança que fazemos no dia a dia. E que o Brasil se prepare para o que está por vir: uma mulher negra travesti fazendo seu discurso presidencial de reintegração de posse. Quando me perguntam o que quero, eu digo que quero tudo. Principalmente, meu nome escrito no jornal e não é por notícia policial.</p>



<p>Ver a favela celebrando a vitória de Lula reafirmou que a política de verdade se faz lá, nós levamos esse país nas costas. Que esses próximos quatro anos sejam de esperança, avanços e muita luta. Para além de todos os desafios colocados até aqui e dos milhões de outros que vão suceder, só conhece o peso dessa vitória quem sabe as dores e delícias de uma construção coletiva.</p>



<p>*<strong>Myrella Santana é graduanda em Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco. Integra a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e a Articulação Negra de Pernambuco. É Diretora Operacional e pesquisadora na Rede Internacional de Jovens LBTQIA+.</strong></p>



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		<title>Eleição de Lula inaugura agenda de reconstrução nacional</title>
		<link>https://marcozero.org/eleicao-de-lula-inaugura-agenda-de-reconstrucao-nacional/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 31 Oct 2022 21:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[bolsonaro]]></category>
		<category><![CDATA[democracia]]></category>
		<category><![CDATA[eleição 2022]]></category>
		<category><![CDATA[Lula presidente]]></category>
		<category><![CDATA[presidente eleito]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O governo de reconstrução e reconciliação proposto por Lula em seu discurso da vitória estará repleto de desafios nas áreas política, econômica e social. Ninguém melhor do que o ex-presidente para enfrentá-los. O mandatário que deixou a Presidência com o maior índice de aprovação da história, elegeu e reelegeu sua sucessora, foi judicialmente perseguido e [&#8230;]</p>
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<p>O governo de reconstrução e reconciliação proposto por Lula em seu discurso da vitória estará repleto de desafios nas áreas política, econômica e social. Ninguém melhor do que o ex-presidente para enfrentá-los. O mandatário que deixou a Presidência com o maior índice de aprovação da história, elegeu e reelegeu sua sucessora, foi judicialmente perseguido e preso por 580 dias até sua libertação e a reabilitação de seus direitos políticos para construir uma frente ampla democrática, unindo adversários históricos, e derrotar nas urnas a máquina de Jair Bolsonaro.</p>



<p>“Eu me considero um cidadão que teve um processo de ressurreição na política brasileira, porque tentaram me enterrar vivo e eu estou aqui para governar esse país numa situação muito difícil, mas eu tenho fé em Deus que, com a ajuda do povo, nós vamos encontrar uma saída para que esse país volte a viver democraticamente, harmonicamente”, disse Lula em sua primeira fala pública depois de proclamado o resultado.</p>



<p>Antes de ter efetivamente a caneta na mão para governar, o presidente eleito precisa do acesso a informações detalhadas do governo Bolsonaro, incluindo as contas públicas, para preparar sua administração. Isso se dá por meio da montagem de um governo de transição com equipes dos dois lados, do atual e do futuro presidente, que deve funcionar nos dois meses que antecedem a posse.</p>



<p>A transição é regulamentada por lei de 2002 e decreto de 2010. O vice-presidente eleito Geraldo Alckmin (PSB-SP), o ex-ministro Aluízio Mercadante (PT-SP) e a presidenta do PT, Gleisi Hoffmann (PR), são cotados para presidir o gabinete de transição de Lula. A questão é saber o quanto Bolsonaro e seu governo vão colaborar com o processo.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Transição política e orçamento</strong></h2>



<p>O acesso aos dados das contas públicas, projetos e programas federais é considerado fundamental para que o presidente eleito abra negociações para ajustar a proposta do Orçamento de 2023 encaminhada pelo atual governo ao Congresso e tenha alguma margem de manobra para tirar do papel, ainda no primeiro ano de mandato, compromissos assumidos na campanha.</p>



<p>A proposta orçamentária elaborada pelo governo Bolsonaro não prevê reajuste do salário mínimo e nem garante recursos para a manutenção do Auxílio Brasil de 600 reais. Lula se comprometeu a dar aumento real ao SM em todos os anos de seu governo e a ampliar o Auxílio Brasil incluindo 150 reais por criança para as famílias beneficiadas.</p>



<p>Um outro ponto delicado será a discussão do que se convencionou chamar de Orçamento Secreto, emendas do relator ao orçamento que podem ser feitas sem a identificação dos deputados e senadores. Lula criticou veementemente a medida adotada na gestão Bolsonaro associando-a à compra de apoio político. Para 2022, o Congresso aprovou R$ 16,5 bilhões. Em 2023, a previsão é de R$ 19 bilhões para essas emendas.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Base parlamentar e Frente Ampla</h2>



<p>Por falar em Congresso, a construção de uma base parlamentar de sustentação política ao governo será um dos principais desafios de Lula, considerando a presença significativa de parlamentares da direita e até da extrema-direita no Parlamento.</p>



<p>Na Câmara, 187 dos 513 (36,4%) deputados eleitos pertencem a partidos que integraram a coligação de Bolsonaro, enquanto que a coligação de Lula elegeu 122 deputados (23,8%). No Senado, os bolsonaristas também se saíram melhor com 23 dos 81 senadores (28,4%) e os apoiadores de Lula ficaram com 11 vagas (13,6%).</p>



<p>O que significa que não há como garantir uma maioria sem buscar apoio de partidos de centro e centro-direita que não estiveram engajados oficialmente na campanha petista, como MDB e PSD, e mesmo algum nível de aproximação com parlamentares do famigerado Centrão, incluindo Republicanos e União Brasil, por exemplo. Lula terá três meses para costurar a base porque os novos deputados e senadores só assumem seus mandatos no início de fevereiro.</p>



<p>O começo da legislatura será marcado pelo processo de eleição dos novos presidentes da Câmara e do Senado, um momento chave que costuma dar o norte da relação entre o Poder Legislativo e o Executivo nos anos seguintes. Bolsonarista de primeira hora, o atual presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), pode chegar enfraquecido à disputa em caso de tentativa de reeleição. O contrário do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que conteve a tramitação de vários projetos do atual governo naquela Casa. </p>



<p>Isso considerando a perspectiva do campo progressista, mas a disputa dependerá, como sempre dependeu, da correlação de forças a ser estabelecida entre governistas e oposicionistas nas duas casas legislativas.</p>



<p>Uma questão fundamental é saber o quanto a Frente Ampla construída por Lula durante a campanha pode impactar as costuras políticas partidárias com repercussão dentro e fora do Congresso. Figuras importantes da campanha como a senadora Simone Tebet (MDB-MS) e o vice-presidente eleito Geraldo Alkcmin (PSB-SP) devem jogar um papel importante nesse processo.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Economia, investimento social e imprensa</strong></h2>



<p>A gestão da política econômica de um governo de esquerda, ou de centro-esquerda, está sempre sob o escrutínio e a pressão do mercado financeiro e da grande mídia, que atua na maior parte das vezes como sua porta-voz. Recentes editorias da Folha de SP, primeiro exigindo de Lula que antecipasse o nome do seu ministro da Economia e, depois, que desse “mostras imediatas de responsabilidade orçamentária e disposição de rumar ao centro, política e economicamente” só confirmam a premissa.</p>



<p>O apoio no segundo turno a Lula de ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central nos governos Fernando Henrique, como Armínio Fraga e Edmar Bacha, podem fazer alguma diferença dessa vez no tratamento do mercado e da imprensa à agenda do futuro presidente que é economicamente ambiciosa porque está atrelada à melhoria da qualidade de vida de milhões de brasileiros e brasileiras que hoje vivem em situação de insegurança alimentar e precarização do trabalho.</p>



<p>Lula tem dito que o Brasil precisa de credibilidade, responsabilidade e previsibilidade, tendo se comprometido durante a campanha com uma “política fiscal que siga regras claras e realistas compatíveis com o enfrentamento da emergência social que vivemos e com a necessidade de reativar o investimento público e privado para arrancar o país da estagnação”.</p>



<p>Essa agenda inclui a retomada de obras paralisadas e de programas como o Minha Casa, Minha Vida; nova lei trabalhista; reforma tributária solidária, justa e sustentável, que simplifique tributos e onde os pobres paguem menos e os ricos mais; renegociação das dívidas das famílias; programa de crédito a juros baixos para pequenos empreendedores; e a isenção de imposto de renda para quem ganha até 5 mil reais por mês.</p>



<p>Pelo menos duas questões a serem enfrentadas por Lula podem tensionar a relação com setores financeiros. Lula é contra a privatização da Eletrobrás, dos Correios e da Petrobrás. Também deve propor a revisão da regra do teto de gastos, que vincula o aumento de gastos da União à inflação do ano anterior.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Protagonismo internacional</strong></h2>



<p>Uma das tarefas mais importantes do próximo governo será a remontagem do aparato institucional de proteção ao meio ambiente e defesa dos povos originários. As boiadas por onde passaram a política de devastação idealizada pelo ex-ministro do Meio Ambiente e agora deputado eleito Ricardo Salles (PL-SP). Marcada pelo aumento do desmatamento da Amazônia, redução drástica da fiscalização e aplicação de multas, defesa de grileiros e perseguição a servidores que atuam na proteção de territórios indígenas.</p>



<p>O presidente eleito se comprometeu a criar o Ministério dos Povos Originários e colocar no seu comando um(a) indígena.</p>



<p>Anunciada a vitória de Lula, o governo da Noruega informou que irá retomar o apoio financeiro à preservação da Amazônia e a redução do desmatamento. Durante os primeiros mandatos de Lula, o presidente eleito fechou acordo com o governo da Noruega, em parceria também com a Alemanha, para a constituição de um fundo bilionário de cooperação internacional, que foi cortado no primeiro ano da gestão Bolsonaro.</p>



<p>O tema da Amazônia e das mudanças climáticas é um dos que mais mobiliza a opinião pública internacional e os países mais influentes. As ações de reconstrução da política de proteção vão reabrir para o Brasil as portas dos fóruns internacionais mais importantes e devem garantir ao país o protagonismo que já teve no passado na agenda global ambiental. </p>



<p>A vitória de Lula deve fortalecer espaços multilaterais como o Mercosul, o Brics e o G-20, ampliando a voz e a articulação geopolítica dos chamados países em desenvolvimento. As crises diplomáticas do Brasil com a China – nosso principal parceiro comercial no mundo – devem ficar definitivamente para trás.</p>



<p>O resultado da eleição no Brasil fortalece também os laços do país com os vizinhos latino-americanos, uma marca da diplomacia dos dois primeiro mandatos presidenciais de Lula, entre 2003 e 2010. Com Lula no governo, os seis países que possuem as maiores economias e populações locais passarão a ter presidentes do campo da esquerda e da centro-esquerda, caso do Brasil, Argentina, México, Peru, Colômbia e Chile.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Convivência e reconciliação democrática</strong></h2>



<p>Para que toda essa imensa agenda de reconstrução nacional possa ser articulada e sair do papel é preciso baixar a temperatura política nacional. Lula deixou evidente essa prioridade: “A partir de 1º de janeiro de 2023 vou governar para 215 milhões de brasileiros e brasileiras. Não apenas para aqueles que votaram em mim. Não existem dois Brasis. Somos um único país, um único povo, uma grande nação”.</p>



<p>O discurso sinaliza a troca da retórica do ódio produzida por Bolsonaro para uma postura de conciliação nacional encampada por Lula e que pretende distensionar o ambiente da política institucional e também da vida cotidiana dos brasileiros e brasileiras. “A ninguém interessa viver num país dividido, em permanente estado de guerra. Este país precisa de paz e de união. Este povo não quer mais brigar. Este povo está cansado de enxergar no outro um inimigo a ser temido ou destruído. É hora de baixar as armas, que jamais deveriam ter sido empunhadas. Armas matam. E nós escolhemos a vida”.</p>



<p>No campo institucional, Lula já anunciou que vai recriar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social agregando empresários, trabalhadores e movimentos sociais para discutir os grandes temas da agenda nacional no modelo do seu primeiro mandato. Entre suas primeiras medidas de governo, estará a convocação de um encontro com os 27 governadores eleitos e os 27 prefeitos de capital para tratar, entre outros temas, do combate à forme; a retomada de obras de infraestrutura e moradia; e a estruturação da relação federativa na área da segurança pública, que ganhará um ministério específico.</p>



<p>Como presidente-eleito e, depois, presidente de fato, Lula estará diariamente produzindo falas e gestos políticos que necessariamente vão ser visibilizados pela mídia de massa e reforçarão pelo exemplo de cima o compromisso com o distensionamento das relações entre adversários no país. </p>



<p>A postura pode &#8211; em médio ou longo prazo &#8211; influenciar corações e mentes de fiéis evangélicos, grupo mais visado pelas mentiras bolsonaristas que reforçaram o antipetismo, e &#8220;desarmar&#8221; os pastores mais conservadores e extremistas. Os evangélicos já são 31% da população brasileira e há estimativas de que passem de 50% em 2032. </p>



<p>Importante dizer que Bolsonaro ainda tem dois meses de governo à frente da Presidência e perdeu por uma margem estreita de votos para Lula o que o coloca como a grande liderança de oposição à futura administração federal. Mesmo sem apoios relevantes no Brasil e fora para dar um golpe de estado, ele pode fazer ainda muito estrago no ambiente político do país. O atual presidente já falou a aliados nos bastidores que teme que ele e seus filhos sejam presos quando deixar o Planalto. O medo nunca foi um bom conselheiro.</p>



<p>A diferença é que, agora, do outro lado da arena, está a maior liderança popular da história recente do Brasil, respaldado pela vitória inconteste na urnas, saudada por líderes de países de todos os continentes como um “alívio” para o mundo.</p>



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		<title>Coletivos populares viram votos para Lula na reta final da eleição</title>
		<link>https://marcozero.org/coletivos-populares-viram-votos-para-lula-na-reta-final-da-eleicao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Oct 2022 14:25:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[coletivos populares]]></category>
		<category><![CDATA[comunicação popular]]></category>
		<category><![CDATA[Lula 2022]]></category>
		<category><![CDATA[Lula presidente]]></category>
		<category><![CDATA[material de campanha]]></category>
		<category><![CDATA[periferia com Lula]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A falta de material de campanha, o discurso violento de Bolsonaro e o clima de tensão no ar. Nada disso foi capaz de sufocar a iniciativa de coletivos populares do Recife e Região Metropolitana de ir pras ruas de suas comunidades disputar o voto em Lula na reta final do segundo turno. Isso não significa [&#8230;]</p>
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<p>A falta de material de campanha, o discurso violento de Bolsonaro e o clima de tensão no ar. Nada disso foi capaz de sufocar a iniciativa de coletivos populares do Recife e Região Metropolitana de ir pras ruas de suas comunidades disputar o voto em Lula na reta final do segundo turno. Isso não significa que os coletivos não tinham ou tenham receito de ser hostilizados por bolsonaristas, mas colocaram em primeiro lugar a urgência do combate à fome, a defesa da democracia e o resgate e ampliação de direitos perdidos e por conquistar.</p>



<p>Alguns desses coletivos se manifestaram abertamente por uma candidatura nas redes e nas ruas pela primeira vez na sua história. Foi o caso do Coletivo Força Tururu, de Paulista, com 14 anos de existência. O engajamento pró-Lula veio ainda no primeiro turno. “Decidimos entrar de cabeça na campanha um mês e meio antes do primeiro turno. Primeiro, formamos um grupo para dialogar com pessoas que pensam igual a gente, ou seja, votam em Lula e, posteriormente, montamos estratégias para trabalhar com pessoas que pensam diferente da gente, indecisos ou até mesmo quem vota em Bolsonaro`, explica André Fidélis, do coletivo.</p>



<p>Os integrantes do Força Tururu sentiram a necessidade de criar uma marca, foi então que surgiu o #TururuTáComLula. Depois, eles investiram em elaborar um material que tivesse a” cara e o sentimento da comunidade”. Foram 1.500 “preguinhas”, 800 adesivos de carro e portão e um banner. E mais: produziram dois spots para anuncicleta &#8211; anúncio em aúdio para bicicleta &#8211; que já circularam por 20 horas, com vozes dos próprios moradores do Tururu.</p>



<p>Nas últimas semanas, o coletivo realizou sete reuniões com grupos diferentes da comunidade, uma caminhada pelas ruas do Tururu, um ato de serigrafia de camisa e, no próximo sábado (29), fará um evento para estampar camisas e visibilizar a candidatura de Lula na véspera da votação do segundo turno. André confessa que, antes de realizarem a caminhada, os integrantes do coletivo estavam com muito receio de sofrerem algum tipo de violência dos bolsonaristas mais extremistas, mas o que viram foi uma recepção muito positiva dos moradores, pedindo adesivos e material.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Produção própria de material</h2>



<p>Aliás, material de campanha é um tema à parte. Na verdade, a falta de material para ser distribuído nas comunidades. Problema enfrentado pelo Coletivo Fala Alto, que atua nas comunidades do Alto do Pascoal, Córrego do Deodato, Bomba do Hemetério e adjacências. Eles têm tentado obter material com partidos e organizações e pedido doações. Conseguiram TNT, um pouco de cetim e uma tela para serigrafia em camisa.</p>



<p>“Foi uma maneira que a gente achou de produzir material próprio porque quando a gente anda pela comunidade e o povo vê uma praguinha no peito, um adesivo, uma bandeira na bicicleta ou no carro, sempre perguntam onde é que tem, onde é que conseguem e, na verdade, não tem. Às vezes é até difícil a gente conseguir pra gente”, conta Kayo Na Real. Por conta disso, o Fala Alto decidiu fazer uma ação para pintar camisas.</p>



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	                                        <p class="m-0">Camisas produzidas pelo coletivo Fala Alto. Crédito: Divulgação</p>
	                
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<p>A deliberação saiu do comitê que o coletivo criou. A ideia surgiu da inquietação de moradores da comunidade que sentiram a necessidade de convencer os eleitores indecisos e pessoas que votaram em outros candidatos no primeiro turno. Mostrar a importância da classe trabalhadora votar em Lula. Kayo diz que esse era um trabalho historicamente feito pelos partidos de esquerda, mas que deixaram de lado. “Esse trabalho de estar dentro da comunidade, de falar pra massa. Diferente de chegar no Centro da cidade quando a galera está com a cabeça no trabalho ou querendo chegar em casa. Não que não seja importante fazer ato no Centro, mas só focar nisso não tem dado certo”.</p>



<p>“A gente passou por um golpe contra uma presidenta eleita, a gente passou por diversas reformas durante o governo golpista de Michel Temer e sempre se falou em greve geral, em se parar tudo e nada aconteceu. Então, assim, a gente tem esse intuito de fazer (o debate) dentro da comunidade pra trazer de volta essa raiz que a esquerda tradicionalmente tinha e deixou, essa essência. De sair daqui pra fora e não o inverso. A ideia é essa”, enfatiza.</p>



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	                                        <p class="m-0">Arrastão pró-Lula nas comunidades do Alto do Pascoal e da Bomba do Hemetério. Crédito; Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>Nessa quinta (28), o grupo realizou o ato mais importante desse segundo turno na comunidade. Um Arrastão cultural que saiu da Caixa d´água, passou na frente do Compaz e desceu pra Bomba do Hemetério. Aproveitaram a ação para distribuir o máximo de material possível para os moradores e encorajá-los, pelo exemplo, a avermelhar a comunidade. “A gente vê muito o 22, a gente vê muito a bandeira do Brasil, mas que se for avermelhar, a gente consegue cobrir esses tons aí que estão do lado fascista da eleição. A ideia é essa, que quem tem seu paninho vermelho, sua camisa vermelha, bote pra fora, pendure nas janelas”, explica.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Divergência e posicionamento público</h2>



<p>O Fala Alto e o Força Tururu têm trabalhado, cada um, de forma unificada contra Bolsonaro, mas para alguns jovens moradores e moradoras de periferia que atuam em coletivos e apoiam Lula, a disputa começou a ser travada dentro de suas próprias organizações. É o caso de Martihene Oliveira e Gilberto Luiz, fundadores do Coletivo Sargento Perifa, da comunidade do Córrego do Sargento, Zona Norte do Recife.</p>



<p>Foi muito duro para Martihene ver integrantes do grupo fazendo campanha para Bolsonaro no domingo do primeiro turno. Os dias que se seguiram foram angustiantes e ela compartilhou essa dor com o também jornalista Gilberto Luiz. No dia 11, os dois fizeram uma postagem no instagram oficial do coletivo assumindo publicamente o apoio a Lula para presidente. Foram incentivadas por outros integrantes também pró-Lula incomodados com a situação.</p>



<p>Antes, avisaram no grupo de zap do coletivo. O Perifa toca mais de 10 projetos que mobilizam dezenas de pessoas na comunidade. “Tem pessoas que são pilares para o coletivo e não votam em Lula. Não podíamos abrir mãos delas. Tivemos que puxar a bala pro peito da gente mesmo e dizer que nossa posição era enquanto jornalistas do Perifa. Essa foi a melhor estratégia que a gente teve e eu faria tudo de novo”.</p>



<p>A jornalista, a primeira de sua família a obter o diploma de ensino superior, é neta do fundador já falecido da Assembleia de Deus no Córrego do Sargento e ela mesma era referência religiosa local até deixar a igreja em 2019, já como uma resposta ao avanço do discurso conversador a partir da eleição de Bolsonaro em 2018. Na postagem, Martihene e Gilberto enumeram os motivos porque votam em Lula e defendem a coerência do seu posicionamento para gerar reflexão. Foram dezenas de comentários positivos e muito poucas pessoas deixaram de seguir o Perifa.</p>



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<p>Martihene criou um grupo de zap para debater com pessoas da comunidade que se aproximaram dela depois do seu posicionamento público. A jornalista tem feito porta a porta confrontando a fala de Bolsonaro e suas mentiras com a vida real das pessoas. Quando ele disse que não existia fome no Brasil, ela foi em algumas casas e perguntou aos moradores se tinham comida na geladeira. Eles deixaram ela entrar e mostraram a escassez de alimentos na casa. “Tenho certeza que consegui votos levando essa consciência política”.</p>



<p>Martihene aposta no porta a porta para convencer os eleitores quando os temais são mais delicados, como é o caso do abordo, ainda mais numa comunidade como o Córrego do Sargento, majoritariamente evangélica. “Eu preciso conscientizar a moradora sobre a diferença entre o que é ser a favor do aborto e o que é entender o aborto como uma questão de saúde pública. Quem aqui não conhece alguém que já abortou clandestinamente mesmo não sendo a favor do aborto, correndo sérios riscos? Isso tem feito as mulheres refletirem porque todas têm um caso próximo conhecido”.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Realizações e propostas nas redes sociais</h2>



<p>No Ibura, um dos maiores e mais populosos bairros do Recife, as integrantes do coletivo Ibura Mais Cultura decidiram investir suas forças nas redes sociais e no whatsapp nesse segundo turno a partir da percepção de que as fake news espalhadas pelos bolsonaristas têm confundido os eleitores e aumentado o apoio ao atual presidente. Isso ficou evidente nas conversas presenciais com os moradores ainda no primeiro turno e na grande quantidade de eleitores e eleitoras com bandeiras do Brasil e vestindo amarelo nas seções eleitorais da comunidade no dia 1 de outubro.</p>



<p>Integrante do coletivo, Lídia Lins diz que parte desse apoio vem do processo de “alienação que acontece dentro das igrejas” espalhadas pelo bairro. Apesar disso, ela explica que muita gente, embora tenha uma visão crítica do PT, vai votar em Lula porque está sentindo o peso no próprio bolso, especialmente mulheres chefes de família.</p>



<p>A aposta nas redes faz sentido porque a maior parte dos seguidores do coletivo é do próprio bairro. O público, em sua maioria de jovens, cresceu também em outras faixas etárias a partir da atuação do coletivo na pandemia e no apoio às vítimas das chuvas no inverno desse ano. As postagens agora chegam para mais gente. A estratégia é divulgar os avanços do governo Lula, os investimentos e as políticas públicas que beneficiaram diretamente as populações periféricas. Relembrar o que foi feito de positivo no passado por Lula e Dilma para confrontar o discurso antipetista.</p>



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<p>“A gente fez essa escolhas entendendo que em 2018 a gente errou muito, nós no sentido amplo da esquerda, do campo progressista, que acaba dando muito palco ao discurso bolsonarista, compartilhando todos os absurdos que Bolsonaro e seus apoiadores acabavam propagando. Por isso decidimos dar evidência ao que já foi feito por Lula e às suas propostas. A onda antipetista fez com que muita coisa fosse esquecida e não repercutisse”, analisa Lídia, alertando que os mais jovens já pegaram algumas políticas em andamento e não têm noção histórica das mudanças e de como elas foram impactando no tempo.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Arrebentando barreiras invisíveis</h2>



<p>Na comunidade do Coque, quem está à frente da mobilização política anti-bolsonarista nesse segundo turno é o Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis, o Mabi. Criado em 2000 por um grupo de amigos que curtiam e tocavam rock, o Movimento nasceu com a ideia de descriminalizar a periferia e a pobreza. O estigma do bairro ficou evidente já no início quando decidiram realizar eventos fechados e parte do público e mesmo algumas outras bandas que curtiam o movimento não queriam ir ao Coque. Foi quando decidiram fazer os shows e eventos próximo à Estação Joana Bezerra e facilitar a chegada e saída de todos.</p>



<p>Em 2005, em parceria com alunos e professores da UFPE produziram um jornal local, que depois se transformou num fanzine. A ideia era abrir uma possibilidade de o mundo escutar a voz do Coque, explica Procópio Silva, do coletivo, mas acabaram escrevendo sobre tudo, e caindo mais no terreno da arte. Entre 2010 e 2012, alguns dos integrantes do Mabi entraram na universidade pública. Um fez psicologia, outro fez sociologia. Procópio entrou em ciências sociais. Foi quando perceberam que além de focar no trabalho de descriminalização da pobreza, eles poderiam contribuir com a entrada de pessoas periféricas no ensino superior público.</p>



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	                                        <p class="m-0">Grafitagem do Mabi no Coque. Crédito: Divulgação</p>
	                
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<p>Hoje têm uma sede numa casa alugada com três salas, sendo um estúdio, um espaço para guardar os equipamentos musicais e uma outra onde dão aulas preparatórias para o pré-vestibular a moradores da comunidade. No ano passado, 50% dos alunos conseguiram entrar na universidade pública federal. E é nessa sala em que o coletivo agora está realizando rodas de diálogo com moradores e moradoras para defender o voto em Lula nesse segundo turno. Foi a disputa eleitoral, inclusive, que depois de tanto tempo, motivou a criação de uma página específica do coletivo no Instagram.</p>



<p>Procópio divide a história do Mabi em quatro fases, a última é a do Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis em Estado de Exceção, já sob o governo Bolsonaro. “Frente a esse fascismo bolsonarento, a gente do Mabi não poderia ficar calado e a gente tá utilizando a voz que a gente tem, não sabemos o impacto dessa nossa voz dentro do Coque, mas a gente tem uma voz, e a gente vem utilizando ela para se posicionar contra esse fascismo bolsonarento. A partir desse entendimento a gente criou uma série de estratégias. Fizemos mutirão de grafite, roda de diálogo, cine coque, além das nossas redes sociais e do boca a boca”, explica Procópio.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Campanha de escuta e comparação</h2>



<p>Na quarta-feira (26), um carro de som passava pela Av Norte anunciando uma “super carreata” de Bolsonaro na Guabiraba. Assim como outros locais de morro na Zona Norte do Recife, lá também virou alvo das investidas bolsonaristas. No primeiro turno, chamou a atenção as propagandas de Alberto Feitosa, que foi reeleito deputado estadual. No segundo turno, o que tem se visto são bandeiras de Raquel Lyra (PSDB) ao lado das de Bolsonaro, ainda que a candidata não tenha declarado apoio à reeleição do presidente.</p>



<p>“O pai de Priscila Krause (Gustavo Krause, que foi do partido de sustentação da ditadura militar no Brasil) reativou essas bases antigas que tinha nos morros, de campanhas anteriores”, diz Tatiane Gâmboa, militante do Movimento Sem Terra que tem passado os dias em campanha nas ruas da Zona Norte.</p>



<p>É em ruas de comércio, como a principal de Nova Descoberta, que Tatiane diz se concentrar a propaganda bolsonarista nos morros. “Mas quando se entra mesmo nas comunidades, na parte da escadaria, só dá Marília Arraes e Lula”, diz. A campanha que Tatiane está levando para as ruas é feita de luta e esperança. Na falta de material, os próprios militantes e movimentos estão confeccionando panfletos e bandeiras em mutirões. “Temos que avermelhar a cidade”, diz.</p>



<p>Nas passeatas e panfletagens, Tatiane conta que o importante é ouvir o que as pessoas ainda indecisas sobre o voto têm a dizer. “E depois eu falo sobre o que vai ter impacto na vida da pessoa. Salário mínimo, saúde, educação…muitos dizem que vão votar em Lula quando fazem a comparação”, diz. Com a enxurrada de mentiras despejadas nesta eleição, Tatiane também aprendeu a desmentir as notícias falsas que vê repetidas nas abordagens. “Se o percentual de votos para Lula foi de mais de 60% agora no segundo turno vai ser mais de 70% em Pernambuco”, acredita.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Sem tempo a perder</h2>



<p>Apesar da maior parte dos eleitores e eleitoras informarem aos institutos de pesquisa que já decidiram o voto, ainda há uma margem de eleitores indecisos que podem fazer a diferença na reta final da disputa. Por isso, muitos coletivos populares que atuam nos territórios periféricos têm agendadas ações para essa sexta (28) e sábado (29) em suas comunidades. Na sexta, o Mabi vai fazer um cine debate na Academia da Cidade, no Coque, a partir das 16h, para discutir as fake news. No sábado, pela manhã, o Força Tururu realiza pintura de camisa e adesivaço no Campo do Tururu, em Paulista. Nesse mesmo dia, véspera da eleição, integrantes do Sargento Perifa vão ocupar a avenida principal da Linha do Tiro para estampar camisas de Lula Presidente.</p>



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			</item>
		<item>
		<title>Outubro ou nada</title>
		<link>https://marcozero.org/outubro-ou-nada/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Oct 2022 19:46:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[30 de outubro]]></category>
		<category><![CDATA[campanha eleitoral]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[Lula presidente]]></category>
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		<category><![CDATA[representação política]]></category>
		<category><![CDATA[segundo-turno]]></category>
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<p><strong>Por Carmen Silva*</strong></p>



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<p>Lula foi vitorioso no primeiro turno. Teve quase 6 milhões de votos à frente do outro candidato aquele que está no governo, tem a máquina e que quebrou o Estado brasileiro. Por que, então, predominou um sentimento de derrota na esquerda? As pesquisas de intenção de voto e a onda de posicionamentos de personalidades públicas a favor da candidatura Lula na última semana gerou uma expectativa alta de vitória no primeiro turno, muito embora nada pudesse garantir isso. E, ao não acontecer, o impacto foi sentido. Certamente, nesta semana, os ânimos serão revigorados e outubro verá a retomada das ruas pelo vermelho da esperança.</p>



<p>A ideia era que o voto útil migrasse das candidaturas da chamada terceira via para a candidatura Lula, entretanto, parte dele migrou para a candidatura Bolsonaro, aumentando o seu percentual de apoio nas eleições. Além disso, a campanha Bolsonaro gerou um mundo paralelo de desinformação e intimidação daqueles que discordam de sua linha. A campanha Lula não conseguiu gerar uma onda de movimentação nas ruas que quebrasse os sentimentos de medo causados pelo outro lado. No dia 2 de outubro muita gente não saiu de vermelho e não colocou adesivos no peito. Muitos ficaram em dúvida se deveriam comemorar caso Lula fosse eleito naquele dia. Tudo isso se deve ao clima de terror que o neofascismo conseguiu implantar no país.</p>



<p>Apesar disso, passados dois dias do resultado eleitoral, vê-se que a leitura dos números demonstrou claramente não apenas a eleição de Lula em primeiro lugar, mas possibilidades fortes de vitória no segundo turno, dia 30 de outubro. No âmbito parlamentar, e para os governos estaduais, ganhou a esquerda e também a extrema direita. Tudo indica que, notadamente, o centro político perdeu. A próxima legislatura será bastante polarizada. Por um lado, a extrema direita com vários ex-ministros do governo Bolsonaro no Senado e muitos deputados eleitos pelo PL na Câmara Federal, por outro lado a esquerda ampliada, como frente democrática, conta com vitória tanto numérica quanto qualitativa. Os partidos da campanha de Lula no primeiro turno, se somados aos que virão no segundo, reúnem o quantitativo necessário para garantir a chamada governabilidade. Do ponto de vista qualitativo destaca-se a renovação, a entrada de parlamentares indígenas, do MST e do movimento negro. Cabe registar que a principal liderança do MTST obteve mais de um milhão de votos em SP para a Câmera Federal.</p>



<p>Um elemento importante dessa polarização que marcou o primeiro turno é que o clã bolsonarista teve que aceitar os resultados eleitorais, ou seja, apesar de todo receio do campo de esquerda, não houve golpe, nem questionamentos às urnas, nem uma onda maior de violência política no dia das eleições, nada disso aconteceu. Isso gera melhores condições para que, com a vitória de Lula no segundo turno, Bolsonaro esteja politicamente impedido de questionar os resultados eleitorais. Obviamente, caso Bolsonaro viesse a ser eleito no segundo turno, ele teria maiores condições e possibilidade de mudar o regime político. Daí entraríamos numa era obscurantista e autoritária, mas isso não vai ocorrer. Lula vai ganhar as eleições no segundo turno, dia 30 de outubro, e a polarização dada fará com que a esquerda fique mais à esquerda porque a direita estará mais à direita. Com isso, as condições de o governo Lula ter apoio mais amplo da frente democrática, que o terá apoiado no segundo turno, são mais reais.</p>



<p>Nesse primeiro turno os movimentos sociais nacionalmente organizados atuaram como sujeitos políticos tanto lançando candidaturas orgânicas como colocando no debate eleitoral plataformas com suas pautas, para as quais angariaram apoio de inúmeras candidaturas para o parlamento e para os governos estaduais. Isso pode ser um elemento que ajude a construir uma correlação de forças no governo Lula mais favorável a estas causas.</p>



<p>A missão neste mês de outubro é eleger Lula Presidente da República, mas para que isso ocorra, com alteração da correlação de forças que marcou o primeiro turno, é necessário que a campanha ganhe as ruas, espaço que os movimentos sociais costumam ocupar com maestria. Não será possível impedir o fascismo de se fortalecer pela via eleitoral apenas ampliando os apoios institucionais.</p>



<p>Em Pernambuco, duas mulheres chegam ao segundo turno para disputar o governo. Seria isso uma vitória do feminismo? Sim e não. Sim porque foi a luta feminista que criou as condições históricas de possibilidade para que isso acontecesse, que mulheres pudessem votar e serem votadas, que mulheres fossem vistas como seres autônomos responsáveis por suas decisões, capazes de se posicionar politicamente e assumir cargos de poder. Mas também não, porque ambas as candidatas não marcaram suas carreiras políticas pelo compromisso com as causas feministas.</p>



<p>Não basta falar da redução da violência contra a mulher, embora isso seja muito necessário, é preciso propor um modelo de desenvolvimento com justiça socioambiental que garanta trabalho, renda e vida digna para todas nós. Uma política que faça com que os lugares em que vivem as mulheres negras chefes de família sejam protegidos da violência, e que também sejam lugares na qual a saúde, educação e lazer estejam presentes, para que seus filhos não sejam disputados pelo crime organizado nem mortos pela polícia do Estado. É preciso ir além de programas sociais e ter uma política econômica que possibilite empregos com direitos para mulheres que vivem na pobreza. É preciso enfrentar o racismo e o sexismo de forma concreta, e não com discursos, com políticas que assegurem a participação e o poder de decisão, que sejam capazes de enfrentar as desigualdades sociais.</p>



<p>Nós, mulheres feministas, temos colocado no debate público a legalização do aborto como um direito de decidir autonomamente sobre nossa vida reprodutiva. Nós queremos decidir ter filhos e poder criá-los com condições de vida dignas, mas também decidir não os ter e poder abortar em segurança, em hospitais públicos, quando ocorre uma gravidez indesejada, ou quando se é vítima de um estupro. Essa é uma pauta que está em debate nesse momento das eleições e mulheres comprometidas com mulheres a apoiam.</p>



<p>Essa eleição mostrou também a urgência da mudança radical do sistema político brasileiro. Um exemplo concreto é a votação de mais de 80 mil votos para Robeyoncé Lima, uma mulher preta, periférica e travesti, com um programa de esquerda defendido na campanha, que teve todo esse lastro de apoio e não vai nos representar na Câmara Federal, quando outras candidaturas com 60 mil votos foram eleitas deputados federais.</p>



<p>Esse sistema eleitoral, da forma como está organizado legalmente, cria um uma ideia falsa de que o apoio popular para uma candidatura individual é suficiente para elegê-la. Não é. A eleição de uma parlamentar depende do coeficiente atingido pelo seu partido ou federação. Na eleição no Brasil se dá o voto em uma pessoa e ele é somado a todos os votos dados para seu partido/federação. Ou seja, atingir o coeficiente depende também de todas as outras candidaturas daquele partido galgarem uma quantidade boa de votos. A forma como as eleições ocorrem, e as campanhas, passa a ideia de que basta votar em uma pessoa. E, por fim, gera uma injustiça sem proporções, como a que aconteceu com a candidata do PSOL, mas também com outras.</p>



<p>A candidatura de Robeyoncé, com poucos recursos e mais de 80 mil votos, é a demonstração de que o debate feminista, negro e LGBTQIA+ colocado na sociedade brasileira não tem retorno. A bancada de esquerda na ALEPE é outro exemplo, com duas mulheres negras, Dani Portela – PSOL e Rosa Amorim &#8211; PT, sendo eleitas deputadas estaduais.</p>



<p>Nós, do movimento feminista, temos defendido que a eleição seja feita por listas partidárias fechadas como chapas, organizadas com alternância de sexo e raça, com o ordenamento das candidaturas sendo feito pelos encontros partidários, e que os partidos sejam obrigados a apresentar no debate público o programa político que vão defender. Isso permite que as pessoas que queiram ser candidatas se mobilizem para fortalecer seu partido, construir um programa e para estarem na lista em posições que lhes garantam eleição a partir da votação do partido. A eleição em lista fechada seria um elemento para gerar condições de enfrentar a sub-representação de mulheres, pessoas negras e jovens no parlamento, mas também fortaleceria a instituição ‘partido’ na sociedade brasileira e colocaria em discussão projetos políticos, o que não pode ocorrer na forme de hoje, com 35 agremiações partidárias que nada representam em termos de propostas de rumos para o país ou para cada unidade federativa.</p>



<p>Estes dois debates que estou colocando aqui, reforma política no plano federal e políticas públicas para enfrentar a desigualdade das mulheres no plano federal e estadual, são elementos fundamentais que poderemos trabalhar no próximo período. Não só o movimento feminista, mas o conjunto dos movimentos sociais que sai vitorioso dessa eleição pela sua capacidade propositiva.</p>



<p>Agora em outubro, é tudo ou nada. A missão fundamental de todo mundo é ganhar corações e mentes para o apoio à candidatura Lula. Eleger Lula Presidente da República é derrotar o fascismo. Eleger Lula Presidente da República é gerar condições favoráveis para que possamos lutar pela retomada de direitos e pela reconstrução do Estado democrático de direito. Ainda que essa democracia não seja aquela com a qual sonhamos, precisamos dela para construir as possibilidades de sonhar.</p>



<p>*<strong>Carmen Silva é socióloga, constrói o SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia, é militante do Fórum de Mulheres de Pernambuco e da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político.</strong></p>



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