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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Turismo e militância política andam juntas na terra onde nasceu Jesus Cristo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Dec 2019 10:42:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em nenhuma outra época do ano há tanto trabalho para os guias turísticos palestinos quanto no Natal. Cristãos de todos os lugares do mundo visitam Belém, cidade onde está a Basílica da Natividade, construída no século IV no suposto local de nascimento de Jesus Cristo. Para Baha Hilo, o mais célebre entre os guias de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em nenhuma outra época do ano há tanto trabalho para os guias turísticos palestinos quanto no Natal. Cristãos de todos os lugares do mundo visitam Belém, cidade onde está a Basílica da Natividade, construída no século IV no suposto local de nascimento de Jesus Cristo.</p>



<p>Para Baha Hilo, o mais célebre entre os guias de turismo da Palestina, a celebração do Natal vai além de uma oportunidade de trabalho. É também uma ocasião para ampliar sua militância política, demonstrando para os turistas como seu povo sobrevive sob a ocupação e opressão de Israel.</p>



<p>Foi a necessidade que empurrou para a profissão de guia turístico esse cientista político e sociólogo graduado pela Universidade Birzeit, na Cisjordânia. Depois de estudar em Nova York e realizar trabalhos voluntários no Sri Lanka, ele voltou à sua terra natal para procurar emprego.</p>



<p>Sem muitas opções de trabalho num lugar onde seus 2,7 milhões de habitantes só podem circular numa área de 5.640 Km<sup>2 </sup>com autorização das forças armadas de Israel, Baha Hilo associou seus conhecimentos acadêmicos à atividade econômica para criar a <em>To be There</em> (algo como “estar lá”). Sua pequena empresa de receptivo oferece a turistas interessados num tour geopolítico, passeios com reflexões e discussões diante das principais atrações turísticas, intercalando com visitas a locais marcantes para a resistência palestina.</p>



<p>A interação constante com pessoas de vários países do mundo lhe garantiu certa notoriedade tanto entre a diáspora palestina quanto entre grupos solidários à causa, principalmente na esquerda global.</p>



<p>Este ano, graças a uma vaquinha virtual, ativistas palestinos no Brasil custearam sua vinda para uma jornada de debates em Pernambuco, Paraíba, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Como de outras vezes em seus 39 anos de vida, foi mais uma chance de sair em defesa do seu povo na condição de viajante, não como guia.No intervalo entre o almoço num restaurante de culinária árabe no Espinheiro, e mais um debate com universitários, Baha contou que só é possível ter ideia das terríveis condições de vida dos palestinos quando se visita seu destroçado país. “Fora isso, ninguém consegue sequer imaginar”.</p>



<p>Mediada pela advogada Jéssica Barbosa, que fez o papel de intérprete, a conversa com a Marco Zero transitou sobre quatro temas: a condição da mulher em sua terra, a visão dos estrangeiros a respeito da Palestina ocupada, as supostas raízes religiosas do conflito e se as mudanças na política interna de Israel interferem na vida dos palestinos.</p>



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	                                        <p class="m-0">Baha Hilo numa feira livre do interior da Paraíba (Foto: Maurício Melo)</p>
	                
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<h2 class="wp-block-heading">O olhar estrangeiro</h2>



<p> “Enquanto não se vai lá, não é possível entender o tamanho da violência a que o povo palestino é submetido”.</p>



<p> “Os descendentes de palestinos na diáspora têm uma conexão romântica com a pátria dos seus pais e avós. Quando chegam, ficam chocados, horrorizados, quando veem como suas famílias vivem em contato com tanta opressão política. Quando compreendem a real dimensão da dor, param de romantizar e entram em conexão com a luta dos seus antepassados”.</p>



<p>
“Os estrangeiros solidários à causa palestina e aqueles que
acreditam que existe apenas ‘um conflito’ têm um ponto em comum:
acreditam que Palestina e Israel são dois espaços geográficos
separados, mas ficam perplexos quando entendem que são dois nomes
para a mesma terra. Esses ficam chocados quando, ao se depararem com
o controle que Israel exerce em todas as fronteiras e em todos os
espaços, precisam se justificar explicando que estão lá por outros
motivos, pois se disserem que estão visitando a Palestina, serão
deportados”.</p>



<p>“Entre palestinos, um estrangeiro se sente na Palestina. Entre israelenses, se sente em Israel. Se você estiver num prédio em Jerusalém ou em Haifa e entrar no apartamento de um israelense, ali será Israel. Se entrar na residência de um palestino, você estará na Palestina”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Detalhe de uma igreja cristã na Cisjordânia (Foto: Manuela Simões)</p>
	                
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<h3 class="wp-block-heading"> <strong>O conflito não é religioso</strong></h3>



<p>
“Para mudar a percepção de que há um conflito de judeus contra
muçulmanos é preciso ter uma grande máquina de propaganda, milhões
de dólares e uma ótima estratégia contra a desinfomação. Se você
tiver tudo isso, conseguirá reduzir um pouco os danos provocados
pelos sionistas ao longo das últimas décadas”.</p>



<p>“Aquilo que nos fazem ver como uma questão religiosa é, na verdade, um marcador racial para garantir e justificar os privilégios das pessoas judias. Se o superior é judeu, com todos seus privilégios, quem são os inferiores que não podem ter acesso aos privilégios? Os muçulmanos, a outra maioria religiosa. Se você for palestino, será tratado como muçulmano, mesmo que seja bahaí, cristão, samaritano ou agnóstico como eu”.  </p>



<p>“No
dia em que você nasce, Israel determina qual é a sua religião.
Antes que eu tivesse aprendido a falar, Israel já havia colocado em
minha certidão de nascimento que sou muçulmano. Eles decidiram como
será minha vida até eu morrer. Fazem os mesmos com os bebês
cristãos”.</p>



<p>“Desde
1948, o Estado de Israel faz uso abusivo da religião para justificar
comportamentos e políticas violentas. Da mesma forma, o cristianismo
foi usado no Brasil para justificar o genocídio indígena. Os
palestinos são oprimidos por falta de fé judaica e não pela fé
judaica. Os profetas judeus dizem para ‘não matar e não roubar’.”</p>



<p>“Ilan Pappé, um historiador judeu que é proibido de ensinar nas universidades de Israel, fala que os sionistas não acreditam no deus dos judeus, mas acreditam que deus deu a terra dos palestinos ao povo judeu. Ele também diz que Israel não é regulado pela fé, mas sim pela ideologia sionista”.</p>



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	                                        <p class="m-0">O cotidiano sob ocupação militar nos muros grafitados (Foto: Manuela Simões)</p>
	                
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<h3 class="wp-block-heading"> <strong>As mulheres palestinas</strong></h3>



<p>
“Não estou me posicionando no lugar de fala da mulher, não sou
porta-voz das mulheres. Sou um homem que considera as mulheres como
as pessoas mais inspiradoras ao assumirem a luta contra Israel,
contra o assédio de idiotas, contra a violência doméstica”.</p>



<p>“O
patriarcado é a forma mais antiga de dominação de gênero e oprime
toda a sociedade. Os privilégios masculinos na Palestina podem ser,
de uma forma ou de outra, diferentes dos privilégios masculinos
brasileiros, mas estão lá, como estão cá”.</p>



<p>“Quando
adicionamos mais uma forma de dominação, que é a ocupação
militar de Israel, às formas de dominação já existentes na
sociedade, as mulheres são obrigadas a conviver com várias formas
de opressão que se sobrepõem. Assim, toda mulher palestina convive
com a dominação masculina e com a dominação israelense, que tem
componentes raciais, políticos e de gênero. As palestinas
sobrevivem de formas diferentes a isso, mas todas lidam com isso
submetidas a normas sociais que também as oprimem”.</p>



<p>“As mulheres palestinas mais inspiradoras são aquelas que compreendem e rejeitam o patriarcado, mas não separam essa luta da rejeição à dominação de Israel. Quando falamos em feministas palestinas, falamos de mulheres que estão na luta contra as duas opressões. Por isso, são as mais inspiradoras. Há organizações de base como o Centro de Estudos da Mulher, de <a href="https://www.projecto100rota.com/2018/01/26/nablus-uma-doce-e-resistente-cidade-da-palestina/">Nablus</a>, e o Centro de Direitos das Mulheres, de <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Bel%C3%A9m_(Palestina)">Bethlelem</a> (Belém). Não há comunidade palestina que não tenha uma organização dessas, por menor que seja”.</p>



<h3 class="wp-block-heading"> <strong>A “esquerda” israelense</strong></h3>



<p>
“Para nós, palestinos, não faz diferença quem ganha a eleição
em Israel porque em relação à política para os territórios
ocupados, não há diferença entre a esquerda e a direita
israelense. São dois lados da política sionista. O Estado de Israel
é um estado sionista, então seria como escolher entre Hitler ou
Mussolini, entre Trump ou Bolsonaro”.</p>



<p>“Benny Gantz, líder da oposição a Benjamin Netanyahu e que hoje é a principal liderança israelense, é considerado um político com posições mais ao centro. No entanto, é um criminoso de guerra”.</p>



<p>“Se o político ou ativista israelense negar a identidade sionista do Estado de Israel, não consegue sequer concorrer às eleições, pois é considerado ilegal. Alguns resistem, mas o impacto dessa posição é quase zero na política nacional, mas é importante que eles existam porque, depois, será possível construir com eles uma Palestina mais igualitária. Mas, o fato é que hoje não fazem diferença”.</p>



<p>“Tem
gente que atua por acreditar que conseguirá mudar Israel por dentro,
mas isso é uma história romântica, impossível. Só se muda por
pressão de fora. Ditaduras podem mudar por
pressão interna, mas Israel é mais do que uma ditadura”.</p>
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