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	<title>Arquivos nobel da paz - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos nobel da paz - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>O que a prêmio Nobel da Paz Malala Yousafzai veio fazer em Pernambuco?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 May 2023 15:04:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Centro de Mulheres do Cabo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>*com informações de Rafael Negrão, comunicador do Centro de Mulheres do Cabo A vencedora do Prêmio Nobel da Paz, a paquistanesa Malala Yousafzai, que se tornou símbolo da luta pelo direito à educação das meninas ao sobreviver a um ataque de homens ligados ao Talibã, passou alguns dias no Recife e Cabo de Santo Agostinho. [&#8230;]</p>
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<p><strong>*com informações de Rafael Negrão, comunicador do Centro de Mulheres do Cabo</strong></p>



<p>A vencedora do Prêmio Nobel da Paz, a paquistanesa Malala Yousafzai, que se tornou símbolo da luta pelo direito à educação das meninas ao sobreviver a um ataque de homens ligados ao Talibã, passou alguns dias no Recife e Cabo de Santo Agostinho. Ela veio conhecer de perto o projeto Meninas em Movimento pela Educação, coordenado pelo Centro das Mulheres do Cabo (CMC), e apoiado financeiramente pelo Fundo Malala.</p>



<p>A presença de Malala no estado foi mantida em sigilo em razão do protocolo adotado pela sua equipe de segurança, já que ela<a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-58240166" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> sofre frequentes ameaças de morte</a>, tanto por parte de fundamentalistas islâmicos quanto pela extrema-direita global.</p>



<p>A visita iniciou na manhã desta última quarta-feira (24), na biblioteca da Escola Estadual Professor Natanael Barbosa Medrado, na Charneca, periferia do Cabo. Malala e sua equipe foram recebidas por Cássia Jane, integrante da Rede de Ativistas pela Educação do Fundo Malala no Brasil, e por Fernanda Galindo, coordenadora da rede de ensino.</p>



<p>Malala conversou com as participantes do projeto Deyvila Lorrane e Maria Karolayne, que apresentaram um rap fruto de uma das ações do projeto que beneficiou mais de 32 mil alunas e alunos da rede pública e enfrenta as violações cometidas contra as meninas, focando no combate à evasão escolar e na prevenção do abuso e à exploração sexual contra meninas e adolescentes. Malala escutou os relatos das meninas e conheceu a sala de aula em que as jovens estudam.</p>



<p>“Quero agradecer a todas as ativistas pela educação, pelo seu trabalho. As meninas que com todas as dificuldades não desistem e continuam lutando e trabalhando por uma educação de qualidade. E quero deixar meu agradecimento especial às meninas, porque são vocês que são as agentes de mudanças, são vocês que estão no papel de protagonistas que sabem melhor do que ninguém quais são os desafios e as dificuldades que vocês enfrentam, meu muito obrigada&#8221;, disse a vencedora do Nobel.</p>



<p>Malala junto com sua comitiva também esteve no Centro das Mulheres do Cabo (CMC), organização feminista atuante há 39 anos no enfrentamento as violências de gênero. Ela foi recebida pelo forró pé de serra do grupo musical Sororizar.</p>



<p>A coordenadora geral do CMC, Izabel Santos, ressaltou a relevância da vinda de Malala para conhecer a realidade das meninas e jovens cabenses. “É uma honra receber Malala e desenvolver esse projeto com as meninas ativistas que têm feito toda a diferença em nossa cidade. Sua presença renova a nossa esperança, porque vivemos quatro anos de retrocessos com um governo que não valorizava a educação nem a ciência, mas estamos voltando, e recuperando a democracia, pois o projeto nos traz mais força”, ressaltou a feminista.</p>



<p>Ao fim da visita, Malala participou da gravação do Papo de Menina, um programa veiculado nas páginas do Instagram @centro.das.mulheres, com temas ligados ao direito à educação, saúde, violência contra a mulher, racismo, gênero, segurança pública, prevenção ao abuso e exploração sexual contra crianças e adolescentes entre outros assuntos. A iniciativa é comandada pelas meninas ativistas do Projeto Meninas em Movimento pela Educação.</p>



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	                                        <p class="m-0">Visita de Malala Yousafzai a Pernambuco foi mantida em sigilo e sob forte esquema de segurança. Crédito: Rafael Negrão/CMC</p>
	                
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		<title>Como a ditadura impediu o Nobel da Paz que Dom Hélder ganharia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 31 Mar 2019 15:00:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[dom helder]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No dia 20 de outubro de 1971, um nome aparecia como franco favorito para ganhar o Prêmio Nobel da Paz, que seria anunciado em Oslo, na Noruega: Dom Hélder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife. Conhecido internacionalmente pela denúncia que vinha fazendo das torturas e crimes cometidos pela ditadura, que tomara o poder em 1964, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>No dia 20 de outubro de 1971, um nome aparecia como franco favorito para ganhar o Prêmio Nobel da Paz, que seria anunciado em Oslo, na Noruega: Dom Hélder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife.</p>
<p>Conhecido internacionalmente pela denúncia que vinha fazendo das torturas e crimes cometidos pela ditadura, que tomara o poder em 1964, Dom Helder sabia, através de contatos internacionais, que estava no páreo. Em uma de suas famosas Circulares Conciliares, cartas que escrevia aos colaboradores mais próximos, geralmente na solidão das madrugadas em seu quarto, comentou sobre seus sentimentos.</p>
<p>“Tenho que admitir a hipótese da loteria sair para o Recife. Na hipótese do faz de conta, o Nobel só valeria na medida em que ajudasse a marcha das ideias, que não são apenas minhas, mas nossas!” Após uma enorme expectativa internacional, foi anunciado o vencedor. Por três votos a dois, o Nobel de 1971 foi para o chanceler alemão Willy Brandt do Partido Social Democrata. Mais um voto, e o arcebispo brasileiro teria vencido, ganhando uma projeção mundial.</p>
<p>A derrota, no entanto, teve um motivo fundamental – uma batalha feroz nos bastidores da diplomacia e da cúpula da ditadura brasileira, que contou com uma rede de apoios, intimidação a empresários noruegueses, reuniões entre embaixadores e a criação de um dossiê para influenciar a decisão do Comitê do Prêmio. O trabalho incansável, especialmente do embaixador brasileiro em Oslo, Jayme de Souza Gomes, acabou dando resultados.</p>
<p>Em 29 de outubro de 1970, num ofício secreto, ele já comemorara um feito:</p>
<p>“Acredito que, cercada do maior cuidado e sigilo, esta Embaixada, embora sem efetuar qualquer gestão oficial, pôde contribuir para o afastamento, pelo menos este ano, da candidatura de Dom Helder Câmara ao Prêmio Nobel da Paz”.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/02/Tore-Munck-19710001.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-1625" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/02/Tore-Munck-19710001-224x300.jpg" alt="Tore Munck 19710001" width="224" height="300"></a>No ofício, ele cita a “campanha jornalística” realizada na Noruega contra a primeira candidatura do arcebispo brasileiro. Ele cita um personagem que teria papel de destaque tanto naquele ano, quanto nos seguintes: Tore Munck, um dos diretores da Munck do Brasil S.A, que tinha duas fábricas de guindastes em São Paulo. Além disso era diretor de jornais em Oslo e Bergen.</p>
<p>Munck, relata Jayme, colheu “farto material” em suas viagens ao Brasil sobre a “vida pregressa” de Dom Helder graças às relações que mantinha com Júlio Mesquita Neto, diretor e proprietário do jornal O Estado de São Paulo.</p>
<p>Na volta a Oslo, encarregou um de seus jornais, o Morgenposte, a polemizar com o brasileiro, que já era citado como “sendo o mais provável ganhador do Prêmio Nobel da Paz deste ano”. O jornalista escalado foi Alrild Lilleb.</p>
<p>Um dos artigos do jornalista tinha como manchete “Prêmio da Paz para ex-fascista”, e foi encaminhado ao governo brasileiro com tradução.</p>
<p>“Teve decisiva influência junto à Comissão do Parlamento norueguês, havendo sido até anexado ao respectivo dossier”, comenta o embaixador brasileiro, que em alguns documentos assinava como J. de Souza-Gomes. O artigo era ilustrado com uma fotografia, da época em que Dom Hélder fora integrante da Ação Integralista Brasileira.</p>
<p>Para concluir o sucesso da operação para barrar o arcebispo em 1970, Tore Munck teria conversado com Sjur Sandebaekke, diretor do Bergens Private Bank, novo membro da Comissão do Nobel, alertando-o para a “má repercussão que teria a vitória de Dom Helder nos meios políticos brasileiros”, pela sua atitude de “acintosa, sistemática e injusta crítica ao atual governo do Brasil”.</p>
<p>Jayme informa que a opinião de Munck foi retransmitida por Sjur aos demais membros da Comissão, se tornando “um fator de grande valia que prevaleceu na indicação final do nome do Dr. Norman Ernest Borlaug”, como o vencedor de 1970.</p>
<p>O persistente Jayme manda telegrama à Secretaria das Relações Exteriores em 30 de dezembro de 1970, e alerta para um desafio ainda maior: a premiação de 1971.</p>
<p>“A candidatura de Dom Helder Câmara ao Prêmio Nobel da Paz de 1971 aumenta de vulto à proporção que se aproxima a data da escolha final, só encontrando, aparentemente, um nome que lhe oponha – o do Chanceler Willy Brandt”, diz em ofício datado de 25 de maio de 1971.</p>
<p>Uma nova arma seria utilizada: a monografia “A dialética política de Dom Hélder Câmara”, produzida por Felix A. Morlion, por intermédio do então embaixador Roberto Campos, entregue pessoalmente pelo “incansável colaborador da nossa campanha, senhor Tore de Albert Munck”.<br />
No mesmo ofício, Jayme informa que iria entregar o estudo para “membros da Comissão Nobel do Parlamento Norueguês”, e já tinha determinado, de imediato, a multiplicação mimeográfica do trabalho.</p>
<p>Por fim, uma indicação de como deveria ser o “programa de ação” para tirar o Nobel de Dom Helder – as ações deveriam se concentrar no aspecto econômico-social. Naquele momento, o Brasil era o país estrangeiro com o qual a Noruega tinha mais investimentos, e que o governo norueguês havia dado “garantia à aplicação de parte desses capitais através do projeto Borrregard”.</p>
<p>A lógica era simples. Se fosse projetado mundialmente com o Prêmio, o brasileiro ajudaria a “concorrer para a formação de um ambiente político-social que venha a por em risco os capitais estrangeiros”, entre os quais se encontravam os noruegueses. Dois exemplos eram citados para esse “ambiente”: Cuba e o Chile. A batalha para 1971 estava apenas começando.</p>
<h1>100 laudas</h1>
<p>Todos os detalhes dos bastidores que impediram Dom Helder de ganhar o Prêmio Nobel da Paz, de 1970 a 1973, foram relatados com uma impressionante riqueza de detalhes e cópias de documentos oficiais, pela Comissão Estadual da Memória e da Verdade Dom Hélder Câmara. A partir de documentos obtidos diretamente com o Itamaraty, a Comissão reconstituiu todo o caminho escolhido, através de canais diplomáticos e políticos, para denegrir a imagem de Dom Helder e evitar o prêmio.</p>
<p>Cadernos da memória e verdade – volume 4 &#8211; Prêmio Nobel da Paz – a atuação da ditadura militar brasileira contra a indicação de Dom Helder Câmara, tem 230 páginas. A tramoia dos militares, no entanto, é contada em apenas 64 páginas. O restante da publicação é composto da reprodução de documentos oficiais e secretos.</p>
<p>O novelo começou a ser desatado em agosto de 2014, quando os membros da Comissão que investigam as violações de direitos humanos nos meios religiosos, Manoel Moraes, Nadja Brayner e Henrique Mariano, foram ao Itamaraty. Queriam confirmar uma série de suspeitas, especialmente sobre a premiação do Nobel de 1971. Falaram com Alexandre Peña Ghislen, diretor do departamento de recursos humanos e temas sociais.</p>
<p><div id="attachment_1626" style="width: 310px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/02/manoel-moraes.jpg"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-1626" class="size-medium wp-image-1626" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/02/manoel-moraes-300x169.jpg" alt="Manoel Moraes/Reprodução" width="300" height="169"></a><p id="caption-attachment-1626" class="wp-caption-text">Manoel Moraes/Reprodução</p></div></p>
<p>“A gente teve notícia de que houve uma operação contra Dom Hélder, para ele não ganhar o Nobel da Paz em 1971. O que vocês têm nos arquivos do Itamaraty sobre isso?”, perguntou Moraes, um dos autores do livro.</p>
<p>“Esse tipo de ação, ninguém deixa por escrito. Se fizeram mesmo isso, dificilmente vai ter registro”, respondeu Alexandre, que ficou de verificar os arquivos do Itamaraty. Um mês depois, Manoel recebe um telefonema. Era Alexandre.</p>
<p>“A gente encontrou o que vocês estão procurado”, disse.</p>
<p>“Sério?’”, respondeu Manoel.</p>
<p>“Sério. E é um material bem denso”.</p>
<p>Em dezembro, Manoel recebeu em casa um pacote com 100 laudas, já organizadas por ordem alfabética. Dos 50 documentos iniciais disponíveis, a Comissão passou a trabalhar com 200.<br />
Como em muitos momentos históricos, alguns burocratas acabam tendo uma importância que somente o tempo vai revelar. É o caso do obstinado Jayme de Souza Gomes.</p>
<p>O embaixador conta, a cada ofício, todos os caminhos escolhidos para influenciar os cinco jurados do Nobel.</p>
<p>“A meu ver, ele foi decisivo”, avalia Manoel.</p>
<p><a href="http://200.238.101.22/docreader/docreader.aspx?bib=Nobel&amp;pasta=Premio%20Nobel%20da%20Paz" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Clique para ver a publicação do Cadernos da Memória na íntegra</a></p>
<p><a href="http://200.238.101.22/docreader/docreader.aspx?bib=DOMHEL&amp;pasta=DOM%20HELDER%20C%C3%82MARA" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Clique para ver o prontuário completo de Dom Helder Câmara, produzido pelo DOPS/PE</a></p>
<p><a href="http://www.cepedocumento.com.br/comissao-verdade.html" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Clique para ver todos os documentos disponibilizados pela Comissão da Verdade</a></p>
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		<title>Chantagem, ameaças e dossiês para tirar mais um Nobel de Dom Hélder</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Feb 2016 13:56:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em meados de fevereiro de 1971 durante um almoço oferecido a ministros de negócios estrangeiros, na embaixada do Brasil em Oslo, surgiu o primeiro boato de que o arcebispo de Olinda e Recife e Olinda, Dom Helder Câmara, estaria novamente entre indicados aceitos para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz, como ocorrera no ano anterior. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><div id="attachment_1637" style="width: 310px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/02/willy-brandt.jpg"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-1637" class="size-medium wp-image-1637" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/02/willy-brandt-300x221.jpg" alt="Willy Brandt. Foto: Reprodução." width="300" height="221"></a><p id="caption-attachment-1637" class="wp-caption-text">Willy Brandt. Foto: Reprodução.</p></div></p>
<p>Em meados de fevereiro de 1971 durante um almoço oferecido a ministros de negócios estrangeiros, na embaixada do Brasil em Oslo, surgiu o primeiro boato de que o arcebispo de Olinda e Recife e Olinda, Dom Helder Câmara, estaria novamente entre indicados aceitos para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz, como ocorrera no ano anterior. Surgiu também a novidade: o chanceler alemão Willy Brandt, nome de peso na política europeia, também estava no páreo.</p>
<p>Em 11 de março de 1971, o embaixador em Oslo, Jayme de Souza Gomes, envia um telegrama à secretaria geral do Itamaraty, confirmando a notícia e já antecipando os candidatos mais cotados para ganhar – o brasileiro e o alemão. Quanto ao brasileiro, era preciso agir para que fosse derrotado. E torcer pelo crescimento do alemão. Adepto dos longos relatórios, Jayme faz seus contatos de sempre e descobre quem participou dos trabalhos da Comissão Nobel do Parlamento Norueguês, o que foi dito, número de inscritos, e avalia os pontos positivos e negativos de Brandt, Dom Helder e dos irmãos indigenistas Cláudio e Orlando Villas-Boas, que logo seriam descartados.</p>
<p>Sobre Dom Helder, os pontos positivos, a exemplo da eleição que de 1970, seguiam os mesmos, acrescidos de um sentimento forte, entre diversos meios de comunicação noruegueses e europeus, de que o brasileiro fora injustiçado, no ano anterior. “Aqui, pois, não caberia realçar o prestígio do prelado brasileiro. Seria uma inútil repetição do que esta Embaixada tem informado”, diz o embaixador. Mas o que importava era saber o que “enfraquecera” Dom Helder, no conceito da Comissão Nobel.</p>
<p>Um dos pontos negativos fora fruto de uma artimanha do empresário Tore Munck, um dos diretores da Munck do Brasik S.A, que colheu no Brasil e publicou, em seu jornal, na Noruega – o Morgenposte &#8211; artigos apontando Dom Helder como “ex-fascista”, pelo fato de ter sido integrante da Ação Integralista Brasileira. Mas o principal “enfraquecimento” era o “receio” de que o brasileiro pudesse ter, com a outorga do Prêmio Nobel, cada vez mais influência, e isso pudesse contribuir “para a implantação de um governo de extrema esquerda no Brasil”, a exemplo do que acontecera recentemente no Chile – ou até em Cuba – com os problemas de “expropriação” ou “estatização”. Isso poderia colocar em risco os capitais estrangeiros. Os noruegueses, donos do Prêmio Nobel, despejavam rios de investimentos no Brasil, em 1971.</p>
<p>Era um raciocínio movido mais pelo bolso do que pela ciência política. No mínimo, a transformação de um arcebispo miúdo e cativante, num Che Guevara alucinado. O Brasil, em março de 1971, era governado sob a truculência do general Emílio Garrastazu Médici, os grupos de guerrilha rural ou urbana estavam sendo dizimados, a classe média celebrava o crescimento econômico. O país terminou 1970 com um crescimento de 9,5% do PIB e inflação de 20%. Não havia, nem nos maiores delírios, a possibilidade de um Governo de extrema esquerda. Mas detalhes como “ameaça aos capitais estrangeiros” e “risco aos investimentos noruegueses” se tornara o mote que a ditadura brasileira passou a utilizar, de forma sistemática e articulada, para derrubar Dom Helder pela segunda vez. Ou, como diziam os documentos da embaixada, para “neutralizar” a campanha do prelado brasileiro ao Nobel.</p>
<p>Na publicação Cadernos da memória e verdade – volume 4, publicado recentemente pela Comissão da Verdade Dom Helder Câmara de Pernambuco, que analisa o papel da ditadura brasileira contra a indicação de Dom Helder ao Nobel, há um episódio que ilustra os bastidores de uma “neutralização”. Vasco Mariz, então chefe do Departamento Cultural do Itamaraty, teria sido convocado para uma reunião com o secretário-geral do órgão, Jorge de Carvalho e Silva. Tinha sido a primeira indicação de Dom Helder ao Nobel, em 1970, e o alarme disparou. Muniz foi informado que o brasileiro era favorito. Recebeu a missão de convocar uma reunião com os embaixadores dos países escandinavos (Noruega, Suécia, Dinamarca e Finlândia) e comunicar o desconforto do governo brasileiro.</p>
<p>O encontro aconteceu, ironicamente, na Sala dos Índios, do Palácio Itamaraty. Foi solicitado, com todas as letras, “a título excepcional”, que os embaixadores interviessem junto à Fundação Nobel, “para evitar a escolha”. Segundo o relato de Mariz, todos os embaixadores voltaram, dias depois, e deram a mesma resposta – seus governos não interfeririam em “temas do Nobel”.<br />
No livro que publicou em 2013, intitulado Nos bastidores da diplomacia: memórias diplomáticas, resgatado pela Comissão da Verdade de Pernambuco, Mariz conta uma história impressionante, que escutara de Alarico Silveira, então chefe do Serviço de Informações do Itamaraty:</p>
<p>“Foram convocados os presidentes e diretores de todas as empresas escandinavas no Brasil, como Volvo, a Scania, Vabis, a Ericsson, a Facit, a Nokia e outras menores, e lhes foi solicitado que interviessem na Fundação Nobel para evitar a concessão ao Prêmio Nobel a Dom Helder Câmara. Todos lamentaram não poder intervir no caso”. O oficial general que presidia a reunião simplesmente deu um murro na mesa e anunciou: “Se os senhores não intervierem com firmeza e Dom Helder chegar a receber o prêmio Nobel da Paz, então as suas empresas no Brasil não poderão remeter um centavo de lucros para as respectivas matrizes”.</p>
<p><div id="attachment_1639" style="width: 239px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/02/felix-morlion.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-1639" class="size-medium wp-image-1639" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/02/felix-morlion-229x300.jpg" alt="Felix Morlion. Foto: Reprodução" width="229" height="300"></a><p id="caption-attachment-1639" class="wp-caption-text">Felix Morlion. Foto: Reprodução</p></div></p>
<p>Ao ler este relato em um livro de memórias de um ex-diplomata, Manoel Moraes esfregou os olhos e não acreditou. “Fiquei tão impressionado, que telefonei para ele, que confirmou tudo. Foi exatamente isso que aconteceu”, diz, um dos autores do livro da Comissão da Verdade. Um ilustre desconhecido entra em cena: Felix A. Morlion, O.P. Pelos documentos diplomáticos fornecidos pelo Itamaraty à Comissão Estadual da Memória e da Verdade Dom Helder Câmara, de Pernambuco, em dezembro de 2014, o cerco à candidatura do brasileiro, em 1971, passou por inúmeras articulações. Tudo valia a pena, desde que ele não vencesse.</p>
<p>Era maio de 1971, quando Tore Munck chegou à embaixada brasileira, desta vez não com alguma informação ou picuinhas dos bastidores do Comitê do Nobel, mas com uma novidade – uma monografia –, que tinha o estranho título “A dialética Política de Dom Helder Câmara”, produzida por Felix A, Morlion, O.P, um nome desconhecido para os brasileiros. Segundo Munck, o material teria sido viabilizado pelo embaixador Roberto Campos.</p>
<p>Belga, Morlion era uma figura ambígua: se por um lado ajudou judeus a fugirem da Gestapo na II Guerra e escreveu roteiros para o cinema neorrealista italiano, a partir do pontificado de Pio XII atuou nos bastidores do Vaticano como diplomata, mantendo vínculos estreitos com a democracia-cristã italiana e, provavelmente, com a máfia. Morlion se propunha a fazer uma “análise conteudista de acordo com a metodologia da análise do discurso”, dividindo depoimentos e entrevistas de Dom Helder em “quatro planos dialéticos”. Após expor as idéias do arcebispo, todas numeradas, abria um bloco e fazia perguntas, de sua autoria, contestando o arcebispo. Todas também numeradas. Em muitos momentos, ele não esconde uma certa admiração pelo brasileiro e certa vocação para se perder em divagações.</p>
<p>“A análise dos textos escritos por Dom Helder nos faz possível perceber o quão impressionante e dinâmicos são seus pronunciamentos para esses grupos. Não podemos então partir do geral para o particular, dos efeitos imediatos, intermediários e causas principais. “Se não tivermos o sucesso em entender a força espiritual de Dom Helder Câmara e, ao mesmo tempo, prover respostas concretas ao que ele tem arguido, nós não podemos reclamar de sermos taxados de culpados pelo pecado da omissão”.</p>
<p>O documento tinha uma característica – grandes colagens de depoimentos do arcebispo, sem data ou fonte, como no capítulo “A estrutura do novo socialismo”: “Eu sou socialista. Deus criou o homem na sua imagem para que este possa participar da sua criação, e não ser escravo, como se pode aceitar o fato de a maioria dos homens ser explorada a viver como escravos? Eu não consigo ver nenhuma solução no capitalismo. Mas eu também não vejo a solução nem nos exemplos do socialismo oferecido atualmente porque estes são baseados na ditadura”. “Meu socialismo é especial, um socialismo que respeita a pessoa humana e segue os evangelhos. Meu socialismo é justiça”.</p>
<p>A embaixada do Brasil em Oslo precisava de uma novidade para sensibilizar os jurados do Nobel e providenciou rapidamente a tradução e a impressão do documento, para distribuição entre os membros da Comissão do Nobel do Parlamento Norueguês – com especial atenção ao relator do processo de Dom Helder. Depois de espalhar a “Dialética”, surgiu um questionamento básico: afinal de contas, quem é esse tal Felix A.Morlion, O.P? Jayme Sousa Gomes manda carta ao embaixador Roberto Campos, que morava no Rio de Janeiro, pedindo dados biográficos do “Senhor Félix”, para melhor identificá-lo perante a Comissão do Nobel. Ao que parece, foi olimpicamente ignorado. Após dois meses mandando ofícios e telegramas, cobrando respostas, somente em julho de 1971 recebe um telegrama da embaixada brasileira no Vaticano.</p>
<p>“Fui informado que padre Felix Andre Morlion nega existência da mencionada monografia. Consegui, entretanto averiguar que ele está organizando no maior sigilo um estudo sobre Dom Helder Câmara cuja essência e finalidade, devido ao caráter sigiloso que ainda se reveste o assunto, não me foi possível até agora desvendar”, responde um funcionário que assina o documento secreto como Jobim.</p>
<p>Ele complementa:“Posso assegurar a vossa excelência que Padre Morlion não desfruta de bom conceito em esferas responsáveis do Vaticano, pois segundo Monsenhor Benelli me confiou ontem em caráter pessoal, trata-se de um imaturo, adjetivo esse que, dentro do contexto como foi empregado tem o sentido de irresponsável”. Além de irresponsável, esperto.</p>
<p>Jobim contou que Morlion conseguiu ligações nos Estados Unidos para criar a insittuição PRO DEO, arrecadando “vultosas subvenções”. No Brasil, ele conseguiu uma generosa doação de US$ 400 mil. Somente dia 29 de julho de 1971, Jobim consegue confirmar a autoria da “Dialética Política de Dom Helder”. Uma boa fonte eclesiástica revelou que fora mesmo Morlion o autor da monografia, que teve “cópias em número restrito e de circulação sigilosa”. O informante de Jobim garantiu que tinha seu exemplar, mas que seu intuito era “não dar conhecimento a ninguém”.</p>
<p>As tramoias eram certas. No dia 20 de outubro de 1971, o chanceler Willy Brandt foi anunciado pela Academia Sueca como vencedor do Prêmio Nobel da Paz. Teve três votos. Dom Helder, dois.</p>
<blockquote>
<h1>Os estranhos bastidores Nobel da Paz de 1970</h1>
<p>Em janeiro de 1971, a embaixada brasileira em Oslo conseguiu uma cópia de um extenso relatório, de 61 páginas, produzido pelo Comitê Nobel do Parlamento da Noruega. Número de inscritos, relatórios individuais, nomes de cada um dos relatores, que resumiam a trajetória de cada concorrente, da premiação referente a 1970. Estava assinado por August Schou, diretor do Instituto Nobel, e a palavra “Confidencial”, no alto da capa, de nada serviu. Dos 38 candidatos que passaram pela pré-seleção, sete foram considerados finalistas. Entre eles, estavam os brasileiros Dom Helder Câmara e Josué de Castro.</p>
<p>O número de páginas dedicado a cada candidato, poderia ter algum peso, mas naquele ano, coisas estranhas aconteceram. Josué de Castro, cientista brasileiro de renome internacional, autor do clássico Geografia da Fome, publicado em 1946, amargando seu exílio após o Golpe de 1964, ganhou pouco mais de duas páginas, escritas com imensa má vontade pelo consultor e doutor em Economia, Prebem Muthe. A julgar pelo primeiro parágrafo, o recifense jamais seria um Prêmio Nobel da Paz.</p>
<p>“O perito em nutrição, Josué de Castro, já foi proposto como candidato ao Prêmio da Paz em 1963, e a sua atividade foi objeto de um relatório, naquele ano. Tendo sido difícil obter informações suplementares sobre o trabalho de Castro desde aquela época e a proposta, deste ano, de Lord Boyd Orr [o proponente à candidatura de Castro] não contém nada de novo a cerca (sic) da obra de Castro”.</p>
<p>A julgar pelo relator, o Nobel de 1970 não foi muito cuidadoso com os convidados para emitirem pareceres. “Um ponto, entretanto, está esclarecido: ele deixou o Brasil depois do golpe de Estado em 1964, e ele vive atualmente em Paris. Quanto à sua projeção dentro das Organizações Internacionais de Alimentação, é difícil ter-se uma ideia de sua verdadeira atuação”. Candidato de número seis, Dom Helder Câmara foi relatado pelo consultor e doutor em Filologia, Jakob Svendrup. A indicação do brasileiro fora proposta pelo Nobel da Paz de 1968, René Cassin, Presidente do Tribunal Europeu de Direitos Humanos, acompanhado de vários parlamentares do Eire, parlamento da Holanda e três membros do Parlamento Sueco.</p>
<p><div id="attachment_1642" style="width: 310px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/02/norman-baulug.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-1642" class="size-medium wp-image-1642" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/02/norman-baulug-300x246.jpg" alt="Norman Baulug. Foto: Reprodução" width="300" height="246"></a><p id="caption-attachment-1642" class="wp-caption-text">Norman Baulug. Foto: Reprodução</p></div></p>
<p>São 16 páginas datilografadas com esmero pelo relator, que produz um breve e denso perfil humano e social do arcebispo brasileiro, apontado como um “protagonista importante para a não-violência e na obtenção de reformas sociais”. Ao longo do texto, Svendrup não esconde a admiração por Dom Helder. Lembra que sua presença constante na imprensa mundial, e o relaciona diretamente aos acontecimentos no Brasil. “Isso é devido ao fato de que ele é considerado como líder da oposição contra um regime que se torna cada vez mais ditatorial. A luta que ele leva não é sem risco. A sua casa foi metralhada e um de seus colaboradores mais íntimos, Henrique Neto, foi brutalmente assassinado”, diz, referindo-se ao brutal assassinado do Padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, em 26 de maio de 1969, no Recife”. O vencedor foi o agrônomo norte-americano do Centro Internacional de Melhoramento do Milho e Trigo, o hoje esquecido Norman Borlaug, ganhou apenas duas páginas de avaliação do Comitê do Nobel. Ele tinha criado um “novo panorama para a produção de alimentos no mundo”.</p></blockquote>
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