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	<title>Arquivos praias - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Tue, 25 Feb 2025 19:52:24 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos praias - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Prédio abandonado em Maria Farinha pode ter obra retomada</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Dec 2024 14:48:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[litoral de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[Maria Farinha]]></category>
		<category><![CDATA[praias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na orla de Maria Farinha, em Paulista, Região Metropolitana do Recife, um gigante abandonado chama a atenção de moradores e visitantes. Sua presença é quase um tumor na paisagem de construções horizontais, de pouca altura. Conhecido como o “prédio abandonado de Maria Farinha”, o edifício foi projetado para ser o Marlin Royal Flat Hotel, um [&#8230;]</p>
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<p>Na orla de Maria Farinha, em Paulista, Região Metropolitana do Recife, um gigante abandonado chama a atenção de moradores e visitantes. Sua presença é quase um tumor na paisagem de construções horizontais, de pouca altura. Conhecido como o “prédio abandonado de Maria Farinha”, o edifício foi projetado para ser o Marlin Royal Flat Hotel, um luxuoso empreendimento com 15 andares, 227 apartamentos e coberturas com vista privilegiada para a praia. </p>



<p>No entanto, desde 1985, a construção foi paralisada devido à falência da construtora Souza Luna S.A. e permanece assim até hoje, com seu esqueleto de concreto desafiando o tempo e a maresia. O representante dos atuais proprietários esperam que, nos próximos meses, a obra seja retomada e o imóvel tenha um novo destino.</p>



<p>Localizado na avenida Doutor Cláudio José Gueiros Leite, a apenas 200 metros do Veneza Water Park, o prédio impressiona pela dimensão e pela estrutura externa quase finalizada, contrastando com o interior totalmente exposto, com paredes sem acabamento, escadas improvisadas e tubulações corroídas atestam o desgaste de décadas de abandono.</p>



<p>Nos fins de semana, a área externa e térrea do imóvel é utilizada como uma arena por praticantes de paintball. Moradores do entorno, principalmente adolescentes e até crianças, também frequentam o local para apreciar a vista.</p>



<p>A Marco Zero foi até o prédio para saber as condições da construção. Durante a visita, encontramos três crianças de nove, 13 e 14 anos, que estavam no último andar da estrutura para ver o pôr-do-sol enquanto compartilhavam um lanche. “A gente gosta de vir pra cá porque a vista lá de cima é massa e é bem tranquilo. Não faz medo subir não”, contou a menina de 13 anos, admitindo que subir o prédio é uma atividade comum e rotineira. </p>





<h2 class="wp-block-heading">Um projeto paralisado por quase quatro décadas</h2>



<p>Hohe, o Marlin Royal Flat Hotel pertence ao condomínio formado pelos compradores originais dos flats. Após a falência da Souza Luna, que encerrou suas atividades em 1995, os imóveis permaneceram sem um destino definido. Agora, após quase 40 anos, há esperança de retomada.</p>



<p>Mesmo com a obra paralisada, o Marlin Royal possui um síndico, o advogado Osvaldo Bastos. Ele foi contratado em setembro deste ano pelos condôminos para liderar as negociações de venda do prédio a uma nova construtora. Duas propostas estão em análise, apresentadas pelas empresas Multitécnica e ACSL. Segundo Bastos, “não há dúvidas que o prédio será vendido”. Contudo, o fechamento a negociação ainda não foi concluída.</p>



<p>Procuramos a prefeitura de Paulista para saber se o prédio apresenta dívidas de Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU). De acordo com a gestão, “não consta no órgão nenhuma informação a respeito de dívidas”.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Nota da Prefeitura de Paulista</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">&#8220;A Prefeitura do Paulista informa que o empreendimento foi abandonado há quase 30 anos pelos donos e não consta no órgão nenhuma informação a respeito de dívidas. Os donos não procuraram a atual gestão municipal. A informação é de que já houve uma tentativa de compra do imóvel por parte de alguns empresários, mas as negociações não foram adiante&#8221;.</span></p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">Empresa era do dono do Diário de Pernambuco</h3>



<p>A construtora responsável pelo projeto, Souza Luna S.A., operou por mais de quatro décadas, mas encerrou suas atividades devido a problemas financeiros e familiares. A empresa foi presidida pelo advogado Carlos Federico Vital. </p>



<p>Vital ainda é uma figura ativa nos negócios da região e comprou o jornal Diário de Pernambuco em 2019, em uma negociação polêmica.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/as-opinioes-de-carlos-frederico-vital-o-novo-dono-do-diario-de-pernambuco/" class="titulo">As opiniões de Carlos Frederico Vital, o novo dono do Diario de Pernambuco</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/democracia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Democracia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p></p>
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		<title>Prefeitura potiguar proíbe tráfego de veículos na praia para proteger tartarugas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Jun 2024 21:13:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[dunas]]></category>
		<category><![CDATA[litoral]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Leandro Juvino, do portal Saiba Mais Por recomendação do Ministério Público Federal, o município de Senador Georgino Avelino, a 43 quilômetros ao sul de Natal, próximo a Pipa, proibiu o tráfego de veículos na praia de Malembá para proteger e preservar o processo reprodutivo e desova de tartarugas na região.  O tráfego de pessoas [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Leandro Juvino, do portal <a href="https://saibamais.jor.br/2024/06/praia-do-rn-proibe-trafego-de-veiculos-para-proteger-tartarugas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Saiba Mais</a></strong></p>



<p>Por recomendação do Ministério Público Federal, o município de Senador Georgino Avelino, a 43 quilômetros ao sul de Natal, próximo a Pipa, proibiu o tráfego de veículos na praia de Malembá para proteger e preservar o processo reprodutivo e desova de tartarugas na região. </p>



<p>O tráfego de pessoas e veículos no local, especialmente <em>off-roa</em>d e 4X4, foi avaliado como prejudicial pela proteção ambiental, pois causa alterações e potenciais interrupções no processo reprodutivo e de desova de tartarugas marinhas, especialmente as da espécie tartaruga-de-pente, que está ameaçada de extinção. A recomendação do MPF é para a proibição de todos os tipos de veículos, incluindo quadriciclos e motocicletas.</p>



<p>A decisão do município se baseia no inquérito civil que considera que as praias marítimas são bens da União. Em nota, a prefeitura informou que a decisão também considerou uma nota técnica do conselho gestor da Área de Proteção Ambiental (APA) Bonfim Guaraíra, que avaliou o impacto ambiental do trânsito de veículos nas referidas áreas da praia como grave.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Ações do município</strong></h2>



<p>Por isso, obedecendo a recomendação, o município informou que seguirá as devidas medidas protetivas como a instalação de placas visíveis ao público em todas as entradas de acesso à praia, que vão sinalizar a proibição do trânsito de veículos no local e também fiscalizações rotineiras para evitar danos ao meio ambiente, especialmente no período de desova das tartarugas.</p>



<p>Segundo o município, a liberação para o fluxo de veículos e pessoas só será permitido no período liberado por fiscais ambientais.<strong> </strong></p>


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		<title>Condomínio de luxo é autuado por esgoto na praia dos Carneiros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Apr 2024 20:32:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Carneiros]]></category>
		<category><![CDATA[litoral de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Eco Resort Praia dos Carneiros, um dos maiores empreendimentos da praia dos Carneiros, no litoral sul de Pernambuco, foi autuado pela Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) por lançamento irregular de esgoto na praia que é um dos principais cartões-postais do estado, na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guadalupe. O condomínio de mais [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O Eco Resort Praia dos Carneiros, um dos maiores empreendimentos da praia dos Carneiros, no litoral sul de Pernambuco, foi autuado pela Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) por lançamento irregular de esgoto na praia que é um dos principais cartões-postais do estado, na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guadalupe. O condomínio de mais de 400 unidades, entre flats e bangalôs, fica à beira-mar, ao lado da famosa &#8220;igrejinha de Carneiros&#8221;, a capela de São Benedito. </p>



<p>Segundo informações da Unidade de Fiscalização de Atividades Poluidoras da CPRH, foi comprovado o transbordamento de esgoto não tratado através de uma canaleta existente no condomínio. A agência ambiental lavrou o Auto de Infração nº 288/2024, com penalidade de multa simples, no valor de R$ 50 mil, mas ainda cabe recurso. </p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="ratio ratio-16x9"><iframe title="Condomínio de luxo em Carneiros é autuado por esgoto na praia" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/_H5mzJP1Rvw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
</div></figure>



<p>O caso, mostrado no vídeo acima, aconteceu no dia 19 de março, no final da tarde. No dia 20, após denúncias, a CPRH esteve no local. &#8220;O despejo, objeto da denúncia, tinha cessado. Porém, foram observados indícios de despejo do sistema de esgotamento sanitário na drenagem pluvial, o que levou a equipe da CPRH a realizar coleta de amostras para análise laboratorial&#8221;, informou a agência. O resultado saiu nesta sexta-feira, 5 de abril, indicando que a quantidade de &#8220;coliformes termotolerantes&#8221; na análise confirma que se trata de despejo de esgoto sanitário. Conforme a Resolução Conama 274/2000, essa quantidade tornou o trecho impróprio para recreação de contato primário (banho e outras atividades), por duração de cerca de uma semana segundo a agência estadual.</p>



<p>A praia dos Carneiros já está, no momento, própria para banho, de acordo com o dois últimos <a href="https://www2.cprh.pe.gov.br/monitoramento-ambiental/balneabilidade/informativo-semanal/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">informativos semanais de balneabilidade</a> publicados no site da CPRH.</p>





<p>O Eco Resort foi denunciado por meio de ofício do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) na Comarca de Tamandaré, e também formalização na Ouvidoria Ambiental da CPRH. Ambas as denúncias citam o condomínio como autor da infração ambiental, o que foi constatado pela agência. </p>



<p>A Associação para o Desenvolvimento Sustentável da Praia dos Carneiros (Adesc), que representa hotéis, pousadas e restaurantes, realizou uma coleta anterior à da CPRH, no próprio dia 19, enquanto o esgoto ainda vazava, que foi analisada pelo laboratório particular Quarklab, constatando contaminação por coliformes fecais três vezes acima do permitido e pela bactéria <em>Escherichia coli</em> 2,7 vezes além do limite estabelecido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). A turbidez &#8211; o mesmo que turvação ou redução de transparência &#8211; também estava fora dos parâmetros, seis vezes acima.</p>



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	                                        <p class="m-0">Esgoto vazou do condomínio Eco Resort Praia dos Carneiros no dia 19 de março. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Adesc</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Essa análise foi enviada à agência e pôde subsidiar a autuação, uma vez que &#8220;os resultados comprovaram o crime ambiental&#8221;, informou a CPRH. “Conforme a Resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA) número 274, de 2000, o despejo de esgoto não tratado compromete a qualidade da água do mar, prejudicando a balneabilidade”, explicou o Diretor de Fiscalização Ambiental, Maviael Torchia, em comunicado à reportagem.</p>



<p> A <strong>Marco Zero</strong> tentou, por diversas vezes, uma entrevista com o Eco Resort nas duas últimas semanas, mas não teve sucesso. </p>


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			</item>
		<item>
		<title>Chegou a vez de Salvador enfrentar as sombras dos espigões à beira mar</title>
		<link>https://marcozero.org/chegou-a-vez-de-salvador-enfrentar-as-sombras-dos-espigoes-a-beira-mar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Mar 2024 19:28:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[especulação imobiliária]]></category>
		<category><![CDATA[litoral]]></category>
		<category><![CDATA[praias]]></category>
		<category><![CDATA[Salvador]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Júlia Moa “Não construir prédios em lugares de preservação ambiental, é sobre isso que fala [no trecho da música Lucro] a especulação imobiliária, é bem mais simples do que parece. Temos que ficar com os olhos abertos. Pelo direito da nossa cidade. Não faremos carnaval debaixo de prédios e sim na frente do mar. [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Júlia Moa</strong></p>



<p>“Não construir prédios em lugares de preservação ambiental, é sobre isso que fala [no trecho da música <a href="https://www.letras.mus.br/baianasystem/lucro-descomprimindo/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Lucro</em></a>] a especulação imobiliária, é bem mais simples do que parece. Temos que ficar com os olhos abertos. Pelo direito da nossa cidade. Não faremos carnaval debaixo de prédios e sim na frente do mar. Tirem as construções da minha praia, eu não consigo respirar”, foi o discurso fervoroso de Russo Passupuso minutos antes de agitar uma multidão em volta do trio elétrico Navio Pirata, da Baiana System, na folia deste ano. </p>



<p>No mesmo local, o nobre Largo do Campo Grande, região central de Salvador, só que nos idos de 1980, outra figura provocadora também expressou críticas em relação ao assunto. A arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, conhecida por diversos projetos na cidade, <a href="https://www.instagram.com/p/CbUzEkEFG6X/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">sugeriu a um repórter</a> que os espigões (prédios altos) erroneamente erguidos ali, que ainda hoje obstruem a vista do mar e bloqueiam a circulação do ar, deveriam ser demolidos.</p>



<p>A indignação de Russo veio a calhar. Um pouco antes dos ritos carnavalescos ecoarem pelas ruas, a prefeitura municipal abriu um leilão para vender 40 terrenos de áreas verdes, distribuídos por quase 10 bairros da cidade, com lances iniciais de R$ 10 milhões. Pessoas ligadas ao<a href="https://www.instagram.com/movimentosalvaverde/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> ativismo urbano-ambiental </a>tentam barrar rapidamente os eventos que estão previstos para acontecer entre os dias 7 e 15 de março.</p>



<p>A discussão, quando o assunto é a resistência dos moradores contra a indústria da destruição que há décadas tenta instaurar na capital a verticalização predatória em diversas localidades, não finda. Numa mesma receita de bolo &#8211; grandes construtoras envolvidas, interesses econômicos e políticos declarados, e nomes de figuras públicas comprometidas &#8211; a fatia indigesta vai para a população que precisa mover estratégias para tentar frear a máquina de lucro. A mesma engenhoca presente na canção de Passapusso quando ele ironiza: “[Salvador], você pra mim é lucro”.</p>



<p>A dor de cabeça atual parece até o roteiro do filme <em>Aquarius</em>, dirigido pelo cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho. Acompanhem: na mesma época em que Bo Bardi cutucava o poder público soteropolitano com suas opiniões embasadas, lá no final da década de 1980, uma pacata rua sem saída, a Barro Vermelho, no boêmio bairro Rio Vermelho, encantava os residentes com a vista para o mar. De lá para cá, tudo mudou. A pequena e charmosa praia do Buracão começou a atrair não apenas turistas, mas estabelecimentos comerciais com seus altos decibéis, que tiram o sossego dos vizinhos além de causar tumulto no tráfego, e a construtora Novonor (anteriormente conhecida como Odebrecht). O plano deles é erguer três torres entre 16 e 18 andares em dois terrenos de frente para a praia, desrespeitando diversas leis.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Projeção do sombreamento sobre a praia do Buracão. Crédito: Reprodução
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O economista Miguel Seheb conta que, inicialmente, havia somente casas residenciais ao lado da praia e edifícios no outro lado da rua. Então, surgiu um prédio com três andares para cima e três para baixo, respeitando os limites de nove metros de altura a partir do cordão da calçada. Mais tarde, outro prédio no final da rua começou a ser edificado, fechando o acesso à praia aos moradores e frequentadores dos bairros vizinhos. Com essas novas edificações e o risco da verticalização irregular dando as caras no ambiente, foi formada há dez anos a Associação dos Moradores do Barro Vermelho, que hoje totaliza atualmente 334 pessoas.</p>



<p>Sempre com os radares ligados, em 2023, a turma da Associação decidiu investigar por conta própria uma movimentação suspeita. Foi descoberta a venda (por aproximadamente 16 milhões) de três terrenos, dois unificados, nos quais as casas ali erguidas teriam sido propositalmente degradadas para obter vantagens nos índices de construção permitidos. Ou seja, uma nítida intenção de não cumprir os padrões estabelecidos pela legislação para regular e controlar aspectos específicos relacionados à implantação de edifícios em determinadas áreas.</p>



<p>Em duas certidões de ônus reais acessadas pela reportagem, é possível verificar os detalhes dos imóveis, assim como a venda e compra. Não foi difícil para os moradores verificarem que o endereço do comprador é o escritório da Novonor em Salvador.</p>



<p>&#8220;É um absurdo o que está ocorrendo, eles nunca nos procuraram para conversar. Estamos muito preocupados. Trata-se de uma empresa com um sério histórico de corrupção e que é a mesma por trás da mineradora Braskem, envolvida no enorme desastre ambiental em Maceió, que prejudicou centenas de famílias ao deixá-las sem ter onde morar&#8221;, desabafa Miguel ao relembrar o histórico de falta de responsabilidade e consideração do grupo empresarial. Alarmados com o fato, os integrantes da associação de moradores criaram uma nova frente, o movimento apartidário <a href="https://www.instagram.com/sos.buracao" target="_blank" rel="noreferrer noopener">SOS Buracão</a>, que visa reunir todos os interessados na proteção da vizinhança.</p>



<h2 class="wp-block-heading" style="text-transform:none">A ruína da praia</h2>



<p>Daniel Passos, artista visual e especialista em Gestão e Urbanismo Sustentável pela Universidade Erasmus de Rotterdam, nos Países Baixos, é figura assídua no Buracão há 20 anos. Para ele, a construção dos espigões significa a ruína da praia, que possui um ótimo potencial para a realização de atos culturais e esportivos, além de fomentar o comércio local. Outro ponto que Daniel destaca é a relutância do prefeito Bruno Reis (União Brasil) em executar a revisão do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), que atua junto com a <a href="https://www.politize.com.br/lei-organica-de-um-municipio/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Lei Orgânica do Município</a>, uma atitude estranha diante das conjunturas. Lembrando que em breve ocorrerão as eleições municipais.</p>



<p>“É neste instrumento que obtemos informações sobre o que, como e onde se pode construir. Considero fundamental ao PDDU que exista a participação pública, como a que o SOS Buracão faz. A confusão se dá quando temos uma população engajada e participativa, procurando diálogo e tentando sistematicamente fazer essas pontes de conversa, enquanto os órgãos institucionais permanecem com uma cortina de fumaça e ausência de respostas diretas”, explica Daniel.</p>



<p>O que se sabe até agora é de um empreendimento da Novonor que está em vias de ser validado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur). Entretanto, por qual PDDU? O atual, ultrapassado, ou o novo, que ainda não existe?</p>



<p>Caso fosse feita a revisão, garante Passos, uma equipe organizada como o SOS Buracão iria participar ativamente das audiências públicas para limitar o gabarito dos terrenos. Outro tópico seria a criação dos portais de transparência para que os cidadãos possam ficar cientes das transformações urbanas que virão dos empreendimentos. Sem essa clareza, o debate e defesa dos interesses coletivos na cidade se mantêm desiguais e o poder público, junto ao privado, passam a atuar com os próprios interesses. “É dessa forma que as possíveis 54 unidades habitacionais de luxo poderão destruir uma praia utilizada por mais de mil pessoas e comerciantes com décadas de atuação”, avalia Passos.</p>



<p>O movimento SOS Buracão, em quase um ano de existência, já promoveu três manifestações, participou de quatro audiências públicas e contabiliza mais de 6 mil assinaturas na petição para arquivar esse esquema prejudicial. O presidente da Câmara Municipal, vereador Carlos Muniz (PSDB), criou um projeto de lei que torna de utilidade pública os dois terrenos onde a Novonor pretende firmar as três torres imobiliárias. É dele a autoria do PL n.º 318/2023, que pretende conceber um estacionamento público para permitir melhor frequência à praia e a implantação de uma praça onde todos possam contemplar a bela paisagem. Resta a aprovação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" style="text-transform:none"><strong>Impactos ambientais do sombreamento</strong></h2>



<p>Os prejuízos ambientais que a construção dos espigões acarreta são vastos. A especialista em meio ambiente, Socorro Colen, antecipa que as máquinas e equipamentos pesados trabalhando numa rua estreita e sem saída podem gerar poluição sonora e trepidação do solo. Isso causa desequilíbrio ao ambiente marinho, pois no Buracão aparecem com frequência baleias jubartes, tartarugas para fazer a desova e variadas espécies de peixes. Tal mudança no ecossistema talvez não seja possível recuperar.</p>



<p>“Construir prédios altos e luxuosos às margens da praia, colados na areia, resulta em zonas de sombreamento na areia com consequente geração de doenças ocasionadas por microorganismos que, se tivessem luz solar, seriam dizimados. A areia seca contaminada por fezes de animais (cães e gatos) é capaz de transmitir parasitas e larvas, como o bicho geográfico. Ao revolver a areia e expor ao sol, eliminam-se os microorganismos. Doenças como diarreias, gastroenterites, alergias na pele, parasitoses e viroses são eliminadas pelos raios solares”, demonstra Socorro.</p>



<p>Outro problema é que os edifícios altos interferem nas correntes marítimas que fazem a regulação térmica de Salvador, além de saturar os sistemas de água e esgoto, bem como provocar o desequilíbrio no ecossistema. E o vento, aliado para refrescar o calor tropical, será barrado, chegando com dificuldade aos habitantes que ficam atrás, aumentando a sensação térmica.</p>



<p>Dados de uma análise feita pelo <a href="https://mapbiomas-br-site.s3.amazonaws.com/MapBiomas_Zona_Costeira_Outubro_2021_30102021_OK.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">MapBiomas</a> em 2021, a partir de imagens de satélite, mostram que entre 1985 e 2020, mais de 12 mil hectares foram perdidos para a construção de empreendimentos, diminuindo as paisagens litorâneas no Brasil. Esse valor equivale à área de 30 Copacabanas &#8211; o bairro carioca contém 410 hectares.</p>



<p>Moradores do bairro Stella Maris igualmente aderiram às causas coletivas. A briga é para impedir a instauração de um paredão com 8 torres de até 18 andares à beira-mar. “Temos o receio de que Salvador se transforme numa cidade insuportável em termos de temperatura, mobilidade, segurança, ecologicamente insustentável, com maior desigualdade social e étnica. Além do risco de perder a ventilação natural, a vista para o mar, e que invasões de áreas públicas e privatizações tomem conta da cidade”, alega Isabel Perez, assistente social e integrante do <a href="https://www.instagram.com/coletivostellamaris/?hl=pt" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Coletivo Stella Maris</a>.</p>



<iframe src="https://www.google.com/maps/embed?pb=!1m18!1m12!1m3!1d3755.7290400376705!2d-38.48458926586824!3d-13.014555425870727!2m3!1f0!2f0!3f0!3m2!1i1024!2i768!4f13.1!3m3!1m2!1s0x7161cad1330bd63%3A0x643b6a47958767ea!2sPraia%20do%20Burac%C3%A3o!5e1!3m2!1spt-BR!2sbr!4v1709321026469!5m2!1spt-BR!2sbr" width="600" height="450" style="border:0;" allowfullscreen="" loading="lazy" referrerpolicy="no-referrer-when-downgrade"></iframe>



<h3 class="wp-block-heading" style="text-transform:none">Empreiteira diz querer diálogo</h3>



<p>Em <a href="https://www.correio24horas.com.br/minha-bahia/or-quer-dialogar-sobre-empreendimento-na-praia-do-buracao-0224" target="_blank" rel="noreferrer noopener">entrevista para o veículo Correio 24h</a> no início do ano, o CEO da OR, incorporadora do grupo Novonor, Eduardo Pedreira, disse que gostaria de conversar com o povo a respeito do empreendimento na Praia do Buracão. Contudo, ele sequer tocou a campainha de alguém da rua Barro Vermelho. Todos os seus argumentos expostos na conversa com a grande mídia, as benfeitorias que o investimento desse porte poderia proporcionar para a singela rua, são refutados pelo SOS Buracão. Ao contrário da Novonor, que contratou estudiosos de São Paulo para lidar com as demandas baianas, o movimento tratou de consultar aliados experientes nas questões que abarcam a complexidade do território e demais polos nordestinos. Ninguém do SOS gostaria de enxergar em Salvador alguma semelhança com o que foi feito, diante da ganância da especulação imobiliária, na <a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c88j218nzgmo" target="_blank" rel="noreferrer noopener">orla de Balneário Camboriú,</a> em Santa Catarina.</p>



<p>&#8220;Seu Eduardo, estamos à disposição para dialogar. Venha nos procurar&#8221;, convida Miguel Seheb.</p>



<p>Na visão do arquiteto e urbanista Neilton Dórea, a cidade precisa ser planejada e ter uma legislação que seja discutida por todos. Só que a cada gestor, tais normas passam por procedimentos feitos numa espécie de balcão de negócios, deixando de ser menos restritiva para ser mais voraz à paisagem da cidade. Substituindo áreas abertas públicas e verdes por edificações que extrapolam alturas e proximidade entre as mesmas. Dórea crê que o motivo é simplesmente satisfazer acordos econômicos e financeiros entre os poderes (político e do mercado), excluindo a comunidade. Essa, por infeliz consequência, acaba tendo uma baixa qualidade de vida.</p>



<p>“O Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Bahia (CAU/BA) pediu audiência na época do ACM Neto (UB) e duas vezes ao atual prefeito para discutir a cidade. Não tivemos nenhuma resposta, é uma autarquia federal. Imagine só com as associações de bairros”, assegura Dórea.</p>



<p>O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema/BA), a SEDUR e a Novonor foram contatados pela reportagem e não se manifestaram .</p>



<p>A vereadora Martha Rodrigues (PT) presta todo o apoio aos movimentos que se posicionam contra a invasão dos empreendimentos imobiliários em Salvador e busca dar visibilidade ao SOS Buracão, ouvindo a sua vivência e colocando-os em contato com os agentes públicos e políticos que têm a atribuição de fiscalizar as pautas ambientais e urbanísticas da cidade, como o Ministério Público.</p>



<p>Daniel Colina, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil &#8211; Departamento da Bahia (IAB), confirma que o PDDU não é um problema exclusivo de Salvador e que o órgão vai nacionalizar o debate, entendendo que em todos os municípios é necessário promover a participação da comunidade, sendo que as periferias, territórios de exclusão, são prioridade.</p>



<p>“A cidade que queremos tem que estar incorporada no PDDU e pautar aqueles políticos que queiram nos representar”, discorre Colina.</p>
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		<title>O belo, venenoso e carnívoro peixe-leão</title>
		<link>https://marcozero.org/o-belo-venenoso-e-carnivoro-peixe-leao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Mar 2023 10:52:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[caribe]]></category>
		<category><![CDATA[invasão]]></category>
		<category><![CDATA[nordeste]]></category>
		<category><![CDATA[peixe-leão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pernambuco está sendo invadido. Nos últimos 30 dias, foram encontrados os primeiros peixes-leão na costa do estado. Primeiro em Itamaracá, depois no naufrágio do navio Vapor Bahia, na divisa com a Paraíba. Em Fernando de Noronha, desde 2020 há avistamentos e capturas de exemplares da espécie. Mais de 150 espécimes já foram capturados por lá. [&#8230;]</p>
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<p>Pernambuco está sendo invadido. Nos últimos 30 dias, foram encontrados os primeiros peixes-leão na costa do estado. Primeiro em Itamaracá, depois no naufrágio do navio Vapor Bahia, na divisa com a Paraíba. Em Fernando de Noronha, desde 2020 há avistamentos e capturas de exemplares da espécie. Mais de 150 espécimes já foram capturados por lá. Do Amapá até Pernambuco já existe a presença desse novo invasor. Já foi encontrado em todos os municípios da extensa costa de 570 quilômetros do Ceará. No Rio Grande do Norte, o peixe-leão também está presente em estuários. Pesquisadores acreditam que é uma questão de tempo até que chegue no Uruguai, descendo e ocupando toda a costa brasileira. É uma invasão perigosa, com ameaças à biodiversidade, à pesca e ao turismo.<br><br>O peixe-leão é exuberante, mas também venenoso, carnívoro e voraz. Essas “penas” que ele tem ao longo do corpo são 18 espinhos repletos de toxinas. Quem tocar nele pode ter reações como dor, febre, vermelhidão e inchaço. Até agora, há alguns poucos relatos de incidentes no Brasil. O caso mais grave foi de um pescador do Ceará de 24 anos que pisou em um peixe-leão e, por ter tido contato com vários espinhos, sofreu convulsões e precisou ser hospitalizado.<br><br>Mas é a biodiversidade marinha da costa brasileira a grande ameaçada pelo peixe exótico e invasor.</p>



<p>O peixe-leão reúne um extenso conjunto de características preocupantes. Chega a comer 30 peixes juvenis em apenas meia hora e não tem predador natural no Atlântico. “Eles comem tudo que passar pela boca. Encontramos um peixe de 15 centímetros, ainda muito pequeno, e ao abri-lo já havia três peixinhos menores dentro do estômago dele. Há até vídeo de peixe-leão morrendo sufocado porque tentou comer um peixe maior do que ele”, conta a bióloga Gislaine Lima, pesquisadora do Projeto Conservação Recifal (PCR), entidade que está atuando na captura e capacitação sobre o peixe-leão.<br><br>Ele também se reproduz rapidamente. Uma fêmea é capaz de colocar 2 milhões de ovos ao ano. Vive por até 15 anos e pode ultrapassar os 45 centímetros. É extremamente adaptável a quase todo ambiente marinho: com muita ou pouca salinidade, águas frias e águas mais quentes, águas rasas ou profundas. Mais de 300 peixes-leão já foram encontrados no Nordeste em aproximadamente um ano. <br><br>O pesquisador do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Ceará, Marcelo Soares, tem se dedicado a estudar o peixe-leão no Brasil. Ele falou com a Marco Zero quando estava as Ilhas Virgens Americanas, no Caribe, onde foi aprender como os países da região lidam com esse peixe, que é uma espécie invasora por lá há 20 anos. Para ele, não tem mais como o Brasil se livrar do peixe-leão. É uma bioinvasão considerada rápida e eficiente. O necessário agora é fazer um controle dessa população. E com urgência.<br><br>“Entre eliminar o peixe-leão e deixar ele se proliferar livremente há um espaço enorme. É um peixe que ocupa já uma área gigantesca, pelo menos oito estados, do Amapá a Pernambuco. Não é mais possível erradicá-lo. Mas há um termo científico que usamos que é “erradicação funcional”, que é deixar poucos animais no ambiente para que não haja impacto na pesca nem na biodiversidade. Porque uma coisa são cinco animais invasores, outra coisa são 200”, explica o pesquisador.<br><br>O que vira notícia, como as capturas em Itamaracá e no Vapor Bahia, são a ponta do iceberg, diz Marcelo Soares. Isso porque esses peixes podem se reproduzir em profundidades de até 200 metros. E também porque as informação sobre esse peixe ainda são pouco difundidas entre os pescadores. “Muitas vezes vamos em alguma comunidade pesqueira para fazer a capacitação e os pescadores já viram ou pescaram o peixe-leão. Ele já é encontrado em todos os municípios do litoral do Ceará, por exemplo”, diz Marcelo.<br><br>Se no começo da pesquisa do Labomar, há cerca de um ano, os exemplares capturados eram pequenos, com menos de 15cm, hoje os que são encontrados no Ceará chegam a 28cm. “Ou seja, eles estão crescendo, estão se alimentando e se reproduzindo &#8211; a partir dos 18cm já encontramos fêmeas com ovos. Em Noronha já foram capturados exemplares com 35cm”, alerta Marcelo. </p>



<p>O que tem sido feito com certo sucesso no Caribe é a pesca ininterrupta do peixe-leão para conter o aumento da população. “É algo que aqui é feito nas unidades de conservação e, verdade seja dita, também está sendo feito nas unidades do Brasil. Mas é preciso ampliar, fazer muito mais”, afirma.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Como o peixe-leão chegou ao Brasil?</h2>



<p>O peixe-leão tem como habitat natural o Pacífico Sul e o oceano Índico, principalmente no Mar Vermelho. É um peixe que costuma habitar corais. No seu local de origem, a população é controlada, já que ele possui predadores naturais, como algumas espécies de tubarão, garoupas, moréias e barracudas.<br><br>Acontece que no oceano Atlântico ou não há esses predadores em quantidade suficiente &#8211; as garoupas, por exemplo, estão ameaçadas de extinção &#8211; ou eles não reconhecem o peixe-leão como presa, como é o caso dos tubarões.<br><br>Em Honduras, um projeto em 2010 tentou “ensinar” os tubarões locais a comer os peixes-leão, já que são animais resistentes à toxina dele. Para tentar incluir o peixe-leão na dieta dos tubarões, mergulhadores davam a presa na boca do predador, com o uso de arpões, como documentado pela revista <a href="https://www.nationalgeographic.com/adventure/article/110404-sharks-lionfish-alien-fish-invasive-species-science" target="_blank" rel="noreferrer noopener">The National Georgraphic</a>. Cuba e Belize também tentaram essa abordagem. “Não teve muito resultado”, diz a bióloga Gislaine Lima. E ainda há o perigo dos tubarões associarem os mergulhadores a “garçons”, como mostrou o <a href="https://www.washingtonpost.com/national/health-science/divers-feed-invasive-lionfish-to-sharks-but-could-this-come-back-to-bite-them/2014/10/19/32efc18a-547a-11e4-809b-8cc0a295c773_story.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">The Washington Post</a>.<br><br>O primeiro registro do peixe-leão no Atlântico foi na Flórida, nos Estados Unidos, ainda nos anos 1980. Mas foi só no começo dos anos 2000 que a espécie virou uma invasora nas Américas. A hipótese mais provável é que ele chegou ao mar do Caribe por meio de peixes que viviam em aquários e foram jogados de propósito ou acidentalmente no mar. Um episódio que pode ter fortalecido a disseminação do intruso foi um furacão que passou pelas Bahamas em 2003 e destruiu um enorme aquário de um resort, levando os peixes ao mar. Em 2010 já foram encontrados peixes-leão no caribe da Venezuela. De lá, o peixe foi “descendo”.</p>



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	                                        <p class="m-0"> O peixe-leão-comum (Pterois miles) invadiu o arquipélago de Fernando de Noronha. Crédito: Tommaso Giarrizzo (Labomar-UFC)</p>
	                
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<p>No Brasil, o primeiro registro foi em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro, em 2015, mas acredita-se que foi um caso isolado, de despejo no mar de exemplares de aquário, sem maiores consequências. Foi só a partir do final de 2020 que os avistamentos começaram em Fernando de Noronha e no Pará. <br><br>A foz do rio Amazonas, entre os estados do Amapá e Pará, é considerada a porta de entrada do peixe-leão no Brasil. “Há alguns anos foi descoberto que existem recifes de corais submersos que chegam a até 125 metros de profundidade na foz do Amazonas. O peixe-leão habita corais, onde fica camuflado, esperando as presas passarem sem vê-lo. Ele pode ter usado esses corais na foz do rio como plataforma para se reproduzir e então se expandir pelo Norte e Nordeste”, afirma Marcelo Soares.<br><br>Em lugares onde o fundo do mar é arenoso, os invasores têm se aproveitado das marambaias, que são armadilhas fixas feitas por pescadores para criar uma espécie de recife artificial para os peixes. “Os pescadores afundam carros velhos, como kombis, pneus, tonéis de óleo e de pesticidas, geladeiras, entre outras estruturas, no fundo do mar arenoso e aos poucos vai se criando ali um ambiente que atrai os peixes. Depois eles vão lá e caçam esses peixes”, explica o pesquisador.<br><br>As marambaias estão assim funcionando como uma estrada para o peixe-leão: os invasores vão de marambaias em marambaias se reproduzindo e comendo os peixes, moluscos e crustáceos que encontram nessas armadilhas, o que também prejudica as comunidades pesqueiras. Uma pesquisa do Labomar, da UFC, identificou que 58% dos peixes-leão capturados no Brasil estavam em marambaias.<br><br>Por conta das correntezas, os pesquisadores acreditam que o peixe-leão vai chegar com certa facilidade até a costa uruguaia.<br><br>Há vários tipos de peixe-leão, mas, apesar do estudo genético ainda não estar concluído, acredita-se que a invasão brasileira seja de duas espécies: o vermelho, de nome científico <em>Pterois volitans</em>, e o peixe-leão-comum (<em>Pterois miles</em>). “Em mais ou menos um mês deveremos ter esse teste genético pronto”, informa Marcelo Soares.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma ameaça aos estuários</strong></h3>



<p>Nas primeiras aparições na costa nordestina, em maio do ano passado, os peixes-leão foram encontrados em áreas distantes do continente. Em menos de um ano, ele se aproximou bastante: já foi encontrado em estuários &#8211; os berçários da vida marinha &#8211; e na praia de Paracuru, no Ceará, pescadores capturaram o peixe-leão na beira-mar, em um curral de pesca.</p>



<p>A invasão tem espantado os pesquisadores pela rapidez. Em julho de 2022 os primeiros peixes-leão foram encontrados no Rio Grande do Norte. Foi em Tibau, perto da divisa com o Ceará. “Desde então, ele só tem se expandido, aparecendo também em Areia Branca e Porto do Mangue. Aparecem quase sempre nas marambaias, onde vão em busca de alimentos e onde se reproduzem”, explica a pesquisadora Emanuelle Rabelo, da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA).</p>



<p>Menos de cinco meses após a primeira captura em marambaias, que costumam ficar em alto mar, o peixe-leão foi avistado na comunidade de Diogo Lopes, na cidade de Macau, dentro dos recintos de reabilitação do projeto peixe-boi. “Tem um cercadinho dentro do rio onde ficam os peixes-boi que são encontrados encalhados. Eles ficam lá um tempo para se reabilitar, antes de voltarem para o mar. E foi lá onde pelo menos dois peixes-leão foram encontrados, em uma profundidade bem pequena, inferior a 2 metros”, conta a pesquisadora.</p>



<p>Felizmente, nenhum peixe-boi foi machucado pelos espinhos do peixe-leão. “Como o peixe-boi é um animal de comportamento mais lento, dócil, pode ser que um incidente aconteça, caso o peixe-leão comece a se reproduzir dentro dos recintos ou apareça em uma quantidade grande. Como ele é venenoso, pode machucar o peixe-boi.”, diz.</p>



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	                                        <p class="m-0">Em Diogo Lopes (RN), dois peixes-leão foram encontrados a poucos metros de profundidade. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A presença de peixe-leão em estuários é ainda mais preocupante do que em alto mar. “Os estuários são locais de onde muitos pescadores tiram seu sustento. E há um impacto direto, com maior possibilidade de acidentes com seres humanos &#8211; os pescadores não têm proteção para lidar com esse peixe. O outro problema é ambiental. O peixe-leão se alimenta de espécimes juvenis de peixes que são importantes. Se ele começar a se reproduzir muito, ele pode comprometer a biodiversidade dos peixes nativos. E, de quebra, ainda vão prejudicar a pesca. É uma ameaça para o meio ambiente, para a pesca e diretamente para o ser humano, por conta dos acidentes”, elenca Emanuelle Rabelo.</p>



<p>No Caribe, a ocorrência de peixe-leão em estuários não é muito comum. Por aqui, além do Rio Grande do Norte, ele também já foi encontrado em estuários do Piauí e do Ceará. Há pelo menos duas hipóteses que podem explicar esse comportamento. “Algo que pode estar influenciando é a maré, que é mais forte no Brasil, e acaba levando naturalmente os peixes para os estuários. Outra coisa é que o Nordeste tem muitos rios barrados, com barragens, por conta do clima semi-árido. E essas barragens favorecem para que os rios fiquem mais salinos, o que pode deixar os estuários do Nordeste mais suscetíveis à invasão do peixe-leão”, explica Marcelo Soares.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O que fazer com o peixe-leão?</h3>



<p>Por ora, a indicação para os pescadores que acharem um peixe-leão é, se possível, capturá-lo com cuidado, pegando pela boca, evitando os espinhos venenosos. O peixe-leão não deve ser devolvido ao mar: deve ser refrigerado e o pescador deve entrar em contato com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO) mais próximo. Na costa de Pernambuco o telefone É (81) 3676-1166. Em Fernando de Noronha, (81) 3619-1156.</p>



<p>Banhistas, mergulhadores e turistas que avistarem um peixe-leão não devem se aproximar. Além de venenoso, são peixes territorialistas e não se assustam nem fogem de humanos, o que favorece a ocorrência de incidentes. Em caso de contato com os espinhos, a recomendação é passar água quente no local afetado, o que dificulta a ação do veneno, e procurar atendimento médico.<br><br>Avistamentos do peixe-leão no Brasil também podem ser encaminhados por meio do Sistema de Informação de Manejo de Fauna (Simaf), utilizado para registro de espécies exóticas invasoras no país. <a href="https://simaf.ibama.gov.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://simaf.ibama.gov.br/</a><br><br>Por enquanto, a captura do peixe-leão na costa está sendo para fins científicos. Há várias perguntas que ainda precisam ser respondidas, como quais peixes eles estão comendo mais no nosso litoral, se os peixes de Fernando de Noronha e os da costa têm a mesma origem, se estão aptos ou não para consumo, entre outras.</p>



<p>No Caribe, o peixe-leão é usado em <em>souvenirs</em>, como chaveiros e bijuterias. É também uma iguaria. A priori, é um peixe que pode ser consumido pelos humanos, mas é preciso saber como fazer o corte correto dos espinhos venenosos.<br><br>Como a maioria dos exemplares é encontrada em marambaias, há também um receio dos pesquisadores de que eles possam estar contaminados por substâncias tóxicas. “Muitas marambaias são feitas com pneus e tonéis de pesticidas, de gasolina. É preciso que o Governo Federal, por meio do Ibama, faça a avaliação e a normativa desse peixe para consumo humano”, explica a bióloga Gislaine Lima.</p>



<p>Outras definições que ainda estão pendentes é sobre a caça do peixe-leão. No Brasil, não é permitido pescar de arpão em mergulhos com cilindro em áreas de proteção ambiental. Com a proliferação do peixe-leão em Noronha, A ONG PCR conseguiu uma licença especial do Ibama para esse tipo de pesca, que é importante para controlar o peixe, pois é mais rápida, eficiente e segura.<br><br>São as universidades e organizações não governamentais, ao lado do ICM-BIO em áreas de proteção ambiental, que estão fazendo o trabalho de capacitação e pesquisa. É um trabalho com pouco ou nenhum financiamento que precisa ser estendido e reforçado. Há também a necessidade de uma coordenação a nível nacional, já que é um problema que atinge, hoje, oito estados.</p>



<p>É junto aos pescadores que os pesquisadores acreditam que o controle populacional do peixe-leão vai ser mais eficaz. “Precisamos de apoio das prefeituras, dos governos estaduais e do Governo Federal. Estamos muitas vezes trabalhando por conta própria. Os pescadores precisam de apoio para a captura e de equipamentos de proteção, porque eles não podem pescar com o que já têm, que é muito precário. Precisam de apoio financeiro para capturar esses animais com segurança e ajudar a controlar as populações”, afirma Emanuelle Rabelo.</p>



<h4 class="wp-block-heading">O que diz o Ibama</h4>



<p>Em nota à Marco Zero, o Ibama afirmou que a invasão biológica é um tema complexo e que as ações devem ser tomadas por um conjunto de instituições. “A literatura científica aponta que o início de uma invasão biológica é o momento mais favorável para o estabelecimento de programas de detecção e controle. Quanto maior a população da espécie invasora em águas nacionais, que cresce em grande velocidade na ausência de predadores naturais, mais complexas e custosas são as medidas de enfrentamento”, afirma o Ibama, na nota.<br><br>Para enfrentar o problema, o Ibama diz estar adotando as seguintes medidas:</p>



<p>&#8220;1 &#8211; Proibição da importação desses animais para qualquer finalidade;<br>2 – Edição da Portaria Ibama nº 102/2022 (Anexo III), que proíbe a importação de 05 espécies do gênero Pterois: <em>Pterois antennata, Pterois miles, Pterois radiata, Pterois sphex e Pterois volitans</em>;<br>3 &#8211; Criação, em 2022, de Grupo de Trabalho (GT) com as seguintes finalidades:<br>I &#8211; Formular proposta de ato normativo sobre manejo do peixe-leão, Pterois spp.;<br>II &#8211; Articular junto a órgãos de meio ambiente e a pesquisadores especialistas em espécies exóticas invasoras a produção de subsídios para trabalhos do GT;<br>III &#8211; Reunir informações e documentos técnicos sobre temas como biologia, dinâmica populacional e dados de pesca e comércio sobre a espécie; e<br>IV – Discutir plano de ação emergencial para enfrentamento da bioinvasão;&#8221;<br><br>O Ibama também informou que está previsto para este primeiro semestre um workshop nacional sobre a bioinvasão do peixe-leão. E que as Superintendências do Ibama no Ceará e no Rio Grande do Norte estão participando de reuniões locais que discutem a problemática do peixe-leão.<br><br>Em Pernambuco, a Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e Fernando de Noronha está elaborando junto à Agência CPRH um plano de ação conjunta para o controle e o monitoramento do peixe-leão. O governo estadual também lançou, por meio da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe), um edital para projetos de pesquisa sobre o peixe-leão, com valores de até R$200 mil por projeto. <a href="https://www.facepe.br/editais/todos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">As inscrições vão até 23 de abril</a>. </p>



<p></p>



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		<title>Como a erosão costeira e o avanço do mar ameaçam o litoral do Grande Recife</title>
		<link>https://marcozero.org/como-a-erosao-costeira-e-o-avanco-do-mar-ameacam-o-litoral-do-grande-recife/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Jul 2022 15:59:49 +0000</pubDate>
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<p><strong>por Victor Moura*</strong></p>



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<p>Na semana mais crítica das chuvas em Pernambuco, olhava o celular e via as atualizações de novos deslizamentos e inundações que resultaram na morte de 130 pessoas e mais de 70 mil fora de suas casas, desalojadas ou desabrigadas. Era fim de maio, e a mídia inteira se mobilizava para noticiar as vítimas de uma tragédia climática anunciada. Iam para o pé das encostas, margem dos rios, abrigos improvisados. Adentravam o continente em direção à periferia das cidades atingidas.</p>



<p>No sentido oposto, decidi ir à praia com uma bicicleta e uma capa de chuva azul. Quis entender como as alterações na zona costeira podem intensificar os problemas urbanos já existentes e causar desastres possivelmente maiores no futuro, caso nada seja feito hoje. Segundo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), Recife, capital do estado, é a cidade mais vulnerável do Brasil ao aumento do nível do mar. A 16° do mundo. São vários os elementos que colocam a cidade nessa posição. Ela possui fragilidades naturais, como o alto número de cursos d’água dentro do território, e uma baixa altitude média (quatro metros) em relação ao Oceano Atlântico, em alguns trechos da planície muito próxima a zero e, até mesmo, abaixo do nível do mar.</p>



<p>No momento, porém, o que mais tem pesado contra a cidade é o histórico de ações humanas, como supressão de manguezais e vegetação de restinga, impermeabilização do solo e alterações do desenho natural da praia. Uma ocupação urbana que avançou sobre o mar, levando concreto a áreas que deveriam ter sido preservadas.</p>



<p>Esse movimento não se restringe à capital. É acompanhado pelas cidades litorâneas que formam o Grande Recife. À sua maneira, cada qual já tem sentido o impacto das mudanças climáticas aceleradas pela ação humana. Quando cheguei à Ilha de Itamaracá, no litoral norte de Pernambuco, a chuva havia diminuído. Mas o acúmulo de água criava pequenas ilhas dentro da ilha maior. Os moradores limpavam as portas das casas com rodos, pás e vassouras. Enquanto que, na beira-mar, os trabalhadores de bar organizavam a bagunça após a combinação de maré alta, chuva e ventos fortes. Alguns me relataram preocupação com o avanço do mar, uma vez que “na Ilha não tem muito do que sobreviver”, além do turismo praiano.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Erosão tira o sono na ilha</strong></h2>



<p>Do Forte Orange, no sul de Itamaracá, fui pedalando rumo ao norte pela extensão do litoral, que tem sofrido com a erosão costeira. O cenário é especialmente crítico em áreas estuarinas, onde a água doce encontra a salgada. Assim que atravessei a foz do rio Jaguaribe, com a ajuda de uma balsa, vi raízes de coqueiro saindo do solo e os destroços de um bar.</p>



<p>“Foi tão rápido, visse? Foi tudo tirado na última hora, até arriscado o bar cair por cima da gente, para salvar alguma coisa”, diz Maria Bethânia, de 52 anos, ao recordar a madrugada chuvosa em que ninguém dormiu. O bar na praia do Sossego era um sonho compartilhado com o marido. Era também o ganha pão da família. Empregava filhos, sobrinhos e noras. Mas a estrutura esfarelou em abril, como se fosse feito de papel, e não de tijolos. Seu Heraldo, de 61 anos, chegou a gastar mais de R$ 5 mil em sacos de areia, na esperança de interromper o avanço do mar. Não adiantou. “Minha renda é zero. Não estou vendendo nada. O que eu tenho é R$ 400 do auxílio. Pago R$ 1.300 de aluguel. E agora fui obrigado a dizer à dona que não tenho como pagar”, relata, e acrescenta que só não tem passado necessidade graças à ajuda de parentes e clientes.&nbsp;</p>



<p>O casal, mais conhecido como &#8220;Mozão&#8221; e &#8220;Mozona&#8221;, conta que existia uma longa faixa de areia na praia, que começou a desaparecer após uma suposta obra irregular feita no Pontal de Jaguaribe, praia vizinha a do Sossego.</p>



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	                                        <p class="m-0">Água do mar corrói a estrutura do Bar do Mozão horas antes dele desabar de vez. Crédito: Acervo pessoal</p>
	                
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<p>Marcus Silva, professor de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explica que diques de contenção irregulares e/ou ineficazes são recorrentes no litoral pernambucano, sejam eles construídos por prefeituras ou pelos próprios moradores. Essas obras barram os sedimentos que vêm de sul para norte e transferem o problema da erosão de uma praia para a outra.</p>



<p>“Além do mar estar avançando, está faltando areia. Esse processo ocorre por conta da ocupação desordenada, do barramento dos rios, da impermeabilização das praias. A ação humana, hoje, é muito mais causadora de erosão do que o avanço do mar pelas mudanças climáticas”, explica, e salienta a importância de se respeitar a dinâmica natural, a fauna e a flora de um ambiente de praia.</p>



<p>Com o vento batendo nos nossos rostos, Maria Bethânia contou que tem trocado o dia pela noite, temendo que a água salgada atinja a sua casa, agora ameaçada. Uma casa simples, alugada, mas sobretudo “ilhada” em meio às casas de veraneio e condomínios de luxo. Moradores disseram que muitas “pessoas importantes” possuem casas na praia do Sossego, inclusive a vice-governadora do Estado, Luciana Santos. Busquei confirmar essa informação via Lei de Acesso à Informação (LAI), mas recebi uma negativa por “se tratar de informação pessoal que vai de encontro à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados)”. </p>



<p>Mas é fato: os tomadores de decisão sabem que o litoral pernambucano vem desaparecendo, impactando a vida de todos os cidadãos, mas especialmente aqueles que têm a praia como fonte de sobrevivência.</p>



<p>“A gente é que nem formiga: trabalha no verão para comer no inverno. Se acaba o turismo aqui dentro, acabou todo mundo. Dependemos de quem vem de fora”, diz Maria Bethânia, que começou a vender frutos do mar caminhando pela areia aos 16 anos. Hoje caminha por uma praia que não é nem 1/3 do que foi um dia. Mesmo a água não dando sinal de recuo, ela e &#8220;Mozão&#8221; pretendem reconstruir o bar na região por ter ali uma rede de apoio estabelecida.</p>



<p>O sossego em si é raro de ser encontrado, não só em Itamaracá, como em toda a zona costeira do Grande Recife. Ao pedalar cerca de 150 quilômetros, pude ver diversos trechos (praias e rios) sofrendo com a erosão. A vulnerabilidade é maior no centro metropolitano, justamente devido a fatores sociais, como adensamento populacional, verticalização à beira-mar e uma profunda desigualdade.</p>



<p>“A gente não pode dissociar o elemento social do elemento ambiental ou ecológico. Não, as duas coisas vão juntas. As populações mais vulnerabilizadas pelo desenvolvimentismo vão ter dificuldades de enfrentamento às mudanças do clima por conta de todo processo de assujeitamento e de injustiças socioambientais e por despossuírem acessos a infraestruturas urbanas”, explica Teresa da Silva Rosa, geógrafa com doutorado em sociologia e coordenadora do Núcleo de Estudos Urbanos e Socioambientais (Neus) do programa de Pós-graduação em Sociologia Política da Universidade Vila Velha (UVV-ES).&nbsp;</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Pressão urbana sobre praias</strong></h3>



<p>Quando atravessei a orla de Jaboatão dos Guararapes, ao sul do Recife, no dia 3 de junho, em nada parecia com a cidade que estampava o noticiário internacional. As pessoas caminhavam pelo calçadão sem nenhuma demonstração de medo diante do tempo nublado. Não tão longe dali, dentro do mesmo município, a ausência de infraestrutura urbana havia matado 64 pessoas. Jaboatão dos Guararapes foi a cidade que mais teve vítimas fatais no estado, apesar de ter menos da metade da população da capital.</p>



<p>“Aqui no litoral e na Zona da Mata, o período de chuvas é, em média, seis meses. Entretanto, já se pode observar alterações no padrão de chuvas. O ciclo hidrológico mudou com as mudanças do clima. Precisamos de um rumo pautado numa nova realidade. O que não pode é a gente continuar fazendo de conta que nada mudou. E, como naquela cena de Titanic, mandar a orquestra tocar mais alto porque já se sabe que estamos em rota de colisão com o iceberg”, diz Francis Lacerda, climatologista e pesquisadora do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), ao criticar a vista grossa que os atores políticos do estado fazem para a emergência climática. Recentemente, o <a href="https://www.worldweatherattribution.org/wp-content/uploads/Brazil-Floods-Scientific-report.pdf">estudo</a> da World Weather Attribution apontou que as chuvas em Pernambuco foram cerca de 20% mais intensas que o normal devido a&nbsp; mudanças no clima.</p>



<p>Graças à ciclovia recém instalada, pedalar por parte da orla de Jaboatão foi uma das poucas experiências tranquilas do trajeto. O que seria positivo, caso o concreto não estivesse sobre praias que passaram por um processo de engorda, e necessitam de manutenção periódica. Em 2013, foram gastos R$ 41 milhões, com boa parte do dinheiro vindo do Governo Federal, para retirar sedimentos do fundo do mar e alargar a faixa de areia. A água batia na porta dos prédios. Os mesmos prédios que ainda hoje ajudam a barrar os sedimentos que vêm naturalmente pelos rios, ventos e marés.</p>



<p>Como resposta a uma ação humana, a engorda na orla de Jaboatão foi considerada exitosa. Porém, no início deste ano, foram colocadas estruturas fixas nesse ambiente, o que é altamente desaconselhável. Mesmo com o risco batendo à porta, as construções continuam avançando sobre o mar.</p>



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	                                        <p class="m-0">Ageu e o cachorro Beethoven observam os danos causados pelas marés na foz do rio Jaboatão. Crédito: Victor Moura</p>
	                
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<p>Ao mesmo tempo, elas afastam as populações mais pobres, que muitas vezes não só moram como trabalham nas regiões de praia. É o caso de Ageu, de 59 anos, que há mais de três décadas vive numa comunidade pesqueira em Barra de Jangada. Uma região cobiçada entre as moradias de luxo da Reserva do Paiva e os espigões das praias de Candeias e Piedade. “O negócio de peixe agora está parado (por causa das chuvas). Mas o pessoal corre para o mangue para pegar um aratu, um siri, uma ostra, um sururu, um marisco, uma unha de velho, uma taioba, aí é bom por isso”, conta, ao destacar a riqueza do manguezal na foz do rio Jaboatão, em frente à ilha do Amor. Para morar tão perto de onde tira seu sustento, ele e a companheira, que é marisqueira, pagam R$ 400 de aluguel.&nbsp;</p>



<p>Sob a garoa e ainda não recuperado de uma gripe, Ageu saiu de casa para me mostrar os resultados da força das marés na região. De quebra, também aproveitou para levar o cachorro Beethoven, de 1 ano e 8 meses, para passear. O cachorro, preto e branco, parecia incomodado com o tanto de pedra e metralha em uma das margens do rio Jaboatão, só correndo de verdade ao passarmos por uma faixa de areia, cada vez mais fina e rara.</p>



<p>“Ele brinca que só. Fica doidinho quando vê a areia”, diz o pescador, que notou a mudança no perfil da “prainha” pouco antes do início da pandemia. Hoje, são muitas as rachaduras nas construções à beira-rio. Em dias de chuva e maré alta, os barcos que ficam amarrados no mourão, uma espécie de tronco, têm se desprendido. “A água tem força. Se os políticos, se o pessoal do meio ambiente, não intervir nisso aí, vai ficar bem pior. Eu mesmo não vejo melhora em avanço de mar em lugar nenhum. Quando o pessoal ajeita, cai. Ninguém sabe se é a natureza, ou se é obra mal feita”, questiona. Na verdade, é a junção das duas coisas. A urbanização inadequada é a principal culpada pelo atual cenário. Porém, o oceano está aquecendo. As chuvas extremas tem aumentado. E isso faz parte de um processo climático global.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Aquecimento tende a aumentar vulnerabilidade</strong></h3>



<p>O professor Marcus Silva explica que o Oceano Atlântico vem aquecendo desde a década de 1980. E sempre que ele bate um recorde de temperatura, com o aumento da taxa de evaporação, acaba precipitando mais fortemente na Zona da Mata nordestina, região com maior índice populacional. O calor das águas tropicais também é a causa por trás da elevação do nível do mar. Funciona assim: os oceanos trabalham como um grande “trocador de calor” que regula o clima do planeta. A água quente se desloca dos trópicos até os pólos por cima. E a água fria, mais pesada, vem dos pólos até os trópicos por baixo. A água quente, ao chegar ao Ártico, por exemplo, congela e afunda. Porém, ela tem chegado tão quente, mas tão quente, que está ajudando a derreter as geleiras. </p>



<p>O resultado é mais água doce no oceano. Mas, no caso da elevação do nível do mar, esse é um problema irrisório, de poucos centímetros. Isso porque o volume das geleiras é pequeno quando comparado ao volume de todos os oceanos.</p>



<p>Na verdade, o problema central da elevação é o enfraquecimento das trocas de calor entre os trópicos e os pólos. A água quente tem se acumulado na região tropical do Planeta, onde se encontra o Grande Recife. “Você soma dois processos: a dilatação do oceano devido ao aquecimento da água superficial e a intensificação dos ventos alísios. O vento alísio de sudeste tende a empilhar água na borda oeste do oceano, na margem do Nordeste do Brasil. Essa é a consequência da mudança climática na elevação do nível do mar”, explica Marcus, e destaca que o cenário tem acontecido no mundo todo, mas que alguns territórios são mais críticos. </p>



<p>Do início do século XX até os dias atuais, o nível médio do oceano subiu 25 centímetros. A previsão era de que ele fosse subir mais meio metro até 2100. Mas a previsão acabou sendo revista para 2050. Parece pouco, mas já é o suficiente para alagar diversas planícies pernambucanas, sobretudo quando o número se soma à maré que pode chegar a quase três metros. Além disso, a elevação do nível do mar impacta não só quem mora próximo à praia. Quando o mar sobe, os rios e canais também sobem e dificultam o escoamento de água dentro das cidades.&nbsp;</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Favela praiana pode desaparecer</strong></h4>



<p>Pedalando em meio à chuva intermitente, sempre que parava na rua para limpar os óculos e conferir o mapa, aparecia o alerta de risco de enchentes na região. Mas estando na orla, um território em geral com melhor infraestrutura, o máximo que cheguei a ver foi um ou outro alagamento. O olho do furacão se encontrava nas periferias, nas bacias dos rios. Quando o céu abria e a maré baixava, a água voltava para o mar trazendo objetos, barro e muito lixo. No istmo de Olinda, ao norte do Recife, a praia Del Chifre estava completamente suja.</p>



<p>Ao lado dela, se encontra a Ilha do Maruim, uma favela à beira-mar localizada na foz do rio Beberibe. Por causa da baixa altitude, esse é o pedaço de Olinda mais vulnerável à elevação do nível do mar. Uma vulnerabilidade que é climática e também social. “Se o mar der uma ressaca, um vendaval, vai deixar a gente bem longe, só o cadáver. Aqui, a área é dele, é do mar. A gente está aqui porque não tem para onde ir. Se der pelo menos um aviso antes para poder correr, aí ‘tá’ bom. Mas, e se ele vier de uma vez?”, questiona seu Manoel, de 70 anos.</p>



<p>Na comunidade desde 1966, ele viu a Ilha crescer com pequenas melhorias feitas pelos próprios moradores. Viu enchentes históricas, como a de 1975, derrubarem palafitas, que logo eram reconstruídas no mesmo lugar. Hoje não existem mais palafitas. Porém, não é difícil encontrar barracos frágeis na favela, especialmente numa pequena faixa de terra às margens de um braço do Beberibe. A área está localizada a 100 metros do mar, sendo conhecida como &#8220;paredão&#8221;.</p>



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	                                        <p class="m-0">Panorama do paredão entre o rio Beberibe e o Oceano. Á esquerda, a Ilha do Maruim, em Olinda. Crédito: Victor Moura</p>
	                
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<p>“Só mora ali [no &#8220;paredão&#8221;] quem não tem mesmo aonde ir”, diz o seu Manoel, que ajudou a construir uma das pontes que une a Ilha do Maruim ao Oceano Atlântico. Mesmo tendo mais de meio século na comunidade, o serralheiro aposentado conta que, se tivesse condições, se mudaria com a família para outro lugar. Ao contrário de outros endereços, morar a poucos metros da praia nunca lhe garantiu serviços e infraestrutura básica.</p>



<p>Da sua casa, sozinho, ele caminha todos os dias pela areia, antes das 6 horas da manhã. Vai até as imediações do Porto do Recife, uma intervenção urbana no estuário dos rios Beberibe e Capibaribe. No século anterior, a reforma e ampliação do porto barrou o transporte de sedimentos que alimentavam as praias de Olinda. Atualmente, para conter a erosão, cerca de 60% da orla da cidade possui estruturas rígidas de proteção costeira. O que não é o caso da Praia del Chifre, menos impermeabilizada, sendo uma das poucas onde ainda é possível encontrar areia e fragmentos de vegetação.</p>



<p>“Esse lugar é muito abençoado. Mas o mar está muito violento. Vê em Itamaracá como está avançando. E eu só fico pensando: e quando vir para cá? Antes, a gente andava, cansava, para chegar na praia. Não tinha ondas do tamanho que tem hoje não”, relata dona Edileuza, também de 70 anos, esposa do seu Manoel. Por trás das grades de casa, ela contou ter bastante medo do mar, sobretudo quando a água salgada chega perto do paredão que separa a Ilha fluvial do oceano. O medo da dona Edileuza se fundamenta, uma vez que os eventos extremos têm se intensificado. Segundo o IPCC, entre 2010 e 2020, houve 15 vezes mais mortes no mundo em razão de secas, tempestades e inundações.&nbsp;</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Urbanização inadequada e desigualdade estrutural</strong></h4>



<p>Em 2019, o Recife se tornou a primeira cidade do Brasil a decretar estado de emergência climática. Antes, em 2014, ela já havia criado uma política de sustentabilidade e enfrentamento às mudanças do clima. Porém, quando passei de bicicleta pelo litoral, a realidade demonstrava ser diferente. Na região central da cidade, havia construções sendo erguidas no Cais de Santa Rita e no Cais José Estelita, na confluência de quatro rios. A região é inundável em um cenário de elevação do nível do mar, logo, em teoria, não deveria ser impermeabilizada com mais concreto.</p>



<p>“O Recife vem crescendo desordenadamente. Fora isso, existe o problema da concentração de renda e um modelo urbano totalmente inadequado para uma cidade que tem essas vulnerabilidades. A cidade tem um plano diretor que parece não ser seguido. Uma cidade que a cada dia você vê surgir espigões de 30 andares, 40 andares”, critica a climatologista Francis Lacerda, ao destacar as contradições que estampam a paisagem da Capital.</p>



<p>Moradora da zona norte, a cerca de cinco quilômetros do oceano, ela conta que vê com frequência peixes de água salgada sendo capturados no leito do Rio Capibaribe. Sinal de que o avanço da água do mar em direção ao continente também ocorre pelo subterrâneo, num fenômeno conhecido como intrusão da cunha salina. Ele acontece especialmente por interferências humanas, que causam alterações ambientais como a salinização da água doce.</p>



<p>“Aquacêntrica”, caso o nível do mar suba “apenas” 0.5 m, a cidade do Recife pode perder, segundo este <a href="http://panamjas.org/pdf_artigos/PANAMJAS_5(2)_341-349.pdf">estudo</a>, 25.3 km² dos seus cerca de 50 km² de planície. Boa parte deste território que pode sumir está na área central, onde está o patrimônio histórico e cultural da capital estadual mais antiga do Brasil.</p>



<p>Segundo o Fórum Internacional Recife Exchanges, o impacto da elevação recairá sobre 62 dos seus 94 bairros, onde vivem quase 850 mil pessoas. Um dos mais vulneráveis é Brasília Teimosa, uma comunidade de origem pesqueira localizada entre a Bacia do Pina e o Oceano Atlântico.</p>



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	                                        <p class="m-0">Paredão, pedras e areia separando o oceano da comunidade de Brasília Teimosa. Ao fundo, os prédios do Pina. Crédito: Victor Moura</p>
	                
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<p>Quando passei pela avenida à beira-mar, ao contrário dos dias anteriores, as nuvens escuras tinham sumido. “O ruim da Brasília é a questão do vento. Maré baixa, alta, acima de 2.50m, não chega a alagar, não. Agora em agosto (mês de ressacas mais fortes) ela às vezes chega a 2.70m, 2.80m, que é um pico alto de maré, aí a água bate com mais frequência no paredão. E chega mais ou menos até ali (próximo da pista)”, diz Andreia Lopes, de 31 anos, após parar o que estava fazendo. Assim como suas vizinhas, ela se apressava para estender as roupas úmidas no varal, aproveitando o sol a pino.</p>



<p>Por morar bem em frente à orla, contou que precisou trocar o telhado de casa três vezes no inverno passado. O vento vem com muita força. A água também. Só que ela é contida pelos aterros, pedras e paredão que protegem a entrada da comunidade. Antes de a Brasília passar por uma requalificação urbana, na primeira década deste século, as ondas avançavam e destruíam as palafitas.</p>



<p>O marido de Andreia, Adilson, de 37 anos, viveu esse tempo de extrema pobreza durante sua infância e adolescência. “Quando acordava, eu ia lá na praia buscar o café ou o almoço. Pegava saúna. Chegava em casa e falava ‘mainha, peguei um bocado’. Mainha dizia ‘trata, vou fazer cuscuz&#8217;, conta, salientando que o mangue e o mar já ajudaram a matar muita fome.&nbsp; Hoje, porém, a fonte de alimento anda escassa devido à poluição. Motivo pelo qual deixou de ser pescador. Para conseguir pagar o aluguel de R$ 600, trabalha como pedreiro. Já Andreia cuida de um menino pequeno. Morar na Brasília tem sido difícil. A ocupação de baixa renda é vizinha ao metro quadrado mais caro do Recife. Apesar de vir de uma família de pescadores, Adilson pensa em ir para os morros, pelo sonho da casa própria. No Grande Recife, a ocupação à beira-mar tem se tornado, quase que na totalidade, uma exclusividade de pessoas ricas.&nbsp;</p>



<p>São poucas as comunidades que continuam de pé. Como a Brasília, que leva Teimosa no nome por ter ocupado um território estuarino e resistido a diversas tentativas de demolição. Um exemplo de atuação coletiva que deu certo, e agora deve ser retomado pensando no cenário de mudanças climáticas.</p>



<p>“A gente não pode negligenciar a capacidade de participação, e de pressão, dessa população, apesar de os atores econômicos e políticos procurarem não escutar os movimentos sociais. No caso das populações vulnerabilizadas, elas são populações que têm uma forte incidência de um recorte de gênero, racial. Elas vão ser as primeiras e as mais atingidas pelas mudanças no clima por todo o processo que a gente experiencia desde a colonização, com a escravidão da população negra e também indígena”, diz a geógrafa Teresa da Silva Rosa, que destaca a importância da informação e da educação nesses territórios, como parte essencial do enfrentamento aos eventos extremos que estão em curso.</p>



<p><strong>Emergência climática continua sendo ignorada</strong></p>



<p>As chuvas de maio e junho mostraram que a desigualdade precisa ser combatida, uma vez que ela determina a vida ou a morte de uma pessoa. Só uma parte da população sabe, de verdade, o que é ter medo da chuva, do vento, da maré. Porém, isso não exclui o fato de que todos os quatro milhões de moradores da Região Metropolitana do Recife, com ou sem recursos, se encontram em um cenário de vulnerabilidade climática. Logo, é de se estranhar que construções “pé na areia” continuem aparecendo, com a chancela de equipes técnicas e órgãos ambientais. O mercado imobiliário continua expandindo para o litoral, apesar de boa parte das praias pernambucanas se encontrar em avançado processo erosivo e a elevação do nível do mar ameaçar as planícies costeiras.</p>



<p>“Infelizmente a gente só vê a presença e preocupação [do poder público] depois da tragédia. Mas isso é novidade? Não. Já se sabia que este ano seria de chuvas intensas? Sim. Se tomou alguma precaução? Não. As cidades precisam enxergar que toda e qualquer intervenção precisa levar em consideração as mudanças climáticas. Se a sociedade se conscientiza e cobra, é uma maneira de botar pressão no poder público, nas diferentes esferas&#8221;, diz o professor de Marcus Silva, ainda esperançoso, apesar de os tomadores de decisão não se comprometerem com a pauta. Depois da tragédia, sobram medidas paliativas e emergenciais, e faltam planos urbanísticos a longo prazo que abarquem todo o litoral e o conjunto das bacias hidrográficas. O oceano está aquecendo, e não vai parar se as pessoas não olharem para ele. A nova realidade pede ações e soluções preventivas de mitigação e adaptação. É preciso chamar a academia. Chamar a população. E ouvi-las. Esta e as próximas gerações dependem disso.</p>



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	                                        <p class="m-0">Bicicleta do repórter coberta de sargaço após quase ser levada pelas ondas, em Itamaracá. Crédito: Victor Moura</p>
	                
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<p><strong>*<em>Victor Moura elaborou esta matéria com uma bolsa de jornalismo fornecida pela parceria entre o&nbsp;<a href="https://climainfo.org.br/2022/05/10/conheca-os-selecionados-do-edital-climainfo/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">ClimaInfo</a>&nbsp;com&nbsp;o apoio financeiro do Instrumento de Parceria da União Europeia com o Ministério Federal Alemão para o Meio Ambiente, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear (BMU) no contexto da Iniciativa Climática Internacional (IKI).&nbsp;Os conteúdos desta publicação são de inteira responsabilidade dos seus organizadores e não necessariamente refletem a visão dos financiadores.</em></strong></p>



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<p></p>
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		<title>Bancado por condomínios, muro degrada praia em Maria Farinha e vai parar na Justiça</title>
		<link>https://marcozero.org/bancado-por-condominios-muro-degrada-praia-em-maria-farinha-e-vai-parar-na-justica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Aug 2021 20:20:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[crime ambiental]]></category>
		<category><![CDATA[engorda da praia]]></category>
		<category><![CDATA[erosão marinha]]></category>
		<category><![CDATA[Maria Farinha]]></category>
		<category><![CDATA[obra irregular]]></category>
		<category><![CDATA[praias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma problemática obra na praia de Maria Farinha, no município do Paulista, litoral norte de Pernambuco, vem se arrastando desde o ano passado. A briga foi parar na Justiça graças a ativistas ambientais locais. Esse é mais um episódio do processo de erosão costeiro no litoral pernambucano, sobretudo em áreas urbanizadas, por conta do avaço [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Uma problemática obra na praia de Maria Farinha, no município do Paulista, litoral norte de Pernambuco, vem se arrastando desde o ano passado. A briga foi parar na Justiça graças a ativistas ambientais locais. Esse é mais um episódio do processo de erosão costeiro no litoral pernambucano, sobretudo em áreas urbanizadas, por conta do avaço das construções.</p>



<p>De um lado, os moradores de três condomínios querem &#8211; e por isso se dispuseram a bancar &#8211; a colocação de um muro de contenção em blocos de concreto. Eles têm apoio da prefeitura, que se comprometeu a, finalizado o serviço, recuperar a avenida já degradada, num acordo de cooperação.</p>



<p>Acontece que o projeto, que prevê blocos de cinco metros de altura e 2,5 toneladas numa extensão de 300 metros, foi denunciado por uma série de razões, das licenças ambientais aos danos que a praia já vinha sofrendo. Isso porque o município tentou, há alguns anos, barrar o mar com uma outra obra, de <em>bagwall</em> (com sacos geotêxteis), também de estrutura fixa. A estratégia, além de não resolver o problema, ainda aumentou a erosão no local. Agora, a nova construção prevê a eliminação da faixa de praia onde acontecem desovas de tartarugas.</p>



<p>O correto, dizem especialistas e estudos já contratados pelo Governo de Pernambuco em parceria com universidades, é conter a erosão com um processo de engorda das praias, a exemplo do que foi feito, em 2013, em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife. Um investimento, aliás, que custou R$ 41,5 milhões e agora está <a href="https://marcozero.org/nova-orla-de-jaboatao-ameaca-engorda-que-resolveu-efeitos-da-erosao-avisam-especialistas/">ameaçado por conta do projeto da nova orla na cidade</a>, como mostrou reportagem da <strong>Marco Zero</strong>.</p>



<p>Os condomínios em questão, na praia de Maria Farinha, são Jardim dos Coqueirais, Porto Bahamas e Porto Athenas. A obra é de execução da empresa Premier Consultoria, Planejamento e Gerenciamento em Engenharia. Os condôminos, claro, querem proteger o patrimônio da destruição. Há que se dizer, porém, que essa destruição vem se acelerando rapidamente por conta de apostas tidas como erradas por cientistas e ambientalistas.</p>



<p>Essas apostas terminaram desequilibrando ainda mais aquilo que a ciência chama de &#8220;perfil praial&#8221;. E pior: transferindo o processo erosivo às praias adjacentes, num “efeito “dominó”, que vai do sul para o norte, acompanhando a predominância das correntes. No futuro próximo, se a questão não for bem resolvida desde já, irá comprometer também as praias seguintes.</p>



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	                                        <p class="m-0">Obra irregular foi paralisada por ordem da Justiça Federal. Crédito: Fernando Macedo/CEO Salve Maria Farinha
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Muro dentro da praia</strong></h2>



<p>O Instituto Meu Mundo Mais Verde de Educação e Meio Ambiente foi o responsável por denunciar a obra em Maria Farinha. Segundo o gestor ambiental e idealizador da organização, Lipe Meireles, &#8220;a obra encontra-se dentro da praia e desrespeita as legislações ambientais federal, estadual e municipal, trazendo grandes danos ao meio ambiente e interferindo na dinâmica de sedimentos e construção natural das praias&#8221;.</p>



<p>A denúncia foi parar no Ministério Público Federal (MPF) e resultou numa Ação Civil Pública (ACP). Em decisão liminar, em junho, a Justiça Federal de Pernambuco acolheu a ação. Os réus recorreram e o processo agora está em segunda instância, no Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5).</p>



<p>A decisão em primeira instância determinou que a obra fosse paralisada e os blocos de concreto já instalados fossem retirados, para que seja reconstituído o perfil praial, degradado também pela construção de parte do muro. A prefeitura do Paulista, porém, recorreu, através de agravo de instrumento. A gestão municipal alega que tem competência para licenciar a obra.</p>



<p>Enquanto o processo se avoluma com disputas técnicas e jurídicas, os danos ambientais se revelam no local. “O negócio está se devastando rápido demais e, agora, vêm as marés grandes”, alerta Lipe, que também é especialista em auditoria e perícia ambiental e mestre em Engenharia e Tecnologia Ambiental. Lixo e água estão se acumulando, com odor forte.</p>



<p>“A erosão costeira na área desprotegida já derrubou um coqueiro e um poste em decorrência do muro, há restos de construções em toda a área e acúmulo de sedimentos obstruídos pelo muro”, denuncia o instituto nas redes sociais.</p>



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	                                        <p class="m-0">Por causa da obra, um coqueiro já foi derrubado por efeito da erosão marinha (Crédito: Instituto Meu Mundo Mais Verde)
</p>
	                
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<p>Na ACP, o procurador da República Edson Virgínio considerou que o licenciamento ambiental de obras de contenção de erosão costeira é de competência ambiental do Governo do Estado. A prefeitura do Paulista requereu, ainda em 2019, a autorização. No início de 2020, houve reunião do Comitê Gestor do Projeto Orla Paulista e, na ocasião, a representante da Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) informou que, embora o município tenha requerido a autorização para o empreendimento, a CPRH entendia que, para esse caso, seria necessário um licenciamento tríplice (licença prévia, licença de instalação e licença de operação), por conta do “significativo impacto ambiental”.</p>



<p>Mesmo assim, a reunião encerrou-se com a aprovação do projeto. A representante da CPRH e o representante da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Semas-PE) se abstiveram de votar. Em agosto de 2020, a CPRH foi ao local, após denúncia, e constatou que a obra já estava em andamento sem autorização da agência nem do órgão patrimonial responsável pela gestão do terreno, a Superintendência do Patrimônio da União em Pernambuco (SPU-PE). Lavraram-se autos de infração com penalidade de embargo da obra e de multa.</p>



<p>Em março de 2021, houve uma nova denúncia porque as obras continuavam. Foi quando a construtora Premier apresentou a licença ambiental expedida pela Prefeitura do Paulista, junto com um ofício de autorização da SPU-PE. Os responsáveis pela obra ampararam-se num convênio de delegação de competência para licenciamento ambiental firmado com a CPRH em 2019. Estava dado o imbróglio que segue até hoje na disputa judicial.</p>



<p>“Com o convênio, tornou-se possível que a prefeitura licenciasse a si mesma, fiscalizasse a si mesma e exercesse o controle ambiental das atividades potencialmente poluidoras que protagoniza em hipóteses de competência estadual”, disse o procurador na peça da ação.</p>



<p>Diante disso, foi solicitada a paralisação da obra, a apresentação dos documentos e licenças necessárias, a remoção dos blocos já instalados e a recuperação da área já degradada. Por conta do pedido de recurso, a questão segue ainda sem desfecho na Justiça.</p>



<p>A Prefeitura do Paulista sustenta que está amparada pelo convênio com o Governo de Pernambuco e que paralisar a obra pode trazer ainda mais prejuízos ao meio ambiente e à estrutura urbana. A gestão também alega que, em 2019, a CPRH concedeu licenciamento para um projeto igual, com a mesma tecnologia de blocos de concreto pré-moldados. O município ainda diz que a Agência não se manifestou dentro do prazo legal.</p>



<p>Os condomínios, por sua vez, argumentam que o projeto servirá também para possibilitar o acesso público da população à praia, já o processo erosivo prejudica não só as propriedades privadas, mas também o lazer da população e o trabalho dos vendedores ambulantes. Alega ainda que a obra irá substituir a contenção já existente e outrora autorizada pela CPRH.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O impasse do licenciamento</h3>



<p>Em nota à reportagem, a CPRH confirmou que a prefeitura do Paulista detém a competência para o licenciamento ambiental da referida obra, pormeio de convênio de delegação de competência, celebrado em 2019, nos termos autorizados pela Lei Complementar n° 140/2011.</p>



<p>Porém, como a obra já havia sido anteriormente embargada e multada pela SPU-PE, a CPRH requereu ao munícipio informações adicionais referentes à obra e às fases do procedimento licenciatório, que não foram apresentadas até hoje, a exemplo dos estudos de impactos ambientais necessários, bem como da manifestação da SPU-PE à realização e continuidade da obra.</p>



<p>Alguns desses estudos necessários, diga-se de passagem, teriam que ser realizados por uma equipe multidisciplinar e formada por profissionais legalmente habilitados, e não apenas por servidores da prefeitura.</p>



<p>A Agência também informou um ponto que pode mudar tudo: a revisão da Resolução do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) 01/2018. A mudança prevê que a atividade de obras que impliquem em mudança na dinâmica marinha voltará a ser exclusiva do Estado de Pernambuco. Essa proposta já foi aprovada no Grupo de Trabalho (GT) de revisão da resolução e será encaminhada para aprovação no pleno do Consema.</p>



<p>Diante dessa possível novidade, a CPRH disse que “será analisada qual será a melhor forma para regularizar o empreendimento”. </p>



<p><strong>ATUALIZAÇÃO</strong></p>



<p>Após a publicação desta matéria, o engenheiro de pesca Assis Lacerda procurou a <strong>Marco Zero</strong> em defesa da obra. Mestre em oceanografia biológica e pós-graduado em planejamento urbano e rural e também em desenvolvimento municipal, é ele quem assina o relatório dos danos ambientais da orla do Paulista. Assis foi por muitos anos servidor da CPRH, já tend sido chefe da Unidade de Gerenciamento Costeiro, e depois foi cedido ao município até a gestão passada. Seu trabalho é citado pela prefeitura no processo que tramita da Justiça.</p>



<p>Ao contrário das fontes ouvidas pelo reportagem e do que consta no parecer do MPF, o especialista defende que as estruturas de bagwall foram capazes de, em partes, resolver o problema em questão, tanto é que suportaram fortes marés e os invernos nos ultimos anos, segundo Assis. Crítico da atuação e da capacidade técnica das ONGs envolvidas &#8211; a quem atribui uma atuação política &#8211; , ele é um defensor da proposta que transfere aos municípios o licenciamento e a gestão de seus territórios costeiros. </p>



<p>Também defende parte do litoral do Paulista, com destaque para as praias de Nossa Senhora da Conceição/Maria Farinha, Pau Amarelo e Janga, como sendo de emergência civil, para tratar das situações mais críticas de erosão. Além disso, Assis, que julga haver plantação de desinformação junto ao MPF, avalia que o muro em frente aos condomínios não está na praia e não interrompe a dinâmica dos sedimentos e correntes marinhas. &#8220;Eu argumentei tecnicamente junto com o engenheiro da defesa civil municipal e o município decretou emergência&#8221;, afirma.</p>



<p>Foi com base no relatório de Assis e na decretação de emergência que as obras e ações de respostas à situação foram autorizadas, na época com a chancela do Governo de Pernambuco, através de parecer técnico, além da autorização da Marinha e da SPU. Portanto, na visão do engenheiro, cai por terra o argumento do MPF sobre a invalidade da autorizaçãoambiental da obra do muro. </p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Engorda de praias é a solução</strong></h4>



<p>A coordenadora do gerenciamento costeiro da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, Andrea Olinto, explica que o Governo de Pernambuco, junto com MPF e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), além de governos municipais, vêm investindo em uma nova estratégia de enfrentamento da erosão costeira, com destaque para as engordas, na tentativa de mudar esse cenário de obras pontuais com estratégicas caras, rígidas e fixas que não resolvem o problema, além de serem feias.</p>



<p>“Ao longo do litoral pernambucano, são vários os exemplos onde tais projetos não cumpriram com a função de proteção costeira e acabaram por transferir o problema a áreas contíguas, além de representarem prejuízos ao erário público”, avalia Andréa, que tem especialização em gestão da zona costeira pela Bournemouth University, da Inglaterra, e trabalha no governo desde 1990.</p>



<p>Em 2005, uma ação cooperativa e interinstitucional resultou no Projeto de Monitoramento Ambiental Integrado da Erosão Costeira nos Municípios do Recife, Olinda, Paulista e Jaboatão dos Guararapes (Projeto MAI), com o objetivo de indicar medidas emergenciais e definitivas.</p>



<p>Andréa lembra que, por meio do Projeto MAI, a UFPE adquiriu equipamentos de última geração para estudos e pesquisas no assunto, contando com capacidade intelectual e científica instalada, convertendo a universidade em centro de excelência, nacional e internacional.</p>



<p>Em 2008, a Fundação de Amparo a Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe) investiu mais de R$ 1 milhão no aprofundamento dos estudos do MAI, o que possibilitou a identificação e o mapeamento das jazidas de areia submarinas fundamentais para a regeneração das praias.</p>



<p>“Ao se recompor o ambiente natural, valoriza-se, automaticamente, toda a cadeia produtiva dependente de um ambiente praial preservado e de destacável beleza cênica”, frisa a coordenadora. Em 2019, tanto o MPF como a Semas promoveram uma capacitação para gestores costeiros estaduais e municipais nesse intuito.</p>



<p>“Vale destacar que, a partir da instalação da obra dos condomínios, a praia só possuirá parte emersa durante os períodos de baixa-mar. Sendo assim, estando sob ação direta das ondas nos momentos de maré cheia (preamar), interferindo nos padrões naturais de incidência de energia e transporte sedimentar ao longo do trecho (na própria praia e em suas adjacências)”, acrescenta Andréa, reforçando os impactos de se apostar em estruturas fixas, que levam ao “efeito dominó” de erosão.</p>



<p><em>Atualizado em 12/8/21</em></p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/novo-calcadao-poe-em-risco-obra-que-custou-r-41-milhoes-nas-praias-de-jaboatao/" class="titulo">Novo calçadão põe em risco obra que custou R$ 41 milhões nas praias de Jaboatão</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/bem-viver/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Bem viver</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

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			</item>
		<item>
		<title>Pesquisa mostra que existe mais plástico do que micro-organismos nas algas das praias do Recife</title>
		<link>https://marcozero.org/pesquisa-mostra-que-existe-mais-plastico-do-que-micro-organismos-nas-algas-das-praias-do-recife/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Feb 2021 14:14:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[arrecifes]]></category>
		<category><![CDATA[macroplástico]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[nanoplástico]]></category>
		<category><![CDATA[pina]]></category>
		<category><![CDATA[poluição]]></category>
		<category><![CDATA[poluição do mar]]></category>
		<category><![CDATA[praias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há mais fragmentos microscópicos de plástico entre as algas dos arrecifes das praias urbanas de Pernambuco do que os micro-organismos, base da cadeia alimentar. É o que indica o resultado de uma pesquisa, ainda inédita, realizada pelo departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Os dados do estudo ainda estão na fase final [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Há mais fragmentos microscópicos de plástico entre as algas dos arrecifes das praias urbanas de Pernambuco do que os micro-organismos, base da cadeia alimentar. É o que indica o resultado de uma pesquisa, ainda inédita, realizada pelo departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Os dados do estudo ainda estão na fase final de sistematização, última etapa antes da publicação em revistas científicas.</p>



<p>A presença de micro e nanoplásticos em algas e arrecifes da costa brasileira não é novidade. As primeiras pesquisas a identificar o material no litoral de Sergipe e Alagoas aconteceram em 2014 e foram financiadas pela Petrobras. Depois há outros registros na praia de Tamandaré, litoral sul do estado, em 2018.</p>



<p>Desta vez, porém, as pesquisadoras da UFPE constataram um volume de microplásticos maior do que a dos micro-organismos que alimentam os pequenos animais que, por sua vez, servem de alimento para os peixes. “Vendo como é abrangente o microplástico nesses ambientes, sentiu-se a necessidade e importância de dar continuidade a esses estudos e também envolver outros organismos, como as macroalgas e os organismos microscópicos que vivem aderidos”, explicou a coordenadora da pesquisa, a professora Maria da Glória Gonçalves da Silva Cunha.</p>



<p>A coleta das algas vermelhas da espécie <em>Palisada perforata</em> aconteceu entre 2017 e 2019 nos arrecifes do Pina, zona sul da capital pernambucana, tanto em meses chuvosos quanto em períodos mais quentes e de estiagem. A quantidade de plástico foi comparada com a de microalgas que compõem o fitoplâncton, e com a quantidade de organismos animais. Na maior parte da amostras, havia um pouco mais microalgas do que plástico, mas na comparação com os animais, a proporção se inverteu: só uma amostra tinha mais micro-organismos vivos do que plástico.</p>



<p>Os números dão uma ideia mais clara: em setembro de 2017 a equipe identificou 277 fragmentos de plástico por mililitro de água do mar agregados às algas vermelhas. Na mesma amostra, havia apenas três nematódeos (animal de corpo cilíndrico), uma larva de microcrustáceo e 11 protozoários ciliados.</p>



<p>Seis meses depois, já no período das chuvas, foram encontrados 212 micro ou nano plásticos para 37 animais, incluindo os nematódeos, microcrustáceos, protozoários e foraminíferos (minúsculos animais com conchas microscópicas).</p>



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	                                        <p class="m-0">Filamento usado na fabricação de roupas sintéticas (Foto: Lab. de Fitoplâncton/UFPE)</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Roupas sintéticas</strong></h2>



<p>As partículas plásticas em forma de filamento, originadas da lavagem de roupas sintéticas, foram as encontradas em maior volume nos arrecifes do Pina. De acordo com o relatório preliminar da pesquisa, “os fios de poliéster das roupas em lavagem se misturam com a água e esta é liberada no ambiente marinho, desta forma, este tipo de resíduo constitui cerca de 35% de todos os microplásticos primários dispersos no mar. As fibras de poliéster também estão presentes em roupas de banho, podendo se desprender com facilidade”.</p>



<p>De acordo com a professora Maria da Glória Cunha, os meses com maior incidência de plástico nas algas são os mais quentes, coincidindo com o aumento das atividades na praia e do incremento do turismo por causa do verão. </p>



<p>Agora, as pesquisadoras do Laboratório de Fitoplâncton prosseguem com estudos mais detalhados sobre o tamanho, formato, coloração e outros aspectos dos fragmentos encontrados microplásticos, além de analisar quais os impactos no ecossistema dos arrecifes.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>As partículas de microplásticos são menores que 5 milímetros, enquanto aquelas classificadas como nanoplásticos são medidas em escala de micrômetros, ou seja, 10<sup>-3 </sup>milímetros. Tais partículas são encontradas, principalmente, dentre outros itens, nos produtos de higiene e cosméticos usados no dia a dia, como em determinados cremes dentais, de barbear e esfoliantes. Por recomendação da Organização das Nações Unidas, alguns países já proíbem o uso dessas partículas na composição desses produtos.  </p></blockquote>



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	                                        <p class="m-0">Fragmento de plástico encontrado nos arrecifes do Pina (Foto: Lab. de Fitoplâncton/UFPE)</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading"><strong>Danos invisíveis</strong></h3>



<p>A pesquisa faz parte de um projeto maior que compõe a tese de doutorado da bióloga e mestre em oceanografia Nayana Buarque Antão da Silva, que se dedica a analisar várias espécies de macroalgas nas praias urbanas do Pina e Boa Viagem, além de Pedra de Xaréu e Enseada dos Corais, no litoral sul). No Pina, a grande quantidade de microplásticos levou outra pesquisadora, Giulia de Andrade Lima Bertotti, a mudar o foco do trabalho, inicialmente destinado a analisar a “comunidade biológica” presente nas macroalgas.</p>



<p>“Imediatamente, percebi que havia partículas nas lâminas que não eram organismos vivos. E essas partículas estavam sempre presentes em grande quantidade. Eram micro e nanoplásticos. Esses resultados são muito preocupantes, pois apontam para danos provocados pelos plásticos que não são visíveis a olho nu”, explica Giulia.</p>
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		<title>Falta de protocolo compromete atendimento aos voluntários intoxicados pelo petróleo cru</title>
		<link>https://marcozero.org/falta-de-protocolo-compromete-atendimento-aos-voluntarios-intoxicados-pelo-petroleo-cru/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Mariama Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Nov 2019 10:13:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[crime ambiental]]></category>
		<category><![CDATA[nordeste]]></category>
		<category><![CDATA[óleo no Nordeste]]></category>
		<category><![CDATA[petróleo]]></category>
		<category><![CDATA[praias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>(colaborou Raíssa Ebrahim) As manchas vermelhas que coçam apareceram nas pernas do voluntário Igor Travassos no último dia 24 de outubro. Ele trabalhou na limpeza das praias atingidas pelo petróleo em Pernambuco entre os dias 21 e 23, mas os sintomas de intoxicação começaram apenas no dia seguinte ao último contato direto com o óleo. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<strong>(colaborou Raíssa Ebrahim)</strong>

As manchas vermelhas que coçam apareceram nas pernas do voluntário Igor Travassos no último dia 24 de outubro. Ele trabalhou na <a href="http://marcozero.org/sem-ajuda-do-governo-federal-oleo-esta-sendo-contido-por-voluntarios-ambientalistas-e-pescadores/">limpeza das praias atingidas pelo petróleo</a> em Pernambuco entre os dias 21 e 23, mas os sintomas de intoxicação começaram apenas no dia seguinte ao último contato direto com o óleo.

Primeiro Igor sentiu tontura, que atribuiu inicialmente ao cansaço e ao excesso de sol. Só percebeu a contaminação quando surgiram as reações na pele. Na sexta-feira, 25, o voluntário ligou para o Centro de Assistência Toxicológica de Pernambuco (Ceatox), responsável por acompanhar casos de intoxicação. Foi orientado a procurar atendimento em uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento), onde a equipe médica não pediu exames, nem fez qualquer recomendação especial.

“Não solicitaram toxicológico, nem hemograma. A médica passou apenas um antialérgico de oito em oito horas”, contou. Nesta quinta-feira (31), quando conversamos com Igor por telefone, passada uma semana depois do último contato dele com o petróleo, o voluntário ainda tinha manchas na pele.

O contato com o petróleo cru, derramado nas praias do Nordeste, já provocou pelo menos 66 casos de intoxicação em Pernambuco, em pouco mais de dois meses desde o começo do desastre.<span style="color: #222222;">A maioria dos pacientes é do sexo masculino (57,6%), entre 19 e 59 anos (81,8%). Seis (9%) eram menores de idade.</span> Os dados da secretaria estadual de Saúde foram coletados até o último dia 18. Voluntários e ambientalistas cobram que Pernambuco decrete emergência de saúde pública para reforço de recursos e ações de assistência, enquanto ainda faltam protocolos específicos para orientar os atendimentos nesses casos.

Intoxicações exógenas (por causas externas) como o contato com o óleo tóxico nas praias estão na lista nacional de doenças de notificação compulsória, ou seja, obrigatória. Isso quer dizer que agentes de saúde são obrigados por lei a classificar casos como o do voluntário Igor dessa forma, garantindo o envio das informações ao Sistema Único de Saúde (SUS) por meio de sistemas, que são utilizados tanto na rede privada, quanto na pública.

Esses sistemas, contudo, não preveem intoxicação com petróleo, apenas com seus derivados, que são mais comuns. Ou seja, não há um protocolo especial para orientar o atendimento dos voluntários e dos pescadores que relataram sintomas de contaminação após contato direto com o óleo das praias. Essa orientação definiria, por exemplo, que tipos de exames devem ser feitos nas consultas para verificar o nível de contaminação por benzeno, uma substância presente no petróleo que é eliminada pelo organismo em dois dias pela urina, mas que pode deixar sequelas.

Como não há um protocolo especial, restam dúvidas sobre a efetividade da assistência que está sendo prestada às pessoas contaminadas, tanto de forma imediata quanto no acompanhamento dos possíveis efeitos em médio e longo prazos. No caso do benzeno, que é eliminado pelo corpo rapidamente, como saber qual foi o nível de intoxicação se não forem colhidas amostras do sangue logo após o contato com o material tóxico, por exemplo? E mais: que garantias de assistência os voluntários terão no futuro, uma vez que, ao longo do tempo, a intoxicação por petróleo pode prejudicar pulmões, fígado, rins e a sistema nervoso, além de causar supressão do sistema imune, desregulações hormonais, infertilidade desordens do sistema circulatório e câncer, segundo o próprio ministério da Saúde?

George Dimech é coordenador do Centro de Informações de Vigilância e Saúde de Pernambuco. O órgão é responsável por detectar, monitorar e coordenar respostas a emergências de saúde pública. Ele explicou que o derramamento de petróleo no Nordeste é um “evento inusitado”, por isso não há uma regra específica sobre procedimentos a serem seguidos pelos profissionais de saúde.

A Assessoria de Imprensa do Ministério da Saúde informou, por telefone, que estados e municípios atingidos pelo desastre têm autonomia para criar seus próprios protocolos. Mas Dimech rebateu avaliando que, como as evoluções de quadros de intoxicação têm sintomas em médio e longo prazos, seria mais produtivo se outros estados atingidos e a pasta federal estabelecessem diretrizes de forma conjunta.

“No caso do surto de microcefalia por zika vírus, Pernambuco se antecipou na criação de um protocolo de atendimento próprio. Depois tivemos que convergir para o nacional”, contou. Temos pelo menos de um a dois meses pela frente para estabelecer orientações”, disse, ressaltando que, desde os primeiros derramamentos nas praias, os órgãos de saúde pública e governos estão trabalhando nisso junto com as universidades e outros atores sociais.
<blockquote>
<h3>Como funciona a assistência de saúde para os voluntários das praias?</h3>
Assim que um voluntário intoxicado procura uma unidade de saúde, seja ela pública ou privada, e diz que teve contato com o óleo, essas informações são incluídas no Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação) para acompanhamento. Funciona assim em todas as doenças de notificação obrigatória, como a meningite, por exemplo.

Em razão do vazamento de petróleo de grandes proporções, Pernambuco estabeleceu um complemento nessa rotina. Os agentes de saúde foram orientados a enviarem as informações do atendimento para o e-mail do Centro de Informações de Vigilância e Saúde de Pernambuco. “O objetivo é dar uma resposta mais imediata aos casos”, explicou o coordenador do Centro, George Dimech.

As informações enviadas pelos profissionais são verificadas e servem para determinar que casos serão acompanhados. Esse monitoramento pode ser feito mobilizando agentes de saúde da família nos municípios, por exemplo. Como não existe um protocolo definido, o atendimento, as medicações e os exames, ou seja, o nível de atenção que cada paciente recebe é decidido pelo médico a depender da gravidade do quadro. Geralmente as reações imediatas à exposição ao petróleo são irritações nos olhos e na pele, falta de ar, náusea, vômitos, dores de cabeça, entre outros.

</blockquote>
<h2>Todos foram intoxicados</h2>
“Todo mundo que está trabalhando na limpeza das praias deveria ter um documento oficial comprovando esse trabalho”. O alerta foi dado pela pesquisadora Lia Giraldo, da Fiocruz, durante escuta dos voluntários na Assembleia Legislativa de Pernambuco, na última terça-feira (29). A pesquisadora e toxicologista que estuda o benzeno, uma das substâncias presentes no petróleo, considera que esse tipo de documentação será essencial para que os voluntários possam requerer seus direitos no futuro, incluindo questões previdenciárias e até indenizações do Estado, casos desenvolvam doenças relacionadas à intoxicação com o óleo derramado no litoral.

“Máscaras de pano não protegem. Todos foram expostos aos gases tóxicos, altamente voláteis. Por isso sintomas agudos estão sendo observados, como náuseas e vômitos, indicando que esses vapores chegaram ao sistema nervoso, causando intoxicação”, explicou. Embora os governos pareçam perdidos diante dos quadros de contaminação, ela disse que os efeitos da exposição ao petróleo na saúde, de forma imediata ou não, são conhecidos pela ciência e podem ser previstos para basear políticas de saúde.

“Não há nada de novo, é o que mais se sabe na toxicologia”, garantiu, desmentindo a fala do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que afirmou nesta quinta-feira que “ainda não existem elementos para dizer se o óleo encontrado no litoral do Nordeste faz mal à saúde”. Para ela, “cinco anos de monitoramento das pessoas que foram expostas é o mínimo para um acompanhamento adequado”.

Embora os efeitos nocivos do contato com petróleo cru para a saúde sejam bastante conhecidos pelos especialistas, essas informações têm sido sonegadas pelos governos. Bárbara Lima, do movimento Pernambuco Sem Lixo, que mobiliza voluntários nas praias, reclamou da falta transparência do poder público. “Não se sabe ao certo o nível de toxicidade do material”, criticou.

Para resguardar a saúde das pessoas, Gustavo Catunda, do movimento Salve Maracaípe, disse que “os voluntários estão sendo encaminhados para outras atividades como monitoramento, distribuição de materiais, entre outros”. Ele cobrou o ‘desmame’ dos voluntários das ações de limpeza das praias, que já deveria estar sendo orquestrado pelo Governo Federal, com o Exército assumindo as atividades de remoção do óleo para que a sociedade civil possa atuar em outras frentes.
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<h4>Leia também:</h4>
<h4><a href="http://marcozero.org/sem-ajuda-do-governo-federal-oleo-esta-sendo-contido-por-voluntarios-ambientalistas-e-pescadores/">Sem ajuda do Governo Federal, óleo está sendo contido por voluntários, ambientalistas e pescadores</a></h4>
<h4><a href="http://marcozero.org/sem-ajuda-do-governo-federal-oleo-esta-sendo-contido-por-voluntarios-ambientalistas-e-pescadores/">“Estamos sendo feitos de tolos”, alerta a mais experiente perita brasileira em danos ambientais por vazamento de óleo</a></h4>
<h4><a href="http://marcozero.org/estamos-sendo-feitos-de-tolos-alerta-a-mais-experiente-perita-brasileira-em-danos-ambientais-por-vazamento-de-oleo/">Negligência e sigilo do Governo Bolsonaro expõem saúde dos voluntários que limpam óleo das praias</a></h4>
</blockquote>
A ausência de informações e de transparência nas questões relacionadas à saúde dos voluntários motivou a criação do grupo Monitora Saúde, uma plataforma digital que registra informações dos intoxicados por meio de formulários on-line. Embora não use uma metodologia científica, o grupo, formado por médicos e outros profissionais, faz o que se chama de “vigilância cidadã em saúde”, fazendo monitoramentos à parte dos governos.

Em apenas sete dias, a plataforma registrou 744 casos de intoxicação por contato com o petróleo das praias em Pernambuco. É muito mais do que os 66 reportados pela secretaria de Saúde estadual, o que desperta dúvidas sobre a possibilidade de subnotificação dos casos. Segundo os dados colhidos pelo grupo, que diz não ter financiamento de empresas, 90% tiveram alguma reação, desde enjoo até irritações nos olhos e na pele. Entre os que preencheram os cadastros, 15% eram moradores dos locais afetados e 89% usaram óleos naturais para remover o petróleo da pele, como óleo de cozinha. Essa informação vai de encontro a um argumento comum aos órgãos oficiais, que é de que os voluntários estão sendo intoxicados por contato com solventes, como querosene, que estariam sendo usados para limpar o petróleo da pele.

“Pernambuco já deveria ter declarado estado de emergência na saúde, como fez Sergipe”, opinou Henrique do Espírito Santo, idealizador do Monitora Saúde. Essa mesma cobrança tem sido feita por voluntários, movimentos e especialistas em saúde. O decreto de emergência caberia “se tivesse sido superada a capacidade do serviço estadual de responder à demanda, o que ainda não ocorreu”, segundo George Dimech.

Por nota, a secretaria estadual de saúde informou que está realizando visitas técnicas nas praias onde ocorrem os mutirões de limpeza do óleo, nas unidades de saúde destes locais, para alertar os gestores e profissionais de saúde sobre sintomas de intoxicação e o preenchimento correto das informações no Sinan. Na semana passada, 155 profissionais de saúde foram capacitados para atendimento inicial ao paciente intoxicado, ainda que não haja um protocolo de acompanhamento específico para os casos de intoxicação por petróleo que se multiplicam todos os dias pelo litoral brasileiro.

Em Pernambuco, pessoas com sintomas de intoxicação podem procurar orientações no Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) pelo telefone 0800.722.6001.
<h2>O voluntário exposto a mais riscos pela prefeitura do Cabo</h2>
Estevão Santos da Paixão trabalha com reciclagem, conscientização e intervenções socioambientais na Praia de Itapuama, no Cabo de Santo Agostinho, há 11 anos, através do projeto <a href="http://www.portosocial.com.br/ondalimpa/">Onda Limpa para Gerações Futuras</a>. Foi justamente em parte do terreno particular que ele ocupa, através de um contrato de comodato (um tipo de empréstimo), que a prefeitura saiu despejando, sem qualquer aviso prévio, as toneladas de óleo que foram sendo coletadas da praia, sobretudo na segunda-feira 21, o dia mais crítico do vazamento no local.

De forma absurda, o poder municipal demorou 10 dias para retirar o material acondicionado na área, que fica ao lado das ruínas de um hotel embargado, em frente ao mar. Agora ficaram só as lonas. A limpeza só foi feita nesta quinta (31). Estevão está há quase duas semanas sofrendo com insuficiência respiratória por causa do contato com o óleo no processo voluntário de limpeza e também porque seu quintal virou “lixão tóxico”.

<a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/11/estevão2.jpeg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter  wp-image-19992" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/11/estevão2-1024x768.jpeg" alt="estevão2" width="617" height="462"></a>

A estrutura montada pelo poder público municipal, no dia 21, para a retirada e o manejo do óleo era visivelmente amadora. Parte do óleo coletado foi colocado numa espécie de vala improvisada, contaminando o solo. Ao retirar o material, após muita pressão de Estevão e das redes sociais, a Prefeitura do Cabo isolou a área com fita zebrada, o que impede parte das atividades do Onda Limpa. Agora, o ativista ambiental teme que nenhum órgão do poder público tenha a iniciativa de fazer uma análise do terreno para avaliar o nível de contaminação.

“Vivemos cobrando uma atuação do poder municipal aqui. Não há respeito pela pessoa do Estevão e um olhar ao trabalho que faço há 11 anos com seriedade. Há um certo preconceito, em diversos sentidos”, reclama. “Não quero me sentir como o pobrezinho, o neguinho. Mas relato isso também porque sinto que há racismo nisso”, desabafa. E esse processo tem nome: racismo ambiental. Cabe perguntar se o hotel, que teve a construção abandonada há décadas, tivesse sido erguido, será que a Prefeitura do Cabo acondicionaria o óleo retirado da praia em frente ao empreendimento?

A reportagem procurou a assessoria de imprensa da prefeitura, mas, alegando que hoje (31) era feriado municipal, não havia condições de retornar.

Estevão conta ainda que o poder municipal esteve no local no primeiro semestre e o notificou, exigindo que ele mostrasse um documento atestando que tinha direito de estar no local, senão seria retirado. “Queremos ser alinhados, mas não podemos ser tratados como casa de mãe Joana. Não teve nenhum diálogo para trabalharmos juntos, é muito chocante para a gente que vem desempenhando algo coletivo. Eu nunca ia chegar na casa de ninguém e despejar isso”, diz.



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