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	<title>Arquivos racismo - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos racismo - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Quando o antirracismo vira performance: a Copa acabou, a luta continua?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Jul 2026 20:08:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Antirracismo]]></category>
		<category><![CDATA[Copa do Mundo 2026]]></category>
		<category><![CDATA[futebol]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Tiago Paraíba* “Por mais que você corra, irmão pra sua guerra vão nem se lixar esse é o X da questão já viu eles chorar pela cor do Orixá?” (Emicida) A Copa do Mundo de 2026 terminou, mas deixou um debate que merece sobreviver ao último apito. Durante semanas, redes sociais, programas esportivos e [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Tiago Paraíba*</strong></p>



<p><strong>“Por mais que você corra, irmão pra sua guerra vão nem se lixar esse é o X da questão já viu eles chorar pela cor do Orixá?” (Emicida)</strong></p>



<p>A Copa do Mundo de 2026 terminou, mas deixou um debate que merece sobreviver ao último apito. Durante semanas, redes sociais, programas esportivos e espaços de opinião foram tomados por discussões sobre racismo, colonialismo, imigração e identidade nacional. Não havia apenas um jogo em disputa; havia também uma disputa por quem ocupava o lugar da maior consciência moral.</p>



<p>Esse fenômeno, embora revele um avanço importante, afinal, o racismo deixou de ser um tema invisível no futebol, também expôs um limite da forma como parte desse debate é conduzida. Em muitos momentos, o antirracismo apareceu menos como um compromisso político permanente e mais como uma performance pública de virtude.</p>



<p>Não se trata de negar a existência do racismo na Argentina, na Espanha, no Brasil ou em qualquer outro país. O racismo é um fenômeno histórico que assume diferentes formas em cada sociedade. O problema surge quando sua denúncia passa a obedecer à lógica do evento, da viralização e, da necessidade de demonstrar superioridade moral diante dos outros.</p>



<p>Durante a Copa, parecia que torcer por uma seleção ou outra definia automaticamente o grau de compromisso de cada pessoa com a luta antirracista. O debate político foi substituído por uma espécie de tribunal das consciências, em que o principal objetivo era identificar quem estava do “lado certo” da história.</p>



<p>Essa dinâmica pouco contribui para enfrentar aquilo que o sociólogo Clóvis Moura identificava como o caráter estrutural do racismo na formação da sociedade brasileira. Moura rompeu com a ideia de que o racismo seria apenas um problema cultural ou comportamental. Para ele, o racismo é uma engrenagem do próprio capitalismo dependente brasileiro, um mecanismo que organiza a exploração do trabalho, a desigualdade e a distribuição do poder. Não é um desvio da democracia; é parte da forma como ela foi construída no Brasil. </p>



<p>Se Moura nos ajuda a compreender as estruturas, Lélia Gonzalez nos ensina a olhar para as dimensões culturais e políticas que sustentam essas estruturas. Ao formular o conceito de amefricanidade, ela mostrou que as experiências dos povos negros e indígenas nas Américas produzem formas próprias de resistência e elaboração política, invisibilizadas por uma leitura eurocêntrica da história. Para Gonzalez, combater o racismo significa transformar as relações de poder e reconhecer os sujeitos historicamente silenciados não apenas fazer denúncias ocasionais quando o tema ganha espaço na mídia. </p>



<p>É justamente essa perspectiva que parece faltar quando o antirracismo se reduz à lógica das redes sociais.</p>



<p>A indignação torna-se episódica. Durante algumas semanas, tudo gira em torno do racismo no futebol. Passada a final da Copa, desaparecem as discussões sobre violência policial, encarceramento em massa, desigualdade educacional, racismo religioso, acesso ao mercado de trabalho, representação política ou financiamento de políticas públicas de igualdade racial.</p>



<p>O algoritmo muda de assunto, e boa parte da militância performática muda junto.</p>



<p>Existe ainda outro efeito preocupante: o antirracismo deixa de ser uma prática coletiva de transformação para se tornar um marcador de distinção moral. Em vez de produzir consciência política, produz hierarquias simbólicas entre aqueles considerados suficientemente “conscientes” e aqueles vistos como moralmente inadequados.</p>



<p>Essa postura pouco dialoga com a tradição do movimento negro brasileiro. Clóvis Moura analisava a resistência negra como prática histórica de organização coletiva da quilombagem às lutas contemporâneas e não como afirmação individual de superioridade ética. Da mesma forma, Lélia Gonzalez insistia que o enfrentamento ao racismo exigia construção política, articulação popular e ruptura com as estruturas coloniais que continuam organizando nossas sociedades.</p>



<p>Vale lembrar que o reconhecimento do racismo como problema estrutural no Brasil não surgiu espontaneamente, muito menos foi uma concessão das elites ou resultado da mobilização nas redes sociais. Foi fruto de décadas de organização e luta do movimento negro brasileiro. Das denúncias do Teatro Experimental do Negro às mobilizações do Movimento Negro Unificado, das formulações de Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Abdias do Nascimento e Clóvis Moura, às Marchas Zumbi dos Palmares e à Conferência de Durban, foi essa trajetória que obrigou o Estado brasileiro a reconhecer o racismo e construir políticas públicas de igualdade racial. </p>



<p>É curioso perceber que boa parte dos que hoje protagonizam um antirracismo performático durante grandes eventos raramente se mobilizam para defender esse legado. Não os vemos com a mesma disposição na defesa das cotas raciais, das ações afirmativas, da titulação dos territórios quilombolas ou da agenda de reparação histórica pelos mais de três séculos de escravidão. Também não os vemos na defesa das expressões culturais produzidas pelo povo negro. Pelo contrário: o silêncio costuma prevalecer diante da criminalização do funk, do brega, do hip hop, da capoeira e das religiões de matriz africana, manifestações que historicamente foram alvo de repressão, estigmatização e racismo institucional. Defender o antirracismo implica também defender o direito do povo negro de produzir sua cultura, professar sua fé e afirmar sua identidade sem ser tratado como caso de polícia ou expressão da marginalidade<strong>.</strong> A energia dedicada à performance moral nas redes nem sempre se converte em compromisso com as conquistas concretas construídas pelo movimento negro organizado</p>



<p>A Copa poderia ter sido um ponto de partida. Poderia servir para fortalecer movimentos negros, ampliar o debate sobre ações afirmativas, disputar políticas públicas e consolidar uma agenda antirracista permanente. Mas isso exige abandonar a lógica da performance.</p>



<p>Mais do que disputar quem ocupa o lugar da maior virtude pública, o desafio continua sendo aquele apontado por Clóvis Moura e Lélia Gonzalez: compreender que o racismo não é um acidente moral, mas uma estrutura histórica, e que sua superação exige organização política, transformação social e compromisso permanente.</p>



<p>A Copa acabou. A pergunta que permanece é simples: o antirracismo continuará em campo ou também ficará restrito aos 90 minutos do espetáculo?</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*</strong>Membro da Executiva Nacional do PSOL, militante da Ação Negra e torcedor do Santa Cruz.</p>
    </div>
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		<title>Homens matam uma mulher a cada quatro dias em Pernambuco</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 12:52:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[8M]]></category>
		<category><![CDATA[dia internacional da mulher]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
		<category><![CDATA[violência de gênero]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 2025, homens assassinaram 88 mulheres em Pernambuco, 14% a mais que em 2024, quando eles vitimaram 77 mulheres. Isso significa que o estado contabilizou um feminicídio a cada quatro dias somente no ano passado. Pernambuco é o segundo estado do Nordeste onde homens mais cometem feminicídios, ficando atrás apenas da Bahia, onde eles mataram [&#8230;]</p>
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<p>Em 2025, homens assassinaram 88 mulheres em Pernambuco, 14% a mais que em 2024, quando eles vitimaram 77 mulheres. Isso significa que o estado contabilizou um feminicídio a cada quatro dias somente no ano passado. Pernambuco é o segundo estado do Nordeste onde homens mais cometem feminicídios, ficando atrás apenas da Bahia, onde eles mataram 102 mulheres em 2025. Os dados constam no estudo <em>Retrato dos Feminicídios no Brasil</em>, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, publicado no dia 4 de março.</p>



<p>Essa é a maior quantidade de feminicídios já registrados em Pernambuco desde 2017, quando o então governador Paulo Câmara assinou o decreto que instituiu o feminicídio na classificação dos crimes violentos letais. Dos 88 casos, 15 foram no Recife, seis em Jaboatão dos Guararapes e cinco em Caruaru. A maioria das vítimas tinha entre 35 e 64 anos (38,64%).</p>



<p>Leia, no final desta reportagem, uma entrevista com a premiada socióloga pernambucana Ana Paula Portella.</p>



<p>Confira <a href="https://marcozero.org/homens-estupram-ao-menos-seis-mulheres-e-meninas-por-dia-em-pernambuco/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aqui</a> reportagem sobre estupro na última década em Pernambuco.</p>



<p>O Brasil também bateu recorde de feminicídios em 2025, foram 1.568, um crescimento de 4,7% em relação a 2024. O estudo do Fórum detalha com dados o que se repete em todo o país: mulheres negras são as mais expostas à violência letal de gênero (62,6%); na maioria dos casos, o agressor é parceiro ou ex-parceiro íntimo (apenas 4,9% foram assassinadas por desconhecidos); e os crimes, em sua maioria, acontecem dentro de casa (66,3%).</p>



<p>“A evolução das taxas de outros crimes contra mulheres, como ameaça, perseguição, violência psicológica, lesão corporal, estupro e tentativa de feminicídio, também vêm aumentando de forma consistente nos últimos anos, o que indica que o corpo das mulheres segue sendo visto como território alheio, que poderia ser ameaçado, agredido, sexualmente violentado e assassinado”, destaca o Fórum em nota técnica.</p>



<p>Para analisar esse cenário, a <strong>Marco Zero</strong> entrevistou socióloga pernambucana Ana Paula Portella, doutora em Sociologia e mestra em Saúde Pública com mais de três décadas de atuação em pesquisa aplicada, avaliação de políticas públicas, violência de gênero, segurança pública e direitos humanos. Especialista em violência letal contra mulheres, feminicídio, interseccionalidade (gênero, raça e classe) e análise de políticas públicas, ela é autora do livro <em>Como morre uma mulher?</em>.</p>



<p>A publicação é resultado da tese de doutorado de Ana Paula e ganhou o prêmio de Melhor Tese da América Latina e do Caribe conferido pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. O livro analisa os contextos e as dinâmicas de produção da morte violenta de mulheres, incluindo os feminicídios, além de propor e aplicar um modelo de análise de dados em contextos de ausência de informações essenciais, como é o caso de muitos bancos de dados do sistema de segurança e justiça.</p>



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	                                        <p class="m-0">Ana Paula Portella é especialista em violência contra mulheresCrédito: Keila Vieira
</p>
	                
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<p>Marco Zero &#8211; <strong>Nunca se debateu e se deu tanta visibilidade aos casos de violência contra mulher. Por outro lado, as reações estão cada vez mais agressivas e os casos de violência de gênero não param de crescer. Como isso se explica?</strong></p>



<p><strong>Ana Paula Portella &#8211; </strong>Existe um debate anterior a isso, que é se a violência de fato está aumentando ou se ela está sendo mais registrada, mais visibilizada e melhor classificada. Casos que, há um tempo, não seriam vistos como feminicídio hoje estão sendo classificados como feminicídio, porque existem protocolos e medidas dentro do sistema de segurança e justiça que orientam seus agentes a observarem os casos de morte violenta feminina de outra maneira e identificarem, nesses casos, o que é feminicídio e o que não é feminicídio.</p>



<p>Esse é um debate, a gente não tem como responder a essa pergunta neste momento e eu não conheço pessoas que estejam fazendo estudos para identificar se realmente a gente tem um aumento de casos ou se a gente tem uma melhora na visibilização do problema e na classificação dos casos.</p>



<p>De qualquer maneira, isso não importa, porque, como a gente está tratando de violência letal, é uma coisa que não deveria acontecer. Então um único caso é excessivo. Essa questão do aumento ou da redução, na minha perspectiva, é irrelevante porque temos que trabalhar com a perspectiva de uma sociedade que não tenha nenhum caso de violência letal contra as mulheres. E temos aqui em Pernambuco número muito maior do que um. Estamos em torno de 300 casos, se não me engano, de violência letal e, entre esses, cerca de 80 feminicídios.</p>



<p>De qualquer maneira, respondendo diretamente a essa preocupação dos casos mais graves, dos casos aparentemente mais violentos do que o que a gente tinha no passado, eu acho que vale a pena chamar a atenção para o recrudescimento do conservadorismo que tem acontecido no mundo inteiro e, aqui no Brasil também, nesses últimos dez ou 15 anos.</p>



<p>Todo esse avanço da extrema-direita — e tivemos aqui o governo Bolsonaro, que institucionalizou esse avanço no Governo Federal — traz com ele uma revalorização e um fortalecimento dos valores conservadores de gênero. Temos toda uma exacerbação das diferenças entre homens e mulheres, de uma maior valorização daquilo que é masculino, daquilo que é viril, daquilo que é violento. E com todo o debate em torno da liberação e do uso das armas de fogo, existe uma exaltação desses padrões, tanto do ponto de vista institucional e político, no campo da extrema-direita, como no campo da moral e da religião, por meio das igrejas neopentecostais.</p>



<p>Isso certamente cria um terreno fértil para a relegitimização da violência contra as mulheres, mas também do contexto de dominação dos homens contra as mulheres. Essa visão sobre as mulheres de que os homens são superiores, de que eles são melhores e que, por isso, têm e podem deter o poder de vida e morte sobre mulheres e crianças. Essas masculinidades agressivas e tóxicas têm sido fortalecidas nesse período. E esse é o período também que a gente vê crescer essa coisa no mundo virtual, desses ambientes da <em>deep web</em>, de debates, de jogos e de conversas, das quais participam majoritariamente meninos e homens jovens.</p>



<p>Esse é um ambiente que tem crescido entre as crianças e entre os meninos adolescentes sem supervisão parental, então é como se tivesse aberto um grande portal nos últimos anos, onde os meninos são efetivamente educados para serem homens a partir desses portais. Então se abre um campo de sociabilidade onde esses meninos têm exemplos a partir dos quais eles podem moldar a sua própria identidade masculina, em que não se tem supervisão nem dos pais nem de outros adultos nem de instituições. Então, ele está correndo livre. O que temos visto é que eles estão caminhando para esse campo do tradicionalismo, do tradicionalismo e do conservadorismo. Esses são ambientes que também valorizam a violência em todas as suas formas.</p>



<p><strong>Apesar do crescimento das denúncias e da busca por informação e acolhimento — prova é que o 180, a cada ano, bate recorde de registros —, ainda é muito difícil interromper o ciclo de violência contra as mulheres. Por quê?</strong></p>



<p>Interromper o ciclo da violência depende de coisas muito sensíveis. Uma mulher que está envolvida em uma situação abusiva precisa, em primeiro lugar, ter consciência de que essa relação é abusiva, precisa perceber e entender que ela está confundindo amor com abuso. Isso requer tempo, conhecimento, informação e apoio externo.</p>



<p>Além disso, mesmo que ela consiga diferenciar e perceber que a relação de fato é abusiva, ela precisa ter uma rede de apoio sólida, consistente e capaz de conter a reação agressiva masculina que fatalmente vai surgir no momento que ela decidir sair dessa relação. Essa rede de apoio tem que ser tanto pessoal e familiar como institucional, porque a contenção da reação masculina não é uma coisa simples. Não é simples conter um homem que está decidido a matar alguém. Nesse contexto que estamos vivendo, esses homens estão decidindo matar as mulheres e matar seus filhos. A situação está realmente ficando mais grave nesse sentido.</p>



<p>Nem todas as mulheres têm acesso a esse tipo de rede — e as mulheres sabem disso e precisam se proteger. Muitas não saem da situação porque sabem que, no momento em que saírem, esse homem vai reagir e ela não tem a quem recorrer. Daí a importância das políticas públicas, da ação do sistema de segurança e justiça, das medidas protetivas, das casas de acolhimento, dos centros de referência. É importante que a mulher saiba que isso existe para saber a quem pode recorrer.</p>



<p>É bom a gente lembrar também que boa parte dos casos de feminicídio acontece justamente quando a mulher pede a separação, depois que ela pede a separação ou depois que ela sai de casa. As mulheres que estão nessas relações sabem disso e procuram se proteger, então é importantíssimo que a sociedade tenha consciência disso e que os círculos próximos dessa mulher se constituam como uma rede de apoio e que isso seja dito muito em voz alta, que ela saiba ‘olha, você pode contar comigo, eu estou percebendo que a sua situação é ruim, então venha para cá’. Que as pessoas conversem sobre isso e se disponham a protegê-la, como também as políticas públicas, que, para a nossa sorte e graças ao movimento feminista nos últimos 40 anos, já existem aqui no país.</p>



<p>O ideal é que a relação abusiva seja interrompida no início, nos seus primeiros sinais, de modo que não dê tempo e não se permita que o homem cultive a sua reação mais violenta e agressiva. Mas, no início, é justamente o momento mais difícil da mulher perceber que a relação é abusiva porque os sinais são ambíguos. Então ela confunde isso com amor. É uma situação que só pode ser resolvida quando a sociedade brasileira como um todo compreender o que é uma relação abusiva, quando todas as pessoas conseguirem identificar esses sinais e quando tivermos realmente essas redes de apoio eficazes para proteger as mulheres e as crianças.</p>



<p><strong>As mulheres negras são a maioria das vítimas de feminicídio. Como o racismo estrutural impacta a vida dessa população e por que, no caso delas, é mais difícil quebrar esse ciclo de abusos?</strong></p>



<p>O racismo estrutural impacta a vida das mulheres imensamente. É, sem dúvida, o tipo de relação de poder e de dominação mais forte e poderoso na sociedade brasileira. Eu diria até que é mais poderoso do que as relações de gênero, mas atua de uma maneira muito articulada com as questões de gênero. Se a gente observar as condições em que vivem essas mulheres, vamos ver que elas têm redes familiares e redes sociais mais frágeis, vivem em condições materiais mais precárias.</p>



<p>Para uma parte importante delas, especialmente as mais jovens, têm menor acesso à informação e ao conhecimento que poderia facilitar procurarem ajuda e buscarem proteção para a violência. Isso as deixa numa situação muito mais frágil do que as mulheres que não são negras e que estão em condições materiais melhores.</p>



<p>Além disso, a questão racial é frequentemente usada como base para o exercício de poder e da dominação. Quando o homem quer destratar uma mulher ou quando as pessoas, em geral, aqui no Brasil, numa sociedade que tem um racismo tão alto e tão vigoroso, a questão da raça é utilizada frequentemente como medida de desvalor, como forma de xingamento, de diminuir essa mulher.</p>



<p>Eles já usam o fato de a gente ser mulher como algo ofensivo. No caso das mulheres negras, você vai ter a junção da questão do racismo e da misoginia atuando conjuntamente para desvalorizar essa mulher, para submetê-la e oprimi-la, o que vai deixá-la em uma situação de muito maior fragilidade do que aquela que não sofre o efeito do racismo.</p>



<p>A questão do racismo é tão essencial que a gente verifica que a maior proporção de vítimas da violência de gênero é de mulheres negras, jovens e pobres que vivem em situação de precariedade social.</p>



<p><strong>A maioria dos feminicidas é o marido, o namorado, o amante ou o ex. O que isso revela sobre o comportamento dos homens e a estrutura da sociedade?</strong></p>



<p>Eu acho que revela muito claramente que a gente vive numa sociedade patriarcal. Essas situações em que os homens matam as mulheres e matam as crianças significam que eles se compreendem como detentores do poder total sobre a vida da família. E isso é a descrição mais clara do patriarcado. A sociedade ainda é complexa, contraditória, é ambígua. A gente convive, ao mesmo tempo, com contextos progressistas, avançados e contextos conservadores, mas, no que se refere ao campo conservador, isso é um evidente traço da permanência das relações patriarcais na sociedade. Ainda tem muita luta pela frente para desfazer isso.</p>
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		<title>Brega funk vai de movimento cultural a foco de disputa ideológica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Sep 2025 11:56:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[alepe]]></category>
		<category><![CDATA[brega funk]]></category>
		<category><![CDATA[extrema-direita]]></category>
		<category><![CDATA[passinho]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mais do que um ritmo recifense que agita pessoas em bairros, festas e bares, o brega funk é um movimento cultural que impacta e transforma a vida de milhares de pernambucanos, sobretudo, da periferia. Um movimento controverso que usa as batidas marcadas do funk com a melodia do brega para abordar temas que, ora agitam [&#8230;]</p>
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<p>Mais do que um ritmo recifense que agita pessoas em bairros, festas e bares, o brega funk é um movimento cultural que impacta e transforma a vida de milhares de pernambucanos, sobretudo, da periferia. Um movimento controverso que usa as batidas marcadas do funk com a melodia do brega para abordar temas que, ora agitam o ouvinte, ora geram polêmicas, acabou virando centro de disputas ideológicas e políticas na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe).</p>



<p>Pelo menos quatro projetos de lei relacionados ao movimento foram discutidos no legislativo estadual este ano, dois deles dos deputados de direita Renato Antunes (PL) e Pastor Júnior Tércio (PP) e dois da deputada do PT Rosa Amorim. O de Rosa, que <a href="https://www.alepe.pe.gov.br/proposicao-texto-completo/?docid=20701&amp;tipoprop=pc">cria o Dia Estadual do Brega Funk</a>, foi o único que avançou e teve o texto <a href="https://www.instagram.com/p/DJpml4Rx9uD/">aprovado na Comissão de Constituição, Legislação e Justiça</a> e segue em tramitação. Na última semana, a deputada realizaria uma reunião solene em homenagem ao Brega Funk, mas precisou ser adiada por choque na agenda da parlamentar.</p>



<p>A data, 21 de março, marca a morte por infarto do Mc Elloco, que ocorreu em 2024, quando tinha 34 anos. Cleiton Silva, o Elloco, acompanhado da sua dupla Shevchenko, foi um dos nomes mais importantes para levar o brega funk ao reconhecimento nacional. Pesquisadores apontam que o precursor do ritmo foi Mc Leozinho, seguidos de outros artistas que viram a potencialidade de misturar os ritmos, mas sem ignorar os estigmas que o brega e o funk carregam juntos. A deputada também propôs o <a href="https://www.alepe.pe.gov.br/proposicao-texto-completo/?docid=15108&amp;tipoprop=p">PL 3069/2025</a>, para criar o &#8220;Programa de Prevenção à Censura a Arte e a Cultura no Estado de Pernambuco&#8221;.</p>



<p>Enquanto Rosa Amorim (PT) levanta o debate da importância desse gênero para a cultura periférica, os deputados de extrema-direita Renato Antunes (PL) e pastor Júnior Tércio (PP) tentam delimitar como e onde as pessoas podem se reunir para curtir o brega funk.</p>



<p>Com o <a href="https://www.alepe.pe.gov.br/proposicao-texto-completo/?docid=14172&amp;tipoprop=p">PL 2492/2025</a>, Renato Antunes (PL) quer estabelecer “a vedação de execução de músicas e videoclipes com letras e coreografias que façam apologia ao crime, ao uso de drogas, ou expressem conteúdos verbais e não verbais de cunho sexual e erótico, nas unidades escolares da rede de ensino do estado de Pernambuco, e estabelece outras providências”. Quem desrespeitar seria multado em 10 mil reais.</p>



<p>Já o pastor Júnior Tércio (PP) propôs em abril o <a href="https://www.alepe.pe.gov.br/proposicao-texto-completo/?docid=14743&amp;tipoprop=p" target="_blank" rel="noreferrer noopener">PL 2822/2025</a> que proibiria “eventos irregulares denominados: &#8216;pancadão&#8217;, &#8216;bailes do inferninho&#8217;, &#8216;muvucão&#8217; e similares no estado de Pernambuco”. O texto define como eventos irregulares todos aqueles que não possuem alvará ou autorização do poder público. Entretanto, a tramitação dos dois projetos ainda não avançaram na Assembleia Legislativa.</p>



<p>Ambos os projetos impactam diretamente nos elementos essenciais do movimento, como por exemplo, a dança representada pelo passinho. Ou até a reunião de jovens para curtir a música em seus bairros. De acordo com o pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e autor do livro <em>Ninguém é Perfeito, a Vida é Assim: a música brega de Pernambuco</em>, Thiago Soares, o brega funk é alvo de uma agenda moral que se coloca sobre as músicas periféricas.</p>



<p>“Há uma agenda política encampada pela extrema-direita, pelos grupos conservadores, sobretudo nas redes sociais, que escolhem algumas expressões culturais que são claramente estigmatizadas. Eles escolhem essas expressões culturais como uma espécie de alvo fácil para constituir ali argumentos morais”, explica.</p>



<p>O pesquisador também analisa que essa é uma das agendas morais que possibilitam engajamento nas redes sociais muito rapidamente com a ajuda de algoritmos, então a replicação de conteúdos sobre esses assuntos acaba sendo muito fácil nesse contexto de ampla polarização política nas redes. Thiago também reforça que essa moralidade direcionada às expressões culturais populares ligadas às populações negras não são novas, historicamente são lidas como violência ou vadiagem.</p>



<h2 class="wp-block-heading">&#8220;A jovialização do brega&#8221;</h2>



<p>Thiago Soares explica que com o surgimento do brega funk, para além da discussão sobre classe, cresceu também a discussão racial dentro do movimento brega de uma forma geral. “A entrada do brega funk, que é um processo que se dá a partir de 2008, com o início das redes sociais, com a jovialização do brega, que é outro processo que acontece, pois o brega romântico tem um perfil etário um pouco mais elevado. O brega funk jovializa o brega. Ele aproxima o brega de um outro gênero, que é o funk. Então, ele herda os estigmas raciais, os estigmas sexuais, os estigmas de gênero, que estão presentes no universo do funk”, afirma o pesquisador.</p>



<p>Apesar dessas marcas, o gênero musical chega para a periferia como um respiro de cultura e de lazer, direitos muitas vezes negados pelos poderes públicos. A produtora e DJ Kananda P.X, de 28 anos, teve a vida influenciada pelo brega e pela cultura desde o nascimento. Nascida e criada no bairro de Peixinhos, em Olinda, faz do seu legado levar a cultura periférica e o brega funk por onde passa. Hoje é uma das poucas Djs mulheres de brega da cidade.</p>



<p>“Tem impactado demais me reconhecer enquanto um artista do brega, porque isso me traz também uma responsabilidade. E eu sempre fui essa pessoa muito militante. Desde que eu comecei a me entender no mundo enquanto mulher negra periférica eu me dediquei, me dedico até hoje a fazer as coisas mudarem, mesmo que minimamente, como eu puder. Então, com a cultura é a mesma coisa”, reconhece Kananda.</p>



<p>Para a produtora, o potencial do brega funk é desperdiçado, por falta de incentivo e de políticas públicas de cultura efetivas. Em Peixinhos e em tantos outros bairros periféricos, os jovens fazem suas produções independentes e tentam emplacar suas músicas com o único recursos possível: a vontade de fazer acontecer.</p>



<p>“A quantidade de menino que está aí longe de tudo que não presta, porque conseguiu ganhar grana a partir da sua música, mesmo sem ter acesso a políticas públicas. Porque os ‘pirraias’ que conseguem grana hoje, conseguem porque eles montam estúdio <em>home office</em>, eles gravam as músicas sem qualidade mesmo e soltam na internet. Não tem filtro, sem acesso à educação, mas conseguem alcançar. E conseguem por conta própria, porque não é ninguém ajudando”, reflete a DJ.</p>



<p>Mesmo assim, os artistas do movimento brega funk continuam levando o reconhecimento da importância cultural que vem se consolidando ao longo dos anos. Levando a sua pesquisa musical para eventos e instituições, como escolas, festivais, festas institucionais do governo do estado, discussões sobre cultura, além das festas, é claro, Kananda P.X é um dos tantos exemplos de que é possível, mesmo com diversos desafios, levar a música recifense para diferentes espaços.</p>



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<h3 class="wp-block-heading">&#8220;Deixa os garotos brincar&#8221;</h3>



<p>Apesar do projeto que propõe proibir bailes de rua ainda não ter avançado na Alepe, essa proibição parece já estar posta em bairros específicos de Recife e Região Metropolitana, como é o caso de Peixinhos, em Olinda. Conhecido pela sua ebulição cultural, Peixinhos é berço do manguebeat, de afoxés, troças carnavalescas, de artistas do brega e grupos de samba. No entanto, os moradores que têm pouco acesso à iniciativas públicas de cultura, também não conseguem realizar suas próprias festas de rua.</p>



<p>No ano passado, o influenciador digital Diego Yuri, administrador da página <a href="https://www.instagram.com/reel/DOrplvcjmnU/?utm_source=ig_web_copy_link">Giriquiti News</a>, tentou fazer um baile na comunidade para comemorar os seguidores da página. A ideia foi colocar um paredão na comunidade do Giriquiti, começando por volta das 18h até às 2h da manhã. Para conseguir a autorização da prefeitura, recorreu a ajuda de uma vereadora local que auxiliou nos trâmites. Mas, no dia da festa, o evento não pôde ser realizado.</p>



<p>Segundo o influenciador, a polícia chegou acabando com o baile no momento em que ligaram o som, alegando que o documento que tinha em mãos não era válido. Depois dessa investida, eles dispersaram os moradores que estavam no local. “O que prejudica é o policiamento, pois eles não tem jeito de falar com as pessoas. Eles pensam que, por que é favela, é bagunça e vai ser só droga. Mas não é assim, as pessoas querem se divertir, querem tirar seu sustento. Quem investiu para trabalhar acabou perdendo. Se eles colocam esse policiamento para acabar os bailes, por que não botam para diminuir os assaltos e a criminalidade?”, indaga o jovem.</p>



<p>Em maio deste ano, a polícia militar também encerrou a tradicional festa dos trabalhadores que acontece anualmente no bairro, na praça da Caixa D’água. Os vídeos que circulam na internet mostram os policiais discutindo com moradores e depois mirando na altura da cintura das pessoas. Nesse dia, ao menos cinco pessoas saíram feridas por bala de borracha.</p>



<p>Adrenya Roberta, de 23 anos, é uma das jovens que estavam na festa dos trabalhadores para se divertir e também é comerciante. No dia do evento, não estava na condição de vendedora, mas viu os amigos lamentarem as perdas dos produtos. </p>



<p>“É uma coisa triste, porque a gente não tem como devolver os produtos. Quando você tem algum conhecimento até pega o produto e, se não vender, devolve depois. Às vezes a gente tem inteligência e o nome de fazer isso, mas muita gente não tem. Sem falar da diversão, porque já é difícil acontecer uns eventos desses. Não é algo que acontece toda semana incomodando a redondeza”, afirma a comerciante.</p>



<p>Esses são exemplos de como os bailes de rua já são criminalizados, mas caso os projetos da extrema-direita sejam aprovados, os promotores de eventos de brega funk temem que o acesso à cultura feita pelos próprios moradores diminua ainda mais. </p>
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		<title>Bacharéis de Direito condenados por racismo não poderão mais se inscrever na OAB</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 18 Jun 2025 17:41:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[advocacia]]></category>
		<category><![CDATA[OAB]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) aprovou, por unanimidade, uma súmula que proíbe a inscrição de pessoas condenadas por crime de racismo nos quadros da instituição. A medida foi oficializada na última segunda-feira, 16 de junho, durante sessão realizada na sede da OAB, em Brasília. A relatora da proposta foi a [&#8230;]</p>
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<p>O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) aprovou, por unanimidade, uma súmula que proíbe a inscrição de pessoas condenadas por crime de racismo nos quadros da instituição. A medida foi oficializada na última segunda-feira, 16 de junho, durante sessão realizada na sede da OAB, em Brasília.</p>



<p>A relatora da proposta foi a conselheira federal pernambucana Shynaide Mafra Holanda Maia. Durante a votação, ela ressaltou que &#8220;a prática de racismo é incompatível com a idoneidade moral exigida para o exercício da advocacia, conforme estabelece o Estatuto da Advocacia (Lei nº 8.906/94)&#8221;. Para a conselheira, a decisão representa um avanço significativo na defesa da ética, dos direitos fundamentais e da dignidade da profissão.</p>



<p>A nova súmula se soma a outras já editadas pelo Conselho Federal da OAB, que também tratam da inidoneidade moral. Entre elas estão a Súmula 9/2019, que veda a inscrição de condenados por violência contra a mulher; a Súmula 10/2019, relativa à violência contra crianças, adolescentes, idosos e pessoas com deficiência; e a Súmula 11/2019, que trata de violência contra pessoas LGBTI+.</p>



<p>A proposta da súmula foi apresentada pela seccional da OAB no Piauí, por meio do presidente Raimundo Júnior, do conselheiro federal Ian Cavalcante e da secretária-geral Noélia Sampaio. A fundamentação tem respaldo na jurisprudência consolidada do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que reconhecem a gravidade do crime de racismo e vedam, por exemplo, a possibilidade de acordos como o de não persecução penal nesses casos.</p>



<p>Durante a sessão, a OAB prestou homenagem a Esperança Garcia, mulher negra, piauiense, reconhecida como a primeira advogada do Brasil.</p>
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		<title>“Toda e qualquer pessoa pode e deve participar da construção da comunicação antirracista”, defende a escritora Midiã Noelle</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Apr 2025 20:30:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[mídia e comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[mídia e democracia]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Construção de sentido é comunicação”. Tendo a certeza dessa máxima, e a fim de fortalecer os estudos sobre a comunicação como um direito humano fundamental, a comunicadora e pesquisadora Midiã Noelle lançou o seu livro de estreia Comunicação Antirracista: um guia para se comunicar com todas as pessoas, em todos os lugares, publicado pela Editora [&#8230;]</p>
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<p>“Construção de sentido é comunicação”. Tendo a certeza dessa máxima, e a fim de fortalecer os estudos sobre a comunicação como um direito humano fundamental, a comunicadora e pesquisadora Midiã Noelle lançou o seu livro de estreia <em>Comunicação Antirracista: um guia para se comunicar com todas as pessoas, em todos os lugares</em>, publicado pela <a href="https://www.planetadelivros.com.br/livro-comunicacao-antirracista/413150" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Editora Planeta</a>.</p>



<p>Na obra, a jornalista baiana convida os leitores a refletir sobre o poder da comunicação na construção, desconstrução e reconstrução de um imaginário social que durante séculos desumanizou os corpos negros colocando-os em um lugar de vulnerabilidade constante. Com base em sua experiência pessoal e profissional, Midiã Noelle traz um olhar sensível sobre os processos comunicacionais e defende a importância da comunicação antirracista no cotidiano da população e em todos os âmbitos, não apenas no jornalismo, na publicidade ou redes sociais.</p>



<p>A comunicadora é fundadora do<a href="https://www.instagram.com/commbne/"> Instituto Commbne</a>, organização que fomenta a comunicação e a justiça racial com atuação em diversas áreas e especializada em temas como negritude, direitos humanos e justiça de gênero. Midiã também foi uma das responsáveis pela redação e implementação do Plano Nacional de Comunicação pela Igualdade Racial na Administração Pública Federal, contratada pela Unesco.</p>



<p>Em conversa com a Marco Zero, Midiã Noelle defendeu as estratégias antirracistas para promover uma sociedade mais justa e inclusiva. </p>



<p>Marco Zero<strong> &#8211; Tendo a comunicação antirracista como mote principal, o seu livro propõe uma comunicação para todas as pessoas e não apenas para pessoas negras. Como você enxerga o papel de todos os agentes da sociedade ao indicar estratégias para promover essa comunicação antirracista?</strong></p>



<p><strong>Midiã Noelle</strong> &#8211; Quando eu construí esse livro foi na lógica de que toda e qualquer pessoa tem que ter no seu ato de comunicar a obrigação do enfrentamento ao racismo. Independente dessa pessoa ser negra ou não negra, toda e qualquer pessoa deve falar contra o racismo. E é a comunicação, a construção da linguagem, a construção do sentido, a percepção mesmo da construção da comunicação no dia a dia que possibilita às pessoas o enfrentamento às iniquidades ou o reforço delas.<br><br>Então, a gente reconhece que toda e qualquer pessoa pode e deve participar da construção da comunicação antirracista. É isso que a própria Djamila Ribeiro reforça com o conceito de “lugar de fala”, um conceito que muitas vezes é utilizado de forma equivocada por pessoas que querem se isentar na participação de um debate sobre determinado tema, quando na verdade todo mundo tem, sim, seu lugar de fala nos debates. </p>



<p>O meu livro, que possui como título <em>Comunicação Antirracista, um guia para todas as pessoas em todos os lugares</em>, tem um recorte específico para que uma pessoa que é adolescente, estudante de ensino médio, em qualquer idade, consiga entender o que está escrito, justamente por ser um livro construído de uma forma dialogada. A obra vai sendo construída de uma forma cadenciada, que vem do legado familiar, passando por uma perspectiva histórica, política, e também do dia a dia, da nossa atuação enquanto ser humano, entendendo a comunicação como direito humano fundamental. Então, se a comunicação é direito humano fundamental, a gente tem que usar esse direito para promover outros direitos também, para enfrentar violências e desigualdades.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">Se a comunicação é direito humano fundamental, a gente tem que usar esse direito para promover outros direitos também, para enfrentar violências e desigualdades.</p>
</div>


<p><strong>O livro traz um olhar cuidadoso do cotidiano da população negra e acredito que isso vem muito do seu lugar de comunicadora negra que passou por experiências diversas ao longo da vida pessoal e profissional. Como isso é explorado no livro?</strong></p>



<p>O livro tem um recorte racial muito focado na perspectiva da população afro-brasileira, mas que traz também uma lógica da diáspora negra, da afro-diáspora, entendendo as consequências do processo de escravização de pessoas negras e trazendo esse olhar para outros países também. Eu sei que as realidades do Brasil se assemelham muito com o que acontece nos Estados Unidos, por exemplo, dentro dessa lógica de países de diáspora. Então, são situações que também impactam a vida de pessoas em todo o mundo.</p>



<p>Por isso, qualquer pessoa que ler esse livro vai conseguir também entender a importância de significar a humanidade no olhar da população global mesmo. A importância da gente reconstruir esse olhar, reconsiderando a população negra de fato humana, já que a gente, há pouco tempo atrás, quase 140 anos apenas, éramos tidos como objetos, coisas, e o imaginário construído ao longo de quase 400 anos do processo de escravização no mundo foi muito violento, e nos tirou do lugar do que é ser humano mesmo, das pessoas nos enxergarem como o sujeito de direito. Por isso, nós precisamos resgatar essa humanidade porque somos pessoas com nome, sobrenome, história, memória e sentido. Então, é um livro que eu quero que toque as pessoas, sabe?</p>



<p>É um livro que eu escrevo de uma forma para que todo mundo se identifique. Por isso que eu começo falando do meu pai e da minha família no livro, porque eu sou uma mulher hoje candomblecista, mas que eu venho de uma origem evangélica e eu quero que as pessoas se conectem e entendam que é possível praticar, ter práticas antirracistas no âmbito da comunicação em tudo que é feito. Meu pai tinha isso comigo sem saber. Minha família tinha isso comigo sem saber, porque nós éramos uma família negra do bairro da Liberdade, em Salvador, que é um dos territórios mais pretos que existem no mundo, com quase a toda sua totalidade composta por pessoas negras. </p>



<p>Salvador é o lugar mais preto, de fato, fora do continente africano. Então, eu coloco o Brasil nesse lugar, no contexto da afrodiáspora. E meus pais estavam me educando ali, naquele contexto. Quando eu via meu pai editar o filme, quando eu via meu pai tirar foto, quando eu via meus tios também serem fotógrafos, quando eu via meu tio que trabalhava com tecnologia também, tudo aquilo é construção de sentido, e construção de sentido é comunicação.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">Comunicação é estratégia, na verdade. Ela não é ferramenta, ela é estratégia e ela é o que, de fato, transforma o tempo. </p>
</div>


<p>As pessoas precisam tirar a comunicação desse lugar ferramental, de card, de texto, do noticioso, e entender que a comunicação é estratégia, na verdade. Ela não é ferramenta, ela é estratégia e ela é o que, de fato, transforma o tempo. Comunicação é o próprio tempo. Então, é a partir da comunicação que a gente consegue impactar as pessoas. Algumas pessoas dizem que esse livro é uma arma de enfrentamento ao racismo. Eu odeio isso, porque eu não gosto de armas, mas se for para ser armamentista, para defender direitos, eu, como uma boa filha de Ogum, estou pronta para a batalha.</p>



<p><strong>Por que é importante pensarmos a comunicação antirracista não apenas voltada aos profissionais da área, mas também para toda a sociedade? De que forma isso pode contribuir para a construção de um imaginário coletivo pautado no antirracismo?</strong></p>



<p>Eu costumo dizer que toda pessoa comunica. Nem todas as pessoas são profissionais de comunicação, mas toda pessoa comunica. Apesar de ser jornalista, diplomada e tudo mais, eu defendo também a comunicação que não é diplomada. Eu não posso me colocar em um lugar de superioridade a uma pessoa que é de uma comunicação periférica, de um território, de uma comunicação popular, que participa de uma mídia negra, de um espaço midiático, e que não tem um diploma na mão, mas que está ali também na construção do processo de sentido nessa guerra de narrativa para dar respeito ao seu espaço, ao seu território. Isso inclui também os influenciadores.</p>



<p>Claro que a gente precisa ter uma série de marcos, regulamentos, acompanhamento e um olhar enquanto política pública para todo mundo que está exercendo algum tipo de trabalho no âmbito da comunicação, mas entendendo também que não se deve censurar as pessoas. Quando eu falo na lógica de política pública é de combate à desinformação, de assegurar direitos aos defensores de direitos humanos no âmbito da comunicação, porque a gente sabe que pessoas defensoras de direitos humanos na comunicação sofrem muito em seus territórios, morrem também, são vítimas da violência fatal no dia a dia.</p>



<p>Entendo a comunicação como educação, porque a gente precisa entender os nossos direitos, quais são os marcos, quais são as nossas referências e quem veio antes da gente. Então, o processo do estudo em comunicação para mim é fundamental para as pessoas também saberem um pouco da memória e da história. Por exemplo, a gente tinha o Nego Bispo. O Nego Bispo, um homem quilombola, era um grande comunicador, ele era um escritor, um pensador, e quando ele falava em cosmovisão, ele falava sobre o além, sobre aquilo que não está palpável e tangível aos nossos olhos. E isso também é muito importante entender quando eu falo de comunicação, porque para mim comunicação é orixá, é exu e é o tempo. Por isso, a gente tem que despertar também aquelas pessoas que não são diplomadas, mas que estão fazendo uma transformação muito grande através da comunicação. Apesar de defender a importância do diploma, eu também defendo as pessoas que não têm diploma no reconhecimento da atuação do seu trabalho. Porém, isso requer cuidados.</p>



<p>Os influenciadores são extremamente fundamentais, mas também tem a necessidade desses influenciadores entenderem os espaços que eles ocupam. E, se eles ocupam esses espaços e trabalham de graça para esses espaços que são as plataformas digitais, também tem que fazer uma cobrança dessas <em>big techs </em>que estão aí cada vez mais atuando contra a diversidade. Então a gente precisa também trazer esse olhar para os influenciadores. Entender quem são essas pessoas, entender o que é o produto que eles constroem. E claro, todo mundo tem o direito de produzir o que for e o que quiser, mas se for no tom de violência, de desinformação, de cultura do ódio, aí de fato não pode ser permitido.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Verena Baptista/Divulgação</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Como você avalia o tratamento dado pela administração pública à comunicação antirracista, tanto no atual governo quanto ao longo da história do Brasil? Na sua opinião, o que ainda falta para que essa pauta ganhe mais força? </strong></p>



<p>Eu acho que a gente precisa ainda qualificar um outro olhar para a comunicação, que é o olhar da comunicação como direito. A gente sabe que nos últimos anos tivemos que lidar com a ausência de Conselhos, o não impulsionamento da realização de novos Conselhos de Comunicação, porque as pessoas não conseguem compreender que a comunicação é política, elas colocam a comunicação num lugar ainda muito do tarefeiro.</p>



<p>A gente não pode pensar, por exemplo, em educação midiática sem pensar em letramento digital e letramento racial. É uma triangulação, não tem como. Se a gente for falar que a educação midiática é importante  e, para mim, falar em educação midiática é falar em comunicação como um todo, a gente tem que falar que a educação midiática só vai ser de fato efetiva quando chegar nas escolas.</p>



<p>No que diz respeito a educação midiática, por exemplo, é necessário trazer uma política atrelada a discussão da perspectiva racial e fortalecer a implementação da lei 10.639, que é a lei da Escola da Cultura Afro-Brasileira e é muito importante, mas existe há mais de 20 anos e não foi devidamente implementada, e a partir da implementação dessa lei a gente pode pensar na comunicação antirracista, na construção desse imaginário antirracista dentro das escolas. </p>



<p>Por isso, é fundamental pensar a comunicação em outro lugar, é pensar no campo da tecnologia também, a gente sabendo que as plataformas digitais, as <em>big techs</em>, elas se disfarçam de empresas de tecnologia sendo empresas de comunicação, na verdade. </p>



<p><strong>Na sua visão, de que forma a comunicação antirracista deve ser construída no Brasil? O que você considera fundamental para que ela aconteça de maneira efetiva?</strong></p>



<p>Quando eu falo de comunicação na lógica antirracista, eu falo de uma lógica antirracista que seja antiproibicionista, antipunitivista e anticapacitista, porque a lógica do discurso das guerras às drogas, ela segue sendo muito forte no Brasil e naturalizando a violência contra pessoas negras, e não é a guerra às drogas, é a guerra contra as pessoas negras, atrelado a um histórico que vem do processo de desumanização dos nossos corpos. Então, se a gente não olha para a comunicação de uma maneira estratégica em todos os âmbitos do governo, não adianta, de fato.</p>



<p>E não só para o governo, fora dos espaços de governo também. O nosso movimento negro precisa respeitar e reconhecer a comunicação negra feita nesse país, não apenas como espaço noticioso, mas também como um grupo que faz política. As pessoas que trabalham no espaço de comunicação, elas não estão ali só para fazer o dia a dia, elas estão ali para pensar politicamente como fortalecer a pauta do enfrentamento ao racismo, do reconhecimento da dignidade humana das pessoas negras e da promoção de direitos na vida dessas pessoas. Então, a comunicação é revolução. E se a gente não tiver uma comunicação que entenda as questões raciais no Brasil e no mundo, a gente vai acabar reforçando as violências.</p>



<p>Durante muito tempo eu trabalhei com a população em situação de rua e assim eu entendi o tanto que o racismo pode ser cruel. E a rua, para mim, também é a construção de afeto, é a construção de respeito. A gente tem que pedir licença para ocupar a rua, porque tem coisas negativas, mas também coisas muito positivas do âmbito do cuidado. A rua é comunicação, é movimento. Mas as pessoas que vivem em situação de rua são invisibilizadas e violentadas constantemente. Então, quando falo do reconhecimento da humanidade do outro, eu estou falando desse tipo de pessoa, dessa população específica. Se a Simone de Beauvoir fala que a mulher é o outro do outro, e a Grada Kilomba fala que a mulher negra é o outro do outro do outro, eu diria que pessoas nesses cenários, nessa triangulação, que vivem em contextos de extrema vulnerabilidade, seja por conta do contexto da guerra às drogas, seja por conta do contexto capacitista, são o outro do outro do outro do outro.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">O nosso movimento negro precisa respeitar e reconhecer a comunicação negra feita nesse país.</p>
</div>


<p>É um lugar ainda não visto e que a gente precisa olhar, entender e evidenciar. Portanto, a comunicação antirracista ela precisa ser antipunitivista, antiproibicionista e anticapacitista para que a gente possa entender que o buraco é mais embaixo. E a população negra também precisa fazer uma autoreflexão sobre como ela pauta a comunicação, não só no movimento negro e no movimento feminista negro no Brasil, mas em todos os países da diáspora negra, sobretudo, aqueles que foram impactados pelo tráfico transatlântico durante a escravização. </p>



<p><strong>Como você acredita que pessoas negras e não negras podem contribuir, a partir de suas próprias realidades e lugares de fala, para a construção de uma sociedade antirracista?</strong></p>



<p>Essa coisa de nos colocar no lugar do outro, eu acho que isso é muito importante. Por exemplo, uma amiga branca recentemente falou pra mim que queria fazer algo sobre questões sociais, pesquisar pessoas negras e tal. Aí eu perguntei para ela “por que você não estuda você mesma, pessoa branca? Porque você também não se coloca nesse lugar de entender porque é uma necessidade de um estudo sobre o outro?”</p>



<p>Há uma lógica de normalidade, de normatização de que ser branco é o normal, e o ser negro é que tem que ser investigado, pesquisado. Nessa lógica do pacto narcisístico da branquitude, os brancos se colocam no lugar de superioridade.</p>



<p>Quando a gente se pauta, a gente se pauta também no entendimento de que algumas dores só a gente vai conseguir compreender na lógica do que a gente sente, então ninguém melhor do que a gente para falar e expor. Isso não invalida que outras pessoas falem, muito pelo contrário, todo mundo pode pesquisar e falar sobre qualquer tema e aí, por exemplo, essa coisa do identitarismo para mim ela é muito fraca porque a vida ela se intersecciona por mais que a gente não queira.<br><br>Então, pessoas brancas podem ser pessoas brancas que são LGBTs e essas interseções vão trazer para elas discursos que vão ser feitos a partir das suas realidades. Por isso não existe a possibilidade de um identitarismo real, é uma lógica que não faz sentido, porque o mundo é interseccional, ele acontece no âmbito da diversidade. Pessoas brancas não são simplesmente pessoas brancas, sempre vai ter uma pessoa branca que tem uma origem latina, estrangeira, sempre vai ter uma mulher, e por mais que seja uma mulher, pode não atender a uma lógica heteronormativa. Então assim, as pautas se misturam.</p>



<p>Por isso eu acho que a gente precisa entender que a comunicação é fundamental para desconstruir, construir e reconstruir sentidos, porque tudo é muito mutável no dia a dia e as pessoas têm suas dinâmicas culturais, territoriais e etc. Mas a gente não pode perder o nosso direcionamento que é o da produção de direitos às pessoas, a garantia da declaração universal dos Direitos Humanos para todas as pessoas em todos os lugares, então, eu tento construir uma contranarrativa a partir daquilo que tem sentido, e convido os leitores do meu livro a fazer o mesmo. </p>
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		<title>Maiores vítimas de despejo, mulheres negras podem levar até 184 anos para ter casa própria</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Apr 2025 17:36:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[Habitat Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[moradia]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres negras]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
		<category><![CDATA[racismo estrutural]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Hoje em dia eu me encontro doente, com meu psicológico doente, porque eu não consigo esquecer o que passei ali”. É assim que Givanilda Lopes relembra a ação de despejo que a obrigou a deixar a casa em que viveu por 33 anos. Ex-moradora da Vila Esperança, no bairro do Monteiro, dona Gil &#8211; como [&#8230;]</p>
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<p>“Hoje em dia eu me encontro doente, com meu psicológico doente, porque eu não consigo esquecer o que passei ali”. É assim que Givanilda Lopes relembra a ação de despejo que a obrigou a deixar a casa em que viveu por 33 anos.</p>



<p>Ex-moradora da Vila Esperança, no bairro do Monteiro, dona Gil &#8211; como era conhecida na comunidade &#8211; lutou até o último dia por uma indenização justa, mas não recebeu o que esperava. A casa em que morava na Zeis Vila Esperança foi construída por ela para abrigar sua família: a irmã, seu ex-marido e seus dois filhos. Ela ergueu e reformou o imóvel com as próprias mão. Literalmente. </p>



<p>Agora, um ano após ter sido despejada para dar lugar às vias de acesso à ponte Engenheiro Jaime Gusmão, dona Gil possui uma nova moradia, mas ainda convive com a insegurança.“Eu comprei uma casinha no Alto do Mandú, com a ajuda de uma pessoa, por que a indenização que eu recebi da prefeitura foi muito baixa, e não deu pra eu comprar em outro lugar.<strong> </strong>Então, eu ainda não consegui comprar uma casa com documento, comprei uma casa com termo de compra e venda só. Agora eu estou sofrendo pra fazer a documentação, pra ver se eu ganho o título de posse da casa”, conta a dona de casa.<br><br>A mudança de ambiente também tem trazido transtornos para quem estava acostumada a conviver com uma vizinhança tranquila: “eu já me aperriei muito aqui, com zoada de vizinho, com jogo de bola na minha porta. Um ano que eu tô morando aqui e já me aperriei muito”. E além dos transtornos psicológicos enfrentados desde a desapropriação e demolição de sua casa, o caminho para sua nova residência é cheio de ladeiras, o que agrava as dores causadas pela hérnia de disco.</p>



<p>O que se passou com os moradores da extinta Vila Esperança definem o que o relatório <em>Sem moradia digna, não há futuro </em>da Habitat para a Humanidade Brasil define como um “despejo invisibilizado”, marcado por remoções forçadas, sem planejamento e ausência de alternativas dignas e seguras de moradia. Sem a garantia da posse e submetidas a obras públicas que ignoram a escuta comunitária, mulheres negras seguem sendo as maiores vítimas do déficit habitacional no Brasil.  </p>



<p>De acordo com os dados da pesquisa que tem o objetivo de expor as desigualdades de raça, gênero e classe no acesso à moradia, mesmo com emprego estável e vivendo nas condições mais favoráveis possíveis, uma mulher negra levaria 184 anos para comprar uma casa própria em uma favela no Brasil. </p>



<p>O estudo analisa dois aspectos fundamentais do direito à moradia a partir da perspectiva das mulheres: a segurança da posse (proteção contra despejos e remoções forçadas) e o direito à água, saneamento e higiene. As informações foram reunidas ao longo de cinco anos em 106 comunidades populares, favelas e ocupações urbanas em capitais e regiões metropolitanas. Confira o <a href="https://habitat-brasil.rds.land/sem-moradia-digna-nao-ha-justica-de-genero" target="_blank" rel="noreferrer noopener">relatório completo no link</a>. </p>



<h2 class="wp-block-heading">Déficit habitacional tem raça e gênero</h2>



<p>Segundo o relatório <em>Sem moradia digna, não há futuro </em>da Habitat para a Humanidade Brasil, 62,6% das famílias em situação de déficit habitacional são chefiadas por mulheres. São mães solo, cuidadoras, trabalhadoras informais que, com salários baixos, enfrentam o dilema cotidiano entre comer ou pagar o aluguel. Essa realidade, denominada de “feminização do déficit habitacional”, reflete o peso do trabalho não remunerado, a falta de renda formal e a sobrecarga do cuidado, fatores que atingem desproporcionalmente as mulheres, sobretudo as mulheres negras.</p>



<p>“A conta não fecha”, afirma o estudo ao mostrar que, mesmo uma mulher negra com renda média de R$2.745,76 e despesas básicas reduzidas ao mínimo, só conseguiria economizar R$31,62 por mês. Nesse ritmo, levaria quase dois séculos para que essa mulher conseguisse comprar um imóvel avaliado em R$69.828,57, valor médio das casas nas maiores favelas brasileiras.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/04/despejo2.jpg" alt="O quadro apresenta uma análise financeira detalhada de uma mulher com um rendimento médio mensal de R$2.745,76. Ele inclui os principais gastos dela: Aluguel: Consome 30% da renda (R$823,73); Cesta básica: R$714,65; Custo com 1 criança até 18 anos: Representa 30% da renda (R$823,73); Mobilidade: 11% da renda (R$302,03); Comunicação: R$50,00. Após todos esses gastos, a pessoa tem uma sobra de R$31,62 por mês. Com essa quantia, seria necessário 184 anos (ou cerca de 7 gerações) para comprar um imóvel de R$69.828,57. Contudo, com o auxílio do Programa Bolsa Família, o tempo reduziria para 28 anos." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Dados da pesquisa Sem moradia digna, não há futuro
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação/Habitat Brasil</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading">Despejos, violência e ausência de políticas públicas</h3>



<p>Além da exclusão econômica, as mulheres também são as principais vítimas de remoções forçadas, muitas vezes associadas a processos judiciais, obras públicas ou ações de milícias e do crime organizado. Desde 2020, quase um milhão de mulheres e meninas foram despejadas ou vivem sob ameaça de despejo, de acordo com dados da Campanha Despejo Zero, iniciativa que colabora com o relatório.</p>



<p>A violência doméstica também é uma face cruel dessa realidade: muitas mulheres são forçadas a abandonar seus lares para escapar de relacionamentos abusivos, entrando diretamente para as estatísticas do déficit habitacional.</p>



<p>A situação é agravada por projetos de lei que criminalizam a luta por moradia. A Campanha Despejo Zero já identificou pelo menos 30 Projetos de Lei (PLs) em tramitação que propõem medidas como aumento de penas por ocupações, criação de cadastro de “invasores” e até a exclusão de pessoas sem moradia de concursos públicos ou programas sociais como o Bolsa Família.</p>



<p>Apesar das adversidades, são também as mulheres que lideram os movimentos por moradia em todo o país. Em ocupações urbanas e rurais, estão à frente da gestão coletiva, das lutas jurídicas e das ações de resistência cotidiana. “Elas constroem, dia após dia, um país possível”, afirma Raquel Ludermir, gerente de Incidência Política da Habitat Brasil.</p>



<p>“Sem moradia digna, as mulheres têm pagado um preço alto – que custa seu tempo de vida, sua saúde física e mental, a possibilidade de estudar, trabalhar, descansar e sonhar com um futuro melhor, um futuro mulher”, conclui Raquel.</p>



<p>O relatório também alerta para a ineficácia das políticas públicas atuais. De acordo com a pesquisa, a média de tempo de espera no cadastro habitacional é de 7,7 anos, muito além dos 12 a 24 meses previstos oficialmente. Diante de tantas adversidades, para milhares de famílias, a moradia digna continua sendo apenas uma promessa distante.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/04/despejos.jpg" alt="O quadro apresenta informações sobre pessoas afetadas por despejos e remoções forçadas, divididas em quatro categorias: Quadro no canto superior esquerdo tem fundo preto e destaca o número total de pessoas afetadas por despejos e remoções forçadas: 1.524.556 pessoas. Quadro no canto superior direito tem fundo roxo e foca especificamente nas mulheres afetadas: 938.734 mulheres. Quadro no canto inferior esquerdo: Fundo vermelho, mostrando o impacto nas crianças: 267.539 crianças. Quadro no canto inferior direito: Fundo laranja, destacando o número de pessoas idosas afetadas: 262.845 idosos. Todos os quadros possuem o logotipo da organização DESPEJO ZERO." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Dados levantados pela Campanha Despejo Zero
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução/Campanha Despejo Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p></p>
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		<title>Com &#8220;Reflexos da Dignidade&#8221;, Blogueiras Negras celebra mulheres negras no Museu da Abolição</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Mar 2025 18:20:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[blogueiras negras]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A exposição Reflexos da Dignidade, Mulheres Negras e Bem Viver estreia nesta quinta-feira (13), às 19h, no Museu da Abolição. Com entrada gratuita, o evento reúne 13 obras visuais de cinco artistas brasileiras que exploram a identidade e a resistência da mulher negra na sociedade. Fruto de três anos de pesquisa dentro do projeto Aliança [&#8230;]</p>
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<p>A exposição <em>Reflexos da Dignidade, Mulheres Negras e Bem Viver</em> estreia nesta quinta-feira (13), às 19h, no Museu da Abolição. Com entrada gratuita, o evento reúne 13 obras visuais de cinco artistas brasileiras que exploram a identidade e a resistência da mulher negra na sociedade. Fruto de três anos de pesquisa dentro do projeto <em>Aliança Negra: A Outra Face da Violência</em>, a exposição propõe um olhar inovador sobre a arte como ferramenta de enfrentamento ao racismo e ao sexismo.</p>



<p>&#8220;Enfrentar a violência racial exige ir além de suas expressões mais evidentes. É preciso desafiá-la também nos campos simbólico, imagético e discursivo. Uma perspectiva que também orienta nossa atuação como mídia negra feminista&#8221;, destaca Lays Araujo, Mobilizadora Estratégica do Blogueiras Negras. A construção da exposição partiu de uma pesquisa com dez organizações sociais e do fortalecimento de parcerias estratégicas.</p>



<p>Para além da contemplação artística, a exposição convida à reflexão sobre novas formas de bem viver, ressignificando narrativas de memória, cuidado e afeto para a população negra. O evento terá uma programação especial ao longo de sua duração, incluindo rodas de conversa e atividades interativas.</p>



<p>A mostra é uma iniciativa do <a href="https://blogueirasnegras.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Coletivo Blogueiras Negras</a>, com apoio do Fundo Elas+, e conta com a curadoria é assinada por Wellington Silva, especialista em economia criativa, e conta com a colaboração dos historiadores Isabelle Ferreira (UFPE/UFF), Samuel Santana (UFPE) e pelo diretor de arte Sandir Costa (UFRPE). Entre as expositoras estão Maiana Oliveira (BA), Mavinus (PE), Priscila Ferraz (PE), Yane Mendes (PE) e a Coletiva Presentes Futuras (BR). Além das obras, o público poderá conferir instalações e peças do Acervo de Cultura Material Africana do Museu da Abolição.</p>
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		<title>&#8220;Se as pessoas aprendem a ser racistas, podem aprender a não ser racistas&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 Nov 2024 14:29:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[audiovisual]]></category>
		<category><![CDATA[Flávio Muniz]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
		<category><![CDATA[YouTube]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Você é uma mulher negra entrevistando um homem negro, em que momento histórico isso seria possível?”. O comentário feito pelo mestre em História e criador do canal do Youtube “Caçador de Histórias”, Flávio Muniz, durante a entrevista cedida a Marco Zero, reflete o que inspirou e o que motiva o intelectual a produzir conteúdo para [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/se-as-pessoas-aprendem-a-ser-racistas-podem-aprender-a-nao-ser-racistas/">&#8220;Se as pessoas aprendem a ser racistas, podem aprender a não ser racistas&#8221;</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>“Você é uma mulher negra entrevistando um homem negro, em que momento histórico isso seria possível?”. O comentário feito pelo mestre em História e criador do <a href="https://www.youtube.com/@HistoriadaAfrica">canal do Youtube “Caçador de Histórias”</a>, Flávio Muniz, durante a entrevista cedida a Marco Zero, reflete o que inspirou e o que motiva o intelectual a produzir conteúdo para a plataforma de <em>streaming</em>.</p>



<p>Natural de Uberlândia, em Minas Gerais, Muniz sempre se interessou por produções audiovisuais que contavam histórias de grandes personalidades negras e, a partir disso, sentiu necessidade de buscar mais conhecimento sobre a trajetória da população negra e africana no mundo. Isso o levou a idealizar  o canal de vídeos que alcançou 149 mil inscritos. Professor &#8211; e, agora, estudante de Direito &#8211; iniciou seus estudos em História em 2010 aos 34 anos. Logo, o Youtube tornou-se sua ferramenta para compartilhar conhecimentos.</p>



<p>A produção dos vídeos era uma atividade secundária na vida de Flávio Muniz, que se dedicava a dar aula. No entanto, assim como bilhões de pessoas pelo mundo, o professor viu sua vida mudar completamente na pandemia da covid-19. Após passar 17 dias entubado, Muniz enfrentou a morte do seu filho mais velho, vítima da covid aos 24 anos. A dor deu origem ao livro <em>O Diário de um Navegante na Covid-19</em>.</p>



<p>Com o trauma, seguido da descoberta de uma fibrose pulmonar, Muniz decidiu se dedicar integralmente à produção de conteúdo no YouTube por sentir a necessidade de deixar como legado seus conhecimentos sobre a História da África e da população negra no mundo.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>No canal <strong>Caçador de Histórias</strong> é possível encontrar os vídeos divididos em cinco categorias: Sociedade; África; História da África; Povo Africano; e Religião. Os conteúdos dos vídeos são escolhidos por Muniz de acordo com a sua especialização como pesquisador de História da África e também atendem a uma demanda do próprio público do canal que enviam questões e sugerem temas.</p>
        </div>
    </div>



<p></p>



<p>Ao contrário do que mostram algumas tendências do mercado digital, ao afirmar que a população tem consumido vídeos cada vez mais curtos nas redes sociais, o objetivo do “Caçador de Histórias” é fazer do Youtube uma sala de aula que ensina as pessoas como não serem racistas através de evidências históricas que explicam preconceitos enraizados na sociedade. Afinal, para Flávio Muniz, “se as pessoas aprendem a ser racistas, elas podem aprender a não ser racistas”, e isso requer a produção e o consumo de conteúdos densos, realizados através de longas pesquisas de materiais cientificamente embasados.</p>



<p>Em entrevista a Marco Zero, o professor de história falou sobre as produções audiovisuais, a trajetória acadêmica e as estratégias que utiliza para garantir o crescimento de inscritos e visualizações e inscritos em seu canal.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/11/flaviomuniz.png" alt="Foto de Flávio Muniz, homem negro de meia idade, de óculos, usando camisa branca de mangas compridas e gravata escura com listas diagonais. Ele foi fotografado em um auditório bastante iluminado, de paredes claras e quase vazio." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Muniz é professor, doutorando em História e também estuda Direito
</p>
	                
                                            <span>Acervo Pessoal </span>
                                    </figcaption>
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<p>Marco Zero<strong> &#8211; Lembra quando e como começou a se interessar por estudar História, sobretudo a História da África?</strong></p>



<p><strong>Flávio Muniz</strong> &#8211; É uma demanda que já vinha desde a minha infância, desde a minha adolescência, devido ao desconhecimento das nossas próprias histórias. Eu sou um homem da década de 1970, então eu nasci em um Brasil onde todos os estereótipos racistas possíveis nos afetavam e nos atravessavam de diversas formas. A gente cresceu dentro do imaginário da população negra excluída, nós olhávamos para os imaginários nas televisões, nas mídias, e normalmente não nos enxergávamos ali, porque a presença do negro e da negra ou era como doméstica, trabalhadores domésticos, ou eram papéis subservientes, serviçais, ou novelas com muitos escravizados. Então essas coisas já me afetavam desde a infância.</p>



<p>No início dos anos 1990 eu tive contato com um filme muito bom do Spike Lee, que é <em>Malcom X</em>, e também um outro filme que foi <em>Sarafina</em>, com a Whoopi Goldberg, onde se conta a resistência dos jovens negros no período do <em>apartheid</em> na África do Sul, na década de 1970. Esses dois filmes me impressionaram bastante sobre a luta das pessoas negras, tanto na África do Sul segregada quanto nos Estados Unidos, com o Malcom, então essas personalidades começaram a me atrair, me chamar a atenção. E eu percebi que as grandes referências negras que eu tinha na televisão e no cinema vinham de fora e não de dentro do Brasil. Essa presença do negro nas mídias televisivas como protagonista normalmente vinha de fora, ainda que sejam em lutas, vinha de fora e não de dentro do Brasil.</p>



<p>Então, o motivo pelo qual estou no YouTube vem lá de trás, acho que vem desde a minha infância, da minha história de vida. Mas o motivo pelo qual eu engajei e foquei nisso está nos últimos três anos da minha vida, com a pandemia da covid-19, e tem a ver com o que aconteceu com a população negra no país durante este período. Desde então, acho que a gente precisa entender que o racismo mata mesmo, literalmente, e por isso nós precisamos tratar dos nossos problemas.O nosso papel é falar de questões raciais e ele é urgente, e agora eu tenho uma história de uma morte em minha casa, e essa questão racial teve um impacto grande para que isso acontecesse.</p>



<p><strong>Como você decidiu iniciar o trabalho no Youtube?</strong></p>



<p>Em 2016, eu já tinha me formado em História, e já estava me preparando para o mestrado quando eu me interessei pelo YouTube, porque para mim é uma das maiores revoluções tecnológicas. O YouTube não é uma rede social, é uma ferramenta de busca. Um dos primeiros vídeos que eu fiz no canal, lá em 2016, foi justamente falando sobre ter poucos negros no YouTube. Só que eu mesmo não tinha noção que eu estava fazendo parte dessa história, desse processo. Eu analisei naquela época justamente sobre por que tinham poucos negros na TV, e também no YouTube, pensando o Youtube como uma nova mídia, e eu estava refletindo essa exclusão social. Foi aí que eu comecei a pensar sobre isso.</p>



<p><strong>Hoje você tem uma produção semanal no Caçador de Histórias, como você escolhe os temas dos vídeos e qual é o objetivo das produções?</strong></p>



<p>Se as pessoas aprendem a ser racistas, elas podem aprender a não ser racistas. E esse é um projeto que a gente tem: ensinar as pessoas como não serem racistas. Só que em vez de ficar dando às pessoas respostas, ensinando as pessoas fórmulas mágicas, o que eu entrego é uma história, um fundamento, e essas pessoas vão decidir como usá-las.</p>



<p>Como a gente desarticula o racismo e os estereótipos racistas? Mostrando de onde que isso veio, mostrando que isso é errado. Então, nosso formato de vídeo foi adaptado para falar de forma profunda. Eu não estou interessado em ficar enrolando as pessoas, eu quero realmente que fique profundo, eu tento pensar sempre em cada vídeo o seguinte: ‘será que eu terei uma segunda oportunidade para falar sobre isso aqui?’ Talvez não, talvez a gente nunca mais tenha uma segunda oportunidade para causar uma primeira impressão, porque a primeira impressão é aquela que fica, então eu tento dar isso em cada vídeo. Pelo menos esse foi o meu impulso no meio do ano passado, quando eu decidi trabalhar firmemente no YouTube.</p>



<p>E sobre as escolhas dos temas, como pessoa negra, eu, você, nós vivemos e vivenciamos muitas coisas, e aí, de repente, do nada, a gente chega e pensa assim, “por que isso acontece com a gente?” E isso é o gatilho dos meus interesses. Eu não me deixo pautar pelo <em>hype</em> do momento. O momento pode levar a gente a tirar conclusões precipitadas de coisas que a gente não sabe. Além disso, eu recebo muitas mensagens e escuto muitas pessoas e tiro algumas ideias dessas interações também.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;Em vez de ficar dando respostas às pessoas, ensinando fórmulas mágicas, o que eu entrego é uma história, um fundamento, e essas pessoas vão decidir como usá-las&#8221;</p>
</div>


<p><strong>Hoje em dia o Youtube tem sido bastante utilizado também por pessoas preconceituosas e conservadoras, que utilizam a plataforma para disseminar discursos de ódio. Como o senhor analisa o espaço de disputa que se dá no Youtube e a importância de ter pessoas negras também fazendo o enfrentamento?</strong></p>



<p>Tem uma coisa que eu percebi dentro da academia, que é o seguinte: mesmo as pessoas muito bem intencionadas, brancas, acadêmicas, elas estão distantes da nossa realidade. Elas falam de coisas que elas sabem de ouvir falar, mas elas não vivem isso, elas não entendem que é viver isso. Muitos deles moram em seus luxuosos condomínios fechados, vão fazer suas férias de final de ano, vão para Paris, vão para Roma. Até que dentro do país mesmo, eles são uma elite acadêmica. </p>



<p>E eu percebi que existe, infelizmente, ou por desconhecimento, má vontade, ou porque também é uma forma de racismo, uma maneira que eles também se ocupam dessa posição para simplesmente não se importar de estar em determinados lugares. E o que aconteceu? O espaço onde mais se divulgou notícias falsas foi justamente o espaço ignorado pela elite acadêmica, que é consciente politicamente, mas que se acha, muitas vezes, boa demais para estar nesses lugares. A extrema direita entendeu isso muito bem, que precisava ocupar esses lugares. Se nós tivéssemos ocupado esse lugar de igual forma, essa disputa estaria equilibrada, mas eles estavam aqui vencendo de 7 a 1, e por isso nós testemunhamos as consequências do que é a ausência nesses espaços como o Youtube.</p>



<p>Contra a desinformação, você precisa trazer informações concretas, e você vai perceber que uma coisa que eu sempre tento trazer nos meus vídeos são referências, de onde tirei essa ideia? De onde fui buscar?</p>



<p>Por exemplo, a comunidade negra não vota em pessoas negras, isso é um fato. Não tem nada a ver com inteligência, tem a ver com toda uma articulação histórica que foi feita para que nós fôssemos desarticulados como comunidade, por isso nós não conseguimos pensar coletivamente. Então, estamos lutando contra quem, na verdade? Estamos lutando contra uma ideia, contra uma ideia que foi criada sobre nós. Uma ideia que diz que nós não somos bons, uma ideia que diz que nós somos inferiores, uma ideia que diz que nós não nos entendemos, e de onde vem esse nosso desentendimento? </p>



<p>Tem um vídeo no canal que eu falo, por exemplo, do racismo internalizado. Eu fui buscar lá onde vêm as primeiras pesquisas e de que forma que a gente absorve esse racismo e muitas vezes coloca ele para fora, sabe? Isso foi internalizado e isso tem análise, tem estudos que demonstram isso. Então, quando nós começarmos a entender isso, aí nós vamos ver que não é um espaço que nós estamos disputando só com pessoas brancas, não, nós estamos disputando inclusive com uma ideia que é internalizada dentro de nós mesmos, muitas vezes, pessoas negras. Então, é um espaço de disputa que, na verdade, é um espaço de construção de identidades. Por isso eu acho que, sim, nós devemos ampliar nosso espaço de conhecimento e estamos ali disputando ideias, eu estou ali como professor e eu faço questão de dizer sempre isso, eu coloco os meus títulos em tela, está sempre lá, historiador, mestre em história social, jurista, doutorando, eu faço questão de frisar isso porque eu sei a dificuldade que foi chegar até aqui, a dificuldade que é estar aqui.</p>



<p>E tem uma outra questão, que é como o algoritmo coloca as coisas, porque as pessoas, às vezes, se preocupam muito com o racismo em 20 de novembro e 13 de maio, ou então quando acontece alguma morte, aliás, morte de pretos só importa quando é nos Estados Unidos, como foi a do George Floyd, e que realmente deve importar mesmo, nós temos que sentir isso. Mas saiu uma notícia que a polícia de São Paulo aumentou o número de mortes em 78% só em 2024, e dois terços desses mortos são pessoas negras. Não tem ninguém se manifestando, ninguém dizendo ‘vidas negras importam’, não tem nenhum punho para cima, não tem nada, silêncio, até que chegue em nossa casa, e como chegou na minha. Então, isso me faz entender que esse é um espaço de disputa não só com pessoas brancas, é contra uma ideia.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/11/Muniz-2-video.jpg" alt="A imagem mostra uma pintura intitulada No Salão de Madame 'Geoffrin', em 1755. Ela foi criada por Anicet Charles Gabriel Lemonnier e retrata uma cena de um salão literário ou filosófico do século XVIII. No salão, várias figuras estão reunidas em um ambiente luxuoso e decorado. As paredes estão adornadas com pinturas e retratos, e há muitas pessoas sentadas e conversando. Esse tipo de reunião era comum na época, onde intelectuais, escritores e filósofos se encontravam para discutir ideias e compartilhar conhecimentos." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Canal &#8220;Caçador de Histórias&#8221; posta conteúdos audiovisuais semanais
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução YouTube</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Existem alguns estudos, sobretudo na área de marketing, que afirmam que a tendência é que as pessoas consumam cada vez mais conteúdos audiovisuais curtos e seu canal parece ser um ponto fora da curva em relação a isso, já que tem crescido bastante produzido um conteúdo mais extenso. Como você explica isso?</strong></p>



<p>Tem uma questão que é a revolução tecnológica. Com o aumento do uso das TVs, de smart TVs, muito conteúdo da internet está sendo consumido na TV. Então, nós temos um exemplo, o caso dos <em>streamings</em>, você tem Disney, você tem vários outros, HBO Max, Netflix, Prime, e sabe o que é interessante? É que o YouTube percebeu isso. E o YouTube hoje já tem um grande número de pessoas que consomem o YouTube pela televisão. E quem consome na televisão, normalmente, consome um conteúdo mais denso, maior. Eu recebo depoimentos de muitos dos nossos inscritos que falam que deixam a TV ligada e ficam ouvindo o conteúdo como se fosse um podcast, outros são famílias que se reúnem para assistir o programa.</p>



<p>Além disso, eu adaptei o visual para dar um novo conceito, que eu prefiro chamar de aula, tanto que eu tento sempre reforçar isso e falo ‘na aula de hoje’, por que a aula? Porque numa aula, você consegue justificar a extensão dela, até pela necessidade do conteúdo. Então, a minha ideia é de estar dando aulas online e não necessariamente produzindo vídeos aleatoriamente online. Eu tenho um objetivo muito claro em minha mente, que é fazer um acervo de conteúdos da História da África e relacionado aos povos afrodiaspóricos.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/se-as-pessoas-aprendem-a-ser-racistas-podem-aprender-a-nao-ser-racistas/">&#8220;Se as pessoas aprendem a ser racistas, podem aprender a não ser racistas&#8221;</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Algoritmo racista explica por que conteúdo produzido por negros fatura menos no YouTube</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Nov 2024 17:41:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[algoritmo]]></category>
		<category><![CDATA[bigtechs]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 2014, aos 15 anos de idade, eu decidi parar de alisar os cabelos e iniciei o processo de “transição capilar”. Foi naquela mesma época que passei a ler mais sobre questões raciais e miscigenação no Brasil, porque até então eu não me autodeclarava uma mulher negra. Alisar os cabelos era uma forma de me [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 2014, aos 15 anos de idade, eu decidi parar de alisar os cabelos e iniciei o processo de “transição capilar”. Foi naquela mesma época que passei a ler mais sobre questões raciais e miscigenação no Brasil, porque até então eu não me autodeclarava uma mulher negra. Alisar os cabelos era uma forma de me camuflar, de pertencer à sociedade enquanto uma pessoa que podia desviar ou se esconder das práticas racistas, mas a verdade é que isso nunca aconteceu. O racismo sempre esteve presente, mesmo que eu tentasse burlá-lo apagando meus traços negróides.</p>



<p>A transição capilar passou a ser um dos assuntos mais comentados nas redes sociais em 2015. </p>



<p>Diversas meninas e mulheres utilizavam a internet para falar sobre suas experiências e incentivar que cada vez mais pessoas pudessem experimentar o processo de alisamento e deixassem seus cabelos naturais à mostra. Lembro que conhecer o trabalho da <a href="https://www.youtube.com/@NatalyNeri" target="_blank" rel="noreferrer noopener">youtuber Nátaly Neri</a> foi fundamental para que eu me sentisse à vontade para tomar a decisão de iniciar a transição capilar. Especificamente um vídeo em que ela falava sobre os diferentes tipos de cabelos cacheados e crespos, confrontando as propagandas de marcas de cosméticos que defendiam o “cacho perfeito”. Desde então, passei a acompanhar o trabalho de Nátaly em seu canal que, agora, conta com 814 mil inscritos.</p>



<p>Através de Nátali conheci também o trabalho de <a href="https://www.youtube.com/@GabiDePretas" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Gabi de Pretas</a>, uma mulher negra retinta que também produz conteúdos relacionados a pautas raciais em seu canal do Youtube, hoje com 658 mil inscritos. Em um dos vídeos mais assistidos do seu canal, Gabi faz um tour pelo seu rosto e traz um relato emocionante para falar sobre o processo de aceitação de seus traços negros. <br><br>Olhando para trás, é inegável a importância que o trabalho das youtubers negras tiveram no meu processo de transição capilar e do resgate de uma identidade negra. </p>



<p>São muitos os influenciadores negros e negras que utilizam o Youtube e outras redes sociais para falar de temas relevantes para a comunidade negra e na promoção do antirracismo. Porém, são poucos aqueles e aquelas que conseguem ganhar visibilidade suficiente para se profissionalizar como produtores de conteúdo e monetizar seus trabalhos. Muitos desses profissionais já denunciaram a dificuldade em ter capilaridade na plataforma.</p>



<p>Por isso, a fim de impulsionar a carreira de youtubers e influenciadores digitais negros, a empresária Egnalda Côrtes abriu a agência Côrtes Assessoria em 2017. A empresa é responsável por gerir carreiras de dezenas de pessoas negras, entre elas, Nátaly Neri e Gabi de Pretas, produtoras de conteúdos digitais que disputam um mercado que impõe desafios, sobretudo para aqueles e aquelas que utilizam suas redes para pautar questões raciais. </p>



<p>Para o historiador e idealizador do <a href="https://www.youtube.com/@HistoriadaAfrica" target="_blank" rel="noreferrer noopener">canal “Caçador de Histórias”</a>, Flávio Muniz, as dificuldades que os youtubers negros enfrentam começa no processo de produção.</p>



<p>“A gente muitas vezes não tem uma boa estrutura tecnológica: uma câmera boa, um equipamento bom, um computador bom. Nós não temos expertise, porque é caro para você ter alguns pacotes de programas de edição. Eu edito meus programas hoje no Adobe Premiere, mas na época [2016] eu tinha programas piratas, craqueados, que eu utilizava da forma que eu podia. São dificuldades que outros produtores que têm acesso à tecnologia, por terem recursos financeiros, não tinham. Mas a população negra não tem tanto acesso financeiro a essas tecnologias, por uma questão econômica mesmo, uma questão de que nós estamos excluídos economicamente também&#8221;, contou o historiador.</p>



<p>Dono de um canal com 149 mil inscritos, Muniz utiliza o Youtube como uma sala de aula onde compartilha pesquisas sobre a história da África e dos seus povos. Seu objetivo é criar um acervo de ensaios e estudos na plataforma de <em>streaming</em>.</p>



<p>Atualmente trabalhando de forma independente e exclusiva na produção de conteúdos para a plataforma, o professor já expôs seu descontentamento com o Youtube e a dificuldade em monetizar seu trabalho, mas explica que insiste em estar presente no espaço por entender que o Youtube é um lugar de disputa onde as pessoas negras precisam ser protagonistas. “Como disse o Peter Burke, ‘é função do historiador lembrar a sociedade aquilo que ela quer esquecer’”, defendeu Muniz.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Ciberespaço em disputa</h2>



<p>De acordo com o ranking da plataforma de análise de dados<a href="https://socialblade.com/youtube/top/country/br" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> Social Blade</a>, a maioria dos canais do Youtube que possuem o maior número de visualizações no Brasil são canais produzidos por pessoas brancas. </p>



<p>A monetização no Youtube acontece através das exibições de anúncios transmitidos durante os vídeos, para isso o produtor de conteúdo precisa solicitar a monetização de seu canal e passar a atender as diretrizes do Programa de Parcerias do Youtube (YPP). Nessa lógica, canais que possuem maiores números de inscritos e de visualizações tendem a faturar mais. Com isso, é possível afirmar que os canais de pessoas brancas são os que mais lucram na plataforma.</p>



<p>E o que pode explicar o maior interesse do público por consumir os conteúdos feitos pelos youtubers brancos?</p>



<p>Para o pesquisador em Comunicação na UFPE e integrante da Rede Latino-americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade, Andi Almeida, a resposta está nas dinâmicas sociais do Brasil, dinâmicas essas que acontecem fora do mundo virtual e que apenas são reforçadas no ciberespaço.</p>



<p>“A ideia de racismo algorítmico, que é um conceito cunhado no Brasil pelo Tarcízio Silva, afirma que os algoritmos são racistas porque a sociedade é racista e ele reflete as próprias mazelas da sociedade. Por isso, não surpreende que produtores negros, sobretudo aqueles que fazem vídeos pautando questões do racismo, precisam lidar com menos visualizações e dificuldade de monetização, é o próprio racismo operando também no meio digital”, afirmou o pesquisador.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/11/youtube-2.jpg" alt="A imagem mostra uma pessoa digitando em um teclado de computador. A foto é sobreposta com várias imagens relacionadas ao YouTube, incluindo o logotipo do YouTube Premium e uma interface de vídeo do YouTube. Há também um texto parcialmente visível que diz Expert Digital e Como obter mais visualizações no YouTube. A imagem combina elementos físicos (as mãos no teclado) com elementos digitais (a interface do YouTube), sugerindo um contexto de criação ou consumo de conteúdo digital." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Historiador reforça a importância de ter mais pessoas negras como youtubers
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“Se por um lado a internet surgiu como um ambiente onde a gente consegue se colocar para criar novas narrativas emancipatórias e disputar espaços, por outro ela foi capturada pelas grandes corporações e acaba sendo um espaço ocupado majoritariamente por quatro redes sociais. Então, o produtor de conteúdo negro com um viés emancipatório é muito importante porque cria uma base de conhecimentos, no entanto a internet cria um certo vício fazendo com que a gente não se aprofunde nas coisas, porque todo o processo começa e termina ali, quando, na verdade, deveria ser o início de uma pesquisa mais extensa”, concluiu Andi Almeida.</p>



<p>Por reconhecer a importância de produzir conteúdos para ampliar a base de conhecimento de seu público na luta antirracista, o professor Flávio Muniz reforça a importância de ter mais pessoas negras como youtubers, pois a plataforma digital “é um espaço de disputa que, na verdade, é também um espaço de construção de identidades”.</p>



<p>Neste mesmo sentido, Andi Almeida acredita que a melhor forma de enfrentar as dificuldades impostas na produção e valorização dos conteúdos digitais de pessoas negras é ocupando o ciberespaço de forma consciente.</p>



<p>“Essa noção de que a gente deveria abandonar as tecnologias ou simplesmente ter uma mera recepção passiva é um falso dilema. Nenhum desses caminhos é interessante, o que nos interessa é a apropriação dessas tecnologias para nossa busca constante de emancipação pessoal e coletiva. Na minha perspectiva, nós, minorias políticas, devemos sim nos apropriar de todas as tecnologias e suas ferramentas disponíveis para que possamos através delas também disputar as narrativas”, afirmou o pesquisador.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p><b>Em entrevista ao Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, Tarcízio Silva explicou o que é o racismo algorítmico: </b></p>
<p>&#8220;Uso o termo &#8216;racismo algorítmico&#8217; para explicar como tecnologias e imaginários sociotécnicos em um mundo moldado pelo privilégio branco fortalecem a ordenação racializada de conhecimentos, recursos, espaço e violência em detrimento de grupos não brancos. Então, muito além dos detalhes das linhas de programação, falamos aqui da promoção e implementação acríticas de tecnologias digitais que favorecem a reprodução dos desenhos de poder e opressão que já estão em vigor.</p>
<p>O principal problema na superfície é que sistemas algorítmicos podem transformar decisões e processos em &#8216;caixas opacas&#8217; inescrutáveis, isto é, tecnologias repletas de problemas são lançadas na sociedade e podem aprofundar discriminações, que vão de buscadores que representam negativamente pessoas negras até <em>softwares</em> de policiamento preditivo <strong>– </strong>uso de dados e análises para predizer o crime <strong>– </strong>que fortalecem a seletividade penal.</p>
<p>Mas o racismo algorítmico não é só a questão dos <em>softwares</em> em si, abarca também tecnologias digitais emergentes, que mesmo com tantos problemas são lançadas de forma cada vez mais acelerada. Isto acontece porque as pessoas vulnerabilizadas por tais sistemas são minorias políticas e econômicas que têm seus direitos colocados em último lugar nas prioridades do setor privado e governamental&#8221;.</p>
<p>Tarcízio Silva é autor do livro <em>Racismo algorítmico: inteligência artificial e discriminação nas redes digitais</em></p>
	</div>
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			</item>
		<item>
		<title>Da arte de Debret aos mamíferos da Parmalat, o que as imagens da branquitude têm a ver com Pablo Marçal</title>
		<link>https://marcozero.org/da-arte-de-debret-aos-mamiferos-da-parmalat-branquitude-marcal/</link>
					<comments>https://marcozero.org/da-arte-de-debret-aos-mamiferos-da-parmalat-branquitude-marcal/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Oct 2024 18:43:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[branquitude]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=66548</guid>

					<description><![CDATA[<p>por Erika Muniz* Faz parte do nosso existir o ato de contar histórias. Mas as histórias podem ser contadas e recontadas de diferentes maneiras, a partir de vários pontos de vista, modificando o resultado que terá na vida de seus ouvintes, espectadores ou leitores. Nós, como brasileiros e brasileiras, somos feitos de histórias, que foram [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Erika Muniz</strong>*</p>



<p>Faz parte do nosso existir o ato de contar histórias. Mas as histórias podem ser contadas e recontadas de diferentes maneiras, a partir de vários pontos de vista, modificando o resultado que terá na vida de seus ouvintes, espectadores ou leitores. Nós, como brasileiros e brasileiras, somos feitos de histórias, que foram contadas, recontadas, desmentidas ou reelaboradas e que ajudaram a construir quem nós somos. Essas narrativas, porém, ao longo de mais de cinco séculos de Brasil nos fizeram entender de onde viemos, mas também ajudaram a reforçar verdades tidas como únicas e seus lugares de poder. Nos últimos anos, os fatos históricos, as figuras tidas como líderes dessas narrativas e a própria ciência História em si tem sido repensada, questionada e revisitada de maneira crítica.</p>



<p>Desse modo, publicações e estudos que trazem reflexões sobre as posições de poder, que usufruem de privilégios, na nossa sociedade, são importantes. Nas últimas décadas, estivemos trazendo debates feministas relevantes, refletindo sobre a participação e o apagamento das mulheres, a partir de uma perspectiva de gênero. As questões étnico-raciais também nos fazem refletir sobre o silenciamento e as violências vivenciadas pela população negra no nosso país. Agora, a pesquisadora Lilia Schwarcz, em seu novo livro <em>Imagens da Branquitude</em>, realiza uma leitura profunda sobre as imagens que fazem parte da nossa História. Ela analisa obras de arte, fotografias e em outros documentos visuais, destravando as mensagens e narrativas inscritas em cada uma dessas imagens.</p>



<p>Entre análises de pinturas do artista Jean-Baptiste Debret, datadas do século XIX, que estampam livros didáticos em escolas pelo país, nas quais pessoas brancas aparecem em situações de usufruto de seus privilégios e de exploração de pessoas negras durante o período da escravidão, até leituras sobre as representações étnico-raciais em campanhas publicitárias famosas mais recentes, como a série “Mamíferos da Parmalat”, que trazia crianças vestidas de animais, que foi febre nos anos 1990.</p>



<p>Em entrevista à Marco Zero Conteúdo, a historiadora e professora da USP comenta sobre o que propõe com a sua nova publicação, refletindo sobre o que seria a branquitude, qual a importância de desestabilizar o que é entendido como natural e como ela percebe a extrema direita brasileira – que trabalha reforçando lugares de poder, como o masculinismo e a branquitude, por exemplo – no Brasil de agora.</p>



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	                                        <p class="m-0">Lilia Schwarcz
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Renato Parada/Divulgação</span>
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<p>Marco Zero &#8211; <strong>Os debates sobre imagens fixadas, normalmente partem de um pressuposto da diferença étnico-racial e/ou de gênero, ou seja, de que existe uma norma e ela usufrui de privilégios, ao contrário dos que não habitam essa norma. No título de seu novo livro, estão as imagens de branquitude, assim, o que seriam essas imagens? E, de que forma falar sobre branquitude é desnaturalizar uma suposta transparência e neutralidade da branquitude?</strong></p>



<p><strong>Lilia Schwarcz</strong> &#8211; O conceito de imagem vem de magia. E, não à toa, ele é a raiz da ideia de imaginários. Então, as imagens que nos constituem – e ainda mais no período contemporâneo e a partir do século XIX, com o advento da fotografia – são imagens marcadas por um determinado lugar social, que é o lugar da branquitude, que é, evidentemente, um lugar de privilégio social. Não à toa, a branquitude social é um conceito que se pauta no passado, mas se prescreve no tempo presente. Então, a ideia do subtítulo <em>A presença da ausência</em> é que, de um lado a presença enquanto privilégio da branquitude é imensa, mas, ao mesmo tempo, se trata de uma imensa ausência, porque as imagens naturalizam esse lugar. Falar de branquitude, ensinar a ler imagens é uma maneira de desnaturalizar esses que são documentos visuais muito poderosos. Porque estamos acostumados a interpretar um documento escrito, mas pouco acostumados a perceber que uma imagem carrega uma série de convenções visuais, uma série de códigos, uma série de<em> pathos</em>, que, de alguma forma, nos convencem sem que nós percebamos exatamente isso. Por isso que é tão importante esse movimento de ler imagens. Como ler imagens? Pela reiteração, pelos detalhes, como uma contranarrativa, ou seja, a partir daquilo que o profissional não quer que se leia, mas cuja mensagem evoca.</p>



<p><strong>A seu ver, até que ponto nós, pessoas brancas progressistas que tentamos ter uma prática antirracista, conseguimos romper com o pacto narcísico da branquitude (conceito mencionado pela Cida Bento)? De que forma o pacto narcísico continua operando nas relações, quando pessoas brancas refletem sobre os seus privilégios?</strong></p>



<p>Não sei se eu entendi muito bem essa sua segunda questão, mas vou tentar reagir a ela de alguma maneira. A Cida Bento, uma grande intelectual, educadora negra, na sua tese e no seu livro, desenvolve esse conceito de &#8220;pacto narcísico&#8221;. Narciso foi um personagem que, ao que diz a lenda, ao que diz a tradição, ficou se olhando na sua imagem refletida na água de tal maneira que passou a só ficar dominado por ela. Então, o que acontece? Como é que pessoas progressistas e brancas, como eu sou, por exemplo, podem ter uma atitude antirracista? É muito importante que nós, primeiro, entendamos que o racismo é uma contradição da sociedade brasileira e não apenas das pessoas negras, como diz Cida Bento no mesmo livro. É importante entender a escravidão, não só a partir da vitimização das pessoas negras e de suas agências, mas também o que significou para as populações brancas viver essa situação de monopólio do poder durante tanto tempo. Esse é o primeiro ponto. Segundo ponto, a população negra no Brasil não é uma minoria, é uma maioria populacional – porque corresponde a mais de 56% da população brasileira –, mas minorizada na representação. Então, não estamos falando exatamente de minorias, mas de maiorias que não estão contempladas, não só na representação visual, como na representação pública e na representação privada. É preciso falar dessas questões entre pessoas brancas para que nós tenhamos um movimento na direção de qualificar a nossa democracia, para que a democracia brasileira inclua setores secularmente excluídos da participação.</p>



<p><strong>Qual a importância de repensar os arquivos históricos e artísticos que constroem os símbolos de poder e as suas ausências? Por que pensar as representações de diferentes vivências que habitam esse território nas obras de arte, por exemplo, refletindo sobre como pessoas não brancas foram representadas até o século XX?</strong></p>



<p>Nesse livro, eu trabalho branquitude e negritude como relações. Negritude foi um conceito criado pelo Movimento Negro como um conceito afirmativo, ainda no começo do século XX, no movimento <em>Harlem Renaissance</em>, nos Estados Unidos, e também na França. A branquitude sempre foi um conceito de recusa. A branquitude, muitas vezes, não se aceita pensar a partir desses conceitos e o toma como uma categoria de acusação, que não é. Eu justamente uso as imagens para que as pessoas possam ler essa situação de privilégio. Os arquivos históricos, os museus, são instituições que foram criadas no contexto colonial e que carregam esse mesmo direcionamento, no sentido de estabilizar o privilégio das populações europeias, das populações brancas, que dominaram o mundo, sobretudo a partir da modernidade, a partir do século XVI. Dominaram com uma máquina de violência muito grande. Dentre as violências, está o apagamento da memória. Os arquivos, os museus, são as instituições que lembram e esquecem também. Vivemos num momento em que é preciso perguntar aos arquivos por outras populações, por outras questões, para que a gente, de fato, crie uma historiografia, Ciências Humanas e um processo de memória cada vez mais plural e inclusiva. A memória é uma virtude republicana.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/10/Lilia-3.jpg" alt="A foto em preto e branco mostra uma família de quatro pessoas brancas ladeada por duas negras, sendo uma mulher adulta à direita e uma menina despenteada à esquerda. No centro, há dois adultos, provavelmente os pais, sentados; o adulto à esquerda está segurando um bebê, enquanto o adulto à direita está em pé atrás da figura sentada. O fundo consiste em uma cena de paisagem pintada em uma tela ou pano de fundo." class="" loading="lazy" width="593">
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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação</span>
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<p><strong>Muitas histórias ficaram de fora da História do Brasil por muitos anos e muitas ainda permanecem silenciadas. Mas, por que é preciso trazer essas outras histórias para o conhecimento coletivo? E, com elas, podemos refazer a memória do povo brasileiro sobre o nosso país?</strong></p>



<p>Bom, é muito importante que nós convoquemos a memória. Memória e história são categorias distintas. Em geral, a história desconfia da memória, porque acusa a memória de se pautar em critérios apenas subjetivos. E a memória disputa esse tipo de direito à representação com a história, que se pauta apenas em documentos, assim ditos, racionais. É muito importante que a historiografia brasileira deixe de ser apenas e tão somente masculina, europeia e das elites. Aquilo que nós chamamos durante tanto tempo de uma história universal foi, sobretudo, uma historiografia europeia. A historiografia brasileira, durante muito tempo, foi uma historiografia quase que exclusivamente sudestina. E por que é importante contar muitas histórias? Porque o conhecimento, como você bem diz na sua pergunta, precisa ser coletivo. E ao ser coletivo, ele precisa ser plural. Ele precisa dizer respeito às populações que constituem esse país, e não só a apenas um segmento.</p>



<p><strong>Você que já pensa sobre o autoritarismo brasileiro, como reflete sobre as mudanças na extrema direita brasileira, neste 2024, com a chegada de Pablo Marçal? E que características a extrema direita brasileira tem de diferença das de outros países, como os EUA (Trump) e Argentina (Milei)?</strong></p>



<p>O crescimento da direita radical data dos anos [em torno de] 2016, com a crise dos anos [em torno de] 2016. É nesse contexto que figuras como Orbán, na Hungria, Donald Trump, nos Estados Unidos, ganham uma projeção internacional. É nesse momento também que ocorre uma grave crise da democracia com esses políticos retrógrados sequestrando a pauta da democracia, que não tem nada a ver com golpe de Estado, defesa da liberdade de expressão com interesses espúrios. A chegada de uma figura como Pablo Marçal, que concorreu à prefeitura na cidade de São Paulo, é um fenômeno também que não diz respeito exclusivamente a São Paulo. Eu acho que ele representa, ao extremo, esse lado midiático da política. De um lado, uma política sem efeitos, ou seja, sem projetos, uma política que se encerra nas suas causas, o que significaria aparecer para o público cada vez mais. Pablo Marçal representa essa antipolítica, que Donald Trump também representa. Não há projetos, não há debate de ideias, não há respeito pela diferença das pautas. Há, única e exclusivamente, palavras de ordem e expressões para as câmeras – e que depois se convertem em cortes para conseguir mais<em> likes </em>e conseguir mais projeção e conseguir mais seguidores. Existem muitas diferenças entre os vários políticos de extrema direita, eu não teria tempo de responder aqui. O que há em comum entre eles é uma espécie de populismo digital. Populismo sempre foi uma forma de fazer governo que se pauta na tentativa de dar respostas fáceis para situações complexas e também em políticos que se apresentam como espécies de Messias, de pessoas que têm soluções, que são individuais e pessoais. São também, no período contemporâneo, pessoas que se manifestam contrárias a qualquer tipo de diferença. Portanto, são pessoas profundamente antidemocráticas, se nós pensarmos que a democracia se pauta na liberdade de expressão, na igualdade de direitos, no respeito às opiniões divergentes, na transparência e, principalmente, no respeito à verdade e ao bem comum. As <em>fake news</em> são uma atitude oposta à democracia, porque distorcem a verdade, manipulam a opinião pública e impedem o debate honesto e, de fato, informado. O candidato Marçal acumulou na sua figura todos esses pedaços de atitudes nada republicanas e nada democráticas.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/10/Lilia-imagens-racismo.jpg" alt="A imagem é um pôster de propaganda vintage. Ela apresenta dois personagens: um adulto com cartola e gravata borboleta, segurando um livro ou pacote com o rótulo “AREGOS”, e uma criança vestindo uma roupa xadrez. Os rostos dos personagens estão cobertos por retângulos marrons, provavelmente para manter a privacidade ou por efeito ilustrativo. O fundo é amarelo, e há um texto em português que diz “…só falta metade…” na parte superior. Abaixo dos personagens, mais texto diz “SABONETE AREGOS EMBRANQUECE E CURA A PELLE”. Há também informações sobre os locais onde o produto pode ser encontrado em Lisboa: “DEPOSITOS: EM LISBOA: BOTICA DO BATALHA - R. SANTA JUSTA 69”." class="" loading="lazy" width="520">
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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação</span>
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	    <p>*Jornalista, formada em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e em Comunicação Social pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). Pesquisa a área de cultura, assinando trabalhos na Revista Continente, Quatro Cinco Um, Revista O grito! e JornaldoCommercio.</p>
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<p>O post <a href="https://marcozero.org/da-arte-de-debret-aos-mamiferos-da-parmalat-branquitude-marcal/">Da arte de Debret aos mamíferos da Parmalat, o que as imagens da branquitude têm a ver com Pablo Marçal</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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