<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Arquivos saúde em Recife - Marco Zero Conteúdo</title>
	<atom:link href="https://marcozero.org/tag/saude-em-recife/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://marcozero.org/tag/saude-em-recife/</link>
	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Wed, 14 May 2025 18:01:02 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9.4</generator>

<image>
	<url>https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/02/cropped-favicon-32x32.png</url>
	<title>Arquivos saúde em Recife - Marco Zero Conteúdo</title>
	<link>https://marcozero.org/tag/saude-em-recife/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>R$ 1,00 no vale-alimentação e 1,5% de aumento salarial: a proposta que levou professoras e enfermeiras à greve no Recife</title>
		<link>https://marcozero.org/r-100-no-vale-alimentacao-e-15-de-aumento-salarial-a-proposta-que-levou-professoras-e-enfermeiras-a-greve-no-recife/</link>
					<comments>https://marcozero.org/r-100-no-vale-alimentacao-e-15-de-aumento-salarial-a-proposta-que-levou-professoras-e-enfermeiras-a-greve-no-recife/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 May 2025 21:52:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[educação pública]]></category>
		<category><![CDATA[greve de professores]]></category>
		<category><![CDATA[prefeitura do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[saúde em Recife]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=70687</guid>

					<description><![CDATA[<p>A manhã desta terça-feira (13) foi marcada pelo ato unificado dos enfermeiras e professoras do Recife que estão em greve há quase uma semana. As duas categorias que esperam reajuste salarial desde janeiro e contam com seus próprios sindicatos independentes do Sindicato dos Servidores e Empregados Públicos do Recife (Sindsepre), recusaram a proposta da gestão [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/r-100-no-vale-alimentacao-e-15-de-aumento-salarial-a-proposta-que-levou-professoras-e-enfermeiras-a-greve-no-recife/">R$ 1,00 no vale-alimentação e 1,5% de aumento salarial: a proposta que levou professoras e enfermeiras à greve no Recife</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A manhã desta terça-feira (13) foi marcada pelo ato unificado dos enfermeiras e professoras do  Recife que estão em greve há quase uma semana. As duas categorias que esperam reajuste salarial desde janeiro e contam com seus próprios sindicatos independentes do Sindicato dos Servidores e Empregados Públicos do Recife (Sindsepre), recusaram a proposta da gestão de João Campos (PSB) de 1,5% reajuste salarial e R$ 1,00 (isto mesmo: um real) no vale alimentação. </p>



<p>Tanto o pessoal da enfermagem quanto da rede municipal de educação tomaram posição na contramão do Sindsepre que representa 28 categorias de servidores e esteve em greve de 30 de abril até a última quinta-feira (08). Este sindicato encerrou sua paralisação ao aceitar a proposta da gestão com a promessa de melhorias nas gratificações.</p>



<p>O Sindsepre é presidido pelo ex-vereador do Recife Osmar Ricardo (PT), irmão do secretário municipal de Meio Ambiente, Oscar Barreto, também do PT. O Instituto de Consultoria, Cidadania e Assessoria Social (Iccaspe), ligado aos irmãos petistas, é beneficiado por um <a href="https://marcozero.org/o-que-joao-campos-nao-conta-sobre-as-creches-do-recife/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">convênio com a prefeitura do Recife para gerenciar nove creches</a>.</p>



<p>Apesar do sindicato ligado à corrente petista aliada ao PSB ter acatado a proposta, as categorias seguem em negociações setoriais, cada uma defendendo suas próprias demandas. Ontem e hoje, saúde e educação se reuniram novamente em mesas de negociações para tentar um acordo, mas as greves continuam.  </p>



<h2 class="wp-block-heading">Uma vida de luta sem direito à casa própria</h2>



<p>Uma das pessoas que vai estar na mesa de negociações diante dos representantes do prefeito é Elaine Oliveira, que dedicou 40 dos seus 59 anos de vida à educação no Recife. Atualmente ela exerce a função de coordenadora pedagógica de um Centro de Educação Infantil na comunidade do Coque, mas começou sua trajetória na antiga Escola Municipal do Alto Santa Terezinha em 1987. Com dois concursos na rede e a carreira quase toda dedicada à educação infantil, a servidora já passou por gestões de nove prefeitos, sempre na luta para garantir os direitos da categoria.</p>



<p>Suplente do Sindicato Municipal dos Profissionais de Ensino do Recife no Conselho Municipal de Educação, ela já é aposentada do primeiro concurso e prestes a se aposentar do segundo. Durante toda sua vida profissional precisou trabalhar dois turnos ou mais para conseguir criar os três filhos praticamente sozinha. Mesmo assim, a realização pessoal por meio da carreira ainda não foi alcançada. Ela não tem casa própria e conta nos dedos as poucas viagens que fez a passeio em suas férias.</p>



<p>A luta faz parte da sua história e também move os profissionais da categoria que, segundo Elaine, só conseguem o mínimo de direitos enfrentando as administrações municipais. A proposta mais recente apresentada pela prefeitura chegou a 2,45% a partir de maio, mas a categoria reivindica o reajuste de acordo com a Lei do Piso do Magistério, de 6,27% com retroativo a janeiro e a incorporação à carreira. “A proposta da prefeitura achata nossa carreira, porque ele implementa para quem está abaixo do piso, os professores novatos, e não rebate no restante da carreira. O que representa uma perda de valorização”, afirma a coordenadora.</p>



<p>Elaine avalia que a conjuntura atual está antecipando o processo de adoecimento dos professores. &#8220;A velha guarda começou adoecer com dez ou 11 anos de serviço, hoje é muito comum você ver professores com um ou dois anos de serviço tendo questões de saúde&#8221;, lamenta. Mas os desafios enfrentados vão além do salário e da falta da valorização. A má estrutura das escolas, falta de funcionários e a sobrecarga também são problemas recorrentes no cotidiano da educação do Recife. Entretanto, as pautas se cruzam como as de outras áreas, como é o caso dos profissionais da saúde.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Insatisfação na saúde</strong></h2>



<p>Um profissional da enfermagem com carga horária de 30 horas tem um salário base médio de R$ 3 mil, por esse motivo, a categoria está reivindicando o reajuste de 20% para poder repor as perdas salariais dos últimos anos, pois nos últimos três anos tiveram o reajuste abaixo da inflação.</p>



<p>Hoje, a rede conta com aproximadamente 800 profissionais atuando entre as Unidades de Saúde da Família (USF), policlínicas em condições críticas e hospitais. Quando a greve dos enfermeiros foi deflagrada, na última quinta-feira (08), representantes do Sindicato dos Enfermeiros comandaram a interrupção do trânsito na avenida Norte Miguel Arraes, em frente à policlínica e maternidade Barros Lima, para chamar a atenção as condições precárias de trabalho. Segundo Ludmila Outtes, presidente do SEE-PE, o problema na unidade vai de superlotação à falta de berços para os recém nascidos, mas essa realidade é refletida em outras unidades.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/05/greve-2-300x223.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/05/greve-2-1024x761.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/05/greve-2-1024x761.jpg" alt="A imagem mostra duas mulheres de meia idade usando camisetas azuis onde se lê a frase não é possível ter saúde sem enfermeiros em letras brancas. A mulher à direita da imagem segura um pequeno cartaz com uma foto de um pacote de biscoito da narca treloso e a frase 1 real não compra nem um treloso. As duas foram fotografadas em um ambiente interno onde se vê um banner indicando a unidade de saúde da família José Severiano da Silva." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Proposta da gestão enfureceu profissionais de enfermagem
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Instagram @seepedepernambuco</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“Na Imbiribeira, o pessoal está há mais de um ano dentro de um contêiner e segue sem previsão de quando eles vão ter uma casa para atender. Fora isso, há várias unidades onde falta material de curativo, faltando gases, esparadrapos. Medicamentos básicos para controle de hipertensão e diabetes também estão em falta”, afirma.</p>



<p>Após várias tentativas de negociação, Ludmila afirma que na última sexta-feira (09) a gestão entrou em contato para exigir a suspensão da greve, porém sem apresentar quais as demandas seriam atendidas. Obviamente, a greve se manteve. Agora os profissionais têm a expectativa de que a pressão popular faço com o que a prefeitura mude de posição.</p>



<p>“A gente espera que com isso o prefeito desça do seu pedestal, diminua a sua soberba e resolva conversar com a categoria, com as categorias que estão pedindo o mínimo, que é a reposição da inflação nos seus salários. Hoje a gente tem, inclusive, vários profissionais fazendo os plantões extras dentro da própria prefeitura para poder complementar a renda, porque não dá”, reforça a presidente.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Psicologia em estado de greve</h3>



<p>Até uma categoria que raramente se mobiliza também está insatisfeita e mobilizada para enfrentar a gestão de João Campos  Com a sobrecarga de trabalho e longe de um salário compatível com as atividades designadas, psicólogas e psicólogos da rede municipal de saúde entraram em estado de greve.</p>



<p>Segundo levantamento do Sindicato dos Psicólogos de Pernambuco (Psicosind), a rede municipal possui 123 profissionais estatutários com carga horária de 30 horas e apenas 23 profissionais de 40 horas. Na prática, os profissionais com 40 horas trabalham nas equipes multidisciplinares, chamadas de eMulti, que atuam diretamente na Atenção Primária à Saúde em unidades de saúde da família (USF). Já os de 30 horas atuam em outras unidades como policlínicas, centros de atenção psicossocial (CAPS) e outros serviços que oferecem o apoio psicossocial.</p>



<p>De acordo com o levantamento sobre os Equipamentos de Saúde disponível no portal da transparência do Recife, das 138 unidades de saúde da família, apenas 20 possuem o que eles chamam de Núcleo de Apoio a Saúde da Família composto por psicólogos, nutricionistas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, farmacêuticos, fisioterapeutas e assistentes sociais. O que acaba sobrecarregando os profissionais e não atendendo à demanda da população.</p>



<p>Entre as reivindicações do Psicosind estão o aumento do vencimento dos psicólogos do setor de saúde em 30%, considerando o acúmulo inflacionário resultante em 14,58%, referente ao período de janeiro de 2021 a novembro de 2024 em que esteve vigente a última negociação, mais um aumento real de 15,42%, ainda no primeiro semestre. Além do aumento do valor do ticket alimentação de R$ 22,00 para R$ 52,00.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/05/greve-1-300x169.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/05/greve-1-1024x576.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/05/greve-1-1024x576.jpg" alt="Esta foto mostra uma cena ao ar livre, em frente à Policlínica Clementino Fraga, localizada na cidade do Recife, como indica a placa azul no canto superior direito da imagem. A cena está bastante movimentada, com uma grande quantidade de pessoas reunidas. No lado esquerdo da imagem, há muitas pessoas sentadas em bancos de madeira, aparentemente esperando atendimento. São em sua maioria idosos, vestidos de forma simples, e a maioria está à sombra de uma grande árvore com raízes expostas, que cobre parcialmente a área. No centro e à direita da imagem, há um grupo maior de pessoas em pé, algumas parecendo estar em fila ou aglomeradas. Algumas estão interagindo, outras parecem estar esperando. Ao fundo, há uma estrutura coberta que abriga mais pessoas sentadas." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Sobrecarga e filas nas unidades de saúde é rotina no Recife
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Outros itens na pauta de reivindicações são a expansão da eMulti juntamente com ESF, além da ampliação da Rede de Apoio Psicossocial (RAPS), ambulatórios, serviços especializados, consultório na rua, espaços Mãe Coruja, entre outros serviços, a partir da realização de concursos públicos e execução do chamamento dos aprovados em concursos vigentes. Além disso, também pedem a implementação da insalubridade para todos os trabalhadores a partir do ingresso na rede.</p>



<p>“Se o prefeito não consegue cuidar nem ouvir as necessidades dos trabalhadores que servem à cidade, que estudaram e prestaram concurso público, como é que ele quer cuidar do povo e dos problemas da cidade?”, indaga Bruna Leitão, representante do Psicosind na mesa de negociação com a gestão municipal.</p>



<p>Bruna é psicóloga na rede desde 2014 e enxerga a falta de cuidados com os profissionais e a discrepância entre os salários de diferentes áreas da saúde um grande problema. “E a gente briga também para que esses profissionais sejam cuidados para não adoecerem do jeito que estão adoecendo. Que haja uma menor desigualdade salarial entre as profissões”, reforça.</p>



<p></p>



    <div class="lista mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #EBEB01;">
        <span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">2ª rodada de negociações nos próximos dias </span>

                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>1. </span>14/05 &#8211; Farmacêuticos, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>2. </span>15/05 &#8211; Vigilantes sanitários, médicos veterinários, químicos e cirurgiões dentista</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>3. </span>16/05 &#8211; Músicos, engenheiros e arquitetos</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>4. </span>19/05 &#8211; Gestores governamentais e assistentes de gestão pública</p>
            </div>
            </div>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/r-100-no-vale-alimentacao-e-15-de-aumento-salarial-a-proposta-que-levou-professoras-e-enfermeiras-a-greve-no-recife/">R$ 1,00 no vale-alimentação e 1,5% de aumento salarial: a proposta que levou professoras e enfermeiras à greve no Recife</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/r-100-no-vale-alimentacao-e-15-de-aumento-salarial-a-proposta-que-levou-professoras-e-enfermeiras-a-greve-no-recife/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A dificuldade das mulheres da periferia de acessar serviços de saúde mental</title>
		<link>https://marcozero.org/a-dificuldade-das-mulheres-da-periferia-de-acessar-servicos-de-saude-mental/</link>
					<comments>https://marcozero.org/a-dificuldade-das-mulheres-da-periferia-de-acessar-servicos-de-saude-mental/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Mar 2025 20:28:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[depressão]]></category>
		<category><![CDATA[saúde em Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[saúde em Recife]]></category>
		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=69406</guid>

					<description><![CDATA[<p>por Martihene Oliveira* Seis meses ou até um ano. Esses marcos temporários são registrados por mulheres pretas e periféricas de Recife que esperam por atendimento psicológico oferecido pela prefeitura da capital pernambucana. A dor que alastra o coração e a alma dessas mulheres é invisível para o poder público, que não garante uma assistência à [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/a-dificuldade-das-mulheres-da-periferia-de-acessar-servicos-de-saude-mental/">A dificuldade das mulheres da periferia de acessar serviços de saúde mental</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Martihene Oliveira*</strong></p>



<p>Seis meses ou até um ano. Esses marcos temporários são registrados por mulheres pretas e periféricas de Recife que esperam por atendimento psicológico oferecido pela prefeitura da capital pernambucana. A dor que alastra o coração e a alma dessas mulheres é invisível para o poder público, que não garante uma assistência à saúde mental de forma efetiva e rápida. Enquanto isso, milhares de mulheres, que aguardam na fila de espera, enfrentam o medo, a depressão e a solidão.</p>



<p>“Ela disse a mim que o meu caso era para uma psicóloga me acompanhar, mas no momento ia demorar um pouco, porque a fila de espera estava muito grande, tem gente lá que está esperando há mais ou menos um ano para ser atendido, porque na prefeitura não tem quantidade de psicólogos suficiente para suprir a demanda”, narra Elizabeth Santos, de 40 anos, ao contar a experiência de tentar atendimento psicológico na Prefeitura do Recife.</p>



<p>Segundo Elizabeth, a consulta foi uma sugestão de uma endocrinologista, que a encontrou em um posto de saúde, fora de sua comunidade. A profissional diante do seu relato de insônia e alimentação compulsiva para tratar da obesidade, solicitou agendamento com uma especialista de saúde mental. </p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/03/terapia-1920x1080-20250307115944-300x169.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/03/terapia-1920x1080-20250307115944-1024x576.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/03/terapia-1920x1080-20250307115944-1024x576.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Ilustração: Isadora Clemente/Sargento Perifa</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Antes de nos aprofundarmos sobre a realidade em Recife, é importante informar que a pesquisa <em>Esgotadas</em> com 1.078 mulheres brasileiras pelo <a href="https://lab.thinkolga.com/wp-content/uploads/2023/10/LAB-Esgotadas-4out-1.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Laboratório da Inovação Think Olga</a> apontou que quase metade das entrevistadas já foi diagnosticada com algum transtorno mental. Desse grupo, 68% faz acompanhamento médico; 55% afirmou não terem recebido nenhum diagnóstico, contudo, entre aquelas que responderam afirmativamente, ansiedade (35%), depressão (17%) e síndrome do pânico (7%) foram os diagnósticos que mais se destacaram.</p>



<p>São mulheres com idades a partir dos 18 anos, de todas as classes e regiões do país, com ansiedade, depressão, síndrome do pânico, entre outros transtornos. </p>



<p>Voltemos ao Recife, cidade que, segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) possuía em 2022 uma população de 1.488.920 habitantes, dos quais 54,9% são mulheres.</p>



<p>Para falar de acesso à saúde mental por mulheres periféricas na cidade é preciso primeiro conhecer qual a estrutura que a cidade dispõe se, em tese, todas as mulheres recifenses, independentemente de cor ou classe, decidissem buscar apoio psicológico no sistema de saúde municipal. </p>



<p>Segundo resposta da prefeitura enviada no dia 12 de janeiro de 2025 à solicitação via Lei de Acesso à Informação (LAI), há 20 psicólogos com carga de 40 horas semanais vinculados às equipes multiprofissionais (eMulti) dos oito distritos sanitários do município. Cada eMulti dá suporte a até nove equipes de Saúde da Família, realizando atendimentos diretos à população. </p>



<p>Para mulheres em situação de violência, o Instituto Clarice Lispector, programa ligado à Secretaria da Mulher de Recife, disponibiliza oito psicólogas. Na mesma resposta via LAI, a secretaria de Saúde informou que há <a href="https://www2.recife.pe.gov.br/servico/servicos-de-saude-mental-caps">18 Centros de Atenção Psicossocial (Caps)</a> em funcionamento que se dividem em serviços voltados para a população infanto-juvenil, pessoas que realizam uso complexo de substâncias psicoativas e pessoas com transtornos em geral. </p>



<p>Fora isso, há psicológos em um Serviço Integrado de Saúde Mental, um Centro de Convivência, três Unidades de Acolhimento e em 50 Serviços Residenciais Terapêuticos, mais comumente conhecidas como residências terapêuticas. Também é possível ter acesso a atendimento psicológico nos serviços de média<br>complexidade &#8211; atendimento ambulatorial nas policlínicas &#8211; e de emergência.</p>



<p>A prefeitura acrescentou que há disponibilidade de equipamentos da Academia da Cidade para auxiliar em processos terapêuticos: &#8220;os Polos de Academia da Cidade, entre outros dispositivos que auxiliam no tratamento de ansiedade e/ou depressão. A unidade a qual o usuário será direcionado, dependerá da análise realizada pela equipe de saúde da família&#8221;, diz a resposta da gestão municipal de saúde.</p>



<p>Essa estrutura, no entanto, não bastou para garantir o acesso a Elizabeth Santos &#8211; e das outras mulheres que entrevistamos nas comunidades periféricas do Recife &#8211; a atendimento psicológico.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O impacto da pandemia</h2>



<p>Ceça Costa, doutora em psicologia clínica e integrante do Ilê Psi, um consultório formado majoritariamente por psicólogas negras que compreendem o racismo como um fator de sofrimento psíquico enfatiza que o serviço de atendimento psicológico para qualquer cidadão é uma tarefa do poder público e alguém precisa mostrar como fazer: “existe sim a possibilidade de ajudar, isso é uma tarefa do serviço público e alguém precisa dizer a ele como fazer. Eu não acredito em salvação fora do SUS. Nós fazemos uma clínica de atendimento psicológico aqui fora do SUS, porque o SUS não tem”.</p>



<p>A falta de assistência especializada pode agravar a saúde mental de mulheres periféricas. A partir da pandemia de covid-19, por exemplo, a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou em 25%, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O resumo do relatório da OMS apontou que o impacto da covid-19 na saúde mental atingiu principalmente as mulheres. E, após a pandemia, é perceptível notar um número elevado de mulheres lidando com quadros de depressão e/ou ansiedade.</p>



<p>“A pandemia mostrou isso para gente, mas a pandemia foi só um sinal, foi aquele apito da panela de pressão que botou para fora a pressão, mas as mulheres já adoecem há muito tempo e continuam adoecendo. Quando elas são atendidas, elas são medicalizadas. A medicalização esconde a dor e deixa essas mulheres mais quietas. Então a medicalização não é a saída para saúde mental. É só um apoio quando precisa. E as mulheres? Porque elas estão adoecendo, porque elas estão perdendo os filhos. A grande maioria já não tem marido, porque é mãe solo, é mãe solteira”, relata a psicóloga.</p>



<p>Quando o assunto é mortes por problemas de saúde mental, o Ministério da Saúde, através do <a href="https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2024/boletim-epidemiologico-volume-55-no-04.pdf/view">Boletim Epidemiológico v.55 nº4</a>, aponta que “experiências de vida estressantes – como a morte de entes queridos, diagnóstico de doenças graves, divórcio, violência doméstica, desemprego, adversidades financeiras ou migração forçada – não apenas aumentam o risco, mas também podem servir como gatilhos para o ato suicida”. </p>



<p>No Brasil, as mortes autoprovocadas, segundo o último levantamento realizado em 2021, ocupam a 27ª posição no número de óbitos do país, sendo a 3ª maior causa das mortes da população jovem, com 1 suicídio a cada 34 minutos. As mulheres ocupam 25% desse grupo e Pernambuco, nesse mesmo relatório, está na 6ª posição quando se trata do aumento dessa taxa entre 2010 e 2021, que foi de 67% no número de mortes por suicídio.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p><span style="font-weight: 400;">A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que para cada suícidio existe uma média de 20 tentativas e para cada tentativa com sucesso, uma média de 6 pessoas próximas são diagnosticadas com depressão, ansiedade entre outros transtornos. Ainda, para o Ministério da Saúde “até 90% das pessoas que cometeram suicídio apresentavam algum transtorno mental antes do ato, sendo a depressão o transtorno mais frequente. Desse modo, o suicídio também pode ser compreendido como um indicador do bem-estar psicossocial de uma população”.</span></p>
	</div>



<p>Abaixo, você conhecerá algumas mulheres com quem eu tive a oportunidade de dialogar e de conhecer. Confira trechos que exibem uma realidade silenciosa, camuflada no estereótipo de guerreira, silenciada pela falta de atendimento psicológico.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Lindalva: um enorme acúmulo de “tristeza” na rua Chã de Alegria</h3>



<p>Há relacionamentos que adoecem.</p>



<p>— Não, eu não vou comemorar.</p>



<p>— Mas, por que, Dona Lindalva? &#8211; Disse eu, curiosa e inquieta.</p>



<p>Era 1 de fevereiro de 2025 e eu havia acabado de lhe informar que no dia seguinte seria o meu aniversário. Ela vibrou, me deu os parabéns e perguntou se teria festa em minha casa. Eu disse que não, nada com muita purpurina, mas minha família e alguns amigos de infância nunca deixam essa data sem nenhum estardalhaço.</p>



<p>O cheiro na calçada estava relativamente suportável. O dia havia sido ensolarado, o amontoado de tecidos apodrecidos onde ela dorme com Moisés não recebeu contato com a água. Cheguei por volta das 19h, armei o meu banquinho de improviso e sentei de frente para ela, para uma conversa olho no olho.</p>



<p>Mais de 20 dias após essa nossa última conversa, Dona Lindalva continua com a mesma roupa, Moisés, também. A casa, do mesmo jeitinho, com cada coisinha no lugar, as plantas da rua Chã de Alegria também não se arredaram, pelo contrário, criaram raízes e fortaleceram-se. O tempo as deixou mais bonitas, ele faz as flores germinarem a cada estação. É um subúrbio do Recife, um bairro da periferia da zona norte, a Bomba do Hemetério, vizinho ao Morro da Conceição.</p>



<p>A Bomba do Hemetério possui 8.472 habitantes, desse número, 54% da população é composta por mulheres. No quesito negritude, o bairro é 68,56% feito de negras e negros.</p>



<p>Lindalva é uma negra retinta que afirma possuir 56 anos, mas, a profissional do Consultório na Rua me informou que sua idade é 60. Eu poderia tirar essa dúvida pedindo a mesma para ver seus documentos, contudo, o medo de me tornar invasiva e perder a glória da conversa fez desse detalhe, para aquele momento, algo irrelevante. Ainda que Lindalva tenha mais idade, sua dignidade foi esquecida. E ainda que ela tenha menos, seu direito de envelhecer, também.</p>



<p>De todo modo, ao colocar o endereço de sua grande casa no <em>Google Street View</em>, tenho imagens de 2011 até agora. É que, pelo menos de dois em dois anos, o carrinho invasivo da <em>big tech</em>, passa nas ruas das cidades do país, registra fotos inusitadas, borra os rostos das pessoas e disponibiliza para o mundo. Às vezes há brechas para a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), e quem se sente invadido, pode ganhar uma grana.</p>



<p>De dor em dor, um acúmulo de objetos foi tomando o espaço. As cortinas registradas pelo <em>street view</em> se transformaram em farrapos e o enorme casarão foi engolido pelo lixo, pelos trapos, plantas mortas, resto de comidas, ratazanas, geladeira de inox comprada na loja, dinheiro velho, roupas, máquina de costura, garrafas e muita tristeza. Um espaço de menos de um metro entre a grade e a casa sobrou para mãe e filho que quando chega a madrugada, se deitam um de frente para o outro, com as cabeças para lados opostos.</p>



<p>— Tudo na infância é bom, tudo na adolescência é bom, mas quando vai chegando a velhice a gente já vai ficando mais envergonhada, mais quietinha no cantinho, né?</p>



<p>— É mesmo? A senhora se divertia muito na juventude?</p>



<p>— Ah… eu era uma negra muito fogosa. Sambava, ia pro Carnaval, dançava muito e desfilava por aí. Depois casei e a gente se tornou evangélico. Ele sempre quis ser pai, mas eu demorei pra engravidar. Só cedi a vontade dele depois de 6 anos de casada. Quando engravidei já tinha 36, e o menino nasceu com hidrocefalia. Pronto, esse foi o fim do meu casamento.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-06-at-21.02.38-1-300x225.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-06-at-21.02.38-1-1024x768.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-06-at-21.02.38-1-1024x768.jpeg" alt="A imagem mostra um homem e uma mulher sentados em frente a um abrigo improvisado, com grades e tecidos pendurados. A mulher, de cabelos curtos e grisalhos, veste um vestido estampado e tem expressão séria. O homem, com barba e regata escura, parece gesticular enquanto fala. O ambiente sugere vulnerabilidade social, com sacolas, roupas e objetos espalhados. A iluminação artificial destaca os contrastes de luz e sombra no local." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Dona Lindalva mora na Bomba do Hemetério com seu filho
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Martihene Oliveira/Sargento Perifa</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Os dados da <em>Esgotadas</em> informam que poucas amizades (25%), solidão (24%), árdua jornada de cuidado ou trabalho doméstico (20%), falta de parceria do companheiro(a) (19%), problemas amorosos e conjugais (17%), responsabilidades com filhos (16%) e falta de rede de apoio (16%) são as maiores causadoras de depressão e ansiedade. Nesse aspecto, Dona Lindalva crava em todas as etapas.</p>



<p>Em novembro de 2024, quando comecei a preparar a reportagem, eu não sabia o nome e nem muito sobre ela. Depois de algumas pistas do Sr. Google e de comentários sobre a mesma na comunidade, o interesse foi ficando mais latente. Dona Lindalva, sem dúvidas, é a mulher da história de bell hooks, a síntese em carne e osso da solidão da mulher negra. Aquela que cuida de todos, que embeleza a rua, que já teve o corpo desejado e que sambava como ninguém. A que foi arrasada pelo amor e foi adoecendo aos poucos, diante dos olhos da sociedade, dos vizinhos que hoje não suportam o seu cheiro, dos pais, professores e alunos que entram e saem da escola Mardônio Coelho e do posto de saúde Dr. Luiz Wilson.</p>



<p>— Eu não gosto de comemorar aniversários, eles me trazem muitas lembranças. Lembram casa cheia, comemorações, gente reunida em volta da mesa… lembram o amor de um casamento.</p>



<p>Um silêncio tomou conta do espaço e seu olhar foi ficando distante.</p>



<p>Quando comentei à psicóloga Ceça Costa sobre esse diálogo, ela respirou fundo e comentou &#8220;a gente pensa: então tem que atender todo mundo, porque o SUS é universal, perfeito. Mas a gente tem a equidade, que é tratar diferente quem tem necessidade diferente. Isso tá na lei, tá no papel, mas não tá na prática. O posto de saúde falha porque ele não entende que dona Lindalva precisa que o posto vá até ela e fale com dona Lindalva como você foi, sente com ela, escute dona Lindalva. Porque a dona Lindalva tem muito para falar. O silêncio dela é denunciador”.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Camila: a perda de um filho e o desencanto do viver</h3>



<p>Quando uma mãe perde um filho negro assassinado, ela perde duas ou três vezes. Perde fisicamente, moralmente e emocionalmente também.</p>



<p>“Ela ficou assim após a perda de Richard. Não tinha nada a ver com drogas. Ele morreu assassinado porque se envolveu com uma mulher casada”, afirmou Carolina Félix, 32, irmã de Camila Félix, 34, morta em outubro de 2024.</p>



<p>— Esse miojo, partido no meio é a sopinha que guardei para Camille e Mateus. Daqui a pouco ele vai acordar e vai se alimentar &#8211; Disse Camila.</p>



<p>— E depois?</p>



<p>— Depois a gente vê. Aqui não tem nada, só um pouquinho de feijão que meu pai deu, já para eu inteirar amanhã para ver se dá para arrumar um macarrão para fazer comer dos meus filhos. A geladeira tá assim, eu guardo o meu feijão aqui embaixo, ó! Tem nadinha, ó!</p>



<p>Era 28 de outubro de 2022, havia cinco meses que as chuvas no Recife ceifaram mais de 149 vidas e em uma visita do Coletivo Sargento Perifa à residência de Camila Félix, a conversa se resumiu à falta de comida para ela e os filhos. Mesmo que sua casa estivesse a quase um metro de distância de um precipício, a lona que cobria a barreira estivesse rasgada e o luto pelas perdas na região metropolitana do Recife ainda nos assombrasse.</p>



<p>Claro que isso tudo foi uma tragédia anunciada, e a morte de Camila, 1 ano após esse depoimento, também. Embora não fosse pelas chuvas, a morte dela seria só mais um caso, caso costumeiro na favela. Não só por causa do miojo partido, da insegurança alimentar, nem porque 15% das famílias da comunidade foram afetadas pelo feminicídio e 83% pela violência de gênero e suas mais variadas nuances.</p>



<p>O caso dela, estaria nas estatísticas do Censo do <a href="https://coletivosargentoperifa.com/">Coletivo de Mídia Independente Sargento Perifa</a>, no percentual de 32% que corresponde a 99 famílias do Córrego do Sargento que perderam pessoas para a violência urbana, não que ela fosse a vítima direta, nesse caso, seu filho, Richard, 15 anos, foi o preto assassinado. A morte dela foi ocasionada pela dor da perda, dor esta que lhe deu desânimo para caminhar 6 km e ir até o Córrego da Jaqueira, no mesmo bairro, ser atendida pelo posto de saúde e descobrir o diagnóstico que ceifou sua vida em tempo precoce.</p>



<p>Quando o assunto é fatalidades, <a href="https://lab.thinkolga.com/wp-content/uploads/2023/10/LAB-Esgotadas-4out-1.pdf">mortes de entes queridos são responsáveis por 45% do adoecimento mental de mulheres</a>, mas Camila, além da perda do filho, também foi atravessada pelo racismo e suas mais variadas nuances, que ocasiona a negligência do Estado em fornecer o básico para uma comunidade periférica onde negros, para estatísticas boas ou ruins estão sempre no topo das notícias.</p>



<p>A comunidade do Córrego do Sargento está localizada em Linha do Tiro, bairro de quase 15 mil habitantes situado na zona norte do Recife, composto 70,37% de negras e negros e 52,8% de mulheres. Desse grupo, 372 famílias residem no Córrego do Sargento. Em outubro de 2024, o Censo do Sargento Perifa entrevistou 306 representantes de famílias da comunidade. Perguntados sobre acesso ao posto de saúde, um total de 169 (64,4%) famílias afirmou não ter. Além disso, moradores consideram que a comunidade não possui área de lazer (90,2%), nem cultura (73,5%), nem creche (39,9%). Também não há escola nem parque, apenas uma igreja evangélica, a sede do Coletivo Sargento Perifa e uma praça criada pelos próprios moradores.</p>



<p>Tudo é fora do Córrego do Sargento e se para o atendimento básico de saúde, as pessoas precisam caminhar quase dois quilômetros até o Córrego da Jaqueira, Unidade de Saúde da Família disponibilizada para atender também a essa comunidade no bairro, quando o assunto é atendimento psicológico, a assistência é zero.</p>



<p>“Eu nunca vou entender isso. Ela estava com um caroço enorme no pescoço, mas o caixão veio fechado. A declaração foi de tuberculose. Eu tanto que falava: ‘Camila, vamos ao médico para ver isso?’. E ela não tinha ânimo pra nada. Para mim ela se entregou”, relata Carolina.</p>



<p>Camila faleceu no Hospital Otávio de Freitas, depois que se deitou no chão da emergência e gritava pedindo que lhe dessem ao menos soro, porque não conseguia se alimentar.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/03/Corrego-do-Sargento-1-103x300.png">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/03/Corrego-do-Sargento-1-351x1024.png">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/03/Corrego-do-Sargento-1-351x1024.png" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading">Madalena: o câncer, a solidão e o medo</h3>



<p>Hospital Universitário Oswaldo Cruz, Recife, 10 de maio de 2024, 12h33:</p>



<p>— Comecei. [choro]</p>



<p>— Tá chorando?</p>



<p>— Tô</p>



<p>— Oxe, vai dar tudo certo, menina. Deus está no controle. Calma!</p>



<p>— Tá.</p>



<p>— Doi?</p>



<p>— Só uns beliscões na mão, mas a dor é mais pelo medo do que pelo procedimento de agora.</p>



<p>Enquanto escuto os bips da máquina da quimioterapia, Madalena chora. Sozinha, enrolada em sua colcha piel de pato, com meia nos pés para conter o frio e com o braço esquerdo, onde recebe o remédio, totalmente coberto. Estamos separadas por uma parede, mas conectadas via <em>WhatsApp</em>.</p>



<p>A conversa marca sua primeira vez na sala de tratamento e no seu caso, as sessões são infinitas. Algo paliativo, que não vai permitir que lhe caiam os cabelos, mas vai descamar sua pele, lhe gerar enjoos perturbadores, dores intensas nos pés e nas pernas e um desmaio em casa, dois dias após essa conversa, na frente de sua mãe e filha, que posteriormente vão gritar desesperadas pensando que ela terá morrido.</p>



<p>Madalena Oliveira, 36, é moradora do município de Abreu e Lima, cidade da Região Metropolitana do Recife, com 98.462 habitantes, dos quais 51.508 são mulheres. Negra, mãe solo e principal provedora de seu lar, em março de 2024 foi diagnosticada com um câncer no reto, que passou para o intestino, depois para o baço e pulmão e também tomou conta de sua região pélvica. O quadro metastático lhe gera insônia e angústia. A vaidade briga com sua aparência que agora, em março de 2025, depois da cirurgia no intestino, lhe afastou da quimioterapia por dois meses e lhe devolveu alguns quilos a mais. De “brinde”, uma bolsa de colostomia vai lhe acompanhar até seu último dia de vida.</p>



<p>A quimioterapia lhe formiga o braço e lhe dá vontade de morrer, causa isolamento e o desejo de se esconder. De 21 em 21 dias, após cada procedimento, sendo 7 dias sem comer e nem beber água. Durante esse período, abastecida apenas por soro, quando a dor nos pés e pernas ficam insuportáveis, a morfina é sua maior aliada.</p>



<p>Madalena é o retrato de 50,5% das mulheres com câncer no país, conforme a pesquisa realizada em 2023, pela <a href="https://rbc.inca.gov.br/index.php/revista/article/download/3700/2644/26217">Revista Brasileira de Cancerologia</a>. O câncer de cólon e reto é o segundo mais frequente (9,7%) no grupo, perdendo apenas para o câncer de mama feminina(30,1%).</p>



<p>O diagnóstico de Madalena também ilustra outra realidade no Brasil, de que doenças físicas como o câncer, provocam transtornos mentais aos pacientes, segundo <a href="https://lab.thinkolga.com/wp-content/uploads/2023/10/LAB-Esgotadas-4out-1.pdf">o Instituto Think Olga</a>. Apesar disso, o posto de saúde no município de Abreu e Lima, onde Madalena é atendida, desde novembro de 2024, a mantém na fila de espera, para atendimento psicológico, sem nenhuma previsão de agendamento.</p>



<p>“Acredito que minha saúde mental nunca mais foi a mesma e nunca será. É muito difícil encontrar profissionais de saúde na área de psicologia, pois pelo SUS demora meses para você conseguir agendar uma consulta. Só fui atendida uma vez e depois disso, nunca mais. Minha experiência em relação a essa única consulta: no início eu ficava me perguntando sobre o motivo de estar ali e o que isso iria mudar na minha vida. Para mim, nada, pois não mudaria meu diagnóstico e muito menos me traria a cura. Mas depois que conversei me senti muito aliviada, foi como se eu tivesse tirado um peso enorme de cima de mim”, narra Madalena.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><i><span style="font-weight: 400;"><strong>*</strong>Reportagem produzida a partir do edital Vozes de Impacto: Jornalismo investigativo sobre direitos humanos e democracia, promovido pela</span></i><a href="https://fiquemsabendo.com.br/"> <i><span style="font-weight: 400;">Fiquem Sabendo</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> em parceria com a</span></i><a href="https://www.gov.uk/world/organisations/british-embassy-brazil.pt"> <i><span style="font-weight: 400;">Embaixada Britânica</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> no Brasil.</span></i></p>
<p><em><span style="font-weight: 400;">Coordenação Editorial: Maria Vitória Ramos</span></em></p>
<p><em><span style="font-weight: 400;">Análise de dados: Igor Laltuf</span></em></p>
<p><em><span style="font-weight: 400;">Revisão textual: Taís Seibt</span></em></p>
<p><em><span style="font-weight: 400;">Mentoria: Marta Alencar</span></em></p>
    </div>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/a-dificuldade-das-mulheres-da-periferia-de-acessar-servicos-de-saude-mental/">A dificuldade das mulheres da periferia de acessar serviços de saúde mental</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/a-dificuldade-das-mulheres-da-periferia-de-acessar-servicos-de-saude-mental/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
