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	<title>Arquivos sertão pernambucano - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Thu, 22 Feb 2024 14:03:18 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos sertão pernambucano - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>No sertão, enterrar umbigo dos recém-nascidos é plantar esperança</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jan 2024 18:32:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
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		<category><![CDATA[cultura popular]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Géssica Amorim, do Coletivo Acauã Quilombo Teixeira, zona rural de Betânia, Sertão do Moxotó, Casa de Dona Dora, 12 de janeiro de 2024: – Quando a criança está madura, nascendo no tempo certo, a liturgia é essa: ir até a casa da mulher que vai ganhar o neném, olhar pra ela, sentir a barriga, [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Géssica Amorim, do <a href="https://www.instagram.com/coletivoacaua?igsh=MWo4d3d3cXczbXN0Mg==" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Coletivo Acauã</a></strong></p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Coletivo Acauã</p>
	                
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<p>Quilombo Teixeira, zona rural de Betânia, Sertão do Moxotó, Casa de Dona Dora, 12 de janeiro de 2024:</p>



<p>– Quando a criança está madura, nascendo no tempo certo, a liturgia é essa: ir até a casa da mulher que vai ganhar o neném, olhar pra ela, sentir a barriga, ver se a criança tá na posição certa, ir massageando, acalmando a mãe, e a criança vem sem muita dificuldade. Quando ela nasce, a gente mede três dedos a partir do umbigo e corta o cordão. O pedaço que fica na criança, o coto umbilical, a gente amarra. Quando a placenta sai do útero, a gente enterra em algum lugar perto da casa da mãe, mesmo. Uns sete dias depois, o coto cai e é do costume enterrar também.</p>



<p>– Mas o povo enterra pra quê, Dona Dora? Por quê?</p>



<p>– Isso que resta do parto, você pergunta, né?</p>



<p>– Sim, a placenta, e, depois, o coto umbilical. Por que enterrar?</p>



<p>– A placenta, a gente enterra pra não jogar em qualquer canto, de qualquer jeito. Assim, os bichos brutos não mexem, não vão lá comer. O coto, que a gente chama mesmo de umbigo, tem quem diga que é pros ratos não comerem e acontecer de a criança crescer malina, mexendo no que é dos outros, dando até pra roubar.</p>



<p>– E, pra isso não acontecer, basta enterrar em qualquer lugar?</p>



<p>– Bom, aí, quem sabe é o pai ou a mãe. Se a criança já for grande, ela também pode escolher o canto. Mas o povo tem os lugares certos, sabe? É como uma simpatia, você entende? Tem gente que escolhe a porteira de uma fazenda ou de um curral, pra criança ser fazendeira quando crescer. Enterra no terreiro de uma escola, pra ser estudiosa. No pé de uma roseira, pra crescer bonita, e assim vai.</p>



<p>– A senhora acredita?</p>



<p>– Eu não! Tive 16 filhos e nunca enterrei o umbigo de nenhum. Nem sei que fim levaram. Até hoje, ninguém aqui de casa deu pra roubar. E, por aí, eu também nunca vi essa ruma de fazendeiro que devia ter se criado por aqui. É tudo invenção, mesmo.</p>



<p>– E de onde é que vem tudo isso, Dona Dora? De onde vem esse costume?</p>



<p>– Minha filha, quem fez primeiro, e a razão, eu não alcanço pra dizer. É coisa muito antiga, não sei quem sabe explicar. Já nasci vendo os outros fazendo.</p>



<p>Mais cética do que eu poderia imaginar, a parteira e agricultora aposentada Maria das Dores de Jesus, 79, conhecida como Dora, habitante do Sítio Teixeira, uma das comunidades quilombolas do município de Betânia, me falou sobre a condução do trabalho de um parto normal e sobre as possibilidades de destinos para dar aos seus resíduos &#8211; principalmente ao coto umbilical, que costuma se desprender do umbigo do bebê pelo menos sete dias após o parto.</p>



<p>Na barriga de quem está gerando um bebê, o cordão umbilical é a principal ligação física entre a pessoa gestante e a criança. Ele é fundamental para o desenvolvimento saudável e suporte vital do feto. Com o seu nascimento, já podendo respirar e se alimentar sem a necessidade da placenta e cordão umbilical, o coto não teria mais tanta utilidade. No entanto, desde muito tempo e para muita gente, enterrá-lo é parte de um ritual cercado de simbolismos e crenças que sustentam uma tradição popular brasileira: enterrar o umbigo de uma criança &#8211; dependendo do local escolhido &#8211; pode, de alguma maneira, influenciar o desenvolvimento da sua personalidade e o seu futuro.</p>



<p>A pedagoga Mailza Costa, também moradora do Quilombo Teixeira, conta que o umbigo do seu filho Dhonatas Samuel (foto de abertura), de 11 anos, foi enterrado ao lado de um xique-xique, espécie  de cacto que, assim como as demais, consegue se adaptar e sobreviver em ambientes secos. O xique-xique é arbustivo,  tem o caule ramificado acima da sua base e, geralmente, se desenvolve em afloramentos rochosos e solos areno-pedregosos. No período de estiagem severa, com a remoção dos seus espinhos, costuma ser utilizado na alimentação de muitos animais e chega a ser consumido por humanos. </p>



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	                                        <p class="m-0">Laísa Magalhães. Crédito: Acervo pessoal</p>
	                
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<p>“Quando Samuel completou sete anos, eu decidi enterrar o umbigo dele. Como ele já estava grandinho, ele foi com o meu marido procurar um lugar pra fazer isso. O lugar escolhido foi ao lado de um pé de xique-xique. Dá pra ver aqui de casa. Pelo que diz o costume, eu torço para que ele cresça forte, protegido e saiba se adaptar ao que encontrar de dificuldade na vida, assim como o cacto”, conta Mailza.</p>



<p>Em dezembro de 2023, a produtora cultural Laísa Magalhães, de Serra Talhada, no sertão do Pajeú, enterrou o umbigo da filha Açucena, que acabava de completar três meses de vida. O local escolhido foi ao pé de uma bananeira, no sítio dos seus avós, na zona rural de Ipubi, outro município pernambucano a mais de 250 quilômetros e três horas de viagem. “Eu enterrei o umbigo dela em um pé de bananeira porque dizem que dá dinheiro”, brinca Laísa.</p>



<p>“Na verdade, eu sempre ouvi falarem a respeito dessa coisa de enterrar o umbigo das crianças e, quando engravidei, fui atrás de pesquisar sobre os porquês. Tem quem diga, por exemplo, que é pra prender a pessoa ao lugar onde o seu umbigo foi enterrado, mas isso não bastava pra fazer sentido pra mim. Eu alcancei um outro significado, algo maior, que tem relação com as minhas origens. A minha mãe faleceu quando eu tinha quatro anos. Açucena veio para me dar um amor que foi tirado de mim, que é o amor entre mãe e filha. Enterrei o umbigo dela entre as bananeiras do sítio onde a minha mãe nasceu porque enxerguei nisso uma forma de me reaproximar dela e superar o meu luto. Pra mim, foi como plantar a possibilidade para que o nosso amor cresça sem as dores do meu passado ”.</p>



<p>Sítio dos Nunes, Flores, Sertão do Pajeú, casa de Maria de Fátima, 13 de janeiro:</p>



<p>– Mãe, onde foi que a senhora enterrou o meu umbigo?</p>



<p>– Géssica, aqui mesmo, em Sítio. Acho que foi bem no quintal daquela casa, ali, onde Creuza mora. Aquela, que era de Zé de Adolfo. Eu morei lá uns meses, quando tu nasceu.</p>



<p>– E a senhora enterrou por quê?</p>



<p>– Porque o povo diz que tem que enterrar, pros bichos não comerem. Tem que enterrar.</p>



<p>– Só por isso? A senhora acredita?</p>



<p>– Eu não sei mais a respeito disso, não. De primeiro, eu acreditava. Agora, não acredito mais. Mas, por via das dúvidas, o caba enterra.</p>



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	                                        <p class="m-0">Dona Dora, a parteira que não acredita no significado da tradição de enterrar umbigos. Crédito: Géssica Amorim/Coletivo Acauã</p>
	                
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		<title>Para bodegueiro no sertão pernambucano, melhor investimento é estocar milhares de litros de Pitú</title>
		<link>https://marcozero.org/para-bodegueiro-no-sertao-pernambucano-melhor-investimento-e-estocar-milhares-de-litro-de-pitu/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Nov 2023 13:26:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Géssica Amorim, do Coletivo Acauã Há quem possa e queira fazer seu dinheiro render fazendo aplicações nas variadas opções de investimentos com riscos mais ou menos elevados, como planos de previdência privada, ações na bolsa de valores, fundos imobiliários, tesouro direto e moedas e bancos digitais. Já o comerciante Edivaldo Paiva Ferreira, 78, morador do [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Géssica Amorim, do <a href="https://www.instagram.com/coletivoacaua/?igshid=MWo4d3d3cXczbXN0Mg%3D%3D" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Coletivo Acauã</a></strong></p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Coletivo Acauã</p>
	                
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<p>Há quem possa e queira fazer seu dinheiro render fazendo aplicações nas variadas opções de investimentos com riscos mais ou menos elevados, como planos de previdência privada, ações na bolsa de valores, fundos imobiliários, tesouro direto e moedas e bancos digitais. Já o comerciante Edivaldo Paiva Ferreira, 78, morador do distrito de Sítio dos Nunes, em Flores, no sertão pernambucano, prefere investir o seu dinheiro em Pitú. </p>



<p>A cachaça pernambucana, produzida em Vitória de Santo Antão desde 1938, é vendida pelo bodegueiro (como Edivaldo gosta de ser chamado) há mais de 50 anos e ele garante que guarda, nos poucos metros quadrados da sua bodega e depósito de bebidas, mais de R$ 70 mil da bebida, que, segundo ele, dá mais quatro mil litros de aguardente.</p>



<p>E não adianta fazer a conta, multiplicar, por cima, o preço da garrafa pela quantidade de cachaça que Edivaldo garante possuir, porque, no seu bar, os preços variam de acordo com a data de fabricação da bebida. Entre as tantas garrafas e latinhas de Pitú comercializadas por ele, muitas estão armazenadas há mais de 15 anos, no mínimo.</p>



<p>“É porque eu gosto de estoque. Toda vida eu gostei de comprar mercadoria e guardar. Dinheiro, meu, é empregado em mercadoria, mesmo. Eu nunca paro de comprar. Hoje, eu vendo uma garrafa nova de Pitú por R$ 12, mas eu tenho garrafa, aqui, guardada há 17 anos. São as que eu vendo por R$ 65 e tenho certeza que, dessas, passam dos 2 mil litros aqui. Delas, vendi pra muitos lugares do Brasil.&nbsp; Já passaram por aqui compradores do Tocantins, do Paraná, do Pará, Maranhão e Brasília. Pouca gente vende Pitú tão antiga quanto eu”, argumenta o bodegueiro.</p>



<p>Nas prateleiras da bodega de Edivaldo é possível identificar rótulos de outras cachaças à venda, mas é evidente a sua preferência&nbsp; pela Pitú. “Aqui, eu também tenho a Serra Grande, a 51 e a Caranguejo, mas eu gosto de empregar o dinheiro na Pitú. Em 12 de dezembro, agora, vai fazer 13 anos que eu ganhei um caminhão F4000 e troquei por duas casas com 20 mil reais de torna [de retorno].&nbsp; Na época, eu peguei esse dinheiro e comprei todo dela [a cachaça Pitú]. Não tem jeito, quando sobra um trocado, eu emprego nisso. Eu ainda deixo uma reservinha no banco, pra um caso de doença ou de morte, mas continuo comprando”.&nbsp;</p>



<p>Nas modalidades mais comuns de aplicações financeiras, é relativamente simples resgatar o dinheiro aplicado, mesmo com prazos de resgate distintos. Em alguns casos, como os de investimentos de liquidez diária, em que não é necessário esperar uma data específica para resgatar o dinheiro investido,<strong> </strong>basta solicitar o resgate ao banco ou corretora de valores e as instituições cuidarão de todo o processo para que o dinheiro retorne a quem fez o investimento. Com Pitú não é bem assim.</p>



<p>Quando perguntado sobre o que poderia fazer, caso precisasse resgatar o dinheiro que investiu em Pitú, Edivaldo garante que isso seria simples, mesmo não sendo tão movimentado o comércio do distrito onde mora. “Basta eu botar uma promoção, que isso aqui vai embora ligeiro. O movimento por aqui [em Sítio dos Nunes], hoje, comparando com o que já foi, é pouco, mas essa é uma coisa fácil de vender. Em todo canto, vai ter alguém que queira comprar se eu oferecer”.</p>



<p>Edivaldo vive sozinho. Os seus dois filhos moram em outros estados e a sua esposa trabalha e mora no município vizinho, vindo lhe visitar aos finais de semana. A casa do bodegueiro é praticamente dentro do seu depósito. Entre os cômodos, não há divisórias para conter as caixas e garrafas que já começam a tomar parte da sala.</p>



<p>O ritmo e quantidade das compras de cachaça de Edivaldo chegam a preocupar os seus familiares. “Eu vou comprando e guardando tudo aqui. A gente arruma espaço em todo canto. Agora, pelo gosto dos meus meninos e da minha mulher, eu vendia tudo e fechava a bodega. Mas é o que eu gosto de fazer, com o que eu gosto de negociar. Meu nome é Edivaldo Paiva Ferreira, mas, em todo canto, eu sou conhecido como Edivaldo da Pitú. Não penso em parar de fazer o que eu faço antes de morrer”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Edivaldo prefere ser chamado de bodegueiro do que comerciante ou dono de bar. Crédito: Géssica Amorim/Coletivo Acauã</p>
	                
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		<title>O negócio, a festa e a tradição da pega de boi no sertão de Pernambuco</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Oct 2023 00:50:07 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Coletivo Acauã]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Géssica Amorim, do Coletivo Acauã Eu cresci ouvindo o meu pai falar com frequência e orgulho, durante os nossos encontros semanais, sobre a primeira e última pega de boi no mato que ele organizou na fazenda Boa Vista (zona rural do município de Betânia, Sertão do Moxotó), no início da década de 1990. Segundo [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Géssica Amorim, do <a href="https://instagram.com/coletivoacaua?igshid=MWo4d3d3cXczbXN0Mg==" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Coletivo Acauã</a></strong></p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Coletivo Acauã</p>
	                
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<p>Eu cresci ouvindo o meu pai falar com frequência e orgulho, durante os nossos encontros semanais, sobre a primeira e última pega de boi no mato que ele organizou na fazenda Boa Vista (zona rural do município de Betânia, Sertão do Moxotó), no início da década de 1990.</p>



<p>Segundo ele, foram três dias de festa com apresentações de trios de forró, muita comida, bebida e a participação de mais de 200 vaqueiros e outros muitos espectadores vindos de fazendas, povoados e municípios de quase toda a região. O boi solto no mato era branco e tinha o nome de Camambá. Por ali, era tido como um dos mais valentes e difíceis de pegar no embrenhado da caatinga. Representaria a glória de qualquer vaqueiro cujo laço lhe alcançasse os chifres.</p>



<p>Meu pai fazia parecer que, em todo o sertão, ninguém nunca havia feito uma festa tão grande, bonita e duradoura &#8211; e eu, por muito tempo, acreditei nisso. Ele sempre falava a respeito do assunto apoiado numa frágil garantia de que tudo teria sido filmado por alguém cujo nome ele não lembrava e que, na casa de um dos vaqueiros presentes na farra daqueles três dias, localizada no pé de serra mais distante de nós, estaria guardada uma fita VHS com imagens da grande pega de boi de Zé de Santa, na fazenda Boa Vista.</p>



<p>Era verdade &#8211; pelo menos, a existência da fita: em 2017, pouco tempo depois de eu ter voltado para Pernambuco, após cinco anos vivendo no Sudeste, meu pai apareceu na casa de minha mãe, em Sítio dos Nunes (distrito de Flores, Sertão do Pajeú), trazendo um <em>pendrive</em> com imagens do que seria um resumo da afamada pega de boi da Fazenda Boa Vista. O vaqueiro guardião da fita a converteu em arquivo digital, copiou os vídeos e presenteou alguns amigos da época com o empréstimo do dispositivo para que também fizessem cópias e guardassem os registros.</p>



<p>Plugando o pendrive à televisão, me impressionei com o que vi, enquanto meu pai, alegre, atestava o que, em muitas versões, há muito tempo, contava e descrevia sem muita sustentação. Para mim, foi um momento de resgate &#8211; não só dos arquivos das imagens (que, até aquele momento, ninguém acreditava que pudessem realmente existir), mas do que estive distante durante o tempo que passei fora de casa.</p>



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	                                        <p class="m-0">Organizar uma pega custa R$ 50 mil, mas o lucro é garantido. Crédito: Géssica Amorim/Coletivo Acauã</p>
	                
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<p>Eu acabava de voltar de um período muito tenso, cinza e de muita saudade no estado de São Paulo. Olhar com mais disposição e atenção para algo tão comum e natural entre os muitos signos que compõem o que há no nosso cotidiano e na realidade plural sertaneja, me conduziu para a reaproximação de algo de que eu precisei me distanciar para enxergar a sua totalidade.</p>



<p>A paisagem, as expressões, os hábitos, as conversas e as toadas registradas no vídeo que meu pai me mostrou são de outra época. As imagens foram feitas em 1992 e muita coisa mudou por aqui e no resto do mundo em 31 anos. No entanto, depois de tanto tempo, tudo isso foi determinante para que eu quisesse buscar e me diluir nesse processo de reconhecimento de território e identidade.</p>



<p>Já se passaram sete anos desde que voltei e comecei a frequentar, observar, fotografar e aproveitar inúmeras festas de pegas de boi no mato pelos sertões do Moxotó e Pajeú. A última em que estive presente ocorreu no dia 7 de outubro, na fazenda São Gonçalo (zona rural de Betânia), organizada pelo vaqueiro Alison Siqueira, conhecido na região como Neném.</p>



<p>O vaqueiro tem 27 anos e organiza pegas de boi no mato desde os 22. Segundo ele, o tempo de preparação para esse tipo de evento, hoje, é de no mínimo um ano. Durante o período, ele precisa juntar dinheiro para arcar com os custos do evento, que vão da alimentação dos vaqueiros e visitantes ao pagamento das premiações dos vencedores, incluindo também as atrações contratadas para animar a festa.</p>



<p>Basicamente, a organização de uma pega de boi funciona assim: o dono ou a dona da festa reúne amigos e familiares, escolhe o local para o evento, manda cercar o terreno, monta uma cozinha, um bar e uma bilheteria; abate alguns bois para o churrasco dos vaqueiros e de quem vem assistir, contrata atrações musicais para o forró da noite, escolhe e confina uma semana antes da festa os bois que serão soltos no mato no dia da pega. Tudo precisa estar bem alinhado e os horários precisam ser cumpridos com rigor.</p>



<p>Os vaqueiros vão chegando pela manhã e o almoço começa a ser servido às 11h &#8211; em algumas festas, um pouco mais cedo -, alguns organizadores também costumam oferecer café da manhã. Ao meio dia, o gado é solto na caatinga e, só uma hora depois, os vaqueiros têm permissão para sair em disparada. Eles voltam ao ponto de partida à medida em que vão conseguindo laçar e trazer os bois consigo. A busca pelos animais tem de acontecer até às 18h do mesmo dia.</p>



<p>Neném conta que os gastos com a festa chegam a quase 50 mil reais, mas garante que, no final das contas, consegue uma margem de lucro satisfatória com o investimento. “A gente investe bastante nessas pegas de boi. Esse ano, eu calculo perto de 50 mil. A comida é à vontade, mas a gente cobra uma taxa na entrada, com a bilheteria, cobra a inscrição dos vaqueiros que vão pro mato e vende a bebida aqui no bar que a gente monta todo ano. No final, consegue tirar um lucro em cima do valor investido e guardar um pouco pra próxima festa. Vale a pena”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Organizador da pega tem de garantir a carne para um dia todo de churrasco. Crédito: Géssica Amorim/Coletivo Acauã</p>
	                
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<p>As pegas de boi no mato realizadas no sertão atualmente, com essas proporções e configurações, têm uma origem ligada ao trabalho dos vaqueiros no campo &#8211; que até hoje existe e se mantém ativo. Por aqui, há algumas versões para contar como tudo começou, antes de ganhar o caráter de entretenimento e lazer que tem hoje. Uma das mais comuns diz que as pegas de boi vêm de uma época em que não existiam cercas delimitando as propriedades rurais onde fazendeiros e vaqueiros viviam. Assim, quando os animais desgarravam dos seus rebanhos e adentravam na caatinga, era necessário que os vaqueiros vestissem o gibão e se mobilizassem para trazê-los de volta.</p>



<p>No início desse ano, no mês de janeiro, os vaqueiros do município de Betânia fundaram a Associação Betaniense de Promotores de Pegas de Boi (ABPPB). Segundo a presidenta Taiza Magalhães, 28, que também organiza pegas de boi em uma das fazendas da região, a associação foi criada para a representação da classe dos vaqueiros, valorização da cultura local e para a busca de parcerias e contribuições privadas para a realização das pegas.</p>



<p>“A associação tem 26 integrantes e um calendário anual previamente definido para que os vaqueiros trabalhem no planejamento e realização das festas durante o ano todo, com mais espaço e facilidade. Por mês, até três pegas de boi são realizadas no território do município de Betânia. Isso auxilia numa melhor distribuição dos eventos durante esse período do calendário e também ajuda a manter viva a cultura das pegas de boi no município”, afirma Taiza.</p>



<p>Agora, as pegas de boi e muitos outros símbolos e elementos que se integraram ou voltaram a fazer parte do meu cotidiano, estão predominantemente impressos no meu trabalho jornalístico e fotográfico. Desde que comecei a circular com mais disposição e atenção pelos lugares por onde ando hoje, tenho internalizado muitas imagens e impressões.</p>



<p>Presto atenção na vaidade dos vaqueiros, que, ao voltarem do mato com o rosto cortado pelos garranchos, se orgulham do sangue correndo pela pele &#8211; sem tratar dos ferimentos ou sequer minimamente higienizá-los -, sinto falta de mulheres na disputa, buscando o gado no mato, dou atenção às músicas, vejo quem dança, circula e trabalha. Comparo as posturas, gestos e expressões com outras referências que carrego e vejo que tudo é muito parecido e, ao mesmo tempo, muito diferente.</p>



<p>Em casa, tenho me agarrado cada vez mais à certeza de que nada representa plenamente a realidade dos sertões, ao contrário do que parece para muita gente que vive fora daqui, acostumada a tipos, símbolos, imagens petrificadas, congeladas. Também tenho preservadas, em algum lugar de mim, as imagens mostradas pelo meu pai e muito do que tenho visto e escutado por aqui, na tentativa de não contaminar o meu olhar e a minha percepção com quaisquer expectativas que não dialoguem com a diversidade do que eu observo e com o que tento aprender a me relacionar com mais lucidez. Prossigo nessa viagem atenta pelo universo que compõe o lugar onde nasci.</p>





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		<title>A nova vida do vaqueiro Diogo</title>
		<link>https://marcozero.org/a-nova-vida-do-vaqueiro-diogo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Géssica Amorim]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Aug 2023 13:12:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Principal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Géssica Amorim, do&#160;Coletivo Acauã Faz pouco mais de três anos que o vaqueiro Diogo da Silva, 28 anos, deixou de competir em pegas de boi e festas de vaquejada pela região onde nasceu e foi criado, na zona rural de Betânia, município do Sertão do Moxotó, em Pernambuco. Na noite do dia 18 de [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Géssica Amorim, do</strong>&nbsp;<strong><a href="https://instagram.com/coletivoacaua?igshid=YmMyMTA2M2Y=" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Coletivo Acauã</a></strong></p>



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<p>Faz pouco mais de três anos que o vaqueiro Diogo da Silva, 28 anos, deixou de competir em pegas de boi e festas de vaquejada pela região onde nasceu e foi criado, na zona rural de Betânia, município do Sertão do Moxotó, em Pernambuco. Na noite do dia 18 de março de 2020, saindo da festa de aniversário de um amigo, ele sofreu um acidente de moto que o fez perder os movimentos das pernas e parcialmente dos braços e mãos.&nbsp;</p>



<p>Diogo estava alcoolizado, sem capacete e dirigindo em alta velocidade. Na saída da cidade, quando voltava para casa, no povoado Jatobazinho, perdeu o controle da moto, que derrapou na estrada e o arremessou a uma distância que ele não consegue precisar.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Além dele, ninguém mais ficou ferido. Os primeiros socorros foram prestados pela equipe de plantão do Hospital Professor Alcides Ferreira Lima, em Betânia, e, em seguida, Diogo foi encaminhado para o Hospital da Restauração, no Recife. Lá, ele ficou internado por 11 dias e precisou passar por uma cirurgia na coluna cervical, para a introdução de dois pinos de titânio na vértebra C7, que foi gravemente lesionada com o acidente. É no interior da cervical, localizada no pescoço, entre a parte inferior do crânio e superior do tronco, que está&nbsp; o canal vertebral por onde passa a medula espinhal, com ramificações nervosas responsáveis por comandar os nossos movimentos e sensações.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>Segundo relatório divulgado pelo Centro de informações sobre Saúde e Álcool (CISA), com base em dados do Ministério da Saúde, por ano, mais de 10 mil brasileiros morrem em acidentes de trânsito envolvendo álcool de direção. O relatório mostra que 10.887 pessoas perderam a vida em acidentes envolvendo motoristas embriagados em 2021. Uma média de 1,2 óbito por hora.&nbsp;</p></blockquote>



<p>A vida de Diogo se transformou. Só seis meses depois do acidente, com sessões de fisioterapia intensa, ele conseguiu recuperar a sensibilidade e movimento dos membros superiores. Hoje, o vaqueiro continua precisando utilizar uma cadeira de rodas para se locomover e não pode mais trabalhar e nem se dedicar às atividades das vaquejadas como antes. Apesar disso, Diogo reconhece que ter conseguido recuperar o movimento dos braços e mãos é uma grande vitória. “Eu não tinha força nem pra puxar um pano, ou colocar uma colher na boca. Graças a Deus, agora eu não dependo tanto das pessoas como antes”.&nbsp;</p>



<p>Há cinco anos, o vaqueiro é casado com a agricultora Nathalia dos Santos, 24, que na época do acidente não sabia, mas estava grávida de Miguel, o filho do casal, que completa três anos no próximo mês de outubro. Ela fala sobre as dificuldades que enfrentou depois do acidente do marido e durante o seu período de recuperação. “Foi um período difícil, de muita preocupação. A gente não esperava que isso tudo fosse acontecer. Eu estava grávida de Miguel e não sabia. Poderia até ter perdido os dois [Diogo e o filho Miguel] de uma vez só. Foi um momento muito doloroso. Hoje, posso dizer que nós vencemos e continuamos vencendo a cada dia, com esperança&nbsp; e fazendo o que está ao nosso alcance para vivermos bem”.</p>



<p>Impossibilitado de voltar a trabalhar no campo e de concorrer nas vaquejadas, Diogo vendeu o seu gibão e entregou o seu cavalo aos cuidados do seu pai, o vaqueiro Geraldo Manoel, de 60 anos. Com o tempo ocioso e tendo recuperado os movimentos dos braços e das mãos, o vaqueiro decidiu começar a trabalhar com o couro, material presente na indumentária de proteção dos vaqueiros e dos cavalos quando partem para a Caatinga.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A primeira peça fabricada por ele foi uma cinta de couro que ele desenhou e produziu pensando em como poderia se manter firme e com a postura ereta na sela, montado num cavalo. Segundo o vaqueiro, o tempo entre projetar e fabricar a peça foi de apenas um dia. Só foi necessário usar linha e agulha específicas para costurar o couro, fivelas de metal para prender a cinta ao corpo de Diogo e à sela, e duas camadas de um material estofado para tornar o uso da peça mais confortável.</p>



<p>A cinta envolve o tronco do vaqueiro e, presa à sela por quatro fivelas ajustáveis e unidas a quatro tiras de couro, o mantém firme e com confiança para montar. Para subir no cavalo, ele conta com a ajuda dos seus amigos e familiares. Conseguir montar de novo foi algo que devolveu alegria e disposição a Diogo. Sendo vaqueiro desde menino, ele fala de como foi difícil assimilar a ideia de que não pode mais andar e participar das pegas de boi como antes. “No início, o cabra fica impressionado,&nbsp; a cabeça fica meio bagunçada mesmo. A gente tem que ter uma natureza boa pra lidar com uma situação dessa. É difícil imaginar, mas hoje acredito que eu não sou mais vaqueiro, né? Agora, já não acho que sou. Eu estava sempre nas festas [de vaquejada], por aí. Não pegava nenhum boi, mas era bom estar por lá, encontrar o pessoal”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Géssica Amorim/Coletivo Acauã</p>
	                
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<p>Depois da primeira e bem sucedida experiência manuseando o couro, Diogo passou a produzir com o material acessórios e peças utilitárias para vaqueiros de toda a região. Desde que começou, a procura só tem aumentado. Ele produz peças como peitorais, perneiras, correias para esporas, cintos, luvas e cabeceiras para cavalos. “Tenho recebido muitas encomendas. Às vezes, não dá é tempo de fazer, o pessoal encomenda muito, graças a Deus”.</p>



<p>&nbsp;É comum encontrar Diogo todos os dias debaixo do alpendre da sua casa, no povoado Jatobazinho, trabalhando com as suas ferramentas e com o apoio de uma mesinha de madeira. Ele mesmo desenha, faz os cortes e costura as peças. Para conseguir atender à demanda das encomendas, recentemente ele começou a trabalhar com o amigo e vaqueiro Washington da Silva, conhecido na região como Grilo, de 25 anos, que também trabalha com couro.</p>



<p>O que Diogo recebe com a venda das peças que produz com o amigo, é usado para complementar a renda da casa, que também é mantida com o valor que o vaqueiro hoje recebe do Benefício de Prestação Continuada da <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8742.htm">Lei Orgânica da Assistência Social (BPC-Loas)</a>, que garante um salário mínimo mensal à pessoa com deficiência que comprove não possuir meios de prover a própria manutenção, nem de tê-la provida por sua família.&nbsp;</p>



<p>Sobre a recuperação dos movimentos das pernas de Diogo, os médicos não deram nenhuma certeza de que isso seria possível. De todo modo, Diogo foi orientado a manter a regularidade das sessões de fisioterapia. Desde os primeiros meses de recuperação do acidente, ele só pode contar com o atendimento de fisioterapeutas de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) em Betânia. Mas com a falta de profissionais para atender a demanda de pacientes no município, a frequência das sessões caiu. Diogo está há mais de três meses sem atendimento. “Vontade de andar, eu tenho, mas só Deus é quem sabe agora. Já faz mais de três meses que eu não vou [para a fisioterapia]. Eles tinham parado de atender, não sei o que aconteceu, mas quero continuar”.</p>



<p>A secretária de Saúde de Betânia, Aline Araújo, afirmou que o atendimento fisioterapêutico já foi normalizado nas duas Unidades Básicas de Saúde do município. “A gente tem atendimento normal nas duas unidades do município. Tanto no distrito de São Caetano, quanto na sede, em Betânia. Houve uma pausa em alguns atendimentos porque um dos profissionais pediu demissão por não conseguir conciliar o trabalho que realizava aqui com a demanda de trabalho que realiza em outros municípios. A pausa ocorreu só durante o período de contratação de outro profissional”, esclarece.</p>



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		<title>Conheça a Roda de São Gonçalo, uma festa para quitar as dívidas com o santo</title>
		<link>https://marcozero.org/conheca-a-roda-de-sao-goncalo-uma-festa-para-quitar-a-divida-com-o-santo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Géssica Amorim]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Feb 2023 22:42:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Principal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Géssica Amorim, em parceria com o Coletivo Acauã “Quem tiver suas promessas, pague antes de morrer. Porque nós não somos Jesus, que morreu e voltou a viver”. É assim que começa um dos cantos benditos que introduziram uma roda de São Gonçalo realizada na Vila Agrícola 5, na zona rural do município de Ibimirim, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Géssica Amorim, em parceria com o <a href="https://instagram.com/coletivoacaua?igshid=YmMyMTA2M2Y=" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Coletivo Acauã</a></strong></p>



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<p>“Quem tiver suas promessas, pague antes de morrer. Porque nós não somos Jesus, que morreu e voltou a viver”. É assim que começa um dos cantos benditos que introduziram uma roda de São Gonçalo realizada na Vila Agrícola 5, na zona rural do município de Ibimirim, a 337 quilômetros do Recife, no sertão pernambucano).&nbsp;</p>



<p>A festa é dedicada ao santo português <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Gon%C3%A7alo_de_Amarante" target="_blank" rel="noreferrer noopener">São Gonçalo de Amarante</a> &#8211; na verdade, oficialmente, um beato da igreja Católica &#8211; e costuma acontecer somente em ocasiões em que há pagamento de promessas de seus devotos, estando vivos ou não.&nbsp;</p>



<p>A roda festejada em Ibimirim foi arranjada pela família de dona Eunice Moura, agricultora aposentada que faleceu antes de conseguir pagar uma promessa que tinha com o santo. Ela partiu de repente, vítima de um acidente vascular cerebral e teve o pagamento da sua promessa garantido pelos seus familiares num ritual de música e dança, no terreiro da casa onde vivia, com a presença de boa parte dos moradores da comunidade.&nbsp;</p>



<p>Gonçalo de Amarante foi um missionário festeiro, que gostava de música e rodas de viola. Atualmente, é tido como santo de todas as causas, principalmente às relacionadas à cura de doenças, mas já foi conhecido, especificamente, como um santo casamenteiro e padroeiro dos violeiros e das prostitutas. Historiadores contam que no século XI, em Amarante, cidade portuguesa localizada ao Norte do país, Gonçalo usava a sua viola para espalhar o evangelho pelas ruas e, aos sábados, costumava ir a prostíbulos tentar ocupar o tempo das mulheres tocando viola e as fazendo dançar a noite inteira. Ele acreditava que, cansadas da dança da noite anterior, não teriam disposição para se prostituir aos domingos. Nessas ocasiões, o santo colocava pregos em seus sapatos, para não esquecer do real objetivo de suas ações enquanto tentava converter mulheres que, para a igreja, viviam em pecado.</p>



<p>A roda de São Gonçalo de Amarante é vista como um acerto de contas entre o santo e o promesseiro beneficiário de alguma graça. Para celebrar e agradecer o pedido atendido, a festa é organizada como forma de pagamento ao santo, que, segundo os seus devotos, além de festeiro, é muito exigente.&nbsp;</p>



<p>O ritual começa com uma refeição, oferecida por quem paga a promessa, aos integrantes da roda que vêm participar do “pagamento”. Em seguida, com todos dispostos no terreiro, a dança é embalada por pelo menos 12 canções e 12 coreografias diferentes que são chamadas de &#8220;jornadas&#8221;. Cada jornada tem um nome específico, que pode sofrer variações, dependendo da região em que a festa é celebrada.&nbsp;</p>



<p>Em Ibimirim, no sábado, 4 de fevereiro, os festeiros da roda que acompanhamos cantaram e dançaram 12 jornadas com os nomes de “currupi”,&nbsp; “jornada da cruz”, “planta de feijão”, &#8220;trancelim de vara”, “dois ombros”, “um ombro só”, “jornada da venda”, “jornada do casamento”, “dança da toalha”, &#8220;trancelim de roda”, “margarida” e “dança do pilão”. O nome de cada uma pode ter relação com os passos das coreografias, com as letras das músicas cantadas ou com algum pedido que pode ser feito ao santo, geralmente relacionado à lavoura dos agricultores ou ao desejo que alguém pode ter de se casar.&nbsp;</p>



<p>Para cumprir cada jornada, o grupo se organiza em duas fileiras voltadas para o altar onde é colocada uma imagem de São Gonçalo. Uma fila é composta por homens e outra composta por mulheres. Cada uma é liderada e dirigida por um violeiro, um mestre e um contramestre que ditam os passos da dança.&nbsp;</p>



<p>A roda deve ter, pelo menos, 16 participantes e cada jornada pode durar mais de meia hora, a depender do número de integrantes e da execução dos passos de cada coreografia. Se houver algum erro na sequência dos passos, a jornada precisa recomeçar, até que seja cumprida com perfeição &#8211; o que seria uma exigência do santo.&nbsp;</p>



<p>O pagamento de uma promessa feita a São Gonçalo de Amarante gera para o promesseiro um gasto financeiro considerável, já que é necessário arcar com as despesas do deslocamento e alimentação do grupo que irá compor a roda, além da compra de velas e fogos de artifício que são estourados ao final de cada jornada.&nbsp;</p>



<p>O grupo que dançou na roda de São Gonçalo organizada pela família de dona Eunice, em Ibimirim, é composto por integrantes de diferentes povoados do município e de uma cidade próxima, Tupanatinga. Viajando pela PE-336, os 64 quilômetros entre as duas cidades pode ser vencida em uma hora e meia. Mas, no dia da festa, saindo de Tupanatinga e passando pelos povoados de Canela e Jirau, para reunir todos os integrantes da roda e seguir para a Vila Agrícola 5 em Ibimirim, em estrada de chão, a viagem durou três horas.</p>



<p>Uma das filhas de dona Eunice Moura, a autônoma Claudenice Moura, de 46 anos, mora em São Paulo e aproveitou as férias para vir a Ibimirim pagar a promessa da mãe. É a primeira vez que ela participa de uma roda de São Gonçalo, e já como pagadora. “Ela [sua mãe] faleceu de repente e ficou devendo essa promessa. Nós, os filhos dela, nos reunimos como foi possível para pagá-la. Quem mora fora e pode vir, veio ajudar a organizar. Como é a primeira vez que a gente faz essa festa, nós ficamos meio perdidos no começo, mas deu tudo certo. Fizemos os contatos, reunimos os integrantes da roda e fizemos o jantar para receber todo mundo. Tenho certeza de que a nossa mãe está feliz e em paz, agora, com a realização dessa festa”, conta.</p>



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	                                        <p class="m-0">Os participantes da gesta vieram de diferentes povoados de Ibimirim. Crédito: Géssica Amorim/Coletivo Acauã</p>
	                
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>O santo é bom, mas é exigente</strong></h2>



<p>Segundo o agricultor aposentado e mestre de roda de São Gonçalo Gerônimo de Oliveira, 75, popularmente conhecido pela região como Seu Geruzo, quem morre sem pagar uma promessa feita a São Gonçalo tem uma grande dívida com o santo até a realização da festa. “São Gonçalo é um santo muito bom, não tem pedido que ele não atenda. Mas o camarada também tem que pagar a promessa que fez, de organizar a dança. Se não fizer a festa, fica em agonia, sofrendo. Pode até perturbar os vivos. Por isso, é importante pagar direito. Quem morre antes de pagar, deixa a dívida pra família e os que ficam pagam por quem morreu. Se a família não souber da promessa, o morto pode vir em sonho pedir”, explica o mestre, que lidera rodas de São Gonçalo há mais de 30 anos.</p>



<p>A tradição da roda de São Gonçalo de Amarante chegou ao Brasil com os colonizadores. O primeiro registro da festa no país seria de 1718, em Salvador, na Bahia. Hoje, apesar de não ser muito conhecida do público urbano, a celebração pode ser encontrada em praticamente todas as regiões do país, principalmente no Nordeste, com suas particularidades e semelhanças variando de estado para estado.</p>



<p>Nas manifestações religiosas populares dos devotos, não há uma data fixa para homenagear São Gonçalo. Os fiéis não fazem romarias e nem festas para o santo anualmente, como acontece em memória e celebração de outros padroeiros. Apenas oferecem a festa, como pagamento pelas graças alcançadas, cumprindo a parte do trato feito com o santo.&nbsp;</p>



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	                                        <p class="m-0">A festa tem 12 jornadas ao som de 12 diferentes canções. Crédito: Géssica Amorim/Coletivo Acauã</p>
	                
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		<title>Homens viajam para arrumar trabalho e mulheres quilombolas ficam pra cuidar da lavoura, da casa e dos filhos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Géssica Amorim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jun 2022 21:02:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Principal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Todos os anos, mais da metade dos homens do Quilombo Teixeira que estão na faixa etária considerada como &#8220;economicamente ativa&#8221; viajam para trabalhar com o corte de cana em engenhos dos estados de Alagoas, Bahia e Rio de Janeiro. Esta comunidade quilombola, na zona rural de Betânia, no sertão de Pernambuco, a 349 quilômetros do [&#8230;]</p>
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<p>Todos os anos, mais da metade dos homens do Quilombo Teixeira que estão na faixa etária considerada como &#8220;economicamente ativa&#8221; viajam para trabalhar com o corte de cana em engenhos dos estados de Alagoas, Bahia e Rio de Janeiro. Esta comunidade quilombola, na zona rural de Betânia, no sertão de Pernambuco, a 349 quilômetros do Recife, é formada por pouco mais de 90 famílias.&nbsp;</p>



<p>São seis, sete, até nove meses longe de casa. Entre os homens, praticamente, só permanecem em Teixeira as crianças, os aposentados e quem tem a sorte de possuir um emprego fixo em algum outro lugar do município. As mulheres que são casadas com cortadores de cana também permanecem na comunidade e trabalham sozinhas, cuidando dos filhos, da casa, dos animais e da roça.&nbsp;</p>



<p>São os casos das agricultoras Josefa Eva, de 38 anos, Josielma dos Santos (conhecida como Nelma), 32, e Maria das Graças (conhecida como Pretinha), de 44. Casadas com agricultores que trabalham com o corte de cana e, de segunda a sexta, também precisam se dedicar a uma jornada de trabalho intensa e pesada.&nbsp;</p>



<p>Josefa Eva é agricultora desde criança, sempre trabalhou plantando e colhendo. Quando casou com Josias Manoel, 41, há mais de 20 anos, além de continuar trabalhando na roça, passou a ser responsável por cuidar das três filhas do casal, dos animais que pertencem a eles e da casa. Josias começou a trabalhar cortando cana no final da década de 90 e, de lá para cá, só passou um ano inteiro em casa. O engenho para onde ele costuma viajar fica localizado no estado de Alagoas, no município de Coruripe, a pouco mais de 80 quilômetros de Maceió.</p>



<p>“Vou pra roça de carro de boi, de moto. Antes, ia a pé. O período que ele [Josias] viaja é difícil porque a gente faz tudo sozinha, né? É bastante coisa pra dar conta, é bem complicado. Mas, ele precisa se deslocar para trabalhar. Aqui não tem emprego fixo pra ninguém”, conta Josefa.</p>



<p>Este ano, Josias Manoel deve viajar para passar pelo menos 9 meses longe de casa. Pela segunda vez, em quase duas décadas de casamento, Josefa deve acompanhá-lo. Marta, a filha mais nova, de 10 anos, vai viajar com o casal. As outras duas, Jamile e &nbsp;Josiérica, de 13 e 17, ficarão com as tias, irmãs de Josefa. Os animais também ficarão sob responsabilidade de familiares da agricultora.&nbsp;</p>



<p>Bem perto da casa de Josefa, mora a agricultora Nelma. Ela é casada com Aelson João, 35, há mais de 12 anos. Ele também sempre trabalhou com o corte de cana e deve viajar para Pindorama (outro município de Alagoas) em setembro deste ano e ficar por lá por pelo menos seis meses.&nbsp;</p>



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	                                        <p class="m-0">Quando o marido está fora, jornada de Nelma começa de madrugada. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>&nbsp;O casal tem dois filhos: Adryan e Andrey, de 11 e cinco anos. Nelma nunca chegou a acompanhar o marido. Durante todo o tempo de casada, permaneceu vivendo e trabalhando no quilombo Teixeira. O seu filho mais novo é autista, foi diagnosticado aos três anos. A agricultora conta que, dentro da sua rotina, precisa se dedicar principalmente ao acompanhamento médico do filho. “Eu nunca fui com ele [Aelson] porque tem muita coisa aqui pra fazer. E o meu filho mais novo é autista. Além de todo o trabalho que tenho na roça, com os bichos e em casa, preciso cuidar dele. Do tratamento dele. Não posso viajar e deixar ele aqui &#8211; coisa que nunca nem pensei”.</p>



<p>Todos os dias, Nelma acorda às cinco da manhã e enfrenta uma jornada bastante cansativa. “Levanto cinco horas. Faço café e solto as cabras no mato. Depois, levo os meninos pra escola e vou pra roça. Mais tarde, volto em casa pra fazer o almoço e buscar eles. Arrumo a casa e, quando precisa, volto pra roça de novo. Quando chego em casa de vez, é hora de recolher as cabras e me preparar pra dormir com os meninos. É uma correria”.</p>



<p>Esse ano a chuva chegou tarde no quilombo Teixeira. A água veio muito tempo depois do plantio. Quem conseguiu colher, colheu pouco. Numa quantidade insuficiente para o consumo até a próxima safra.&nbsp;</p>



<p>&nbsp;Josefa e Nelma ainda conseguiram tirar da terra um pouco de milho e feijão, mas a agricultora Pretinha não teve a mesma sorte. A sua roça não deu nada esse ano. Em março, antes de viajar para cortar cana em um engenho de São Francisco do Itabapoana (interior do Rio de Janeiro), o seu marido, Carlos Rosa, 47, ainda preparou a terra para o plantio, mas o sol queimou o que estava brotando.&nbsp;</p>



<p>Pretinha e Carlos estão casados há 20 anos e têm dois filhos e uma neta. Josielson, 25, viajou para o Rio de Janeiro para trabalhar com o pai. Com Pretinha, ficaram Jaqueline, 23, e a sua filha Maria Liz, de 3 anos. Como outras agricultoras, Pretinha também precisa cuidar da terra, dos animais, da casa e da neta, quando a sua filha precisa se ausentar.&nbsp;</p>



<p>No quilombo Teixeira, a rotina das mulheres cujos maridos precisam se deslocar para trabalhar com o corte de cana em outras cidades e estados é, praticamente, a mesma. Nitidamente, há um grande acúmulo de funções na vida e no trabalho dessas mulheres. “Por aqui, o agricultor vive no meio do mundo. As mulheres ficam em casa, cuidando de tudo. É difícil quando um filho adoece e a gente tem que cuidar sozinha, além de dar conta de todas as outras coisas. No inverno, nós temos que plantar, capinar e colher. Eles deixam só a terra arada e o resto é a gente quem faz. É muito difícil”, conta Pretinha.&nbsp;</p>



<p>Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) de 2020, as mulheres que trabalham dedicam cerca de 18,5 horas todos os dias para realizar tarefas domésticas e cuidar de pessoas da família, especialmente dos filhos. Já com relação aos homens empregados, a pesquisa mostra uma dedicação de 10,4 horas para essas atividades. A diferença é de mais de oito horas.</p>



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	                                        <p class="m-0">Josias Manoel deve ficar pelo menos nove meses longe de Teixeira. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo</p>
	                
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		<title>Coletivo Acauã é a nova iniciativa de jornalismo independente no interior de Pernambuco</title>
		<link>https://marcozero.org/coletivo-acaua-e-a-nova-iniciativa-de-jornalismo-independente-no-interior-de-pernambuco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 May 2022 17:26:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
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		<category><![CDATA[sertão pernambucano]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Acauã foi criado por jovens jornalistas e estudantes de Comunicação do campus de Caruaru da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), em Campina Grande, para preencher lacunas de informação em municípios considerados desertos ou quase desertos de notícias, com pouca ou nenhuma cobertura de imprensa local no sertão [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O Acauã foi criado por jovens jornalistas e estudantes de Comunicação do campus de Caruaru da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), em Campina Grande, para preencher lacunas de informação em municípios considerados desertos ou quase desertos de notícias, com pouca ou nenhuma cobertura de imprensa local no sertão e agreste de Pernambuco. </p>



<p>A princípio, a produção do coletivo se concentrará nas cidades de Betânia e Flores (Sertão do Moxotó e Sertão do Pajeú, respectivamente), Santa Cruz do Capibaribe, Cachoeirinha e Caruaru, no Agreste. O <a href="https://mapadamidiape.marcozero.org/coletivo/acaua/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Acauã já integra o Mapa da Mídia Independente e Popular</a>.</p>



<p>Uma das integrantes do grupo é a repórter da Marco Zero, Géssica Amorim, autora do texto inaugural do Coletivo Acauã. Além dela, os demais  responsáveis pela iniciativa são Cladisson Rafael, Márcio Correia, Maryane Martins e Mayara Bezerra.<br></p>



<p>***</p>



<h2 class="wp-block-heading">“Agricultura é barriga cheia”: conheça dona Gera, a produtora da goma de macaxeira mais famosa do Lombo das Areias</h2>



<p><strong>Publicado originalmente no <a href="https://medium.com/@coletivoacaua/agricultura-%C3%A9-barriga-cheia-conhe%C3%A7a-dona-gera-a-produtora-da-goma-de-macaxeira-mais-famosa-do-e9fe2b77d276">Coletivo Acauã</a></strong></p>



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	                                        <p class="m-0">Perfil da agricultora Gera do Beiju é o primeiro do novo coletivo. Crédito: Géssica Amorim / Coletivo Acauã</p>
	                
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<p>A goma produzida pela agricultora faz tanto sucesso, que, para vendê-la, dona Gera não precisa nem ir até a cidade, os clientes é que vão até ela, na zona rural. Por mês, as vendas chegam a ultrapassar os 250 quilos do produto. O dinheiro que recebe é utilizado para custear despesas básicas da casa, pagar a conta de energia e as mensalidades do plano de internet que a agricultora adquiriu há pouco mais de um ano.</p>



<p>Dona Gera do Beiju cresceu trabalhando em casas de farinha, plantando, colhendo, raspando, moendo e lavando a massa da raiz, para extrair o amido e produzir a goma que hoje vende em casa. O seu plantio de macaxeira, que mantém com a ajuda do marido, é orgânico. Eles não fazem uso de nenhum tipo de agrotóxico ou adubo químico no cultivo da raiz. Quando necessário, utilizam apenas esterco animal para a adubação do solo.</p>



<p id="902a">Trabalhando no roçado, Antônio cava as covas na terra e Dona Gera planta as manivas, que são pedaços do caule da planta da macaxeira. O casal também trabalha junto na colheita e em outras tarefas da propriedade, mas, na casa de farinha, o trabalho fica por conta da agricultora. Da raspagem da raiz, até a pesagem e embalagem da goma.</p>



<p id="dcd7">A propriedade do casal tem pouco mais de 25 hectares e, em boa parte do terreno, dona Gera e seu Antônio também cultivam milho e algumas frutas, mas a principal cultura é a da macaxeira. E o cultivo é dos dois tipos: da macaxeira mansa e da macaxeira brava.</p>



<p id="0fb7">A mansa é aquela que compramos na feira e cozinhamos em casa. Essa, Gera e Antônio plantam e colhem para consumo próprio. Já a brava, é mais utilizada para a produção da goma, da farinha e outros derivados. Por possuir um alto teor de ácido cianídrico, esse outro tipo de macaxeira não deve ser consumido sem antes passar por alguns procedimentos de lavagem, moagem, separação e secagem. É que o ácido cianídrico é uma substância que, quando consumida, toma o espaço do oxigênio no sangue, podendo causar náuseas, tonturas, asfixia e até levar à morte, dependendo da quantidade ingerida.</p>



<p id="ccdc">O escritor mineiro Guimarães Rosa, na década de cinquenta, já falava sobre as propriedades e variedades da macaxeira, em <em>Grande Sertão: Veredas:</em></p>



<p id="ec1c">“(…) Melhor, se arrepare: pois num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez? A mandioca doce pode de repente virar azangada — motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas — vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a outra, a mandioca-brava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal. (…) Arre, ele (o demo) está misturado em tudo” (2001, p. 27)</p>



<p id="ba4a">Dona Gera do Beiju tem um grande respeito pela terra e pelo seu trabalho. “Aqui, nós vivemos da agricultura e com a agricultura vamos permanecer. A agricultura, pra mim, é barriga cheia. Tenho o maior prazer em ser agricultora, de ter condições de colocar o alimento na minha casa, sem ter o trabalho de ir lá no mercado comprar. Nasci e me criei nesse sistema e irei permanecer nele”.</p>



<p>A agricultora diz que nunca quis fazer outra coisa na vida, além de lidar com a terra. “Eu estudei até a quarta série. Ainda fiz curso de corte e costura, artesanato. Sempre busco o conhecimento, ainda que pouquinho, de uma coisa aqui e outra ali, mas nada é como a agricultura. Eu acho que nasci pra ser agricultora mesmo”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Acauã pretende preencher deserto de notícias do sertão e agreste pernambucanos. Crédito: Géssica Amorim/ Coletivo Acauã</p>
	                
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<p></p>
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		<title>A rezadeira do sertão do Moxotó que atrai gente de todo o Brasil à procura de bençãos, orações e proteção</title>
		<link>https://marcozero.org/a-rezadeira-do-sertao-do-moxoto-que-atrai-gente-de-todo-o-brasil-a-procura-de-bencaos-oracoes-e-protecao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Géssica Amorim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Nov 2021 21:19:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Dona Helena Alves de Siqueira, 77, é uma das rezadeiras mais famosas do sertão do Moxotó. Moradora do povoado Mulungu, zona rural de Custódia, há mais de 50 anos, ela recebe em sua casa, todos os dias, pessoas que recorrem aos seus conhecimentos espirituais, buscando cura e proteção para o corpo e o espírito.&#160;&#160; Segundo [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Dona Helena Alves de Siqueira, 77, é uma das rezadeiras mais famosas do sertão do Moxotó. Moradora do povoado Mulungu, zona rural de Custódia, há mais de 50 anos, ela recebe em sua casa, todos os dias, pessoas que recorrem aos seus conhecimentos espirituais, buscando cura e proteção para o corpo e o espírito.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Segundo dona Helena, o seu dom foi revelado em sonho, quando ela completou 22 anos. “Eu vi uma luz muito forte onde eu estava dormindo com meus filhos. E nesse tempo, não tinha energia, não tinha iluminação. Eu pensei que o candeeiro tinha caído e queimado a casa. Uma mulher muito bonita apareceu em meu sonho e me disse que eu tinha esse dom. Que eu tinha a missão de receber em minha casa pelo menos seis pessoas para rezar, benzer. Eu não sei ler, mas, graças a Deus, sei passar a palavra”. </p>



<p>Os visitantes de dona Helena, que ela costuma chamar de “pacientes”, são fiéis. Fazem visitas frequentes e chegam de toda parte. O povoado Mulungu recebe pessoas de outras cidades, de outros estados e até de outras regiões. “ Vem gente de Recife, Serra Talhada, Juazeiro do Norte, de&nbsp; Minas Gerais e também São Paulo. Se eu for dizer a você o tanto de gente que frequenta aqui, você não vai acreditar ”, conta a rezadeira.</p>



<p>Essa não é primeira vez que visito a casa de orações de dona Helena. Quem primeiro me levou até lá foi o meu amigo e conterrâneo Augusto Moraes, jornalista de sensibilidade admirável. Desde a nossa última visita, muita coisa mudou. O local onde acontecem as reuniões, que, no início, era improvisado num pequeno quarto pegado à casa de dona Helena, foi reformado e ganhou mais espaço. As fotografias de fiéis que tomavam as paredes do antigo quartinho &#8211; agora todo pintado de branco &#8211; foram retiradas e guardadas.</p>



<p>Parece uma casa nova, onde, inclusive, dona Helena se prepara para encerrar a sua missão. Ela pretende passar o seu posto para José Mateus, um de seus 17 netos. Dos descendentes da rezadeira, ele é o único que, segundo ela, demonstra ter nascido com o mesmo dom. “Ela me descobriu quando eu tinha 12 anos. Eu via e escutava muitas coisas, quando era pequeno. Cansava de ver. Era vulto, voz. Sonhava com muitas coisas. A minha mãe dizia que era coisa da minha cabeça, até eu contar a vó Helena. Quando comecei a frequentar as reuniões, os guias espirituais dela me revelaram como o sucessor”, conta Mateus.</p>



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	                                        <p class="m-0">O neto José Mateus, de 17 anos, é o herdeiro espiritual de dona Helena. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>Quando conversamos, Mateus estava se preparando para ir até Custódia, fazer a primeira prova do Enem deste ano. Ele quer ser psicólogo e deseja manter a casa de orações ativa mesmo depois de se formar. “Acredito que eu não poderei atender todos os dias, como minha vó atende, mas quero manter a casa aberta. E ela também vai continuar rezando de olhado, benzendo as pessoas. Só não vai poder mais fazer os trabalhos com os seus guias espirituais”.&nbsp;</p>



<p>Os guias espirituais a que Mateus se refere seriam os espíritos de duas das oito beatas que viviam em torno do padre Cícero Romão, Maria de Araújo e Joanna Tertulina de Jesus (a beata Mocinha), frequentemente citadas como testemunhas dos supostos milagres do padre do Juazeiro. Dona Helena &#8220;trabalhou&#8221; com a beata Maria Araújo durante 18 anos e, depois, seguiu com a beata Mocinha, com quem &#8220;trabalha&#8221; até hoje. Quanto aos guias espirituais de Mateus, que são outros, o rapaz diz que só poderá revelá-los quando assumir o lugar de sua avó.</p>



<p>Mateus não demonstra insegurança quando perguntado se está pronto para levar adiante a missão, o prestígio e a confiança que dona Helena conquistou. “Na verdade, eu não acho que estou pronto. Eu tenho certeza. Como a minha avó Helena sempre fala, eu nasci pronto pra isso. Eu também já não tenho escolha, tenho que estar preparado”.</p>



<p> Mesmo com o sol forte e as condições precárias das estradas de terra que dão acesso à casa da rezadeira, o seu espaço de oração nunca está vazio. Há mais de dez anos, o agricultor Manoel Oliveira, 58, morador de Rio da Barra, distrito do município de Sertânia, visita dona Helena com frequência. “Quem vem pra cá, tem que ter fé, mesmo. As estradas do jeito que estão, fica ruim pra passar carro baixo. Além da necessidade, tem que acreditar. Hoje eu vim do Rio da Barra  trazendo o meu neto para fechar o corpo. Com dona Helena, tudo sempre dá certo”.</p>



<p>Dona Helena não cobra nenhum valor pelas consultas espirituais que oferece a quem lhe procura. Cada um retribui como quer ou como pode. “Nunca cobrei um centavo de ninguém. Já vi várias pessoas chegando aqui amarradas até com corrente de arado. Quem me deu a missão não me permite fazer isso e eu também não quero cobrar. Eu vivo pra ajudar as pessoas”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Dona Helena preparou sua casa para &#8220;encerrar sua missão&#8221;. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo</p>
	                
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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Seja mais que um leitor da Marco Zero…</strong></p><p>A Marco Zero acredita que compartilhar informações de qualidade tem o poder de transformar a vida das pessoas. Por isso, produzimos um conteúdo jornalístico de interesse público e comprometido com a defesa dos direitos humanos. Tudo feito de forma independente.</p><p>E para manter a nossa independência editorial, não recebemos dinheiro de governos, empresas públicas ou privadas. Por isso, dependemos de você, leitor e leitora, para continuar o nosso trabalho e torná-lo sustentável.</p><p>Ao contribuir com a Marco Zero, além de nos ajudar a produzir mais reportagens de qualidade, você estará possibilitando que outras pessoas tenham acesso gratuito ao nosso conteúdo.</p><p>Em uma época de tanta desinformação e ataques aos direitos humanos, nunca foi tão importante apoiar o jornalismo independente.</p><p><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">É hora de assinar a Marco Zero</a></p></blockquote>
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		<title>Escola rural do sertão do Pajeú está na final de prêmio internacional de multinacional de tecnologia</title>
		<link>https://marcozero.org/estudantes-do-sertao-do-pajeu-estao-na-final-de-premio-internacional-de-multinacional-de-tecnologia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Géssica Amorim]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Oct 2021 20:29:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[educação rural]]></category>
		<category><![CDATA[prêmio]]></category>
		<category><![CDATA[Respostas para o Amanhã]]></category>
		<category><![CDATA[Samsung]]></category>
		<category><![CDATA[sertão pernambucano]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quatro estudantes do primeiro ano do ensino médio de uma escola rural no sertão do Pajeú, a 381 quilômetros do Recife, estão entre os finalistas do Prêmio Respostas para o Amanhã, uma iniciativa global da multinacional de tecnologia Samsung. O prêmio foi criado para estimular e difundir projetos de investigação e experimentação científica desenvolvidos por [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quatro estudantes do primeiro ano do ensino médio de uma escola rural no sertão do Pajeú, a 381 quilômetros do Recife, estão entre os finalistas do Prêmio Respostas para o Amanhã, uma iniciativa global da multinacional de tecnologia Samsung. O prêmio foi criado para estimular e difundir projetos de investigação e experimentação científica desenvolvidos por alunos do ensino médio de escolas públicas para resolver problemas reais da comunidade.</p>



<p>Emilly Santos, de 15 anos, Isadora Campos, Samuel Nogueira e Euclides Cardim, de 16, desenvolveram, sob orientação do professor Gustavo Santos Bezerra, 28, o projeto “Carun-XÔ”, que encontrou no óleo artesanal do coco <a href="http://www.umpedeque.com.br/arvore.php?id=703">catolé</a> (fruto de uma palmeira típica da caatinga), uma alternativa para combater os carunchos, insetos daninhos que são popularmente conhecidos como “gorgulhos” e se alimentam principalmente de cereais e grãos de feijão, reduzindo-os a pó.</p>



<p>O projeto dos estudantes da Escola Estadual Dário Gomes de Lima, de Fátima, distrito do município de Flores, tem como objetivo principal proteger a colheita de pequenos agricultores do distrito e da região, que todos os anos plantam o feijão e precisam armazená-lo de forma segura até o momento de vender a produção pela região ou mesmo para garantir o consumo da própria família até a próxima safra.</p>



<p>“A nossa escola é uma escola rural. Os alunos têm contato direto com agricultores da comunidade, sejam parentes ou amigos que trabalham no campo. Em muitos casos, eles observaram que esses agricultores frequentemente perdem alguns grãos por conta do ataque de algumas pragas. O projeto entra na questão de evitar a perda desse alimento, visando garantir, principalmente, a segurança alimentar desses produtores”, conta o professor Gustavo.</p>



<p>Segundo o professor, o processo de produção do bioinseticida em laboratório consiste, basicamente, em retirar as amêndoas do catolé, processá-las, e separar as partes líquida e sólida, levando-as, respectivamente, ao resfriamento, para coagulação, e para o aquecimento numa estufa, onde é desidratada para se produzir uma farinha. A partir daí, o produto sólido é aquecido a uma temperatura de 120°C, formando o óleo, que é filtrado e, depois de passar por um funil de decantação, para facilitar a separação e retirada de resquícios de água, finalmente é armazenado em embalagens. A aplicação é feita diretamente nos grãos, numa proporção que não altera o gosto e nem a qualidade dos feijões. E o óleo ainda pode ser produzido em ambiente doméstico, sem materiais e equipamentos usados em laboratório, o que facilita a produção por agricultores interessados no bioinseticida.</p>



<p>Emilly Santos, aluna que integra o projeto, já fala como uma cientista sobre o que seu grupo fez para encontrar uma solução para os carunchos no feijão: &#8220;Estudando o potencial de alguns óleos para servir como repelentes, nós chegamos ao óleo do coco catolé, fruto que, por aqui, não tem uma utilidade específica. Depois de alguns experimentos com o óleo desse fruto, nós confirmamos a sua eficácia tanto para prevenir a instalação da praga, quanto para eliminá-la depois de instalada no alimento”.</p>



<p>Este ano, 35 países participam da premiação realizada pela Samsung. No Brasil, a coordenação geral do Respostas para o Amanhã é realizada pelo Cenpec, organização sem fins lucrativos criada na década de 80, que tem como objetivo o desenvolvimento de projetos e pesquisas voltados à melhoria da qualidade da educação pública.</p>



<p>Ao todo, 10 escolas públicas estão na final da premiação nacional. A Escola Dário Gomes de Lima é a única representante de Pernambuco. Até aqui,todos os alunos finalistas receberam, cada um, um notebook Samsung. As três equipes vencedoras receberão outros prêmios, conforme a classificação: celulares de última geração, tablets ou smartwatches (relógios &#8220;inteligentes&#8221;). Além disso, cada escola dos projetos premiados nacionalmente receberá uma smart TV Samsung, um troféu, placa comemorativa e o selo digital. Aos professores orientadores serão entregues medalhas.</p>



<p>De acordo com o site oficial do projeto, para se chegar a 10 finalistas, os avaliadores usaram como critérios o alinhamento com a abordagem; relevância científica e/ou tecnológica; viabilidade de desenvolvimento; investigação científica; colaboração entre integrantes da equipe; habilidades mobilizadas e caráter de criatividade e/ou inovação.</p>



<p>Além da avaliação técnica, haverá um projeto vencedor na categoria Júri Popular, premiando aqueles com mais compartilhamentos e comentários nas redes sociais dos projetos. Os vencedores receberão um fone de ouvido Samsung BUD+ para cada estudante ou professor das equipes vencedoras na categoria. Todos os resultados serão divulgados em 18 de novembro.</p>



<p>A <a href="http://respostasparaoamanha.com.br">relação oficial dos finalistas</a> inclui projetos de três escolas públicas do Ceará, três de São Paulo e uma de cada estado da região sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul). Para conhecer os finalistas.</p>



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		<title>Dona Zefinha, a mãe que todos os anos organiza uma romaria em memória do filho, um &#8220;anjo&#8221; sertanejo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Géssica Amorim]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Oct 2021 21:57:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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<p>“Este menino é um anjo de Deus”. É exatamente com estas palavras que dona Zefinha, Josefa Lacerda, aposentada de 81 anos, pede que eu inicie este texto &#8211; ele fala um pouco a respeito do seu filho Uinston Fabian. Nascido em Macaé, Rio de Janeiro, e criado em Sítio dos Nunes, distrito de Flores, no sertão de Pernambuco, Uinston faleceu aos 14 anos, vítima de um acidente com um trator da empresa onde o seu pai, Luiz Barreiros, trabalhava.&nbsp;</p>



<p>Foi em 5 de julho de 1985, em Terra Nova, outro município do sertão pernambucano, lugar onde a família do garoto foi trabalhar e residir, que a tragédia aconteceu. Uinston era menor aprendiz da construtora Queiroz Galvão e, no fim do expediente, voltou para casa com outros oito funcionários da empresa.&nbsp; A viagem seria feita em um dos tratores da construtora, pois o único carro que transportava os funcionários demorou a chegar e eles decidiram pegar uma carona no trator que estava de saída.</p>



<p>Segundo conta Josefa, num determinado trecho do caminho, o motorista perdeu o controle e o veículo foi em direção a uma ribanceira. Os homens que perceberam o perigo, começaram a saltar, um a um, enquanto Uinston não teve coragem de pular. O menino foi arremessado para fora do trator e a máquina, pesada e robusta, caiu sobre o seu corpo. “Ele morreu de braços abertos, como nosso senhor Jesus Cristo”, descreve dona Zefinha. O corpo de Uinston foi sepultado no cemitério de Sítio dos Nunes, distrito onde sua família voltou a morar e sua mãe vive até hoje. No local do acidente, ela mandou erguer uma cruz em lembrança e homenagem ao filho.&nbsp;</p>



<p>Passado um tempo do falecimento de Uinston Fabian, dona Zefinha começou a ouvir relatos de graças alcanças e atribuídas ao menino. Segundo ela, muitos moradores de Terra Nova ficaram impressionados com a morte trágica e prematura do garoto e começaram a falar de sonhos e aparições de Uinston pela cidade. “O povo que morava lá começou a me contar que sonhava com ele, que ele falava nos sonhos. Dava conselhos e ajudava a alcançar graças. Muita gente passou a fazer promessa pra ele e a visitar o lugar onde aconteceu o acidente”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>A partir daí, Dona Zefinha passou a organizar, todos os anos, no mês em que ele nasceu, novembro, uma pequena romaria que sai de Sítio dos Nunes e vai até o cruzeiro de Uinston, em Terra Nova. A distância é de pouco mais de 200 quilômetros. Há mais de 30 anos, moradores e amigos dos dois municípios a acompanham na viagem e rezam pelo menino. “Tem que chamar um carro, enfeitar, colocar o andor com a imagem de Padre Cícero, encher de flor, de bandeirinha, fita. E o que eu puder colocar para ficar bem enfeitado, eu coloco”.&nbsp;</p>



<p>Dona Zefinha Lacerda me conta tudo enquanto passeamos pelos cômodos de sua casa. Todas as paredes são pintadas e decoradas com quadros que ela mesma pintou. A aposentada faz questão de mostrar cada detalhe e, para cada ambiente, carrega o seu aparelho de som, para tocar a música que acha adequada para cada história e assunto da conversa. Para falar de Uinston Fabian, ela escolhe e acompanha cantando a música <em>Soleado, a música do céu, </em>de Ciro Dammicco, gravada por Moacyr Franco, e <em>Sertaneja, </em>de René Bittencourt e gravada por Orlando Silva. A primeira, dona Zefinha canta em homenagem ao filho e a última, segundo ela, era a que ele mais gostava de ouvir.</p>



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<p>No quarto que era de Uinston, entre&nbsp; imagens de santos e religiosos de quem dona Zefinha é devota, estão abrigados e cobertos de enfeites vários retratos do menino. Um deles é uma reprodução que a própria Josefa fez de uma fotografia tirada no dia da sua primeira comunhão, na capela de São João Batista, em Sítio dos Nunes. Zefinha aprendeu a pintar sozinha na juventude. Conta que, antigamente, quando só tinha dinheiro para as tintas, cortava pequenas mechas de cabelo das filhas e usava como pincel para pintar os seus quadros.</p>



<p>O acidente que matou Uinston Fabian aconteceu um dia antes do aniversário da sua irmã caçula, Christiane Vieira, de 40 anos. A família tinha organizado uma festa e alugado um salão para a comemoração que aconteceria no dia seguinte. “O meu aniversário foi um dia depois do acidente, 6 de julho. Eu era muito pequena, mas lembro que a minha mãe estava organizando tudo pra festa. O salão, os enfeites. Tudo quase pronto, quando aconteceu essa tragédia. A partir daí, os dias foram muito tristes para a nossa família”, conta Christiane.</p>



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<p>Se estivesse vivo, Uinston completaria 51 anos no próximo dia 11 de novembro. A sua irmã mais velha, Jacqueline Rênia, que agora tem 52, lembra que o irmão era um menino bom e um grande companheiro. “Nós éramos como irmãos gêmeos. Só tinha um ano de diferença entre a gente. A gente brincava muito, conversava. Era meu companheiro. Nunca vou esquecer do dia que ele foi embora. Como se fosse ontem, lembro de tudo. Foi um dia muito triste, era um menino muito bom, não tem como esquecer”.</p>



<p>Josefa Lacerda está pensando em voltar à Terra Nova este ano. Por causa da pandemia e por ter tomado a segunda dose da vacina só há poucos meses, não foi possível viajar no ano passado. Como de costume, ela está preparando o andor para Padre Cícero, os enfeites para os amigos romeiros e arrecadando roupas e alimentos para levar e doar, em nome de Uinston, às pessoas que necessitam.</p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Seja mais que um leitor da Marco Zero…</strong></p><p>A Marco Zero acredita que compartilhar informações de qualidade tem o poder de transformar a vida das pessoas. Por isso, produzimos um conteúdo jornalístico de interesse público e comprometido com a defesa dos direitos humanos. Tudo feito de forma independente.</p><p>E para manter a nossa independência editorial, não recebemos dinheiro de governos, empresas públicas ou privadas. Por isso, dependemos de você, leitor e leitora, para continuar o nosso trabalho e torná-lo sustentável.</p><p>Ao contribuir com a Marco Zero, além de nos ajudar a produzir mais reportagens de qualidade, você estará possibilitando que outras pessoas tenham acesso gratuito ao nosso conteúdo.</p><p>Em uma época de tanta desinformação e ataques aos direitos humanos, nunca foi tão importante apoiar o jornalismo independente.</p><p><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">É hora de assinar a Marco Zero</a></p></blockquote>



<p></p>
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