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	<title>Arquivos violência na Bahia - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Mon, 29 Apr 2024 21:54:06 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos violência na Bahia - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Como Juazeiro, na Bahia, se tornou a 10ª cidade mais violenta do Brasil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Apr 2024 21:33:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Bahia]]></category>
		<category><![CDATA[Juazeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Polícia Militar]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Cássio Costa, Glícia Barbosa e Jéssica Pacheco* Quinta-feira, 17 de novembro de 2023, em Simões Filho (BA), a 28 quilômetros de Salvador, uma noite que ficaria marcada pela escuridão que se abateu sobre o Quilombo Pitanga dos Palmares. A líder, Maria Bernadete Pacífico, 72 anos, conhecida carinhosamente comoMãe Bernadete, foi brutalmente assassinada com 12 [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Cássio Costa, Glícia Barbosa e Jéssica Pacheco*</strong></p>



<p>Quinta-feira, 17 de novembro de 2023, em Simões Filho (BA), a 28 quilômetros de Salvador, uma noite que ficaria marcada pela escuridão que se abateu sobre o Quilombo Pitanga dos Palmares. A líder, Maria Bernadete Pacífico, 72 anos, conhecida carinhosamente comoMãe Bernadete, foi brutalmente assassinada com 12 tiros.O crime ocorreu na própria residência da matriarca, um santuário de resistência e luta pela preservação do quilombo e das terras ancestrais que ocupava. Seis anos antes, a Ialorixá perdeu seu filho, também assassinado.​</p>



<p>Dez dias após a morte de Mãe Bernardete, outro quilombola também foi assassinado. Dessa vez, a voz negra calada foi a do jovemJosé William, morador doQuilombo Alagadiço, em Juazeiro, norte baiano. Um sonho interrompido pelas mãos de quem deveria garantir proteção à população. A Polícia Militar, segundo o Conselho de Promoção da Igualdade Racial (Compir), alvejou o jovem com três disparos de arma de fogo pelas costas. Moradores afirmaram que após a morte de William, a PM sumiu com o corpo por quase uma hora.</p>



<p>A comoção tomou conta da população do Alagadiço. Uma onda de revolta, misturada com dor e indignação varreu a comunidade. Entidades negras, defensoras dos direitos humanos e moradores uniram forças, erguendo vozes em um coro de exigência por justiça. José William não seria apenas mais um número estatístico de violência policial. Sua morte seria o catalisador de uma busca incansável por responsabilização.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/04/UNEB.jpeg" alt="Mapa do Google maps com uma grossa linha azul indicando o trajeto da comunidade quilombola do Alagadiço até o Hospital Regional no centro de Juazeiro." class="" loading="lazy" width="578">
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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução/Google Maps</span>
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Um jovem negro ser alvo da polícia é muito comum na Bahia</strong></h2>



<p>Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, pessoas negras é maioria no grupo vitimado pela violência.O percentual de mortes chega a 83,1% de intervenções policiais.</p>



<p>​Ser preto na Bahia pode ser um motivo a mais para a decisão de puxar o gatilho da arma policial, isso porque historicamente, a população negra é marginalizada. As minorias étnicas são as mais impactadas por abordagens truculentas.</p>



<p>​Para o sociólogo Cláudio de Almeida, o Brasil utilizou quase 400 anos de tortura pública com o período escravista, além de atravessar regimes totalitários, consolidando a violência como principal ferramenta de controle social incisivamente com relação às minorias. O pesquisador ressalta que a violência policial acomete, inquestionavelmente, as populações invisibilizadas, ou seja, ascomunidades negras,quilombolas e rurais: &#8220;a violência policial chega com maior força naqueles setores que já foram estereotipados como lugares em que a violência está presente. Jovens, do sexo masculino, negros, entre 15 e 21 anos, é o tipo de corpo que é mortificado tanto por parte da polícia, quanto por parte da criminalidade organizada&#8221;.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Entrevista com Cláudio de Almeida" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/-gQFl9Q6Kdw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<h2 class="wp-block-heading">Da riqueza natural à violência alarmante</h2>



<p>Juazeiro, a 500 km da capital Salvador, é uma cidade que se destaca às margens do Rio São Francisco e sempre foi conhecida pela riqueza natural e cultural. Com uma população de 235.816 habitantes (Censo IBGE/2022), é um importante centro urbano no estado da Bahia. Estende-se sobre o Rio São Francisco, fazendo divisa com Petrolina, em Pernambuco.​</p>



<p>A principal fonte econômica é a agricultura. As terras férteis e o clima propício fazem da região um dos maiores polos produtores de frutas tropicais do país. A manga, a uva, a melancia, o coco e outras culturas prosperam nessa área, impulsionando uma indústria agrícola significativa. Apesar disso, a desigualdade social é um fator alarmante. Segundo dados do CadÚnico, no ano de 2023, cerca de 42 mil famílias cadastradas estavam em situação de pobreza e aproximadamente 11 mil em situação de baixa renda.​</p>



<p>Em julho de 2023, Juazeiro se tornou manchete não por suas belezas naturais ou tradições culturais, mas por um motivo sombrio:é a décima cidade mais violenta do Brasil, com um registro de 68,3 homicídios por 100 mil habitantes.A classificação se baseia na categoria de Mortes Violentas Intencionais (MVI), que inclui homicídios dolosos (quando há intenção de matar), latrocínios (roubo seguido de morte), lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais em serviço e fora de serviço.A alarmante estatística alarmante apresentada no Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023 aponta para um cenário de violência extrema.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O tráfico de drogas, as facções e o poder paralelo</h3>



<p>Em Juazeiro, as condições socioeconômicas retratam uma realidade desafiadora. Os trabalhadores sazonais representam uma parcela considerável da força de trabalho na região, vindo de diferentes lugares, sobretudo de cidades menores, circunvizinhas, em busca de oportunidades temporárias durante as colheitas.​</p>



<p>Muitos chegam visando oportunidades na agricultura, porém, enfrentam condições de vida precárias. Segundo a professora e pesquisadora da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), Luzania Barreto, a falta de empregos regulares perpetua uma dinâmica de trabalho informal, limitando as perspectivas econômicas e o acesso a serviços básicos para esses trabalhadores e esse pode ser um dos fatores determinante para o incremento do mercado ilegal como o tráfico de drogas, roubo e prostituição.​</p>



<p>No cenário urbano de Juazeiro e em muitas outras regiões, a sombra do tráfico de drogas se estende, delineando não apenas um comércio ilícito, mas também um intrincado labirinto de violência e poder.</p>



<p>Para a professora Luzania Barreto, que pesquisa política de drogas, otráfico de entorpecentes não pode mais ser dissociado das facções criminosas. A venda de entorpecentes está diretamente conectada às estruturas de poder desses grupos, e tornaram-se comuns comerciantes precisarem de autorização das facções para manter suas empresas funcionando, impulsionando um ciclo de violência entre as forças policiais e o crime organizado. &#8220;Na verdade, toda droga está ligada à venda, e esta, por sua vez, está associada às facções criminosas. A polícia aborda o tráfico de forma violenta, e a resposta a essa violência se torna inevitavelmente violenta também. É um ciclo sem começo ou fim claro&#8221;, afirma a professora.​</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/04/UNEB-3.webp" alt="A imagem captura um momento de protesto ou manifestação. Duas pessoas estão segurando uma faixa grande; uma pessoa está à esquerda e a outra à direita. O texto na faixa está em português, escrito em cores vibrantes. O ambiente é ao ar livre, com edifícios visíveis ao fundo sob um céu claro. Há uma sensação de urgência ou importância associada à mensagem na faixa. O texto na faixa diz: “JUSTIÇA p/ WILLIAM M., MAS um QUILOMBOLA ASSASSINADO!”" class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Imagens da manifestação por justiça por José Willian, um mês após sua morte.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Vinícius Coutinho</span>
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<p>A disputa entre as facções por territórios também é um incentivador da violência. Organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC), maior grupo do crime organizado do Brasil, com atuação principalmente no estado de São Paulo, e o Comando Vermelho disputam territórios não apenas entre si, mas também com facções locais, intensificando um cenário de rivalidade e conflito constante.</p>



<p>Atualmente, oito facções lideram o crime organizado na Bahia. Entre elas está a Bonde do Maluco ou BDM, organização criminosa que surgiu em 2015, no Complexo Prisional da Mata Escura, em Salvador, e atua em várias cidades do território baiano, além da capital. Também atua na Bahia o Comando Vermelho, um dos principais rivais do BDM, entre outros grupos criminosos.</p>



<h3 class="wp-block-heading">A violência institucionalizada que recebe honrarias</h3>



<p>A história do Brasil está intrinsecamente alicerçada na violência. A chegada dos colonizadores portugueses, em 1500, marca o início do Brasil, enquanto entidade política. O processo que envolveu a colonização das terras habitadas por povos indígenas foi frequentemente acompanhado de conflitos violentos, expulsões da população local e do genocídio de grupos étnicos que mais tarde se tornariam tradição nacional. Muita gente sabe onde essa história começa, mas é cada vez menos possível imaginar onde ou quando termina.​</p>



<p>O Brasil dos dias atuais não só flerta com a violência do passado, como é retroalimentado por uma base bastante consistente que a instituiu enquanto modelo político e, paradoxalmente, de produção da vida.Há centenas de anos, populações marginalizadas dão – literalmente – a vida em conflitos armados, como nas lutas pela independência, no século XIX, contra a escravização de africanos e indígenas e os conflitos regionais que marcaram a história do país.</p>



<p>É nesse contexto que se fabricaram as polícias, aparelhos que devem servir para a proteção da população, além de funcionar como um equipamento de manutenção da “ordem”.<strong>​</strong></p>



<p>No entanto, o que se percebe na relação entre a população e essas forças do Estado é justamente um sentimento contrário ao de proteção, como sugereEduardo Ribeiro, especialista em Gestão Estratégica de Políticas Públicas, membro do Conselho Estadual de Segurança Pública e Defesa Social da Bahia (Conesp-BA) e diretor executivo da organização<a href="https://iniciativanegra.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Iniciativa Negra</a>. Oespecialista considera que existe uma crise no modelo de segurança pública e que essepercurso tem a ver diretamente com as opções do Estado. &#8220;Temos um modelo baseado no militarismo, que reforça a lógica de produção de guerra, que não se afeta pelas ideias de democracia, porque isso funciona na parte da lógica da hierarquia que não coloca a defesa dos Direitos Humanos como parte fundamental da sua atuação&#8221;, explica Ribeiro.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Pele alva epele alvo</h3>



<p>Em julho de 2023, o estado da Bahia, ultrapassou o Rio de Janeiro no título de polícia que mais mata no Brasil. De acordo com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o feito histórico foi cravado apósas polícias baianas terem provocado a morte de 1.464 pessoas em 2022<strong>, </strong>alcançando a média de quatro assassinatos por dia.​</p>



<p>Não, coincidentemente, esses dois estados brasileiros despontam no topo do ranking de letalidade policial. A Bahia é o estado com maior percentual de população negra do país. São 80,8% de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).​</p>



<p>O boletim <em>Pele alvo: a bala não erra o negro</em>, publicação anual da<a href="http://observatorioseguranca.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Rede de Observatórios da Segurança,</a>verificou que das4.219 pessoas mortasem intervenções policiais em 2022 no Brasil,2.770 eram negras. Os dados chamam ainda mais atenção: a Bahia concentrou quase metade do total de pessoas negras mortas pelas polícias no país, ao alcançar a marca de 1.121 vítimas fatais, decorrentes de operações policiais no estado.​</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/04/UNEB-info.jpeg" alt="Este é um gráfico de barras verticais que compara o número de tiroteios e mortos em 2022 e 2023. Aqui estão os detalhes: O gráfico tem duas categorias principais: “Tiroteios” e “Mortos”. As barras vermelhas representam os tiroteios, enquanto as barras pretas representam o número de mortos. Em 2022 houve cerca de 500 tiroteios (representados pela barra vermelha). O número de mortos foi aproximadamente metade do número de tiroteios, ou seja, cerca de 250 (representados pela barra preta). Em 2023: o número de tiroteios aumentou drasticamente para cerca de 1.750 (barra vermelha). O número de mortos também aumentou, chegando a cerca de 1.250 (barra preta). O gráfico possui linhas horizontais marcando intervalos de contagem a cada quinhentos até dois mil no lado esquerdo. Na parte inferior do gráfico, está escrito: “Fonte: Instituto Fogo Cruzado (2023)”." class="" loading="lazy" width="486">
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<p>Entre julho e novembro de 2023, o<a href="https://fogocruzado.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Instituto Fogo Cruzado</a>, que monitora tiroteios em centros urbanos do Brasil, documentou a escalada da violência da Bahia, especialmente em Salvador e região metropolitana. Os dados revelam um aumento substancial no número de tiroteios no intervalo de um ano. Veja o gráfico a seguir:</p>



<p>Os dados revelam que 2023 teve um aumento de 159% no número de mortos em relação ao ano anterior.Para Eduardo Ribeiro, o cenário aponta para um aparelho do Estado que não só está à frente da segurança pública do país, como tem produzido um número significativo de casos de violências dentro das comunidades brasileiras.&#8221;A lógica da segurança pública deve serevitar o tiro. Não é possível a gente conjugar letalidade com eficiência e eficácia&#8221;, afirma Ribeiro.​</p>



<p>O sentimento de insegurança provocado pelo número elevado de mortes em operações policiais vai além e se transforma em um sentimento de medo. Para o especialista em Gestão Estratégica de Políticas Públicas, este medo é fundado em experiências passadas: &#8220;parte significativa da população, sobretudo a população negra e as populações periféricas têm uma experiência de convivência com as forças de segurança que é a partir da violência. Independentemente de estarem relacionados ou não com atividades ilícitas, as pessoas sofrem com a presença ostensiva do Estado nos seus territórios&#8221;.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>As políticas proibicionistas e os caminhos para solução</strong></h3>



<p>O debate sobre a proibição de drogas anda lado a lado com a discussão acerca das políticas públicas voltadas ao combate do tráfico. O antropólogo José Hermógenes Moura da Costa, que pesquisa as substâncias psicoativas e identidade social do usuário de drogas, destaca a complexidade desse debate, indo além da perspectiva do consumo de substâncias psicoativas.<br><br>Para o pesquisador, a visão de que a presença de drogas resulta automaticamente em violência é simplista e ressalta a importância de compreender os contextos mais amplos que propiciam o surgimento das facções e a rentabilidade do tráfico de drogas: &#8220;é como se essa coisa chamada droga fosse uma entidade com vida própria, capaz de destruir pessoas, grupos e sociedades. No entanto, nunca existiu uma sociedade sem drogas. Elas sempre estiveram presentes e foram consumidas dentro de contextos sociais complexos, muito diferentes do estigma contemporâneo de uso abusivo&#8221;.</p>





<p>É a partir dessa perspectiva que a proibição de drogas não se sustenta. A preocupação não é com a saúde pública e segurança da população, mas se escora em motivos religiosos, morais, políticos, sociais e econômicos. O debate em torno do modelo proibicionista se estende para além das drogas ilícitas, mas mergulha no universo das substâncias legalizadas, como o álcool.</p>



<p>A discussão sobre a Lei Seca, que restringiu a venda de álcool nos Estados Unidos na década de 1920, é um exemplo histórico. A proibição de bebidas alcoólicas não apenas criou um mercado lucrativo para o crime, mas também aumentou a violência e a corrupção policial.</p>



<p>O antropólogo destaca a necessidade de repensar o discurso punitivista, trazendo para o âmbito da saúde pública e da educação.&#8221;a falha está em não retirar esse tema do discurso jurídico-policial e situá-lo no contexto da saúde pública e educação. O restante é administrativo, permitindo que a polícia concentre-se em questões realmente cruciais&#8221;, ressalta José Hermógenes.​</p>



<p>A proibição não diminui o consumo, mas aumenta os riscos para a saúde pública.Para o pesquisador,&#8221;não aprendemos com exemplos históricos como a Lei Seca. Continuamos repetindo padrões, perpetuando modelos ineficazes que não solucionam o cerne do problema.&#8221;Ele ressalta que o uso abusivo de drogas é apenas um sintoma, não a causa de uma série de problemas que vão desde questões materiais até aspectos afetivos e coletivos.​</p>



<p>Soluções eficazes para o combate ao tráfico de drogas e a violência vão muitoalém da abordagem policial. Intervenções estruturais, incluindo investimentos em saneamento, infraestrutura urbana e programas educacionais são consideradas cruciais para enfrentar a raiz do problema.</p>


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        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <ul>
<li><strong>A reportagem foi produzida para a disciplina Redação Jornalística em Multimeios, do curso de Comunicação Social da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), com dados e gráficos de Jéssica Cardoso e Ana Luísa Rocha e sob a orientação e supervisão da professora Teresa Leonel. </strong></li>
</ul>
    </div>
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		<title>O cotidiano da violência em Salvador, onde está a PM mais violenta do Brasil</title>
		<link>https://marcozero.org/o-cotidiano-da-violencia-em-salvador-onde-esta-a-pm-mais-violenta-do-brasil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 Sep 2023 20:25:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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		<category><![CDATA[violência na Bahia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Júlia Moa Salvador &#8211; &#8220;Tudo está arriscado, é preciso se benzer, fazer oração para o anjo da guarda e pedir a Deus para me levar e trazer de volta vivo. Não é apenas no meu bairro que ronda o perigo, andar de ônibus assusta diante dos recorrentes assaltos. Tudo está caótico. Infelizmente, Salvador está [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Júlia Moa</strong></p>



<p><strong>Salvador</strong> &#8211; &#8220;Tudo está arriscado, é preciso se benzer, fazer oração para o anjo da guarda e pedir a Deus para me levar e trazer de volta vivo. Não é apenas no meu bairro que ronda o perigo, andar de ônibus assusta diante dos recorrentes assaltos. Tudo está caótico. Infelizmente, Salvador está assim, e a gente não pode fazer nada. Só clamar a Deus.&#8221; Invocar, primeiramente, a espiritualidade no dia a dia no melhor estilo &#8220;quem me protege não dorme&#8221; é a alternativa escolhida pelo mecânico Fernando Cide para driblar a alta onda de violência urbana que tomou conta da capital baiana e atingiu seu ápice no início de setembro.</p>



<p>Cide mora há 14 anos no Alto das Pombas, bairro popular habitado majoritariamente por pessoas negras e que viveu momentos de terror durante dois dias seguidos, culminando numa intensa troca de tiros, ações com reféns, mortes, toque de recolher e famílias deixando o local.</p>



<p>O conflito armado envolveu a polícia e traficantes de facções criminosas.</p>



<p>O comércio encerrou as atividades ainda durante o dia, e mais de 1.100 mil alunos da rede municipal ficaram sem aulas. Os postos de saúde nas imediações e o campus da Universidade Federal da Bahia (UFBA) suspenderam as atividades com medo dos ataques. Nem os templos religiosos ousaram abrir as portas para receber os fiéis. Definitivamente, a ordem do toque de recolher enviada pelo poder paralelo foi levada à risca.</p>



<p>Antes, de 28 de julho a 4 de agosto, uma série de operações policiais na periferia e Região Metropolitana de Salvador deixou o saldo de mais de 30 mortos.</p>



<p>&#8220;Durante dois dias (4 e 5 de setembro), fiquei trancado com a minha família dentro de casa. Não consegui ir trabalhar, não tenho peito de aço para entrar no meio dessa guerra. Eu só pensava em proteger meus filhos. Nem dava para dormir, pois qualquer barulho a gente já queria se esconder, mesmo dentro da nossa morada&#8221;, relembra Cide, que lamenta o fato da filha de três anos já saber o que é um fuzil por acompanhar nas ruas a movimentação de homens armados. O morador afirma que nesses anos interagindo na localidade, o comum é um clima tranquilo e com opções de lazer nos finais de semana, por isso ele acredita que, agora, irá apaziguar por pelo menos um ano, até voltar a ocorrer outro episódio do tipo. &#8220;Meus filhos ficam na creche e na escola boa parte do dia, lá dentro eles estão seguros. Sempre participo com eles das atividades culturais gratuitas no Alto das Pombas e no Calabar (bairro vizinho), ando a pé por ali e não pretendo me mudar&#8221;, assegura Fernando.</p>



<p>De acordo com os dados colhidos pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, relativos ao ano de 2022, a Bahia continua líder, desde 2019, no ranking de mortes violentas. A soma total de vidas brutalmente ceifadas engloba os homicídios dolosos (incluindo feminicídios), lesões corporais que terminam com morte, latrocínios, mortes de policiais e assassinatos cometidos por eles. Somente no primeiro trimestre deste ano, 1.289 pessoas morreram no estado, de acordo com o <a href="https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/">monitoramento de violência do site G1</a> &#8211; a cobertura não aborda a violência policial.</p>



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	                                        <p class="m-0">Engenho Velho da Federação. </p>
	                
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<p>Outro fato preocupante destaca, pela primeira vez no histórico do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (nas informações contabilizadas desde 2015), a polícia da Bahia como a que mais matou no Brasil. Para se ter uma noção do tamanho da fúria policial baiana, ela desbancou o posto ocupado por anos pelo Rio de Janeiro, uma das mais temidas no mundo.</p>



<p>Perto do Alto das Pombas, o Engenho Velho da Federação, também densamente povoado, dias depois foi palco de disparos realizados entre policiais e traficantes. Dois homens foram mortos.</p>



<p>Nas escritas do músico Paulo Feijão no livro <em>Feijão &amp; Samba &#8211; histórias de um cantor de Blocos Afro</em>, durante o século 17, o que se entende hoje como o bairro foi um território quilombola que serviu de refúgio para negros e negras escravizados vindos de outras fazendas e, igualmente, para os sobreviventes de revoltas. Citado nas canções de Caetano Veloso, a área atualmente é disputada por duas facções, todavia não tem registrado muitos confrontos. Ocasionalmente, dizem os moradores, dá para escutar os tiroteios.</p>



<p>&#8220;A melhor estratégia de sobrevivência que utilizamos é o silêncio, juntamente com os cuidados necessários quando se trata da circulação em determinadas partes do bairro&#8221;, desabafa um morador que prefere não ser identificado. Na sua opinião, as políticas públicas não são colocadas em ação e a burocracia do estatal impede a execução de projetos e atividades da sociedade civil.&nbsp;</p>



<p>&#8220;Passos importantes poderiam ser dados para melhorar a qualidade de vida dos habitantes, começando com um comprometimento do poder público, uma atitude coletiva, visando a participação de todos no cumprimento do orçamento determinado para questões sociais, culturais e a inclusão no mercado de trabalho&#8221;, aponta.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Normalização da violência e guerra às drogas</strong></h3>



<p>Não é nenhuma novidade que no Brasil, o último país do Ocidente a abolir o regime escravocrata, o ranço colonial segrega seu povo racialmente e por classe social. É nas imediações mais vulneráveis das cidades, as favelas, que ocorrem as maiores taxas de crimes violentos letais intencionais (CVLI).</p>



<p>&#8220;O crescimento dos fenômenos de violência urbana não é exclusividade da Bahia, temos acompanhado em outras capitais nordestinas como Recife e Fortaleza, que contribuem para o avanço de uma certa insensibilidade por parte de quem vivencia essa realidade cotidianamente. Parece que quanto mais aumentam tais fenômenos, menos passíveis de comoção eles se tornam nas periferias dos grandes centros urbanos&#8221;, reflete o sociólogo <a href="http://www.cienciassociais.ffch.ufba.br/luiz-claudio-lourenco">Luiz Cláudio Lourenço,</a> pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Crime e Sociedade &#8211; LASSOS/UFBA.</p>



<p>Lourenço acrescenta que o plano policial adotado para lidar com a criminalidade não é nada salubre. Se, por um lado, vemos um corpo policial munido de fuzis e pistolas de última geração, do outro, observamos que todo esse preparo em armamento para operações táticas não tem redundado numa paz coletiva, pelo contrário. &#8220;Há uma desconfiança da população periférica acerca da presença policial fortemente armada. A lógica de guerra não contribui em nada para a solução do problema. Talvez, apostar na proximidade com uma polícia cidadã presente no cotidiano, não apenas no suporte bélico ostensivo, seja uma saída para fomentar a tranquilidade nos territórios que hoje estão vivendo uma verdadeira batalha conflagrada&#8221;, verifica o pesquisador.</p>



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	                                        <p class="m-0">Luiz C. Lourenço. Crédito: captura YouTube</p>
	                
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<p>O longo histórico da atuação violenta por parte das forças policiais na Bahia é resultado de um modelo apoiado no militarismo que afasta o controle do poder civil e atua prioritariamente na eliminação do inimigo e na ocupação dos espaços urbanos. Dudu Ribeiro, historiador e coordenador executivo da <a href="https://iniciativanegra.org.br/">Iniciativa Negra Por uma Nova Política de Drogas</a>, explica que o raciocínio intensificado nas últimas décadas pela segurança pública brasileira induz à guerra às drogas, algo que não é contra as substâncias e sim direcionada a determinadas pessoas, territórios e expressões culturais.</p>



<p>&#8220;As opções políticas do estado fortalecem a ideia da guerra às drogas, baseado nessa lógica do militarismo que nos empurra ao entendimento de que não é apenas uma crise da gestão da segurança pública na Bahia, mas, sobretudo, uma crise do modelo que visa a participação do Estado na intensificação dos confrontos armados&#8221;, defende Ribeiro, que ressalta o orçamento público na mão do militarismo como algo que navega na contramão do controle civil e da democracia. Ele argumenta que dessa forma é impossível acompanhar as práticas a partir da perspectiva da proteção dos direitos humanos.</p>



<p>O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), disse em coletiva à imprensa que se antecipando ao crime, as polícias Militar, Civil e Federal estão realizando semanalmente operações para que o crime organizado não se estabeleça na Bahia. &#8220;Estamos firmes&#8221;, decretou.</p>



<p>Em nota recente, a Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) atualizou as investigações no Alto das Pombas e Calabar. O relatório narra que uma operação foi desencadeada após um grupo de traficantes divulgar vídeos nas redes sociais, com fuzis e pistolas, anunciando uma invasão às localidades. O balanço contou&nbsp; seis fuzis, 11 pistolas e três granadas apreendidas; oito traficantes presos e outros dez traficantes mortos nos confrontos. Em 2023, ações policiais prenderam pouco mais de 12 mil pessoas (média de 50 por dia), apreenderam quatro mil armas, entre elas 48 fuzis, e seis toneladas de entorpecentes. Cerca de dois mil policiais e bombeiros foram contratados este ano e, até o final de 2024, serão 4.500 novos servidores.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O que a Colômbia pode nos ensinar?</strong></h3>



<p>Jorge Melguizo, ex-secretário de Cultura Cidadã e de Desenvolvimento Social de Medellín &#8211; a segunda maior cidade da Colômbia -, e consultor internacional, durante a sua gestão foi um dos responsáveis por reduzir significativamente o índice de homicídios violentos em 97%. Nos anos 1990, o município era tomado pelo tráfico de drogas, e, através do investimento em ações culturais e educacionais massivas, optando por não inflamar o cenário com mais violência, a transformação ocorreu.</p>



<p>&#8220;As violências em nossa América Latina, em particular na Colômbia e no Brasil, têm muitas semelhanças. Temos violências causadas pelas múltiplas formas de pobreza, especialmente pelas enormes desigualdades sociais, uma violência estrutural. Essa é a violência que envolve jovens das áreas mais pobres como agressores e vítimas”, salienta Melguizo ao refletir que o crime organizado gira em torno de dois poderes: o econômico e o territorial.&nbsp;</p>



<p>Há outro tipo de violência, que podemos chamar de violência cotidiana. Essa é exercida principalmente contra mulheres e também inclui a violência contra menores de idade dentro da família.</p>



<p>Aqui no Brasil, Jorge acompanhou a implementação dos Centros Comunitários de Paz (Compaz) em Pernambuco, criados por Murilo Cavalcanti, atual secretário de Segurança Cidadã da Prefeitura do Recife e diretor da <a href="https://compaz.recife.pe.gov.br/">Rede Compaz</a>.</p>



<p>Melguizo cita a iniciativa como exemplo para lidar com fatores de violência por meio de projetos educacionais, culturais, esportivos, recreativos, empreendedorismo e de apoio psicológico. Inicialmente, são construídas instalações nas áreas periféricas e turbulentas da cidade, elas se tornam refúgios de oportunidade para crianças e jovens.</p>



<p>Os Compaz foram inspirados em cinco projetos de Medellín: os Parques Biblioteca, as Unidades de Vida Articulada (UVA), os Centros de Desenvolvimento Cultural de Moravia (bairro), os Centros de Empreendedorismo Zonal e as Casas de Justiça. Cavalcanti se inspirou nesses projetos para criar algo novo no Recife, não apenas copiar Medellín. Hoje, quatro Compaz estão em funcionamento, dois estão em construção e dois estão em licitação, totalizando oito até o final da administração do prefeito João Campos (PSB).</p>



<p>Além disso, o presidente Lula anunciou a construção de cerca de 40 Compaz em várias partes do Brasil durante seu governo.</p>



<p>&#8220;Todo esse esforço contribui para a geração de empregos e empreendimentos, e o envolvimento da comunidade desempenha um papel fundamental. A população participa ativamente no design, na gestão e no controle dos projetos. É possível monitorar a implementação dos projetos públicos e garantir que sejam executados sem corrupção e com qualidade&#8221;, garante Jorge.</p>



<p>Embora os resultados não sejam imediatos, na opinião dele, já seria possível perceber melhorias no Recife, tanto na construção dos Compaz quanto nos efeitos positivos que eles têm nas comunidades locais. Esses projetos levam tempo para se desenvolver fisicamente e socialmente, mas são um investimento a longo prazo que, no decorrer dos anos, mostram bons resultados.</p>



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	                                        <p class="m-0">Material apreendido no Alto das Pombas. Crédito: Ascom SSPBA</p>
	                
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>A saúde mental no mapa da violência</strong></h3>



<p>Agosto foi o mês com o maior número de mulheres baleadas em Salvador e Região Metropolitana. No levantamento do <a href="https://fogocruzado.org.br/">Instituto Fogo Cruzado</a>, 27 mulheres foram vítimas da violência armada: 18 foram mortas e nove feridas. O saldo na cidade marcou 133 tiroteios, 111 mortos e 35 feridos.&nbsp;</p>



<p>Do total de tiroteios registrados em um ano (1.545), 529 ocorreram durante ações e operações policiais (34%). Foram mapeadas 379 mortes e 93 pessoas feridas nessas ocasiões. Os homens são maioria entre as vítimas.</p>



<p>Em uma década, crimes violentos letais intencionais (CVLIs) interromperam a vida de mais de 20 mil pessoas. Vítimas são, em sua maioria, homens, jovens e moradores da periferia: 805 jovens de 19 anos foram assassinados de 2011 a 2021. Os números, coletados pelo jornal baiano <a href="https://www.correio24horas.com.br/">Correio 24h</a> com base nos boletins diários de ocorrência publicados pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), não incluem os mortos pela polícia.&nbsp;</p>



<p>A psicóloga Gilka Freitas Tourinho, profissional de um Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) na rede pública, não está conseguindo fazer os atendimentos domiciliares com os pacientes e familiares nos bairros atingidos pela violência. A equipe, inclusive, não realiza mais as abordagens com os moradores de rua que circulam nos ambientes periféricos justamente pela insegurança que toma conta da cidade.&nbsp;</p>



<p>&#8220;No consultório, estou com 2 pacientes em quadros depressivos desde a época da pandemia da covid-19; agora, piorou a doença devido à violência nos bairros. Antes, eles podiam sair para passear, porém estão optando por ficar em casa. Esse isolamento social (circundado pelo medo), novamente imposto, não é saudável&#8221;, expressa Gilka, que chama a atenção para o alto grau de fobia nos adolescentes que não se encontram disponíveis para novas conexões interpessoais.&nbsp;</p>



<p>A psicóloga elenca a síndrome do pânico, depressão e a insônia no topo da lista dos quadros clínicos ligados à violência em comunidades carentes que ela mais cuida.</p>



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	                                        <p class="m-0">Acarajé da Dinha. Crédito: Divulgação</p>
	                
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<p>&#8220;Onde tem tiro toda hora, não dá para dormir; não tem como descansar em meio a uma crise de pânico. Se aconselhar um remédio natural, homeopatia, por exemplo, não vai dar certo. Precisa ser Rivotril para dopar o paciente na tentativa de um sono satisfatório. Isso é muito triste&#8221;, expõe a terapeuta.</p>



<p>O bate-papo com os amigos, celebrado nas noites de sexta-feira no boêmio bairro do Rio Vermelho, nas proximidades do Engenho Velho da Federação, também foi ameaçado por assaltos, furtos e mortes nos pontos turísticos. A baiana do acarajé Elaine Assis, responsável pelo famoso ponto da Dinha, empreendimento das mulheres de sua família há 80 anos, sofreu o ápice da tensão. Pensando na segurança de suas funcionárias e dos clientes, Elaine decidiu contratar uma empresa de segurança privada para ter calmaria no entorno do famoso quiosque no Largo de Santana.</p>



<p>&#8220;Neste mês de setembro, a situação melhorou devido ao policiamento continuado na região. Estamos menos apreensivos, existem vários bares por ali, e a violência causa o baixo movimento nos estabelecimentos, atrapalhando os negócios num bairro repleto de possibilidades gastronômicas&#8221;, comemora Elaine.</p>



<p>A resolução imediata que o historiador Dudu Ribeiro sugere em prol da pacificação nas ruas soteropolitanas é a instalação de câmeras nos uniformes policiais, que, quem sabe, auxiliará no controle do uso da força e também na proteção de uma parte da cadeia de provas num eventual processo de justiça criminal.</p>



<p>&nbsp;&#8220;É vital que o estado consiga investir de forma vigorosa numa boa produção democrática e transparente de dados. Esse possivelmente seja um dos elementos que compromete a construção de uma eficaz política de segurança pública na Bahia&#8221;, complementa a sua reflexão com a crítica de ampliar o próprio conceito de segurança pública que retire o modelo militar do âmago das atividades que tem na violência policial um de seus pilares.&nbsp;</p>



<p>&#8220;Os policiais não precisam ser o centro da segurança pública&#8221;, sintetiza Dudu.</p>



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