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	<title>Arquivos violência no futebol - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Sun, 02 Feb 2025 21:21:39 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos violência no futebol - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>&#8220;Raquel Lyra faz demagogia barata ao impor jogos de futebol sem torcida&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Feb 2025 21:10:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Santa Cruz x Sport]]></category>
		<category><![CDATA[torcidas organizadas]]></category>
		<category><![CDATA[violência no futebol]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Até dezembro do ano passado, o publicitário Adriano Costa era coordenador regional da Associação Nacional das Torcidas Organizadas, a Anatorg. Saiu por sentir que precisava encerrar seu ciclo na entidade, no qual enfrentou “desgaste pessoal altíssimo”. Durante os anos em que coordenou a organização, participou de audiências públicas convocadas pela Câmara Municipal do Recife e [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Até dezembro do ano passado, o publicitário Adriano Costa era coordenador regional da Associação Nacional das Torcidas Organizadas, a <a href="https://marcozero.org/raquel-lyra-faz-demagogia-barata-ao-impor-jogos-de-futebol-sem-torcida/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Anatorg</a>. Saiu por sentir que precisava encerrar seu ciclo na entidade, no qual enfrentou “desgaste pessoal altíssimo”. Durante os anos em que coordenou a organização, participou de audiências públicas convocadas pela Câmara Municipal do Recife e pela Assembleia Legislativa, articulou diálogos com a OAB-PE, propôs que as autoridades escutassem os torcedores que frequentam os estádios e conseguiu juntar dirigentes das torcidas rivais de Santa Cruz, Sport e Náutico para tentar costurar acordos de paz. Na maioria das vezes, seus esforços foram inúteis.</p>



<p>Em entrevista exclusiva, Costa afirma ter fica perplexo com as dimensões, a intensidade e a crueldade da briga entre as torcidas, mas não pelo fato dela ter acontecido. Na verdade, quem acompanha minimamente as redes sociais, sabia que o clima entre as duas maiores torcidas pernambucanas era o pior possível há alguns dias.</p>



<p>De acordo com ele, as autoridades de segurança pública do estado simplesmente não atuaram. Ele se pergunta “quantos culpados existem pela violência do sábado de Clássicos das Multidões?” e já emenda que existem vários responsáveis, não só aqueles que apareceram nos inúmeros vídeos da selvageria no bairro da Torre.</p>



<p>“Pela Lei Geral de Esportes, o Grupo de Trabalho de Futebol coordenado pelo secretário de segurança, por exemplo, pode ser responsabilizados judicialmente pelos problemas de segurança e organização deste último sábado”, provoca Adriano Costa durante a entrevista que você vai ler a seguir:</p>



<p>Marco Zero &#8211; <strong>Os vídeos da pancadaria nas ruas da Madalena e da Torre passaram a impressão que a violência entre as torcidas organizadas de Pernambuco mudou de patamar, escalando alguns degraus nas dimensões, na intensidade e, principalmente, na crueldade. O que você pensou e sentiu ao assistir àquelas cenas?</strong></p>



<p><strong>Adriano Costa &#8211; </strong>Antes de mais nada precisamos repudiar com vigor o que ocorreu ontem [sábado, 1º de fevereiro]. Além de repetitivo, é absurdo que atos como este continuem a se repetir em um estado com histórico tão pesado de notícias no âmbito nacional de violência e mortes entre torcedores organizados. Não tenho nenhuma intenção de eximir a responsabilidade de quem praticou crimes tão violentos e bárbaros, mas é preciso apontar os verdadeiros culpados pelo fato.</p>



<p><strong>E quem são esses culpados?</strong><br><br>Para começar, o Estado de Pernambuco, que não tem se colocado no papel de construtor de soluções, são anos evitando o diálogo, criando medidas populistas e inócuas sempre após uma grande crise. A violência de ontem foi prevista, premeditada, repetitiva e, sobretudo, proposital. O Estado promove, permite e proporciona.</p>



<p><strong>Por que é proposital? Em que você se baseia para afirmar isso?</strong><br><br>Primeiro, há muita gente interessada em tirar proveito dessa violência. Policiais pressionando por diárias e gratificações de maior valor; gestores públicos querendo “vender” pacotes de soluções e tecnologia; dirigentes de futebol mais interessados em fazer marketing pessoal ou impor um modelo autoritário e excludente nas arquibanacadas. Então, uma briga de grandes proporções atende a muitos interesses.</p>



<p>Mas, vamos aos fatos. Durante a semana já circulava em grupos do futebol e fora dele, vídeos e fotos de um possível furto de instrumentos e bandeiras entre torcidas do Santa Cruz e Sport, uma disputa de quem levava mais, cada lado, tricolor ou rubro-negro, querendo mostrar os seus devidos “troféus” expostos em praça pública, viadutos e ruas.</p>



<p>Ontem, antes do ocorrido, entre 09h e 10h da manhã, já era possível receber em grupos de WhatsApp e páginas de Instagram, vídeo de pequenos focos de correrias em bairros na perfiferia da Região Metropolitana, além de uma grande concentração de torcedores tricolores na avenida Caxangá. Ao meio-dia, a cidade inteira já sabia do confronto na rua Real da Torre, a cinco quilômetros de distância do Arruda.</p>



<p>Depois, já à noite, a Explosão Inferno Coral divulgou um documento que tinha protocolado no Comando Geral da PM e no Batalhão de Choque solicitando escolta policial e informando o trajeto com plano de acesso aos torcedores, cumprindo aquilo que diz a nova legislação da Lei Geral do Esporte. O ofício enviado à PM detalhava os pontos de concentração de torcedores, rotas seguras para deslocamento até o estádio do Arruda para evitar qualquer encontro entre torcidas organizadas adversárias, solicitação de escolta policial, garantindo um trajeto controlado e livre de conflitos. Então, porque a Polícia Militar não agiu?</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">A violência de ontem foi prevista, premeditada, repetitiva e, sobretudo, proposital. O Estado promove, permite e proporciona.</p>
</div>


<p><strong>Então a culpa é apenas da PM?</strong><br><br>Não só. Veja o caso do Grupo de Trabalho Coordenado pelo Secretário da Segurança Pública. É inoperante, não se reúne, não planeja, não ouve os verdadeiros atores do espetáculo esportivo e, sobretudo, tem caráter autoritário populista e ineficaz. Em geral toma atitudes – quando toma &#8211; que promovem e colaboram com a cultura de violência em dias de jogos de futebol, além de medidas que se desloca da realidade da arquibancada e, por essa razão, toma decisões irresponsáveis.</p>



<p>Pela Lei Geral de Esportes, o GT pode ser responsabilizados judicialmente pelos problemas de segurança e organização deste último sábado. Afinal, segundo o artigo 151 da nova Lei Geral de Esportes, que diz “é direito do espectador a implementação de planos de ação referentes a segurança, a transporte e a contingências durante a realização de eventos esportivos com público superior a 20.000 (vinte mil) pessoas”.</p>



<p><strong>Se a lei diz que o torcedor tem esse direito, qual sua opinião sobre a decisão da governadora Raquel Lyra de determinar que Santa Cruz e Sport joguem sem torcida?</strong></p>



<p>A Governadora Raquel Lyra está cassando um direito dos torcedores que não brigaram, que vão incentivar seus times de coração. Ao centralizar a decisão e proibir que qualquer torcedor veja os jogos de seu time por cinco partidas, até que seja implementado o reconhecimento facial nas catracas, é um atestado de incapacidade do Estado e de falta de assessoria do executivo estadual. Ora bolas, equipamentos da SDS, não fazem reconhecimento facial? Eles estão funcionando? Como não viram com antecedência a possibilidade de encontro de torcedores naquele bairro? O comando da PM não viu o oficio de uma das torcidas organizadas?</p>



<p>Cabe perguntar então quanto tem de responsabilidade dos clubes neste cenário, a ponto de serem prejudicados com portões fechados? Para o Santa Cruz pode representar a inviabilidade total, pois vai ficar sem renda quando está em recuperação judicial. Para o futebol de Pernambuco é a inviabilidade total do campeonato estadual, pois pode ter uma decisão sem sem público. Para a Federação será uma grande perda de arrecadação. Isso sem falar no prejuízo para os trabalhadores formais e informais, comerciantes, ambulantes, motoristas de transporte por aplicativo, seguranças privados e públicos que dependem financeiramente desta atividade econômica, pois o futebol movimenta a economia local.</p>



<p>Cabe à governadora Raquel Lyra e a SDS/PE intervir e reorganizar com urgência as forças policiais que fazem a segurança dos eventos esportivos em Pernambuco, com a abertura de um canal direto com a sociedade civil e comunidade pernambucana de torcedores. Especialmente na criação de um batalhão da PM especializado em eventos esportivos.</p>



<p><strong>Por falar em federação, qual o papel do presidente da Federação Pernambucana de Futebol?</strong></p>



<p>O Presidente da Federação Pernambucana de Futebol, Evandro de Carvalho, poderia ser o grande fiador de um fórum de diálogo e planejamento que fortaleça o futebol local, reunindo com antecedência, chamando atores dos clubes e da arquibancada que entendam sobre operação de jogo, logística, segurança e transporte, além disso poderia trazer técnicos, profissionais e torcedores com experiência e vivenciam de arquibancada, permitindo analisar o grau de tensão que cada jogo representa. Poderia, mas, ao contrário, ele tem incentivado atos de violência chamando torcedores para trocar tapa e a bala, como no áudio vazado nesta última semana. Sempre com seu caráter autoritário, me parecer ter um vício em microfone e aparições públicas que gerem noticia e visibilidade para satisfazer seu ego.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/02/torcida.jpg" alt="A imagem mostra uma sala de aula ou pequeno auditório de paredes claras com várias homens jovens sentados em cadeiras com pranchetas. Os homens são integrantes de torcidas organizadas do Sport Recife, Náutico e Santa Cruz e estão vestidos com camisetas de cores variadas, principalmente amarelas, vermelhas e brancas, e algumas delas têm bonés. No fundo da sala, há um banner com o logotipo de uma organização sindical. A sala tem um teto com iluminação embutida e um projetor pendurado. As pessoas estão olhando para a frente, como se estivessem assistindo a uma apresentação ou aula." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Adriano organizou encontros entre torcedores organizados para fazer acordos de paz
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Qual a responsabilidade dos clubes?</strong><br><br>Sinceramente, os clubes têm a cada dia menos a ver com os atos de violência que acontecem longe da arena esportiva e, equivocadamente, são os que tem recebido a represália pela má gestão da governadora. No entanto, ao serem convocados como ouvintes pelo GT, têm enviado representantes que não sabem nada do sentimento da arquibancada e do jogo, são representantes meramente protocolares e burocráticos, pessoas que não tem um pingo de entendimento de operação de jogo e que sempre assistiu ao jogo pela TV ou camarote, gente que vai ao estádio de carro e o estaciona com segurança em vagas privadas dentro do próprio clube.</p>



<p><strong>Você vislumbra uma solução possível?</strong><br><br>Sim. E qualquer solução passa pela participação da sociedade civil, incluindo aí a representação de torcedores, torcedoras e torcidas. Esse é o primeiro pilar para encontrar um caminho.</p>



<p>Apesar de críticas que podem existir à Anatorg, ela foi a única instituição que tem conseguido reunir as maiores organizadas arquirrivais para, minimamente, dialogar e tentar construir coletivamente ações e debates em torno de soluções para evitar mortes, confrontos e garantir o direito de torcer.</p>



<p>Medidas como torcida única, futebol sem torcida, já se comprovaram ineficazes. A autoridade pública que defender isso, como a governadora Raquel Lyra, achando que vai receber vários <em>likes</em> se engana. Impor jogos sem torcida é demagogia barata. Quem vive e participa diretamente do futebol sabe que não é esse o caminho.</p>



<p>O segundo pilar é a punição direta aos indíviduos, aos CPFs dos responsáveis, a transferência de responsabilidade para as entidades ou torcidas organizadas enquanto CNPJ, já se mostrou inútil. Pior ainda é transferir a culpa para os clubes. É esconder o problema debaixo do tapete. Não há neste governo nem no anterior interesse em construir ações que minimizem a violência entre as organizadas. Nem no âmbito estadual muito menos no nacional.</p>



<p>Por fim, há um terceiro pilar: o incentivo a política cultural da arquibancada, incentivar a festa, a música, as cores, a dança, a alegria e a alegoria, essas são as soluções básicas sociais que diminuem a violência, não há metodologia &#8220;inglesa&#8221; que dê certo em um país de culturas, tradições e desigualdades totalmente diferentes como é o Brasil.</p>



<p>Pernambuco precisa entender a importância da cultura torcedora pulsante na arquibancada, e o poder que ela tem para reforçar e expandir a cultura pernambucana, basta ver os exemplos dos estados de Bahia e Ceará, onde as organizadas fazem belas festas na arquibancada. Nesses estados têm violência? É claro que tem, mas seus gestores que é um problema de sociedade de forma geral, não uma exclusividade do futebol ou do torcedor.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/porque-as-autoridades-a-fpf-pe-e-os-dirigentes-de-clubes-sao-culpados-pela-violencia-entre-torcedores/" class="titulo">Porque as autoridades, a FPF-PE e os dirigentes de clubes são culpados pela violência entre torcedores</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
            
		            </div>
	            </div>
        </div>

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			</item>
		<item>
		<title>O jogo perdido</title>
		<link>https://marcozero.org/o-jogo-perdido/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 Mar 2024 20:29:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[torcidas organizadas]]></category>
		<category><![CDATA[violência no futebol]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Edilson Ribeiro* Fui levado a várias reflexões depois de ler, na edição da Marco Zero, em 5 de março, reportagem de Inácio França sobre a reunião de líderes de torcidas organizadas, com objetivo de realizar um pacto de não agressão mútua. As Reflexões, devo admitir, causaram-me certa consternação. A matéria é uma triste constatação [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Edilson Ribeiro*</strong></p>



<p>Fui levado a várias reflexões depois de ler, na edição da Marco Zero, em 5 de março, reportagem de Inácio França sobre a reunião de líderes de torcidas organizadas, com objetivo de realizar um pacto de não agressão mútua. As Reflexões, devo admitir, causaram-me certa consternação.</p>



<p>A matéria é uma triste constatação da nossa indigência cultural, social e econômica. Retrato gritante da ausência do estado em setores essenciais da vida em sociedade. Ou não é isso que acontece quando você vê líderes de torcidas decidindo entre a guerra ou a paz, no futebol, sem a presença sequer de um representante das polícias ou do Ministério Público?</p>



<p>É um flagrante fotográfico que capta a situação não somente de Pernambuco, mas de todos os outros entes federativos. Espelha o caos social, como o domínio de um quarto do território do Rio de Janeiro por melícias; a guerra entre facções criminosas que subtraem o direito de ir e vir dos cidadãos; e a condenação das nossas crianças a doenças e baixa capacidade cognitiva, por falta de saneamento básico. Não podemos esquecer, ainda, da eterna parcialidade da Justiça brasileira, que desemboca na formação de castas compostas de pessoas de primeira e segunda classes.</p>



<p>Não cabe às torcidas organizadas determinarem se vai haver paz ou não nas partidas de futebol. A raposa não pode tomar conta do galinheiro.</p>



<p>É a confirmação de que, na falta do poder público, a vida em sociedade se transforma em um vale tudo, com os mais fortes e ricos se sobrepondo aos mais pobres e fracos.</p>



<p>É preciso que as instituições que compõem o estado façam seu papel de mediação, protegendo os mais vulneráveis e punindo aqueles que pensam em solapar o ordenamento jurídico e social. Do contrário, será uma partida em que estaremos fadados a continuar tomando de goleada.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/cessar-fogo/" class="titulo">Cessar-fogo?</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/violencia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Violência</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p><strong>*Jornalista</strong></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Cessar-fogo?</title>
		<link>https://marcozero.org/cessar-fogo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Mar 2024 12:17:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Fanáutico]]></category>
		<category><![CDATA[Inferno Coral]]></category>
		<category><![CDATA[Jovem do Sport]]></category>
		<category><![CDATA[torcidas organizadas]]></category>
		<category><![CDATA[violência no futebol]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na noite em que a Federação Pernambucana de Futebol e a Polícia Militar decidiram que os clássicos entre Santa Cruz x Sport pelas semifinais do campeonato estadual serão realizados com torcida única, as lideranças das três principais torcidas organizadas do estado costuravam um “tratado de paz” no auditório do Sindicato dos Metalúrgicos, no centro do [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/cessar-fogo/">Cessar-fogo?</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Na noite em que a Federação Pernambucana de Futebol e a Polícia Militar decidiram que os clássicos entre Santa Cruz x Sport pelas semifinais do campeonato estadual serão realizados com torcida única, as lideranças das três principais torcidas organizadas do estado costuravam um “tratado de paz” no auditório do Sindicato dos Metalúrgicos, no centro do Recife. O encontro foi iniciativa dos próprios torcedores e não contou com a presença de nenhuma autoridade.</p>



<p>Já houve outras tentativas de se fazer algo parecido antes, mas essa foi a primeira vez em que uma negociação entre as torcidas acontece em um momento de tensão extrema, dias após o ataque ao ônibus da delegação do Fortaleza e às vésperas de jogos decisivos. Único veículo de mídia presente, a Marco Zero acompanhou a reunião do início ao fim.</p>



<p>Não se pode dizer que os líderes da Fanáutico, Jovem do Sport e Inferno Coral (atualmente Explosão Coral) não se expressam uns com os outros com clareza, em linguagem crua, sem arrodeios. “Se a gente for começar a falar das feridas abertas que temos, não vamos acabar nunca. Todas as três torcidas têm culpa no cartório. Agora não tem mais jeito, o que a gente tem de fazer é se alinhar”, disse o alvirrubro Arthur, da Fanáutico. Pouco antes, ele havia dito que “não adianta, a PM não vai dar respaldo ao que for combinado aqui, a gente é que tem de ter hombridade para respeitar o pacto”.</p>



<p>Na mesma linha sem-papas-na-língua, Erivam, da Explosão/Inferno, fez uma provocação aos demais diretores: “nós da liderança temos de nos conscientizar que também ajuda a ter violência. Por exemplo: quando os componentes pedem dinheiro pra botar gasolina no carro pra dar umas voltas, a gente sabe que os caras vão partir pra briga com o pessoal de vocês, mas, mesmo assim, a gente dá dinheiro”.</p>



<p>Ninguém contestou.</p>



<p>Respeitado até pelos adversários por sua coragem e desempenho nas brigas de rua, Carlos Renato, o Renatinho, fez um dos mais enfáticos discursos pela paz entre as organizadas: “A gente tem de fazer essa parada andar, a gente tem de dar as mãos e passar essa visão para os nossos irmãos na rua. Se o componente vê a gente com as ideias abraçadas, vai aceitar nosso pacto. Se isso tivesse acontecido há uns dez anos, a gente estaria em outro patamar”.</p>



<p>Quando fala em “outro patamar”, Renatinho inclui também o aspecto financeiro. “Qual é a empresa que vai querer patrocinar um negócio com morte, confusão, destruição?”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Líderes admitem que também têm culpa pela violência. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Os termos do tratado de paz</strong></h2>



<p>Para entender a importância do que foi combinado na reunião seria preciso conhecer a dinâmica da relação entre as torcidas, incluindo alguns simbolismos que parecem misteriosos a quem não é desse universo, caso deste repórter e da maioria dos leitores da Marco Zero. Pra começar, “sede e estádio são sagrados”. Traduzindo: uma torcida não pode atacar a sede da outra nem brigar dentro dos estádios. Isso é tão importante que o coordenador regional da Associação Nacional das Torcidas Organizadas (Anatorg), Adriano Costa, incluiu esse item na pauta da reunião.</p>



<p>O primeiro a garantir que seu grupo vai se manter longe da sede das rivais foi o torcedor do Náutico. “Pra gente, isso acabou, não vai ter mais”, cravou Arthur. Durante o debate desse ponto, alguém do auditório falou que “se forem na nossa sede vão ser recebidos à bala…”</p>



<p>Ivison Tavares, também conhecido como Pastor, um evangélico que foi líder das brigas de rua e hoje é advogado, defendendo tanto torcedores organizados quanto PMs acusados de crimes, cortou a fala enfaticamente: “não tem mais isso ‘se forem lá…’, não, não tem de ter. Acabou. Ponto. Fim”.</p>



<p>Antes de chegar a notícia que o clássico do próximo sábado será com torcida única, os torcedores debateram exaustivamente como reduzir os riscos das brigas nas ruas e avenidas a caminho do estádio. Aqui cabe uma explicação: a maior parte dos confrontos violentos acontece no trajeto dos “bondes”, ou seja, os grandes grupos que saem dos bairros de ônibus, metrô ou mesmo a pé. Ficou claro que o “pessoal dos bairros” preocupa – e muito – as lideranças das torcidas. Teria sido um desses grupos que emboscou o ônibus do Fortaleza no Curado.</p>



<p>Se a torcida do Sport puder ir ao clássico no Arruda, ficou acertado que os tricolores só vão iniciar seu deslocamento às 13h, quando os rubro-negros estiverem todos concentrados diante da sede do Sport, na Ilha do Retiro. Os líderes rivais assumiram o compromisso de manter a transparência, avisando uns aos outros onde estão os “bondes”. Nas ruas do entorno dos estádios, também está acertado que as lideranças vão ficar atentos para “apagar os incêndios”, principalmente apartando pequenas brigas que podem se tornar em pancadaria generalizada antes ou depois do jogo.</p>



<p>Serão enviados ofícios a PM pedindo escolta, informando horários, trajetos e pontos de concentração. Mesmo que seja negado, todos consideraram importante a formalização para “resguardar juridicamente as diretorias das torcidas”.</p>



<p>Se realmente a próxima partida acontecer com torcida única, as lideranças da Jovem se comprometeram a deixar o caminho livre para os tricolores, mas admitem que há sempre o risco de grupos isolados – ou, no caso da torcida do Sport, a oposição à atual diretoria da torcida &#8211; tomarem a iniciativa de atacar alguém.</p>



<p>Também ficou pactuado que o acerto vale para todos os jogos de agora em diante.</p>



<p>Em relação à torcida única, o advogado Renan Castro, da Comissão de Direitos Humanos da OAB e integrante do Centro Popular de Direitos Humanos (CPDH), acompanhou a reunião e, no final, disse estar à disposição caso as organizadas queiram dar entrada numa Ação Civil Pública para tentar assegurar o direito da torcida do Sport ir ao jogo no Arruda. E vice-versa.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Sem consenso</strong></h3>



<p>Um ponto, no entanto, ficou em aberto, sem que os torcedores alcançassem um consenso: o que fazer se integrantes da torcida, isolada ou coletivamente, violarem o acordo de paz?</p>



<p>Os participantes reconhecem que, ao menos em um primeiro momento, será inevitável que isso aconteça. Para Pastor, o que vai determinar o sucesso do pacto será a resposta das diretorias das organizadas que, em meio a outras tentativas de pacificação, teriam sido complacentes com os violentos ou mesmo recomeçando a “guerra”. O advogado da Jovem pediu que se considerasse a possibilidade de “entregar” os nomes dos responsáveis para ajudar o trabalho da polícia.</p>



<p>“Não que eu seja a favor disso, mas é preciso fazer algo diferente porque o que está em jogo é a existência das nossas instituições e a liberdade das lideranças porque a nova <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/L14597.htm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Lei Geral dos Esportes</a> responsabiliza os dirigentes de torcidas pelos danos causados”, alertou.</p>



<p>O alvirrubro Arthur descartou a possibilidade de agir dessa maneira: “não vamos ser x-9 [o mesmo que dedo-duro, delator]”. O coordenador da Explosão/Inferno havia dito que &#8220;a gente tá preferindo ter 500 caras que honrem o bagulho [a instituição] do que 4.000 maloqueiros&#8221;, mas não deixou claro qual a posição da sua organizada.</p>



<p>Adriano Costa explicou a Anatorg se posicionou contra a delação e explicou o porquê: “O Estado vai garantir a vida dos dirigentes de torcidas que entregarem seus componentes para a Polícia? Não vai”.</p>



<p>No final, Costa, anunciou que a entidade pretende organizar um encontro de todas as torcidas organizadas do estado ainda este ano.</p>



<p>Enquanto posavam juntos para a foto simbólica, os participantes do encontro comentavam que o sucesso do tratado de paz neste momento é decisivo para as organizadas. Ao menos entre os “cabeças” há um certo cansaço das cenas de violência: “a gente também tem famílias, queremos viver nossas vidas”, comentou o rubro-negro Renatinho.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/para-as-autoridades-de-pernambuco-as-torcidas-organizadas-nao-existem-e-isso-gera-mais-violencia/" class="titulo">Para as autoridades de Pernambuco, as torcidas organizadas não existem. E isso gera mais violência</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/violencia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Violência</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

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			</item>
		<item>
		<title>Porque as autoridades, a FPF-PE e os dirigentes de clubes são culpados pela violência entre torcedores</title>
		<link>https://marcozero.org/porque-as-autoridades-a-fpf-pe-e-os-dirigentes-de-clubes-sao-culpados-pela-violencia-entre-torcedores/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Jan 2024 21:44:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[futebol]]></category>
		<category><![CDATA[polícia em Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[Raquel Lyra]]></category>
		<category><![CDATA[SDS-PE]]></category>
		<category><![CDATA[violência no futebol]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Adriano Costa* O Grupo de Trabalho do Futebol no Estado é um fórum que conta com a presença da Secretária de Defesa Social de Pernambuco, Poder Judiciário, Ministério Público Estadual, Federação Pernambucana de Futebol, clubes de futebol, polícias Militar, Civil e Corpo de Bombeiros. Menos a participação efetiva da sociedade civil organizada, incluindo aí [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Adriano Costa*</strong></p>



<p>O Grupo de Trabalho do Futebol no Estado é um fórum que conta com a presença da Secretária de Defesa Social de Pernambuco, Poder Judiciário, Ministério Público Estadual, Federação Pernambucana de Futebol, clubes de futebol, polícias Militar, Civil e Corpo de Bombeiros. Menos a participação efetiva da sociedade civil organizada, incluindo aí a representação de torcedores, torcedoras e torcidas.</p>



<p>A reivindicação para que isso aconteça não é nova.</p>



<p>Em 3 de dezembro de 2021 foi realizada uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) por iniciativa da então deputada estadual Teresa Leitão (PT), que recebeu o apelo de uma representação de torcedores dos três maiores times de Pernambuco junto à Associação Nacional de Torcidas Organizadas (Anatorg). Naquele encontro ficou encaminhado que, um Grupo de Trabalho reunindo representantes de instituições públicas e da sociedade civil seria formado, porém isso nunca ocorreu.</p>



<p>Durante a semana, a coordenação regional da Anatorg no Nordeste encaminhou ofício para todos os órgãos organizadores de eventos esportivos no estado e que fazem parte do atual GT. O documento, evocando o artigo 151 da nova Lei Geral de Esportes, que deixa claro que “é direito do espectador a implementação de planos de ação referentes a segurança, a transporte e a contingências durante a realização de eventos esportivos com público superior a 20.000 (vinte mil) pessoas”, se colocou à disposição em construir com muito diálogo junto às torcidas, movimentos, “barra bravas”, clubes e torcedores organizados, a elaboração de um plano de segurança para os clássicos entre Náutico, Santa Cruz e Sport pelo campeonato pernambucano.</p>



<p>Tal ofício foi protocalado na Grande Recife sob o número 0050500003.000360/2024-21, na secretaria de Defesa Social (protocolo 3900000003.000381/2024-72), e no Comando Geral da PMPE (3900000015.000227/2024-61), sendo encaminhado ao comandante-geral. Em nenhum dos casos, houve qualquer resposta. A Torcida Explosão Coral chegou inclusive a organizar um plano logístico, enviado para a coordenação regional da Anatorg e notificou as autoridades sobre trajetos e necessidades de escolta policial. Tal plano previa pontos de concentração em Maranguape (Paulista), ao norte; em Jaboatão Centro, ao oeste; em Prazeres (Jaboatão dos Guararapes), ao sul, além de um ponto de concentração geral da torcida na rua do Hospício, centro do Recife.</p>



<p>O plano informa ainda sobre o trajeto em caminhada da rua do Hospício até a Estação Recife do Metrô, de onde saiu um metrô expresso com a torcida tricolor, rumo ao terminal do TIP, onde estava previsto um esquema especial de policiamento que iria fazer a escolta até a Arena, mas esse destacamento policial não chegou. A torcida, então, seguiu em caminhada do TIP pela BR-232 até a entrada da área de visitantes. Eram pelo menos duas mil pessoas andando por mais de cinco quilômetros.</p>



<p>Há uns 500 metros para a entrada dos visitantes na Arena Pernambuco, ainda não se via sinal da escolta policial, tornando mais real a possibilidade de confrontos, o que acabou não acontecendo porque o grupo vinha sendo conduzido pelas lideranças da torcida organizada, que evitou o embate e aguardou o deslocamento do Batalhão de Choque em direção ao grupo.</p>



<p>É importante destacar que, durante toda a semana, o clube mandante descumpriu o artigo 143 da Lei Geral de Esportes (“É direito do espectador que os ingressos para as partidas integrantes de competições em que compitam atletas profissionais sejam colocados à venda até 48 horas antes do início da partida correspondente”), pois só liberou a compra apenas após uma abertura de processo em liminar solicitando gratuidade feita pela Anatorg na tarde da sexta-feira, 19 de janeiro. Com isso, faltando apenas 30 horas para o espetáculo iniciaram as vendas, com esgotamento imediato de ingressos meia entrada e, logo após, inteira, mesmo com vendas apenas virtuais.</p>



<p>Somente a uma hora do início da partida os portões para a torcida visitante foram abertos, mas com apenas três catracas funcionando, o que obrigou o uso de maquinetas para leitura de QR CODE dos ingressos. O resultado está nas redes sociais: sobram vídeos nas redes sociais com relatos de desumanidade, pisoteamento, maus tratos, violência policial, esmagamento, tortura, uso de cacetetes e spray de pimenta. mesmo sendo uma arena planejada para uma Copa do Mundo, foi proposital.</p>



<p>Em nota veiculada no site oficial do clube, o Sport Club do Recife, deixa claro que houve erros no GT, principalmente ao considerar a previsão de duas mil torcedores visitantes. A inoperância do diálogo do GT tem se deslocado da realidade da arquibancada e, por essa razão, toma decisões irresponsáveis.</p>



<p>Cabe à governadora Raquel Lyra e a SDS/PE intervir e reorganizar com urgência as forças policiais que fazem a segurança dos eventos esportivos em Pernambuco, com a abertura de um canal direto com a sociedade civil e comunidade pernambucana de torcedores.</p>



<p>O GT que atua subordinado ao Governo do Estado pode, pela Lei Geral de Esportes, ser responsabilizados judicialmente pelos problemas de segurança e organização deste sábado, 20 de janeiro, , como diz o artigo 149, “a responsabilidade pela segurança do espectador em evento esportivo será da organização esportiva diretamente responsável pela realização do evento esportivo e de seus dirigentes”.</p>



<p>As cenas confrontos entre torcedores na Região Metropolitana na manhã de sábado, com três pessoas baleadas perto do terminal integrado Pelópidas da Silveira, em Paulista, não aconteceram por acaso. Se os torcedores envolvidos são os atores da violência, as decisões do Grupo de Trabalho são responsáveis pela direção, montagem de palco e criação do cenário onde os protagonistas da barbárie atuam.</p>



<p><strong>*Adriano Costa é coordenador regional da Associação Nacional de Torcidas Organizadas (Anatorg) no Nordeste</strong></p>



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<p><br></p>
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		<title>&#8220;Segurança privada não dá conta de conter violência nos estádios de futebol&#8221;, alerta Irlan Simões</title>
		<link>https://marcozero.org/seguranca-privada-nao-da-conta-de-conter-violencia-nos-estadios-de-futebol-alerta-irlan-simoes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Jun 2023 11:39:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Arena Pernambuco]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por George Lucas* O grito de gol pode parecer igual em muitas partes do mundo. Os torcedores que celebram a vitória ou lamentam a derrota&#160; carregam consigo grandes diferenças culturais e sociais, que refletem nas arquibancadas características próprias de cada região.&#160; Torcer por um time de futebol faz parte da vida de milhões de brasileiros [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por George Lucas*</strong></p>



<p>O grito de gol pode parecer igual em muitas partes do mundo. Os torcedores que celebram a vitória ou lamentam a derrota&nbsp; carregam consigo grandes diferenças culturais e sociais, que refletem nas arquibancadas características próprias de cada região.&nbsp;</p>



<p>Torcer por um time de futebol faz parte da vida de milhões de brasileiros e brasileiras desde a infância. Mesmo quem não se envolve com o esporte, é impactado pela cultura do futebol e das suas torcidas. Mesmo assim, há poucos especialistas dedicados a pesquisar o que é torcer por um clube em um país que, ao mesmo tempo que dá os primeiros passos no processo de elitização de estádios, convive com a violência alimentada pela crônica incompetência das autoridades e forças policiais.&nbsp;</p>



<p>Uma dessas pessoas é o jornalista baiano Irlan Simões, doutor em Comunicação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), autor do livro <em>Clientes versus Rebeldes &#8211; Novas culturas torcedoras nas arenas do futebol moderno</em> e organizador de outro, <em>Clube Empresa: abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol</em>, além de ser criador do podcast e canal de YouTube <a href="https://www.youtube.com/c/NaBancada">Na Bancada</a>.</p>



<p>Dez anos depois da inauguração das primeiras arenas para a Copa do Mundo de 2014, conversamos com Irlan para entender melhor as conexões e particularidades das torcidas organizadas e a relação entre o futebol e a indústria cultural:</p>



<p><strong>Após 10 anos da inauguração das primeiras arenas, é possível constatar mudanças na cultura torcedora do Brasil?</strong></p>



<p><strong>Irlan Simões &#8211; </strong>Com certeza, mudou bastante. Não à toa, mas tem muita relação. O processo de esvaziamento de organizada, de perseguição e criminalização, acabou também mudando um pouco essa cultura de arquibancada, ainda que com algumas renovações desses movimentos mais recentes.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Tem uma questão geracional também, existia uma procura maior por estádio, que está sendo retomada agora por uma nova geração. Nos anos 2010, a sensação era de que o estádio deixou de ser uma coisa importante, mas agora tem uma geração mais jovem que vê no estádio muito mais do que o jogo, né, integrando a ideia de que estádio é o momento de tempo livre, de diversão de e socialização. Isso é muito bacana porque, se depender apenas do dentro de campo, a gente não consegue atrair tanto o torcedor, isso é fato. Muito melhor o cara ficar em casa vendo na TV os timaços da Europa.</p>



<p>Em termos de cultura de arquibancada, é claro que o jogo é uma coisa importante e a situação do time também, mas o fato de a pessoa se sentir integrada e envolvida é diferente. Então, estou notando uma revestida numa tendência com que a gente estava se preocupando, ali nos anos 2010. Do ponto de vista da cultura do torcedor, claro que o próprio equipamento impõe também um pouco um padrão de comportamento que vai de sentido contrário do que a gente era acostumado a ver, como a maior festividade nos tempos anteriores, hoje o torcedor não pode nem tomar chuva no estádio. Há uma ideia de estádio cada vez mais shopping center, exigindo o tempo todo um ambiente super limpinho. De fato, é curioso como as arenas transformaram os torcedores, principalmente aqueles que frequentam muito a arena. Os torcedores que frequentam mais estádios (não arenizados) são mais tranquilos com relação a isso.</p>



<p><strong>O efeito de arenização da Europa possui semelhança com o do Brasil?</strong></p>



<p>Esse é um processo um pouco diferente, porque a arenização no Brasil se deve só por causa de uma Copa do Mundo. Acho que o futebol europeu tem capacidade financeira para ter estádios desse padrão, no Brasil não. Alguns clubes conseguiram. O Grêmio, por exemplo, até hoje está pagando a sua arena. O Athletico Paranaense nunca colocou em questão as dívidas da Baixada. O do Palmeiras foi um caso mais à parte, mas também está em São Paulo, a capacidade financeira é de outra ordem.&nbsp;</p>



<p>A ideia de arena é basicamente uma imposição de um padrão de consumo. Um equipamento que você não comercializa só o espetáculo esportivo, mas vários outros produtos, e por isso você precisa de um público com maior capacidade financeira. Eu não gosto de comparar o Brasil com a Europa diretamente porque aqui não tem um fator que lá tem em grande proporção, que é o público turístico. Todo mundo conhece os jogadores do Barcelona, do Real Madrid, do Bayern, do United, do City, etc. Então se você está numa cidade dessa como turista, um dos seus passeios com certeza vai ser visitar um estádio. Pode vim até turista que queira vim conhecer o Maracanã, mas não vai pelos times que estão dentro de campo. Então a gente não tem esse público turista pra encher o estádio. No Brasil, a gente tem uma elitização porque os ingressos são caríssimos e os planos de sócio-torcedor não são acessíveis, só dão desconto nos ingressos. Então o torcedor fica dependendo da flutuação do preço de acordo com o humor do clube.</p>



<p>É bom lembrar que as políticas de elitização do Brasil são bem anteriores às arenas da copa. As arenas são de 2013. A gente pode falar que mais ou menos no final dos anos 90, a gente começa a ter uma série de políticas que vão prejudicar muito o torcedor de baixa renda que não é violento. O torcedor que não é violento está pagando a conta por uma incompetência do Estado de prover segurança.</p>



<p><strong>Em relação à violência no futebol, você acredita ser possível reduzir os poderes da Polícia Militar nos estádios sem comprometer o combate à violência entre grupos organizados? Ou será que a PM alimenta a violência?</strong></p>



<p>Se entrou em uma ilusão recente de que segurança privada ia dar conta de conter a violência que explode por algum tipo de desorganização na logística, na localização, no posicionamento das torcidas no estádio. A segurança privada não dá conta, até porque não tem nem treinamento para tal. A polícia é muito importante quando esses fatos acontecem, de confronto entre torcidas em grande volume, com muitas pessoas. Sem dúvida só uma força como o Choque para conseguir evitar de fato que a coisa piore, uma intervenção mais agressiva, uma bomba de efeito moral, um caso extremo. Nem é tão comum ter confronto de torcida em estádio, muito mais comum na rua, muitas vezes até bem longe do estádio, e aí é até difícil de prever.</p>



<p>O grande problema é quando se aplica a força policial, que é basicamente de combate, como solução em situações onde ela não tem preparo , a exemplo do acesso desorganizado dos torcedores em estádio. Obviamente esse não é o caso de ter Polícia Militar, né? É o caso de ter profissionais treinados para organizar o público e gerir aquela multidão para que as coisas ocorram melhor.&nbsp;</p>



<p>Outra questão, eu uso como exemplo Pernambuco, onde as torcidas organizadas são banidas e querem evitar que as pessoas entrem com instrumentos musicais e bandeiras alusivas aplicando-se a força da Polícia Militar em situações onde não há confronto, ficando só a violência desmedida e desnecessária. Então, tem um pouco dessa questão aí. Onde aplicar a força policial e por quê? Sem dúvida em casos mais graves que só ela que dá conta mesmo. Essa questão de segurança privada já é provada como erro em muitas situações.</p>



<p><strong>Por que temos a sensação de que na Europa os estádios têm segurança e não acontecem brigas?</strong></p>



<p>Eu acho que existem duas questões, primeiro a ignorância. E dessa ignorância também parte um pouco da incapacidade de entender que existem fenômenos próprios da Europa com relação a violência de torcedores, talvez até bem piores que o nosso porque o volume é muito maior, são muitos grupos, e mesmo os clubes pequenos tem presença de agrupamentos. E essa ignorância também vem um pouco de uma posição de vira-latismo cultural, de certa forma.&nbsp;</p>



<p>A diferença é grande entre o sensacionalismo na abordagem midiática lá e cá. Lá você não tem uma circulação de imagens de circuitos grandes de TV levando isso ao público. É raro você ter isso (vídeos de confrontos) em uma TV grande, principalmente quando é dentro do estádio. Quando é fora, às vezes, eles noticiam. Mas as imagens que chegam a circular nesses grupos não alcançam um público mais amplo. Existem muitas páginas hoje que postam esses vídeos, inclusive é um fator problemático da atualidade para se pensar: como essas páginas retroalimentam essa cultura da violência e estimulam muito e, de certa forma, lucram com isso tudo. Afinal, tudo é audiência hoje em dia.</p>



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	                                        <p class="m-0">Simões não acredita que mercado brasileiro sustente a arenização. Crédito: Acervo pessoal</p>
	                
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<p><strong>O que as torcidas organizadas brasileiras têm em comum com ultras e hooligans?</strong></p>



<p><strong>Irlan Simões &#8211;</strong> Tanto torcida organizada, quanto ultra, quanto hooligan, quanto barra brava, são coletivos organizados de torcedores, geralmente jovens e homens. Têm características e estéticas muito distintas. São formas organizadas, porém não são torcidas organizadas, que acaba sendo um conceito brasileiro, que basicamente só existe aqui, apesar de ter influenciado outros lugares.&nbsp;</p>



<p>Por outro lado, a ideia de hooligan não é necessariamente um coletivo organizado de torcedores, é basicamente um coletivo de homens e que se juntam para a prática da violência. O hooliganismo foi um termo que começou a ser adotado na Inglaterra para identificar esses grupos, vamos dizer assim, que tinham basicamente o objetivo de entrar em confronto físico. Não faziam grande diferença dentro do estádio, não faziam coreografias, música, não levavam bandeira, não se identificam por um nome específico, são poucos os casos os que tinham uma identidade própria. São essa subcultura de gangue de rua das grandes cidades.&nbsp;</p>



<p>É uma grande confusão que se faz na Europa, porque a depender do país, a ideia de ultra e hooligan tem forma diferente. Por exemplo, na Alemanha usam aqueles coletivos organizados, até institucionalizados e reconhecidos pelo clube, e existe um tipo de hooliganismo alemão, que passa por fora dos ultras, muitas vezes não tem nem envolvimento com esses grupos, pelo contrário, são até combatidos pelos ultras. Então é bom diferenciar essa ideia. O hooliganismo em si seria basicamente a definição de cultura de violência na arquibancada. Como se a gente dissesse que aqui no Brasil também existe uma espécie de hooliganismo que está dentro das forças organizadas, mas é, ao mesmo tempo, independente.</p>



<p><strong>Por que da proximidade de alguns desses grupos (ultras e hooligans) com a extrema-direita?</strong></p>



<p>Com relação à proximidade com a extrema-direita, se a gente pegar ali uma outra geração, dos anos 80, por exemplo, você vai ter na França, na Inglaterra, na Itália, de certa forma também, grupos que eram de alguma forma mobilizados por partidos de extrema-direita. Partidos neofacistas que estavam se formando, muitos deles já deixaram de existir, foram banidos, dissolvidos, e agitavam essa juventude, principalmente a juventude branca, que vivia um momento de precariedade. </p>



<p>Uma vez que você está falando ali dos anos 1980, havia um desmantelamento do Estado de bem-estar social, no processo de crescimento do neoliberalismo na Europa e regulamentação financeira, privatização, desmantelamento do serviço público. Dessa estrutura se criou dos anos 1960, 70, no pós-guerra. Então você vai ter uma geração de jovens que não tinham mais os mesmos privilégios e a mesma estrutura de assistência social que as gerações anteriores. Não tinham bons empregos, não tinham bons salários, não tinham acesso ao serviço público de qualidade. Isso levava ao desalento e combinava, por exemplo, com uma ideia de globalização, que começava-se a se fortalecer nesse contexto. Além também do processo de imigração, com muitos trabalhadores vindos da África, da Ásia, da América do Sul, um choque cultural muito forte que vai ser capitalizado por essa extrema direita pra mobilizar a juventude branca local predominantemente masculina.&nbsp;</p>



<p>No futebol já tem essa ideia do confronto físico, da virilidade, da masculinidade. Então, esse discurso chegava com muita facilidade. Esses jovens, organizados, buscavam juntar as duas coisas: uma revolta social e o prazer pelo confronto físico. Então, a de se entender como esses grupos conseguiram se proliferar na arquibancada. Existia um contexto histórico que motivava.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
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	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/violencia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Violência</a>
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		<title>Para as autoridades de Pernambuco, as torcidas organizadas não existem. E isso gera mais violência</title>
		<link>https://marcozero.org/para-as-autoridades-de-pernambuco-as-torcidas-organizadas-nao-existem-e-isso-gera-mais-violencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 May 2023 21:52:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Fanáutico]]></category>
		<category><![CDATA[Inferno Coral]]></category>
		<category><![CDATA[polícia em Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[policia militar]]></category>
		<category><![CDATA[torcidas organizadas]]></category>
		<category><![CDATA[violência no futebol]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por George Lucas* As maiores torcidas organizadas do Náutico, Santa Cruz e Sport existem ou não? A resposta parece óbvia, mas não é assim tão simples, afinal para o Ministério Público, a Polícia Militar e as autoridades pernambucanas, a Torcida Jovem Fanáutico, a Torcida Organizada Inferno Coral e a Torcida Jovem do Sport simplesmente não [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por George Lucas*</strong></p>



<p>As maiores torcidas organizadas do Náutico, Santa Cruz e Sport existem ou não? A resposta parece óbvia, mas não é assim tão simples, afinal para o Ministério Público, a Polícia Militar e as autoridades pernambucanas, a Torcida Jovem Fanáutico, a Torcida Organizada Inferno Coral e a Torcida Jovem do Sport simplesmente não existem. Isso porque tiveram seus respectivos CNPJs cancelados e foram oficialmente dissolvidas em 2020, depois de proibidas de ir para os estádios desde 2014.<br><br>Mesmo assim, as três têm sede, lojas, comercializam produtos, brigam entre si e ocupam setores específicos dos estádios, ainda que ninguém possa ir aos jogos usando camisas com seus símbolos ou nomes. No entanto, como elas “não existem”, o poder público não monitora esses grandes grupos de torcedores organizados, indiferença que contribuiria para a violência nos dias de futebol, impactando também os torcedores comuns, não organizados, que aos poucos também vão perdendo o direito de torcer.</p>



<p>Desde o começo da década passada, após a clara posição do Ministério Público Estadual favorável à extinção dessas três torcidas, artefatos utilizados por torcedores começaram a ser vetados nos estádios. Primeiro, foram as bandeiras de mastro, em seguida sinalizadores, esses proibidos nacionalmente, devido ao incidente da torcida do Corinthians na Bolívia, que vitimou um torcedor em 2012.</p>



<p>Até o rádio de pilha, usado por tantos torcedores nos estádios, foi vetado em 2022, pois, segundo a PM-PE, era necessária &#8220;prevenção à violência, devido ao risco de esses objetos serem arremessados ou utilizados em possíveis brigas de torcidas&#8221;. Após pressão da mídia, o rádio voltou a ser liberado. Antes do radinho, pela mesma razão durante seis anos (de 2009 a 2015) foi proibido tomar cerveja nos estádios pernambucanos.</p>



<p>Tantas restrições geraram mais protestos que resultados, a exemplo do movimento #liberaafesta. De fato, a festa foi liberada, mas de forma restrita. O Governo de Pernambuco, ao lado do Grupo de Trabalho de Futebol, que não inclui em suas reuniões torcedores, (apenas órgãos públicos, clubes, e a Federação Pernambucana de Futebol), liberou a volta das bandeiras com mastro e bateria, essa última autorizada desde o ano passado, mas com alguns limites a serem seguidos.</p>



<p>Curiosamente, há uma condição para a festa acontecer: não pode ser realizada nas gerais dos estádios (setor atrás do gol), onde ficam as torcidas organizadas, que, segundo as mesmas autoridades, sequer existem. Mais uma vez, o paradoxo.</p>



<p>Diretores da Torcida Organizada Inferno Coral, expressaram seu ponto de vista sobre essas restrições:</p>



<p>&#8220;Eles estudam tanto, mas só que quem vive é a gente. A gente sabe qual é a melhor forma de se fazer”, diz João Paulo, o <em>JP</em>, diretor financeiro. Em seguida, <em>Cláudio BZC</em>, presidente da torcida, Erivan, vice-presidente, e Raul, diretor, completam enumerando a série de artefatos presentes nos estádios que possuem potencial de perigo maior que um bambu (mastro da bandeira), como facas, espetos de churrasco e gás de cozinha, usados pelos comerciantes e gasoseiros em dias de jogo.</p>



<p>Os torcedores corais também criticam a “extinção fake” das organizadas: “Se um componente faz uma violência, Cláudio, que é o presidente, não pode responder, como fizeram no Rio. Eles fazem isso, excluem CNPJ, mas outros assumem ou se abre outro. Isso não vai acabar. A torcida organizada só se acaba se o clube acabar,”, fala <em>JP</em>.</p>



<p>Igor Moura, da Fanáutico, conta sobre os trâmites para conseguir entrar no estádio com materiais como bandeirão e faixas. &#8220;Sim, todo jogo, 48 horas antes a gente envia ofício com solicitação pro Choque (diz ele sobre enviar o documento real a ser enviado pela entidade &#8220;inexistente&#8221; para a Polícia Militar), mas só sabemos a resposta na hora do jogo. Cada um que se vire, sem diálogo&#8221;.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                                        <p class="m-0">Igor Moura, da torcida Fanáutico. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Violência naturalizada</strong></h2>



<p>A falta de diálogo abre caminho para a violência por parte dos policiais em dias de jogos. Todos os dirigentes das três organizadas que falaram com este repórter &#8211; Igor, <em>BZC</em>, Erivan, Raul, <em>JP</em>, além de Carlos Renato, o Renatinho e Jefferson Moura, o <em>Gel</em>, da Torcida Jovem, responderam com bastante naturalidade quando perguntados se já sofreram violência nos estádios.</p>



<p>&#8220;O que eles fazem, não só com a organizada, mas com o povão, pai de família. Já começa na entrada do estádio, apertada&#8221;, conta <em>BZC</em>, da Inferno Coral, que também fala sobre agressões com spray de pimenta e intimidações por parte dos soldados da cavalaria. Renatinho, da TJS, demonstra posicionamento semelhante, afirmando que, atualmente, em todos os setores da Ilha do Retiro se vê cenas de truculência policial na entrada dos jogos.</p>



<p>Uma torcedora do Sport, sem vínculos com qualquer organizada do clube, ouvida pela reportagem, contou sobre tumultos causados pelo Batalhão de Choque no dia da final da Copa do Nordeste, disputada por Sport x Ceará. Na ocasião, a diretoria rubro-negra vendeu mais ingressos que a atual capacidade liberada de seu estádio, o que deixou vários torcedores do lado de fora.</p>



<p>&#8220;Todo mundo do lado de fora tinha ingresso, e tinha muita gente! A gente ficou espremido na entrada da arquibancada frontal e, quando deu 21h, simplesmente fecharam os portões e o Choque e a cavalaria começaram a &#8216;rebocar&#8217; os torcedores para a Abdias de Carvalho, não deixaram ficar nem na pracinha. Além de que teve muita bomba e tiro a troco de nada&#8221;, conta a rubro-negra, que teve um amigo ferido por uma bomba de efeito moral no pé. Ela optou por não se identificar.</p>



<p>É claro que as três torcidas também têm sua parcela de responsabilidade. Não há como negar seus repertórios de provocações, estímulo à violência e sequência de ataques a rivais. “Não (sobre se essas músicas podem incentivar os componentes a brigar), e hoje em dia esses cantos estão proibidos dentro do estádio. Não pode falar o nome da torcida organizada. A gente preza por cantar pelo Náutico e incentivar o time em campo, esquecer os rivais”, diz Igor, da Fanáutico, também chamado de Iguinho. Ele completa: “Poxa, eu tento ao máximo esquecer o nome dos ‘alemão’ do outro lado. Meu negócio é apoiar o Náutico dentro de campo, a gente canta pelo time os 90 minutos”.</p>



<p><em>JP</em>, da Inferno Coral, prefere relativizar o peso das as músicas. &#8220;Acho que não influencia, não. Os MCs de funk de São Paulo e Rio cantam o que vivem, por exemplo. Os das torcidas só estão cantando o que acontece. Cabe a cada um deixar se influenciar&#8221;. Raul, também da organizada tricolor, faz uma interpretação pragmática.&#8221;É um tipo de diversão. Eles lá fazem a mesma coisa e aí os daqui respondem. No mundo das organizadas isso aí existe. A violência não parte de uma música, já está impregnada”.</p>



<p>Um dos integrantes da Jovem do Sport explicou que as músicas são criadas por MCs querendo se promover, e que a diretoria da torcida não tem poder de veto. E também não parecem se importar em se ver associada à violência.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Homofobia pode</h3>



<p>Se músicas com referências às entidades rivais não podem ser cantadas nos estádios, ninguém vê problemas nos gritos e músicas com versos homofóbicos. A exaltação da virilidade e masculinidade constante são características comuns a todas a quase todas organizadas do país, apesar de alguns dirigentes recifenses garantirem não fazer restrições ao público LGBTQIA nas arquibancadas ou na própria organizada.</p>



<p>&#8220;Independente da organizada, a gente respeita todas as classes, até porque isso é um crime. Já chegou gente aqui comprando material na loja e recebemos de forma normal, tratando com respeito&#8221;, é o que diz <em>JP</em>.</p>



<p>Pela TJS, Renatinho preferiu não adentrar ao tema, demonstrando indiferença, mas contou que, pessoalmente, não tem preconceitos, embora admita ser uma dificuldade impor um pensamento na torcida “por ser muito grande”.</p>



<p>Incomodado, Igor Moura, da Fanáutico, foi quem deu um posicionamento mais claro – e preconceituoso. Após pedir para a reportagem cortar a gravação e ter a pergunta reformulada, ele deu sua resposta. “Não mexendo com nós, tá de boa. Cada um no seu canto”.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Afinal, por que tanta briga?</strong></h3>



<p>É provável que a principal curiosidade a respeito das organizadas é entender o porquê de tantas brigas. O poder público parece nunca ter demonstrado preocupação em encontrar a raiz (ou raízes) do problema, mas, os próprios dirigentes das organizadas tentam demonstrar o caminho para se descobrir de onde vêm a natureza dos confrontos.</p>



<p>“Quando acabaram os bailes, eles se infiltraram nas torcidas, aí rolava muita briga. Mas nós mesmos, na torcida, intervimos nisso aí”, diz Erivan, da TOIC. De acordo com essa justificativa, no começo dos anos 2000, bailes funk eram populares nas comunidades do Recife, muitos bairros aproveitavam a ocasião para criar rivalidades e, assim, brigar. Tudo muito semelhante ao que acontece nas torcidas hoje.</p>



<p>As próprias representações de diferentes bairros no interior da Inferno chegaram a brigar entre si há alguns anos, o que exigiu intervenção da diretoria. De acordo com a versão desses torcedores, os protagonistas dessas brigas são jovens de periferia, sem acesso a espaços de lazer e cultura, que se identificam tanto com as organizações, que partem para violência para demonstrar superioridade. Algo que Raul, da torcida tricolor, define como o “ego da comunidade”.</p>



<p>Quais seriam consequências dessas brigas? A versão dos responsáveis pelas torcidas é diferente daquelas veiculadas pelas autoridades e pela mídia tradicional. Os dirigentes asseguram que, quando há confrontos, a diretoria contacta os monitores dos bairros, tentam entender o que aconteceu, e, se necessário punem os brigões. “A questão é que sem a ajuda das autoridades, que enxergam as torcidas como extintas, fica difícil prevenir”, afirma <em>Gel</em>, vice-presidente da TJS.</p>



<p>&#8220;A gente tem contato com todos os monitores de bairro. E isso é muito simples de resolver. A gente sabe de onde sai uma quantidade de pessoas muito grande, então o Choque pode fazer a escolta do bairro até o estádio. Mas não, eles só querem dar escolta a partir desse ponto (referindo-se à sede). A gente não vai acabar com a violência, mas tem ideias para minimizar ela&#8221;, explica o vice-presidente da torcida rubro-negra.</p>



<p>Entre os representantes das torcidas entrevistados, os torcedores do Santa Cruz e do Sport se mostraram mais dispostos a dialogar com os adversários, como já aconteceu no passado. Em 2015, Jovem e Inferno promoveram a campanha “Clássico da Paz,” com direito à música gravada pelos MCs das torcidas. Dois anos depois, foi a vez de Fanáutico e Inferno Coral protestarem juntas contra a Secretaria de Defesa Social e Federação Pernambucana de Futebol, por fazerem com que Náutico e Santa Cruz jogassem no mesmo dia na Arena de Pernambuco.</p>



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	                                        <p class="m-0">Jefferson Moura e Carlos Renato, da Torcida Jovem, Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“Se for pro benefício da nossa entidade,nada mais justo que a gente sentar e conversar com Fanáutico e Inferno Coral, junto com a governadora, o Batalhão de Choque, os órgãos públicos&#8221;, diz Renatinho, da Jovem. &#8220;O diálogo, creio eu que se tiver a parceria entre as torcidas e os órgãos públicos vai melhorar muito. Porque o trabalho em conjunto ajuda a cada um dizer do que tá precisando [&#8230;] A volta das entidades, o que for melhoria para Inferno, Jovem e Fanáutico, a gente tá disposto a se sentar com qualquer um&#8221;, conta <em>BZC</em>, da Inferno Coral.</p>



<p>O alvirrubro Igor foi reticente, dizendo que hoje não existe diálogo entre as três rivais, o que só ocorrer com intermediação da Anatorg (Associação Nacional de Torcidas Organizadas).</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O que ninguém publica</strong></h3>



<p>Durante as entrevistas, os dirigentes das organizadas guardam alguns ressentimentos. Um deles, repetidos por todos, seria o não reconhecimento da mídia aos projetos que tocam em suas respectivas comunidades. “Isso era um trabalho que deveria ser do governo, né velho? A gente já criou um projeto social para afastar a criançada da droga, que é o Timbu Fighters, onde damos aula de artes marciais. E aí a gente tá tirando as crianças da droga, até os próprios componentes, fazendo eles praticarem esportes”, diz o alvirrubro Igor, da Fanáutico.</p>



<p>&#8220;A TJS influencia a molecada a não ir para o crime por meio de ações sociais. A gente tem várias academias nos bairros, como no Ibura. Quando uma criança tá lá, são três, quatro horas de relógio ocupando a mente. A gente queria ser ouvido porque a sociedade e a mídia só mostram o lado da violência. Temos vários pontos que trazem recursos benéficos para a comunidade que não são divulgados, como ações sociais, treinamento, doação de sangue&#8221;, fala <em>Gel.</em></p>



<p>&#8220;A mídia não mostra isso nunca. Ela vai mostrar simplesmente o lado negativo da torcida, que é um fato pequeno, mas que se torna grande e mancha o nome da entidade&#8221;, acrescenta Renatinho, presidente da TJS.</p>



<p>“O papel da Inferno Coral é o que a gente puder fazer, a gente faz. Como eu falei, a gente faz ação social. A gente sempre escuta pra ajudar, quem tiver precisando de ajuda em uma feira, qualquer coisa. Aqui a gente não tem essa de quem é rico ou quem é pobre. Aqui todo mundo é igual, aqui a ideia de todo mundo vale”, conta <em>BZC</em>.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2023/05/toic.jpeg" alt="" class="" loading="lazy" width="677">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Diretoria da Inferno Coral na sede própria, perto do Arruda. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
                                    </figcaption>
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>O que diz o Ministério Público de Pernambuco</strong></h3>



<p>O Ministério Público, instituição apontada como inacessível pelos torcedores, aceitou responder os questionamentos da nossa reportagem. Quem concedeu entrevista, por telefone, foi o promotor José Bispo, da Promotoria de Justiça do Torcedor. Ele relembra que a Promotoria de Justiça do Torcedor foi criada porque se fazia necessário um órgão que tivesse condições de exercer o Estatuto do Torcedor. “Tomamos medidas de cunho cível, como a proibição das organizadas, após clamor público. Todos acharam que seria a solução e percebemos que a sociedade queria isso, e o MPPE, com a ajuda do Governo Paulo Câmara e a SDS-PE, o fizemos em 2020”&#8221;, explica José Bispo.</p>



<p>Ao ser perguntado se a exclusão do CNPJ das três maiores organizadas gerou efeito concreto na diminuição da violência e do porquê ainda existirem pessoas que dizem ser da TJF, TOIC OU TJS, visto que foram extintas, o promotor diz não entender “torcedores que ainda se dizem dessas entidades inexistentes”, e completa afirmando que os bons torcedores não sentem falta dessas torcidas, que, segundo ele, antes de serem dissolvidas, participavam de reuniões com o Ministério Público e demais órgãos.</p>



<p>O promotor também defende a eficácia das restrições impostas aos torcedores, não apenas aos organizados: Todo lugar requer regras de organização. Os maus torcedores arremessavam esses objetos no campo&#8221;, fala Bispo. Ele também completa, após ser questionado, que qualquer objeto arremessado no gramado rende punição. No caso, como prevê o Estatuto do Torcedor, prisão que varia de dois a seis anos.</p>



<p>A explicação dada por Bispo para o MP exigir do poder público o cadastramento biométrico dos torcedores organizados é de ordem financeira: “Em 2014, o Ministério dos Esportes ensaiou um plano para cadastrar todos de forma biométrica, mas não seguiu adiante pois chegou-se à conclusão que era muito caro”, informa o promotor, que também acrescenta que TJF, TOIC e TJS chegaram a enviar, antes da extinção, uma lista com seus membros associados para o Choque. O documento, segundos os policiais, não tinha nenhuma credibilidade.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>No Brasil existe um estádio com reconhecimento biométrico: a Arena da Baixada. O Athletico Paranaense arca com as despesas do equipamento para todo seu estádio de 40 mil lugares. O clube também conta com o apoio logístico do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR), Secretaria de Segurança Pública do Paraná (SESP), Instituto de Identificação do Paraná, Detran-PR e a Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná (Celepar). Palmeiras e Goiás também arcam com a identificação de torcedores em seus mandos, utilizando reconhecimento facial.</p></blockquote>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>E a Polícia Militar?</strong></h4>



<p>A reportagem também tentou contato com o Batalhão de Choque para obter respostas a questionamentos sobre indisponibilidade para diálogo com as organizadas e vários relatos de truculência nos estádios, mas não obteve, até o momento, nenhum retorno.</p>



<p><strong>*Jornalista</strong></p>



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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Extinguir CNPJ não irá acabar violência das torcidas</title>
		<link>https://marcozero.org/extinguir-cnpj-nao-ira-acabar-violencia-das-torcidas/</link>
					<comments>https://marcozero.org/extinguir-cnpj-nao-ira-acabar-violencia-das-torcidas/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2020 12:27:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[briga de torcidas]]></category>
		<category><![CDATA[proibição]]></category>
		<category><![CDATA[torcidas organizadas]]></category>
		<category><![CDATA[violência no futebol]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Maiara Melo É muito simples: acabar com o CNPJ das torcidas, decisão judicial que foi tema de muita conversa entre torcedores e torcedoras nos últimos dias, não vai acabar com as organizadas. Muito menos com os episódios de violência. Isso pôde ser observado nos últimos jogos, inclusive no clássico Sport x Santa, onde as [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Maiara Melo</strong></p>



<p>É muito simples: acabar com o CNPJ das torcidas, decisão
judicial que foi tema de muita conversa entre torcedores e torcedoras nos
últimos dias, não vai acabar com as organizadas. Muito menos com os episódios
de violência. Isso pôde ser observado nos últimos jogos, inclusive no clássico Sport
x Santa, onde as uniformizadas se fizeram presentes como sempre o fazem: em
peso. </p>



<p>Para deixar claro: parto do ponto de vista clubista, porque
sou torcedora do Santa Cruz e membro do coletivo feminista coral Movimento
Coralinas. Então vivo no dia a dia as delícias e o terror do futebol, não
apenas pernambucano, mas da América Latina, onde elas são protagonistas de
festas belíssimas, mas também de histórias lamentáveis. E não apenas como
pessoa apaixonada pelo futebol e pelo meu time, mas como corpo feminino. Meu
namorado e os namorados de minhas companheiras de arquibancada foram ao jogo.
Nós assistimos em um bar no Arruda. Ficamos em alerta, era o mais sensato a se
fazer.</p>



<p>Integrantes da torcida jovem dispararam tiros para o alto,
próximo ao Terminal Integrado de Camaragibe, dando o recado do que viria a ser
o jogo. No aniversário do Santa, comemorado no dia 3 de fevereiro, a jovem
invadiu a comemoração da torcida comum (sem organizadas) no pátio de Santa
Cruz, deixando várias pessoas feridas, além de traumatizadas &#8211; inclusive
crianças. O resultado disso é a espera do revide. Entre os nossos e nossas, a
conversa é sempre a mesma, que a inferno coral vai devolver “o arranjo”.</p>



<p>Essa é a lógica de funcionamento interativo das organizadas,
ser caça e caçador. Não é a primeira tensão e não será a última, enquanto
houver futebol e problemas sociais que extrapolam os muros dos estádios.</p>



<p>Uma analogia que ouvi por várias vezes desde que a discussão
voltou a tomar força, foi com os bailes funk do Rio de Janeiro. Os grupos
viviam em guerra até a quase extinção das festas. &#8220;Foi preciso enxergar
que eles se prejudicavam mais do que conseguiam manter os bailes para poder
chegar a um acordo em que as tensões sociais não explodissem nos dias de
festa&#8221;, me disse um torcedor numa mesa de bar.</p>



<p>Essa mesma ideia pode ser vista aqui, localmente. No dia das
Virgens de Olinda, um vídeo viralizou nas redes sociais com dois grandes grupos
em pleno confronto, violento, doentio, sem nenhuma causa aparente.</p>



<p>Qualquer pessoa que vive a arquibancada de forma apaixonada
que for perguntada sobre a relação com o espaço físico e emocional, a resposta
vai andar algo perto de um lugar onde é possível extravasar, esquecer os
problemas e colocar para fora as mazelas de uma vivência opressora.</p>



<p>Se você leva essa mesma ideia para comunidades onde o Estado
só chega com violência militar, mas quase nada com educação, saúde, sanaeamento
básico e condições de vida minimamente respeitáveis, a vivência futebolística é
permeada pela mesma dor e agonia que se vive na rotina desses lugares
desassistidos pelo Estado. </p>



<p>Vamos ver isso nos bailes funk, nas prévias, no Carnaval,
nas ruas de cidades mais desenvolvidas como Santiago e Montevidéu, e também no
futebol pernambucano. É muito visível e simples. &#8220;Acabar&#8221; (entre
aspas, porque não se acaba com os grupos organizados do futebol apenas fechando
o CNPJ, essa ideia chega a ser engraçada, de tão ridícula) com as torcidas
organizadas definitivamente não vai resolver a problemática.</p>



<p>As torcidas sabem disso. Todos que vivem os estádios e suas
arquibancadas ficaram impactados muito mais com o valor simbólico do que com o resultado
prático disso. Do Sport, ao Náutico e Santa, ouvi dos torcedores e torcedoras
apenas lamentações, nenhuma comemoração. &#8220;Elas precisam repensar como
coexistem, senão vão ser proibidas de verdade&#8221;, me disse uma amiga. Quem
está lá, vivendo a festa, sabe a importância de uma organizada. A festa, a
alegria, o grito de incentivo quando o restante dos torcedores e torcedoras
estão presas na negatividade, no medo da derrota. Vem de lá, daquele grupo
unido, uniforme, treinado, o primeiro grito de &#8220;e eu não paro, não paro não, sou santa cruz, sou
tricolor de coração&#8221;. E por alguns instantes toda aquela atmosfera passa a
acreditar na possibilidade de uma vitória mágica, contagia os jogadores, que
por sua vez melhoram, quase sempre, o desempenho em campo. O incentivo &#8211;
cobrança &#8211; é real. E funciona.</p>



<p>Quem é contra isso, muitas vezes julga de um olhar muito
distante. Do sofá, ou das redes sociais. Ou, com propriedade válida, sofreu
alguma violência e o ponto de vista passa a funcionar a partir desse contexto.</p>



<p>Os clubes e a imprensa tradicional também sabem que acabar
com um CNPJ não vai erradicar a violência no futebol. Porém, é do interesse
delas essa higienização nos estádios. São negros e pobres a maioria dos
componentes das torcidas, porque também são eles as maiores vítimas da
sociedade. Eles saem de suas comunidades para extravasar ali, nos estádios, e,
como bem sabemos, isso não é bonito de vender. As grandes marcas e empresas que
tentam transformar o futebol num negócio bilionário mundo afora, tem garras
muitas vezes invisíveis, que se aproveitam das demandas populares para cavar
suas ideias elitizadas, com ingressos caros e longe da essência do esporte:
popular. Proibição de bandeiras hasteadas, papel picado (que é considerado
material de alta periculosidade), sinalizadores, entre outros artifícios, são
exemplos de perseguição à festa. Ao futebol-festa, apaixonado.</p>



<p>Não acredito que não haja culpa por parte das direções das
organizadas que, por exemplo, não conseguem sentar numa mesa para debater o
ônus da violência e chegar a um acordo. Essa questão passa muito, também, pelo
machismo que atravessa a nossa sociedade. O Movimento Coralinas, com toda sua
paixão e loucura pelo Santa Cruz, consegue organizar e participar de eventos ao
lado de torcedoras do Sport, com o coletivo Elas e o Sport, e do Náutico, por
meio dos vários coletivos femininos lá presentes, para nos unirmos, apesar da
rivalidade, naquilo que nos une: a nossa sobrevivência em um ambiente
completamente tóxico aos corpos femininos.</p>



<p>O debate é vasto e não começa e nem termina, apenas, nos conflitos entre organizadas. Mas deve existir e englobar sociedade organizada, poder público, torcidas e Estado e, principalmente, quem viva e é apaixonada/o pelo futebol. Julgar essa vivência da poltrona, de frente de uma TV que passa, apenas, um ponto de vista tão distante dos alicerces de um estádio, é querer avaliar se foi gol ou não em um lance difícil, numa barra sem rede.</p>



<p><strong>*Jornalista e integrante do Movimento Coralinas</strong></p>
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