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	<title>Arquivos Zé Carlos da Mata Machado - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos Zé Carlos da Mata Machado - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>A trama que levou Fernando Santa Cruz à morte</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Aug 2019 15:12:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Quando saiu do apartamento do irmão Marcelo, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, em 23 de fevereiro de 1974, o militante da Ação Popular Marxista-Leninista (APML), Fernando Santa Cruz de Oliveira deixou um aviso premonitório: se não voltasse até 18h, com certeza teria sido preso. Eram 16h de um sábado de Carnaval, e três dias antes, ele tinha completado 26 anos. Trabalhava no Departamento de Águas e Energia Elétrica, em São Paulo, onde vivia com a mulher, Ana Lúcia Valença de Santa Cruz. Casaram em janeiro de 1970 e tiveram um filho, Felipe Santa Cruz de Oliveira, que estava com um ano e dez meses.</p>
<p>Fernando sabia o que dizia porque, mesmo vivendo “na superfície” (trabalhava numa empresa pública, tinha endereço fixo, era casado, tinha filho), estava saindo para encontrar outro militante da organização que estava na clandestinidade e era procurado pelos órgãos da repressão, o também pernambucano Eduardo Collier Filho, de 25.</p>
<p>Era a estratégia usada pela geração que ousou enfrentar a ditadura. Após alguma prisão pelos órgãos de repressão, seguida de condenação em tribunais militares, muitos resolveram não encarar voltar à cadeia e passaram a lutar de forma clandestina.</p>
<p>Em 1972, Collier tinha sido julgado à revelia pela 1ª Auditoria da Aeronáutica, em São Paulo, por “tratar-se de pessoa integrada a uma organização clandestina, nos temos da Lei de Segurança Nacional”. Teria que passar dois anos na cadeia. Preferiu resistir trocando nome e identidade. Collier usava a identidade falsa de João Cruz Soares, e os codinomes “Ulisses”, “Duda” e “Anjo Barroco”. Eduardo era procurado pelos órgãos de repressão. Fernando, não.</p>
<p>O caso de Santa Cruz era diferente. Ao ser preso em 1966, numa passeata estudantil contra o acordo MEC-USAID, no Recife, ainda não tinha 18 anos, então ficou detido apenas uma semana no Juizado de Menores. Não tinha sido fichado.</p>
<p>Naquele dia, o assunto que restava aos dois militantes, deveria ser o único possível naquele momento &#8211; sobreviver a uma sucessiva e misteriosa série de “quedas” e assassinatos do comando da APML, em diferentes estados, desde outubro do ano anterior.</p>
<p>O catarinense Paulo Stuart Wright, fora pego em 5 de outubro de 1973, em São Paulo. O paraibano Umberto Câmara Neto “caiu”, três dias depois, no Rio de Janeiro. Dia 19, foi preso o mineiro José Carlos Novaes da Matta Machado, o “Zé”, quando tentava sair de São Paulo para chegar a Belo Horizonte, onde a família organizava um plano para tirá-lo do Brasil. O também mineiro Gildo Macedo Lacerda estava em Salvador, em 22 de outubro, quando a repressão o alcançou.</p>
<p>O recado para a família parecia uma certeza. Menos de duas horas depois, foram seqüestrados por agentes do Destacamento de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). Nunca mais foram encontrados.</p>
<p>Todos os seis integrantes da organização, presos num intervalo de 168 dias, foram assassinados. Apenas um militante da APML não se tornou um desaparecido: o mineiro “Zé”, graças à atuação da advogada pernambucana Mércia Albuquerque, que localizou sua cova e corpo, num cemitério do Recife, logo após seu assassinato, conseguiu fazer a exumação e enviar seus restos mortais para a família, em Belo Horizonte.</p>
<p>Depois das mortes, da luta das famílias pelos corpos e pela verdade, a ditadura estabeleceu um silêncio absoluto sobre os desaparecidos. O corpo de “Zé”, o único devolvido aos familiares, seguiu do Recife para Belo Horizonte, com uma condição – o caixão não poderia ser aberto.</p>
<div id="attachment_17817" style="width: 730px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/Fernando-e-Felipe-Santa-Cruz_.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-17817" class="wp-image-17817 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/08/Fernando-e-Felipe-Santa-Cruz_.jpg" alt="Crédito: Arquivo de família" width="720" height="491"></a><p id="caption-attachment-17817" class="wp-caption-text">Em foto rara, Fernando Santa Cruz e seu filho Felipe, recém nascido. Crédito: Arquivo de família</p></div>
<h2>O fio da meada: o cunhado do “Zé”, infiltrado na APML a serviço da repressão</h2>
<p>Em agosto de 1984, o ex-militante da AP Gilberto Prata Soares procurou sua irmã, Maria Madalena Prata Soares, ex-companheira do Zé. Ambos viviam na Paraíba. Atormentado pelas sombras do passado e acossado pelo álcool, disse que tinha “uma história” para contar.<br />
“Fui eu quem entregou o Zé”, confessou. Era uma história tenebrosa e envolvia muita gente dos dois lados.</p>
<p>Disse que tinha sido preso em fevereiro de 1973 por agentes do DOPS de Goiânia, onde morava. Queriam saber onde estava o Zé, que naquele momento estava fora do radar da repressão. Estava fazendo militância no Nordeste, vivendo na periferia de Fortaleza, com sua companheira, Madalena, e o filho, Eduardo. Filho do eminente jurista e ex-deputado federal de Minas Gerais, Edgard de Godói da Mata Machado, era&nbsp; uma das principais lideranças da APML.</p>
<p>Gilberto, que tinha sido da AP e estava fora das atividades da organização, aceitou trabalhar para a repressão. Segundo ele, temia pela segurança física de sua mulher, e das irmãs Marta e Madalena. Concordou em entregar o cunhado, desde que as duas fossem poupadas. Na linguagem do período, ao concordar trabalhar para os militares, tornou-se um “cachorro”.</p>
<p>Ele gravou um depoimento para a irmã, relatando o submundo da repressão. Dizia-se impressionado com a estrutura de operações montadas pelos órgãos de repressão. Não faltavam recursos e tecnologia para aparelhar escutas e sistemas de monitoramento, com o envolvimento de muitos homens, órgãos, estratégias.</p>
<p>Incorporado às ações de inteligência, Gilberto começou a ser orientado e coordenado, agindo sob rígido controle. Levou alguns meses, até que se aproximou da cúpula da APML. Disse aos companheiros que tinha apanhado muito, e que era melhor voltar à luta. Foi aceito sem ressalvas.</p>
<p>Começava a caçada. Encontrar Gilberto Prata representava, neste momento, cair nas garras da repressão.</p>
<p>“À medida que alguém entrasse em contato comigo eles tinham condições de segui-los e de encontrá-los. Um processo prolongado, demorado”, contou Gilberto.</p>
<p>“Existia um controle terrível”, prosseguiu. Os caras tinham dinheiro para poder fazer um controle enorme em volta, um controle tipo de escolher o endereço onde você vai ficar, e você sair de um lugar e acompanhar”.</p>
<p>Naquele momento, ele admitia que ainda tinha documentação falsa, fornecida pelos próprios órgãos da repressão.</p>
<p>“Até mesmo me forneceram uma carteira, com nome falso, que eu tenho até hoje ainda, eu possuo ela tirada da PF em Brasília”.</p>
<p>Gilberto assumiu o papel de “delator itinerante” e recebeu uma missão trágica para a APML &#8211; viajar, faz contatos. Ninguém da APML desconfiava.</p>
<p>O relato sobre os últimos dias a organização é brutal.</p>
<p>“Recife caiu em 17 de outubro, Salvador em 18 de outubro, o Zé em 19 de outubro&#8230; E eu saí de Recife e fui pra Bahia, e da Bahia fui para o Rio e do Rio de Janeiro para São Paulo, e caiu qualquer coisa no Rio nesse período”.</p>
<p>A gravação, naquele momento, causou um forte impacto nas poucas pessoas que as escutaram. As duas fitas K-7 ficaram guardadas, até porque o Brasil ainda estava nas mãos dos militares.</p>
<p>Somente em 1992, com o Brasil respirando ares democráticos, Gilberto tornou pública sua infiltração na APML. Em novembro, na Comissão Externa dos Desaparecidos Políticos da Câmara dos Deputados, usou a velha gíria da repressão para definir o que aconteceu, entre setembro de 1973 e fevereiro de 1974.</p>
<p>“No período, quem era da AP e entrou em contato com José Carlos, Gildo, Madalena e comigo, dançou”.</p>
<p>Foram necessários mais 22 anos, para que os depoimentos de Gilberto Prata se consolidassem em documentos, produzidos pela própria ditadura.</p>
<p>Em 23 de julho de 2014, foram entregues à Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Hélder Câmara, de Pernambuco, documentos inéditos da “Operação Cacau”, promovida por agentes do regime militar na Bahia, em articulação com ações desenvolvidas em São Paulo e Pernambuco, com o objetivo de desmontar a APML, através de seqüestros, prisões, transferências clandestinas de prisioneiros e assassinatos.</p>
<p>É um calhamaço de 84 páginas, produzidas pelos órgãos de repressão, com fotos, relatos, depoimentos. Amanhã, outra matéria irá detalhar todo essa documentação.</p>
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