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	<title>Arquivo de Gênero - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Wed, 22 Jul 2026 20:23:49 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivo de Gênero - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Mostra de arte sobre a luta pelo direito ao aborto recebe inscrições até 26 de julho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Jul 2026 19:56:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[aborto]]></category>
		<category><![CDATA[campanha]]></category>
		<category><![CDATA[Nem presa nem morta]]></category>
		<category><![CDATA[saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Está aberta até o próximo domingo, 26 de julho, a chamada para a arruda.expo, mostra que reunirá obras sobre a memória, o presente e os futuros da luta pelo direito ao aborto. A iniciativa faz parte da programação que celebra os oito anos de atuação da campanha Nem Presa Nem Morta. A chamada é gratuita [&#8230;]</p>
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<p>Está aberta até o próximo domingo, 26 de julho, a chamada para a <a href="https://nempresanemmorta.org/2026/07/chamada-aberta-para-a-arruda-expo/">arruda.expo</a>, mostra que reunirá obras sobre a memória, o presente e os futuros da luta pelo direito ao aborto. A iniciativa faz parte da programação que celebra os oito anos de atuação da campanha <a href="https://nempresanemmorta.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Nem Presa Nem Morta</a>.</p>



<p>A chamada é gratuita e aceita inscrições de artistas, ativistas e militantes do Brasil e de outros países. São aceitas fotografias, ilustrações, desenhos, colagens, técnicas mistas, bordados, artes têxteis, peças de design gráfico, composições tipográficas e outras produções bidimensionais. As obras podem ser inéditas ou já existentes, desde que possam ser digitalizadas em alta resolução e reproduzidas em formato de cartaz.</p>



<p>A seleção considerará a potência da mensagem, a qualidade artística e a pertinência da justificativa de participação. A participação de artistas de diferentes territórios e países é incentivada.</p>



<p>Criada em 2018, durante o Festival Pela Vida das Mulheres, em Brasília, a Nem Presa Nem Morta surgiu como uma articulação de comunicação feminista para acompanhar a audiência pública da ADPF 442 no Supremo Tribunal Federal e ampliar o debate social sobre aborto no país. Desde então, atua na produção de informação qualificada, no enfrentamento aos estigmas, na incidência política e na articulação de organizações e movimentos em defesa da descriminalização e legalização do aborto.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>&#8220;A arte abre diálogos onde o estigma tenta impor silêncio. A arruda.expo nasce do compromisso de transformar memória em mobilização, ampliar o repertório visual sobre a luta pelo direito ao aborto e aproximar mais pessoas desse debate&#8221;, afirma Bibiana Serpa, assessora estratégica e pedagógica da campanha.</p>
</blockquote>



<p>A abertura da exposição acontece presencialmente no Rio de Janeiro, em setembro, mês em que é celebrado no Dia de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto na América Latina e no Caribe (28 de setembro).</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block">Serviço</span>

	    <p align="justify"><b>arruda.expo </b>(chamada aberta para artistas)</p>
<p align="justify"><strong>Inscrições:</strong> gratuitas, até 26 de julho de 2026</p>
<p align="justify"><b>Informações e inscrições: </b><a href="https://nempresanemmorta.org/2026/07/chamada-aberta-para-a-arruda-expo/"><span style="color: #1155cc;"><u>https://nempresanemmorta.org/2026/07/chamada-aberta-para-a-arruda-expo/</u></span></a></p>
    </div>
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		<title>Mastectomia no SUS devolve liberdade do banho de mar para pessoas transmasculinas</title>
		<link>https://marcozero.org/mastectomia-no-sus-devolve-liberdade-do-banho-de-mar-para-pessoas-transmasculinas/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Jun 2026 18:54:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[CISAM]]></category>
		<category><![CDATA[dia do orgulho LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[homens trans]]></category>
		<category><![CDATA[Hospital da Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Hospital das Clínicas]]></category>
		<category><![CDATA[mastectomia]]></category>
		<category><![CDATA[orgulho LGBT]]></category>
		<category><![CDATA[pessoas trans]]></category>
		<category><![CDATA[SUS]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Tomar um banho de mar livremente pode não ser algo tão fácil para algumas pessoas. A comunidade trans e travesti, ou seja, das pessoas que não se identificam com o sexo atribuído na certidão de nascimento, enfrenta estigmas e preconceitos diariamente e uma simples ida a praia é motivo de medo e insegurança. Isso, no [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Tomar um banho de mar livremente pode não ser algo tão fácil para algumas pessoas. A comunidade trans e travesti, ou seja, das pessoas que não se identificam com o sexo atribuído na certidão de nascimento, enfrenta estigmas e preconceitos diariamente e uma simples ida a praia é motivo de medo e insegurança. </p>



<p>Isso, no entanto, está mudando. Homens trans e pessoas transmasculinas têm recorrido cada vez mais ao Sistema Único de Saúde (SUS) para fazer os tratamentos hormonais e cirurgias necessárias para reafirmar suas identidades, a exemplo da mastectomia bilateral masculinizadora ou mamoplastia masculinizadora  (retirada das mamas) e da histerectomia, nome que se dá à retirada de útero e ovários.</p>



<p>O SUS é um catalisador dessa afirmação e, apesar dos desafios, contribui com a adequação de gênero dessa comunidade. Em Pernambuco, o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), vinculado à Universidade de Pernambuco (UPE) e o Hospital da Mulher do Recife realizam acompanhamento ambulatorial e realizam as cirurgias de readequação de gênero. A Policlínica Lessa de Andrade também oferece o atendimento ambulatorial.</p>



<p>Juntos, os três hospitais já realizaram 99 procedimentos de mastectomia. No Hospital das Clínicas (HC), primeiro do estado a oferecer o serviço, desde 2016 foram 54 procedimentos, o Cisam/UPE realizou 21, enquanto no Hospital da Mulher aconteceram 24. Com a chegada da cirurgia no Hospital da Mulher, o acesso ao serviço por parte das pessoas trans atendidas foi acelerado, considerando que a fila foi reduzida. Hoje, o tempo médio de espera na unidade por alguma dessas cirurgias demora de 45 a 60 dias. </p>



<p>“Cada dia que passa é algo muito grandioso. É acordar e se sentir bem, se sentir dentro de você mesmo. Sair sem ter tanto medo, porque é isso que eu sentia quando eu tinha as mamas”, conta o auxiliar de serviços gerais, Jack Mowatt, de 30 anos, que recentemente fez a mastectomia bilateral masculinizadora no Hospital da Mulher do Recife.</p>



<p>Foi possível ver o brilho no olhar de Jack ao contar como o procedimento realizado há pouco mais de dois meses transformou sua vida. Ele foi uma das dez primeiras pessoas trans a passar pelo bloco cirúrgico no Hospital da Mulher, que começou a oferecer o serviço no final de 2025.</p>



<p>Natural de Rio Formoso, na mata sul de Pernambuco, veio morar no Recife aos 12 anos de idade. Desde criança sempre soube quem era, mas só ao chegar na capital e conhecer e dialogar com outros homens trans, pôde compreender melhor sua identidade ainda durante a adolescência.</p>



<p>Os desafios foram muitos e apenas na vida adulta começou o acompanhamento para a readequação de gênero. “Só agora na fase adulta é que eu consegui, de fato, ter essa autonomia, tanto financeira quanto pessoal, para encarar uma terapia, me entender melhor pra chegar nesse processo da transição e da mastectomia também”, afirma.</p>



<p>Jack conta que começou seu acompanhamento no Hospital da Mulher para um tratamento de mioma no ambulatório especializado da unidade. Por causa desses problema de saúde, precisou fazer uma histerectomia e passou a ser atendido pelo serviço de acompanhamento psicológico. O tratamento hormonal veio dois anos depois, culminando com a mastectomia em abril de 2026.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                                        <p class="m-0">Jack Mowatt passou pela cirurgia de mastectomia em abril de 2026
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Acervo pessoal</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“É como se fosse algo que você não reconhecesse no seu corpo. Algo que incomodasse. Algo que fosse desconfortável em você, como uma mancha, algo assim. E quando você tira aquilo parece que tudo muda. A qualidade de vida diferente, surreal de tudo que eu já tinha sentido. Até quando vestia uma roupa qualquer, quando ia na praia não tirava roupa, não tomava um banho, ficava só era naquele chuveirão e muito mal, e corria logo porque achava que alguém estava olhando parecia uma fobia. Agora estou bem mais relaxado”, reflete.</p>



<p>Agora, Jack segue livre para ser quem é no seu trabalho em uma academia de <em>crossfit</em>, no sonho de realizar a graduação de Educação Física e como jogador no time de futsal Força Trans.</p>



<h2 class="wp-block-heading">“Sempre fui uma pessoa do mar”</h2>



<p>“Passando pra dar notícias para pessoas que amo muito que deu tudo certo com minha mastectomia, estou aqui na recuperação”, esse foi o áudio enviado pelo multiartista e artivista Vyvo Dayo, de 29 anos, poucas horas após sua mastectomia que aconteceu no sábado, 27 de junho, um dia antes do dia do orgulho LGBTIA+. Conversamos com Dayo dois dias antes para entender a expectativa que vivia. </p>



<p>Acompanhado pelo Cisam/UPE, o multiartista não imaginava que sua cirurgia iria ser realizada agora, pois a fila de espera na unidade é longa, por atender a todo o estado. No entanto, acabou conseguindo o procedimento no Hospital da Mulher, unidade que está ajudando a desafogar as filas de espera dos hospitais maiores.</p>



<p>Segurança e saúde são os fatores que mais pesaram para Dayo nos dias de expectativa antes da cirurgia, afinal as pessoas trans e travestis convivem durante anos com o medo de agressões e violações, o que as obriga a usarem mecanismos para disfarçar determinadas características. No caso de quem tem mama, é comum usar fitas e o <em>binder</em>, uma espécie de colete colocado para comprimir os seios. Por este e outros motivos, Dayo vê na mastectomia uma nova possibilidade de viver. E viver com qualidade. </p>



<p>“A minha expectativa para ter uma mastectomia é muito porque quero esse lugar da segurança, da segurança e da saúde. De não estar usando roupas ou fitas prendendo o meu peito, pois depois do uso o mpeito fica cortado. Quantas vezes meu peito fica todo machucado&#8230; às vezes com partes em carne viva, porque eu não consegui me adequar, inclusive ao binder por causa da respiração, já tive falta de ar”, desabafa.</p>



<p>O procedimento pode trazer a segurança necessária para fazer aquilo que, em outro tempo, era parte da rotina. “Sempre que eu tinha um tempinho eu corria ou então até me exercitar na praia, enfim, sempre fui uma pessoa muito do mar, da praia e também uma pessoa de muito de não ter vergonha de mostrar a minha pele, de gostar de roupas curtas. A transição voltada para os corpos, para as identidades da gente, cai muito nisso de não mostrar o seu corpo, por isso transmasculinas usam muito roupas folgadas”, conta.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Dayo foi operado na véspera do Dia do Orgulho LGBTQIA+
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Acervo pessoal</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Diferente de Jack, o multiartista é uma pessoa não-binária, cuja identidade de gênero não se encaixa nos gêneros tradicionais, transitando entre eles. Por isso, conta que diversas vezes já foi confundido com mulheres trans ou homens gays afeminados. “Cada vivência é submetido a um controle diferente. O controle que bate muito na gente é que transmasculino, pessoas não-binárias, passa por ‘esconda esse corpo, não se mostre’, afirma.</p>



<p>Até se entender como não-binário, Dayo passou por conflitos internos, processos depressivos e questionamentos, mas conta que a arte ajudou a salvá-lo. “Me descobri uma pessoa não-binária com uns 24 anos, mas ainda com muito medo do que isso iria significar socialmente. Sentia muito medo da repressão que já sofria sem apoio, sem referência. Até que fui buscando coletivos e descobrir referências na cultura <em>ballroom</em>”, relembra.</p>



<p>A cultura <em>ballroom</em> é um movimento político, artístico e de resistência criado por pessoas negras, latinas e LGBTQIA+ nos Estados Unidos na década de 1960. Esse movimento vai além de entretenimento, atuando como rede de apoio e acolhimento para corpos dissidentes, celebrando a diversidade por meio da dança, moda e autoexpressão.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Saúde e pertencimento caminham juntos</strong></h2>



<p>Há três anos, a organização não governamental <a href="https://gestos.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Gestos</a> passou a oferecer atendimento psicológico em grupo para homens trans e transmasculinos, dos 18 aos 29 anos. Para a psicóloga Juliana Mazza, que acompanha o grupo desde o início, o procedimento é desejado pela maioria das pessoas atendidas no grupo, salvo algumas exceções que não o fariam por diferentes fatores.</p>



<p>&#8220;A gente percebeu que eles recebem a pessoa que fez a mastectomia de volta no grupo com muita felicidade e com muita propriedade. E a gente foi perguntando quem faria, quem não faria. E digamos que 98% do grupo faria a mastectomia. As pessoas que não fariam são as pessoas que, ou tem muito medo da cirurgia, acham que a cirurgia vai ser muito desgastante, ou temem o resultado, tem medo do processo. Ou ainda pessoas que, por terem as mamas pequenas, acreditam que com treino e hormônio conseguem bom resultado sem intervenção&#8221;, analisa.</p>



<p>Para a profissional a cirurgia também reduz a disforia, que tem a ver com a incompatibilidade dessa imagem corporal da pessoa. Ela explica que &#8220;a disforia tem relação com a saúde mental e com a imagem corporal. É conseguir ficar bem com o seu corpo. Essa ideia de se olhar no espelho, de se sentir como se não tivesse algum órgão intruso no corpo, sabe? Por isso que chamam de intruso também. Então, além de diminuir a disforia de gênero, aumenta a autonomia. Porque a ideia de poder treinar, de poder ir à praia, de poder tirar camisa, que tem a ver também com um comportamento que tem relação com o gênero&#8221;. </p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55355935597_5bc27cfec0_c.jpg" alt="A imagem mostra alguns folhetos impressos dispostos sobre uma superfície clara, como uma mesa. O foco está em um folheto em primeiro plano, enquanto os outros aparecem desfocados ao fundo. O folheto principal é de cor branca e contém texto em português com mensagens de conscientização sobre respeito às pessoas trans. No centro, lê-se em letras grandes: “PESSOAS TRANS SÃO COMO VOCÊ: HUMANAS E MERECEM RESPEITO”. Abaixo, há a frase “TRANSforme suas ideias!”. O design inclui pequenos símbolos de gênero — masculino, feminino e trans — espalhados ao redor do texto. Na parte superior, há um logotipo de uma instituição, mas os detalhes não estão totalmente legíveis." class="" loading="lazy" width="661">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A enfermeira e supervisora do Espaço Trans do HC da UFPE, Paula Graça, reitera essa ideia da autonomia e liberdade. &#8220;Se sentir bem no seu corpo, se ver, se visualizar como a pessoa se enxerga e ser passável por uma sociedade. A passibilidade quer dizer que ela ou ele passa pela sociedade, transita sem ser identificado como uma pessoa trans. Isso é muito importante porque a gente sabe do estigma, a gente sabe que os olhares e as pessoas trans sentem esse olhar perverso, né? Então, essas cirurgias vão melhorar a autoestima da pessoa, porque ela se sente um homem, ela se sente uma mulher, ela quer ter os órgãos que ela acha que deve ter&#8221;, explica.</p>



<p>Mas nem toda pessoa trans deseja fazer uma intervenção cirúrgica. Graça explica existem pessoas trans que não desejam fazer intervenções e que elas não deixam de ser trans por isso. No entanto, nos casos que existe a disforia é extremamente importante. &#8220;Se essa pessoa tem uma disforia por aquele órgão que é sensual, no caso da mama, que chama a atenção como uma pessoa de gênero feminino, mas ela se sente gênero masculino, então essa mama incomoda. A retirada, a remoção dessa mama e colocar um peitoral masculino faz eles se sentirem livres. Para a questão psicológica da pessoa, a questão social melhora acho que 90%. Não melhora 100% sempre por conta da sociedade&#8221;, avalia.</p>



<p>O processo transexualizador no SUS exige que as unidades tenham equipes multidisciplinares para cuidar e acompanhar os pacientes. O HC tem a equipe composta por enfermeiros, psicólogos, psiquiatras, endocrinologistas, assistentes sociais, ginecologistas, urologistas, mastologistas, cirurgiões plásticos, fonoaudiólogos, otorrinolaringologia e recepcionista.</p>



<p>No caso do HC, o acompanhamento acontece até um ano após a cirurgia. Apesar de ter sido o quinto serviço de saúde cadastrado no Ministério da Saúde para ter um espaço ambulatorial e cirúrgico para a população trans e travesti, uma referência nacional, o espaço trans enfrenta problemas estruturais. Para efeitos de comparação: desde 2016 foram realizados 54 procedimentos de mastectomia, enquanto que, no Hospital da Mulher do Recife, que começou a oferecer o serviço no fim do ano passado, já foram realizados 24, quase metade.</p>



<p>Isso acontece, porque o HC dispõe de quatro salas cirúrgicas para todos os procedimentos de afirmação de gênero previstos. Com a ampliação da equipe em 2025, foi possível ampliar o número de cirurgias de oito para até 18 ao ano, como explica Graça. Mesmo assim, a fila de espera do hospital é de mais de 1400 pessoas, por este motivo, eles aconselham as pessoas a iniciarem o acompanhamento nos serviços de saúde dos respectivos municípios.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Para não errar!</span>

		<p><strong>Sexo Biológico: </strong>conjunto de características corporais que diferenciam machos e fêmeas, definido desde a concepção. Expressa-se inicialmente pelos genitais: pênis (menino) ou vulva (menina).</p>
<p><strong>Identidade de Gênero:</strong> é como a pessoa se reconhece: masculina, feminina ou uma combinação dos dois, independentemente do sexo biológico. Pode ou não coincidir com o gênero atribuído ao nascer e envolve percepção do corpo, estilo, fala e comportamento social.</p>
<p><strong>Orientação Sexual: </strong>refere-se ao gênero das pessoas por quem sentimos desejo e afeto. Relaciona-se à identidade de gênero dos envolvidos, não ao sexo biológico.</p>
<p><strong>Transgeneridade: </strong>condição de quem possui identidade de gênero diferente daquela designada ao nascer, buscando viver e ser respeitada no gênero com que se identifica. Também chamada de transexualidade ou transidentidade.</p>
<p><strong>Cisgeneridade:</strong> condição de quem possui identidade de gênero correspondente ao gênero atribuído ao nascer.</p>
<p>Fonte: Cartilha Espaço Trans HC-UFPE/HUBrasil</p>
	</div>
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		<title>Entre “mimimi” e silenciamento, Câmara do Recife vira palco de violência contra mulheres</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 19:13:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Câmara do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[gênero]]></category>
		<category><![CDATA[Violência]]></category>
		<category><![CDATA[Violência política de gênero]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Interrupções, gritos, zombarias, dedo em riste, intimidação e constrangimento público passaram a integrar a rotina da atual legislatura da Câmara Municipal do Recife. Vereadoras relatam um ambiente sistemático de violência política de gênero e apontam parlamentares da extrema direita como responsáveis pelos ataques. O plenário virou um espaço de tensão permanente. Sessões legislativas passaram a [&#8230;]</p>
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<p>Interrupções, gritos, zombarias, dedo em riste, intimidação e constrangimento público passaram a integrar a rotina da atual legislatura da Câmara Municipal do Recife. Vereadoras relatam um ambiente sistemático de violência política de gênero e apontam parlamentares da extrema direita como responsáveis pelos ataques.</p>



<p>O plenário virou um espaço de tensão permanente. Sessões legislativas passaram a acumular quase que diariamente episódios de tentativas de silenciamento, desrespeito e de desqualificação das falas das mulheres, além de muitas acusações de “mimimi” dirigidas principalmente às vereadoras de esquerda — mas não só. Os ataques extrapolam o ambiente institucional e ocupam também as redes sociais. </p>



<p>Os episódios mais recorrentes envolvem os vereadores Eduardo Moura (Novo) e Thiago Medina (PL) e têm como principais alvos Cida Pedrosa (PCdoB), Jô Cavalcanti (PSOL), Kari Santos (PT) e Liana Cirne (PT), mas também atingem a evangélica Ana Lúcia (Republicanos).</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Violência política de gênero na Câmara do Recife" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/jKesN5Zo-J8?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p>Em vídeos registrados durante sessões recentes da casa, é possível ver os parlamentares interrompendo falas femininas, fazendo gestos ostensivos e criando tumultos paralelos enquanto as vereadoras ocupam a tribuna. Muitas vezes a discussão abandona completamente o mérito político e se desloca para provocações pessoais e tentativas de desmoralização pública.</p>



<p>As cenas têm se repetido com frequência suficiente para que vereadoras de diferentes partidos passem a identificar o fenômeno não mais como casos isolados, mas como parte da própria dinâmica política instalada na Câmara Municipal.</p>



<p>A vereadora Cida Pedrosa afirma que o centro da disputa não está apenas nas divergências ideológicas entre esquerda e direita, mas no direito das mulheres existirem politicamente dentro das instituições. “O que está em disputa é o direito das mulheres ocuparem os espaços de poder. Quando uma vereadora é interrompida, quando tentam cortar sua voz, quando tentam deslegitimar sua presença naquele lugar, não estão atacando apenas aquela mulher individualmente. Estão atacando o mandato que ela representa, a população que a elegeu e a própria democracia”, diz.</p>



<p>Cida relata que as tentativas de silenciamento acontecem mesmo em situações protegidas pelo regimento interno da Câmara. “Eu sou frequentemente uma das vereadoras mais interrompidas na Câmara do Recife. E isso acontece mesmo quando o regimento garante que uma parlamentar não pode ser interrompida na tribuna, no aparte ou em uma questão de ordem”, explica.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/cida-pedrosa-foto-Guga-Matos.jpeg" alt="A imagem mostra Cida Pedrosa, mulher de meia-idade com cabelos curtos castanhos e óculos escuros, falando ao microfone em um ambiente de conferência. Ela veste uma blusa azul-clara bordada com desenhos brancos e segura um papel enquanto sorri de forma tranquila e confiante. À sua frente há um copo de água, e o fundo está desfocado, sugerindo um espaço formal com outras pessoas presentes." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Cida Pedrosa (PCdoB) é uma das vereadoras mais atacadas. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Guga Matos/Câmara do Recife</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Segundo ela, há um padrão repetitivo de intimidação direcionado às mulheres parlamentares: “toda vez que uma mulher ocupa um espaço legítimo de fala, determinados vereadores tentam atravessar essa fala, falar mais alto, impor o dedo em riste, criar constrangimento público”.</p>



<p>As imagens das sessões confirmam a descrição. Em diversos momentos, as vereadoras tentam concluir suas falas enquanto parlamentares homens conversam alto, fazem comentários paralelos ou provocam interrupções sucessivas. Em alguns episódios, o ambiente se deteriora a ponto de a sessão precisar ser temporariamente interrompida.</p>



<p>Para Jô, “isso revela que a política brasileira ainda carrega uma estrutura muito machista que aceita mulheres desde que elas não incomodem, não enfrentem e não disputem o poder de verdade”. “É por isso que a divergência política faz parte da democracia. O problema é quando a divergência vira silenciamento e humilhação ou tentativa de deslegitimar um mandato eleito pelo povo”, comenta.</p>



<p>Apesar de existir lei para combater a violência política de gênero, Jô acredita que “a lei sozinha não pode mudar uma cultura política construída durante séculos. Para nós mulheres, além da lei, é preciso responsabilização, formação institucional e mudança de prática. Quando uma vereadora é silenciada não é só ela que perde, perde quem votou nela, o debate público e também a democracia”, sustenta.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/jo-foto-camara-recife.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/jo-foto-camara-recife.jpeg" alt="A imagem mostra Jô Cavalcanti, mulher negra de meia-idade, com cabelo crespo curto e óculos de armação escura, falando ao microfone em um ambiente formal, como uma sala de reuniões ou plenário. Ela veste uma blusa vermelha de gola alta e um blazer preto, transmitindo uma aparência elegante e profissional. O fundo tem paredes de madeira clara, partes de bandeiras e estruturas metálicas, sugerindo um espaço institucional. Sua expressão é atenta e firme, indicando que está discursando ou apresentando algo com convicção." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Para Jô Cavalcanti (PSOL), &#8220;a política ainda carrega uma estrutura muito machista&#8221;. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Câmara Municipal do Recife</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">Violência política de gênero se espalha pelas Câmaras Municipais</h2>



<p>O que acontece no Recife acompanha um processo nacional documentado por organizações de direitos humanos, institutos de pesquisa e organismos internacionais. Levantamentos recentes apontam que as câmaras municipais brasileiras se consolidaram como um dos principais espaços de violência política de gênero no país.</p>



<p>Um dos estudos mais abrangentes sobre o tema foi produzido pelo Instituto Marielle Franco. O relatório <a href="https://www.violenciapolitica.org/baixe-a-pesquisa2023"><em>Violência política de gênero e raça no Brasil</em></a> reúne relatos de mulheres parlamentares e candidatas de diferentes regiões do país e aponta que interrupções constantes, desqualificação intelectual, ameaças, constrangimentos públicos e tentativas de silenciamento passaram a integrar a rotina institucional de mulheres na política.</p>



<p>Outro levantamento, produzido pela ONU Mulheres em parceria com a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), aponta que a violência política aparece hoje como uma das principais barreiras à participação feminina nos espaços institucionais da América Latina. O estudo identifica que mulheres progressistas, feministas, negras e periféricas figuram entre os grupos mais expostos a ataques.</p>



<p>Dados do Observatório da Violência Política e Eleitoral também mostram crescimento contínuo dos registros de violência política de gênero desde as eleições municipais de 2020.</p>



<p>No Recife, as vereadoras afirmam reconhecer nas sessões da Câmara exatamente os padrões descritos pelas pesquisas nacionais. Para Kari Santos, a violência política deixou de ser excepcional e passou a operar como método de disputa institucional.</p>



<p>“Quando um vereador me interrompe no meio de uma fala, quando vira as costas e começa a conversar alto enquanto eu falo, quando entra com processo na Comissão de Ética porque eu denunciei uma violência de gênero, ele não está discordando do meu argumento. Ele está dizendo que eu não tenho direito de estar aqui”, avalia.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/kari-foto-camara-do-recife.jpeg" alt="A imagem mostra Kari Santos, mulher jovem de pele clara e cabelos loiros presos, usando óculos grandes de armação amarela. Ela veste uma camisa vermelha e um blazer preto, com um colar prateado e um pingente pequeno em formato de coração. Kari está sentada em um ambiente formal, possivelmente uma sala de reuniões ou plenário, com microfones e cadeiras de escritório ao redor. Sua expressão é séria e concentrada, sugerindo atenção ao que está sendo discutido." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Na avaliação de Kari Santos, &#8220;violência é estratégia para que mulheres desistam da política&#8221;. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Câmara Municipal do Recife</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Segundo Kari, existe uma estratégia contínua de desgaste psicológico e político direcionada às mulheres parlamentares. “Interromper é uma estratégia. Ridicularizar é uma estratégia. Processar é uma estratégia. Tudo isso serve ao mesmo objetivo: fazer com que a gente se canse, se cale, desista”, aponta.</p>



<p>Ela afirma que os ataques não se restringem aos momentos mais explícitos de confronto. Eles aparecem também nas pequenas dinâmicas cotidianas do funcionamento parlamentar. “O deboche, a caricatura da mulher como descontrolada e que faz ‘mimimi’ são instrumentos clássicos para tentar deslegitimar mulheres que ocupam o poder”, detalha.</p>



<p>Kari afirma ainda que a estrutura das casas legislativas ainda opera segundo uma lógica profundamente masculina. “A estrutura parlamentar foi construída para homens e por homens. Não existem mecanismos internos que reconheçam de fato a violência política de gênero nos regimentos ou nas comissões de ética”, critica.</p>



<p>Essa percepção aparece também nas falas de Ana Lúcia (Republicanos), partido que integra o campo conservador. Embora esteja em outro espectro ideológico, ela relata experiências semelhantes dentro da Câmara do Recife. “Quando uma parlamentar não consegue fazer uso da fala na tribuna, que é uma caixa de ressonância, e ela é interrompida, ou o barulho constante pela plateia eminentemente masculina faz com que a gente se desconcentre, isso é para nos ridicularizar”, avalia.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ana-lucia-camara-do-recife.jpeg" alt="A imagem mostra Ana Lúcia, vereadora do Recife, uma mulher de meia-idade com cabelos loiros e lisos, usando óculos de armação dourada. Ela veste uma blusa preta e um blazer claro com detalhes escuros nas bordas, transmitindo uma aparência elegante e profissional. Ana Lúcia está falando ao microfone, em um ambiente formal, possivelmente uma sessão plenária ou reunião institucional, com bandeiras e estruturas metálicas visíveis ao fundo. Sua expressão é séria e concentrada, sugerindo que está abordando um tema importante com firmeza e serenidade." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">O que está em disputa, na visão de Ana Lúcia, é dizer &#8220;aqui não é lugar de mulher&#8221;.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Câmara do Recife</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Ana Lúcia afirma que a mensagem transmitida pelos ataques é direta. “O que está em disputa é uma única frase: ‘aqui não é lugar de mulher’”, resume. Ela descreve um ambiente em que manifestações de machismo aparecem de maneira naturalizada. “A gente escuta frases como ‘mulher fala demais’, ‘já começou’, ‘é porque é mulher’. Quando pedimos respeito para falar, dizem que somos histéricas, que queremos mandar”, relata.</p>



<p>A vereadora afirma que o problema não está apenas nos episódios individuais, mas na própria composição estrutural da Câmara. “Uma casa com 37 vereadores e apenas sete mulheres já diz muito sobre o quanto precisamos avançar”, contabiliza.</p>



<p>No ano passado, foi sancionada a Lei Municipal nº 19.387/2025, de iniciativa da vereadora, que cria oficialmente a Semana Municipal de Enfrentamento à Violência Política contra as Mulheres.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Tentativas de intimidação</strong></h2>



<p>A Marco Zero analisou pelo menos 60 horas de vídeos de sessões plenárias disponíveis no canal oficial da Câmara no YouTube da Câmara. Neles, a repetição dos comportamentos chama a atenção. As interrupções quase sempre ocorrem quando mulheres ocupam a tribuna ou fazem apartes críticos. Em vários momentos, vereadores homens se levantam durante os pronunciamentos, falam simultaneamente ou provocam tumultos paralelos.</p>



<p>As imagens também registram reações corporais típicas dos episódios relatados pelas vereadoras: sorrisos irônicos, gestos de impaciência, conversas paralelas e expressões caricaturais enquanto as vereadoras discursam.</p>



<p>Para as parlamentares, essas atitudes não são casuais. “Elas fazem parte de uma tentativa de ensinar pela punição qual seria o ‘lugar adequado’ da mulher na política”, afirma Kari Santos. “Ser dócil, obediente e silenciosa.”</p>



<p>A vereadora Liana Cirne afirma que a violência política de gênero se intensifica especialmente quando mulheres desafiam estruturas históricas de poder. “Quando uma mulher progressista apresenta projetos que questionam a ordem patriarcal, quando ocupamos a tribuna, quando não baixamos a cabeça, a reação é agressiva”, comenta.</p>



<p>Segundo ela, a violência não é apenas simbólica, “está em disputa quem tem direito de falar, quem tem direito de decidir, quem tem direito de questionar as estruturas de poder.” Liana concorda que o funcionamento da política institucional ainda é moldado por valores patriarcais.</p>



<p>“Como estamos em um lugar que não foi construído para nós (mulheres), eles resistem, seja cortando microfones, ridicularizando nossa aparência ou transformando nossa firmeza em histeria”, argumenta. Liana também relaciona os ataques à incapacidade de parte dos parlamentares de conviver democraticamente com mulheres em posição de poder. “Quando eles não conseguem vencer pelo argumento, recorrem à violência simbólica.”</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/liana-camara-do-recife.jpeg" alt="A imagem mostra Liana Cirne, mulher de pele clara e cabelos curtos grisalhos, falando ao microfone em um ambiente formal, provavelmente uma sessão plenária ou reunião institucional" class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Para Liana Cirne, ataques revelam incapacidade de conviver com mulheres em posição de poder
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Câmara do Recife</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading">A Lei 14.192, a estrutura e os limites da punição</h3>



<p>A violência política de gênero passou a ser tipificada no Brasil em 2021, com a aprovação da <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14192.htm">Lei 14.192</a>. A legislação alterou o Código Eleitoral para estabelecer normas de prevenção, repressão e combate à violência contra a mulher em ambientes políticos. A lei define como violência política qualquer ação que busque constranger, humilhar, perseguir ou impedir a atuação política feminina.</p>



<p>A norma prevê punições para ameaças, assédio, constrangimento público, humilhação e tentativas de impedir o exercício do mandato. Apesar disso, os dados apontam crescimento contínuo dos casos. Mas, para todas as parlamentares ouvidas, é unânime que a lei sozinha não será capaz de mudar a realidade, pois o problema é estrutural.</p>



<p>Segundo levantamento do Observatório da Violência Política e Eleitoral, os episódios de violência política contra mulheres aumentaram significativamente desde a aprovação da lei, especialmente em ambientes legislativos municipais.</p>



<p>Especialistas apontam que uma das principais dificuldades está na aplicação prática da legislação. Muitas das agressões aparecem disfarçadas de “debate político”, “liberdade de expressão” ou “embate parlamentar”.</p>



<p>Liana Cirne afirma que esse é hoje um dos entraves para a responsabilização. “Uma das principais dificuldades é a prova da motivação de gênero. Muitas agressões aparecem disfarçadas de crítica política”, diz.</p>



<p>Ela cita a própria experiência como exemplo dos limites institucionais da legislação: “fui agredida com spray de pimenta em 2021, denunciei, pedi investigação, a Câmara aprovou requerimento de apuração. Mas, e depois? Não houve punição”.</p>



<p>Liana relata que, após o episódio, passou a sofrer ameaças de morte, de estupro e de agressão. “As consequências disso apareceram até no meu desempenho parlamentar. Eu queria que aqueles que tiveram seus segundos de fama me agredindo nas redes fossem punidos. Mas não foram”, lamenta.</p>



<p>Para ela, a ausência de responsabilização reforça a sensação de impunidade. “Mesmo quando há denúncia formal e legislação, a vontade política de implementar justiça é frágil”, acredita.</p>



<p>Ana Lúcia faz avaliação semelhante: “Enquanto tivermos legislação sem aplicabilidade, os índices continuarão crescendo.” De acordo com ela, a violência política muitas vezes é minimizada até dentro das próprias instituições.</p>



<p>“Toda vez dizem ‘agora tudo é violência política’. Não. O que for violência política precisa ser reconhecido e encaminhado”, reivindica. Ela defende que casos sejam levados às comissões de ética das casas legislativas, pois “o vereador precisa responder por isso.”</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Violência afasta mulheres da política</strong></h3>



<p>Embora as vereadoras descrevam diferenças ideológicas entre si, todas convergem em um ponto: a violência política produz efeitos concretos sobre a permanência das mulheres na política institucional. Cida afirma que os impactos vão além do ambiente parlamentar, ao dizer que “a mulher parlamentar tem o mesmo trabalho, a mesma responsabilidade e a mesma tarefa que os homens, mas muitas vezes precisa exercer seu mandato sendo acossada todos os dias. Isso adoece”.</p>



<p>Ela afirma que a violência política pode afastar mulheres da vida pública. “O maior risco é que a violência política faça as mulheres desistirem da política. E isso seria uma derrota para a democracia”, avalia.</p>



<p>Kari também relaciona os ataques à tentativa de impedir o avanço da representação feminina: “cada mulher eleita é uma fissura a mais nessa estrutura construída para nos excluir.” Para ela, o crescimento da presença feminina na política explica parte da reação observada hoje nas câmaras municipais. “Eles têm medo porque nós temos coragem de enfrentá-los”, defende.</p>



<p>“O que a gente não pode aceitar é que dentro de uma casa legislativa eles coloquem suas posturas machistas para fora e a gente silencie”, defende.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Secretária da Mulher do Cabo de Santo Agostinho sofre atentado a tiros</title>
		<link>https://marcozero.org/secretaria-da-mulher-do-cabo-de-santo-agostinho-sofre-atentado-a-tiros/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Mar 2026 14:51:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Cabo de Santo Agostinho]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Violência em Pernambuco]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A secretária executiva da Mulher do Cabo de Santo Agostinho, Aline Melo, teve o carro alvejado por tiros na noite desta quinta-feira (26), na PE-28, rodovia que dá acesso às praias de Enseada dos Corais e Gaibu. O carro em que ela estava acompanhada do motorista foi interceptado por dois homens em uma motocicleta que [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Atualização</span>

		<p>Em maio, a Polícia Civil de Pernambuco anunciou o surpreendente resultado da investigação sobre o suposto atentado a tiros sofrido pela secretária da Mulher do Cabo de Santo Agostinho: Aline Melo forjou o crime com a ajuda do seu motorista e do pai deste, que teria sido o motoqueiro autor dos disparos. <a href="https://marcozero.org/policia-civil-conclui-que-secretaria-da-mulher-do-cabo-forjou-atentado-a-tiros/" target="_blank" rel="noopener">Confira aqui a matéria completa.</a></p>
	</div>



<p>A secretária executiva da Mulher do Cabo de Santo Agostinho, Aline Melo, teve o carro alvejado por tiros na noite desta quinta-feira (26), na PE-28, rodovia que dá acesso às praias de Enseada dos Corais e Gaibu. O carro em que ela estava acompanhada do motorista foi interceptado por dois homens em uma motocicleta que efetuaram os disparos – um dos tiros atingiu o banco de passageiros, a poucos centímetros da cabeça da secretária.</p>



<p>Logo após o ocorrido, Aline Melo foi até a delegacia do Cabo prestar queixa. Lá, ela gravou um vídeo publicado na conta dela no instagram. “A gente sabe que o caso que aconteceu aqui não é um mero caso qualquer, foi um caso ligado à violência de gênero, ligado à tentativa de parar uma mulher que ocupa o espaço de poder”, disse. “Apesar de obviamente estar muito assustada com tudo isso, eu não vou parar. Eu acho que a mensagem hoje é dizer que a luta continua, que a gente precisa continuar se posicionando, a gente precisa acreditar que as coisas podem mudar e que a gente vai continuar defendendo o correto”, afirmou.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/policia-civil-conclui-que-secretaria-da-mulher-do-cabo-forjou-atentado-a-tiros/" class="titulo">Polícia Civil conclui que secretária da Mulher do Cabo forjou atentado a tiros</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/violencia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Violência</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>Ainda na delegacia, ela concedeu entrevista a um blog local, o Acontecce no Cabo, em que detalhou a abordagem dos criminosos. “A gente estava no sentido litoral do Cabo, e uma moto se aproximou. Eu confesso que eu não vi essa moto se aproximando, estava distraída no celular. Em um determinado momento, a moto tentou fazer uma ultrapassagem e o motorista já ficou em alerta porque ela não ultrapassou pelo lado esquerdo, ela tentou ultrapassar pelo lado direito”, disse. “E aí ele (o atirador) desligou o farol e efetuou o primeiro disparo. Foi quando o motorista (do carro dela) pediu para abaixar e acelerou o carro e a gente conseguiu (fugir). Eu não sei quantos disparos foram, está entre dois ou três”, afirmou na entrevista.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:38% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="764" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/atentado-1-764x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-75031 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/atentado-1-764x1024.jpeg 764w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/atentado-1-224x300.jpeg 224w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/atentado-1-768x1029.jpeg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/atentado-1-150x201.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/atentado-1.jpeg 1079w" sizes="(max-width: 764px) 100vw, 764px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Ao ser perguntada pelo repórter do blog se os criminosos anunciaram assalto ou se já foram logo atirando, a secretária disse que o trecho da PE-28 onde ocorreu os disparos, na altura da Mata do Boto, era muito escuro. “A PE-28 é uma estrada que é muito escura, não tem iluminação, não tem sinalização. E a gente fica com essa incógnita, né, essa pergunta. Como é uma estrada muito escura, a gente não sabe”, afirmou.</p>
</div></div>



<p></p>



<p>No começo da madrugada desta sexta-feira, a governadora Raquel Lyra afirmou em nota que está acompanhando pessoalmente o caso. “Vamos apurar com rigor e garantir que os envolvidos sejam responsabilizados. Mulheres que ocupam espaços de poder e atuam em defesa de outras mulheres devem ser respeitadas. Pernambuco não aceita essa violência e nossas forças de segurança já estão atuando para responder de forma exemplar a esse episódio”, diz a nota da governadora.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Prefeitura pede apuração rigorosa</h2>



<p>Em nota oficial, a prefeitura do Cabo de Santo Agostinho reforçou a necessidade de investigação rigorosa e que não está tratando o crime como &#8220;fato isolado&#8221;. &#8220;Ele se soma a um cenário preocupante de violência e intimidação contra mulheres que ocupam espaços de liderança, lutam por direitos e enfrentam estruturas historicamente marcadas pela opressão&#8221;, afirma o texto da gestão municipal. Mais adiante, assegura que &#8220;nenhuma ameaça vai silenciar quem luta por uma sociedade mais justa e segura para todas as mulheres. A Prefeitura acompanhará rigorosamente o caso até o completo esclarecimento dos fatos&#8221;.</p>



<p>O Centro de Mulheres do Cabo (CMC), entidade feminista mais atuante na região do Cabo de Santo Agostinho, também se posicionou. Para Nivete Azevedo, coordenadora de Programas Institucionais do CMC e integrante do Conselho Municipal da Mulher, disse que &#8220;esse atentado que Aline sofreu é um atentado é uma forma de intimidar, de querer nos calar, de barrar a nossa luta em defesa da vida das mulheres. Não toleramos essa violência. Precisamos que o Estado assuma a sua responsabilidade para que as mulheres estejam protegidas, as mulheres estejam amparadas em seus direitos&#8221;.</p>





<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Homens matam uma mulher a cada quatro dias em Pernambuco</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 12:52:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[8M]]></category>
		<category><![CDATA[dia internacional da mulher]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
		<category><![CDATA[violência de gênero]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 2025, homens assassinaram 88 mulheres em Pernambuco, 14% a mais que em 2024, quando eles vitimaram 77 mulheres. Isso significa que o estado contabilizou um feminicídio a cada quatro dias somente no ano passado. Pernambuco é o segundo estado do Nordeste onde homens mais cometem feminicídios, ficando atrás apenas da Bahia, onde eles mataram [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 2025, homens assassinaram 88 mulheres em Pernambuco, 14% a mais que em 2024, quando eles vitimaram 77 mulheres. Isso significa que o estado contabilizou um feminicídio a cada quatro dias somente no ano passado. Pernambuco é o segundo estado do Nordeste onde homens mais cometem feminicídios, ficando atrás apenas da Bahia, onde eles mataram 102 mulheres em 2025. Os dados constam no estudo <em>Retrato dos Feminicídios no Brasil</em>, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, publicado no dia 4 de março.</p>



<p>Essa é a maior quantidade de feminicídios já registrados em Pernambuco desde 2017, quando o então governador Paulo Câmara assinou o decreto que instituiu o feminicídio na classificação dos crimes violentos letais. Dos 88 casos, 15 foram no Recife, seis em Jaboatão dos Guararapes e cinco em Caruaru. A maioria das vítimas tinha entre 35 e 64 anos (38,64%).</p>



<p>Leia, no final desta reportagem, uma entrevista com a premiada socióloga pernambucana Ana Paula Portella.</p>



<p>Confira <a href="https://marcozero.org/homens-estupram-ao-menos-seis-mulheres-e-meninas-por-dia-em-pernambuco/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aqui</a> reportagem sobre estupro na última década em Pernambuco.</p>



<p>O Brasil também bateu recorde de feminicídios em 2025, foram 1.568, um crescimento de 4,7% em relação a 2024. O estudo do Fórum detalha com dados o que se repete em todo o país: mulheres negras são as mais expostas à violência letal de gênero (62,6%); na maioria dos casos, o agressor é parceiro ou ex-parceiro íntimo (apenas 4,9% foram assassinadas por desconhecidos); e os crimes, em sua maioria, acontecem dentro de casa (66,3%).</p>



<p>“A evolução das taxas de outros crimes contra mulheres, como ameaça, perseguição, violência psicológica, lesão corporal, estupro e tentativa de feminicídio, também vêm aumentando de forma consistente nos últimos anos, o que indica que o corpo das mulheres segue sendo visto como território alheio, que poderia ser ameaçado, agredido, sexualmente violentado e assassinado”, destaca o Fórum em nota técnica.</p>



<p>Para analisar esse cenário, a <strong>Marco Zero</strong> entrevistou socióloga pernambucana Ana Paula Portella, doutora em Sociologia e mestra em Saúde Pública com mais de três décadas de atuação em pesquisa aplicada, avaliação de políticas públicas, violência de gênero, segurança pública e direitos humanos. Especialista em violência letal contra mulheres, feminicídio, interseccionalidade (gênero, raça e classe) e análise de políticas públicas, ela é autora do livro <em>Como morre uma mulher?</em>.</p>



<p>A publicação é resultado da tese de doutorado de Ana Paula e ganhou o prêmio de Melhor Tese da América Latina e do Caribe conferido pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. O livro analisa os contextos e as dinâmicas de produção da morte violenta de mulheres, incluindo os feminicídios, além de propor e aplicar um modelo de análise de dados em contextos de ausência de informações essenciais, como é o caso de muitos bancos de dados do sistema de segurança e justiça.</p>



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	                                        <p class="m-0">Ana Paula Portella é especialista em violência contra mulheresCrédito: Keila Vieira
</p>
	                
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                    </figure>

	


<p>Marco Zero &#8211; <strong>Nunca se debateu e se deu tanta visibilidade aos casos de violência contra mulher. Por outro lado, as reações estão cada vez mais agressivas e os casos de violência de gênero não param de crescer. Como isso se explica?</strong></p>



<p><strong>Ana Paula Portella &#8211; </strong>Existe um debate anterior a isso, que é se a violência de fato está aumentando ou se ela está sendo mais registrada, mais visibilizada e melhor classificada. Casos que, há um tempo, não seriam vistos como feminicídio hoje estão sendo classificados como feminicídio, porque existem protocolos e medidas dentro do sistema de segurança e justiça que orientam seus agentes a observarem os casos de morte violenta feminina de outra maneira e identificarem, nesses casos, o que é feminicídio e o que não é feminicídio.</p>



<p>Esse é um debate, a gente não tem como responder a essa pergunta neste momento e eu não conheço pessoas que estejam fazendo estudos para identificar se realmente a gente tem um aumento de casos ou se a gente tem uma melhora na visibilização do problema e na classificação dos casos.</p>



<p>De qualquer maneira, isso não importa, porque, como a gente está tratando de violência letal, é uma coisa que não deveria acontecer. Então um único caso é excessivo. Essa questão do aumento ou da redução, na minha perspectiva, é irrelevante porque temos que trabalhar com a perspectiva de uma sociedade que não tenha nenhum caso de violência letal contra as mulheres. E temos aqui em Pernambuco número muito maior do que um. Estamos em torno de 300 casos, se não me engano, de violência letal e, entre esses, cerca de 80 feminicídios.</p>



<p>De qualquer maneira, respondendo diretamente a essa preocupação dos casos mais graves, dos casos aparentemente mais violentos do que o que a gente tinha no passado, eu acho que vale a pena chamar a atenção para o recrudescimento do conservadorismo que tem acontecido no mundo inteiro e, aqui no Brasil também, nesses últimos dez ou 15 anos.</p>



<p>Todo esse avanço da extrema-direita — e tivemos aqui o governo Bolsonaro, que institucionalizou esse avanço no Governo Federal — traz com ele uma revalorização e um fortalecimento dos valores conservadores de gênero. Temos toda uma exacerbação das diferenças entre homens e mulheres, de uma maior valorização daquilo que é masculino, daquilo que é viril, daquilo que é violento. E com todo o debate em torno da liberação e do uso das armas de fogo, existe uma exaltação desses padrões, tanto do ponto de vista institucional e político, no campo da extrema-direita, como no campo da moral e da religião, por meio das igrejas neopentecostais.</p>



<p>Isso certamente cria um terreno fértil para a relegitimização da violência contra as mulheres, mas também do contexto de dominação dos homens contra as mulheres. Essa visão sobre as mulheres de que os homens são superiores, de que eles são melhores e que, por isso, têm e podem deter o poder de vida e morte sobre mulheres e crianças. Essas masculinidades agressivas e tóxicas têm sido fortalecidas nesse período. E esse é o período também que a gente vê crescer essa coisa no mundo virtual, desses ambientes da <em>deep web</em>, de debates, de jogos e de conversas, das quais participam majoritariamente meninos e homens jovens.</p>



<p>Esse é um ambiente que tem crescido entre as crianças e entre os meninos adolescentes sem supervisão parental, então é como se tivesse aberto um grande portal nos últimos anos, onde os meninos são efetivamente educados para serem homens a partir desses portais. Então se abre um campo de sociabilidade onde esses meninos têm exemplos a partir dos quais eles podem moldar a sua própria identidade masculina, em que não se tem supervisão nem dos pais nem de outros adultos nem de instituições. Então, ele está correndo livre. O que temos visto é que eles estão caminhando para esse campo do tradicionalismo, do tradicionalismo e do conservadorismo. Esses são ambientes que também valorizam a violência em todas as suas formas.</p>



<p><strong>Apesar do crescimento das denúncias e da busca por informação e acolhimento — prova é que o 180, a cada ano, bate recorde de registros —, ainda é muito difícil interromper o ciclo de violência contra as mulheres. Por quê?</strong></p>



<p>Interromper o ciclo da violência depende de coisas muito sensíveis. Uma mulher que está envolvida em uma situação abusiva precisa, em primeiro lugar, ter consciência de que essa relação é abusiva, precisa perceber e entender que ela está confundindo amor com abuso. Isso requer tempo, conhecimento, informação e apoio externo.</p>



<p>Além disso, mesmo que ela consiga diferenciar e perceber que a relação de fato é abusiva, ela precisa ter uma rede de apoio sólida, consistente e capaz de conter a reação agressiva masculina que fatalmente vai surgir no momento que ela decidir sair dessa relação. Essa rede de apoio tem que ser tanto pessoal e familiar como institucional, porque a contenção da reação masculina não é uma coisa simples. Não é simples conter um homem que está decidido a matar alguém. Nesse contexto que estamos vivendo, esses homens estão decidindo matar as mulheres e matar seus filhos. A situação está realmente ficando mais grave nesse sentido.</p>



<p>Nem todas as mulheres têm acesso a esse tipo de rede — e as mulheres sabem disso e precisam se proteger. Muitas não saem da situação porque sabem que, no momento em que saírem, esse homem vai reagir e ela não tem a quem recorrer. Daí a importância das políticas públicas, da ação do sistema de segurança e justiça, das medidas protetivas, das casas de acolhimento, dos centros de referência. É importante que a mulher saiba que isso existe para saber a quem pode recorrer.</p>



<p>É bom a gente lembrar também que boa parte dos casos de feminicídio acontece justamente quando a mulher pede a separação, depois que ela pede a separação ou depois que ela sai de casa. As mulheres que estão nessas relações sabem disso e procuram se proteger, então é importantíssimo que a sociedade tenha consciência disso e que os círculos próximos dessa mulher se constituam como uma rede de apoio e que isso seja dito muito em voz alta, que ela saiba ‘olha, você pode contar comigo, eu estou percebendo que a sua situação é ruim, então venha para cá’. Que as pessoas conversem sobre isso e se disponham a protegê-la, como também as políticas públicas, que, para a nossa sorte e graças ao movimento feminista nos últimos 40 anos, já existem aqui no país.</p>



<p>O ideal é que a relação abusiva seja interrompida no início, nos seus primeiros sinais, de modo que não dê tempo e não se permita que o homem cultive a sua reação mais violenta e agressiva. Mas, no início, é justamente o momento mais difícil da mulher perceber que a relação é abusiva porque os sinais são ambíguos. Então ela confunde isso com amor. É uma situação que só pode ser resolvida quando a sociedade brasileira como um todo compreender o que é uma relação abusiva, quando todas as pessoas conseguirem identificar esses sinais e quando tivermos realmente essas redes de apoio eficazes para proteger as mulheres e as crianças.</p>



<p><strong>As mulheres negras são a maioria das vítimas de feminicídio. Como o racismo estrutural impacta a vida dessa população e por que, no caso delas, é mais difícil quebrar esse ciclo de abusos?</strong></p>



<p>O racismo estrutural impacta a vida das mulheres imensamente. É, sem dúvida, o tipo de relação de poder e de dominação mais forte e poderoso na sociedade brasileira. Eu diria até que é mais poderoso do que as relações de gênero, mas atua de uma maneira muito articulada com as questões de gênero. Se a gente observar as condições em que vivem essas mulheres, vamos ver que elas têm redes familiares e redes sociais mais frágeis, vivem em condições materiais mais precárias.</p>



<p>Para uma parte importante delas, especialmente as mais jovens, têm menor acesso à informação e ao conhecimento que poderia facilitar procurarem ajuda e buscarem proteção para a violência. Isso as deixa numa situação muito mais frágil do que as mulheres que não são negras e que estão em condições materiais melhores.</p>



<p>Além disso, a questão racial é frequentemente usada como base para o exercício de poder e da dominação. Quando o homem quer destratar uma mulher ou quando as pessoas, em geral, aqui no Brasil, numa sociedade que tem um racismo tão alto e tão vigoroso, a questão da raça é utilizada frequentemente como medida de desvalor, como forma de xingamento, de diminuir essa mulher.</p>



<p>Eles já usam o fato de a gente ser mulher como algo ofensivo. No caso das mulheres negras, você vai ter a junção da questão do racismo e da misoginia atuando conjuntamente para desvalorizar essa mulher, para submetê-la e oprimi-la, o que vai deixá-la em uma situação de muito maior fragilidade do que aquela que não sofre o efeito do racismo.</p>



<p>A questão do racismo é tão essencial que a gente verifica que a maior proporção de vítimas da violência de gênero é de mulheres negras, jovens e pobres que vivem em situação de precariedade social.</p>



<p><strong>A maioria dos feminicidas é o marido, o namorado, o amante ou o ex. O que isso revela sobre o comportamento dos homens e a estrutura da sociedade?</strong></p>



<p>Eu acho que revela muito claramente que a gente vive numa sociedade patriarcal. Essas situações em que os homens matam as mulheres e matam as crianças significam que eles se compreendem como detentores do poder total sobre a vida da família. E isso é a descrição mais clara do patriarcado. A sociedade ainda é complexa, contraditória, é ambígua. A gente convive, ao mesmo tempo, com contextos progressistas, avançados e contextos conservadores, mas, no que se refere ao campo conservador, isso é um evidente traço da permanência das relações patriarcais na sociedade. Ainda tem muita luta pela frente para desfazer isso.</p>
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		<title>Homens estupram ao menos seis mulheres e meninas por dia em Pernambuco</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Mar 2026 11:37:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[8M]]></category>
		<category><![CDATA[dia internacional da mulher]]></category>
		<category><![CDATA[estupro]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Homens estupraram ao menos 2.354 mulheres e meninas em Pernambuco em 2025. Isso significa que eles abusaram de, no mínimo, seis mulheres e meninas a cada 24 horas no estado somente no ano passado. Os dados são da Secretaria Estadual de Defesa Social (SDS-PE) e, sem dúvida, estão subnotificados porque muitas não prestam queixa. A [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Homens estupraram ao menos 2.354 mulheres e meninas em Pernambuco em 2025. Isso significa que eles abusaram de, no mínimo, seis mulheres e meninas a cada 24 horas no estado somente no ano passado. Os dados são da Secretaria Estadual de Defesa Social (SDS-PE) e, sem dúvida, estão subnotificados porque muitas não prestam queixa. A maioria das vítimas (70%) tinha entre zero e 17 anos, ou seja, crianças e adolescentes.</p>



<p>“Nós sempre tratamos o estupro como um caso subnotificado. Esse número tem uma tendência de ser de seis a oito vezes maior do que o que está colocado”, diz a coordenadora-executiva do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop) e conselheira do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), Edna Jatobá.</p>



<p>O aumento na quantidade de pedidos de ajuda através da Central de Atendimento à Mulher Ligue 180 reflete a realidade — e também o aprimoramento do serviço de informação e acolhimento. Em 2024 (dado mais recente publicado pelo Ministério das Mulheres), o 180 registrou um total de 31.030 atendimentos oriundos de Pernambuco, um aumento de 40,6% em relação a 2023.</p>



<p>O Instituto Patrícia Galvão e o Instituto Locomotiva mostram, em números, o que quase todas as mulheres sentem: é cada vez mais perceptível que não existem espaços totalmente seguros para elas. Em pesquisada realizada pelas duas instituições no ano passado, 82% das entrevistadas declararam ter “muito medo” de sofrer um abuso sexual. Esse percentual era de 78% em 2020.</p>



<p>O temor também está presente na hora de decidir ou não pela denúncia. Muitas têm medo do agressor, sentem vergonha e temem ser desacreditadas, além de haver ainda muita falta de informação sobre os direitos das mulheres. Um outro levantamento publicado, no ano passado, também pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva mostra que oito em cada dez vítimas de violência sexual não buscaram nenhum atendimento.</p>



<p>O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, publicado recentemente pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, comprova que ainda é imensa a dificuldade de se punir os agressores. Das 67.157 perícias sexológicas realizadas em 2024, apenas 9,8% resultaram em laudos positivos.</p>





<p></p>



<h2 class="wp-block-heading">Estupro de vulneráveis bate recorde no Brasil</h2>



<p>Quem tem menos de 14 anos é considerado vulnerável pela legislação brasileira, que reconhece que crianças não têm capacidade de consentir sobre relações sexuais, independente de vínculo ou autorização familiar. Em 2024, o Brasil registrou 67.204 casos de estupro de vulneráveis, a maioria do sexo feminino e negra, de acordo com a 19ª edição do Anuário do Fórum. A taxa nacional chegou a 31,6 casos por 100 mil habitantes, o maior número da série histórica.</p>



<p>Na visão da organização, “casos recentes que mobilizaram o debate público reforçam a importância de compreender a dimensão desse problema e de garantir que a proteção da infância seja tratada como prioridade absoluta pelo Estado e pela sociedade”. A decisão recente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) que absolveu um homem de 35 anos que manteve relações com uma menina de 12 anos, chocou grande parte do país e gerou uma reação nacional. Depois o desembargador reviu a decisão e condenou o criminoso. Agora, <a href="https://www.poder360.com.br/poder-justica/pgr-pede-inquerito-contra-desembargador-afastado-de-mg/">o próprio magistrado será investigado</a> por suspeita de abuso sexual.</p>



<p>Edna detalha que existe uma tendência maior de notificação dos casos envolvendo crianças e adolescentes graças um sistema garantidor de direitos mais bem estruturado, com serviços vinculantes, conselhos tutelares e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).</p>



<p>Mas, na visão dela, a sociedade não está preparada para enfrentar o debate do estupro. Prova é, segundo destaca, a dificuldade para aprovar, no final de 2024, a resolução 258/2024 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). A medida estabelece um protocolo específico para atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, incluindo a garantia da interrupção legal da gravidez quando decorrente de estupro.</p>



<p>A resolução prevê, por exemplo, o treinamento de profissionais para identificar situações de violência sexual e a garantia de um atendimento rápido, sigiloso e livre de preconceitos, priorizando o cuidado e o respeito à vítima. “Essa resolução sofreu muita resistência, da Câmara de Deputados, do Senado, da igreja e até do próprio Governo Federal inicialmente, mesmo sendo um governo de esquerda”, relembra.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:37% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="533" height="799" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/edna-1.jpg" alt="" class="wp-image-74802 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/edna-1.jpg 533w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/edna-1-200x300.jpg 200w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/edna-1-150x225.jpg 150w" sizes="(max-width: 533px) 100vw, 533px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>“Quando temos um tribunal de Justiça e setores do judiciário que entendem como consensual uma relação entre um homem de 35 anos e uma menina de 12 anos e absolvem isso, como aconteceu em Minas Gerais, temos a prova cabal de que a nossa sociedade anui, legitima o estupro, especialmente praticado contra crianças e adolescentes”, avalia Edna.</p>
</div></div>



<p></p>



<p>“O crime de estupro é muito difícil de detectar sem a ajuda da sociedade. Porque acontecem dentro das residências, dentro das famílias, dentro do lugar onde essas meninas e mulheres deveriam se sentir mais seguras. Existe uma proteção muito grande aos agressores e uma baixíssima proteção às vítimas de violência sexual. Temos uma inversão de valores”, observa.</p>



<p>“E quando tentamos, a partir dos órgãos de controle e dos órgãos colegiados, fazer alguma coisa para diminuir essa distorção, essas iniciativas são rechaçadas pela sociedade a partir do manto do conservadorismo”, aponta a especialista. “Precisamos preparar a sociedade para esse debate e que ele seja realizado à luz da ciência e da garantia de direitos, e não refém do extremismo religioso”, frisa.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Elas não estão seguras dentro de casa</h3>



<p>A casa da vítima ainda é o cenário onde mais situações de violência são registradas. De acordo com a edição 2025 do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 65,7% dos casos de estupro em 2024 aconteceram dentro das residências, sendo que 45,5% dos autores do crime eram parentes e 20,3% eram parceiros ou ex-parceiros íntimos.</p>



<p>“O Anuário mais uma vez qualifica os dados, mostrando que a violência de gênero continua associada ao ambiente doméstico, à desigualdade racial e a ciclos de abuso. Mas os casos mais recentes se destacam por trazer um elemento que não pode ser ignorado: a intensidade e a crueldade dos ataques”, diz o Fórum.</p>



<p>Na avaliação de Edna, do Gajop e do CNDH, é preciso olhar para esse tipo de crime como uma questão de segurança pública, mas não só. Para ela, é urgente que a sociedade fortaleça a educação de gênero e a educação sexual, ainda muito rechaçada pelas escolas, além de fortalecer o acesso de mulheres e meninas à informação sobre direitos e canais de denúncia.</p>



<p>Ela também destaca que é preciso fortalecer as mães dessas meninas com políticas públicas que também passem pela geração de renda e de proteção para quando há necessidade de retirada imediata das vítimas dos espaços de denúncia para quebrar o ciclo de continuidade das violências.</p>
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		<item>
		<title>Influenciador digital vira réu por fingir ser PM para dar golpe em vítima de violência doméstica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Mar 2026 19:09:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[influenciador digital]]></category>
		<category><![CDATA[redes sociais]]></category>
		<category><![CDATA[Violência]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O influenciador digital pernambucano conhecido por Emerson Freitas, 26 anos, foi investigado por fingir ser policial militar para aplicar um golpe contra uma mulher vítima de violência doméstica e protegida por uma medida protetiva. Indiciado pelo Grupo de Operações Especiais (GOE), da Polícia Civil de Pernambuco, teve suas conversas com a vítima gravadas pela mulher, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O influenciador digital pernambucano conhecido por Emerson Freitas, 26 anos, foi investigado por fingir ser policial militar para aplicar um golpe contra uma mulher vítima de violência doméstica e protegida por uma medida protetiva. Indiciado pelo Grupo de Operações Especiais (GOE), da Polícia Civil de Pernambuco, teve suas conversas com a vítima gravadas pela mulher, o que foi fundamental para subsidiar a investigação e fazer com que a Justiça aceitasse a denúncia do Ministério Público estadual (MPPE). A <strong>Marco Zero</strong> teve acesso aos áudios.</p>



<p>De acordo com informações do processo judicial, que é público, na abordagem à vítima, Emerson teria se apresentado como “sargento Emerson, da Casa Civil e homem de confiança da governadora (Raquel Lyra) e da vice (Priscila Krause)”, depois ele admitiu em depoimento que não tinha qualquer relação com as duas. Em outro momento, disse também que era o “caveira 015” do Bope, o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Estado.</p>



<p>Inicialmente, a mulher pensou que poderia se tratar de um policial corrupto e passou a gravar os diálogos. Após uma pesquisa na internet, viu que &#8211; na verdade &#8211; o homem era um influenciador digital que mantinha um perfil nas redes sociais de estilo policialesco, à época com quase 80 mil seguidores.</p>



<p>O resultado da busca também mostrou uma matéria, publicada em um portal em outubro do ano anterior, que dizia no título: “Emerson Freitas, liderança na fiscalização da segurança pública, é um nome forte da direita para 2024 no Recife”. A foto que acompanhava o texto era de Emerson ladeado pelos deputados Alberto Feitosa e Coronel Meira, ambos do PL.</p>



<p>A vítima, então, gravou a segunda investida do falso policial. Em seguida, procurou o GOE, apresentou os áudios e formalizou a denúncia. Isso aconteceu em maio de 2023.</p>



<p>Durante as diligências da Polícia Civil, uma busca autorizada judicialmente no endereço do então investigado, na zona norte do Recife, reuniu uma lista de itens apreendidos, como munições de uso restrito, um distintivo policial, um gorro da Polícia Militar, dois coldres e um par de algemas. Emerson não estava em casa no momento do cumprimento do mandado. Uma vizinha do influenciador digital foi convidada pela equipe do GOE a acompanhar as buscas e serviu de testemunha.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/Emerson-auto.jpeg" alt="A imagem mostra a fotografia de um documento oficial impresso, com o título indicando “Operações Especiais – GOE”, localizado na Avenida Odete Monteiro, em Recife (PE). O texto relata a realização de uma busca minuciosa em um imóvel, com base no Art. 245, § 7º do Código de Processo Penal, descrevendo uma lista numerada de itens arrecadados e depositados. Entre os objetos listados estão munições de calibres .40 e 9mm, uma capa para colete balístico, coldres, um gorro verde com identificação da Polícia Militar, uma algema, um distintivo da Polícia Militar, crachás institucionais (incluindo de gabinete de vereador e da Assembleia Legislativa de Pernambuco), uma cópia de RG em nome de Emerson Jhuan Pereira do Nascimento, além de envelopes contendo certificados de aplausos destinados a policiais militares e documentos diversos, como termo de depoimento, procuração e mandado de intimação. O documento aparenta ser parte de um registro formal de apreensão de materiais." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Trecho do inquérito do GOE
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A investigação teve desdobramentos. Atualmente, Emerson Jhuan Pereira do Nascimento consta como réu. A Justiça aceitou a denúncia do Ministério Público de Pernambuco contra ele por estelionato consumado, falsidade ideológica e uso de documento falso.</p>



<p>O influenciador digital apresenta-se nas redes como “repórter investigativo”, mas ainda é estudante de Jornalismo em uma faculdade privada no Recife. Ele também responderá pelo crime previsto no artigo 12 do Estatuto do Desarmamento: possuir ou manter sob sua guarda arma de fogo, acessório ou munição, sem autorização, no interior de sua residência.</p>



<p>A juíza titular da 17ª Vara Criminal da Capital, Ana Maria da Silva, determinou que Emerson fosse notificado da ação penal no dia 15 de dezembro passado. Quinze dias depois, o influenciador digital anunciou em vídeo que é pré-candidato a deputado estadual nas eleições deste ano.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Como foi a investigação do GOE</h2>



<p>Em abril de 2023, o 190 foi acionado para atender um chamado de possível descumprimento da Lei Maria da Penha em um endereço no centro do Recife. Ao local da ocorrência, na companhia de policiais militares fardados, chega um homem que vestia calça jeans, camisa preta, distintivo no pescoço e armamento na cintura à mostra. Identificou-se à mulher protegida por medida protetiva como “Sargento Emerson Freitas, da Casa Civil”.</p>



<p>O depoimento da vítima foi corroborado pelo trabalho do GOE, com a anexação, inclusive, de imagens de câmeras de segurança que comprovam que o influenciador digital, com distintivo no pescoço, seguiu em viatura caracterizada da Polícia Militar do local da ocorrência à Delegacia da Mulher de Santo Amaro, área central do Recife, para onde a mulher e o ex-companheiro foram levados.</p>



<p>Lá, o delegado Marco Fidelis interpretou que não houve quebra da medida protetiva, determinou “outras providências” e o ex-marido foi liberado.</p>



<p>No dia seguinte, de acordo com informações reunidas no inquérito, o falso policial procurou a mulher e disse que havia descoberto um plano do ex-marido para matá-la. Na versão contada por Emerson, o ex-marido havia contratado um matador profissional por R$ 90 mil para a execução.</p>



<p>De acordo com o depoimento da vítima ao delegado Ivaldo Pereira Santiago, é a partir daí que tem início o processo de extorsão para que, em troca de vantagem pretendida, o falso policial sustasse o plano de encomenda da morte da mulher.</p>



<p>“O que a senhora pode fazer para ajudar a gente, pra gente continuar, pra gente lhe ajudar…”, diz Emerson, em um trecho do diálogo que acabou gravado sem que ele soubesse.</p>



<p>“Eu estou fazendo um trabalho de intermediário, porque sei que ele (o ex-marido) está avançando… ele está com arma, é um cabrito, os meninos deram a ele”. As gravações das duas conversas do falso policial com a vítima somam 37 minutos.</p>



<figure class="wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe loading="lazy" title="Áudios - Reportagem - Emerson Freitas" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/lS7iqZJGU5s?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Réu, mas ainda não localizado pela Justiça</strong></h2>



<p>O influenciador já é formalmente réu, mas &#8211; até a publicação desta reportagem &#8211; não havia sido notificado pela Justiça estadual para tomar conhecimento formal da ação penal. Só quando isso ocorrer é que começam a contar os prazos do processo.</p>



<p>Por duas vezes, um representante da Justiça de Pernambuco foi ao endereço conhecido de Emerson, mas não conseguiu encontrá-lo.</p>



<p>Tanto no dia 19 de dezembro, uma sexta-feira, às 7h45, quanto no dia 10 de janeiro, um sábado, por volta das 16h, um oficial de justiça &#8211; sem sucesso &#8211; foi até o endereço informado como sendo o de Emerson Jhuan, em Casa Amarela, na zona norte do Recife. É o mesmo endereço onde a equipe do GOE cumpriu mandado de busca e apreensão.</p>



<p>Nas redes sociais, porém, Emerson segue ativo. Faz publicações cotidianamente em locais de ocorrência e entrada de delegacias.</p>



<p>Emerson esteve presente, por exemplo, na entrevista coletiva que o secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho, concedeu à imprensa no final de janeiro. Na ocasião, o auxiliar da governadora Raquel Lyra (PSD) apresentou justificativas para a divulgação pela TV Record de que uma equipe da Polícia Civil monitorava um secretário do prefeito do Recife, João Campos (PSB).</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/Emerson-citacao.jpeg" alt="A imagem mostra um documento oficial do Tribunal de Justiça de Pernambuco, com o cabeçalho “Poder Judiciário” e o título “Certidão ID 226032947” centralizado na página. O texto certifica que a oficial de Justiça Ilana Costa informou ter comparecido, em duas datas e horários específicos (19 de dezembro de 2025 e 10 de janeiro de 2026), ao endereço indicado para citar Emerson Jhuan Pereira do Nascimento, mas deixou de realizar a citação porque ninguém atendeu aos chamados e o imóvel, descrito como um edifício residencial no formato caixão e sem portaria ou caixa de correios, dificultou a diligência. A certidão registra que o expediente é devolvido para novas providências e encerra com a afirmação de veracidade, local e data (Recife, 13 de janeiro de 2025), além da identificação e matrícula da oficial de Justiça." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Trecho do processo que corre na Justiça de Pernambuco
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading">Muitas mentiras</h3>



<p>Na sede do GOE, acompanhado do advogado e diante do delegado Ivaldo Pereira, o influenciador digital admitiu tanto ter procurado a mulher no dia seguinte ao episódio na delegacia de Santo Amaro para falar do suposto plano de execução quanto ter lhe contado cinco mentiras, ao menos. Ele disse ainda que “não exigiu nenhum valor fixo” da vítima, mas admitiu que “pediu uma ajuda”.</p>



<p>No processo, as páginas da transcrição do interrogatório confirmam que Emerson Jhuan “admite que criou uma história de que ela estaria em perigo de vida, mas tudo com o intuito de se aproximar sentimentalmente da mesma”.</p>



<p>Algumas linhas abaixo, ele dá mais detalhes da narrativa que inventou: “&#8230;havia descoberto um plano do marido contra a vida dela e que gostaria de oferecer proteção a sua vida (&#8230;) queria que a vítima sempre solicitasse a sua presença física para fazer sua ‘segurança’, sempre com intuito de estar perto dela; que toda a história contada é inverídica”.</p>



<p>Ele também confessou que, para impressionar o alvo, “mentiu quando falou que estaria de serviço” do trabalho como policial militar. Mentiu também quando falou que trabalhou por sete anos no Batalhão de Trânsito e quando disse que era “caveira”.</p>



<p>Sobre as munições de uso restrito apreendidas em sua residência, Emerson disse que “acredita que esqueceu no bolso após ter frequentado algum stand de arma de fogo”. Em relação aos demais itens policiais apreendidos, Emerson respondeu que havia comprado na &#8220;feira do troca&#8221; e que eles seriam para “gravar vídeos de personagens policiais”.</p>



<p>Sobre o distintivo que aparece usando nas imagens de câmera de segurança anexadas ao inquérito, conforme atestou a vítima em depoimento, o influenciador digital disse que o achou descartado no lixo.</p>



<p>Emerson disse à polícia que não anda armado, mas que já teve um armamento de <em>airsoft</em> (umjogo onde os jogadores participam de simulações de operações policiais ou militares com armas de pressão que atiram projéteis plásticos). O influenciador digital também admitiu que não tem relação de confiança com a governadora, nem com a vice-governadora. Ao fim do depoimento, ele disse que está sofrendo perseguição política por causa do seu “trabalho investigativo”.</p>



<h3 class="wp-block-heading">&#8220;Arrependido&#8221;</h3>



<p>Emerson Jhuan atendeu ao pedido da equipe de reportagem para se posicionar em relação à decisão da Justiça de levá-lo a julgamento. Ele confirmou a sequência de fatos verificados na investigação do GOE, mas diz que está de “cabeça erguida” porque se arrependeu do que fez.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Leia abaixo a íntegra da resposta enviada pelo influenciador digital:</li>
</ul>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p>&#8220;Agradeço contato e, sobretudo, pelo respeito ao direito à ampla resposta, princípio fundamental para o exercício responsável do jornalismo.</p>
<p>Sobre a conclusão do inquérito conduzido pelo Grupo de Operações Especiais (GOE) e seu desdobramento em ação penal, recebo com naturalidade e de cabeça erguida, ciente das minhas responsabilidades e preparado para assumir as consequências dos meus atos. Em nenhum momento neguei os fatos constantes nos autos, até porque houve, de minha parte, arrependimento sincero. Inclusive, já tive a oportunidade de pedir desculpas à vítima, o que fiz de forma direta e respeitosa.</p>
<p>Em relação às tentativas de notificação, esclareço que, embora eu não resida mais no endereço anteriormente informado, continuo tendo vínculo com o imóvel e recebo correspondências normalmente. Além disso, meu endereço atual e os contatos dos meus advogados estão devidamente disponibilizados à Justiça, e já fui intimado em outras ocasiões, tanto por meio eletrônico quanto presencialmente. Por isso, coloco-me, como sempre estive, à disposição para todos os esclarecimentos necessários.</p>
<p>Agradeço novamente pela oportunidade de me manifestar.&#8221;</p>
	</div>



<p></p>



<p><br></p>



<p></p>
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		<item>
		<title>Quando a luta social das mulheres &#8220;dá vontade de cantar&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 Jan 2026 21:15:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres periféricas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Estreia no próximo domingo (18), às 19h, na TV Pernambuco, a série documental pernambucana Canto Delas, uma celebração do protagonismo feminino através da música. Com 13 episódios, a produção financiada pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) acompanha o encontro entre compositoras brasileiras e mulheres ou coletivos cujas trajetórias são marcadas por superação, resistência e luta [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Estreia no próximo domingo (18), às 19h, na TV Pernambuco, a série documental pernambucana <em>Canto Delas</em>, uma celebração do protagonismo feminino através da música. Com 13 episódios, a produção financiada pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) acompanha o encontro entre compositoras brasileiras e mulheres ou coletivos cujas trajetórias são marcadas por superação, resistência e luta por transformação social. Cada um dos 13 episódios eterniza o processo de criação em que cada artista cria uma canção inédita, revelando como a música pode traduzir e potencializar histórias reais de mudança.</p>



<p>A série percorre territórios diversos de Pernambuco, da Região Metropolitana do Recife ao Sertão, conectando cultura popular, ativismo e criação contemporânea. Entre os ritmos presentes estão rap, coco, frevo, ciranda e tecnobrega, em sintonia com a diversidade das protagonistas. O público conhecerá iniciativas fundamentais como o Grupo Curumim, as Parteiras Pankararu, o coletivo Pixe Girls, a Coletiva Liberta Elas, a Colônia de Pescadores de Rio Formoso e o Grupo de Mulheres Jurema, entre outras.</p>





<p>Cada episódio é um retrato sensível da capacidade das mulheres de criar redes de afeto, luta e criação. No primeiro, a compositora Bione cria um rap inspirado no Grupo Curumim. Outros encontros notáveis incluem Alessandra Leão com as Parteiras Pankararu, Karina Buhr com a líder comunitária Joelma, e Cátia de França com a colônia de pescadoras de Rio Formoso, demonstrando como a arte nasce do engajamento social.</p>



<p>Mais do que uma série musical, &#8220;Canto Delas&#8221; é um potente registro do movimento social feminino, fortalecendo narrativas de ancestralidade, cuidado com o território e enfrentamento às violências. A produção, da Alumia Filmes e Garimpo Filmes, com direção de Tuca Siqueira, que também atuou como produtora, e Bruna Leite, prioriza a visibilidade de quem transforma realidades a partir da base, alinhando-se a uma comunicação que valoriza as lutas coletivas.</p>



<p>A exibição semanal na TV Pernambuco (canal 46.1 na Região Metropolitana do Recife) oferece ao público a oportunidade de se conectar com essas histórias que, segundo as produtoras Carol Vergolino, Daiane Dultra e Tuca Siqueira &#8220;dão vontade de cantar&#8221;. A série se afirma como um espaço midiático crucial para ecoar as vozes e os cantos que constroem, diariamente, um futuro mais justo a partir das comunidades.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/01/canto-delas-300x158.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/01/canto-delas-1024x539.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/01/canto-delas-1024x539.jpeg" alt="A imagem mostra uma vista aérea de uma área urbana densamente povoada, com muitas casas pequenas e prédios baixos de telhados planos, alguns com caixas d’água. Ao fundo, aparecem edifícios mais altos, indicando uma região central da cidade. Sobre a imagem, há um texto que diz: “O CANTO DELAS GRUPO CURUMIM E BIONE”." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Abertura do primeiro episódio
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


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		<title>Edital de apoio a projetos LGBTQIAPN+ recebe inscrições até fevereiro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Jan 2026 22:26:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[edital]]></category>
		<category><![CDATA[Fundo Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com investimento de R$ 1 milhão, o Fundo Brasil de Direitos Humanos lançou o edital LGBTQIAPN+: Defendendo Direitos 2026, que tem o objetivo de fortalecer institucionalmente organizações, grupos e coletivos que atuam na defesa dos direitos dessa população. O prazo para envio de propostas vai até 6 de fevereiro de 2026. De acordo com a [&#8230;]</p>
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<p>Com investimento de R$ 1 milhão, o Fundo Brasil de Direitos Humanos lançou o edital LGBTQIAPN+: Defendendo Direitos 2026, que tem o objetivo de fortalecer institucionalmente organizações, grupos e coletivos que atuam na defesa dos direitos dessa população. O prazo para envio de propostas vai até 6 de fevereiro de 2026.</p>



<p>De acordo com a entidade, o edital é uma resposta a um cenário de aumento da violência: dados citados no texto mostram 291 mortes violentas contra a população LGBTQIAPN+ em 2024, um aumento de 13,2% em relação ao ano anterior.</p>



<p>A iniciativa se propõe a disponibilizar recursos flexíveis, voltados para o fortalecimento institucional de até 20 organizações, no valor máximo de R$ 50 mil cada. </p>



<p>As propostas devem abordar as interseccionalidades de raça, gênero e território, priorizando grupos liderados por pessoas LGBTQIAPN+ e com dificuldade de acesso a outras fontes de recursos. Os temas prioritários são combate à violência, direitos da juventude, população em situação de rua, egressos do sistema prisional, saúde e direitos dos idosos LGBTQIAPN+.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Como participar</h2>



<p>Podem se inscrever grupos, coletivos, movimentos e organizações da sociedade civil sem fins lucrativos, mesmo que não tenham CNPJ formalizado. Não são aceitas propostas de pessoas físicas, órgãos governamentais ou partidos políticos. O processo de inscrição é realizado exclusivamente pelo Portal de Projetos do Fundo Brasil. A recomendação é que as inscrições não sejam deixadas para o último dia. O resultado final da seleção será divulgado a partir de 25 de maio de 2026.</p>



<p>Para mais detalhes e para acessar o formulário de inscrição, visite o <a href="https://www.fundobrasil.org.br/edital/lgbtqia-defendendo-direitos-2026/">site oficial do edital</a>. Dúvidas podem ser enviadas para o e-mail <strong>edital@fundobrasil.org.br</strong>.</p>
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		<title>Livro abre arquivos da DOPS-PE e revela histórias inéditas de mulheres na ditadura Vargas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Dec 2025 13:09:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[arquivo]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[era vargas]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[repressão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 1931, foi criada em Pernambuco a Seção de Ordem Política e Social, que surgiu junto com a Secretaria da Segurança Pública do estado. Em 1934, a Inspetoria de Ordem Política e Social. Um ano depois, a Delegacia de Ordem Política e Social, a famosa DOPS, que só foi extinta em 1990, por decreto do [&#8230;]</p>
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<p>Em 1931, foi criada em Pernambuco a Seção de Ordem Política e Social, que surgiu junto com a Secretaria da Segurança Pública do estado. Em 1934, a Inspetoria de Ordem Política e Social. Um ano depois, a Delegacia de Ordem Política e Social, a famosa DOPS, que só foi extinta em 1990, por decreto do então governador Miguel Arraes. Lançado no final de 2025, o livro online <em>Mulheres e Resistências &#8211; caminhos de insubmissão nos arquivos da Delegacia de Ordem Política e Social de Pernambuco</em> mergulha nos arquivos dos anos iniciais da DOPS até 1946 com um recorte original: as mulheres que foram fichadas em Pernambuco durante a ditadura do Estado Novo, os anos mais autoritários de Getúlio Vargas no poder.</p>



<p>O livro, <a href="https://drive.google.com/file/d/1Ctwfr02tMQQEReieNdqUZl6YMMjupuYF/view?usp=sharing" target="_blank" rel="noreferrer noopener">de acesso gratuito por meio deste link</a>, foi idealizado pela jornalista e produtora cultural Clarice Hoffmann, responsável também pela sistematização dos dados dos cerca de 400 prontuários analisados, e traz ensaios das sociólogas Anita Pequeno e Sophia Branco. Os prontuários da DOPS estão no Arquivo Público de Pernambuco, no centro do Recife, e foram digitalizados em 2017.</p>



<p>O livro foi lançado em 16 de dezembro com uma mesa de debates no auditório do Arquivo Público, com a participação das autoras e mediação de Maria Betânia Ávila, uma das fundadoras do SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia. Na mesa, ela falou sobre o apagamento da memória e o silenciamento das vozes femininas. </p>



<p>“Esse apagamento é ferramenta histórica de regimes autoritários para manter estruturas de poder, ao excluir as mulheres da narrativa oficial da resistência. Tradicionalmente, a história do Brasil, seja da repressão ou do exílio, é contada a partir de uma perspectiva masculina, enquanto as mulheres foram frequentemente reduzidas a um papel biológico ou natural, o que as situava fora do processo histórico. Esse mecanismo, sustentado pelo patriarcado, pelo capitalismo e pelo racismo, busca negar às mulheres o status de sujeitos sócio-históricos e políticos, consolidando uma dominação que é também de natureza colonial e epistemológica”, disse.</p>



<p>Para Sophia Branco, esse material é uma oportunidade de ter acesso a uma parte da vida política do Recife pouco conhecida, que é a atuação de mulheres comunistas em classes populares. “Mulheres negras, operárias, tecelãs, lavadeiras e de várias outras ocupações que se organizavam em associações, em sindicatos, que se organizavam em partidos. E eram perseguidas porque se organizavam politicamente, porque estavam em reuniões, nas ruas, porque recebiam e distribuíam jornais . Quando se pensa na memória da atuação comunista, que foi muito efervescente na cidade do Recife, se pensa no nome de comunistas homens, e não em mulheres, sobretudo não em mulheres com esse perfil social”, afirmou a socióloga na mesa de lançamento do livro, no Arquivo Público de Pernambuco.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Onde ler o livro Mulheres e Resistências:</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">O e-book está disponibilizado gratuitamente através de link no perfil </span><a href="https://www.instagram.com/mulhereseresistencias" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">@mulhereseresistencias </span></a><span style="font-weight: 400;">e </span><a href="https://www.instagram.com/arquivopublicodepernambuco" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">@arquivopublicodepernambuco </span></a>no<span style="font-weight: 400;"> Instagram. <a href="https://drive.google.com/file/d/1Ctwfr02tMQQEReieNdqUZl6YMMjupuYF/view?usp=sharing" target="_blank" rel="noopener">Também está neste link aqui</a>. Todas as imagens do livro são audiodescritas, possibilitando o acesso de pessoas com deficiência visual. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O projeto</span><i><span style="font-weight: 400;"> Mulheres e Resistências </span></i><span style="font-weight: 400;">foi contemplado no Edital de Ações Criativas LPG e conta com o apoio do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (Apeje) e o incentivo do Governo do Estado de Pernambuco e Ministério da Cultura.</span></p>
	</div>



<p>Entre as várias mulheres citadas no livro, estão também figuras históricas como Adalgisa Cavalcanti – a primeira mulher eleita deputada estadual na história da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), em 1947, e que inspirou o <a href="https://marcozero.org/category/adalgisas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">projeto Adalgisas, da Marco Zero</a> – e a primeira vereadora do Recife, Júlia Santiago. Ambas eram mulheres negras, comunistas e que tiveram suas rotinas monitoradas pela polícia.</p>



<p>O DOPS-PE possuía centenas de páginas sobre Adalgisa Cavalcanti, revelando que ela foi vigiada pela polícia por décadas, inclusive durante seus mandatos parlamentares. Os delegados da DOPS a descreviam com preconceito, afirmando que ela &#8220;relegava a vida doméstica a um plano secundário&#8221; em favor do comunismo. “Bem que dona Adalgisa já se aproximando dos seus sessenta anos assaz vividos, poderia estar ao lado do seu marido, cuidando do bom velho, fazendo tricô e ouvindo novela. Mas, qual o que, prefere andar por aí afora, tramando contra tudo e contra todos […] Tem jeito não, para dona Adalgisa.”, diz trecho de um pedido de prisão contra ela.</p>



<p>“Assim como esse, existem outros exemplos desses julgamentos morais sobre a conduta dessas mulheres. É um relato quase cômico, mas é importante que se diga que esse tipo de gesto estava muito mais próximo da perversidade do que da loucura ou da graça”, contextualizou Sophia no evento. “Esse mesmo delegado, Álvaro Gonçalves da Costa Lima, por exemplo, está na lista dos torturadores da ditadura militar que foram denunciados na Comissão Estadual da Verdade”, disse.</p>



<p>A socióloga Anita Pequeno lembrou que o anticomunismo tem uma forte dimensão moral: no discurso oficial da Era Vargas, o comunismo era acusado de destruir famílias e desvirtuar homens e mulheres. Misoginia e anticomunismo caminhavam juntos. “No contexto específico da Era Vargas, a mulher aparece como muito fundamental, quase como o sustento da nação. Mas qual mulher? A mãe de família, a mulher que seria responsável pelo governo do lar. É quase aquela expressão: &#8216;bela, recatada e do lar&#8217;. Então, se esperava que a mulher encarnasse esse ideal público. Que a honra dessa mulher fosse a própria encarnação da moral pública. As mulheres que apresentassem qualquer dissidência – como algumas que foram listadas associadas à prostituição, ou mulheres que perdiam a virgindade muito cedo – eram assunto de polícia. A virgindade das mulheres era assunto de polícia porque a honra delas tinha a ver com a honra pública”, afirmou Anita Pequeno no evento de lançamento do livro.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Complacência com as mulheres nazistas</h2>



<p>Apesar das afinidades ideológicas de Vargas com o nazifascismo, em 1942 o Brasil entrou na II Guerra Mundial contra os países do Eixo. Com isso, a repressão política em Pernambuco passou a focar intensamente em mulheres estrangeiras (sobretudo alemãs, italianas e japonesas) sob suspeita de espionagem e nazismo.</p>



<p>Na ficha da alemã Hertha Dorotea Sachser está escrito, que em sua declaração, ela afirmou que “como alemã, consequentemente, é nazista e que tem certeza da vitória da Alemanha. Diz que não praticou nenhum ato de espionagem, mas que considera o espião um bom patriota”.</p>



<p>Mas há uma grande diferença entre o tratamento da polícia com essas mulheres e com o das mulheres brasileiras comunistas da classe operária. “É interessante a dinâmica que se dá aqui em Pernambuco. Essas mulheres, as que eram nazistas de fato, tinham uma ideia de que eram superiores de tal forma que elas diziam isso na cara dos policiais. E a impressão que dá é que os policiais concordavam que elas eram melhores que eles. Os policiais eram muito mais complacentes com elas. Então, essa dinâmica racial também estava apresentada”, disse Anita Pequeno.</p>



<p>No último texto do livro, que se chama <em>Notas Cromáticas</em>, as pesquisadoras se dedicam a escrever sobre como era minuciosa a descrição dos corpos das mulheres que eram fichadas. “Nas mulheres mais pobres, essa parte da cor está sempre preenchida e nas outras nem tanto. Nós vimos que nas mulheres negras, nas mulheres racializadas, a semântica das cores era muito complexa”, disse Anita Pequeno.</p>



<p>“Termos tais como “parda”, “parda clara”, “parda escura”, “morena”, “branca trigueira”, “preta” e “preta fula” aparecem como marcas de uma lógica classificatória ambígua que, longe de neutralizar o racismo, o sofisticava. Historicamente, as gradações de cor, associadas ao acesso desigual à cidadania, pavimentaram o caminho para a formulação posterior do mito da democracia racial e buscavam fragmentar a identidade dessa parcela da população. Como sabemos, apesar dos malabarismos orquestrados pelo Estado para camuflar e perpetuar as hierarquias sociais, e mesmo com o fortalecimento do mito da democracia racial — forjado desde o Império e consolidado como ideologia nacional —, o racismo seguia operando de forma estruturante”, diz trecho do livro.</p>
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