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	<title>Arquivo de Raça - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivo de Raça - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Piores salários para pessoas negras estão em estados do Nordeste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Dec 2025 18:42:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Agência Tatu]]></category>
		<category><![CDATA[disparidade de salários]]></category>
		<category><![CDATA[racismo estrutural]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Ana Cecília, da Agência Tatu O Nordeste concentra os quatro estados com as piores remunerações para os trabalhadores negros do país. Segundo levantamento realizado pela Agência Tatu, com base nos dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2024, Paraíba, Piauí, Alagoas e Rio Grande do Norte pagam em média R$ 2.321 para pretos [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Ana Cecília, da <a href="https://www.agenciatatu.com.br/noticia/estados-com-a-pior-remuneracao-para-trabalhadores-negros/">Agência Tatu</a></strong></p>



<p>O Nordeste concentra os quatro estados com as piores remunerações para os trabalhadores negros do país. Segundo levantamento realizado pela <a href="https://www.agenciatatu.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Agência Tatu</a>, com base nos dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2024, Paraíba, Piauí, Alagoas e Rio Grande do Norte pagam em média R$ 2.321 para pretos e pardos, enquanto trabalhadores brancos recebem em média R$ 3.161 nesses estados, uma diferença de 36%.</p>



<p>Essa diferença salarial é observada em todos os estados brasileiros. No país, profissionais negros recebem em média R$ 3.075, enquanto trabalhadores brancos ganham R$ 4.496, 46% de diferença.</p>



<p>O Distrito Federal lidera a disparidade de remunerações com brancos tendo salários 86,99%  mais altos que pretos e pardos. Em seguida vem o Rio de Janeiro, com uma diferença de 49,85%, e a Bahia, com uma diferença salarial de 46,31%.</p>



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<p>Esses dados são baseados nas declarações anuais prestadas pelos empregadores sobre seus contratados. Calculados pela média de todos os valores salariais existentes nas categorias de emprego, o gráfico ilustra essa desigualdade estado a estado, evidenciando a distância que separa a renda entre os grupos raciais em todo o território nacional.</p>



<p>Os dados mostram que essa diferença salarial persiste mesmo em cargos com altas remunerações, como postos de chefia e alto escalão. Negros nessas funções ganham, em média, R$ 7.144, contra R$ 12.319 recebidos por brancos. Essa diferença de 72% é a maior observada entre as categorias, sendo uma realidade presente em todas as profissões.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Disparidade salarial e construção social</h2>



<p>Para Marli Araújo, doutora em Serviço Social e professora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), a baixa remuneração no Nordeste e desigualdades salariais é profunda, pois existe um estigma de atraso atribuído ao Nordeste, além de possuir uma população majoritariamente negra, e essa construção social reflete diretamente nos indicadores econômicos.</p>



<p>Em um âmbito geral, segundo a especialista, para entender as diferenças salariais entre pessoas negras e pessoas brancas, é preciso entender como se forma a classe trabalhadora brasileira no pós-abolição e como isso implica em termos salariais atuais.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:45% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="768" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Tatu-salarios-Marli-768x1024.webp" alt="" class="wp-image-73702 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Tatu-salarios-Marli-768x1024.webp 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Tatu-salarios-Marli-225x300.webp 225w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Tatu-salarios-Marli-1152x1536.webp 1152w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Tatu-salarios-Marli-1536x2048.webp 1536w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Tatu-salarios-Marli-640x853.webp 640w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Tatu-salarios-Marli-150x200.webp 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Tatu-salarios-Marli.webp 1600w" sizes="(max-width: 768px) 100vw, 768px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>“Você tem uma população de 700 a 800 mil pessoas libertas após a escravidão e você tem uma sociedade brasileira que se forma a partir desse capitalismo industrial da Inglaterra. Essa população negra não é entendida como classe trabalhadora, porque existe uma construção política, ideológica, social, que negro é preguiçoso, que pessoas negras não gostam de trabalhar. Então, você tem aí um processo migratório eugenista no início do século XIX. E, com isso, você vai ter uma diferenciação entre trabalhadores brancos e trabalhadores negros a partir de uma questão racial e que se implica no lucro capitalista”.</p>
</div></div>



<p>Já para o ativista antirracista Jeamerson dos Santos, pesquisador dos campos de educação, cultura e arte, o Nordeste tem uma questão política e econômica histórica, que influência na disparidade salarial. “Há uma colonialidade muito grande nas relações de poder, isso também mantém a região Nordeste dentro dessa condição triste e vergonhosa de ser uma região com índices de desenvolvimento econômico para a população negra de piores condições”.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Caminhos para equiparação econômica</h3>



<p>Ele ainda explica que a equiparação salarial só será possível através do enfrentamento desse contexto histórico e social. “Essas pessoas, por exemplo, que estão no mercado de trabalho, precisam ter apoio para isso, e é necessário que o Estado brasileiro assuma a responsabilidade efetiva de enfrentar o racismo estrutural”.</p>



<p>O especialista ressalta que essas mudanças devem avançar em direção a uma sociedade mais equitativa, indo além da simples discussão e focando em ações concretas. “É importante entender que essa reparação ou equiparação econômica vai se dar quando a gente entender que as contribuições negras não são empecilhos para o desenvolvimento do Brasil, pelo contrário, elas são potências e sempre foram potências, dentro das suas singularidades, dentro das suas pluralidades, dentro das suas diversidades”, conclui.</p>



<p></p>
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		<title>&#8220;Antes da adaptação climática, vem uma adaptação de existência&#8221;, afirma Flora Rodrigues</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Nov 2025 19:44:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Belém]]></category>
		<category><![CDATA[COP30]]></category>
		<category><![CDATA[racismo ambiental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A 30ª edição da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, COP30, que mobilizou milhares de pessoas em Belém (PA), está sendo um local de debates importantes sobre adaptação e financiamento climático. A conferência foi dividida em duas grandes áreas, a blue zone, onde acontecem as negociações entre chefes de Estado e apenas pessoas [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A 30ª edição da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, COP30, que mobilizou milhares de pessoas em Belém (PA), está sendo um local de debates importantes sobre adaptação e financiamento climático. A conferência foi dividida em duas grandes áreas, a blue zone, onde acontecem as negociações entre chefes de Estado e apenas pessoas credenciadas podem entrar, e a green zone, aberta ao público, voltada para a sociedade civil, instituições públicas, empresas e organizações não governamentais (ONGs).</p>



<p>Os movimentos populares também se organizaram para a COP30. Um exemplo dessa mobilização é a yellow zone, idealizada pela Coalizão COP das Baixadas. É nesse espaço que a juventude periférica de Belém dialoga com os visitantes a partir de suas vivências e perspectivas, ampliando o debate popular de forma descentralizada.</p>



<p>Jovens de todo Brasil estão nesses espaços de discussão para trazer a perspectivas dos seus territórios e para pensar na adaptação climática a partir deles. Durante o evento, <a href="https://www.instagram.com/florarodrigues00/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Flora Rodrigues</a> e <a href="https://www.instagram.com/eu_sou_yane/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Yane Mendes</a>, integrantes da <a href="https://www.instagram.com/redetumulto/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Rede Tumulto</a>, um coletivo de comunicação popular do Recife, estiveram ocupando espaços para refletir sobre o impacto das mudanças climáticas nas periferias, a partir das suas vivências na capital pernambucana.</p>



<p>Flora, que aos 22 anos carrega uma bagagem de mobilização popular em seu território e também fora dele, conversou com a Marco Zero para falar um pouco sobre a importância de levantar esse debate em um espaço como a COP30.</p>



<p><strong>Vocês, que desenvolvem um trabalho de mobilização junto com e comunicação muito forte no Recife, como enxergam estar ocupando esse espaço na COP30?</strong></p>



<p>Sou uma das coordenadoras da Rede Tumulto, junto com quatro mulheres negras, que trabalham a democratização da comunicação, da justiça climática, fazendo a tradução dessas temáticas dentro das favelas do Recife, na qual a gente trabalha.</p>



<p>Estar na COP30 é um ato de reparação mesmo, de reparar esses danos históricos, porque nunca nos colocaram na centralidade desse debate. Então, vir de uma favela do Recife, estar na COP30, anuncia um ato de avanço, mas, sobretudo, é um espaço também que a gente vê o quanto as metodologias que a gente está desenvolvendo nos nossos territórios são metodologias que conseguem, sim, redirecionar um debate global sobre as mudanças climáticas.</p>



<p>Com soluções que fazem sentido, com soluções que, inclusive, são fazem com que o território se envolva, se sinta parte desse debate global. Então, acredito que estar na COP30, com essa conexão de comunicadores do Recife, de um coletivo de favela de comunicação do Recife, anuncia um ato de reparação, mas anuncia também um ato de reconstrução, de colocar a gente na centralidade desses debates climáticos.</p>



<p><strong>Um estudo do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC) alerta que eventos climáticos extremos aumentam as condições de vulnerabilidade das comunidades periféricas e rurais. Qual a importância de levar o olhar da periferia para o debate?</strong></p>



<p>Eu acredito que levar o olhar da periferia para o debate é, sobretudo, racializar o debate. Quando a gente entende que levar a periferia é levar as pessoas afrodescendentes para a centralidade desse debate, porque hoje a gente vê que dentro da COP30 existe uma ausência histórica até da palavra afrodescendente nos documentos oficiais.</p>



<p>Então, acho que a gente está aqui, enquanto pessoas pretas, periféricas, é também racializar o debate climático, fazer com que esse debate climático faça sentido, sobretudo, para o maior grupo demográfico desse país, que são as mulheres negras. Não existe justiça climática se não forem as mulheres negras ocupando esse espaço oficial da COP30.</p>



<p>Essa é uma oportunidade de anunciar que as periferias têm cor, as periferias têm gênero e as periferias têm conhecimento para estar dentro de espaços como a COP30. </p>



<p><strong>E como você avalia o papel da juventude negra no debate da adaptação climática?</strong></p>



<p>A juventude negra, sobretudo a juventude negra periférica, vive um processo de adaptação de existência. Antes da adaptação climática, vem uma adaptação de existência. Porque a gente vive o tempo todo numa disputa política dos nossos corpos. O Estado disputa nossos corpos com a violência, com a falta de empregabilidade, com o calor extremo. Porque somos nós que estamos dentro da sala de aula com calor.</p>



<p>Então, acredito que a adaptação maior que a gente faz e a de querer existir com dignidade. E a adaptação climática dialoga diretamente com isso, porque a gente está falando sobre existir com dignidade. Então, acho que ser uma jovem negra nesse espaço é também reafirmar a humanidade das periferias e favelas, de nós, da juventude negra.</p>



<p>A juventude negra que, muitas vezes, nunca nem ouviu a palavra COP30, mas já vem sofrendo esses impactos diariamente nos seus territórios. A juventude negra, por exemplo, que é excluída quando a gente vai pensar a partir da perspectiva de empregos verdes. É a juventude negra que não tem acesso a essa &#8216;diplomacia&#8217;, que é construída a partir de outras juventudes, do que é ser ativista climático. Então, eu acredito que o &#8216;pirraia&#8217; da minha rua, que está lá na minha favela, ele é, sim, um ativista climático.</p>



<p>E eu acho que quando nós, jovens negras, estamos dentro desse espaço da COP30, a gente consegue também tomar posse do sentido do que é construir uma luta climática no Brasil, mas, sobretudo, a partir das juventudes e das periferias. Entender que nós somos a juventude plural, mas que nós, juventude negra, temos singularidades, porque nunca, historicamente, fomos colocados para ocupar a COP30, nem que seja como observador.</p>



<p>Então, acho que isso também é um espaço político importante de reafirmação, de que a juventude negra sabe o que é melhor para ela, que a juventude negra tem um projeto de sociedade também muito nutrido, sobretudo, pelas nossas mais velhas, pelo movimento negro histórico, do movimento de favelas.</p>



<p>Estar aqui, enquanto uma jovem negra, também é ter essa certeza, ter essa afirmação que a intergeracionalidade nunca foi um problema para a gente, que a gente constrói com nossos mais velhos no território, a gente constrói com nossos mais velhos nos terreiros de candomblé. E eu acho que é isso que precisa estar na centralidade do debate quando a gente vai falar sobre juventudes e o que é que a juventude está propondo também para adiar o fim do mundo.</p>



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<p><strong>Como têm sido as discussões da COP30 voltadas para a periferia?</strong></p>



<p>Os espaços voltados para a discussão das periferias na COP30, infelizmente, ainda não são esses espaços oficiais, como, por exemplo, a Blue Zone. A gente vê um debate muito potente sobre as periferias dentro da Green Zone, dentro das Yellow Zones, dentro da Black Zone também, que foi anunciada pelo movimento negro aqui de Belém. Mas dentro da Blue Zone, por exemplo, a gente ainda vê uma escassez muito grande dos debates periféricos, da periferia estar pautada dentro da centralidade. Compreendendo, sobretudo, os códigos que esses espaços colocam, como, por exemplo, a obrigatoriedade de passaporte para estar na Blue Zone.</p>



<p>Eu sou uma negra jovem que eu estou ocupando esses espaços, então estive também na Blue Zone, nos momentos oportunos, ecoando, sobretudo, junto com o movimento de mulheres negras, junto com o movimento negro. Os afrodescendentes precisam estar na centralidade dessas grandes negociações que são feitas, sobretudo, na Blue Zone.</p>



<p>A COP30 ser no Brasil oportuniza também que a gente consiga consolidar, por exemplo, outros tipos de espaços que vão debater o olhar da periferia que vai ser um mecanismo de advocacy, de incidência política. A COP também oportuniza que a gente tenha acesso a governantes, a pessoas que têm um papel importante na construção e na consolidação de políticas públicas para a gente.</p>



<p><strong>No seu discurso na COP30, uma das suas provocações foi sobre radicalidade. O que é essa radicalidade e como colocá-la em prática como incidência política?</strong></p>



<p>Nós, enquanto juventude negra, fomos empurrados a ser radical. A pacificidade nunca teve a nossa cor, nunca teve o nosso corre, a pacificidade nunca esteve no chão dos nossos territórios. Porque o Estado mostra o tempo todo para a gente quem tem o direito de viver e que tem o direito de morrer, sobretudo, quando a gente está falando sobre desastres climáticos e sobre crise ambiental.</p>



<p>Então, acredito que a radicalidade precisa ser incorporada quando a gente vai falar para o Estado brasileiro e para todos os líderes de governo que a gente sabe o que é melhor para a gente. Quando a gente está debatendo sobre um outro projeto de mundo, que é estruturante, é estratégico. A gente precisa compreender que a vontade política também é um ato que estrutura as relações.</p>



<p>Eu sinto que hoje existe uma não vontade política de fazer com que os avanços que estão sendo debatidos a partir das periferias, dos quilombos, das aldeias, sejam avanços que vão ser executados como solução para a crise climática, entende? Existe falta de vontade política de executar o que as periferias, os quilombos, as aldeias, vem anunciando como uma solução para adiar o fim do mundo. Então, o norte global reafirma isso, que não quer olhar para o sul global, que não quer olhar para esses territórios e que eles são os principais provocadores de todas as injustiças climáticas que a gente vem vivendo.</p>



<p>Então, acredito que a radicalidade é por uma existência digna, por uma narrativa que avance, que as pessoas possam nos escutar. Acho que essa COP30 também é um espaço que precisa deslocar a escuta para a atitude. Então, acho que a radicalidade também é pensar a partir desse movimento, dessa articulação. E eu acho que nós, mulheres negras,  a gente nunca teve a escolha de ser pacífica.</p>



<p>A gente sempre teve a escolha de levantar, de organizar nosso território, de provocar mudança, de provocar transformação. Eu acho que é isso também que a gente anuncia para o mundo. Eu acho que o que vem acontecendo, por exemplo, na cúpula dos povos, o que vem acontecendo nas yellow zones, em debates importantes nas green zones,  anuncia um novo modelo de sociedade.</p>



<p>Acho que as mulheres negras são as principais pessoas que estão narrando esse novo futuro. Que esse futuro tenha a ver com o presente, com o que a gente está vivendo agora, porque o futuro para a gente, muitas vezes, está num lugar de utopia. Porque a gente, infelizmente, vive um projeto de extermínio. Mas que a gente está reconstruindo caminhos para que a gente possa sobreviver com dignidade, existir com dignidade. Não sobreviver, mas existir com dignidade e bem viver.</p>



<p>E acho que a marcha de mulheres negras, que é um momento importante e que, inclusive, tem ligação pós essa COP30, e que vai acontecer no dia 25 de novembro, em Brasília, anuncia muito do que a gente, mulheres negras, construímos aqui, com muita radicalidade, na COP30.</p>



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                                            <span>Crédito: Yane Mendes/ Rede Tumulto</span>
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	<p>O post <a href="https://marcozero.org/antes-da-adaptacao-climatica-vem-uma-adaptacao-de-existencia-afirma-flora-rodrigues/">&#8220;Antes da adaptação climática, vem uma adaptação de existência&#8221;, afirma Flora Rodrigues</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Marcha da Consciência Negra toma as ruas do Recife nesta quinta-feira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 18 Nov 2025 20:11:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[dia da consciência negra]]></category>
		<category><![CDATA[Marco Zero]]></category>
		<category><![CDATA[Recife Antigo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, as ruas do Recife vão ser ocupadas pela Marcha da Consciência Negra 2025. A mobilização, organizada pela Articulação Negra de Pernambuco em parceria com diversos movimentos sociais, terá concentração a partir das 14h, no Marco Zero. O percurso seguirá pelas ruas do Recife Antigo e do bairro [&#8230;]</p>
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<p>Neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, as ruas do Recife vão ser ocupadas pela Marcha da Consciência Negra 2025. A mobilização, organizada pela Articulação Negra de Pernambuco em parceria com diversos movimentos sociais, terá concentração a partir das 14h, no Marco Zero. O percurso seguirá pelas ruas do Recife Antigo e do bairro de Santo Antônio, com encerramento no Monumento a Zumbi dos Palmares, localizado no Pátio do Carmo.</p>



<p>Com o tema “Pelo fim da violência policial, por reparação e bem viver”, a marcha deste ano denuncia a criminalização da população negra pelas forças policiais. A escolha do tema faz referência à chacina ocorrida nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, no início do mês. E também se conecta à Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, marcada para o dia 25 de novembro, em Brasília.</p>



<p>A marcha propõe o debate sobre “reparação” como acesso a direitos, redistribuição de oportunidades, preservação da memória e transformação das estruturas que sustentam o racismo. Já o conceito de “bem viver” é apresentado como um projeto coletivo baseado na dignidade, autonomia e segurança da população negra.</p>



<p>A programação inclui falas políticas, intervenções artísticas e apresentações culturais. Às 15h, começam as falas e intervenções; às 15h45, ocorre a Batalha de MCs; às 16h30, apresentação do Maracatu Real da Várzea; às 17h15, Coco de Água Doce. A saída do ato está prevista para 17h30, com cortejo de batucadas. Às 18h, haverá intervenção com pintura no chão com a frase “Vidas Negras Importam”, seguida por intervenção com velas e performance de Cris Nascimento na Praça do Diário, às 18h30. O encerramento está marcado para as 19h.</p>



<p>Esta será a segunda edição da marcha após o Dia da Consciência Negra ter sido reconhecido como feriado nacional, por meio da Lei nº 14.759/2023. A data homenageia Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares, morto em 1695, símbolo de resistência e organização política do povo negro.</p>



<p></p>
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		<title>Depois de show com músicas críticas à PM, &#8220;laranjinhas&#8221; cercam e intimidam músicos e advogada no Rec&#8217;n&#8217;play</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Oct 2025 22:21:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[policia militar]]></category>
		<category><![CDATA[Rec'n'Play]]></category>
		<category><![CDATA[violência policial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Como a maldade é parte com a estrutura / na violência de polícias / onde a polícia mata mais um preto e faz da viatura câmara de gás&#8230;” Minutos depois de tocar versos como esses da música “Tá vivo é vitória” e descer do palco do Som da Rural no festival Rec’n’Play, o grupo de [&#8230;]</p>
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<p>“Como a maldade é parte com a estrutura / na violência de polícias / onde a polícia mata mais um preto e faz da viatura câmara de gás&#8230;”</p>



<p>Minutos depois de tocar versos como esses da música “Tá vivo é vitória” e descer do palco do Som da Rural no festival Rec’n’Play, o grupo de hip hop<a href="https://www.youtube.com/c/Sujist%C3%AAnciaSJTA"> Sujistência</a> foi cercado por policias militares. Eram 21h30min da quinta-feira (16) quando Apollo, Crexpo e Xéu Kelaino, os três músicos, chegaram ao Cais do Alfândega, onde pretendiam assistir ao show da banda Ave Sangria e foram abordados por um grupo de, pelo menos, oito “laranjinhas”, os novos policiais em treinamento.</p>



<p>Inicialmente, os artistas acharam que seria mais uma das muitas abordagens por que já passaram. “Mais um baculejo, pensei, sou preto, tô até acostumado, aí colaborei, fiquei logo de braços em cima da cabeça”, contou o vocalista Xéu. Não demorou para perceberem que aquilo não seria nada normal. No meio da multidão, os agentes acuaram Apollo e Xéu, abrindo suas pernas e revistando a região genital.</p>



<p>Apolo disse que estranhou para valer quando os “laranjinhas” quiseram saber, perguntando repetidamente “o que vocês estão fazendo aqui?”.</p>



<p>Estagiário do Ministério Público de Pernambuco e graduando em Direito, curso que deve concluir em dezembro, Apollo não se intimidou, dando uma resposta irônica que enfureceu os policiais: “Acho que está meio óbvio o que a gente está fazendo aqui”. A abordagem, então, ficou mais violenta, chamando a atenção de Jéssica Jansen, advogada, produtora cultural e integrante da produção geral do Rec’n’Play, que decidiu intervir.</p>



<p>Jéssica conta que tentou explicar que eles faziam parte da programação oficial do festival e que ela também era produtora deles, além de advogada do grupo.</p>





<p>“Quando eu disse isso, eles esqueceram os meninos e me cercaram”. Segundo ela, isso coincidiu com a chegada de reforços policiais. “Dez ou doze deles me isolaram do restante do nosso grupo, me intimidando dizendo que iriam me revistar, me abordar. Eu disse que eles não poderiam fazer nada daquilo, pois que eu tinha prerrogativas como advogada”, contou Jéssica. O problema é que os novatos, provavelmente, não sabiam o que significava a palavra prerrogativas, pois alguns deles teriam aberto o google para procurar, como é possível perceber em alguns dos vídeos que circulam nas redes sociais.</p>



<p>Uma segunda policial feminina, uma oficial. “A tenente se juntou aos demais gritando que eu não tinha direito porque não estava no exercício da profissão”. Apollo acredita que a oficial era a mais truculenta do destacamento da PM, dando ordens para levar Jéssica para a delegacia. </p>



<p>O fato da produtora ter apresentado a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e estar usando camisa da equipe do festival e crachá de produtora foi ignorado.</p>



<p>Nos vídeos é possível ver Jéssica pedindo ajuda por telefone e por um rádio <em>walkie-talkie,</em> quando o cerco se fecha sobre ela e uma policial feminina abre sua bolsa, tirando tudo o que havia dentro, além de arrancar o celular de suas mãos.</p>



<p>A confusão só terminou quando vários integrantes da equipe de produção do Rec’n’Play chegaram ao cais. Debaixo de vaias, os policiais saíram sem apresentar justificativas.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Sem paz</h2>



<p>“A gente não tem um minuto de paz com essa galera da PM, não adianta ter colaborado, ter ficado de boa, eles não querem nem saber”, desabafou Xéu Kelaino. Além de <em>rapper</em>, ele é operário da construção civil e estudante do curso técnico de Edificações. “O que a gente canta é o que a gente vive. Foi só descer do palco e aconteceu o que a gente tinha cantado”.</p>



<p>A julgar pela disposição de Jéssica Jansen, os policiais que conduziram a abordagem também não devem esperar por paz. O Porto Digital e a coordenação do festival Rec’n’Play estão oferecendo suporte psicológico e institucional à produtora, devendo tomar providências jurídicas ao longo dos próximos dias. “Fui completamente acolhida, o Rec’n’Play foi solidário e profissional”, contou. A equipe jurídica da vereadora Jô Cavalcanti (PSOL), que testemunhou parte do episódio e se colocou à disposição para ajudar, deverá representar a posição de Jéssica nas medidas jurídicas que serão decididas em reunião neste sábado. </p>



<p>A assessoria da imprensa da PM foi procurada pela Marco Zero, se limitando a pedir o envio dos vídeos que podem ser encontrados nas redes sociais, mas não responderam às seguintes questões:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>qual seria os versão dos responsáveis pela abordagem, caso a assessoria tenha essa informação.</li>
</ul>



<ul class="wp-block-list">
<li>há orientação do comando do policiamento para priorizar abordagens a homens jovens e negros, inclusive em grandes eventos de rua?</li>
</ul>



<ul class="wp-block-list">
<li>há orientação do comando do policiamento para abordar, confrontar ou intimidar artistas que mencionem a violência policiais em suas obras?</li>
</ul>



<p></p>





<p></p>
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		<title>Bacharéis de Direito condenados por racismo não poderão mais se inscrever na OAB</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 18 Jun 2025 17:41:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[advocacia]]></category>
		<category><![CDATA[OAB]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) aprovou, por unanimidade, uma súmula que proíbe a inscrição de pessoas condenadas por crime de racismo nos quadros da instituição. A medida foi oficializada na última segunda-feira, 16 de junho, durante sessão realizada na sede da OAB, em Brasília. A relatora da proposta foi a [&#8230;]</p>
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<p>O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) aprovou, por unanimidade, uma súmula que proíbe a inscrição de pessoas condenadas por crime de racismo nos quadros da instituição. A medida foi oficializada na última segunda-feira, 16 de junho, durante sessão realizada na sede da OAB, em Brasília.</p>



<p>A relatora da proposta foi a conselheira federal pernambucana Shynaide Mafra Holanda Maia. Durante a votação, ela ressaltou que &#8220;a prática de racismo é incompatível com a idoneidade moral exigida para o exercício da advocacia, conforme estabelece o Estatuto da Advocacia (Lei nº 8.906/94)&#8221;. Para a conselheira, a decisão representa um avanço significativo na defesa da ética, dos direitos fundamentais e da dignidade da profissão.</p>



<p>A nova súmula se soma a outras já editadas pelo Conselho Federal da OAB, que também tratam da inidoneidade moral. Entre elas estão a Súmula 9/2019, que veda a inscrição de condenados por violência contra a mulher; a Súmula 10/2019, relativa à violência contra crianças, adolescentes, idosos e pessoas com deficiência; e a Súmula 11/2019, que trata de violência contra pessoas LGBTI+.</p>



<p>A proposta da súmula foi apresentada pela seccional da OAB no Piauí, por meio do presidente Raimundo Júnior, do conselheiro federal Ian Cavalcante e da secretária-geral Noélia Sampaio. A fundamentação tem respaldo na jurisprudência consolidada do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que reconhecem a gravidade do crime de racismo e vedam, por exemplo, a possibilidade de acordos como o de não persecução penal nesses casos.</p>



<p>Durante a sessão, a OAB prestou homenagem a Esperança Garcia, mulher negra, piauiense, reconhecida como a primeira advogada do Brasil.</p>
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		<title>Mãe do menino Miguel organiza ato cinco anos após a tragédia para pedir justiça</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Jun 2025 13:50:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[caso miguel]]></category>
		<category><![CDATA[justiça]]></category>
		<category><![CDATA[Miguel Torres Gêmeas]]></category>
		<category><![CDATA[Mirtes Renata Santana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Uma vida inteira sem o meu filho”. Essa é uma frase repetida diversas vezes por Mirtes Renata, mãe do menino Miguel, e que traduz o maior sofrimento de sua vida. Nesta segunda-feira, 2 de junho, completam-se cinco anos do dia em que Miguel Otávio morreu após despencar do nono andar das Torres Gêmeas, no centro [&#8230;]</p>
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<p>“Uma vida inteira sem o meu filho”. Essa é uma frase repetida diversas vezes por Mirtes Renata, mãe do menino Miguel, e que traduz o maior sofrimento de sua vida. Nesta segunda-feira, 2 de junho, completam-se cinco anos do dia em que Miguel Otávio morreu após despencar do nono andar das Torres Gêmeas, no centro do Recife. Ainda na luta por justiça, Mirtes reúne forças para organizar o ato que marca a data e cobrar punição pela morte de seu único filho.</p>



<p>“Neste dia, o que invadiu minha vida não foi só a tragédia, foi a brutalidade do racismo, da desigualdade, da impunidade. Miguel não caiu. Miguel foi deixado cair. E quem cometeu esse crime uma mulher branca, rica, que deveria ter a empatia de cuidar do meu filho, porque me obrigou a trabalhar, segue livre, estudando Medicina, vivendo sua vida em paz, enquanto eu coleciono noites insones e passos firmes por justiça”, declarou Mirtes em uma postagem nas redes sociais convocando o público para participar do ato #JustiçaPorMiguel. </p>





<p>A manifestação, organizada pela família de Miguel e pela Articulação Negra de Pernambuco (Anepe), acontece em frente ao edifício Maurício de Nassau &#8211; uma das Torres Gêmeas onde ocorreu a tragédia -, próximo ao Cais Santa Rita, às 15h. Após a concentração no local, os manifestantes seguem em caminhada até o Tribunal de Justiça de Pernambuco. As organizadoras recomendam que o público vista trajes azuis ou brancos durante o ato.</p>



<p>“Se some à nossa dor. Se some à nossa memória. Se some à nossa luta. Compartilhe, fale sobre o caso Miguel, exija justiça onde você estiver. Porque a justiça que não chega nos mata aos poucos, e o silêncio é cúmplice da violência”, apelou a mãe de Miguel.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Relembre o caso </span>

		<p>Miguel Otávio Santana da Silva, de cinco anos, caiu do nono andar das Torres Gêmeas no dia 2 de junho de 2020. Na ocasião,a mãe de Miguel, Mirtes Renata Santana de Souza, trabalhava como doméstica na casa de Sari Corte Real, ex-primeira dama do município de Tamandaré. Enquanto Mirtes saiu para passear com o cachorro da patroa, por ordem da mesma, Sari ficou responsável por cuidar de Miguel. No entanto, a ex-patroa abandonou a criança sozinha no elevador.</p>
<p>Sozinho, Miguel chegou até o nono andar, de onde despencou. Na época, Sari chegou a ser presa em flagrante por homicídio culposo, mas foi solta após pagar a fiança de R$ 20 mil. Há três anos, em maio de 2022, a ex-primeira dama de Tamandaré foi condenada por abandono de incapaz e recebeu a pena de 8 anos e 6 meses de prisão em primeira instância.</p>
<p>A pena foi reduzida para sete anos, na segunda instância, mas até agora Sari Corte Real segue em liberdade. Enquanto a defesa de Sarí quer a absolvição da pena, a advogada de Mirtes espera que a pena máxima do crime seja aplicada e que ela tenha 12 anos de reclusão. O processo está sendo julgado pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE).</p>
	</div>
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		<item>
		<title>“Toda e qualquer pessoa pode e deve participar da construção da comunicação antirracista”, defende a escritora Midiã Noelle</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Apr 2025 20:30:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[mídia e comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[mídia e democracia]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Construção de sentido é comunicação”. Tendo a certeza dessa máxima, e a fim de fortalecer os estudos sobre a comunicação como um direito humano fundamental, a comunicadora e pesquisadora Midiã Noelle lançou o seu livro de estreia Comunicação Antirracista: um guia para se comunicar com todas as pessoas, em todos os lugares, publicado pela Editora [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>“Construção de sentido é comunicação”. Tendo a certeza dessa máxima, e a fim de fortalecer os estudos sobre a comunicação como um direito humano fundamental, a comunicadora e pesquisadora Midiã Noelle lançou o seu livro de estreia <em>Comunicação Antirracista: um guia para se comunicar com todas as pessoas, em todos os lugares</em>, publicado pela <a href="https://www.planetadelivros.com.br/livro-comunicacao-antirracista/413150" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Editora Planeta</a>.</p>



<p>Na obra, a jornalista baiana convida os leitores a refletir sobre o poder da comunicação na construção, desconstrução e reconstrução de um imaginário social que durante séculos desumanizou os corpos negros colocando-os em um lugar de vulnerabilidade constante. Com base em sua experiência pessoal e profissional, Midiã Noelle traz um olhar sensível sobre os processos comunicacionais e defende a importância da comunicação antirracista no cotidiano da população e em todos os âmbitos, não apenas no jornalismo, na publicidade ou redes sociais.</p>



<p>A comunicadora é fundadora do<a href="https://www.instagram.com/commbne/"> Instituto Commbne</a>, organização que fomenta a comunicação e a justiça racial com atuação em diversas áreas e especializada em temas como negritude, direitos humanos e justiça de gênero. Midiã também foi uma das responsáveis pela redação e implementação do Plano Nacional de Comunicação pela Igualdade Racial na Administração Pública Federal, contratada pela Unesco.</p>



<p>Em conversa com a Marco Zero, Midiã Noelle defendeu as estratégias antirracistas para promover uma sociedade mais justa e inclusiva. </p>



<p>Marco Zero<strong> &#8211; Tendo a comunicação antirracista como mote principal, o seu livro propõe uma comunicação para todas as pessoas e não apenas para pessoas negras. Como você enxerga o papel de todos os agentes da sociedade ao indicar estratégias para promover essa comunicação antirracista?</strong></p>



<p><strong>Midiã Noelle</strong> &#8211; Quando eu construí esse livro foi na lógica de que toda e qualquer pessoa tem que ter no seu ato de comunicar a obrigação do enfrentamento ao racismo. Independente dessa pessoa ser negra ou não negra, toda e qualquer pessoa deve falar contra o racismo. E é a comunicação, a construção da linguagem, a construção do sentido, a percepção mesmo da construção da comunicação no dia a dia que possibilita às pessoas o enfrentamento às iniquidades ou o reforço delas.<br><br>Então, a gente reconhece que toda e qualquer pessoa pode e deve participar da construção da comunicação antirracista. É isso que a própria Djamila Ribeiro reforça com o conceito de “lugar de fala”, um conceito que muitas vezes é utilizado de forma equivocada por pessoas que querem se isentar na participação de um debate sobre determinado tema, quando na verdade todo mundo tem, sim, seu lugar de fala nos debates. </p>



<p>O meu livro, que possui como título <em>Comunicação Antirracista, um guia para todas as pessoas em todos os lugares</em>, tem um recorte específico para que uma pessoa que é adolescente, estudante de ensino médio, em qualquer idade, consiga entender o que está escrito, justamente por ser um livro construído de uma forma dialogada. A obra vai sendo construída de uma forma cadenciada, que vem do legado familiar, passando por uma perspectiva histórica, política, e também do dia a dia, da nossa atuação enquanto ser humano, entendendo a comunicação como direito humano fundamental. Então, se a comunicação é direito humano fundamental, a gente tem que usar esse direito para promover outros direitos também, para enfrentar violências e desigualdades.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">Se a comunicação é direito humano fundamental, a gente tem que usar esse direito para promover outros direitos também, para enfrentar violências e desigualdades.</p>
</div>


<p><strong>O livro traz um olhar cuidadoso do cotidiano da população negra e acredito que isso vem muito do seu lugar de comunicadora negra que passou por experiências diversas ao longo da vida pessoal e profissional. Como isso é explorado no livro?</strong></p>



<p>O livro tem um recorte racial muito focado na perspectiva da população afro-brasileira, mas que traz também uma lógica da diáspora negra, da afro-diáspora, entendendo as consequências do processo de escravização de pessoas negras e trazendo esse olhar para outros países também. Eu sei que as realidades do Brasil se assemelham muito com o que acontece nos Estados Unidos, por exemplo, dentro dessa lógica de países de diáspora. Então, são situações que também impactam a vida de pessoas em todo o mundo.</p>



<p>Por isso, qualquer pessoa que ler esse livro vai conseguir também entender a importância de significar a humanidade no olhar da população global mesmo. A importância da gente reconstruir esse olhar, reconsiderando a população negra de fato humana, já que a gente, há pouco tempo atrás, quase 140 anos apenas, éramos tidos como objetos, coisas, e o imaginário construído ao longo de quase 400 anos do processo de escravização no mundo foi muito violento, e nos tirou do lugar do que é ser humano mesmo, das pessoas nos enxergarem como o sujeito de direito. Por isso, nós precisamos resgatar essa humanidade porque somos pessoas com nome, sobrenome, história, memória e sentido. Então, é um livro que eu quero que toque as pessoas, sabe?</p>



<p>É um livro que eu escrevo de uma forma para que todo mundo se identifique. Por isso que eu começo falando do meu pai e da minha família no livro, porque eu sou uma mulher hoje candomblecista, mas que eu venho de uma origem evangélica e eu quero que as pessoas se conectem e entendam que é possível praticar, ter práticas antirracistas no âmbito da comunicação em tudo que é feito. Meu pai tinha isso comigo sem saber. Minha família tinha isso comigo sem saber, porque nós éramos uma família negra do bairro da Liberdade, em Salvador, que é um dos territórios mais pretos que existem no mundo, com quase a toda sua totalidade composta por pessoas negras. </p>



<p>Salvador é o lugar mais preto, de fato, fora do continente africano. Então, eu coloco o Brasil nesse lugar, no contexto da afrodiáspora. E meus pais estavam me educando ali, naquele contexto. Quando eu via meu pai editar o filme, quando eu via meu pai tirar foto, quando eu via meus tios também serem fotógrafos, quando eu via meu tio que trabalhava com tecnologia também, tudo aquilo é construção de sentido, e construção de sentido é comunicação.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">Comunicação é estratégia, na verdade. Ela não é ferramenta, ela é estratégia e ela é o que, de fato, transforma o tempo. </p>
</div>


<p>As pessoas precisam tirar a comunicação desse lugar ferramental, de card, de texto, do noticioso, e entender que a comunicação é estratégia, na verdade. Ela não é ferramenta, ela é estratégia e ela é o que, de fato, transforma o tempo. Comunicação é o próprio tempo. Então, é a partir da comunicação que a gente consegue impactar as pessoas. Algumas pessoas dizem que esse livro é uma arma de enfrentamento ao racismo. Eu odeio isso, porque eu não gosto de armas, mas se for para ser armamentista, para defender direitos, eu, como uma boa filha de Ogum, estou pronta para a batalha.</p>



<p><strong>Por que é importante pensarmos a comunicação antirracista não apenas voltada aos profissionais da área, mas também para toda a sociedade? De que forma isso pode contribuir para a construção de um imaginário coletivo pautado no antirracismo?</strong></p>



<p>Eu costumo dizer que toda pessoa comunica. Nem todas as pessoas são profissionais de comunicação, mas toda pessoa comunica. Apesar de ser jornalista, diplomada e tudo mais, eu defendo também a comunicação que não é diplomada. Eu não posso me colocar em um lugar de superioridade a uma pessoa que é de uma comunicação periférica, de um território, de uma comunicação popular, que participa de uma mídia negra, de um espaço midiático, e que não tem um diploma na mão, mas que está ali também na construção do processo de sentido nessa guerra de narrativa para dar respeito ao seu espaço, ao seu território. Isso inclui também os influenciadores.</p>



<p>Claro que a gente precisa ter uma série de marcos, regulamentos, acompanhamento e um olhar enquanto política pública para todo mundo que está exercendo algum tipo de trabalho no âmbito da comunicação, mas entendendo também que não se deve censurar as pessoas. Quando eu falo na lógica de política pública é de combate à desinformação, de assegurar direitos aos defensores de direitos humanos no âmbito da comunicação, porque a gente sabe que pessoas defensoras de direitos humanos na comunicação sofrem muito em seus territórios, morrem também, são vítimas da violência fatal no dia a dia.</p>



<p>Entendo a comunicação como educação, porque a gente precisa entender os nossos direitos, quais são os marcos, quais são as nossas referências e quem veio antes da gente. Então, o processo do estudo em comunicação para mim é fundamental para as pessoas também saberem um pouco da memória e da história. Por exemplo, a gente tinha o Nego Bispo. O Nego Bispo, um homem quilombola, era um grande comunicador, ele era um escritor, um pensador, e quando ele falava em cosmovisão, ele falava sobre o além, sobre aquilo que não está palpável e tangível aos nossos olhos. E isso também é muito importante entender quando eu falo de comunicação, porque para mim comunicação é orixá, é exu e é o tempo. Por isso, a gente tem que despertar também aquelas pessoas que não são diplomadas, mas que estão fazendo uma transformação muito grande através da comunicação. Apesar de defender a importância do diploma, eu também defendo as pessoas que não têm diploma no reconhecimento da atuação do seu trabalho. Porém, isso requer cuidados.</p>



<p>Os influenciadores são extremamente fundamentais, mas também tem a necessidade desses influenciadores entenderem os espaços que eles ocupam. E, se eles ocupam esses espaços e trabalham de graça para esses espaços que são as plataformas digitais, também tem que fazer uma cobrança dessas <em>big techs </em>que estão aí cada vez mais atuando contra a diversidade. Então a gente precisa também trazer esse olhar para os influenciadores. Entender quem são essas pessoas, entender o que é o produto que eles constroem. E claro, todo mundo tem o direito de produzir o que for e o que quiser, mas se for no tom de violência, de desinformação, de cultura do ódio, aí de fato não pode ser permitido.</p>



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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Verena Baptista/Divulgação</span>
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<p><strong>Como você avalia o tratamento dado pela administração pública à comunicação antirracista, tanto no atual governo quanto ao longo da história do Brasil? Na sua opinião, o que ainda falta para que essa pauta ganhe mais força? </strong></p>



<p>Eu acho que a gente precisa ainda qualificar um outro olhar para a comunicação, que é o olhar da comunicação como direito. A gente sabe que nos últimos anos tivemos que lidar com a ausência de Conselhos, o não impulsionamento da realização de novos Conselhos de Comunicação, porque as pessoas não conseguem compreender que a comunicação é política, elas colocam a comunicação num lugar ainda muito do tarefeiro.</p>



<p>A gente não pode pensar, por exemplo, em educação midiática sem pensar em letramento digital e letramento racial. É uma triangulação, não tem como. Se a gente for falar que a educação midiática é importante  e, para mim, falar em educação midiática é falar em comunicação como um todo, a gente tem que falar que a educação midiática só vai ser de fato efetiva quando chegar nas escolas.</p>



<p>No que diz respeito a educação midiática, por exemplo, é necessário trazer uma política atrelada a discussão da perspectiva racial e fortalecer a implementação da lei 10.639, que é a lei da Escola da Cultura Afro-Brasileira e é muito importante, mas existe há mais de 20 anos e não foi devidamente implementada, e a partir da implementação dessa lei a gente pode pensar na comunicação antirracista, na construção desse imaginário antirracista dentro das escolas. </p>



<p>Por isso, é fundamental pensar a comunicação em outro lugar, é pensar no campo da tecnologia também, a gente sabendo que as plataformas digitais, as <em>big techs</em>, elas se disfarçam de empresas de tecnologia sendo empresas de comunicação, na verdade. </p>



<p><strong>Na sua visão, de que forma a comunicação antirracista deve ser construída no Brasil? O que você considera fundamental para que ela aconteça de maneira efetiva?</strong></p>



<p>Quando eu falo de comunicação na lógica antirracista, eu falo de uma lógica antirracista que seja antiproibicionista, antipunitivista e anticapacitista, porque a lógica do discurso das guerras às drogas, ela segue sendo muito forte no Brasil e naturalizando a violência contra pessoas negras, e não é a guerra às drogas, é a guerra contra as pessoas negras, atrelado a um histórico que vem do processo de desumanização dos nossos corpos. Então, se a gente não olha para a comunicação de uma maneira estratégica em todos os âmbitos do governo, não adianta, de fato.</p>



<p>E não só para o governo, fora dos espaços de governo também. O nosso movimento negro precisa respeitar e reconhecer a comunicação negra feita nesse país, não apenas como espaço noticioso, mas também como um grupo que faz política. As pessoas que trabalham no espaço de comunicação, elas não estão ali só para fazer o dia a dia, elas estão ali para pensar politicamente como fortalecer a pauta do enfrentamento ao racismo, do reconhecimento da dignidade humana das pessoas negras e da promoção de direitos na vida dessas pessoas. Então, a comunicação é revolução. E se a gente não tiver uma comunicação que entenda as questões raciais no Brasil e no mundo, a gente vai acabar reforçando as violências.</p>



<p>Durante muito tempo eu trabalhei com a população em situação de rua e assim eu entendi o tanto que o racismo pode ser cruel. E a rua, para mim, também é a construção de afeto, é a construção de respeito. A gente tem que pedir licença para ocupar a rua, porque tem coisas negativas, mas também coisas muito positivas do âmbito do cuidado. A rua é comunicação, é movimento. Mas as pessoas que vivem em situação de rua são invisibilizadas e violentadas constantemente. Então, quando falo do reconhecimento da humanidade do outro, eu estou falando desse tipo de pessoa, dessa população específica. Se a Simone de Beauvoir fala que a mulher é o outro do outro, e a Grada Kilomba fala que a mulher negra é o outro do outro do outro, eu diria que pessoas nesses cenários, nessa triangulação, que vivem em contextos de extrema vulnerabilidade, seja por conta do contexto da guerra às drogas, seja por conta do contexto capacitista, são o outro do outro do outro do outro.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">O nosso movimento negro precisa respeitar e reconhecer a comunicação negra feita nesse país.</p>
</div>


<p>É um lugar ainda não visto e que a gente precisa olhar, entender e evidenciar. Portanto, a comunicação antirracista ela precisa ser antipunitivista, antiproibicionista e anticapacitista para que a gente possa entender que o buraco é mais embaixo. E a população negra também precisa fazer uma autoreflexão sobre como ela pauta a comunicação, não só no movimento negro e no movimento feminista negro no Brasil, mas em todos os países da diáspora negra, sobretudo, aqueles que foram impactados pelo tráfico transatlântico durante a escravização. </p>



<p><strong>Como você acredita que pessoas negras e não negras podem contribuir, a partir de suas próprias realidades e lugares de fala, para a construção de uma sociedade antirracista?</strong></p>



<p>Essa coisa de nos colocar no lugar do outro, eu acho que isso é muito importante. Por exemplo, uma amiga branca recentemente falou pra mim que queria fazer algo sobre questões sociais, pesquisar pessoas negras e tal. Aí eu perguntei para ela “por que você não estuda você mesma, pessoa branca? Porque você também não se coloca nesse lugar de entender porque é uma necessidade de um estudo sobre o outro?”</p>



<p>Há uma lógica de normalidade, de normatização de que ser branco é o normal, e o ser negro é que tem que ser investigado, pesquisado. Nessa lógica do pacto narcisístico da branquitude, os brancos se colocam no lugar de superioridade.</p>



<p>Quando a gente se pauta, a gente se pauta também no entendimento de que algumas dores só a gente vai conseguir compreender na lógica do que a gente sente, então ninguém melhor do que a gente para falar e expor. Isso não invalida que outras pessoas falem, muito pelo contrário, todo mundo pode pesquisar e falar sobre qualquer tema e aí, por exemplo, essa coisa do identitarismo para mim ela é muito fraca porque a vida ela se intersecciona por mais que a gente não queira.<br><br>Então, pessoas brancas podem ser pessoas brancas que são LGBTs e essas interseções vão trazer para elas discursos que vão ser feitos a partir das suas realidades. Por isso não existe a possibilidade de um identitarismo real, é uma lógica que não faz sentido, porque o mundo é interseccional, ele acontece no âmbito da diversidade. Pessoas brancas não são simplesmente pessoas brancas, sempre vai ter uma pessoa branca que tem uma origem latina, estrangeira, sempre vai ter uma mulher, e por mais que seja uma mulher, pode não atender a uma lógica heteronormativa. Então assim, as pautas se misturam.</p>



<p>Por isso eu acho que a gente precisa entender que a comunicação é fundamental para desconstruir, construir e reconstruir sentidos, porque tudo é muito mutável no dia a dia e as pessoas têm suas dinâmicas culturais, territoriais e etc. Mas a gente não pode perder o nosso direcionamento que é o da produção de direitos às pessoas, a garantia da declaração universal dos Direitos Humanos para todas as pessoas em todos os lugares, então, eu tento construir uma contranarrativa a partir daquilo que tem sentido, e convido os leitores do meu livro a fazer o mesmo. </p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/toda-e-qualquer-pessoa-pode-e-deve-participar-da-construcao-da-comunicacao-antirracista-defende-a-escritora-midia-noelle/">“Toda e qualquer pessoa pode e deve participar da construção da comunicação antirracista”, defende a escritora Midiã Noelle</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Oficina Nacional debate estratégias de comunicação para a saúde da população negra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Jan 2025 19:31:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[FioCruz]]></category>
		<category><![CDATA[ministério da saúde]]></category>
		<category><![CDATA[população negra]]></category>
		<category><![CDATA[saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Marco Zero Conteúdo esteve presente na Oficina Nacional de Comunicação para o Fortalecimento da Saúde da População Negra, evento promovido pelo Ministério da Saúde e pela Fiocruz que aconteceu nos dias 22 e 23 de janeiro, em Brasília. A oficina reuniu comunicadores de todo o Brasil para debater estratégias que contribuam para o avanço [&#8230;]</p>
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<p>A Marco Zero Conteúdo esteve presente na Oficina Nacional de Comunicação para o Fortalecimento da Saúde da População Negra, evento promovido pelo Ministério da Saúde e pela Fiocruz que aconteceu nos dias 22 e 23 de janeiro, em Brasília. A oficina reuniu comunicadores de todo o Brasil para debater estratégias que contribuam para o avanço da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. A repórter Giovanna Carneiro, mestre em Comunicação pela UFPE, representou a MZ na atividade.</p>



<p>Essa política, instituída há 16 anos, tem como objetivo reduzir as desigualdades étnico-raciais e combater o racismo institucional no Sistema Único de Saúde (SUS). Apesar da sua relevância, apenas 371 dos 5.570 municípios brasileiros aderiram à iniciativa e possuem estruturas para coordenar ações específicas voltadas à população negra, segundo dados do Ministério da Saúde.</p>



<p>Durante a oficina, foram discutidos caminhos para ampliar o alcance e a efetividade da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Um dos principais resultados do evento foi a criação de um Grupo de Trabalho, que irá apoiar a construção de um plano de ação para fortalecer as pautas prioritárias na saúde da população negra.</p>



<p>A Marco Zero Conteúdo se soma a essa mobilização, reconhecendo o papel essencial da comunicação para dar visibilidade à luta contra o racismo e para promover o direito à saúde de forma mais equitativa e inclusiva.</p>
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		<title>Harvard vai devolver crânio de líder de revolta muçulmana na Bahia roubado há 190 anos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Jan 2025 21:01:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[25 de janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[crânio]]></category>
		<category><![CDATA[escravidão]]></category>
		<category><![CDATA[Harvard]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Assíria Florêncio O crânio de um homem muçulmano roubado há 190 anos em Salvador (BA) por um diplomata americano, logo após o Levante dos Malês, em 1835, poderá ser devolvido ao Brasil ainda neste ano. O crânio faz parte da coleção do Peabody Museum da Universidade de Harvard há quase dois séculos. O Ministério [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Assíria Florêncio</strong></p>



<p>O crânio de um homem muçulmano roubado há 190 anos em Salvador (BA) por um diplomata americano, logo após o Levante dos Malês, em 1835, poderá ser devolvido ao Brasil ainda neste ano. O crânio faz parte da coleção do <a href="https://peabody.harvard.edu/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Peabody Museum</a> da Universidade de Harvard há quase dois séculos. O Ministério das Relações Exteriores (MRE) admite já estar em “tratativas” com a instituição de ensino para “estabelecer os trâmites da devolução e destinação final dos restos mortais” do homem iorubá que lutou e foi morto numas das insurreições escravas mais importantes da história das Américas.</p>



<p>O retorno do crânio é pleiteado pelo Centro Cultural Islâmico da Bahia (CCIB) desde 2022, quando sua existência foi descoberta. Com a entrada do Itamaraty nas negociações, em novembro do ano passado, pesquisadores envolvidos no processo acreditam que a presença de um representante do Estado brasileiro no grupo de trabalho que pede a devolução trará celeridade às negociações. Esse será o primeiro repatriamento do tipo feito ao Brasil, que, caso ocorra ainda em 2025, fará parte das celebrações dos 190 anos do <a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-01/revolta-dos-males-190-anos-da-maior-rebeliao-escrava-urbana-do-brasil" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Levante dos Malês</a>, que começam neste sábado, 25 de janeiro.</p>



<p>A devolução se somará a outras recentes, como a do <a href="https://arqueologiapelomundo.com.br/devolucao-de-manto-tupinamba-artefato-sagrado-retorna-ao-brasil-apos-seculos-no-exterior" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Manto Tupinambá</a>, devolvido ao Brasil em julho do ano passado, após mais de 300 anos exposto no Museu Nacional da Dinamarca. E também, a do fóssil do dinossauro <em>Ubirajara jubatus</em>, restituído ao País em junho de 2023 depois de ser contrabandeado para o Museu Estadual de História Natural Karlsruhe, na Alemanha, nos anos 1990.</p>



<p>A repatriação fica mais próxima de acontecer devido à formalização do GT Arakunrin, que quer dizer “irmão, companheiro” em iorubá. É a palavra utilizada pelo Sheikh Abdul Ahmad, também iorubá e líder espiritual da comunidade muçulmana na Bahia, para referir-se ao irmão muçulmano morto no Levante de 1835.</p>



<p>Mas o imbróglio realmente ficou mais perto de uma conclusão devido à presença do Itamaraty nas negociações, coisa que João José Reis, uma das principais referências do País quando o tema é a revolta dos Malês e responsável por trazer à tona o assunto no Brasil. considera uma “arrogância” da instituição de ensino norte-americana. “Agora são dois governos que estão dialogando: o &#8216;governo&#8217; de Harvard e o governo brasileiro”, ironiza, criticando a demora para a devolução.</p>



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	                                        <p class="m-0">Levante dos Malês foi uma revolta urbana, muçulmana e muito bem documentada
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Harper&#8217;s Weekly/Arquivo</span>
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                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">A descoberta</h2>



<p>A existência do crânio foi revelada pela primeira vez no livro <em>Masters of the Health: Racial Science and Slavery in U.S. Medical Schools (Mestres da Saúde: a ciência racial e a escravidão na medicina dos EUA, </em>em tradução livre<em>)</em>, do historiador Christopher Willoughby. “Cheguei a ele através de uma reportagem do The Harvard Crimson, o jornal produzido pelos estudantes da universidade”, relembra o professor Reis. </p>



<p>A matéria apresentava a “coleção de horrores do Peabody Museum”, adjetiva o professor, formada pelos restos humanos de 19 indivíduos provavelmente escravizados no Brasil e no Caribe, além de outros quase sete mil nativos americanos. “Tinha essa história de que um crânio, que teria sido de um líder do Levante dos Malês, fora roubado do Brasil. Esse homem teria morrido numa espécie de convento que na época também servia de enfermaria”, continua.</p>



<p>O motivo do contrabando do crânio para fora do País pode ser explicado pelo contexto histórico da época: a medicina ocidental utilizava restos mortais para promover ideais racistas da existência de hierarquias nas estruturas sociais, como conta o livro e também um relatório de Harvard sobre o assunto.</p>



<p>Pesquisadores do GT Arakunrin — Grupo de Trabalho para o Repatriamento do Crânio Malê ainda se debruçam para descobrir as condições do transporte e do acondicionamento do crânio do Brasil para os Estados Unidos, mas já afirmam, com certeza, que foi roubado do País por um diplomata americano.</p>



<p>Entregue ao museu de Harvard por um colecionador de Boston, o crânio foi levado para fora do Brasil por Gideon Theodore Snow, que além de um comerciante, foi vice-cônsul em Alagoas e, posteriormente, já na década de 1840, cônsul em Pernambuco.</p>



<p>“Consultando jornais e documentos do Brasil e dos Estados Unidos, descobri que Snow não era apenas um comerciante, um aventureiro, mas sim que era um agente do Estado americano. O que eu acho que adiciona uma outra camada nesta questão: estamos falando de um diplomata, roubando um crânio de um indivíduo africano dentro do Brasil e levando para outro país”, dispara Bruno Rafael Véras, historiador e professor contratado da Universidade de Toronto, no Canadá.</p>



<p>Véras dimensiona o status de Snow relacionando à posição que angariou logo depois de cônsul de Pernambuco. “Era um cargo extremamente importante para uma representação diplomática dentro do Brasil. A cidade do Recife era crucial para o escoamento de açúcar” — produto com o qual Gideon trabalhava.</p>



<p>Prova disso são as viagens que fazia para a abertura de companhias de comércio em Alagoas, Pernambuco e Bahia. Documentos apontam que “em 1835, ele estava em Salvador, que foi onde conseguiu esse crânio”, completa.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">O crânio</span>

		<p>Quando o crânio chegar ao Brasil, antes de ser enterrado conforme os rituais fúnebres muçulmanos, a intenção do GT é estudá-lo para determinar a idade aproximada do homem morto, o que dará uma dimensão sobre o perfil dos participantes do Levante dos Malês. “Mais elementos para se pensar a história”, explica Bruno Véras.</p>
<p>A realização de um teste de DNA também é prevista. Entender a genética, argumenta o professor, pode informar mais sobre as questões étnicas dos participantes do movimento. Além disso, um escaneamento 3D do crânio para se descobrir o rosto do Arakunrin, que encontrará descanso após quase duzentos anos de espera.</p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">O islã na Bahia</h3>



<p>O CCIB pede pelo crânio há dois anos. Hannah Bellini, doutora em cultura e sociedade e pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) explica que o movimento de retorno não deixa de ser uma reparação histórica “justamente por conta das circunstâncias do desaparecimento dessa tradição”.</p>



<p>“Em 1835, de 15% a 20% dos africanos na Bahia, em Salvador, eram islamizados. A partir do levante, a gente vai pra quase um desaparecimento dessa comunidade. Fomos de minoria considerável a um apagamento dessa tradição”, continua.</p>



<p>Para Hannah, é impossível não fazer uma relação do protagonismo que a comunidade islâmica teve nas revoluções escravas com o processo de criminalização da matriz religiosa e posterior “desaparecimento”. O retorno do crânio é uma “forma de trazer essa identidade, essa matriz religiosa de volta para nosso espaço público de memória”.</p>



<p>O Levante dos Malês reconfigurou a organização da sociedade da Bahia daquela época. De religião publicamente praticada por aqueles em diáspora, que se manifestava tanto pela confecção de roupas ou por realização de orações em voz alta, passou a ser duramente reprimida — principalmente, devido à alfabetização em árabe daqueles que se convertiam ao islamismo.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/01/cranio-male-3-711x1024.jpg" alt="Fragmento de papel amarelado,. envelhecido, com inscrições em árabe que dizem Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso Não abrimos para você o seu peito E não aliviamos de você o seu fardo Que pesou sobre suas costas E elevamos a sua lembrança. Este é o início da Surata Ash-Sharh (A Abertura) do Alcorão." class="" loading="lazy" width="538">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Livro encontrado no bolso de homem morto durante a insurreição
</p>
	                
                                            <span>Foto: Reprodução/Bibliotheque Municipale du Havre</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Malê, vem de ‘imalê’, que significa muçulmano em iorubá. Estima-se que 600 pessoas participaram da revolta entre os dias 24 e 25 de janeiro de 1835, sofrendo uma violenta repressão, sendo rapidamente julgados e penalizados, o que produziu um grande volume de documentos sobre as condições do Levante, o que era incomum para o período, como detalha João Reis.</p>



<p>“O Levante dos Malês é único porque foi urbano, muçulmano e altamente documentado. Em 1870, ainda eram feitos pedido de perdão ao imperador pela participação naquela revolta que não foi só de escravizados, mas também de libertos.”</p>



<p></p>



<p></p>
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		<title>Em Cruz da Menina, o autorreconhecimento começa na primeira infância</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Dec 2024 20:45:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[comunidades quilombolas]]></category>
		<category><![CDATA[Dona Inês]]></category>
		<category><![CDATA[Primeira Infância]]></category>
		<category><![CDATA[Programa Criança Feliz]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Toda quinta-feira, as irmãs Rebeca e Radassah têm um compromisso que aguardam com ansiedade a semana toda. É nesse dia que as duas meninas da comunidade quilombola de Cruz da Menina encontram Raquel Oliveira, visitadora do Programa Criança Feliz no município de Dona Inês (PB). Radassah e Rebeca, que têm um e dois anos respectivamente, estão entre as 15 crianças da comunidade atendidas pelo programa do Governo Federal voltado para a primeira infância. “Elas mandam áudio perguntando se vou. Muitas vezes ficam esperando na janela. Quando eu chego, elas correm dizendo: ‘Kel chegou, Kel chegou’.”</p>



<p>Esse vínculo afetivo criado entre as meninas e a visitadora, construído ao longo de meses de contatos, é fundamental para o sucesso do programa. A alegria das meninas também vem do fato de que, durante os encontros que duram, em média, 40 minutos, mãe e filhas aprendem de forma lúdica, fazendo tudo parecer uma grande brincadeira. “A visitadora vem uma vez na semana acompanhar as meninas e traz várias atividades. Sempre utiliza coisas domésticas: tampinha de garrafa, pregadores de roupa&#8230; é um acompanhamento muito bom no desenvolvimento da coordenação motora da criança. Para mim, é um excelente trabalho”, define Eliete Pereira Frazão, mãe de Rebeca e Radassah.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><b>Criança Feliz</b> é um programa do governo federal, com ações realizadas pelos municípios de forma articulada com os serviços socioassistenciais, via Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e com as demais políticas públicas setoriais. Por meio de visitas domiciliares às famílias participantes do Cadastro Único, as equipes do Criança Feliz fazem o acompanhamento e dão orientações importantes para fortalecer os vínculos familiares e comunitários, além de estimular o desenvolvimento infantil.</p>
<p>Quem pode participar:</p>
<p>• Gestantes, crianças de até três anos e suas famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família;<br />
• Crianças de até seis anos beneficiárias do Benefício de Prestação Continuada e suas famílias;<br />
• Crianças de até seis anos afastadas do convívio familiar em razão da aplicação de medida de proteção prevista no art. 101 da Lei nº 8.609, de 13 de julho de 1990, e suas famílias.</p>
        </div>
    </div>



<p>O Criança Feliz, que funciona desde 2017 em Dona Inês, tem sido uma ferramenta importante para que a cidade apresente bons indicadores relacionados à primeira infância, culminando com o recebimento, em 2024, do<a href="https://www.selounicef.org.br/"> Selo Unicef</a>. Mas em Cruz da Menina, o programa vai além. Durante os encontros, enquanto repassam todo conteúdo comum, as visitadoras também buscam fortalecer os vínculos das crianças com a comunidade a partir de um trabalho de valorização da história local, desenvolvendo um sentimento de pertencimento com o lugar onde moram.</p>



<p>Para isso, as visitadoras recebem formação, direcionamento e capacitação específica para o atendimento à comunidade quilombola. “Elas são preparadas para respeitar, acima de qualquer coisa, a história da própria comunidade. O olhar precisa e deve ser diante da realidade do chão do território”, explica Maria Rejane da Silva Araújo, coordenadora do Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) do município.</p>



<p>A formação para os trabalhadores que atuam diretamente na comunidade está dentro do plano de ação da assistência social do município. Em 2024, duas visitadoras dividiram o atendimento em Cruz da Menina. Além de Raquel, que atende a três famílias semanalmente, Paula Clementina da Silva atende a outras seis.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Desenvolvimento mais rápido</strong></h2>



<p>Eliete tem outras duas filhas mais velhas, Rúbia (10 anos) e Raíssa (6 anos). Por conta da idade, elas não tiveram oportunidade de entrar no programa. “Quando eu fui lá no CRAS atualizar meu Cadastro Único me falaram sobre esse programa. Aí eu me cadastrei ainda grávida de Rebeca. Eu achei muito bom esse acompanhamento” lembra Eliete.</p>



<p>Assim, comparando as situações distintas vividas na criação das filhas, a mãe pôde perceber a vantagem do acompanhamento semanal feito pelo programa. “O desenvolvimento é mais rápido. Porque quando a pessoa é mãe, é uma correria, né? No dia a dia, você não tem muito tempo para fazer isso ou aquilo. E essa visita, uma vez na semana, ajuda bastante o desenvolvimento delas”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Eliete Pereira Frazão e suas filhas. Elas estão sendo acompanhadas pelo Programa Criança Feliz. Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	

    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><b>P</b><b>rimeira infância </b>é o período que abrange os primeiros seis anos completos ou 72 meses de vida da criança. São nos primeiros anos de vida que ocorrem o amadurecimento do cérebro, a aquisição dos movimentos, o desenvolvimento da capacidade de aprendizado, além da iniciação social e afetiva.</p>
        </div>
    </div>



<p>Já Rafaela Henrique dos Santos, que tem 32 anos e mora na comunidade desde que nasceu, entrou no programa apenas em 2024, antes de ter a primeira filha. Quando conversou com a reportagem, estava com nove meses de gestação, só esperando a hora de ir para a maternidade. “Eu conheci o Criança Feliz através da minha irmã, que tinha colocado a minha sobrinha no programa. Aí, quando eu descobri que estava grávida, quis entrar logo. A visitadora está me visitando até hoje. E vai me visitar por muito tempo”.</p>



<p>Ela conta que durante as visitas aprendeu muito sobre a gestação. Nos últimos meses também participou de palestras com a enfermeira, que orientou sobre os primeiros cuidados com o bebê. “E teve com a nutricionista, que falou da importância dos alimentos. De como se alimentar bem ajuda no bom crescimento do feto e na boa gestação como um todo”.</p>



<p>Atenta ao trabalho feito pelas visitadoras com as crianças da comunidade, Rafaela aponta outra questão importante do programa. “Às vezes, a mãe não percebe que o filho tem alguma deficiência. Mas as visitadoras percebem logo e já encaminham as crianças para serem acompanhadas por especialistas”.</p>



<p>Rafaela demonstrou estar muito satisfeita com o atendimento que ela, e também a sobrinha, vem recebendo do programa. Em tom de brincadeira, fez apenas uma reclamação: “São só três anos. Era para ser mais tempo&#8230;”</p>



<h2 class="wp-block-heading">“<strong>C</strong><strong>omo estou linda”</strong></h2>



<p>Quem entra na Escola Municipal Educador Paulo Freire, em Cruz da Menina, tem sua imagem refletida em um espelho fixado de frente para a entrada principal da instituição, que faz parte da rede de ensino municipal. Mais do que uma questão estética, o espelho foi colocado ali com o objetivo de despertar, por meio da aceitação da cor da pele e do cabelo, o sentimento de pertencimento e vínculo com a história de luta da comunidade.</p>



<p>“Uma das coisas que a gente trabalha muito forte aqui dentro da comunidade é a escola. Então, a gente pensou em colocar um espelho na entrada para que todas as vezes que as crianças chegassem, elas se vissem”, explica Bianca Quilombola, presidente da associação local. Bianca, que tem 41 anos, lembra que faz parte de uma geração que tinha dificuldade de se aceitar como negra e, muito por conta de sua história de vida, reconhece a importância do sentimento de pertencimento na conquista de direitos por parte da comunidade.</p>



<p>Por isso, ela fica feliz com a postura das crianças diante do espelho da escola. “Todas elas dizem: ‘como estou linda, estou bonita, sou linda’. Todas com cabelo solto, <em>black</em>, cabelo trançado, que muitas de nós não usávamos. Hoje nós podemos dizer que nossas crianças têm já esse sentimento de pertencimento, aceitação, esse sentimento que muitos dos nossos mais velhos não têm”.</p>



<p>Fernanda de Araújo Oliveira, no artigo <em>Bianca Cristina e o Quilombo Cruz da Menina: Trajetória e Resistência Comunitária em Dona Inês/PB (1994-2016)</em> observou que o autorreconhecimento é um processo difícil e doloroso, “pois envolve diretamente assumir uma identidade negra que foi posta historicamente na marginalização”.</p>



<p>Rafaela Santos, que além de participar do Criança Feliz ocupa a vice-presidência da associação de moradores, também teve um processo difícil de aceitação. “Eu sempre queria alisar o cabelo. Pagava caro e, no outro dia, caia. O cabelo não aguentava a química, aí eu desisti de fazer isso. Deixei meu cabelo natural, acho que faz mais de 10 anos que eu alisei meu cabelo pela última vez. E ele está natural e eu acho ele lindo assim, do jeito que ele é”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Rafaela Henrique dos Santos participa do Programa Criança Feliz, que acompanha gestantes e posteriormente criança até os três anos. Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Experiência parecida foi vivida por Bianca Quilombola. “Eu mesma vim me libertar da progressiva, que é a questão de alisar cabelo para agradar os outros, em 2017. Então, de 2017 para cá, eu não sei o que é colocar um alisante no cabelo, não sei o que é colocar uma escova a mais”.</p>



<p>Para Bianca, as coisas estão mudando para melhor. “Hoje, se você chegar na comunidade, você vai ver a diferença das crianças. Agora, as nossas crianças se aceitam como são. Você chega na casa, elas estão com o cabelo cacheadão, cabelo solto, esvoaçado”.</p>



<p>Rafaela lembra que a mudança também se materializa na forma das crianças se comportarem e se relacionarem. “Existiam algumas brincadeiras que hoje a gente não pode deixar existir mais. Na época, a gente não sabia, só que agora a gente tem o conhecimento. A gente sabe e repassa para as outras crianças que estão vindo, as criancinhas pequenininhas, para que elas não reproduzam e não sofram aqueles <em>bullying</em> que a gente sofria, mas não entendia”.</p>



<p>Um ponto de inflexão na forma como a comunidade passou a se aceitar e desenvolver um sentimento de pertencimento com o território onde vivem foi quando recebeu a certidão de autodefinição como comunidade remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares, em de 12 de março de 2008.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>História de geração para geração</strong></h2>



<p>A comunidade de Cruz da Menina nasce de um processo territorial singular, que é contado de geração para geração, tendo muitas versões sobre os fatos que começaram a ocorrer em 1877. O curioso é que tem origem em um episódio de nítida violação de direitos da primeira infância, quando um fazendeiro poderoso negou água e comida para uma garotinha que fugia, com os pais, da grande seca que castigava a região. Conheça a história no vídeo abaixo:</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="ratio ratio-16x9"><iframe title="CRUZ DA MENINA" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/h28UhHo4ADs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
</div></figure>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>O <b>município de Dona Inês </b>está localizado no brejo paraibano (a 153 km de João Pessoa), com uma população de 10.380 pessoas (Censo 2022). A comunidade quilombola de Cruz da Menina está na Zona Rural do município, a aproximadamente dois quilômetros do centro da cidade. Atualmente, 110 famílias moram no território quilombola.</p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Infância antes e hoje</strong></h2>



<p>As mudanças que acontecem em Cruz da Menina também têm impactado positivamente na primeira infância. Na comunidade, todas as crianças com idade escolar frequentam as aulas e estão com a carteira de vacinação em dia. “Você vê muita diferença. A minha infância foi cuidar das minhas irmãs. Aos quatro anos, minha mãe saía para trabalhar na roça e me deixava em casa cuidando das minhas outras duas irmãs. A gente tinha aquela obrigação de ter que pegar lenha, pegar água. A gente não teve infância livre, porque a gente tinha que, de alguma forma, ajudar”, compara Bicanca Quilombola.</p>



<p>Mas a melhora da qualidade de vida também se torna visível nas questões materiais. “Minha mãe, minha avó, minha bisavó, lá atrás, não tinham uma casa decente. Eram casas cobertas só com palha e só o chão batido. O fogo era a lenha e não existia luz elétrica. Luz elétrica aqui foi só a partir dos anos 1990”, lembra Bianca.</p>



<p>Para ela, hoje a vida das pessoas da comunidade melhorou bastante, o que se reflete diretamente no desenvolvimento das crianças pequenas. A gente tem luz, bujão de gás, geladeira, ventilador, micro-ondas. A gente tem internet e uma escola dentro da comunidade. A gente tem a casa decente, as famílias, todas elas têm suas casas de alvenaria, cobertinha de telha, tem seu banheiro decente. E isso, para nós, é muita evolução, comparado com o que nós não tínhamos lá atrás”.</p>



<p>Claro que a comunidade ainda enfrenta muitos problemas, parte deles na área da saúde e que afetam diretamente a primeira infância. “Nós até temos posto de saúde, porém, não dentro do território. Fica um pouquinho distante e não atende só Cruz da Menina. A gente recebe atendimento, mas um atendimento junto com outros setores. Não é um posto de saúde direcionado para o quilombo”, lamenta Bianca.</p>



<p>Segundo ela, o ideal seria ter um acompanhamento direcionado para as famílias quilombolas. “Porque a gente tem problemas específicos. Temos, por exemplo, muita questão de hipertensão dentro da comunidade. Para a gente ter um atendimento, a gente tem que sair entre 3h e 4h da manhã para pegar uma ficha. Aí, se não pegar, vai ter que ir outro dia”.</p>



<p>Mesmo assim, as mudanças conquistadas fazem Rafaela pensar em um futuro muito melhor para a filha. “Vai ser diferente, né? Porque a realidade é totalmente diferente de quando eu nasci. Vou tentar passar um pouco para ela do que a minha mãe ensinou. Mostrar para ela o que é certo e o que é errado”.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><em>Este conteúdo faz parte de uma parceria da Alma Preta com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para a produção de reportagens sobre a primeira infância.</em></p>
    </div>
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