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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Barqueata percorre o Recife em defesa do aborto legal e seguro e dos direitos sexuais e reprodutivos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Sep 2026 21:14:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em alusão ao Dia Latino-Americano e Caribenho de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto, celebrado em 28 de setembro, uma barqueata percorreu as águas do Rio Capibaribe, no Recife, para chamar a atenção para a garantia do aborto legal e seguro, a proteção de meninas e mulheres vítimas de violência sexual e os direitos [&#8230;]</p>
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<p>Em alusão ao Dia Latino-Americano e Caribenho de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto, celebrado em 28 de setembro, uma barqueata percorreu as águas do Rio Capibaribe, no Recife, para chamar a atenção para a garantia do aborto legal e seguro, a proteção de meninas e mulheres vítimas de violência sexual e os direitos sexuais e reprodutivos. A ação foi promovida pela ONG Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero, em parceira com a Frente Pernambuco pela Legalização e Descriminalização do Aborto, da qual é integrante, com apoio da Caranguejo Uçá e da Ciranda de Mulheres.</p>



<p>Com oito barcos conduzidos por mulheres pescadoras, faixas temáticas e bandeiras verdes, a mobilização saiu da Ilha de Deus, passou pelo Marco Zero e chegou à Ponte Duarte Coelho, onde permaneceu até o fim da tarde, impactando o cotidiano da cidade e quem passava pelo local com frases como “criança não é mãe”, “educação sexual para decidir”, “aborto legal para não morrer”, “aborto legal é saúde pública” e “gravidez forçada é tortura”.</p>



<p>A ação acontece em meio a um cenário de persistência da violência sexual no país. Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado no primeiro semestre deste ano, mostram que três em cada quatro vítimas de estupro e estupro de vulnerável registradas no Brasil eram crianças ou adolescentes, sendo que 60,3% tinham até 13 anos.</p>



<p>O aborto no país é previsto em lei em casos de gravidez decorrente de estupro, risco de vida para a pessoa gestante e anencefalia fetal. Mas os desafios para garantir atendimento nessas situações ainda é grande no país, incluindo barreiras de poucos serviços disponíveis, longos deslocamentos e exigências ilegais, como a apresentação de boletim de ocorrência para realizar o procedimento. A criminalização também permanece como realidade.</p>





<p>Por outro lado, uma pesquisa inédita do Ipsos-Ipec, em parceria com o Instituto Patrícia Galvão, com a campanha Criança Não é Mãe, mostrou, neste mês de setembro, que 64% da população brasileira defendem que uma menina com menos de 14 anos grávida por estupro possa escolher interromper a gestação de forma legal e segura em hospital público. Apenas 16% são contra.</p>



<p>“O aborto legal e seguro é um direito de todas as pessoas que gestam e garanti-lo é dever do Estado. É uma questão de saúde pública, de justiça social e, muitas vezes, de vida ou morte. Enquanto houver criminalização, barreiras, exigências ilegais e serviços insuficientes, seguirão morrendo, sobretudo, as mulheres pobres, negras e periféricas. Decidir sobre o próprio corpo é um direito e ninguém deveria ter de se submeter a uma gravidez forçada”, avalia Juliana Cesar, coordenadora de Articulação Política, Relações Internacionais e Comunicação da Gestos.</p>
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		<title>O trauma de passar pelo setor de traumatologia do Hospital Otávio de Freitas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Aug 2026 14:19:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Governo de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[hospital Otávio de Freitas]]></category>
		<category><![CDATA[saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Isis recebeu alta, mas sua vida jamais será a mesma. Após quebrar o braço em um acidente de moto voltando de Carpina, na Zona da Mata Norte, para o Recife, Isis François, de 26 anos, tem vivido situações que não deseja a ninguém. O acidente aconteceu em setembro e, após passar por diferentes hospitais, 24 [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Isis recebeu alta, mas sua vida jamais será a mesma. Após quebrar o braço em um acidente de moto voltando de Carpina, na Zona da Mata Norte, para o Recife, Isis François, de 26 anos, tem vivido situações que não deseja a ninguém. O acidente aconteceu em setembro e, após passar por diferentes hospitais, 24 horas depois ela foi parar no Hospital Otávio de Freitas (HOF), na zona oeste do Recife, onde chegou com o ferimento já infeccionado. Por isso, passou um mês internada até ter condições de passar pela cirurgia.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:32% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="576" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/HOF-3-576x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-76450 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/HOF-3-576x1024.jpeg 576w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/HOF-3-169x300.jpeg 169w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/HOF-3-768x1365.jpeg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/HOF-3-864x1536.jpeg 864w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/HOF-3-150x267.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/HOF-3.jpeg 900w" sizes="(max-width: 576px) 100vw, 576px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>O Hospital Otávio de Freitas é uma referência no atendimento a esse tipo de ferimento. Lá, de janeiro de 2025 a julho de 2026, foram realizadas 2.683 cirurgias de traumato-ortopedia. Dessas, 1.747, o que equivale a 65,1% do total, foram realizadas pelo plantão de emergência. O total de cirurgias representa, aproximadamente, 1/3 (um terço) de todos os procedimentos desse tipo realizados nos hospitais da rede estadual.</p>
</div></div>



<p>Quando imaginava que teria apenas de se cuidar durante o pós-operatório para garantir uma boa recuperação, tudo desandou para Isis. Logo após receber alta pela primeira vez, já começou a se sentir mal. Na consulta retorno da cirurgia, 15 dias depois, percebeu um ponto inflamado e questionou o médico, que disse ser normal.</p>



<p>“Foi criando como se fosse uma queloide. Aí as pessoas que viam diziam que queloide não ficava assim, porque inchava e desinchava. Depois de eu ficar correndo atrás, no pé, o médico passou um antibiótico e chegou um tempo que ela secou. E eu dizendo que aquilo não era normal. No que secou, depois fazendo as fisioterapias, apareceu uma bolinha longe da cicatriz como se fosse um furo de agulha de onde saia secreção”, conta.</p>



<p>Sempre que tinha oportunidade questionava o médico sobre esse furo na pele e todas as vezes ouvia a mesma resposta: é normal. Foi em uma ida ao INSS para conseguir o auxílio-doença, no mês de março, que a desconfiança aumentou. “Ela [a médica] disse que eu teria que voltar no médico porque isso não era normal não, que estava saindo secreção”, relata.</p>



<p>A situação piorou com o tempo. Em maio, Isis se internou novamente, mas antes disso teve que passar dois dias em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) aguardando uma ambulância para ser transferida. “Quando eu cheguei lá, foi o mesmo ortopedista. Ele disse que eu não ia poder ficar no hospital porque tinha gente pior que eu. Então eu respondi &#8216;olha, eu vou ficar porque eu não aguento mais essa dor&#8217;,&#8221; recorda. Àquela altura, a placa de titânio implantada pela equipe médica do Otávio de Freitas teria sido rejeitada pelo corpo da jovem, começou a ficar exposta e precisou ser retirada. Isso aconteceu depois de um mês de internação, mais 40 dias tomando antibióticos em casa e muitas idas ao hospital.</p>



<p>Até hoje, ela sofre com uma infecção resistente, mas, como o material retirado não foi coletado para a cultura, não se sabe qual a bactéria causadora da doença. “Depois da cirurgia eu já estava sentindo umas molezas, alguma coisa estranha. Antes era &#8216;só&#8217; a secreção que saía do braço, mas depois que passou a anestesia, eu comecei a ficar sentindo o corpo mole, dor de cabeça. Hoje, sinto moleza nas pernas, a cabeça doendo dos dois lados, tortura, febre e o braço fica furando, com uma sensação de pinicar”, reflete.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O cenário do abandono</h2>



<p>As paredes limpas com aparência de recém-pintadas podem ser vistas nos corredores externos. A grama bem cortada também. No entanto, basta entrar na enfermaria da traumatologia para o cenário mudar. Ali, o mato no pátio interno está alto, há muito não recebe uma poda, para impedir que as pessoas passem há caçambas de lixo.</p>



<p>Os quartos são quentes, abafados e pequenos. A maioria das portas não têm fechaduras, os banheiros ostentam infiltrações, as privadas não têm assentos, falta tampa nas caixas acopladas e higiene adequada. Todos os pacientes ouvidos pela reportagem reclamaram da limpeza. Ou melhor, da sujeira. A mãe de Isis, por exemplo, precisou levar desinfetante para amenizar o odor enquanto a filha estava internada.</p>



<p>Os animais merecem um capítulo à parte na lista de reclamações. Gatos e timbus são vistos circulando pelos corredores das enfermarias repletas de pacientes recém cirurgiados, fora os ratos, baratas e tudo quanto é inseto.</p>



<p>O caso de Isis, como se vê, não é isolado. A Marco Zero foi até o hospital e, com ajuda das famílias de pacientes, passou todo o período de visitas em contato com quatro pessoas internadas na enfermaria de traumatologia para retirada de placas, tratamento de infecções que persistem, causados por bactérias não identificadas. Outro paciente está internado há quatro meses, mas não quis que sua história fosse publicada. Mas todos eles contaram viver um drama tão angustiante quanto dolorido.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/HOF-2-1024x726.jpeg" alt="A foto mostra um pequeno banheiro simples e um pouco desgastado. No centro há um vaso sanitário branco, sem tampa no reservatório de água, deixando o interior visível. À esquerda do vaso, há uma pia branca pequena fixada na parede, com torneira e canos aparentes. O fundo é formado por uma parede de azulejos brancos, alguns escurecidos ou manchados, especialmente próximos ao chão e à pia. No piso, que parece ser de cimento ou cerâmica marrom, há um balde plástico branco com inscrições parcialmente legíveis e uma tampa de ralo circular branca caída ao lado. O ambiente aparenta estar úmido e precisar de limpeza ou manutenção." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Banheiro no setor de traumatologia no Hospital Otávio de Freitas
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Colapso dos rins, ameaça de amputação e mais infecções</strong></h2>



<p>Em leitos próximos, Henrique Cavalcanti, de 51 anos, e Edcley Xavier, de 35 anos, contam histórias parecidas e que se prolongam há vários meses. Henrique está internado desde janeiro. Isso mesmo: há quase sete meses numa enfermaria, onde foi parar depois que desviou sua moto para não atropelar um carroceiro em Boa Viagem e acabou se chocando com a carroça.</p>



<p>Quando ele foi levado para o Otávio de Freitas com o fêmur e a perna esquerda quebrados, Edcley já estava lá há um mês, também por causa de um acidente de moto.</p>



<p>Não é só isso que os dois têm em comum. Ambos lutam contra infecções persistentes. Henrique enfrenta uma osteomielite, uma doença grave que atinge os ossos, cujo tratamento o levou à hemodiálise por mais duas semanas.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Em respeito à imagem e à vulnerabilidade dos pacientes, não publicaremos suas fotografias feitas durante a visita da equipe da MZ.</p>
        </div>
    </div>



<p>Segundo ele, ao prescrever um antibiótico forte por 21 dias, o médico advertiu: “tem um antibiótico que é muito bom e é muito forte. Agora esse antibiótico, você corre o risco de perder a audição. Você corre o risco de ficar com a pele toda escura. E vamos rezar para não afetar os rins”, conta. Tomou apenas 14 dias da medicação e precisou ir para hemodiálise às pressas. Ou seja, os rins foram severamente afetados.</p>



<p>O pior estava por vir. Em uma das frequentes trocas de médicos, o residente que teria acompanhado a penúltima limpeza fez uma sugestão que deixou o paciente apavorado: amputar a perna. “Eu disse que achava que isso era o último caso, a última instância. Se lá tem medicamento, tem estrutura, tem tudo para fazer, se não tem aqui, me manda para o hospital que faz. Mas chegar ao ponto de dizer isso ao paciente sem discutir com outro médico antes?”</p>



<p>A poucos metros de Henrique, Edcley espera o fim do tratamento com antibióticos porque também contraiu uma infecção no hospital. Quando estivemos lá, a previsão de alta estava próxima.</p>



<p>Assim que chegou, passou quatro dias na emergência sem comer e sem tomar água aguardando a cirurgia. Só conseguiu fazer o procedimento depois disso. O fixador foi colocado e Xavier passou mais dois meses internado. Depois da retirada do fixador, foram mais 15 dias para colocar a placa de titânio. Após 30 dias voltou para tirar os pontos. Foi aí que começou a sair secreção do local, um quadro quase idêntico ao de Isis.</p>



<p>A própria equipe médica afirmou que a infecção ocorreu no bloco cirúrgico.</p>



<p>Além disso, como a cirurgia foi próximo ao joelho, segundo o rapaz a indicação é que ao retirar a placa, o médico aproveitasse para tirar também a fibrose do joelho, o que não aconteceu. Por isso, vai precisar passar por uma nova cirurgia. “É sofrimento e risco. Esse hospital aqui tá todo contaminado”, pontua.</p>



<p>O homem denuncia que os médicos circulam pelos corredores com roupas que utilizam na cirurgia. “O médico tem que estar lá dentro do bloco cirúrgico. O médico não é para estar vindo aqui no corredor buscar paciente com a roupa que vai operar, não. É um açougue?”, questiona.</p>



<p>Além disso, Edcley e o parente que lhe acompanha questionam a falta de higiene do local. São gatos, cachorros, timbus, árvores com cupins, mato alto e limpeza precária que, para eles, aumenta o risco de contaminação. Os vídeos recebidos pela MZ confirmam isso.</p>



<p>Se Edcley aguarda a próxima cirurgia, Henrique alimenta a esperança de que o tratamento surta efeito e que possa recuperar minimamente a sua perna. Dias antes de conversar com a Marco Zero, teve um vislumbre de esperança, pois na última avaliação, outro médico descartou a possibilidade de colocar o fixador novamente e prescreveu seguir com os antibióticos.</p>



<p>Além disso, há o desalento. Para quem chegou para tratar fraturas e sofreu o impacto do colapso dos seus rins e a ameaça de amputação, agora ele convive com um profundo desânimo. “Dentro da hemodiálise eu tinha visto as piores coisas que eu nunca tinha visto ainda, nunca pensei que uma hemodiálise fosse um negócio tão pesado, um sistema tão pesado que a máquina é toda adaptada dentro de você. Um cateter, ou no pescoço ou na virilha. O meu não conseguiu pegar no pescoço, pegou aqui na virilha… eu não estava com opção naquele momento. Eu estava numa situação que afetou a perna, afetou os rins e o psicológico já está a mil, sem saber o que focar realmente na vida”, lamenta.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p>De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE), no período entre janeiro de 2025 e julho de 2026, “foram registrados 50 procedimentos de retirada de placas, parafusos ou outros materiais de síntese. Esse número corresponde a 1,86% das 2.683 cirurgias ortopédicas realizadas. Os 50 registros representam procedimentos, e não necessariamente 50 pacientes distintos, não podendo ser interpretados como 50 casos de infecção ou de ‘rejeição’”.</p>
<p>Seguindo essa lógica, após as primeiras cirurgias e colocação da placa, as repetidas cirurgia realizadas apenas nos pacientes mostrados nesta reportagem juntos somam seis procedimentos. O equivalente a 12% dos 50 casos informados pela SES.</p>
	</div>



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<div class="ratio ratio-16x9"><iframe title="Enfermaria da traumatologia Hospital Otávio de Freitas" width="422" height="750" src="https://www.youtube.com/embed/q_WAyAaRzo4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
</div></figure>



<h3 class="wp-block-heading">O que diz o Governo de Pernambuco</h3>



<p>A Marco Zero procurou a Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE) questionando os pontos apontados nesta reportagem e pedindo um representante do órgão para falar das denúncias feitas. Ignoraram a possibilidade e enviaram uma nota que afirma:</p>



<p>Sobre os três casos dos pacientes descritos, a conduta médica foi direcionada ao controle da infecção, à preservação do membro e à reavaliação da necessidade de procedimentos reconstrutivos ou complementares, conforme a evolução clínica. Nos documentos analisados, não há indicação formal de amputação.</p>



<p>Sobre a atuação dos médicos residentes, O Hospital Otávio de Freitas (HOF) reforça que eles são profissionais graduados em medicina e regularmente inscritos no Conselho Regional de Medicina (CRM). A residência médica é uma modalidade de especialização em serviço, realizada sob supervisão de médicos especialistas e preceptores.</p>



<p>Os residentes podem examinar pacientes, registrar evoluções, realizar procedimentos e participar de cirurgias, conforme seu nível de formação, sempre integrados à equipe responsável. As descrições cirúrgicas dos casos apresentados identificam os cirurgiões responsáveis e seus auxiliares. Não existe orientação institucional para que procedimentos ou decisões complexas sejam realizados por residentes sem supervisão. Eventuais queixas relacionadas ao tempo de visita, à comunicação ou à identificação do médico responsável podem ser apuradas individualmente, desde que sejam fornecidas informações que permitam localizar o episódio.</p>



<p>Sobre a questão de animais transitando pela unidade, a direção do HOF informa que mantém contratos regulares de limpeza e desinfecção hospitalar, seguindo protocolos técnicos e sanitários estabelecidos pelas normas vigentes. Além disso, são realizadas ações periódicas de controle ambiental e manejo da área externa, incluindo medidas voltadas à prevenção e mitigação da presença de animais nas dependências da unidade.</p>



<p>A direção informa ainda que a unidade vem desenvolvendo ações educativas junto aos funcionários, pacientes e acompanhantes para orientá-los a não alimentar nem interagir com os animais e, também, a comunicar sua presença sempre que identificados. Rotineiramente, são realizadas rondas pela administração do serviço para identificar a presença de animais. Além disso, foram instaladas barreiras físicas para impedir o acesso desses animais às dependências da unidade.</p>



<p>Em relação aos apontamentos sobre o Setor de Traumatologia do HOF, a unidade esclarece ainda que a Superintendência de Engenharia e Manutenção elaborou e atualizou o Plano de Ação para Requalificação do Trauma Adulto e Pediátrico, contemplando intervenções nas enfermarias, postos de enfermagem e depósitos de material de limpeza (DML), incluindo a recuperação de paredes, tetos, pias, vasos sanitários, revestimentos, portas, fechaduras, sistemas de ventilação e demais adequações estruturais.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Problema crônico</h3>



<p>Os problemas não são de hoje. O hospital tem uma reputação negativa entre os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) no estado. Em 2021, a Marco Zero acompanhou <a href="https://marcozero.org/hospital-otavio-de-freitas-esta-um-caos-e-gente-por-cima-de-gente/">denúncias de superlotação feitas por pacientes e acompanhantes</a>. Os pacientes eram amontoados pelos corredores da unidade e ficavam à mercê de uma vaga em um leito.</p>



<p>Em 26 de maio deste ano, a então governadora Raquel Lyra (PSD) e a vice-governadora Priscila Krause (PSD) entregaram a requalificação do centro cirúrgico ambulatorial da unidade, alegando ainda a melhoria da recepção da emergência, fachada e portaria da unidade. Comemoram o investimento de mais de R$ 800 mil, somando mais de R$ 158 milhões em investimentos, com obras de ampliação, novos equipamentos, modernização da estrutura e abertura de novos leitos. No entanto, os relatos dos pacientes indicam que esse investimento ainda não chegou na traumatologia.</p>



<p>Apenas dois dias depois, o Tribunal de Contas de Pernambuco (TCE-PE) julgou a auditoria especial operacional realizada no primeiro semestre de 2025, com objetivo de, segundo o documento, “analisar os fatores operacionais internos e externos que têm impactado a produção cirúrgica do centro cirúrgico”, relatada pelo conselheiro Marcos Loreto.</p>



<p>O julgamento divulgado em 02 de junho no Diário Oficial do TCE-PE, constatou, entre os problemas apresentados, que a unidade possuía inadequações na estrutura física do centro cirúrgico, como o descascamento do revestimento nas paredes e na junção com o piso em todas as salas operatórias, a existência de diversos equipamentos inoperantes nos blocos cirúrgicos e a ausência de reserva técnica &#8211; os aparelhos de backup para o sistema.</p>



<p>Também identificou que “o centro cirúrgico apresentou baixa efetividade operacional, revelada por indicadores de processo, destacando-se elevado índice de cancelamentos de cirurgias (entre 16,7% e 18,6%) por causas em grande parte evitáveis, e significativo atraso para o início da primeira cirurgia do dia”.</p>



<p>Além disso, “a análise do desempenho do Bloco da Traumatologia/Ortopedia revelou efetividade de apenas 47,5% (ORE /ECC), abaixo da média observada em centros brasileiros de porte similar (50-60%), enquanto o Bloco Central (Geral) não pôde ter seu indicador mensurado devido à impossibilidade de definir o Tempo Total Disponível e o Tempo Total Utilizado”.</p>



<p>O documento também constatou a inconsistência nos dados e informações disponibilizadas no sistema informatizado, causando subutilização e falhas de registro pelas equipes.</p>



<p>Entre as considerações, atestou-se que “a baixa efetividade do centro cirúrgico na realização de cirurgias eletivas, evidenciada pelo indicador <em>Overall Equipment Effectiveness (ORE/ECC)</em>, de apenas 47,5% no Bloco da Traumatologia/Ortopedia — índice inferior à média de centros de porte similar —, e pelo fato de a maior parte das cirurgias ditas “eletivas” ser proveniente da Emergência, gerando fila de espera e aproveitamento aquém do ideal da capacidade instalada”.</p>



<p>Por fim, ficou determinado que a Secretaria Estadual de Saúde e a Direção do HOF adotassem medidas para sanar as deficiências apresentadas e melhorar a qualidade dos atendimentos aos pacientes em 60 dias. Como já apresentado nesta reportagem, mesmo com as melhorias divulgadas pelo governo do estado, ainda há denúncias de desassistência na unidade.</p>



<div data-wp-interactive="core/file" class="wp-block-file"><object data-wp-bind--hidden="!state.hasPdfPreview" hidden class="wp-block-file__embed" data="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/DOU-TCE-PE-02.06.2026.pdf" type="application/pdf" style="width:100%;height:600px" aria-label="Incorporado de DOU TCE-PE 02.06.2026."></object><a id="wp-block-file--media-c7ece1d0-f5e8-4c84-9b70-59877272ff97" href="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/DOU-TCE-PE-02.06.2026.pdf">DOU TCE-PE 02.06.2026</a><a href="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/DOU-TCE-PE-02.06.2026.pdf" class="wp-block-file__button wp-element-button" download aria-describedby="wp-block-file--media-c7ece1d0-f5e8-4c84-9b70-59877272ff97">Baixar</a></div>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/o-trauma-de-passar-pelo-setor-de-traumatologia-do-hospital-otavio-de-freitas/">O trauma de passar pelo setor de traumatologia do Hospital Otávio de Freitas</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Mostra de arte sobre a luta pelo direito ao aborto recebe inscrições até 26 de julho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Jul 2026 19:56:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[aborto]]></category>
		<category><![CDATA[campanha]]></category>
		<category><![CDATA[Nem presa nem morta]]></category>
		<category><![CDATA[saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Está aberta até o próximo domingo, 26 de julho, a chamada para a arruda.expo, mostra que reunirá obras sobre a memória, o presente e os futuros da luta pelo direito ao aborto. A iniciativa faz parte da programação que celebra os oito anos de atuação da campanha Nem Presa Nem Morta. A chamada é gratuita [&#8230;]</p>
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<p>Está aberta até o próximo domingo, 26 de julho, a chamada para a <a href="https://nempresanemmorta.org/2026/07/chamada-aberta-para-a-arruda-expo/">arruda.expo</a>, mostra que reunirá obras sobre a memória, o presente e os futuros da luta pelo direito ao aborto. A iniciativa faz parte da programação que celebra os oito anos de atuação da campanha <a href="https://nempresanemmorta.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Nem Presa Nem Morta</a>.</p>



<p>A chamada é gratuita e aceita inscrições de artistas, ativistas e militantes do Brasil e de outros países. São aceitas fotografias, ilustrações, desenhos, colagens, técnicas mistas, bordados, artes têxteis, peças de design gráfico, composições tipográficas e outras produções bidimensionais. As obras podem ser inéditas ou já existentes, desde que possam ser digitalizadas em alta resolução e reproduzidas em formato de cartaz.</p>



<p>A seleção considerará a potência da mensagem, a qualidade artística e a pertinência da justificativa de participação. A participação de artistas de diferentes territórios e países é incentivada.</p>



<p>Criada em 2018, durante o Festival Pela Vida das Mulheres, em Brasília, a Nem Presa Nem Morta surgiu como uma articulação de comunicação feminista para acompanhar a audiência pública da ADPF 442 no Supremo Tribunal Federal e ampliar o debate social sobre aborto no país. Desde então, atua na produção de informação qualificada, no enfrentamento aos estigmas, na incidência política e na articulação de organizações e movimentos em defesa da descriminalização e legalização do aborto.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>&#8220;A arte abre diálogos onde o estigma tenta impor silêncio. A arruda.expo nasce do compromisso de transformar memória em mobilização, ampliar o repertório visual sobre a luta pelo direito ao aborto e aproximar mais pessoas desse debate&#8221;, afirma Bibiana Serpa, assessora estratégica e pedagógica da campanha.</p>
</blockquote>



<p>A abertura da exposição acontece presencialmente no Rio de Janeiro, em setembro, mês em que é celebrado no Dia de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto na América Latina e no Caribe (28 de setembro).</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block">Serviço</span>

	    <p align="justify"><b>arruda.expo </b>(chamada aberta para artistas)</p>
<p align="justify"><strong>Inscrições:</strong> gratuitas, até 26 de julho de 2026</p>
<p align="justify"><b>Informações e inscrições: </b><a href="https://nempresanemmorta.org/2026/07/chamada-aberta-para-a-arruda-expo/"><span style="color: #1155cc;"><u>https://nempresanemmorta.org/2026/07/chamada-aberta-para-a-arruda-expo/</u></span></a></p>
    </div>
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		<title>“Meu filho de 11 anos não dorme sem remédio”, denuncia agricultor vizinho de eólica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jul 2026 21:12:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[atingidos pelas renováveis]]></category>
		<category><![CDATA[Caetés]]></category>
		<category><![CDATA[enegia renovável]]></category>
		<category><![CDATA[energia eólica]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“A felicidade do meu filho foi chegar em casa gritando ‘pai, eu consegui dormir’, quando voltou da casa de uma parente longe daqui”. O depoimento é do agricultor Walisson José da Silva, de 32 anos. O primogénito, José Heytor, tem apenas 11 anos, mas precisa tomar remédio para dormir diariamente. O barulho incessante das torres [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>“A felicidade do meu filho foi chegar em casa gritando ‘pai, eu consegui dormir’, quando voltou da casa de uma parente longe daqui”. O depoimento é do agricultor Walisson José da Silva, de 32 anos. O primogénito, José Heytor, tem apenas 11 anos, mas precisa tomar remédio para dormir diariamente. O barulho incessante das torres eólicas ao lado de casa, em Caetés, no agreste pernambucano, tirou o sossego também das crianças.</p>



<p>“Se a gente não dá a medicação altamente forte, nem dorme ele nem dorme a gente, ele fica delirando. Infelizmente esse é o resultado do empreendimento que trouxeram para nós”, lamenta Walisson. A caçula, Jenifer Victória, de 6 anos, também já sente os efeitos. “Eu comecei a perceber recentemente que ela está com sinais de ansiedade e de bruxismo”, relata o trabalhador rural, que teve perda auditiva por causa das turbinas, instaladas no município há mais de uma década.</p>



<p>Ainda não há pesquisas científicas que relacionem o impacto desse tipo de geração de energia na saúde infantil de Caetés, a 250 quilômetros do Recife. Mas, para os profissionais da saúde, os relatos clínicos não deixam dúvidas: a vida dos mais novos já não é mais a mesma, as mudanças atravessam o cotidiano, as formas de brincar, o sono, a sensação de segurança e a relação com o território.</p>



<p>“O que tenho visto, dando suporte médico no território, é que crianças e adolescentes desenvolveram, entre outras coisas, transtorno de ansiedade generalizado e que a síndrome da turbina eólica atingiu também essa população”, relata Maria Eduarda Valois Spencer, médica da atenção primária à saúde e professora de Medicina no Centro Acadêmico do Agreste da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e na Autarquia de Ensino Superior de Garanhuns (Aesga). Ela é colaboradora da <a href="https://marcozero.org/pesquisa-comprova-danos-a-saude-mental-de-camponeses-10-anos-apos-instalacao-de-eolicas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">pesquisa</a> da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade de Pernambuco (UPE) que constatou que 68% dos camponeses de Caetés estão em sofrimento psíquico.</p>



<p>Os ruídos emitidos pelas hélices gigantes costumam gerar sintomas como dor de cabeça, zumbido e pressão nos ouvidos, náusea, tontura, taquicardia, irritabilidade, problemas de concentração e memória e episódios de pânico. A exposição às torres por tempo prolongado pode causar, além desses sintomas, distúrbios mais graves como a Síndrome da Turbina Eólica e a Doença Vibroacústica.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><strong>Síndrome da turbina eólica</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os sintomas compreendem distúrbios do sono, aumento de frequência e/ou gravidade de dores de cabeça, tonturas, instabilidades, náusea, exaustão e alterações no humor, problemas de concentração e aprendizagem e zumbido nos ouvidos. Indivíduos com histórico de enxaqueca ou problemas auditivos anteriores ao contato com as eólicas e pessoas idosas são grupos mais suscetíveis.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Doença Vibroacústica</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É uma doença sistêmica causada pela exposição prolongada a ruído de grandes amplitudes (90 dB) e baixa frequência (&lt; 500Hz, incluindo os infrassons). É uma patologia com evolução lenta e que pode afetar vários órgãos e tecidos, como os sistemas nervoso e imunitário e os aparelhos cardiovascular e respiratório. Além de ser caracterizada por lesões nos tecidos ou órgãos, pode ocasionar uma série de alterações no organismo, como alterações neurológicas, endócrinas, na tensão arterial e na função respiratória.</span></p>
        </div>
    </div>



<p>“É frequente o relato de crianças que fazem uso de medicações psicotrópicas desde muito novas e que, quando vão passar férias em regiões mais distantes, onde não há usinas eólicas, as famílias já testaram não dar a medicação e as crianças conseguiram viver e dormir melhor”, atesta Maria Eduarda, que também é coordenadora do projeto “Reflorestando o Cuidado na Caatinga: semeaduras de esperança e resiliência frente aos impactos do Complexo Eólico em Paranatama” do PET-Saúde Clima, do Ministério da Saúde.</p>



<p>A médica relata ainda o aparecimento de questões dermatológicas e respiratórias. “As turbinas, que ficam próximas às casas, provocam poeira que contém diversas partículas do ambiente e da própria turbina que causam reações alérgicas na pele e no sistema respiratório”, explica. “Além disso, a questão do zumbido e do efeito estroboscópico das hélices têm um potencial de gerar náuseas e problemas de equilíbrio, por exemplo, numa fase muito importante, de intenso desenvolvimento neuromotor da criança, principalmente na primeira infância”, complementa.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Meu filho de 11 anos não dorme sem remédio”, denuncia agricultor sobre eólicas" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/NRUjdTQ3Tyc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>“Uma, duas horas da manhã, eles estão acordados no meio da casa”</strong></h2>



<p>“Estamos vendo crianças mais agitadas, com alteração do ciclo sono-vigília, agressivas, irritadas, isso tudo numa fase ainda de construção neurológica e emocional, o que acaba potencializando e atrapalhando um desenvolvimento mais seguro e equilibrado dessa população”, alerta Maria Eduarda.</p>



<p>É o que vem acontecendo com os filhos da agricultora Michele Maria da Silva, de 39 anos, mãe de seis, com idades entre 22 e quatro anos. Eles vivem a apenas 500 metros das turbinas. “Os que ainda moram comigo dormem muito tarde. Uma, duas horas da manhã, estão acordados no meio da casa. Mesmo acordando cedo de manhã, não conseguem dormir cedo. Eles ficam muito incomodados à noite, é muito forte o barulho”, afirma a agricultora, diagnosticada com depressão, diabetes e distúrbios na tireoide.</p>



<p>À noite, o barulho das hélices aumenta porque é um horário em que tende a ventar mais. Despertar na madrugada, detalha Maria Eduarda, é justamente atrapalhar o pico de produção de melatonina pela glândula pineal, localizada no cérebro, que precisa de silêncio e escuridão, caso contrário a produção é interrompida.</p>



<p>Há um ano, ela teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC). “Antes das torres, eu não tinha de jeito nenhum esses problemas”, diz. O filho de 10 anos começou a tomar remédio para ansiedade. “Ele está muito agitado. Agora, com a medicação, se acalmou um pouco. Mas ele fica muito aperreado, cansado, sufocado. E agora apareceu esse medo que ele está, da torre cair”, descreve Michele. Ela gasta R$ 450 de remédio por mês, é mais da metade do Bolsa Família, de R$ 800, que recebe.</p>



<p>O filho mais novo, de apenas quatro anos, está aguardando consulta com um psiquiatra, após encaminhamento de um psicólogo. “Ele está muito agitado, não tem paciência com nada, quebra tudo”, conta.</p>





<h3 class="wp-block-heading">Desenvolvimento infantil comprometido</h3>



<p>A médica Maria Eduarda defende que os impactos das usinas eólicas sobre a saúde infantil devem ser analisados a partir do conceito de cuidado integral. Para ela, não é possível avaliar a saúde das crianças apenas pela presença ou ausência de doenças, sem considerar o ambiente em que vivem.</p>



<p>“O primeiro aspecto que a gente precisa analisar é o meio em que essas crianças vivem, o território. As transformações provocadas pela instalação dos parques eólicos na caatinga alteram justamente esse ambiente, o que pode repercutir no desenvolvimento infantil”, explica.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Maria Eduarda integra pesquisa sobre impacto das eólicas
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Embora as evidências disponíveis atualmente se baseiam principalmente em relatos de populações afetadas, esses relatos apontam para impactos que merecem atenção, especialmente na primeira infância. “Essa é uma fase em que hiperestímulos e ruídos acabam atrapalhando o desenvolvimento neuropsicomotor das crianças. É um período muito delicado e tudo o que acontece nessa fase reverbera mais na frente”, diz Maria Eduarda.</p>



<p>Na avaliação dela, a exposição contínua aos ruídos das turbinas, que não cessam, pode estar associada a dificuldades de concentração, maior agitação e outros sinais observados durante a infância, mas que também podem se desenvolver mais tarde, aparecendo na adolescência com ansiedade, traumas ou outros transtornos emocionais.</p>



<p>“E aí a necessidade de medicação logo na primeira infância preocupa porque esses remédios têm efeitos colaterais e podem acompanhar a criança por muitos anos. Mas o problema não se resolve apenas com um diagnóstico e um remédio. É preciso compreender o território, o meio ambiente e o contexto cultural em que essas crianças vivem”, afirma Maria Eduarda.</p>



<p>Os empreendimentos eólicos também impactam o brincar, por causa do aumento do risco de acidentes durante a implantação e a manutenção desses empreendimentos, com a circulação intensificada de caminhões e veículos pesados nas estradas rurais, modificando espaços tradicionalmente ocupados pelas crianças.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Dica da redação</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">Documentário “Filhos do Vento”, disponível no </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hNjRzGMewbI"><span style="font-weight: 400;">Youtube</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">O filme é uma produção dos jornalistas Euziane Bastos e Rogério Bié que mergulha nos conflitos socioambientais e na resistência da comunidade quilombola do Cumbe, em Aracati (CE), diante da chegada de um parque eólico em 2008. Sem serem consultados, os moradores deram início a uma luta contra os impactos que o empreendimento causou nos seus modos de vida, cultura e relação com o território.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O documentário revela o cenário de conflitos e contradições por trás do discurso de “energia limpa” desse modelo energético. O filme é uma narrativa direta sobre a luta pela preservação de uma comunidade quilombola frente às mudanças trazidas por grandes empreendimentos.</span></p>
	</div>



<p><em>A repórter viajou a convite da <a href="https://www.caatingaclimateweek.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Caatinga Climate Week</a></em></p>
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		<title>Mastectomia no SUS devolve liberdade do banho de mar para pessoas transmasculinas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Jun 2026 18:54:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[CISAM]]></category>
		<category><![CDATA[dia do orgulho LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[homens trans]]></category>
		<category><![CDATA[Hospital da Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Hospital das Clínicas]]></category>
		<category><![CDATA[mastectomia]]></category>
		<category><![CDATA[orgulho LGBT]]></category>
		<category><![CDATA[pessoas trans]]></category>
		<category><![CDATA[SUS]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Tomar um banho de mar livremente pode não ser algo tão fácil para algumas pessoas. A comunidade trans e travesti, ou seja, das pessoas que não se identificam com o sexo atribuído na certidão de nascimento, enfrenta estigmas e preconceitos diariamente e uma simples ida a praia é motivo de medo e insegurança. Isso, no [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Tomar um banho de mar livremente pode não ser algo tão fácil para algumas pessoas. A comunidade trans e travesti, ou seja, das pessoas que não se identificam com o sexo atribuído na certidão de nascimento, enfrenta estigmas e preconceitos diariamente e uma simples ida a praia é motivo de medo e insegurança. </p>



<p>Isso, no entanto, está mudando. Homens trans e pessoas transmasculinas têm recorrido cada vez mais ao Sistema Único de Saúde (SUS) para fazer os tratamentos hormonais e cirurgias necessárias para reafirmar suas identidades, a exemplo da mastectomia bilateral masculinizadora ou mamoplastia masculinizadora  (retirada das mamas) e da histerectomia, nome que se dá à retirada de útero e ovários.</p>



<p>O SUS é um catalisador dessa afirmação e, apesar dos desafios, contribui com a adequação de gênero dessa comunidade. Em Pernambuco, o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), vinculado à Universidade de Pernambuco (UPE) e o Hospital da Mulher do Recife realizam acompanhamento ambulatorial e realizam as cirurgias de readequação de gênero. A Policlínica Lessa de Andrade também oferece o atendimento ambulatorial.</p>



<p>Juntos, os três hospitais já realizaram 99 procedimentos de mastectomia. No Hospital das Clínicas (HC), primeiro do estado a oferecer o serviço, desde 2016 foram 54 procedimentos, o Cisam/UPE realizou 21, enquanto no Hospital da Mulher aconteceram 24. Com a chegada da cirurgia no Hospital da Mulher, o acesso ao serviço por parte das pessoas trans atendidas foi acelerado, considerando que a fila foi reduzida. Hoje, o tempo médio de espera na unidade por alguma dessas cirurgias demora de 45 a 60 dias. </p>



<p>“Cada dia que passa é algo muito grandioso. É acordar e se sentir bem, se sentir dentro de você mesmo. Sair sem ter tanto medo, porque é isso que eu sentia quando eu tinha as mamas”, conta o auxiliar de serviços gerais, Jack Mowatt, de 30 anos, que recentemente fez a mastectomia bilateral masculinizadora no Hospital da Mulher do Recife.</p>



<p>Foi possível ver o brilho no olhar de Jack ao contar como o procedimento realizado há pouco mais de dois meses transformou sua vida. Ele foi uma das dez primeiras pessoas trans a passar pelo bloco cirúrgico no Hospital da Mulher, que começou a oferecer o serviço no final de 2025.</p>



<p>Natural de Rio Formoso, na mata sul de Pernambuco, veio morar no Recife aos 12 anos de idade. Desde criança sempre soube quem era, mas só ao chegar na capital e conhecer e dialogar com outros homens trans, pôde compreender melhor sua identidade ainda durante a adolescência.</p>



<p>Os desafios foram muitos e apenas na vida adulta começou o acompanhamento para a readequação de gênero. “Só agora na fase adulta é que eu consegui, de fato, ter essa autonomia, tanto financeira quanto pessoal, para encarar uma terapia, me entender melhor pra chegar nesse processo da transição e da mastectomia também”, afirma.</p>



<p>Jack conta que começou seu acompanhamento no Hospital da Mulher para um tratamento de mioma no ambulatório especializado da unidade. Por causa desses problema de saúde, precisou fazer uma histerectomia e passou a ser atendido pelo serviço de acompanhamento psicológico. O tratamento hormonal veio dois anos depois, culminando com a mastectomia em abril de 2026.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-23-at-11.24.37-1024x683.jpeg" alt="A imagem mostra Jack Mowatt, uma pessoa jovem ajoelhada em uma quadra esportiva coberta, sorrindo amplamente e abrindo os braços em sinal de comemoração. À sua frente, há três troféus metálicos de tamanhos diferentes, todos brilhantes e ornamentados — o maior tem alças curvas e uma tampa com uma pequena figura alada no topo. A pessoa veste um uniforme esportivo preto com detalhes lilás e rosa, e um crachá pendurado no pescoço. No uniforme, há um logotipo circular com o desenho de um felino e algumas palavras parcialmente legíveis. Ao fundo, vê-se arquibancadas com assentos coloridos em amarelo, azul e verde, além de banners com inscrições como “Recife”, “2025” e “Movimento”." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Jack Mowatt passou pela cirurgia de mastectomia em abril de 2026
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Acervo pessoal</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“É como se fosse algo que você não reconhecesse no seu corpo. Algo que incomodasse. Algo que fosse desconfortável em você, como uma mancha, algo assim. E quando você tira aquilo parece que tudo muda. A qualidade de vida diferente, surreal de tudo que eu já tinha sentido. Até quando vestia uma roupa qualquer, quando ia na praia não tirava roupa, não tomava um banho, ficava só era naquele chuveirão e muito mal, e corria logo porque achava que alguém estava olhando parecia uma fobia. Agora estou bem mais relaxado”, reflete.</p>



<p>Agora, Jack segue livre para ser quem é no seu trabalho em uma academia de <em>crossfit</em>, no sonho de realizar a graduação de Educação Física e como jogador no time de futsal Força Trans.</p>



<h2 class="wp-block-heading">“Sempre fui uma pessoa do mar”</h2>



<p>“Passando pra dar notícias para pessoas que amo muito que deu tudo certo com minha mastectomia, estou aqui na recuperação”, esse foi o áudio enviado pelo multiartista e artivista Vyvo Dayo, de 29 anos, poucas horas após sua mastectomia que aconteceu no sábado, 27 de junho, um dia antes do dia do orgulho LGBTIA+. Conversamos com Dayo dois dias antes para entender a expectativa que vivia. </p>



<p>Acompanhado pelo Cisam/UPE, o multiartista não imaginava que sua cirurgia iria ser realizada agora, pois a fila de espera na unidade é longa, por atender a todo o estado. No entanto, acabou conseguindo o procedimento no Hospital da Mulher, unidade que está ajudando a desafogar as filas de espera dos hospitais maiores.</p>



<p>Segurança e saúde são os fatores que mais pesaram para Dayo nos dias de expectativa antes da cirurgia, afinal as pessoas trans e travestis convivem durante anos com o medo de agressões e violações, o que as obriga a usarem mecanismos para disfarçar determinadas características. No caso de quem tem mama, é comum usar fitas e o <em>binder</em>, uma espécie de colete colocado para comprimir os seios. Por este e outros motivos, Dayo vê na mastectomia uma nova possibilidade de viver. E viver com qualidade. </p>



<p>“A minha expectativa para ter uma mastectomia é muito porque quero esse lugar da segurança, da segurança e da saúde. De não estar usando roupas ou fitas prendendo o meu peito, pois depois do uso o mpeito fica cortado. Quantas vezes meu peito fica todo machucado&#8230; às vezes com partes em carne viva, porque eu não consegui me adequar, inclusive ao binder por causa da respiração, já tive falta de ar”, desabafa.</p>



<p>O procedimento pode trazer a segurança necessária para fazer aquilo que, em outro tempo, era parte da rotina. “Sempre que eu tinha um tempinho eu corria ou então até me exercitar na praia, enfim, sempre fui uma pessoa muito do mar, da praia e também uma pessoa de muito de não ter vergonha de mostrar a minha pele, de gostar de roupas curtas. A transição voltada para os corpos, para as identidades da gente, cai muito nisso de não mostrar o seu corpo, por isso transmasculinas usam muito roupas folgadas”, conta.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-28-at-08.30.16-768x1024.jpeg" alt="A imagem mostra uma pessoa jovem deitada em uma cama, sorrindo para a câmera em um ambiente de aparência simples e clara. Essa pessoa tem pele clara, cabelo curto e loiro, barba rala e bigode. Está sem camisa e parece relaxada, com expressão tranquila e alegre. Ao lado da cabeça há uma camiseta cinza dobrada e um travesseiro preto. No fundo, vê-se uma parede branca com um painel elétrico fixado, contendo tomadas e cabos conectados — o que dá a impressão de um quarto ou ambiente hospitalar." class="" loading="lazy" width="564">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Dayo foi operado na véspera do Dia do Orgulho LGBTQIA+
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Acervo pessoal</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Diferente de Jack, o multiartista é uma pessoa não-binária, cuja identidade de gênero não se encaixa nos gêneros tradicionais, transitando entre eles. Por isso, conta que diversas vezes já foi confundido com mulheres trans ou homens gays afeminados. “Cada vivência é submetido a um controle diferente. O controle que bate muito na gente é que transmasculino, pessoas não-binárias, passa por ‘esconda esse corpo, não se mostre’, afirma.</p>



<p>Até se entender como não-binário, Dayo passou por conflitos internos, processos depressivos e questionamentos, mas conta que a arte ajudou a salvá-lo. “Me descobri uma pessoa não-binária com uns 24 anos, mas ainda com muito medo do que isso iria significar socialmente. Sentia muito medo da repressão que já sofria sem apoio, sem referência. Até que fui buscando coletivos e descobrir referências na cultura <em>ballroom</em>”, relembra.</p>



<p>A cultura <em>ballroom</em> é um movimento político, artístico e de resistência criado por pessoas negras, latinas e LGBTQIA+ nos Estados Unidos na década de 1960. Esse movimento vai além de entretenimento, atuando como rede de apoio e acolhimento para corpos dissidentes, celebrando a diversidade por meio da dança, moda e autoexpressão.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Saúde e pertencimento caminham juntos</strong></h2>



<p>Há três anos, a organização não governamental <a href="https://gestos.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Gestos</a> passou a oferecer atendimento psicológico em grupo para homens trans e transmasculinos, dos 18 aos 29 anos. Para a psicóloga Juliana Mazza, que acompanha o grupo desde o início, o procedimento é desejado pela maioria das pessoas atendidas no grupo, salvo algumas exceções que não o fariam por diferentes fatores.</p>



<p>&#8220;A gente percebeu que eles recebem a pessoa que fez a mastectomia de volta no grupo com muita felicidade e com muita propriedade. E a gente foi perguntando quem faria, quem não faria. E digamos que 98% do grupo faria a mastectomia. As pessoas que não fariam são as pessoas que, ou tem muito medo da cirurgia, acham que a cirurgia vai ser muito desgastante, ou temem o resultado, tem medo do processo. Ou ainda pessoas que, por terem as mamas pequenas, acreditam que com treino e hormônio conseguem bom resultado sem intervenção&#8221;, analisa.</p>



<p>Para a profissional a cirurgia também reduz a disforia, que tem a ver com a incompatibilidade dessa imagem corporal da pessoa. Ela explica que &#8220;a disforia tem relação com a saúde mental e com a imagem corporal. É conseguir ficar bem com o seu corpo. Essa ideia de se olhar no espelho, de se sentir como se não tivesse algum órgão intruso no corpo, sabe? Por isso que chamam de intruso também. Então, além de diminuir a disforia de gênero, aumenta a autonomia. Porque a ideia de poder treinar, de poder ir à praia, de poder tirar camisa, que tem a ver também com um comportamento que tem relação com o gênero&#8221;. </p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55355935597_5bc27cfec0_c.jpg" alt="A imagem mostra alguns folhetos impressos dispostos sobre uma superfície clara, como uma mesa. O foco está em um folheto em primeiro plano, enquanto os outros aparecem desfocados ao fundo. O folheto principal é de cor branca e contém texto em português com mensagens de conscientização sobre respeito às pessoas trans. No centro, lê-se em letras grandes: “PESSOAS TRANS SÃO COMO VOCÊ: HUMANAS E MERECEM RESPEITO”. Abaixo, há a frase “TRANSforme suas ideias!”. O design inclui pequenos símbolos de gênero — masculino, feminino e trans — espalhados ao redor do texto. Na parte superior, há um logotipo de uma instituição, mas os detalhes não estão totalmente legíveis." class="" loading="lazy" width="661">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A enfermeira e supervisora do Espaço Trans do HC da UFPE, Paula Graça, reitera essa ideia da autonomia e liberdade. &#8220;Se sentir bem no seu corpo, se ver, se visualizar como a pessoa se enxerga e ser passável por uma sociedade. A passibilidade quer dizer que ela ou ele passa pela sociedade, transita sem ser identificado como uma pessoa trans. Isso é muito importante porque a gente sabe do estigma, a gente sabe que os olhares e as pessoas trans sentem esse olhar perverso, né? Então, essas cirurgias vão melhorar a autoestima da pessoa, porque ela se sente um homem, ela se sente uma mulher, ela quer ter os órgãos que ela acha que deve ter&#8221;, explica.</p>



<p>Mas nem toda pessoa trans deseja fazer uma intervenção cirúrgica. Graça explica existem pessoas trans que não desejam fazer intervenções e que elas não deixam de ser trans por isso. No entanto, nos casos que existe a disforia é extremamente importante. &#8220;Se essa pessoa tem uma disforia por aquele órgão que é sensual, no caso da mama, que chama a atenção como uma pessoa de gênero feminino, mas ela se sente gênero masculino, então essa mama incomoda. A retirada, a remoção dessa mama e colocar um peitoral masculino faz eles se sentirem livres. Para a questão psicológica da pessoa, a questão social melhora acho que 90%. Não melhora 100% sempre por conta da sociedade&#8221;, avalia.</p>



<p>O processo transexualizador no SUS exige que as unidades tenham equipes multidisciplinares para cuidar e acompanhar os pacientes. O HC tem a equipe composta por enfermeiros, psicólogos, psiquiatras, endocrinologistas, assistentes sociais, ginecologistas, urologistas, mastologistas, cirurgiões plásticos, fonoaudiólogos, otorrinolaringologia e recepcionista.</p>



<p>No caso do HC, o acompanhamento acontece até um ano após a cirurgia. Apesar de ter sido o quinto serviço de saúde cadastrado no Ministério da Saúde para ter um espaço ambulatorial e cirúrgico para a população trans e travesti, uma referência nacional, o espaço trans enfrenta problemas estruturais. Para efeitos de comparação: desde 2016 foram realizados 54 procedimentos de mastectomia, enquanto que, no Hospital da Mulher do Recife, que começou a oferecer o serviço no fim do ano passado, já foram realizados 24, quase metade.</p>



<p>Isso acontece, porque o HC dispõe de quatro salas cirúrgicas para todos os procedimentos de afirmação de gênero previstos. Com a ampliação da equipe em 2025, foi possível ampliar o número de cirurgias de oito para até 18 ao ano, como explica Graça. Mesmo assim, a fila de espera do hospital é de mais de 1400 pessoas, por este motivo, eles aconselham as pessoas a iniciarem o acompanhamento nos serviços de saúde dos respectivos municípios.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Para não errar!</span>

		<p><strong>Sexo Biológico: </strong>conjunto de características corporais que diferenciam machos e fêmeas, definido desde a concepção. Expressa-se inicialmente pelos genitais: pênis (menino) ou vulva (menina).</p>
<p><strong>Identidade de Gênero:</strong> é como a pessoa se reconhece: masculina, feminina ou uma combinação dos dois, independentemente do sexo biológico. Pode ou não coincidir com o gênero atribuído ao nascer e envolve percepção do corpo, estilo, fala e comportamento social.</p>
<p><strong>Orientação Sexual: </strong>refere-se ao gênero das pessoas por quem sentimos desejo e afeto. Relaciona-se à identidade de gênero dos envolvidos, não ao sexo biológico.</p>
<p><strong>Transgeneridade: </strong>condição de quem possui identidade de gênero diferente daquela designada ao nascer, buscando viver e ser respeitada no gênero com que se identifica. Também chamada de transexualidade ou transidentidade.</p>
<p><strong>Cisgeneridade:</strong> condição de quem possui identidade de gênero correspondente ao gênero atribuído ao nascer.</p>
<p>Fonte: Cartilha Espaço Trans HC-UFPE/HUBrasil</p>
	</div>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/mastectomia-no-sus-devolve-liberdade-do-banho-de-mar-para-pessoas-transmasculinas/">Mastectomia no SUS devolve liberdade do banho de mar para pessoas transmasculinas</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Indígenas pankará se preparam para cultivar maconha medicinal no sertão de Pernambuco</title>
		<link>https://marcozero.org/indigenas-pankara-se-preparam-para-cultivar-maconha-medicinal-no-sertao-de-pernambuco/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jun 2026 21:36:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[maconha]]></category>
		<category><![CDATA[Pankará]]></category>
		<category><![CDATA[sertão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pela primeira vez no Brasil, um povo indígena se organiza para produzir medicamentos à base de maconha de forma institucionalizada. No sertão de Pernambuco, o povo Pankará Serrote dos Campos deu início à criação da Associação Indígena de Medicina Ancestral para Cannabis Medicinal e Cânhamo Industrial (Acarapuá), iniciativa que pretende viabilizar o cultivo da planta [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Pela primeira vez no Brasil, um povo indígena se organiza para produzir medicamentos à base de maconha de forma institucionalizada. No sertão de Pernambuco, o povo Pankará Serrote dos Campos deu início à criação da Associação Indígena de Medicina Ancestral para Cannabis Medicinal e Cânhamo Industrial (Acarapuá), iniciativa que pretende viabilizar o cultivo da planta para fins terapêuticos dentro do território.</p>



<p>A associação já possui estatuto e Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) e agora inicia uma longa jornada jurídica e técnica para obter autorização judicial para o plantio. Os pankará vivem no município de Itacuruba, a quase 500 quilômetros do Recife. </p>



<p>O pajé Geraldo Leal relata que o povo deixou de cultivar maconha há décadas por medo da criminalização. Segundo ele, a planta fazia parte dos saberes terapêuticos tradicionais da comunidade. “Como a maconha é proibida, ninguém mais quer nos dar raízes e ser descoberto”, lamenta.</p>



<p>Para os pankará, a retomada do cultivo representa não apenas a busca por novos tratamentos de saúde, mas também a recuperação de conhecimentos tradicionais interrompidos pela política de proibição das drogas no país.</p>



<p>A criação da Acarapuá resulta de um projeto coordenado pelo Centro de Prevenção às Dependências (CPD), organização não governamental que recebeu uma emenda parlamentar do deputado estadual João Paulo (PT) para estruturar a associação.</p>



<p>Para Ana Glória Melcop, coordenadora do CPD, a iniciativa possui também um caráter de reparação histórica. “A cannabis entrou no Brasil por africanos escravizados e logo os indígenas também começaram a usá-la para fins medicinais. Foram perseguidos, presos e mortos pelo plantio e pelo uso. Hoje trabalhar e ter essa associação é uma reparação, é um dever que a sociedade e o Estado brasileiro têm com os povos indígenas”, afirma.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O caminho para a autorização judicial</h2>



<p>Embora a associação já esteja formalizada, o caminho até o cultivo efetivo ainda deve levar alguns anos. Atualmente não existe no Brasil um marco regulatório consolidado para associações de maconha medicinal produzirem seus próprios medicamentos. Segundo a advogada da Aliança Medicinal e vice-presidente da Comissão de Cannabis Medicinal e do Cânhamo Industrial da Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE), Lyane Menezes, as autorizações existentes têm sido obtidas por meio de decisões judiciais.</p>



<p>“Não existe hoje um caminho regulatório consolidado. O que existe são autorizações obtidas judicialmente, seja por ações cíveis ou por habeas corpus coletivos”, explica. Segundo ela, existem mais de 300 associações de cannabis no Brasil, mas apenas cerca de 30 conseguiram autorização judicial para cultivar a planta.</p>



<p>O primeiro passo dos pankará foi constituir juridicamente a associação. Agora lideranças indígenas participam de processos de formação técnica e científica para estruturar o projeto. Na última semana, um grupo formado por lideranças, entre elas agrônomos e o pajé Geraldo Leal, participou de uma capacitação na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), parceira da iniciativa. </p>



<p>Durante as atividades, professores do Departamento de Farmácia apresentaram os princípios ativos da cannabis, métodos de extração e boas práticas de fabricação de medicamentos. “Mostramos como obter preparados, extratos e outros produtos para fins medicinais que vão ajudar o povo pankará”, explica a professora Larissa Rolim, pesquisadora da cannabis sativa na UFPE.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Reunião de fundação da associação Aracauá
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“Foi muito bom aprender de cada coisa um pouquinho e conhecer a utilidade da maconha para o ser humano”, comemora o pajé Geraldo Leal.</p>



<p>Além da formação acadêmica, as lideranças visitaram, nesta quinta-feira, 18 de junho, a associação de pacientes Aliança Medicinal, em Olinda, na Região Metropolitana do Recife, onde conheceram experiências de cultivo e produção de derivados da maconha. Segundo o diretor-executivo da Aliança Medicinal, Ricardo Hazin Asfora, a próxima etapa será identificar, dentro do território indígena, os pacientes que poderão ser beneficiados pelo tratamento e capacitar os profissionais de saúde que atendem as aldeias.</p>



<p>“A associação precisa demonstrar a necessidade do uso medicinal entre os pacientes. A partir disso, o jurídico poderá ingressar com ações judiciais solicitando autorização para o cultivo&#8221;, explica. De acordo com Hazin, somente após obter autorização judicial será possível iniciar o plantio experimental e a produção dos primeiros extratos medicinais.</p>



<p>Posteriormente a associação poderá tentar integrar o chamado sandbox regulatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mecanismo criado para estudar e testar modelos de regulamentação para associações de pacientes.</p>
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		<title>Sábado, dia 30 de maio, vai ter Marcha da Maconha no centro do Recife</title>
		<link>https://marcozero.org/sabado-dia-30-de-maio-vai-ter-marcha-da-maconha-no-centro-do-recife/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 May 2026 19:39:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Cannabis sativa]]></category>
		<category><![CDATA[maconha]]></category>
		<category><![CDATA[Marcha da Maconha Recife]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Recife será palco, neste sábado (30), de mais uma edição da Marcha da Maconha, movimento que desde 2008 reúne vozes em defesa da legalização e regulamentação da cannabis no Brasil. Com concentração marcada para as 14h na Praça do Derby, os participantes seguem em passeata às 16h20 até o caranguejo da rua da Aurora, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O Recife será palco, neste sábado (30), de mais uma edição da Marcha da Maconha, movimento que desde 2008 reúne vozes em defesa da legalização e regulamentação da <em>cannabis</em> no Brasil. Com concentração marcada para as 14h na Praça do Derby, os participantes seguem em passeata às 16h20 até o caranguejo da rua da Aurora, tudo com aval das autoridades públicas e ofício devidamente enviado à Polícia Militar.</p>



<p>O tema deste ano é direto: &#8220;Usuário não é criminoso: em luta por liberdade, reparação e direitos&#8221;. A ideia é colocar em debate as consequências das políticas de drogas no Brasil e como a criminalização tem atingido, sobretudo, negros e periféricos. “A chamada guerra às drogas nunca foi sobre substâncias. Foi e segue sendo uma política de controle social, que criminaliza e encarcera em massa corpos negros e periféricos”, afirma Joanna Santos, uma das organizadoras.</p>



<p>A marcha, que acontece desde 2008 e é uma das mais antigas do país, chega em um momento crucial: o debate em torno da PEC 45, a chamada &#8220;PEC das drogas&#8221;. A proposta surgiu como resposta do Senado à decisão do Supremo Tribunal Federal que descriminalizou o porte de maconha para consumo pessoal — até 40 gramas ou seis plantas fêmeas. Mas a PEC 45 incluiu na Constituição a criminalização da posse de qualquer quantidade de droga, deixando ao juiz a decisão de quem é usuário e quem é traficante.</p>



<p>Entre as pautas da marcha estão o fim do proibicionismo, a descriminalização de usuários, a legalização da cannabis com justiça econômica, o desencarceramento por crimes sem violência, a reparação histórica às populações criminalizadas, o cultivo doméstico e associativo, o acesso à cannabis medicinal e políticas de redução de danos.</p>



<p>Joanna reforça que o impacto da política proibicionista é ainda mais violento para mulheres negras, periféricas, pessoas trans, travestis, não binárias e LGBTQIAPN+. &#8220;São esses corpos que sustentam famílias diante do encarceramento em massa, enfrentam a violência institucional e muitas vezes são criminalizadas em contextos de sobrevivência.&#8221;</p>



<p></p>
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		<title>Acompanhamos uma reunião de grupo de apoio a viciados em apostas online e jogos de azar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Géssica Amorim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 May 2026 20:22:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[bets]]></category>
		<category><![CDATA[endividamento]]></category>
		<category><![CDATA[Jogadores anônimos]]></category>
		<category><![CDATA[Jogos online]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Acostumada com a incessante publicidade de bets em outdoors, no celular, comerciais de TV, merchandising em canais de YouTube, camisas de jogadores de futebol, eventos públicos e até em blocos de carnaval, me chamou a atenção, quando caminhava pelas ruas de Caruaru, a discreta placa informando dia e hora das reuniões dos Jogadores Anônimos (JA) [&#8230;]</p>
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<p>Acostumada com a incessante publicidade de bets em outdoors, no celular, comerciais de TV, <em>merchandising</em> em canais de YouTube, camisas de jogadores de futebol, eventos públicos e até em blocos de carnaval, me chamou a atenção, quando caminhava pelas ruas de Caruaru, a discreta placa informando dia e hora das reuniões dos Jogadores Anônimos (JA) na frente da Associação Municipal Espírita. Entrei, bati na porta, me apresentei como jornalista e perguntei se poderia acompanhar uma das reuniões. Recebi &#8220;sim&#8221; como resposta e o resultado vocês vão ler a partir de agora.<br><br>Desde que foi inaugurado, em 24 de março de 2025, o grupo de apoio JA de Caruaru, todos os sábados, a partir das 18h, recebe e acolhe pessoas do município e de outras cidades do Agreste que sofrem com a compulsão por jogos de azar e apostas online. Localizado na Avenida Professor José Leão, nº 567, no bairro Maurício de Nassau, o grupo funciona sob uma dinâmica conhecida como &#8220;terapia de espelho&#8221;, onde cada dependente tem um tempo determinado para relatar seu histórico e dificuldades enfrentadas com o vício, enquanto os demais escutam em silêncio e refletem sobre a própria compulsão. Ali, estão pessoas que apostam compulsivamente em jogos de cartas, dominó, jogo do bicho, cassinos online e inúmeros outros jogos de azar virtuais propagados pelas bets por toda parte.</p>



<p>Recentemente, participei de uma das reuniões do JA em Caruaru e conheci Alberto José, 42, e Lucilia Marcelino, 34, frequentadores do grupo que compartilham relatos de compulsão por jogos online que mostram como a ilusão de ganho rápido e constante vendida pelas plataformas de jogos online são uma armadilha para destruição financeira, emocional e social.</p>



<p>Pela manhã, Alberto trabalha como recepcionista numa clínica de psicologia e, a partir das 17h, como motorista de aplicativo. Boa parte do dinheiro que recebe se dedicando a estas duas funções vai direto para plataformas de apostas. O que sobra, fica para despesas pessoais essenciais e para ajudar a manter a casa onde vive com um sobrinho universitário. Alberto revela que tem vivido no limite, lutando para equilibrar as contas e buscando saídas para controlar a compulsão. “Eu tenho essas fontes de renda e, mesmo assim, não tenho nada. Todo o meu dinheiro some instantaneamente. Graças a Deus, eu tenho conseguido manter as contas de casa e a alimentação. Mesmo assim, aos trancos e barrancos”.</p>



<p>Alberto é um integrante recente do JA, faz poucas semanas que começou a participar das reuniões. Buscou a ajuda do grupo por perceber que a sua compulsão estava evoluindo para uma crise financeira e pessoal que poderia se tornar irreversível. Ele chegou a apostar, de uma vez, todo o dinheiro que recebeu depois de um mês de trabalho. Deixou de pagar o aluguel, comprar comida e honrar outras dívidas que tinha. “Precisei apostar todo o meu salário de uma vez, deixar de pagar as minhas contas, pra parar e me perguntar aonde eu estava chegando. Aí, eu procurei ajuda, um freio pra mim. Foi aí que encontrei o JA aqui em Caruaru. Vindo pra cá, participando das reuniões, eu me sinto mais leve, sabe? Você consegue desabafar, colocar pra fora tudo aquilo que está te sufocando”.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Gessica-bets-1024x693.jpeg" alt="A imagem mostra dois chaveiros plásticos transparentes sobre um tecido vermelho. Cada chaveiro tem detalhes coloridos — um com partes vermelhas e outro com amarelas — e contém um pequeno cartão branco com o desenho de duas mãos se cumprimentando, símbolo de apoio e solidariedade. Abaixo do desenho, lê-se o endereço “www.jogadoresanonimos.org.br”, indicando que são materiais do grupo Jogadores Anônimos, voltado à recuperação de pessoas com dependência em jogos." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Alberto e Lucília contaram suas histórias, mas pediram para não serem fotografados
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Géssica Amorim/Marco Zero Conteúdo</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Na busca por frear a sua compulsão pelas apostas, Alberto também chegou a bloquear o próprio CPF em todas as plataformas de jogos online ativas no país. Foi utilizando a <a href="https://www.gov.br/fazenda/pt-br/composicao/orgaos/secretaria-de-premios-e-apostas/autoexclusao">Plataforma Centralizada de Autoexclusão</a>, lançada pelo Governo Federal em dezembro de 2025. Um sistema que permite que você impeça, de uma só vez, que o seu próprio CPF tenha acesso a todos os sites de apostas autorizados a operar no Brasil. Mesmo assim, bloqueado em todas casas de apostas nacionais, Alberto não conseguiu parar de apostar. Ele buscou plataformas estrangeiras, que operam ilegalmente por aqui. “Hoje, eu ainda aposto. Estou buscando formas de me livrar disso, mas ainda não consegui parar de apostar. Bloqueei o meu CPF em casas de apostas brasileiras, mas procurei e passei a jogar nas plataformas chinesas. E elas não têm essa opção de bloqueio, não dá pra tentar parar assim. Elas estão ativas e a todo vapor”.</p>



<p>Segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, órgão responsável por autorizar, regulamentar e fiscalizar empresas do setor, no ano passado, mais de 25 mil sites ilegais de apostas online foram bloqueados no Brasil e 25,2 milhões de brasileiros fizeram apostas online. Lançada no início de dezembro do ano passado, apenas nos primeiros 40 dias após o lançamento, a Plataforma Centralizada de Autoexclusão recebeu mais de 217 mil pedidos de bloqueio.</p>



<p>Alberto começou a apostar através de um link de indicação que recebeu de um amigo. Ele conta que o início foi despretensioso, que começou fazendo pequenas apostas, de valores baixos, e usava o jogo ao final do dia, depois do trabalho, como uma forma de &#8220;relaxar” e “se distrair&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Sem controle, sem salário</h2>



<p>Já Lucília Marcelino, que frequenta o JA de Caruaru desde a sua fundação, começou a jogar em sites de apostas em abril de 2022, depois de perder o emprego. Ela foi atraída por propagandas que vendiam as plataformas não como jogos de azar ou apenas diversão passageira, mas como oportunidade de ter uma fonte de renda extra. Até aquele momento, ela nunca havia se aproximado de nenhum tipo de jogo de azar. “Eu nunca joguei, sempre detestei jogo. Mas, em abril de 2022, eu estava desempregada. E vendo aquelas propagandas na televisão, no Instagram, que aquilo ali também poderia ser uma fonte de renda, vi ali uma oportunidade”.</p>



<p>Como muitos apostadores que, inicialmente, enxergam as bets como um caminho para conseguir renda extra, Lucília também pensou que havia encontrado uma forma rápida, fácil e sustentável de ganhar dinheiro, acreditando que poderia controlar as suas perdas e ganhos. “Aí, eu me cadastrei e coloquei R$10. Desse valor, a plataforma me deu R$100. No outro dia, coloquei mais R$10 e ganhei R$200, depois R$500. E aquilo ali foi me deslumbrando de uma forma que eu dizia: &#8216;rapaz, eu passei a minha vida inteira estudando, trabalhando, para ganhar um salário mínimo, e aqui em poucos minutos eu ganho isso?&#8217; “.</p>



<p>Segundo levantamento da<a href="https://tunad.io/blog/bets-investem-mais-de-r-14-bilhao-em-midia-em-2025-e-reforcam-a-centralidade-da-tv-aberta/">Tunad,</a> plataforma que monitora o mercado publicitário com forte presença e cobertura nos principais mercados da América Latina, em 2025, as bets investiram mais de R$ 1,44 bi em propaganda. É o que podemos descrever como um fenômeno de onipresença publicitária: as casas de apostas estão estampadas nas camisas do times de futebol, nos intervalos da tv aberta, no rádio, nas ruas e no bombardeio de anúncios nas redes sociais, por onde capturam mais usuários.</p>



<p>Mesmo depois de voltar a trabalhar, Lucília continuou apostando. Ela conta que conseguiu um emprego de operadora de telemarketing e que, algumas vezes, chegou a apostar todo o seu salário de uma vez. “O salário caía à meia noite. Quando dava uma hora, uma e meia da manhã, eu já tinha zerado a conta. Não conseguia dormir enquanto eu não jogasse até o último centavo. Eu passava o resto do mês chorando, desesperada, sem saber como ia pagar o aluguel. Pedia dinheiro emprestado, fazia cartão de crédito no nome dos outros pra tentar recuperar o que tinha perdido em uma hora”.</p>



<p>Lucília começou a perder o controle da sua rotina, deixou de render no trabalho, passou a não dormir e até chegou a abandonar hábitos de higiene pessoal. “Eu passava a noite inteira jogando. No outro dia, eu estava no trabalho cochilando. Era acordada pelo supervisor. Perdi o amor próprio, eu deixei de escovar os dentes, de tomar banho. Eu vinha para o JA com uma calça rasgada porque não tinha dinheiro pra comprar roupa. Tudo o que eu conseguia, era pro jogo”.</p>



<p>Ela passou dois anos afastada do trabalho. Ao procurar ajuda psiquiátrica, depois de tentar suicídio por duas vezes, recebeu um laudo de ludopatia (doença caracterizada pelo vício incontrolável em jogos de azar). &#8220;Chegou num ponto que eu não via mais saída. A dívida dobrando, o nome sujo, o desespero de ter envolvido a minha família, meus irmãos, em tudo isso&#8230; Eu não aguentava mais esse peso. Foi aí que tentei o suicídio duas vezes, uma em julho de 2023 e outra agora, no começo do ano. Eu queria sumir, eu queria que aquela dor parasse.&#8221;</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Gessica-bet-3-1024x679.jpeg" alt="A imagem mostra uma sala de reuniões simples e organizada, com cadeiras pretas alinhadas voltadas para uma parede onde há cartazes com mensagens de apoio e reflexão, incluindo a Oração da Serenidade, os Doze Passos e as Doze Tradições, textos tradicionais de grupos de recuperação como Jogadores Anônimos e Alcoólicos Anônimos. Na frente da sala, uma mesa coberta com toalha vermelha exibe folhetos coloridos, documentos e um frasco de álcool em gel, indicando preparação para uma reunião. O ambiente é iluminado por lâmpadas fluorescentes, possui ventiladores de parede e um relógio." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Grupo se reúne em sala cedida pela Associação Espírita de Caruaru
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Géssica Amorim/Marco Zero Conteúdo</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A intervenção médica, o diagnóstico e o encontro com o JA foram determinantes para que Lucília conseguisse o apoio e compreensão da sua família para tentar se restabelecer psicológica e financeiramente. “Foi quando todo mundo entendeu que eu estava doente, que não era frescura, safadeza minha. Eu precisava de tratamento médico e de um grupo como o JA para conseguir sobreviver&#8221;.</p>



<p>Mesmo em tratamento e comparecimento regular às reuniões do grupo de Jogadores Anônimos de Caruaru, Lucília ainda está suscetível a recaídas. Para driblá-las, ela conta com o apoio do JA e, com adaptações, conseguiu uma maneira de administrar o próprio dinheiro. Hoje, ela procura não ter acesso remoto a contas bancárias e não utilizar o Pix para realizar transações ou receber qualquer quantia. “Eu não tenho Pix. Meu irmão é quem toma conta do meu dinheiro. Quando dá cinco horas da manhã, que entra algum dinheiro na minha conta, me dá uma agonia tão grande, que eu transfiro logo pra conta dele. Eu sei que, se o dinheiro ficar ali, a doença vai me dominar. E eu, hoje, só ando com dinheiro em papel”.</p>



<p>O programa de recuperação de JA, inspirado no modelo dos Alcoólicos Anônimos (AA), tem ajudado Alberto e Lucília a encontrarem diariamente o resgate da dignidade na vida cotidiana. Com base na partilha e vigilância constante, seguindo o lema “só por hoje”, a regra número um da irmandade para fragmentar o tempo e evitar a ansiedade, focando apenas no dia de hoje, no presente.</p>



<p>“A vitória maior, pra mim, é eu saber que hoje eu passei no mercado e fiz a feira da minha casa. Coisa que não fazia, não podia fazer. Passei três anos sem saber o que era fazer uma feira, comprar um desodorante, comprar um sabonete, um xampu. Agora, deito na minha cama e durmo em paz. Não tem dinheiro no mundo que pague a minha paz hoje&#8221;, celebra Lucília.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Quem são os Jogadores Anônimos </span>

		<p><!-- wp:paragraph -->O primeiro grupo de Jogadores Anônimos foi fundado em 24 de janeiro de 1957, em de Los Angeles, na Califórnia (EUA). A sua metodologia foi totalmente inspirada nos Alcoólicos Anônimos (AA), que já operava desde 1935, também nos Estados Unidos. No Brasil, as atividades oficiais dos Jogadores Anônimos tiveram início em  maio de 1993, com a fundação da primeira célula no Rio de Janeiro. Hoje, são dezenas de grupos espalhados pelo país.</p>
<p>Do AA, o JA adotou o conceito clínico e humanitário de que a compulsão não é uma falha de caráter, mas uma doença progressiva, que é incurável, mas controlável. O seu programa de reabilitação está estruturado de uma maneira a oferecer uma resposta terapêutica aos seus integrantes em duas frentes simultâneas. Uma imediata, focada na interrupção do ciclo de apostas e perdas, e outra de longo prazo, voltada para a reestruturação psicossocial e o tratamento das causas da dependência.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph -->O método não se baseia em conceitos abstratos de força de vontade, mas sim em diretrizes práticas e comportamentais projetadas para devolver a autonomia e a dignidade aos integrantes do grupo.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph -->É possível saber mais sobre os 12 passos para recuperação, as regras e garantias de anonimato e locais para encontros presenciais e virtuais acessando o <a href="http://www.jogadoresanonimos.com.br">www.jogadoresanonimos.com.br</a></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<p></p>
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		<title>Receita de empatia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 May 2026 15:24:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[petrolina]]></category>
		<category><![CDATA[saúde da família]]></category>
		<category><![CDATA[saúde pública]]></category>
		<category><![CDATA[SUS]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em postagens nas redes sociais, repercutem as reportagens sobre um médico de Saúde da Família de Petrolina na Folha de S. Paulo, Globo, Record, Correio Braziliense. Há motivos para tamanha notoriedade: ele criou uma ferramenta online para elaborar receitas que facilitam a vida dos pacientes, ajudando as pessoas analfabetas ou com pouco letramento a entender [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em postagens nas redes sociais, repercutem as reportagens sobre um médico de Saúde da Família de Petrolina na Folha de S. Paulo, Globo, Record, Correio Braziliense. Há motivos para tamanha notoriedade: ele criou uma ferramenta online para elaborar receitas que facilitam a vida dos pacientes, ajudando as pessoas analfabetas ou com pouco letramento a entender o passo a passo do tratamento.</p>



<p>A tal ferramenta se traduz em um site chamado <a href="https://www.cuidadoparatodos.com.br/sobre" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Cuidado para Todos</a> e possibilita aos médicos gerarem prescrições com desenhos, ícones e adesivos no lugar daqueles garranchos incompreensíveis. Em uma das matérias publicadas leio que o médico se chama Lucas Cardim e que, antes de criar o sistema com ajuda de um amigo de infância que hoje trabalha na Suíça como engenheiro de software do Google, ele perdia um tempão desenhando xícaras, sol, lua e colheres no receituário de papel.</p>



<p>As receitas desenhadas a mão já tinham rendido alguma repercussão em blogs locais, mas agora foi pra valer, viralizou a tal ponto que <a href="https://www.youtube.com/@drauziovarella">Dráuzio Varela o convidou para participar de um podcast em São Paulo</a>, gravado na terça-feira, 5 de maio. Na véspera, ele gravou sua participação no programa Caldeirão do Mion, da Rede Globo.</p>



<p>Vida de celebridade. Ou subcelebridade. No entanto, nada mais distante da personalidade e dos objetivos desse sujeito.</p>



<p>Depois que li as notícias e conversei um pouco com Cardim, percebi que o Cuidado para Todos é a síntese das motivações que levaram Cardim a fazer o Enem para Medicina, anos depois de concluir sua primeira graduação em Jornalismo.</p>



<p>Foi nessa época em que o conheci, quando fizemos juntos um livro para o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Ele como fotógrafo e eu como escriba, percorremos Alagoas para contar o que estava por trás da redução dos números da mortalidade infantil. Graças aos burocratas da agência das Nações Unidas em Brasília, o que devia ser um instigante livro-reportagem se tornou um calhamaço burocrático, tão aborrecido quanto pretensioso. Mas isso é outra história, um mero comentário ácido repleto de recalque ou ressentimento.</p>



<p>O que importa agora é contar que as dezenas de visitas que fizemos a postos de saúde em vilarejos na beira de estrada e UTIs em maternidades públicas alagoanas encerraram a carreira do repórter-fotográfico Lucas Cardim e o levaram à medicina.</p>



<p>“Não sou capaz de melhorar a vida das pessoas com a fotografia, vou estudar para cursar Medicina. Como médico vou poder fazer alguma coisa”. Foram essas suas palavras – ou quase – quando me contou sobre a decisão que tomara. Não sei dizer se a maior inspiração veio do sentimento de indignação diante do péssimo exemplo de um médico que só aparecia uma vez por semana numa unidade de saúde em Santana do Ipanema ou do respeito diante do pediatra que dobrava plantões na UTI do hospital de Arapiraca.</p>





<h2 class="wp-block-heading">Do sonho à prática</h2>



<p>Mais de uma década depois, não me surpreendi ao ver seu nome associado à preocupação com as camponesas e camponeses que atende no posto de saúde de Bebedouro, zona rural de Petrolina, onde vive desde que se formou na Universidade Federal do Vale do São Francisco.</p>



<p>Mais do que se preocupar, ele não ficou paralisado, salivando indignação, esperando algo ou alguém aparecer com alguma solução. Ele correu atrás, imaginou uma saída e mobilizou gente que seria capaz de, assim como ele, trabalhar de graça para tornar realidade a ideia que concebeu.</p>



<p>Ele não acredita em soluções individuais ou milagres particulares. Agora, depois e arrumar um jeito de melhorar as receitas que passa para os pacientes, quer transformar isso em política pública, quer que outras pessoas sejam beneficiadas, quer motivar outros colegas médicos e médicas a usarem o site.</p>



<p>Isso é puro suco de Lucas Cardim.</p>



<p>“O acesso é gratuito, qualquer profissional de qualquer local do Brasil pode acessar e usar. Estamos conversando com o Ministério da Saúde para doar os códigos e fazer toda a transferência de tecnologia para o SUS”, explica. Inicialmente, ele me disse que outros dez municípios de Alagoas, Bahia, Pernambuco, Piauí, Santa Catarina, Sergipe e São Paulo estão treinando os profissionais de saúde de suas respectivas redes para usar a ferramenta. Depois de gravar o podcast com Varela, me enviou um áudio pelo zap dizendo que Davi Rios, seu amigo do Google na Suíça atualizou os dados de acesso e uso da plataforma: agora são pelo menos 200 médicos usando os formulários de receitas em 22 estados brasileiros.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:38% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="973" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Cardim-Drauzio-973x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-75366 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Cardim-Drauzio-973x1024.jpeg 973w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Cardim-Drauzio-285x300.jpeg 285w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Cardim-Drauzio-768x808.jpeg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Cardim-Drauzio-150x158.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Cardim-Drauzio.jpeg 1253w" sizes="auto, (max-width: 973px) 100vw, 973px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>No áudio, sua voz estava cansada. Foram vários voos, um atrás do outro, engarrafamentos em São Paulo e Rio de Janeiro, filmagens cansativas. “Estou indo pro aeroporto, não vejo a hora de voltar para casa, colocar meu filho para dormir e, depois, retomar os atendimentos”.</p>
</div></div>



<p></p>



<p>Quando fala em voltar ao trabalho, Cardim está se referindo a consultas que podem durar mais de uma hora com os homens, mulheres e crianças do Bebedouro que costuma ir à unidade de saúde da família local. Sim, é isso mesmo que você leu: consultas de mais de uma hora de duração no SUS, algo que é raro até mesmo em clínicas particulares. No Recife mesmo, sei de médicos especialistas que chegam numa policlínica da prefeitura da zona norte às 7h da manhã, atendem 30 pacientes no <em>vapt-vupt</em> e, às 8h, estão de saída, direto para seu consultório privado. E ai de quem ousar cobrá-los por um atendimento decente.</p>



<p>O posto do Bebedouro não é uma unidade básica de saúde tão básica assim. Por insistência dele, a secretária de saúde e o curso de Medicina da UFPE assinaram um convênio vinculando a unidade ao programa de residência médica de Medicina da Família e Comunidade. Assim, ele recebe alunos e alunas, atuando como preceptor. </p>



<p>O detalhe é que as três impressoras do posto usadas para imprimir os relatórios dos residentes e as próprias receitas geradas no site Cuidado para Todos foras compradas por Cardim. Aliás, conversei com outros dois profissionais da rede municipal de saúde de Petrolina que, para usar a ferramenta, também tiveram que levar suas respectivas impressoras para o local de trabalho.</p>



<p>A assessora de imprensa da secretaria municipal de Saúde, todavia, me garantiu que &#8220;já está na fase final de aquisição dos equipamentos necessários para a expansão do projeto. Assim que os aparelhos chegarem, a implantação será iniciada de forma gradativa em toda a rede municipal de saúde”. Petrolina conta com 57 Unidades Básicas de Saúde e seus 420 mil habitantes têm 85% de cobertura da Estratégia Saúde da Família.</p>



<p>Lucas Cardim não espera pela burocracia do serviço público. Mesmo admitindo que é preciso discutir &#8220;como outras boas ideias podem desaparecer no abismo que existe entre a assistência e a gestão&#8221;, ele continua sonhando alto. No texto de apresentação da plataforma que criou, ele revela que &#8220;sonha em transformar a Unidade Básica do Bebedouro em uma Unidade Escola Rural, incluindo a agricultura de subsistência e alimentação saudável como parte indissociável dos cuidados em Saúde&#8221;.</p>
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		<title>Maior pesquisa da América Latina sobre saúde das mulheres está sendo realizada no Recife</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Dec 2025 20:51:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[covid]]></category>
		<category><![CDATA[saúde]]></category>
		<category><![CDATA[zika]]></category>
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<p>Em menos de dez anos, Pernambuco viveu duas novas epidemias, a da zika e a da covid-19. Desde 2020, uma pesquisa investiga os impactos dessas epidemias na saúde reprodutiva de mulheres pernambucanas. Na atual etapa, o estudo DeCode Zika e Covid (DZC) pretende entrevistar mais de duas mil mulheres de 23 a 39 anos, de várias localidades do Grande Recife.</p>



<p>O estudo, que segue até 2029, é financiado pela Universidade da Pensilvânia e liderado pela demógrafa brasileira Letícia Marteleto. “O estudo começou com a crise da microcefalia, que atingiu as mulheres grávidas na epidemia de zika. Quando a pandemia da covid começou em 2020 tínhamos duas opções: ou desistir da pesquisa ou incorporar a covid ao estudo. A pesquisa foi então reformulada para incluir a covid-19 e outras arboviroses, investigando como essas crises de saúde pública afetam as decisões reprodutivas e o acesso a serviços de saúde”, disse a socióloga Ana Paula Portella, que coordenou o estudo no Brasil até o final de outubro deste ano.</p>



<p>Como a pandemia da covid-19 teve mais impacto na população, a pesquisa ganhou mais profundidade. “Durante a pandemia, por exemplo, o Sistema Único de Saúde (SUS) foi intensamente afetado, o que pode ter levado à falta de contraceptivos ou à impossibilidade de atendimento médico e de enfermagem para procedimentos como o uso de implantes hormonais”, disse a socióloga, sobre uma das investigações da pesquisa. “O medo de sair de casa ou o fechamento/redirecionamento de postos de saúde para o atendimento de pacientes com covid durante os períodos de lockdown, fez com que mulheres deixassem de usar métodos contraceptivos”, afirmou.</p>



<p>A interrupção no uso de contraceptivos deixou as mulheres pernambucanas mais expostas ao risco de uma gravidez não planejada. “A pesquisa também investiga o que aconteceu quando essas gestações indesejadas surgiram, e se foram levadas a termo ou não”, contou.</p>



<p>As pesquisadoras afirmam que a DZC é o maior estudo em painel com mulheres da América Latina. “A pesquisa em painel é um tipo de estudo que se caracteriza por acompanhar o mesmo grupo de participantes em diferentes momentos ao longo do tempo. No contexto da nossa pesquisa, isso significa que o mesmo grupo de mulheres está sendo acompanhado desde a primeira onda de coleta de dados em 2020, com planos de continuar até 2029”, explicou Ana Paula.</p>



<p>Uma característica inerente a esse tipo de pesquisa é que há uma perda de participantes ao longo do tempo, que pode acontecer desde mudança no contato e desinteresse em continuar respondendo à pesquisa até adoecimento ou falecimento das participantes. Para mitigar essa perda e manter a representatividade da amostra, é comum em estudos de painel realizar uma renovação da amostra. “Estamos na quarta onda desta pesquisa e, além de continuar acompanhando as mulheres desde 2020, uma nova amostra de 2.400 mulheres começou a ser entrevistada para renovar o grupo de estudo. A partir da onda número 5, as duas amostras serão combinadas em uma única”, disse a pesquisadora.</p>



<p>Com a pesquisa nesta fase concentrada na Região Metropolitana do Recife, os condomínios verticais têm sido um obstáculo para encontrar as participantes. “Porteiros ou síndicos frequentemente barram a entrada da equipe de pesquisa antes mesmo que eles consigam falar com os moradores dos apartamentos sorteados. Para tentar contornar isso, temos enviado cartas, ido aos prédios para conversar com síndicos e empresas, e também são disponibilizados telefones e o site da pesquisa para garantir a segurança e a ética do trabalho”, disse Portella, que faz um apelo para que as mulheres contactadas atendam as entrevistadoras.</p>



<p>A DZC contratou a empresa Datamétrica, cujas entrevistadoras usam crachá com nome e foto, e portam uma carta de apresentação da Universidade da Pensilvânia. Há também um QR Code com informações da pesquisa para que as pessoas possam verificar a autenticidade e se sintam seguras em participar. Essa etapa de entrevistas segue até dezembro deste ano.</p>



<p>Ainda que o estudo final só saia em 2029, a pesquisa DZC já publicou 18 artigos sobre o tema. Um deles se debruçou sobre o impacto da perda de renda das mulheres durante a pandemia de covid e a intenção de ter ou não filhos. A pesquisa concluiu que a ideia de adiar a gravidez ou de não ter mais filhos dependia, parcialmente, se a mulher já havia sido mãe ou não. As que não tinham filhos, eram mais inclinadas a engravidar logo e a perda de renda não fazia diferença. As que já eram mães, tinham diferentes opiniões, a depender da perda ou não de renda.</p>



<p>A pesquisa também constatou que as mulheres que eram mães e perderam renda eram mais inclinadas tanto a desistir de ter filhos quanto a adiar uma nova gravidez. E mães de duas ou três crianças que tiveram perda na renda eram as mais propensas a desistir de ter outra criança. Todos os artigos já publicados estão disponíveis no site, <a href="https://web.sas.upenn.edu/dzc-en/papers/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">somente na versão em inglês</a>.</p>



<p>A ideia é de que a pesquisa ajude a fomentar políticas públicas voltadas para a saúde reprodutiva das mulheres brasileiras e seja um guia no caso de futuras epidemias. Mais informações sobre a pesquisa estão disponíveis no site do projeto em português: <a href="https://web.sas.upenn.edu/dzc-pt/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://web.sas.upenn.edu/dzc-pt/</a></p>
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