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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Novo semiárido passa no teste da maior seca da história</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Jul 2018 13:03:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pela primeira vez na história, uma grande seca chegou ao final sem mortes, saques ou migração massiva para as metrópoles. E não foi uma seca qualquer: a estiagem que começou em 2012 e, namaior parte do semiárido, terminou com as chuvas do primeiro semestre deste ano é considerada como a mais duradoura desde que o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Pela primeira vez na história, uma grande seca chegou ao final sem mortes, saques ou migração massiva para as metrópoles. E não foi uma seca qualquer: a estiagem que começou em 2012 e, namaior parte do semiárido, terminou com as chuvas do primeiro semestre deste ano é considerada como a mais duradoura desde que o fenômeno começou a ser monitorado, em 1845.</p>
<p>A seca pôs à prova as políticas públicas implantadas a partir de 2003 e as estratégias de convivência do semiárido adotadas pela sociedade civil a partir do final dos anos 1990, que resultaram na construção de 1,2 milhão de cisternas.</p>
<p>Estudioso do fenômeno e autor do livro <em>A invenção do Nordeste</em>, o professor de História da UFPE e UFRN, Durval Muniz, afirma que o batismo de fogo das novas condições do semiárido foi superado:</p>
<p>“O fortalecimento da economia local, gerada pelo Bolsa Família e pelo fortalecimento do salário mínimo, reduziu a importância da pecuária e das culturas de subsistência inadequadas para o região. E as tecnologias apropriadas, espalhadas por toda a região, garantiram água e alimentos para as famílias”.</p>
<p>“A imprensa não noticiou para não dar visibilidade às profundas mudanças provocadas pelo Governo Lula numa região vista como inviável e sem solução por séculos”.</p>
<p><iframe src="https://cdn.knightlab.com/libs/timeline3/latest/embed/index.html?source=1yb0W1gCLPpnASVwUmKWev_rac_IG6Sudps0JRL2TCAs&amp;font=Default&amp;lang=en&amp;initial_zoom=2&amp;height=650" width="100%" height="650" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<h2><strong>Dinheiro circulando</strong></h2>
<p>De acordo com os números disponíveis no Instituto Nacional do Semiárido (INSA), em 2012, no início da estiagem, 3,4 milhões de famílias recebiam R$ 518 milhões do programa Bolsa Família. Juntando esse valor aos R$ 2,1 bilhões (80% de verbas federais) movimentados pela Articulação do Semiárido (ASA) desde 2000 para construir cisternas e outras tecnologias, é possível ter ideia de como os efeitos da seca puderam ser minimizados.</p>
<p>O sociólogo Antônio Barbosa, um dos coordenadores de programas da ASA, conta que “a maior parte desses recursos foram gastos na região, com a remuneração dos agricultores capacitados para construir cisternas e compra de matéria-prima e ferramentas no comércio dos municípios”.</p>
<p>Das 1,2 milhão de cisternas existentes hoje na região, pelo menos a metade (622 mil) foi construída pela ASA. A outra metade foi viabilizada por meio de convênios individuais entre os governos estaduais e as ONGs que integram a ASA.</p>
<p>O golpe de 2016 e o governo Michel Temer estão colocando isso em risco. Os cortes de R$ 3 bilhões no Bolsa Família afetam diretamente a região, bem como a redução de 84% dos recursos para a Segurança Alimentar e Nutricional.</p>
<p>A Marco Zero Conteúdo entrou em contato com a titular da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Lilian Rahal, mas ela não respondeu às perguntas enviadas.</p>
<p><iframe style="overflow-y: hidden;" src="https://create.piktochart.com/embed/31394172-new-piktochart" width="824" height="1093" frameborder="0" scrolling="no"></iframe></p>
<h2><strong>O grande salto</strong></h2>
<p>A soma dessas pequenas soluções contribuiu para elevar o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de toda a região. Considerando apenas os estados do Nordeste, os pesquisadores Uirá Araújo Nery da Cunha e Liliane Caraciolo Ferreira, do Núcleo de Pesquisa e Estudos Socioeconômicos do Semiárido, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), constataram que o IDH a região saltou de 03931,em 1991, para 0,6598 em 2010. O crescimento foi de 67,83%. No resto do País, a evolução foi de 50,08%.</p>
<p>A redução da mortalidade infantil reforça a percepção do que aconteceu na região. Ao final da grande seca de 1984, a taxa de mortalidade infantil era de 113 mortes por 1000 nascidos vivos. Morriam mais bebês do que se morre hoje em dia no Afeganistão, país com a pior taxa da atualidade (111 por 1000). Em 2015, último ano em que o indicador oficial está disponível, essa taxa já era de 17,5 por 1000.</p>
<p>O filósofo e teólogo Roberto Malvezzi é testemunha dessa evolução. Quando chegou ao sertão da Bahia para atuar pela Comissão Pastoral da Terra, presenciou um saque ao comércio de Campo Alegre de Lurdes, logo no início da seca que foi de 1979 a 1983. Nos anos 90, foi publicado o primeiro estudo do IDH. Então, ele soube que o desenvolvimento humano da pequena cidade onde havia presenciado o saque era semelhante ao da África subsaariana.</p>
<p>“Não foram só os programas sociais e a captação de água de chuva que mudaram o semiárido. Houve outros esforços da sociedade civil, do povo organizado, a exemplo da agroecologia e da educação contextualizada. As ações do governo garantiram acesso à luz elétrica, telefonia celular e a construção de algumas adutoras que finalmente saíram do papel”, explica Malvezzi.<br />
<iframe src="https://www.youtube.com/embed/UDdOEOm43G4" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<h2><strong>A felicidade é verde</strong></h2>
<p>Acompanhar a visita de intercâmbio de agricultores da América Central ao semiárido da Paraíba e de Pernambuco, em junho, possibilitou ver e ouvir dezenas de homens, mulheres e adolescentes que vivem na roça repetir, em plena crise econômica e no ambiente pessimista do governo Temer, que “são felizes”, “não desejam outra vida” ou que “não se imaginam morando em outro lugar”. Frases que, melhor que os números, expressam o quanto mudou o cotidiano dessas famílias.</p>
<p>Na comunidade Sítio Carrasco, a 30 quilômetros de Campina Grande, Maria das Graças Domingos posa para fotos com orgulho diante da cisterna calçadão capaz de armazenar 52 mil litros de água da chuva (foto abaixo). Enquanto a filha estuda computação no Instituto Federal da Paraíba (IFPB) na cidade de Esperança, Nina, como é mais conhecida, e seu marido, Givaldo Firmino, trabalham sozinhos na propriedade de apenas 1,25 hectares.</p>
<p>Apesar do tamanho do sítio, a diversidade surpreende: o casal cultiva feijão, milho, cana-de-açúcar, seis variedade de laranja, quatro de limão, cajá, manga, além de um vaca leiteira e algumas galinhas. Em junho, venderam 1.600 mudas de limão galego. “No mercado eu só compro carne e material de limpeza. O resto a gente tira da terra”, conta Nina.</p>
<p>A propriedade do casal Petrônio Fernandes e Ivoneide Nunes é um pouco maior. São cinco hectares que asseguraram a criação e a educação de três filhas que participam ativamente dos trabalhos no campo. Uma delas, Petrúcia, é técnica agrícola e ajuda os pais a aplicar os princípios da agroecologia. O sítio da família em Juazeirinho (PB) é um modelo na região: a família reaproveita a água utilizada em casa para irrigar as fruteiras, introduziu plantas que servem como pesticidas naturais, aumentou a produção usando uma barragem subterrânea e comercializada os excedentes na feira de orgânicos do município.</p>
<p>A feira de Juazeirinho, aliás, é uma das 16 organizadas pela rede de entidades que trabalham e agroecologia no interior da Paraíba. O mais significativo é que essas feiras surgiram e cresceram ao longo do período de seca, assim como uma marca de produtos orgânicos, criada pela rede de organizações não-governamentais (ONGs).</p>
<p>Ivoneide costuma mostrar os detalhes para outros agricultores que a equipe da ONG Patac (Programa de Aplicação de Tecnologias Apropriadas), filiada à ASA, leva até lá. “Faço questão de compartilhar. O que eu quero para mim, quero para os outros”.</p>
<p>Petrônio diz que, durante todos os anos de seca, “nunca deixei de tomar banho de chuvisco”. Ou seja, do chuveiro abastecido por um sistema que coleta água da chuva.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/07/290618MZC_CorredorSeco033.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-large wp-image-9682" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/07/290618MZC_CorredorSeco033-1024x576.jpeg" alt="Nina e a cisterna que garante a produção em seu sítio de 1,25 hectare" width="702" height="394"></a></p>
<h2><strong>Chuva de transparência</strong></h2>
<p>Entre a assinatura de um convênio e o agricultor usar a água da chuva em sua cisterna há um processo em que participação é uma das palavras-chave. A outra é transparência.</p>
<p>Antônio Barbosa é enfático: “Sabemos de onde veio cada centavo que recebemos. Sabemos para onde foi cada centavo que usamos. Coletamos, registramos, sistematizamos e disponibilizamos para qualquer interessado os dados e as informações relativas às nossas atividades”.</p>
<p>De acordo com Barbosa, uma medida simples dos gestores da ASA ajudou a tirar da informalidade pequenos comerciantes e constituir a cidadania de agricultores que sequer tinham documentos.</p>
<p>“Não fazemos nada com pessoas que não tenham CPF. Se o agricultor for escolhido para receber alguma tecnologia, tem de tirar o CPF. O armazém que pretende vender uma simples colher de pedreiro para o programa Um Milhão de Cisternas tem de ter CNPJ, emitir notas fiscais”, assegurou o sociólogo.</p>
<h2><iframe loading="lazy" style="overflow-y: hidden;" src="https://create.piktochart.com/embed/31393646-new-piktochart" width="824" height="932" frameborder="0" scrolling="no"></iframe></h2>
<h2><strong>1,2 milhão de cisternas ainda é pouco</strong></h2>
<p>Na década de 1970, enquanto os coronéis e os políticos nordestinos ainda batiam nas portas em Brasília para “vender” estradas de ferro, rodovias, açudes imensos e outras obras mirabolantes que “solucionariam” a seca, o agrônomo Aderaldo de Souza Silva já batia na tecla que uma das soluções possíveis seria captar água das poucas e irregulares chuvas. No início, ninguém lhe deu atenção.</p>
<p>No final dos anos 1990, a insistência começou a encontrar ouvidos atentos. Pouco depois, o especialista em Segurança Hídrica que atua na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) já avaliava os impactos socioambientais das primeiras cisternas construídas.</p>
<p>“Estamos concluindo um estudo sobre esse novo semiárido. Posso lhe adiantar que defendo a continuidade do trabalho da ASA. Ainda precisamos de mais ou menos 600 mil cisternas. Com 1,8 milhão de equipamentos, será possível dizer que a seca foi superada”, afirma Souza Silva em sua sala de trabalho na Embrapa Semiárido, em Petrolina.</p>
<div class="embed-container"><iframe loading="lazy" title="Cisternas por Estado" src="//www.arcgis.com/apps/Embed/index.html?webmap=774d49ccb5f7492488739d1efcd0fa6d&amp;extent=-77.9277,-20.0936,-16.3604,2.8591&amp;zoom=true&amp;previewImage=false&amp;scale=true&amp;disable_scroll=true&amp;theme=light" width="800" height="700" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"></iframe></div>
<p><iframe loading="lazy" src="https://www.google.com/maps/d/embed?mid=1xzHkdO8hbPdVAxlNf2ltLf6bXfkArjyA" width="1024" height="768"></iframe></p>
<h2><strong>Hora de resistir</strong></h2>
<p>As consequências do golpe de 2016 já chegaram ao semiárido. Pouco menos de 4.600 cisternas foram construídas pela ASA em 2018. Já é o menor número desde o início do programa.</p>
<p>O historiador Durval Muniz acredita que as políticas de convivência com o semiárido estão prestes a ser desmontadas. “Os partidos que representam as elites da região como o antigo PFL (DEM) foram amplamente derrotados na região porque perderam o monopólio do acesso a água, perderam o controle de indicar na fazenda de quem seria perfurado o próximo poço do DNOCS”, afirma o professor.</p>
<p>Muniz ressalva que “mesmo com seus pleitos históricos por ferrovia, transposição e refinarias de petróleo sendo atendidos, a elite local apoiou e continua apoiando o golpe porque assustou-se com a mobilidade social provocada pelas mudanças&#8221;.</p>
<p>O filósofo e teólogo Roberto Malvezzi , no entanto, permanece otimista. “A política de convivência com o semiárido é resultado da unidade dos movimentos sociais em torno da ASA. Ao superar as divergências políticas para focar num objetivo, os movimentos realizaram aquilo que no ano 2000 era apenas sonho. E isso não irá se apagar, a unidade permanece”.</p>
<p>Segundo Malvezzi, outro fator que não cairá no esquecimento é a mudança de vida das pessoas. “O agricultor sabe que sua vida mudou e sabe porque mudou. Mais que cisternas, a ASA construiu resistência”, sentencia.</p>
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		<title>A grande seca do jornalismo</title>
		<link>https://marcozero.org/a-grande-seca-do-jornalismo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Jul 2018 13:02:21 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O inverno de 2018 pôs fim a uma seca que começou em 2012 (ou 2011, dependendo da região). No entanto, os leitores dos principais jornais e revistas do eixo Rio-São Paulo e o público que acompanha os telejornais da maior emissora de TV do País, mal ficaram sabendo que os 23,9 milhões de habitantes de brasileiros que vivem no semiárido enfrentaram as consequências da mais prolongada e intensa estiagem da história.</p>
<p>É bem verdade que o assunto não desapareceu do noticiário, mas quase não mereceu edições especiais, não houve deslocamento dos melhores repórteres, fotógrafos e cinegrafistas cruzando os sertões nem séries de reportagens na TV com trilha sonora dramática tal qual uma pequena telenovela. A cobertura da mídia foi protocolar, limitada na maioria das vezes à questão climática da falta de chuvas ou às consequências econômicas.</p>
<p>Não deixa de ser curioso, afinal a pauta “seca no Nordeste” era obrigatória na mídia brasileira desde julho de 1878, quando a revista carioca <em>O besouro</em> publicou as primeiras fotografias de crianças esqueléticas e os relatos de José do Patrocínio sobre os efeitos da estiagem de 1877-1879.</p>
<p>De lá pra cá, o aparato tecnológico da comunicação mudou, mas a cobertura da seca continuou a mesma, sempre marcada pelas imagens de chão rachado, carcaças de gado, crianças famintas, pedintes nas estradas e notícias de saque.</p>
<p>Pela primeira vez na história não houve mortes de crianças, nem saqueadores invadindo armazéns para levar fardos de comida para justificar. Sequer foram vistas hordas de migrantes nas estradas para justificar a viagem de enviados especiais.</p>
<p>E as matérias editadas nas redações paulistanas e cariocas não se ocuparam de decifrar o porquê da ausência desses elementos na maior seca de todos os tempos.</p>
<p><strong>Amanhã, uma reportagem multimídia da Marco Zero Conteúdo irá mostrar aquilo que a mídia preferiu esconder</strong>: como a sociedade civil está desconstruindo a <em>indústria da seca</em> ao encontrar o caminho para conviver com as prolongadas estiagens. Por ora, entenda como os principais veículos de comunicação ocultaram exatamente aquilo que, por ser inédito, deveria ser a notícia.</p>
<h2><strong>A obsessão pelos índices pluviométricos</strong></h2>
<p>A análise de dezenas de reportagens publicadas pelos principais veículos de comunicação do País (Folha de S. Paulo, Estadão, Valor Econômico, revistas da editora Abril, Rede Record e veículos das organizações Globo) mostram que, entre 2012 e 2017, boa parte do que foi publicado sobre a seca baseou-se em dois indicadores: a situação dos reservatórios de água e os índices pluviométricos, ou seja, quanto choveu e onde choveu.</p>
<p>Apesar das exceções, a cobertura da maior seca da história limitou-se a uma sucessão de boletins sobre dois números que podem ser facilmente obtidos nos sites do Instituto Nacional do Semiárido (Insa) e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).</p>
<p>Parágrafos como esse, publicado pela revista Veja em maio de 2012, iria se repetir nos anos seguintes nos demais veículos analisados: “&#8230;a maioria desta área a redução das chuvas foi em média de 75% – chegando até 92% em alguns – e a maioria dos açudes localizados no sertão está com 30% da sua capacidade”.</p>
<p>Em abril deste ano, o Jornal Nacional da Globo informava o fim da seca , anunciando que “após seis anos de seca severa, chuva muda a paisagem”. Meses antes, no final de 2017, o telejornal de maior audiência no País dava conta que “quase metade das cidades do Nordeste” estava em estado de emergência por falta d’água nos reservatórios. Tudo burocrático, bem diferente das reportagens em tom de novela melodramática com que a Globo cobriu as estiagens dos anos 80.</p>
<h2><strong>Repórter no século XX – ou XIX</strong></h2>
<p>A Record optou pelo formato que sua concorrente, a Globo, usava no século XX. Produziu uma série novelesca que, em fevereiro de 2017, ocupou uma semana completa de seu telejornal noturno. O problema é que a emissora do bispo Macedo não copiou apenas o formato: usou a linguagem de dramalhão e relatou “a grande seca” como se fosse a mesma seca de 1983, exagerando no tom catastrófico, sem fazer qualquer referência às profundas mudanças que a região passou.</p>
<p>O tom de tragédia e de “problema”, que serviu para sustentar a indústria da seca e o preconceito contra a região, não foi monopólio da Record. A revista Época, do grupo Globo, publicou no último mês de abril um ensaio fotográfico sob o título “Um ensaio sobre as terras secas do Nordeste – a porção de terra seca, sem vida e sem salvação, cresce no Nordeste”. É preciso ler os textos que acompanham as imagens para saber que se trata das regiões que sofrem processos de desertificação.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/07/Época-abr_18.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-9695 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/07/Época-abr_18.jpg" alt="Época abr_18" width="558" height="424"></a></p>
<h2><strong>Merchandising da nova indústria da seca<br />
</strong></h2>
<p>Empresários “inovadores” e empreendedores “modernos” querem renovar a indústria da seca. E contam com as ferramentas que a mídia tradicional lhes oferece.</p>
<p>Em março de 2017, o Estadão publicou em sua página de Economia &amp; Negócios uma matéria intitulada ‘Ações para minimizar a seca que persegue o Nordeste’. Estranhamente, o texto não é assinado por nenhum jornalista da empresa e sim pela Amcham Brasil. Amcham é a sigla em inglês de Câmara de Comércio dos Estados Unidos.</p>
<p>Após os parágrafos iniciais repletos de clichês, frases feitas e inevitáveis versos de <em>Asa Branca, </em>a “matéria” finalmente revela as verdadeiras intenções da Amcham: vender um produto chamado<em> PackH2O</em>, uma espécie de mochila desenvolvida por uma indústria de embalagens industriais para resolver o problema do transporte individual de água por longas distâncias. A Amcham informa que mais de 200 mil packs para já foram distribuídos para latino-americanos que vivem em situação de vulnerabilidade.</p>
<p>O texto não revela quem pagaria pelos packH2O que seriam destinados aos brasileiros.</p>
<p>Se o jornal tivesse enviado bons repórteres ao semiárido, seus leitores teriam ficado sabendo que dezenas de outras tecnologias baratas e apropriadas à região já estão em uso, mudando a vida de milhões de brasileiros.</p>
<p>O produto de marketing que utiliza o pretexto de “ajudar o nordeste” mais bem sucedido talvez seja a água mineral da Ambev, a AMA, cujo lucro está sendo direcionado para a ONG Fundção Avina, que financia um projeto de desenvolvimento sustentável no Ceará. Manchetes como “Diretora da Ambev cria água capaz de reduzir a seca no Nordeste” (revista Glamour do grupo Globo) dão ideia de como a ação promocional de uma grande empresa recebe mais espaço do que a política estruturadora que alcança toda a região.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/07/Glamour_Globo_jan18.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-9696 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/07/Glamour_Globo_jan18.jpg" alt="Glamour_Globo_jan18" width="681" height="455"></a></p>
<h2><strong>Honrosas e limitadas exceções</strong></h2>
<p>Sim, as exceções existem. Apesar de focar sua cobertura nas consequências econômicas da estiagem, como o aumento dos preços do leite e do feijão, o jornal Valor Econômico publicou matérias relevantes, apontando que a seca exige a integração de várias políticas articuladas às alternativas tecnológicas. Tal abordagem difere bastante com a busca por uma solução mágica, única e que movimenta grandes volumes de dinheiro.</p>
<p>O mesmo Estadão do merchandising da mochila de água publicou em janeiro de 2017 aquele que, provavelmente, foi o melhor material jornalístico entre todos analisados. O especial “Nordeste enfrenta maior seca em 100 anos”, apesar de também repetir alguns lugares comuns sobre o fenômeno e a região, ao menos mencionou que os programas sociais “reduziram a migração” e identificou que os projetos de agroecologia oferecem alternativas para os agricultores.</p>
<p>Mesmo assim, a reportagem especial do jornal paulista relegou a um plano secundário as informações com maior valor jornalístico, que era a transformação em larga escala promovida por mais de um milhão de cisternas de placas e centenas de milhares de outras tecnologias desenvolvidas pela sociedade civil e universalizadas pelas políticas públicas dos governos Lula e Dilma.</p>
<p>Apesar da sensibilidade dos repórteres, a edição do Estadão restringiu a nova realidade da região à dimensão de algo menor, restrita a indivíduos isolados.</p>
<p><strong>Leia também:</strong></p>
<h3><a href="http://marcozero.org/padroes-de-manipulacao-na-grande-imprensa-um-manual-para-tempos-de-crise/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="color: #ff6600;">Padrões de manipulação na grande imprensa, um manual para tempos de crise</span></a></h3>
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