Padrões de manipulação na grande imprensa, um manual para tempos de crise

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Perseu Abramo nasceu no longínquo ano de 1929 na cidade de São Paulo. Começou a exercer o jornalismo aos 17 anos em 1946. Até falecer em 1996 passou por muitas redações de jornais e revistas brasileiras e terminou seus dias se dedicando à vida acadêmica e ao estudo do jornalismo. Escreveu para os jornais A Hora, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e Movimento, entre outros. Trabalhou na revista Visão, na Rádio Eldorado e na TV Globo. Foi professor de sociologia na Universidade de Brasília e na Universidade Federal da Bahia e professor de jornalismo na PUC de São Paulo e na Fundação Armando Alvares Penteado.

Entre as diversas reflexões sobre a ética e o fazer jornalístico que produziu se destaca o ensaio Padrões de Manipulação na Grande Imprensa, publicado pela primeira vez no ano de sua morte pela Fundação que leva o seu nome. Nele, Abramo aponta os modos pelos quais a mídia corporativa falseia a realidade, invisibiliza atores sociais e descontextualiza fatos para defender interesses que não são os de seus leitores, ouvintes e telespectadores. Um manual essencial em tempos sombrios.

 Realidade

“A relação entre a imprensa e a realidade é parecida com aquela entre um espelho deformado e um objeto que ele aparentemente reflete: a imagem do espelho tem algo a ver com o objeto, mas não só não é o objeto como também não é sua imagem; é a imagem de outro objeto que não corresponde ao objeto real. A manipulação da informação se transforma, assim, em manipulação da realidade”.

 Padrões de manipulação

Padrão de ocultação

 “É o padrão que se refere à ausência e à presença dos fatos reais na produção da imprensa. Não se trata, evidentemente, de fruto do desconhecimento e nem mesmo de mera omissão diante do real. É, ao contrário, um deliberado silêncio militante sobre determinados fatos da realidade…”.

 “…todos os fatos, toda a realidade pode ser jornalística, e o que vai tornar jornalístico um fato independe das suas características reais intrínsecas, mas depende, sim, das características do órgão de imprensa, da sua visão do mundo, da sua linha editorial, do seu “projeto”.

 Padrão de fragmentação

 “A realidade é apresentada ao leitor não como uma realidade, com suas estruturas e interconexões , sua dinâmica e seus movimentos e processos próprios, suas causas, suas condições e suas consequências. O todo real é estilhaçado, despedaçado, fragmentado em milhões de minúsculos fatos particularizados, na maior parte dos casos desconectados entre si, despojados de seu vínculo com o geral, desligados de seus antecedentes e de seus consequentes no processo em que ocorrem, ou reconectados e revinculados de forma arbitrária e que não corresponde aos vínculos reais, mas a outros ficcionais e artificialmente inventados”.

 Padrão de inversão

 “Opera o reordenamento das partes, a troca de lugares e de importância dessas partes, a substituição de umas por outras e prossegue, assim, com a destruição da realidade original e a criação artificial de outra realidaddos e revinculados de forma arbitrária e que não corresponde aos vínculos reais, mas a outros ficcionais e artificialmente inventados”.

 Inversão da relevância dos aspectos

 “O secundário é apresentado como o principal e vice-versa; o particular pelo geral e vice-versa; o acessório e supérfluo no lugar do importante e decisivo; o caráter adjetivo pelo substantivo; o pitoresco, o esdrúxulo, o detalhe , enfim, pelo essencial”.

 Inversão da forma pelo conteúdo

 “O texto passa a ser mais importante do que o fato que ele reproduz: a palavra, a frase, no lugar da informação; o tempo e o espaço da matéria predominando sobre a clareza da explicação; o visual harmônico sobre a veracidade ou a fidelidade; o ficcional espetaculoso sobre a realidade”.

 Inversão da versão pelo fato

 “Não é o fato em si que passa a importar, mas a versão que dele tem o órgão de imprensa, seja essa versão originada no próprio órgão de imprensa, seja adotada ou aceita de alguém – da fonte das declarações e opiniões… Frequentemente, sustenta as versões mesmo quando os fatos as contradizem. Muitas vezes, prefere engendrar versões e explicações opiniáticas cada vez mais complicadas e nebulosas a render-se à evidência dos fatos.

 “No lugar dos fatos, uma versão, sim, mas de preferência a versão oficial. E a melhor versão oficial é a da autoridade, e a melhor autoridade, a do próprio órgão de imprensa. À sua falta, a versão oficial da autoridade cujo pensamento é o que mais corresponda ao do órgão de imprensa”.

 Inversão da opinião pela informação

 “O órgão de imprensa apresenta a opinião no lugar da informação, e com o agravante de fazer passar a opinião pela informação. O juízo de valor é inescrupulosamente utilizado como se fosse um juízo de realidade. O leitor/telespectador já não tem mais diante de si a coisa tal como existe ou acontece, mas sim uma determinada valorização que o órgão quer que ele tenha de uma coisa que ele desconhece,  porque o seu conhecimento foi oculto, negado e escamoteado pelo órgão”.

 Padrão de indução

 “Submetido, ora mais, ora menos,  mas sistemática e constantemente, aos demais padrões de manipulação, o leitor é induzido a ver o mundo não como ele é, mas sim como querem que ele o veja. A indução se manifesta pelo reordenamento ou pela recontextualização dos fragmentos da realidade, pelo subtexto – aquilo que é dito sem ser falado – da diagramação e da programação, das manchetes e das notícias, dos comentários, dos sons e das imagens, pela presença/ausência de temas, segmentos do real, de grupos da sociedade e de personagens… Depois de distorcida, retorcida e recriada ficcionalmente, a realidade é ainda assim dividida pela imprensa em realidade do campo do Bem e realidade do campo do Mal, e o leitor/telespectador é induzido a acreditar não só que seja assim, mas que assim será eternamente, sem possibilidade de mudança”.

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Sobre o autor

É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015. Atualmente presta consultoria nas áreas de planejamento em comunicação e redes sociais.

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