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	<title>Arquivos aquecimento global - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Fri, 07 Feb 2025 21:51:29 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos aquecimento global - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<item>
		<title>&#8220;Não há mais possibilidade para uma chuva de 50 ou 60 milímetros não gerar problemas nas cidades&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Feb 2025 21:48:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[aquecimento global]]></category>
		<category><![CDATA[Lapis]]></category>
		<category><![CDATA[meteorologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) é um dos centros de acompanhamento meteorológico mais importantes do Brasil. Doutor em Sensoriamento Remoto pela Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, o meteorologista Humberto Barbosa acompanha com atenção o que se passa nos oceanos e na atmosfera [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) é um dos centros de acompanhamento meteorológico mais importantes do Brasil. Doutor em Sensoriamento Remoto pela Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, o meteorologista Humberto Barbosa acompanha com atenção o que se passa nos oceanos e na atmosfera para saber como serão os invernos e verões no Nordeste. </p>



<p>Após as chuvas deste começo de fevereiro, a Marco Zero conversou com Humberto Barbosa para saber como pode ser o inverno e entender sobre a previsibilidade de eventos extremos. &#8220;Eu sempre fico perplexo de como é colocada a situação do perigo das chuvas. Mas o perigo não é no evento, o perigo está em como a nossa população está distribuída e na fragilidade de onde ela está, na falta de planejamento urbano nas cidades&#8221;, afirmou. </p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Inverno no Nordeste</strong></li>
</ul>



<p>A região Nordeste do Brasil tem vários regimes de chuva. De fevereiro a maio acontece o que chamamos de quadra chuvosa do Semiárido – o Agreste e o Sertão. O período de chuva na costa leste começa na segunda quinzena de abril, indo até julho. Normalmente, no período de novembro até janeiro, as chuvas que ocorrem no Nordeste do Brasil, principalmente no Semiárido, não dependem dos oceanos, embora eles também influenciem. Ficamos muito preocupados com o inverno deste ano, de início, porque havia muita incerteza. Para fazer essas previsões temos que analisar a situação dos oceanos – se tem El Niño, se tem La Niña –, se a região da nossa costa está aquecida e também a oscilação Madden-Julian, que é uma oscilação de curto tempo, boa para entender a aceleração ou desaceleração de alguns sistemas meteorológicos. Mas o que temos hoje é que deve ficar perto da média histórica de chuvas.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Cuidados nos dias após as fortes chuvas</strong></li>
</ul>



<p>Se eu fosse um gestor, eu ficaria muito atento à vazão dos rios, porque vai aumentar a cota de água que vai passar por algumas cidades e pode trazer riscos de inundação, a depender da geomorfologia das áreas de risco, principalmente nas áreas onde você tem uma topografia mais elevada. Independente de ter mais chuvas nos próximos dias, são áreas que precisam ser monitoradas.</p>



<p>Outro ponto que as defesas civis precisam estar atentas é em relação ao encharcamento do solo onde choveu mais. Pode não ter tido muitos deslizamentos agora porque o solo estava seco e absorveu a água dessa chuva. Mas a partir de agora o risco é alto. Nem precisa ser chuva como aconteceu nesses últimos dias, chuvas mais fracas podem provocar o desmoronamento de casas que não têm estrutura, com o solo mais encharcado vai ceder mais fácil. Pelas próximas duas semanas, pelo menos, o risco de deslizamentos segue alto.</p>



<p>Áreas em que a infraestrutura é boa, não vai ser um problema, vai ter ali alguns empecilhos, aborrecimentos com o trânsito, enfim, dentro do normal. Agora, para as áreas onde a geomorfologia, a topografia, enfim, a casa não tem uma estrutura, já está encharcada porque o muro recebeu muita água, então, uma chuva de 20, 30 milímetros, é melhor prevenir e retirar as famílias para não ter risco.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">Pode não ter tido muitos deslizamentos agora porque o solo estava seco e absorveu a água dessa chuva. Mas a partir de agora o risco de deslizamentos segue alto.</p>
</div>


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>A influência dos VCANs nas chuvas do Nordeste</strong></li>
</ul>



<p>Os Vórtices Ciclônicos de Altos Níveis (VCANs) vão ser decisivos na distribuição dessas chuvas na região do Semiárido e do Nordeste do Brasil. Os VCANs são ventos que circulam em altos níveis de forma muito intensa, na altitude de quase 10 quilômetros. A gente não sente esses ventos na superfície. Esses ventos estão ocorrendo muito intensamente na região da atmosfera e eles convergem ou divergem, podem aumentar a concentração do vapor d&#8217;água e provocar chuva. As bordas desses ventos intensos podem trazer muita chuva, enquanto o centro é seco e pode provocar temperaturas altas. A previsibilidade dos vórtices ciclônicos é muito difícil, porque eles estão associados às temperaturas da atmosfera. Não há relação entre o oceano e a atmosfera nesse período para justificar a previsibilidade dos VCANs. Mas sabemos que o período de novembro, dezembro e janeiro, principalmente dezembro e janeiro e início de fevereiro, é o pico dos VCANs.</p>



<p>Os vórtices ciclônicos podem estar localizados em áreas que, normalmente, vão trazer mais secura para todo o Nordeste, principalmente para a costa leste e o interior. Isso pode acontecer muito em janeiro e fevereiro. Mas ele pode se posicionar também em uma área ou em uma localização, principalmente ali na Bahia, e se deslocar, como aconteceu essa semana, e provocar muita chuva. Tivemos no início de janeiro para todo o Nordeste do Brasil, principalmente na costa leste e no interior, vórtices ciclônicos muito secos. Não é que eles sejam secos, mas o centro dele, que estava colocando altas temperaturas e muita irregularidade nas chuvas, tanto para a região da costa leste, que não é o período de regime de chuva. De novembro até março é o período que os vórtices ciclônicos ocorrem com maior frequência.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Como deve ser o inverno no Grande Recife e litoral</strong></li>
</ul>



<p>Não é porque choveu muito essa semana que também vai chover muito no inverno. Algumas vezes, a pré-estação traz muita chuva e a estação não traz. Ou vice-versa. Não é linear, porque esses fenômenos dependem de outras variáveis, principalmente de oceano, da atmosfera, de frentes frias que podem se aproximar, de erupções vulcânicas.</p>



<p>Há muitos fenômenos naturais e antropogênicos que vão alterar essa dinâmica. E, pior ainda, o perigo não é a chuva, é a vulnerabilidade dos lugares. No Recife, Maceió ou na Paraíba as zonas de riscos normalmente são as periferias, as regiões com menos infraestrutura de drenagem, casas em áreas de risco por conta da topografia, ou porque o solo é muito arenoso, foi desmatado.</p>



<p>Obviamente, a chuva não é o problema. É que as pessoas estão localizadas em lugares onde não deveriam estar. A nossa desigualdade social é muito grande e ela se sobressai na estação chuvosa, seja do sudeste, do sul, seja onde for. Onde está a maior desigualdade social nesse país, a estação chuvosa castiga. </p>



<p>Ainda não fizemos previsões para o inverno na costa leste do Nordeste, mas a gente chama atenção, principalmente nesse primeiro semestre, para o aumento das temperaturas porque a atmosfera também está mais quente. Além disso, o oceano também está mais quente, essa semana deu uma esfriada, mas estava muito mais aquecido na nossa costa e isso também ajuda para essas chuvas na região costeira. </p>



<p>Isso com o efeito urbano – o aumento das cidades, com cada vez mais asfaltamento, menos áreas florestadas, menos parques – fica mais quente e mais difícil a drenagem também, porque o solo não absorve parte dessa água. E aí acontece essas correntes de água muito fortes nas cidades, arrastando carro, arrastando gente, casa, enfim.</p>



<p>O que a gente vê nesse momento é que tem tudo propício para chuvas na costa leste, todos os ingredientes estão lá. No mínimo, vai ser uma distribuição na média histórica. Mas chuvas na média na costa leste sempre vão trazer problemas. Da mesma forma que a temperatura da atmosfera está ficando mais quente, as nossas cidades estão ficando cada ano com mais gente, com menos infraestrutura, com mais problemas, com menos dinheiro das prefeituras para investir em prevenção.</p>



<p> A população também não trabalha junto, joga lixo, derruba árvores. É uma combinação trágica, porque como a nossa atmosfera vai trazer essa chuva, mesmo que não seja um ano bom de inverno, isso não impede que eventos extremos aconteçam. Posso ter um ano que não choveu muito, mas três eventos foram de chuvas muito intensas. Sendo conservador, é bom que as prefeituras fiquem alertas, chuvas extremas vão acontecer, é apenas uma questão de quando e onde. O gatilho é a chuva, mas o desastre não é culpa dela. As cidades não estão preparadas para chuvas nem de 60 milímetros.</p>





<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Distribuição de chuvas no Agreste e no Sertão</strong></li>
</ul>



<p>Temos um histórico muito longo de registros, de 160 anos, sobre as informações de chuvas no Semiárido. Tirando essas secas, o que vemos é que realmente o Semiárido tem uma característica forte: há anos que chove mais, há outros anos que chove menos. É uma gangorra que chamamos de variabilidade interanual, de como essa chuva se distribui ao longo dos anos. É quase um batimento cardíaco. Apesar de ser irregular, há uma certa previsibilidade.</p>



<p>Olhando a série histórica do Nordeste, tivemos pelo menos cinco períodos de secas prolongadas, muito conhecidos. A última seca realmente prolongada, que foi de seis anos, aconteceu de 2011 até 2017. Desde 2018, temos tido anos que chove um pouquinho mais próximo da média, um pouquinho acima da média histórica, um pouquinho menos, mas muito próximo. Quando o Oceano Atlântico está mais quente, aumenta o vapor d &#8216;água na costa e os ventos levam essa água para a região Nordeste do Brasil. Aí você tem a zona de convergência que está baixa um pouquinho, traz mais chuva lá para o oeste, para a parte setentrional do Nordeste.</p>



<p>Esses dois aspectos terminam facilitando para que essa chuva chegue também no Sertão, a zona de convergência e essa umidade que está vindo com os ventos da costa leste. Ano passado teve El Niño no Pacífico, mas o oceano Atlântico salvou a estação chuvosa no inverno.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>A influência dos oceanos</strong></li>
</ul>



<p>Aproximadamente 85% da distribuição das chuvas do inverno no Semiárido são explicadas pelos oceanos, tanto pelo Pacífico quanto o Atlântico. Por isso que a previsibilidade depende principalmente da questão dos oceanos, de qual o fenômeno que está dominando no Pacífico, qual a situação no Atlântico, como é que está a temperatura das águas do mar na costa leste, se está quente ou fria. Isso importa porque os ventos vão levar a umidade se estiver quente para o interior, se a zona de convergência está alta ou está baixa.</p>



<p>Os vórtices e a zona de convergência estão ajudando, trazendo algumas chuvas, porque poucas semanas atrás alguns municípios da Paraíba, Pernambuco e até Alagoas estavam com muita irregularidade e algumas áreas estavam passando por problemas de distribuição de água.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Chuvas dentro da média histórica e veranicos</strong></li>
</ul>



<p>Neste inverno do Semiárido de 2025, as chuvas estão um pouquinho abaixo do que estava acontecendo em 2023 e 2024. Porém, nessas últimas semanas, deu uma melhorada por causa dos vórtices. Agora, a partir de fevereiro, a gente pode sim atribuir aos oceanos uma boa parte dessa distribuição das chuvas que vão ocorrer nas próximas semanas e meses.</p>



<p>E qual é a situação hoje? O Atlântico continua quente e o Pacífico melhorou muito em relação às últimas semanas, está em condições de La Niña, que é muito bom para a região Nordeste do Brasil. Só que a gente tem que ficar de olho na situação do Atlântico porque ele pode, por pelo menos uma ou duas semanas, ele pode mudar, pode esfriar um pouco. Essa semana ele já deu uma esfriada em algumas áreas, mas ainda assim o VCAN ajudou. A zona de convergência também está em uma situação normal.</p>



<p>Então, no mínimo, prevemos uma condição, olhando o cenário hoje, com chuvas muito próximas à média histórica, nada fora do comum no Semiárido do Nordeste. Agora, o que pode acontecer são os veranicos. O que são veranicos? São pequenos períodos de seca durante a quadra chuvosa. Os VCANs, por exemplo, podem provocar esses veranicos. E isso às vezes afeta as plantações de milho e feijão.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;A mudança climática não justificaria, sozinha, as chuvas fortes no Recife&#8221;</p>
</div>


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Chuva é gatilho, mas não o problema</strong></li>
</ul>



<p>Eu sempre fico perplexo de como é colocada a situação do perigo das chuvas. Mas o perigo não é no evento, o perigo está em como a nossa população está distribuída e na fragilidade de onde ela está, na falta de planejamento urbano nas cidades.</p>



<p>É preciso buscar alternativas não imediatas, não emergenciais, para as áreas mais vulneráveis. Ou você tira a população dessas zonas de risco ou trabalha a médio prazo em infraestrutura para que eu não precise tirar a população. É um dilema que temos que questionar aos nossos gestores. É melhor planejar a médio prazo, criar infraestrutura ou, a curto prazo, fazer aquela coisa meio emergencial, como sempre foi como o Semiárido. A questão da água no Semiárido sempre foi emergencial.</p>



<p>Se você pegar toda a costa leste do Brasil, você raramente não vai ter uma grande cidade sem a vulnerabilidade de ocorrer fenômenos extremos. Porque tem vários fatores: a atmosfera está mais quente, estamos produzindo mais gases na atmosfera, que estão absorvendo mais energia. A radiação solar interage com essas partículas e elas podem ganhar mais temperatura. Além do efeito do aquecimento global, há a questão local, com as cidades cada vez mais asfaltadas, com a drenagem terrível, com mais lixo, com menos parques, com mais áreas de risco. Quando você soma esses ingredientes, você tem o desastre.</p>



<p>Não é um desastre natural. Se ocorrer uma chuva de 100 milímetros no Semiárido, com exceção das barragens, ou daquelas pequenas cidades, no geral, vai ser tranquilo. Agora, se eu botar 100 milímetros em Recife em 24 horas não tem como ser tranquilo. </p>



<p>Não há mais possibilidade para uma chuva de 50, 60 milímetros nesses centros urbanos não gerar problemas. Todo o planejamento urbano de como as cidades estão distribuídas tem que ser repensado. O maior problema da questão das chuvas no Brasil é a desigualdade social.</p>



<p>Não é a chuva que faz a desigualdade, mas é a forma como a desigualdade se concentra no Brasil, nos grandes centros urbanos, que empurra as pessoas mais pobres para áreas de risco. Os moradores não estão ali porque querem, mas porque não têm opção mesmo. </p>



<p>A vulnerabilidade é maior em áreas de morros, claro, pela topografia e pelo desmatamento, mas uma cidade que tem o nível do mar muito próximo, como acontece no Recife, vai continuar a ter muitos problemas sérios, não só agora, mas no futuro próximo.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>As mudanças climáticas e os VCANs</strong></li>
</ul>



<p>A forma mais fácil de explicar fenômenos e condições climáticas é dizer “ah, isso foi por conta das mudanças climáticas”. Mas do ponto de vista científico, tem sempre que tomar muito cuidado, porque essa relação não é direta. Há outros fatores que a mudança climática não explicaria. O que aconteceu no litoral nesta semana foi um evento extremo, anômalo. Temos visto que muitos desses eventos estão indiretamente conectados com as altas temperaturas na atmosfera. E os gases que são produzidos na indústria, nos carros, na agricultura, na pecuária, pelo desmatamento, influenciam na distribuição desses gases, que terminam esquentando mais a atmosfera. Então, indiretamente, esses extremos estão ficando cada vez mais extremos.</p>



<p>E esse extremo teria uma ligação com o aquecimento da atmosfera provocada por esses gases. O que a <a href="https://www.nasa.gov/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Nasa </a>e as agências que monitoram isso na escala global mostram é que nos últimos dez, nove anos as temperaturas em todo o globo, na média, estão mais quentes, a cada ano está ficando mais quente.</p>



<p>Quando a atmosfera esquenta um grau, em cidades como o Recife, aumenta em 7% a umidade relativa no ar. Então, quando eu combino altas temperaturas com alta umidade relativa do ar eu tenho os ingredientes para formar chuvas muito intensas. Indiretamente, essa atmosfera mais quente com mais umidade, é uma combinação propícia para eventos extremos, e que aí tem um pequeno componente também das mudanças climáticas.</p>



<p>A mudança climática não justificaria, sozinha, as chuvas fortes no Recife, mas foi um componente indireto, trazendo extremos cada vez mais extremos. Por conta de uma série de fatores, como o asfaltamento, o desmatamento, a falta de drenagem, as chuvas têm sido terríveis para os grandes centros urbanos. Mas a chuva não é o problema, e sim a vulnerabilidade da cidade. Os vórtices ciclônicos ocorrem no Semiárido, nos oceanos e ninguém nem sequer fala sobre isso. O máximo que pode ter é a Marinha lançar um aviso de instabilidade, ondas gigantes, para as embarcações.</p>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Impactos da subida do mar nos litorais e o cenário brasileiro</title>
		<link>https://marcozero.org/impacto-da-subida-do-mar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Aug 2022 18:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[Principal]]></category>
		<category><![CDATA[aquecimento global]]></category>
		<category><![CDATA[aumento nível do mar]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Patrícia Beck Eichler-Barker* O aumento da temperatura, uma das consequências mais desastrosas das mudanças climáticas, atingirá as regiões litorâneas diferentemente. Portanto, a adaptação e mitigação serão específicas de acordo com o local. De qualquer forma, já estamos testemunhando em 2022 as ondas de calor no Hemisfério Norte previstas para o ano de 2050. Comparando-se [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Por Patrícia Beck Eichler-Barker</strong>*</p>



<p>O aumento da temperatura, uma das consequências mais desastrosas das mudanças climáticas, atingirá as regiões litorâneas diferentemente. Portanto, a adaptação e mitigação serão específicas de acordo com o local. De qualquer forma, já estamos testemunhando em 2022 as ondas de calor no Hemisfério Norte previstas para o ano de 2050. Comparando-se a temperatura média atual com a pré-industrial, a elevação de 3°C nas próximas décadas aumentará praticamente em dobro os riscos e danos que estamos observando com o aumento atual de 2°C.</p>



<p>Os oceanos retardam o aumento da temperatura na atmosfera devido à sua massa, que leva anos para aquecer, e o gelo marinho que atua como um “amortecedor”, consumindo o calor do oceano no processo de derretimento. O problema é que já estamos vendo as consequências desses aumentos muito rapidamente. Sem gelo marinho, menos luz solar será refletida de volta ao espaço, e em vez disso, será absorvida pelo Ártico. O derretimento de uma camada de gelo no norte da Rússia, entre 2015 e 2025, poderá liberar 50 gigas toneladas de CH₄ um índice dez vezes maior do que o que existe atualmente na atmosfera, o que anteciparia o aquecimento das temperaturas esperado apenas para daqui a 35 anos. A degradação do “permafrost” (permanentemente gelado), tanto terrestre quanto no fundo do mar do Ártico, parece causar grandes liberações de gases de efeito estufa (particularmente CO₂, CH₄ e N₂O), e por sua vez, também fazendo com que mais vapor de água entre na atmosfera, causando enorme aumento na temperatura, especialmente no Ártico, onde grandes quantidades de metano estão contidas em sedimentos no fundo do mar.</p>



<p>Uma pesquisa realizada pelo Ministério do Meio Ambiente revela que 70% do litoral do Brasil apresenta tendência de erosão nas últimas décadas, e calcula-se que até 42 milhões de brasileiros enfrentarão problemas ligados à subida do mar no século XXI. Locais de recreação e turismo como praias arenosas e baías possuem valores paisagísticos e culturais, e a erosão tende a desfigurar suas características e prejudicar atividades que são realizadas nesse ambiente.</p>



<p>Ecossistemas costeiros como manguezais, estuários, deltas, dunas, pântanos, restingas serão afetados negativamente pela elevação do mar, prejudicando a biodiversidade local pela diminuição de fontes de alimento, alterações nas cadeias alimentares, além de provocarem migrações forçadas das populações selvagens. O IPCC indica que em 2080 a subida do nível do mar transformará 33% das zonas úmidas costeiras em zonas alagadas permanentemente e aumentará a vulnerabilidade do restante à inundação durante tempestades. Vários desses ecossistemas abrigam diversas espécies de crustáceos, aves, peixes, moluscos e algas que são valiosas para o homem, e são locais de desenvolvimento de outras atividades econômicas, recreativas e turísticas, que serão altamente prejudicadas. Mas ninguém olha para o brejo! Ninguém fala em preservar o berçário das espécies marinhas que sustentam a cadeia trófica. Preservação dos grandes predadores e das baleias são medidas necessárias para evitar a perda de carbono para a atmosfera, que aumenta a poluição ambiental formando chuva ácida, elevando a temperatura.</p>



<p>A crescente interferência humana na geografia dos litorais com a tentativa de conter o avanço das águas, trará grandes prejuízos adicionais a ecossistemas localizados nessas regiões pela realização de obras de infraestrutura e proteção. Mesmo populações de seres marinhos de mar profundo também sofrem efeitos negativos indiretos, pois são dependentes das condições dos ambientes litorâneos e da camada superficial do mar, a que mais tem aquecido, provocando declínio populacional, aumento na incidência de doenças, malformações, redução das fontes de alimento, mudanças nos ciclos reprodutivos, redistribuição geográfica e outros. Ao mesmo tempo, os aquíferos costeiros subterrâneos de água doce serão invadidos por água salgada, diminuindo a oferta de água potável para as populações humanas, gerando problemas de saúde e migrações sociais.</p>



<p>Os efeitos drásticos da subida do nível do mar se combinam a uma série de outras atividades humanas cuja origem não está ligada diretamente ao aquecimento global. Entre as principais, estão a pesca excessiva e predatória, introdução de espécies exóticas e a poluição orgânica e inorgânica, onde se incluem o acúmulo de lixo marinho e despejos de esgotos, efluentes industriais, agrotóxicos, fertilizantes e produtos farmacêuticos.</p>



<p>Os mares estão em estado de degradação rápida e acentuada, estoques dos principais peixes com valor econômico estão superexplorados, próximos ao limite de suas capacidades ou em vias de rápida extinção. Cerca de 2,6 bilhões de pessoas obtêm dos peixes pelo menos 20% de sua ingestão proteica anual. Em áreas pobres litorâneas e em algumas nações insulares a população pode chegar a depender dos peixes em 50% para obtenção de proteínas. O declínio dos estoques marinhos de alimento e outros recursos pode também levar a um aumento de conflitos entre locais que dependem do mar para sobreviver.</p>



<p>O cenário atual brasileiro não é animador e necessita conscientização em diversos níveis, pois o ser humano que está preocupado em sobreviver não tem tempo de questionar, ou mesmo lidar, com as respostas necessárias para adaptação e mitigação das alterações climáticas que estão por vir.</p>



<p>Portanto, nessas eleições precisamos pensar quem vai preservar a vida, plantar árvores, preservar o habitat dos sumidouros de carbono (animais e plantas) e respeitar a Constituição Federal brasileira de 1988 que inovou ao incumbir ao Poder Público e à coletividade o dever de defender e preservar o meio ambiente, incluindo, nesse contexto, a proteção aos animais contra a crueldade e os maus-tratos (art. 225, §1º, VII).</p>



<p><strong>* Dra. Patrícia Beck Eichler-Barker (Bióloga e Oceanógrafa). Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). International Ocean Discovery Program (IODP). EcoLogic Project.</strong></p>



<p><em><strong>Este artigo foi escrito para a campanha #ciêncianaseleições, que celebra o Mês da Ciência.</strong></em></p>



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<p><br></p>



<p></p>
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		<title>Naturam expellas (Parte 1)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Nov 2015 00:37:29 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Diego Viana No Para ler sem olhar [Nota: o ecocídio no Rio Doce me motivou a retomar um texto que vinha tentando escrever desde setembro. O resultado segue aí abaixo, embora esteja ainda apressado e com ar de rascunho. Mas é rascunho mesmo, respirando com a pressa que o tema exige. Esta é a [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Por <span class="author vcard"><a class="url fn n" title="Ver todos os artigos de Diego Viana" href="https://vianadiego.wordpress.com/author/vianadiego/" rel="author">Diego Viana</a></span><br />
No<a href="https://vianadiego.wordpress.com/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"> Para ler sem olhar</a></p>
<p><em>[Nota: o ecocídio no Rio Doce me motivou a retomar um texto que vinha tentando escrever desde setembro. O resultado segue aí abaixo, embora esteja ainda apressado e com ar de rascunho. Mas é rascunho mesmo, respirando com a pressa que o tema exige. Esta é a primeira parte de um raciocínio que ficou mais longo do que o usual. Por isso, resolvi postar em fascículos, para não me cansar, nem ao leitor. Calculo que poderei postar cada parte com um intervalo de dois dias. Eu não poderia fazer diferente, dada a gravidade do assunto.]</em></p>
<p align="RIGHT"><em>Naturam expellas furca tamen usque recurret</em></p>
<p align="RIGHT"><em>et mala perrumpet furtim fastidia victrix.</em></p>
<p class="western" align="RIGHT">Horácio (Quintus Horatius Flaccus, 65aC-27aC)</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Talvez seja uma barbaridade tratar de uma tragédia criminosa e desmesurada evocando um poema da antiguidade clássica. Mas acho que essa estratégia pode pelo menos servir como um recurso para tentarmos pensar à frente, quando nos damos conta de que, lá atrás, alguém já avisou, já <i>deu a real</i>, e a gente segue se estropiando por conta da nossa própria irresponsabilidade e cegueira.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Diz o poeta, escrevendo em 50 a.C.: “você pode expulsar a natureza com um ancinho, ela volta cedo ou tarde / irrompendo vitoriosa contra o seu tolo desprezo”. Nos últimos anos, enquanto subia a temperatura e descia a Cantareira, tomei gosto por esses dois versos da epígrafe. A estrofe a que eles pertencem compara a vida nas cidades e no campo.<a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/14/naturam-expellas-parte-1/#sdfootnote1sym" name="sdfootnote1anc"><sup>1</sup></a> Mas para nós, claro, a imagem adquire um sentido bem mais urgente.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Há um mês, lia-se que o Rio Doce <a href="http://remabrasil.org:8080/virtual/r/remaatlantico.org/sul/Members/suassuna/campanhas/tragedia-ambiental-rio-doce-nao-alcanca-mais-o-mar-na-foz-de-regencia-em-linhares-es/view" target="_blank" rel="noopener noreferrer">não está mais chegando até o mar</a> no Espírito Santo. E agora, para piorar o que já era trágico, o que vai chegar ao oceano é uma enxurrada de metais pesados e tóxicos, depois do rompimento da barreira em Mariana. É bom lembrar que a barreira em questão é pertencente a uma empresa de nome Samarco, subsidiária de duas das maiores mineradoras do mundo: a anglo-australiana BHP Billiton e a nossa conhecida Vale do Rio Doce – empresa que, grosseira ironia, tira o nome do próprio rio que agora destrói. Morreu gente, morreram peixes, morrerão tartarugas, agriculturas ficarão inviáveis. Não há como exagerar no horror.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">No mês passado, <a href="http://amazonia.org.br/2015/10/novo-vazamento-de-oleo-e-confirmado-na-area-de-naufragio-em-barcarena/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">um naufrágio</a> no porto de Vila do Conde, em Barcarena (Pará), matou boa parte de uma carga de cinco mil bois. Muitos deles afundaram junto com o barco e suas carcaças estão apodrecendo no leito do rio. Milhares de corpos inchados, milhares de esqueletos, no fundo de uma das principais bacias hidrográficas do mundo. Simplesmente porque precisamos exportar mais e mais toneladas de carne – e soja, e minério de ferro, e alumínio… – para cobrir um déficit de conta corrente que, como sabemos com maior ou menor grau de consciência, não pode ser coberto. Escândalos que se somam a escândalos.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Lamento ter que dizer isso: o mais provável é que esses sejam só os primeiros de muitos desastres que seremos obrigados a testemunhar nos próximos anos e, temo, décadas. Não tenho dúvida. Logo se vê pela reação dos responsáveis e das autoridades: livrando a barra da Vale, falando apressadamente em “desastre natural”, recorrendo a doações da população mais bem intencionada, evocando a importância econômica da atividade mineradora no Brasil, embora um breve raciocínio baste para mostrar que esses benefícios econômicos todos são uma enorme e perversa ilusão.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/indonesia.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1326" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/indonesia.jpg" alt="indonesia" width="550" height="413"></a></p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Eu poderia dizer que hoje a Vale se tornou a nossa BP (petrolífera ex-estatal britânica responsável pelo <a href="http://ocean.si.edu/gulf-oil-spill" target="_blank" rel="noopener noreferrer">vazamento catastrófico</a> do golfo do México em 2010). Mas não dá para ignorar que, pela frouxidão com que tratamos o tema ambiental – leia-se, o tema do território, do chão em que pisamos, da comida que comemos etc. –, caminhamos rumo a uma proliferação de casos semelhantes. Pelo andar da carruagem, seremos o país das mil BPs. Falando nisso, foi inspirada pelo desastre no golfo do México que Naomi Klein escreveu em 2014 o livro <i><a href="http://thischangeseverything.org/book/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">This Changes Everything</a></i>; no caso do Brasil, o máximo que posso me dispor a dizer é: “I hope it does”. Mas continuo cético.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Com isso, podem dormir na santa paz de Deus as outras mineradoras, petrolíferas, empreiteiras, incorporadoras, bancos, latifúndios, usinas e por aí vai, que doam os bilhões de nossas campanhas eleitorais para poder esgotar o território (florestas, cidades, campos, mares, rios, subsolos…). Quando o mundo vier abaixo, tudo estará bem para esse pessoal, e mal para o resto de nós, com o beneplácito de todo o espectro político, incluindo a imprensa e os sindicatos. Ainda não entendemos a gravidade da ameaça que ronda nossas cabeças, e não é simplesmente uma crise pertencente aos ciclos produtivos. Essas passam.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">E se o assunto é “expulsar a natureza”, parece que essa é uma fixação atávica que nós temos. Já no primeiro reinado, eis o que relata o pintor francês Jean-Baptiste Debret, que retratou algumas de nossas verdades mais desconfortáveis:</p>
<p class="western" style="padding-left: 60px;" align="JUSTIFY"><em>Pintor de teatro, fui encarregado de nova tela, representando a fidelidade geral da população brasileira ao governo imperial, sentado em um trono coberto por rica tapeçaria estendida por cima de palmeiras. A composição foi submetida ao ministro José Bonifácio, que a aprovou. Pediu-me apenas que substituísse as palmeiras naturais por um motivo de arquitetura regular, a fim de não haver nenhuma idéia de estado selvagem. Coloquei então o trono sob uma cúpula sustentada por cariátides douradas (…).</em></p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Desde o berço, o brasileiro desenvolveu essa mesma relação que temos hoje com o solo em que pisamos e aquilo que nele cresce: há que esconder-se a natureza! Substituí-la por “um motivo de arquitetura regular”! Expulsá-la da representação do que seja o Brasil, naquele que é um de seus símbolos fundadores, a coroa estilizada do primeiro monarca. Nada de palmeiras! A natureza não está aí porque ela não existe. Ou seja: não temos natureza, o que temos são recursos naturais, matérias-primas… Riquezas que fazem nossa pujança e grandeza, como querem nos fazer crer.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/debret35a.jpg"><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1327" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/debret35a.jpg" alt="debret35a" width="530" height="316"></a></p>
<p class="western" align="JUSTIFY">O que mais me desanima é o quanto tudo isso é evidente. Lembro bem dos meus primeiros anos em São Paulo: verões mais ou menos amenos, invernos frios, com temperaturas de um dígito – exceto em uma ou duas semanas do chamado “veranico”, palavra que caiu em desuso, já que hoje podemos vivenciar um mês de setembro como o deste ano, cujo calor, em pleno inverno, me dava dor de cabeça.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Naquele tempo nem tão distante, tempestades de verão eram impensáveis em setembro. Neste ano, tivemos exatamente isso, embora o mês, de modo geral, tenha sido seco como têm sido quase todos os meses há coisa de dois anos. E se eu cruzar com alguém na rua se referindo a “veranico”, não dá para evitar, sangue vai correr. Tivemos algumas semanas chuvosas em São Paulo em outubro e as pessoas já vêem afastar-se a famigerada crise hídrica (que, para parafrasear uma declaração atribuída a Darcy Ribeiro, parece não ser crise, mas projeto). Mal sabem elas que aqueles pés d’água de outubro mantiveram o mês abaixo da média histórica, apesar de tudo…</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">E falando em correr sangue, se a coisa continuar nessa toada, já se vê que dezembro, janeiro e fevereiro vão ser meses mortíferos. Basta lançar um olhar para o subcontinente indiano, onde 4500 pessoas foram ceifadas por uma <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/2015_Indian_heat_wave" target="_blank" rel="noopener noreferrer">onda de calor em maio e junho</a>. E como já se fala em um “Super El Niño” para este verão – já li até a expressão <a href="http://www.npr.org/sections/thetwo-way/2015/08/13/432099022/scientists-say-we-could-be-heading-into-godzilla-el-ni-o" target="_blank" rel="noopener noreferrer">“um El Niño Godzila”</a> –, é de se esperar que setembro pareça ameno em comparação com o que vem pela frente. Mas nenhum desses sinais basta para que o país, como um todo, a começar por suas elites sociais e econômicas, para não falar nas lideranças políticas, coloque esse tema nas primeiras posições da pauta.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">E no entanto é um problema que ultrapassa o Brasil, embora o atinja em cheio, na condição de país continental que é. Desastres mortíferos, água acabando, queimadas generalizadas na Indonésia, ciclones mastodônticos no México. No contexto mais amplo, leio notícias de que 2015 baterá o recorde de 2014 como ano mais quente da história (“literalmente território desconhecido”, diz um comentarista, ao compartilhar o gráfico da evolução de temperaturas este ano).</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Soubemos também recentemente que a Volkswagen, malandrinha, andou falsificando uns testes de poluição; que o Reino Unido não vai conseguir atingir sua meta de redução de emissões de carbono; que as metas brasileiras “ambiciosas” para reduzir desmatamento, anunciadas por Dilma na ONU em setembro, de ambiciosas não têm nada. Que a China está mais uma vez coberta de poluição.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">A boa notícia do ano foi o anúncio de que Obama rejeitou a construção do oleoduto conhecido como <a href="http://350.org/campaigns/stop-keystone-xl/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Keystone XL</a>, que carregaria petróleo de Alberta, no Canadá, até o golfo do México (pobre coitado…) no Texas. Um ligeiro vento de esperança, mas dado o esforço que movimentos como o 350.org tiveram de despender para conseguir essa vitória, é uma lufada realmente ligeirinha, facilmente engolfada pelo temor com o que há de vir.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY"><b>O ancinho e nós</b></p>
<p class="western" align="JUSTIFY"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/quintus_horatius_flaccus.jpg"><img decoding="async" class="size-full wp-image-1328 alignright" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/quintus_horatius_flaccus.jpg" alt="quintus_horatius_flaccus" width="278" height="550"></a></p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Por essas e outras, não tem como não admirar a fórmula sucinta de Horácio. Dia após dia, estamos tentando expulsar a natureza, com qualquer coisa que faça o papel do tal do ancinho. Por exemplo: como se abrigar desse calor todo? Ora, comprando um ar-condicionado. Mas se a temperatura fresquinha é conseguida aqui dentro graça a um dispêndio brutal de energia, que vai aquecer o resto do mundo lá fora, cedo ou tarde o abafado volta. Talvez não diretamente aqui, mas em algum lugar.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">E se está quente na rua, é melhor ir para qualquer lugar de carro – com o ar condicionado ligado, claro, reproduzindo mais uma vez o problema, em duas frentes: a poluição do motor e o gasto energético da refrigeração. Tudo isso para não falar do consumo de energia elétrica, obtida seja com barragens (que andam com reservatório baixo), seja queimando carvão. E assim por diante, até a irrupção vitoriosa daquela que quisemos expulsar.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Mas é certo que a culpa não é do pobre diabo que ativa o ar-condicionado da sala para aliviar o sofrimento dos filhos. Para evitar esse tipo de leitura culpabilizadora e moralista, tratemos Horácio como o autor de uma enorme metonímia: cada ar-condicionado vale por milhões de aparelhos no mundo; o ancinho é o arquétipo de tudo que já se usou para obter essa magra vitória sobre o mundo natural. Assim sendo, já está evidente para qualquer um com um mínimo de boa vontade que a humanidade foi, mais do que arrogante, verdadeiramente frívola ao pensar que “com um ancinho” (muitas vezes traduzido como “violentamente”) poderia “expulsar a natureza”, e que ela não voltaria, mais cedo ou mais tarde, “<i>furtim fastidia</i>“.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">A observação de Horácio, porém, é só a primeira das respostas possíveis. Ah, sim, diz o poeta, ela volta e volta triunfal: “<i>recurret victrix</i>”. Vitoriosa, vingativa, violenta. Nessa resposta, ela passa por cima de tudo e retoma o que era seu – o que sempre foi seu, talvez. No plano de um poema que compara a vida urbana à campestre, como é o do autor romano, o sentido dessa idéia é que o dia-a-dia de quem tenta se livrar da natureza é ocupado em varrer, lavar, pintar paredes, consertar telhas, podar árvores, eliminar mofo, jogar fora frutas podres, matar ervas daninhas.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/china-poluicao.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1329" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/china-poluicao.jpg" alt="china-poluicao" width="550" height="366"></a></p>
<p class="western" align="JUSTIFY">No plano de um mundo ultra-industrial, financeirizado e cego para suas próprias condições de existência, como é o nosso, a interpretação é bem mais sombria: quanto mais labutamos, quanto mais esforço fazemos, quanto mais desenvolvimento para mandar a natureza para longe, mais irresistível ela vai ser quando voltar, engolindo a todos nós. Quanto mais barragens de rejeitos tóxicos, mais enxurradas. Quanto mais usinas atômicas à beira-mar, mais Fukushima. Quanto mais for viável economicamente arrancar o petróleo do leito marítimo, mais desastres no Golfo do México. Quanto mais for necessário expandir a fronteira agrícola para garantir a expansão de cadeias de <i>junk food</i>, mais queimadas fora de controle na Indonésia.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">A imagem que temos ordinariamente da mudança climática ilustra bem essa perspectiva apocalíptica, com sua justeza e também seus exageros. Os mares subirão, as cidades serão engolidas, as florestas se tornarão desertos, as lavouras morrerão, metano jorrará (<a href="https://www.washingtonpost.com/news/morning-mix/wp/2015/02/26/the-siberian-crater-problem-is-more-widespread-and-scarier-than-anyone-thought/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">ou já está jorrando</a>) de enormes crateras na Sibéria. Cada um por si e Deus contra todos. A natureza no papel de Conde de Monte Cristo, eliminando pouco a pouco e fazendo sofrer aqueles que a traíram. Quem é que não está cansado de ler alertas assim?</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Mas poderíamos explorar uma outra resposta para a mesma fórmula da natureza que tentamos expulsar só para vê-la retornar vitoriosa. Nesta resposta, o problema de querer enxotar a natureza não está simplesmente em sua arrogância frívola, mas acima de tudo em seu caráter de cabo a rabo <i>ilusório</i>. Assim, os desequilíbrios naturais provocados pelo modo de atuação do ser humano “sobre” a natureza – mas na verdade “na” natureza – se situariam não na interação alienada e extravagante entre um dentro (da casa, da cultura, da civilização, da economia, da humanidade) e um fora (a natureza que foi expulsa, as “externalidades negativas” geradas pela atividade humana, econômica em particular), mas por todos os lados, ou seja, na manutenção da própria idéia de uma “casa” que estaria isolada da natureza; na contemplação de uma natureza que está para lá das paredes; no gesto ele mesmo pelo qual cremos estar (violentamente) expulsando a natureza; por fim, no próprio instrumento que usamos para realizar essa pretensa expulsão: o “ancinho”.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Pretendo, daqui para baixo, demarcar as diferenças entre essas duas respostas possíveis, essas duas leituras rivais dos versos de Horácio tal como transplantados, sem considerações sobre o contexto, para nossa realidade. São diferenças cruciais, bem entendido. Como veremos, todos os termos que aparecem nos versos podem ser lidos diferentemente e, com eles, a maneira como nos relacionamos com essa realidade que nos toca – tão urgente, cada vez mais urgente. E com conseqüências profundas, ainda por cima.</p>
<p class="western" style="text-align: center;" align="JUSTIFY"><em>Continua…</em></p>
<p class="western" style="text-align: center;" align="JUSTIFY"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/morte-dos-bois.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1330" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/morte-dos-bois.jpg" alt="morte-dos-bois" width="550" height="288"></a></p>
<p class="western" style="text-align: left;" align="JUSTIFY"><strong>Notas</strong></p>
<p class="western" style="text-align: left;" align="JUSTIFY"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/14/naturam-expellas-parte-1/#sdfootnote1anc" name="sdfootnote1sym">1</a><span lang="pt-BR">. Pouco antes desses dois versos, há estes outros dois também lindos: “purior in vicis aqua tendit rumpere plumbum / quam quae per pronum trepidat cum murmure rivum?”, que costuma ser traduzido assim: “A água que nas ruas da cidade luta para estourar os canos de chumbo / é mais pura do que aquela que trepida e murmura por um rio?”</span></p>
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