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	<title>Arquivos cabrobó - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos cabrobó - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Governo Federal distribuiu informações falsas para esconder as falhas técnicas da transposição</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Nov 2018 15:12:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Eduardo Amorim* “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. O tema da redação de Enem 2018 deve ter parecido encomendado para falar das últimas eleições e das fakenews, produzidas em massa principalmente pela campanha do presidente eleito, Jair Bolsonaro. No entanto, esse é um fenômeno que acontece também no cotidiano [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/governo-federal-distribuiu-informacoes-falsas-para-esconder-as-falhas-tecnicas-da-transposicao/">Governo Federal distribuiu informações falsas para esconder as falhas técnicas da transposição</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Eduardo Amorim*</strong></p>
<p>“Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. O tema da redação de Enem 2018 deve ter parecido encomendado para falar das últimas eleições e das fakenews, produzidas em massa principalmente pela campanha do presidente eleito, Jair Bolsonaro. No entanto, esse é um fenômeno que acontece também no cotidiano das comunidades urbanas e rurais do Brasil.</p>
<p>Um caso recente acontecido no município de Salgueiro, no Sertão de Pernambuco, é um exemplo bastante claro de como mesmo com todas as possibilidades da internet ainda é difícil propagar informações com precisão para quem está longe do poder econômico, político e midiático. As falhas na construção da transposição do rio São Francisco ainda não tinham aparecido com forte relevância, até um vídeo viralizar nas redes sociais no último dia 11 de agosto e chegar em apenas <a href="https://www.facebook.com/SIMTVNORDESTE/videos/1811671118923904/">uma postagem a mais de 2 milhões de visualizações</a>.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/transposição2.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-11922" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/transposição2-211x300.jpg" alt="transposição2" width="211" height="300"></a>As imagens também circularam muito através do WhatsApp no Sertão. A repercussão acabou fazendo com que a mídia fosse forçada a cobrir uma localidade que raramente aparece nos noticiários nacionais. No entanto, o Governo Federal, através da Assessoria de Comunicação Social do Ministério da Integração Nacional, soltou uma nota que distorceu bastante os fatos.</p>
<p>No texto distribuído à imprensa, o rompimento foi identificado como um problema “pontual” no canal do Eixo Norte do Projeto de Integração do Rio São Francisco, entre os municípios de Terra Nova e Salgueiro, em Pernambuco. Mais grave: o Ministério da Integração acusa precipitadamente “há evidências de que tenha sido um ato criminoso. A Polícia Militar de Pernambuco prendeu, poucas horas depois, suspeitos de terem cometido o dano ao trecho” e afirma que “relatos de moradores que vivem no entorno afirmam que a ação dos envolvidos tinha como objetivo desviar o curso d’água daquele ponto para que fosse possível encher um reservatório nas imediações. Ação semelhante aconteceu em junho do ano passado, num trecho no município de Cabrobó (PE)”.</p>
<p>Vale recordar que o Ministério da Integração Nacional, responsável pela gestão da obra, foi comandando durante o governo Dilma Rousseff pelo senador Fernando Bezerra Coelho, líder político na região e aliado do atual Governo Federal.</p>
<p>Menos de 48 horas depois, a Polícia Federal soltou outra nota e nega questões importantes como a prisão de dois suspeitos pela Polícia Militar de Pernambuco. Para o sertanejo que gravou o vídeo, sobrou o medo de ser identificado como a pessoa que fez todos acreditarem através de um vídeo que o canal da transposição havia sido criminosamente quebrado por um morador de Salgueiro. Afinal, para os milhões de pessoas que viram as notícias pela TV ou nos jornais e sites que reproduziram a nota do Ministério da Integração o que fica é uma informação que até agora não tem sua origem explicada.</p>
<p>Decidimos buscar através do Google como foi a cobertura do rompimento do canal da transposição. É possível que a distância dos principais produtores de conteúdo do Nordeste dificulte a circulação das informações sobre o semiárido, até mesmo para o público interessado, pois tivemos de aprofundar a busca para encontrar algumas das reportagens mais detalhadas sobre o episódio, que foram feitas por blogs de Salgueiro e da região.</p>
<p>A pesquisa no Google Notícias nos levou ao que o sistema de buscas selecionou como 34 reportagens relacionadas ao rompimento do canal e outras 10 que foram agrupadas sob a temática das remoções das famílias atingidas. Depois, ao perceber que não havia nenhuma postagem dos veículos locais de Salgueiro nos selecionados pelo site de buscas decidimos fazer uma busca específica e identificamos três sites relevantes no município que fizeram no total outras 10 produções sobre o tema. Sentimos ainda necessidade de pesquisar se havia alguma referência ao caso na comunicação pública e encontramos apenas uma reportagem na Agência Brasil.</p>
<p>Nestas 54 postagens, todas publicadas entre 10 e 18 de agosto, sobre o tema do rompimento do canal da transposição em Salgueiro, fica evidente a criminalização dos sertanejos.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/transposiçãoNuvem.JPG.png"><img decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-11945" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/transposiçãoNuvem.JPG-300x185.png" alt="transposiçãoNuvem.JPG" width="300" height="185"></a>Um estudo desses títulos criou a nuvem de palavras que nos mostra que a palavra “criminoso” é uma das com mais destaque entre as que foram utilizadas nas reportagens. O poder público, neste caso, teve um papel bastante negativo ao acusar antes de um julgamento e sem provas. Mesmo sem terem sido nominados os cidadãos que teriam sido presos, fica uma imagem negativa em relação aos moradores da área rural de Salgueiro, que, supostamente, teriam tentado romper o canal e causado o acidente segundo a versão inicial (que depois não se confirmou, mas foi utilizada com respaldo da nota do Ministério da Integração em grande parte dos textos jornalísticos e até mesmo no Jornal Nacional).</p>
<p>“A informação que chegou é que pessoas teriam provocado esse rompimento para abastecer uma barragem que fica perto, nas cercanias, nada disso procede, nada disso foi confirmado. E aí a Polícia Federal, por ser uma obra do Governo Federal é competência da Polícia Federal, está investigando todos esses fatos”, disse na época o chefe de comunicação da PF em Pernambuco, Giovani Santoro.</p>
<p>Entramos em contato com a Assessoria de Comunicação do Ministério da Integração por e-mail, telefone, chegamos a entregar pessoalmente um pedido de informações na sede do projeto da Transposição em Salgueiro e não obtivemos nenhuma resposta. A única reportagem encontrada sobre o tema na Agência Brasil tem o título: “Rompimento de canal da transposição pode ter sido criminoso”. O post não teve nem mesmo uma atualização após a nota da Polícia Federal divulgada no dia seguinte. Aparentemente, é mais uma demonstração do absurdo que está acontecendo com a Empresa Brasil de Comunicação, especialmente após o Governo Temer publicamente assumir seu objetivo de acabar com o caráter público da emissora e torná-la uma mera forma de divulgar os pontos positivos da sua gestão.</p>
<p>O Eixo Norte da transposição do Rio São Francisco foi inaugurado no último dia 3 de agosto, com a presença do presidente Michel Temer. Por sinal, naquela data houve grande cobertura dos veículos da EBC. Apesar de bastante questionado por ambientalistas, o megaempreendimento tem simpatia das principais forças políticas.</p>
<p>Em quatro dias de viagens pelos municípios de Salgueiro, Terra Nova, Cabrobó e Sertânia, um grupo de pesquisadores ligados à FioCruz ouviu relatos de aproximadamente dez pontos em que o canal da transposição rompeu. Coordenador do projeto Beiras D`Água, André Monteiro conseguiu confirmar o número ao pesquisar na internet. Trabalhadores da obra contam que muitas vezes as empreiteiras e o Ministério da Integração não tiveram os devidos cuidados na fiscalização e as medidas de segurança necessárias foram descumpridas.</p>
<p>Do mesmo jeito que rompeu no dia 11 de agosto o canal nas proximidades da comunidade quilombola de Santana, em Salgueiro, fotografamos outro ponto que tinha rompido anteriormente em Cabrobó, nas terras que foram desapropriadas do Quilombo Jatobá. A única diferença é que como no primeiro ponto de rompimento não houve um viral para apontar as falhas na construção, até nossa passagem com a equipe da FioCruz do projeto Beiras D&#8217;água, este trecho sequer havia sido consertado, já que não houve nenhuma pressão pelas redes sociais.</p>
<p>A transposição é uma obra que oferece a possibilidade de belas imagens e a perspectiva de oferecer o sonho de uma solução efetiva do problema, para políticos e especialmente governantes que podem exercer assim um novo tipo de influência política nas comunidades do Nordeste, tenham sido ou não elas beneficiadas pela água do São Francisco. Ao analisar a repercussão do fato na internet, é fácil descobrir que um vereador de Salgueiro denunciou no dia 10 de agosto (portanto, antes do vídeo que viralizou no Facebook) um vazamento que também se referia à obra da transposição.</p>
<p>A cena do rompimento da barragem gravada em vídeo ganhou mais potência por ter sido gravada e narrada por um sertanejo, com seu sotaque característico, que no cinema costuma ser um dos grandes atrativos dos sucessos humorísticos que retratam o Nordeste.</p>
<p>Alguns fatos que nos chamam atenção no viral e na série de respostas ao tema que foram dadas na semana seguinte ao fato pela imprensa e pelos candidatos que disputavam o cargo de presidente da República nos remetem ao preconceito em relação aos sertanejos. Nas redes sociais, os posts mais simples acabam conseguindo ser compreendidos mais rapidamente e assim são favorecidos justamente os debates menos complexos ou resumidos a tópicos tão simples como uma guerra, que, neste caso, parece levar a uma condenação precipitada o típico sertanejo representado pela voz de quem narra o vídeo.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/transposição_salgueiro_2.jpg"><img decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-11908" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/transposição_salgueiro_2-300x200.jpg" alt="transposição_salgueiro_2" width="300" height="200"></a>A maioria das reportagens publicadas naquele período tem como principal fonte o poder público, seja através do Executivo Federal que tem o protagonismo na maioria das reportagens e também naquelas que circularam nos dias em que o tema estava tendo mais repercussão nas redes, especialmente o sábado e domingo (11 e 12 de agosto). Ou da Polícia Federal que passa a aparecer a partir da segunda-feira (13), mudando bastante o debate, já que inicialmente havia uma nota do Ministério da Integração Nacional falando em prisão de responsáveis por um crime que teria sido cometido para desviar a água, depois desmentido pela PF e pelo próprio Governo Federal.</p>
<p>Curiosamente, no material existe apenas uma exceção que não trata do rompimento da barreira. É uma reportagem produzida pela TV Globo de Petrolina e disponibilizada pelo portal G1 no dia 14 de agosto: Desapropriados pela transposição do São Francisco cobram infraestrutura de vilas produtivas no Sertão de PE. Apesar de tratar de um drama relacionado diretamente à transposição, não há na reportagem escrita para o portal ou da emissora nenhuma menção ao rompimento do canal do Eixo Norte da transposição (possivelmente um efeito de censura tácita ou explícita?).</p>
<p>Importante notar: O tema foi reportagem do Jornal Nacional da segunda-feira, véspera da sua veiculação pela retransmissora do sertão de Pernambuco. Isso pode demonstrar o quanto as emissoras locais muitas vezes também se ausentam de debates por motivações políticas.</p>
<p>No dia 17 de agosto, surgem as notícias de remoções causadas pelo risco de rompimento de outro ponto da transposição em Salgueiro, o chamado Dique de Negreiros. Encontramos 10 reportagens produzidas sobre os transtornos sofridos pelas famílias justamente da Vila Produtiva de Negreiros (uma das 18 comunidades construídas para receber os afetados pelas obras da transposição).</p>
<p>O projeto Beiras D`Água, no vídeo Invisíveis e em outros materiais, tem denunciado alguns dos problemas que estas comunidades estão sofrendo, inclusive de falta de água, já que ainda não foram beneficiadas com a água da transposição. Nas reportagens da imprensa, um fator a ser notado é a superficialidade, já que muitos jornalistas não tiveram contato direto com as vítimas e têm como fonte apenas a internet, outros veículos de comunicação e os órgãos públicos.</p>
<p>Mas a TV Globo no dia 17 se diferencia por ter enviado uma equipe de reportagem para Salgueiro. Nas três reportagens que foram publicadas pelo G1 nesta data, é possível pela primeira vez ouvir/ler o que dizem cidadãos que foram afetados pelo vazamento no contexto da grande mídia.</p>
<p>O repórter Paulo Ricardo Sobral, da TV Globo, não teve acesso ao local onde ocorreu o segundo vazamento. Ao viajar até o Sertão, pudemos ultrapassar a barreira criada pelo Ministério da Integração por estarmos num carro da FioCruz, aparentemente não havia mais riscos, além do de descobrir as vítimas do rompimento do Canal da Transposição e perceber que se tratava de remanescentes do Quilombo de Santana.</p>
<p>Porém, as equipes de da imprensa nunca chegaram a conseguir passar dessa barreira. Assi, segundo problema em menos de uma semana nas obras da transposição no município de Salgueiro, acaba não sendo relacionado com outras questões que facilmente são identificadas ao se conversar com os moradores da comunidade quilombola.</p>
<p>A recorrência das falhas técnicas na transposição acaba diluída nas reportagens e é superada por uma acusação inverídica de que haveria um crime em torno do rompimento do canal. Fica uma pergunta, há problemas estruturais na obra que o Governo Federal tentou esconder durante o período eleitoral? Esperamos que o tema passe a ser discutido com profundidade.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/transposição_salgueiro.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-medium wp-image-11898" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/transposição_salgueiro-300x199.jpg" alt="transposição_salgueiro" width="300" height="199"></a></p>
<p style="text-align: center;"><strong>***</strong></p>
<p><strong>A Marco Zero Conteúdo entrevistou o coordenador do projeto Beiras D&#8217;água, da FioCruz, o pesquisador André Monteiro Costa. O projeto, segundo <a href="http://beirasdagua.org.br/">seu próprio site</a>, foi criado em 2015 para ser uma ferramenta de sistematização e organização do saber produzido no Vale do São Francisco, facilitando o diálogo entre iniciativas populares, ONGs, pesquisadores e instituições, apoiando ao fortalecimento e a defesa das pautas sociais e políticas.</strong></p>
<p>Marco Zero Conteúdo<strong> &#8211; O que esperar do destino da Transposição nos próximos quatro anos? Os agricultores familiares podem alimentar esperanças de ter acesso á água, conforme previsto no projeto original?</strong></p>
<p><strong>André Monteiro Costa</strong> &#8211; As obras da transposição começaram há 11 anos e ainda não temos populações que estejam ao longo dos canais beneficiadas, seja com água para beber ou para irrigar. Não nos parece que possamos esperar por muito, não? E o rio São Francisco não dispõe de vazão para atender à vazão de projeto prevista. Não se tem ainda o modelo de gestão da transposição e especialistas afirmam que o custo da água será inviável para os governos estaduais, com previsão de conflitos.</p>
<p>O acesso às águas da transposição ocorre ao longo do rio Paraíba, de Monteiro ao açude do Boqueirão, para irrigação de apenas meio hectare por propriedade. E para o abastecimento humano nos municípios em torno de Campina Grande e Sertânia. Ou ainda, de forma clandestina, captada ao longo dos canais, por bombas e tubulações. Há um uso interessante, não previsto, que é o usodos canaise das barragens construídas ao longo destes, que se tornam nos fins de semana as praias do sertão. Mas já morreram, ao menos, dez pessoas afogadas, pois não há qualquer proteção ou fiscalização permanente.</p>
<p>É previsto que em quatro anos o agreste pernambucano receba essas águas. Mas não me parecem críveis estes prazos, dada a história de atrasos. Espera-se que os sistemas de água em povoados estejam em funcionamento. Que as Vilas Produtivas Rurais também estejam abastecidas, com irrigação e criação de animais. Há vilas que as pessoas estão há dez anos sem plantar, sem criar, ou seja sem fruírem suas identidades camponesas. E muitos têm sofrimento mental por isso.</p>
<p><strong>Qual a situação dos agricultores que tiveram suas terras cortadas pelos canais da transposição? As lideranças políticas e latifundiários têm acesso à água?</strong></p>
<p>Após 11 anos do início das obras as populações que estão ao longo dos canais vivem em condições piores do que antes. Isso é escandaloso. Apenas os que eram meeiros, que não eram proprietários, se beneficiaram, pois receberam casas na vilas. No mais, o sofrimento mental é a maior expressão de um modelo de desenvolvimentos perverso.</p>
<p>Os canais passam por cima de rios, riachos e várzeas, onde os agricultores, indígenas e quilombolas desenvolviam seu modo de vida tradicional, com produção de subsistência.Hoje apenas têmáguade caminhão pipa e nenhuma produção. Indenizações irrisórias, perdas materiais diversas e transformações nas paisagens produziram, o que afeta simbolicamente o modo tradicional de vida, produziram sofrimento mental intenso. Insônia, alcoolismoe depressãosão comuns. Encontramos também casos de infarto e suicídio. Muitos já moram em decorrências desses processos de vulnerabilização. Nos jovens o alcoolismo e drogas são comuns.</p>
<p>O acesso a água pelos latifundiários não ocorre formalmente. Há retiradas irregulares por bombas ao longo do canal. Ocorreu invasão de terra indígena em Floresta por um empresário desta cidade, dono de uma rede de supermercado. Mas há uma corrida por terras, sobretudo ao longo do rio Paraíba, por empresários de outros estados.</p>
<p><strong>O senador Fernando Bezerra Coelho, quando era ministro da Integração Nacional, orgulhava-se de ter acelerado as obras da transposição que, sob os ministros anteriores, andaram a passos lentos. O senhor acredita que os problemas apresentados na obra podem ser resultantes de pressa?</strong></p>
<p>Não podemos dizer que houve pressa em uma obra inconclusa,11 anos apósseu início.No projeto original o prazo era de três anos. OTCU disse queo Ministério da integração nãotinha capacidade gestora paratocar uma obra como essa. Estava correto.Um desastrelongo,lentoedoloroso.</p>
<p>OProjeto da transposiçãofoi vendido como sendopara acabar com a sedeno nordeste. A transposição não é um projeto de abastecimento de água. É um projeto de irrigação, para o agronegócio. Apenas cerca de 20% do projeto é para abastecimento humano. Se feitas adutoras, já teríamos segurança hídrica em todas as cidades doNordeste.Oprojetoéumacapturadaságuas paraaprodução de commoditiesda fruticultura irrigada noCeará eRio Grande do Norte,sobretudo.Ummodelode desenvolvimento ambiental e socialmenteinsustentável.</p>
<p><strong>* jornalista e doutorando em Comunicação pelo PPGCOM-UFPE, viajou ao Sertão à convite do projeto Beiras D`Água, da FioCruz<br />
</strong></p>
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		<title>Na comunidade das frustrações</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Aug 2015 13:14:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Diego Viana Do Para ler sem olhar Um mês agitado para um ano agitado. Tivemos manifestações, denúncias formais, guerra de narrativas, dança de cadeiras, mas continuamos na incerteza sobre quem despachará do Planalto em 2016. Voltamos a experimentar a combinação sufocante de desemprego em alta, poder de compra em baixa e câmbio proibitivo, enquanto [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>				Por Diego Viana<br />
Do <a href="https://vianadiego.wordpress.com/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Para ler sem olhar</a></p>
<div class="entry-content clear">
<p>Um mês agitado para um ano agitado. Tivemos manifestações, denúncias formais, guerra de narrativas, dança de cadeiras, mas continuamos na incerteza sobre quem despachará do Planalto em 2016. Voltamos a experimentar a combinação sufocante de desemprego em alta, poder de compra em baixa e câmbio proibitivo, enquanto as medidas destinadas a recolocar a economia nos trilhos parecem ter o efeito contrário. Em que pese tudo isso, a constatação mais interessante de agosto de 2015 é provavelmente o vigor daquilo que poderíamos denominar, sem hesitação, a classe dominante do Brasil – mas com artigo definido: “a” classe dominante.</p>
<p>Sabemos que ela existe; sempre há algo como uma classe dominante, e não é só aqui. Podemos até descrevê-la, apontar quem faz parte dela, citar o latifúndio, as “doze famílias” da mídia – se é que são mesmo doze –, os industriais de São Paulo, o sistema financeiro. Mas não é todo dia que a vemos em ação, mobilizada em um esforço concentrado, com a cara à mostra. No mínimo, é instrutivo. E também sintomático.</p>
<p>Como se sabe, os itens a serem levados ao parlamento sob o título de <a href="http://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/2015/08/10/conheca-a-agenda-brasil-tentativa-do-governo-para-debelar-a-crise/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">“Agenda Brasil”</a> – note-se como o nome, deliberadamente, não denota coisa alguma (fora o anglicismo) – resultam de uma concertação ágil e veloz. Segundo consta, a iniciativa partiu dos proprietários do maior grupo de comunicação do país, envolveu as entidades de classe do setor produtivo no Sudeste, também abarcou as confederações de indústria e agronegócio, e por fim foi costurado pelo presidente do Senado, em diálogo direto com o ministro da Fazenda. Talvez essa seqüência esteja trocada, mas que importa? O dado relevante é vermos mídia, indústria, agronegócio, dinastias políticas, todos amalgamados e abençoados pelo sistema financeiro.</p>
<p>O que convenceu esse conjunto de poderosos a deixar os bastidores, mesmo que momentaneamente, parece ter sido a bagunça (e essa é realmente a melhor palavra) da conjuntura política. Nada garante que essa bagunça vá se dissipar, já que não temos motivos para achar que a cúpula do Executivo vai aprender a fazer política da noite para o dia – depois de tanto tempo?! E com a saída de Michel Temer da articulação política, essa hipótese parece ainda mais absurda. O que significa que mesmo o acordão de cúpula pode ruir, a depender da sorte de Dilma Rousseff com o TCU e o destino que esteja reservado para Eduardo Cunha – que já deu mostras de que quer sabotar também esse acordão, comprando briga com os poderosos que estão incomodados com ele.</p>
<p>Isso para não falar da economia…</p>
<p>Ainda assim, pode ser amargo, mas também é interessante observar à distância a destreza e a desenvoltura com que nossa classe dominante age e decide o futuro do país, quando julga necessário. Uma desenvoltura que ficou intocada nesses 27 anos de Nova República, sem sofrer um arranhão sequer desde a adoção da Constituição de 1988, nem com os avanços atribuídos aos tucanos, como o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal, nem com aqueles atribuídos aos petistas, como a inclusão de renda e a expansão do mercado interno.</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Se, por um lado, possuir uma classe dominante que paira impávida acima do sistema político está longe de ser algo aberrante – basta ver o que se passou nos EUA e na Europa desde a crise de 2008 –, por outro também parece que estamos assistindo a um evento com cara e cheiro de Brasil. Da dissolução da primeira constituinte em 1823 à proclamação da República, da reforma urbana de Pereira Passos à revolução de 30, do Estado Novo às cassações de 1964 e ao AI-5, decisões verticais em momentos graves são recorrentes.<sup><span lang="pt-BR"><a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote1sym" name="sdfootnote1anc"><sup>1</sup></a></span></sup></p>
<p>Os itens divulgados da tal agenda, em suas diferentes versões e mesmo ainda na forma de meras intenções, são talhados com toda a clareza para satisfazer a interesses, muitos deles imediatistas, de quem controla o PIB brasileiro. A começar pelo agronegócio e as empreiteiras, com as infames medidas para agilizar a concessão de licenças ambientais, como se estivéssemos com falta de desastres ecológicos nas megaobras e nos latifúndios país afora. Como se a estação de Cabrobó, recém-inaugurada, não fosse feita para transpor água de um rio São Francisco <a href="http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/vida-urbana/2012/09/25/interna_vidaurbana,398575/pesquisadores-anunciam-a-extincao-inexoravel-do-rio-sao-francisco.shtml" target="_blank" rel="noopener noreferrer">que está secando</a>. E, se há claramente problemas no sistema tributário e na legislação trabalhista, a regularização dos terceirizados, tal como proposta, fará pouco para reduzir a discrepância entre o “empregado sortudo e privilegiado” e o trabalhador precário, “pejotizado”, e muito para garantir que corporações tratem o trabalho ainda pior do que já tratam.</p>
<p>Considerações de maior envergadura, que antecipem tendências globais inclusive já anunciadas, como o imperativo sustentável e o redesenho da estrutura produtiva global, estão inteiramente ausentes, substituídas por um termo polivalente e ambíguo: a “competitividade”. Mas a competitividade de um miserável país de latifúndios e baixo valor agregado é incompatível com a de um país sustentável e pujante, do mesmo modo que o sentido do desenvolvimento na era do aço e do carvão é um e na era do byte e do painel solar é outro. A “agenda Brasil”, por trás de seu silêncio, já carrega uma escolha nesse mar de distinções – infelizmente, a <a href="http://www.scielo.br/pdf/sssoc/n112/04.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">mesma escolha</a> que o círculo de Dilma já tinha feito.</p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1593" src="https://vianadiego.files.wordpress.com/2015/08/af9dcc9e42e6ac55c1117f4ba7afc448.jpg?w=696" alt="af9dcc9e42e6ac55c1117f4ba7afc448" /></p>
<p>Outro problema, igualmente grave, de uma carta de intenções tão extensa, que se aproveita daquilo mesmo que pretensamente viria resolver – o momento de desarticulação completa tanto na esquerda como no centro (precisamos ter isso em mente!) –, é que ela lança a uma condição secundária todo o processo político, as negociações entre diferentes grupos de interesse e representantes de classe, a busca de soluções intermediárias (chamadas também de soluções “de compromisso”, em mais um anglicismo – não que eu seja necessariamente contra os anglicismos). Todas essas coisas que fazem da democracia parlamentar um regime mais maleável e palatável que qualquer outro já experimentado – como na famosa frase de Churchill.</p>
<p>É verdade que tudo que está proposto ali ainda vai passar pelo Congresso, o que é da natureza da democracia parlamentar, com todos os seus defeitos. Mas o que há de mais despolitizante e no caso da “agenda Brasil” é o próprio acordo de bastidores. Com o pano de fundo de toda a nossa história de soluções verticais para a política e a economia – se não citei acima o mais descarado de todos, cito agora: o <a href="http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/CONV%C3%8ANIO%20DE%20TAUBAT%C3%89.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">convênio de Taubaté</a> –, fica difícil evitar a sensação de que a posição secundária reservada à política propriamente dita é como o seu “lugar natural” no Brasil, o que daria razão a Sérgio Buarque de Holanda quando ele escreve que a democracia no Brasil é um <a href="http://www.scielo.br/pdf/rbcsoc/v26n76/03.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">“lamentável mal-entendido”</a>. Será que continua sendo assim, depois de tantas gerações, tantas lutas – tanto sangue, suor e lágrimas, para citar Churchill mais uma vez?</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Pensamentos negativos, esses. Mas o estranho nisso tudo é que não há como dizer que o país esteja na pasmaceira, despolitizado e desinteressado dos assuntos de Brasília. Temos, afinal, manifestações a rodo, múltiplas e desconexas, desde o famoso junho de 2013 até os “Fora Dilma”, passando pelo “Não Vai Ter Copa” do ano passado e as contraposições governistas, mas encabuladas, aos protestos de direita – e os panelaços, claro. As contradições do Brasil estão perfeitamente explícitas nesses episódios todos: da escolha de quem a polícia e a Justiça reprimirá, sob aplausos de todo o espectro político institucional e com instrumentos bem questionáveis do ponto de vista legal (que o diga Rafael Braga Vieira, preso por porte de Pinho Sol) até a estranha mistura de recusa à corrupção com uniformes da CBF, passando pelos aplausos a uma das polícias mais brutais e corruptas do universo. Eu diria que o momento histórico já está merecendo o epíteto “decisivo”.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-1588" src="https://vianadiego.files.wordpress.com/2015/08/commodi6.jpg?w=550&amp;h=521" alt="Commodi6" width="550" height="521" /></p>
<p>A rigor, o que se pode dizer não é que o país esteja paralisado ou desmobilizado – antes o contrário, isso era o que se dizia antes de 2013 – mas que está amarrado, rodando em falso, tateando às escuras. De um lado, com dificuldade em desapegar-se do PT, ou já desapegados desse partido mas sem ter outro ao qual se referenciar, aqueles com sensibilidade de centro-esquerda sentem que estão no meio de um túnel escuro, com uma luz no fundo se aproximando em alta velocidade, apitando e cheirando a fumaça.</p>
<p>De outro lado, os que têm sensibilidade de centro-direita abrem os jornais e dão com os representantes do partido que poderia acolher seus sentimentos – refiro-me ao PSDB – emitindo declarações cada vez mais tacanhas e retrógradas. E, muitas vezes, nada mais do que tolas. Sem falar na incompetência de um governador que deixa sua capital sem água (e depois mente sem enrubescer, dizendo que isso não aconteceu). Não é sem motivo que se refugiam no mero anti-petismo, sem grande desenvolvimento programático. Em certa medida, é um caso de escapismo.</p>
<p>Assim, na falta das âncoras do que um dia foi o centro, sem ninguém investido de suficiente autoridade moral para, como dizia Fernando Henrique, “administrar o atraso”, o caminho da hegemonia e até, cruz credo, do poder está desimpedido para toda uma malta de fundamentalistas religiosos, saudosos da ditadura, adoradores da truculência policial e qualquer grupelho de desvairados pretensamente politizados, desses cujos cartazes os sensatos – porém órfãos – se comprazem em ironizar, como se esse sarcasmo todo fosse conter a enxurrada do retrocesso.</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Pois é justamente nesse momento que vemos costurar-se um acordo de cúpula operado pela tal classe dominante, e para ela mesma, por cima das nossas cabeças. Um acordo que (repito) se aproveita da própria situação que supostamente vem resolver: a tibieza nos círculos centrais, normalmente os mais parrudos, do sistema político; o Executivo politicamente incapaz e administrativamente imóvel; a Câmara dos Deputados entregue a interesses pessoais e delírios fundamentalistas; a desconfiança global com a economia brasileira. A contrapartida que nos oferecem, se é que se pode falar assim, é a permanência da mandatária no poder, para alegria de seus parcos correligionários restantes – mas como no máximo um fantoche, uma vez que sua equipe já deu inúmeras mostras de incapacidade para recuperar o poder de iniciativa.<sup><span lang="pt-BR"><a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote2sym" name="sdfootnote2anc"><sup>2</sup></a></span></sup></p>
<p>Fico me perguntando qual seria o resultado, se o acordo e a “agenda Brasil” forem bem-sucedidos em manter Dilma no posto até o fim do mandato. Afinal, as energias que estão à solta nas ruas do Brasil, a começar pelas do “Fora Dilma” (mas de jeito nenhum se limitando a elas) não vão simplesmente se dissipar. A erosão lenta do PT nesse período não vai contribuir para a elaboração de novas forças de centro-esquerda, assim como a fixação de parte do PSDB com o impeachment – bem como o jogo de caciques do resto do partido – vai manter a centro-direita anestesiada e satisfeita em andar a reboque do extremismo conservador.<sup><span lang="pt-BR"><a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote3sym" name="sdfootnote3anc"><sup>3</sup></a></span></sup> Em uma palavra, repetida três vezes: frustração, frustração, frustração.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-1594" src="https://vianadiego.files.wordpress.com/2015/08/screen_shot_2013-12-05_at_91103_pm-142c5ac750e3750d142.png?w=550&amp;h=400" alt="screen_shot_2013-12-05_at_91103_pm-142C5AC750E3750D142" width="550" height="400" /></p>
<p>Há outros pontos nevrálgicos no Brasil contemporâneo onde a frustração pode já estar construindo comportamentos e narrativas insensatos – a frustração é péssima conselheira. Vendeu-se na última década a idéia do Brasil Grande, Brasil Potência, Brasil quinta maior economia, Brasil desenvolvido, sem miséria e assim por diante. Vendeu-se a idéia de que seríamos um país de classe média e que todos teriam chances na vida. De uns tempos para cá, essa imagem ficou reduzida às viagens de avião e ao consumo de roupas e eletrônicos, como no já longínquo episódio do rolezinho – que no entanto ocorreu há menos de dois anos. Mas há elementos muito mais essenciais.</p>
<p>O caso das faculdades, por exemplo. O jovem da classe C, ou “nova classe média”, como se dizia, via no acesso ao ensino superior a porta de entrada para o respeito. Melhor dizendo, o <a href="http://revistaseletronicas.pucrs.br/teo/ojs/index.php/civitas/article/view/4319" target="_blank" rel="noopener noreferrer">reconhecimento</a>. A bolsa do Fies, o ProUni e, mais tarde, o Ciência Sem Fronteiras seriam o caminho para uma carreira de sucesso, algo como um “sonho americano” em que o diploma exerceria um papel crucial. E agora, com cortes no CsF e com um quadro recessivo intenso, como vai reagir quem acreditou nesse sonho, se endividou, passou anos dormindo poucas horas por noite para poder conciliar trabalho e estudo? Alguém que se dá conta de que a faculdade que fez é de baixíssima qualidade; que o mercado de trabalho, não bastasse encolher, ainda por cima esnoba o fruto de tanto esforço?<sup><span lang="pt-BR"><a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote4sym" name="sdfootnote4anc"><sup>4</sup></a></span></sup></p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Uma das falhas das narrativas polarizadoras, à direita (“petralhas!”) como à esquerda (“coxinhas!”), é fechar os olhos justamente para essa comunidade das frustrações. Pensando bem, chega a ser engraçado se dar conta de que existe um abraço de afogados entre gente que se odeia tanto. Nessa comunidade das frustrações há espaço para todos nós, incluindo aqueles que chegamos a crer, em algum momento, que seria dado um salto quântico na política deste país, e também no dia-a-dia social, quando a miséria extrema fosse erradicada, inviabilizando alguns dos modos pelos quais as oligarquias se perpetuam. Pode até ser (quem sabe?) que esse vácuo, esse impasse, tenha origem numa ainda invisível derrocada das oligarquias… Mas seria invisível mesmo: hoje, tudo que podemos ver é o exato oposto, a oligarquia propondo um acordão de cúpula para superar o impasse da maneira que mais a beneficie. A ela e mais ninguém.</p>
<p>É preciso enxergar melhor essa comunidade da frustração, que transparece, por exemplo, na heterogeneidade das opiniões que uma <a href="http://gpopai.usp.br/pesquisa" target="_blank" rel="noopener noreferrer">pesquisa realizada por universidades paulistas</a> captou nas manifestações “Fora Dilma” do dia 16. Em primeiro lugar: como bem apontaram seus detratores, de fato, verdade verdadeira, a grande maioria das pessoas que ali estavam eram brancas, eleitoras de Aécio Neves em 2014, detentoras de diplomas universitários. São contra cotas (62%) e são punitivistas (60%). O que justificaria, pelo visto, tachá-los de elite, “elite branca”, ou, como eu dizia meses atrás, <a href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/03/21/o-impasse-e-os-impasses/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">“a elite que não é elite”</a>.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/5diego.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1001" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/5diego.jpg" alt="5diego" width="550" height="334" /></a></p>
<p>Mas os tais detratores preferiram ignorar que essa mesma pesquisa aponta nas nossas “manifestações de direita” a concordância “total” com a saúde pública para todos (88%) e gratuita (74%), a educação pública para todos (92%) e gratuita (87%), e com o transporte coletivo (72%) – que poderia ser gratuito, com concordância total ou parcial, para 50,4%. Isso mesmo: metade dos manifestantes “de direita e saudosos da ditadura” vêem algum sentido na idéia de tarifa zero, o que os coloca em linha com os anarquistas do MPL. A mesma multidão supostamente ultra-capitalista rejeita em massa (73%) o financiamento empresarial de campanha.</p>
<p>Acontece que uma multidão como aquela pode parecer um grande bloco quando vista nas fotografias à distância, e mais ainda nos recortes feitos com interesses precisos, ao elencar os cartazes mais esquisitos e os personagens mais pitorescos, como o já batido “por que não mataram todos em 64”. Mas multidões não se deixam apreender assim. Elas costumam se comportar menos como o gado conduzido ao abatedouro e mais como os íons de um campo eletromagnético ainda não polarizado, vinculados por ligações fracas; e no caso dessa multidão de agosto, ligações até mesmo circunstanciais, como a rejeição enfática a um governo em particular.</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>O quadro se torna ainda mais heterogêneo se incorporarmos a ele aqueles que rejeitam o governo sem participarem das manifestações – nas periferias, por exemplo. E mais heterogêneo ainda quando lembramos de tantos grupos de esquerda que estiveram nas ruas entre junho de 2013 e o “Não Vai Ter Copa” – sem falar nas manifestações do Movimento Passe Livre também este ano em São Paulo e Belo Horizonte, as greves de professores no Paraná e em São Paulo, a resistência de índios e ribeirinhos em Belo Monte. É muita energia se acumulando, muita raiva, muita hostilidade. E muita repressão, sem dúvida, o que não ajuda em nada. Acima de tudo, muita frustração, o afeto-rei da política brasileira em 2015.</p>
<p>Não consigo deixar de ver uma boa dose dessa frustração no recrudescimento da violência quotidiana, social, que se materializa em massacres como o do Cabula, chacinas como a de Osasco, linchamentos em diversas cidades, estupros recorrentes (fiquei particularmente chocado com um dos casos ocorridos no metrô de São Paulo, felizmente não consumado), ataques a transexuais, atentados contra religiões de matriz africana, a polícia do Rio barrando jovens negros, suburbanos, que queriam ir à praia. Talvez em outra escala, o mesmo valha para a guerra em torno das ciclovias “do Haddad” em São Paulo – na verdade, em torno de qualquer iniciativa do prefeito petista. Com o risco de soar especulativo, anti-científico e o cacete, sinto que tudo isso manifesta uma tensão crescente: as pessoas estão com os nervos à flor da pele e os caminhos mais sensatos para discutir a convivência social estão fechados no Brasil.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/6diego.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-1002 alignright" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/6diego.jpg" alt="6diego" width="300" height="401" /></a></p>
<p>Tentando clarear um pouco o quadro, eu poderia tentar vincular tudo isso aí acima às expectativas dos diferentes segmentos sociais, tal como expressas, por exemplo, em 2010, o ano do “crescimento chinês”. Uma nova estrutura social, dizia-se, em forma de losango e não mais pirâmide, traria um novo ciclo de desenvolvimento, ao custo dos privilégios de alguns poucos. Quais privilégios? Talvez a falha trágica esteja em não se ter tocado nessa pergunta, levantando assuntos sensíveis e cruciais como o latifúndio, o patrimonialismo e a carteirada. Falou-se bastante em baixar os juros (parece que isso ficou para as calendas gregas) e no fim do trabalho doméstico. E só.</p>
<p>É claro que este último item já seria uma enorme conquista, mas dificilmente viria sozinho e se estabeleceria de maneira duradoura. De fato, continuaremos a ser uns escravocratas mal disfarçados enquanto qualquer assalariado puder contar com uma doméstica em casa. “Ter uma empregada”, como se diz. Qualquer gerente, qualquer assistente. No Brasil, até algumas empregadas domésticas têm empregadas domésticas! Mas não é só a empregada, claro, embora essa seja uma figura paradigmática. O que dizer de porteiros para abrir a porta do elevador, restaurantes com um garçom para cada duas mesas, postos de gasolina cheios de frentistas?</p>
<p>Mas veio o crescimento. Vieram o ProUni e o Fies. Filhos de trabalhadores precários, domésticos em particular, puderam tentar profissões mais bem pagas e consideradas mais dignas. O custo desse trabalho começou a subir e a gritaria foi tão violenta que camponeses da China ouviram e ficaram se perguntando de onde vinha tanta barulheira. Por causa de um único, mísero privilégio ameaçado. Finalmente, estávamos diante da perspectiva de que alguns não seriam mais obrigados a se humilhar e outros teriam de tomar conta da própria vida. E foi um pandemônio.</p>
<p>Acontece que parou por aí. Para contra-atacar a ofensiva anti-governista, os defensores de Dilma podem perfeitamente invocar a raiva de uma elite que vê seus privilégios ameaçados – um deles, pelo menos. “Agora pobre anda de avião e faz faculdade”, como se diz. E o que mais? Os ruralistas seguem exaurindo as terras e metendo a grana no bolso. Os bancos continuam sendo alimentados como gansos de <i>foie gras</i> pelos juros usados para segurar o câmbio e, com ele, a inflação. A mídia continua absurdamente concentrada. Os elefantes brancos da Copa, a poluição e as remoções na “Cidade Olímpica” e e o ecocídio de Belo Monte estão aí para mostrar que o único temor que um empreiteiro precisa ter hoje no Brasil é o de passar uma breve temporada na cadeia. E depois voltar à rotina.</p>
<p>Paradoxo! Mais um para a interminável coleção brasileira: é perfeitamente verdadeira a raiva por causa de privilégios perdidos… e é perfeitamente verdadeira a manutenção dos privilégios históricos. Isto aqui, ô-ô, é um pouquinho de Brasil, iaiá.</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Momentos como este, que misturam agressividade, imobilismo e frustração, sugerem a aproximação de um clímax catártico. Talvez a ascensão de um líder muito carismático, para o bem ou para o mal, arrastando multidões com a promessa de eliminar a sujeira ou reconquistar a pujança nacional, algo assim. Talvez uma guerra civil, um golpe de Estado, um colapso financeiro. Já passamos por algumas dessas experiências, e até mais: tivemos também um suicídio.</p>
<p>A esta altura, uma possível catarse seria o tão propalado impeachment de Dilma, com suas variantes – impugnação da chapa, renúncia, licença médica. Fico imaginando como seria esse momento (talvez eu descubra logo), dado o nível de tensão em que as pessoas se encontram. Seria certamente uma imagem impactante, o retrato vivo da destruição do PT, que alguns iam vivenciar como epifania e outros tentariam retratar com tintas de tragédia – Dilma, aliás, certamente tem cara de quem se esforçaria para ser um Creonte do planalto central…</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/7diego.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1003" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/7diego.jpg" alt="7diego" width="550" height="309" /></a></p>
<p>É mesmo preciso discutir a sério o que seria essa catarse, o que ela implicaria, o que viria depois, a quem interessa – e o que podemos esperar caso ela não ocorra. Esta última hipótese talvez seja a mais fácil de responder: a tensão continuaria crescendo, o PT continuaria sendo carcomido, os tucanos continuariam em suas disputas de caciques. As sensibilidades mais ao centro, esquerda como direita, seguiriam órfãs, e talvez pudéssemos torcer avidamente pela recomposição de outras forças para ocupar esse espaço antes que sobrevenha a próxima reviravolta – ou, para seguir na analogia teatral, a próxima peripécia –, que seria cataclísmica. Caso contrário, vozes no estilo Reinaldo Azevedo vão encontrar cada vez mais ressonância e cada vez mais hidrófobos passariam à ação. Para não falar em personagens terríveis, daqueles que circulam pelo meio político e podem fazer leis, controlar orçamentos públicos, gozar de imunidade parlamentar…</p>
<p>Sobre a catarse de um impeachment ou renúncia, meu medo é que ocorra o exato oposto disso: que as tensões se acalmem de uma vez só – o que seria uma ilusão temporária, sem dúvida. Nesse cenário, Dilma desceria a rampa, em grande medida, com o figurino de um bode expiatório, sacrificado pela pólis (estranha pólis, essa nossa) para expurgar nossas incontáveis transgressões. Não é por acaso que um dos maiores interessados em manter de pé a tese do impeachment (mas talvez não levá-lo a cabo) é justamente Cunha, no esforço de enfraquecer o governo e afastar de si próprio o perigo espectral das investigações de corrupção.</p>
<p>Na imaginação simplória de muita gente, a remoção do PT do poder significaria o sucesso do combate à corrupção, a realização definitiva de um processo acompanhado com avidez; daí por diante, nada mais seria necessário fazer, o problema estaria resolvido, o mal cortado pela raiz. Seria possível voltar ao dia-a-dia, ao “business as usual”, à vida de sempre. Mas a vida de sempre, no Brasil, bem sabemos o quanto envolve a violência, a corrupção, o déficit democrático. Sangra o boi de piranha, a boiada segue firme, pisoteando o território.</p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/8diego.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1004" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/08/8diego.jpg" alt="8diego" width="550" height="293" /></a></p>
<p>Escoar todas as frustrações pelo buraco negro de um impeachment poderia ter a vantagem de evitar a explosão que se anuncia, mas seria uma solução falsa, que removeria o ímpeto daquela que talvez seja a única boa notícia do momento: a ofensiva contra as relações incestuosas entre grande capital e grande política no Brasil, que são, não custa lembrar, generalizadas e suprapartidárias (prefiro dizer: diapartidárias). Passado o momento catártico, permaneceria o rancor. Novas frustrações se somariam às já existentes quando ficasse claro o quanto as estruturas permanecem intocadas – estruturas que sustentam o incesto mencionado acima.</p>
<p>Muitos da multidão presente no “Fora Dilma” se sentiriam traídos e, mais uma vez, frustrados. Mas é bastante comum que mobilizações multitudinárias acabem resultando em transformações políticas que em nada lembram as reivindicações originais dos protestos; está aí a Primavera Árabe que não me deixa mentir. Acontece que, ao provocar um curto-circuito no exercício quotidiano do poder, essas mobilizações abrem espaço para oa ação de outras forças e outros poderes, em geral mais organizados e com objetivos mais claros que os seus. No nosso caso, ainda não chegamos a esse ponto, já que a tal classe dominante entrou em ação.</p>
<p style="text-align: center;">* *</p>
<p>Isso tudo é o que caracteriza o impasse, o mato-sem-cachorro, o vai-não-vai. Estamos entre dois pólos. Aqui, uma catarse que nada resolve, mas passa a impressão de resolver, para a alegria dos eventuais sobreviventes – Cunha à testa. Ali, o acordão que tudo resolve, mas seria melhor que não resolvesse, porque só resolve para uns e deixa o abacaxi na mão de todos os demais – você e eu, basicamente. No meio, um governo que já se demonstrou inviável em inúmeras ocasiões desde 2011, incapaz de garantir vitórias parlamentares com segurança mesmo nos momentos de maior apoio popular, e hoje sem quase nenhuma popularidade, nenhum poder de iniciativa e nenhum diálogo com as próprias bases, isto é, com o que um dia foram suas bases.</p>
<p>Seguimos assistindo ao desenrolar da trama em nossa comunidade de frustrações, em nosso abraço de afogados. Seguimos torcendo pelos nossos grupos políticos favoritos e odiando uns aos outros. Seguimos acompanhando as chacinas reiteradas e a dissolução dos códigos de convívio social, acusados de “defender bandido” e outras imbecilidades. Aqui na terra, como diz Chico Buarque, vão jogando futebol; mas cada vez pior, e nem uma goleada em casa por 7 a 1 nos dá forças para derrubar o <i>Ancien Régime</i>. E seguindo com Chico – já que citei o pai, cito o filho também: uns dias chove (cada vez menos), outros dias bate sol (cada vez mais forte), “mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”.</p>
<p class="western" lang="pt-BR" style="text-align: center;"><strong>NOTINHAS</strong></p>
<div id="sdfootnote1">
<p class="sdfootnote-western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote1anc" name="sdfootnote1sym">1</a><span lang="pt-BR">Há também os exemplos que contaram com expressivo apoio popular, como a candidatura de Tancredo (depois de rejeitada a emenda Dante de Oliveira) e a derrubada de Collor.</span></p>
</div>
<div id="sdfootnote2">
<p class="western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote2anc" name="sdfootnote2sym">2</a><span lang="pt-BR">É especialmente difícil analisar uma conjuntura em que uma das principais variáveis é a incompetência e o comportamento errático de um pequeno grupo de indivíduos que ocupam uma posição central. Nos últimos meses, até anos, houve várias ocasiões em que portas se abriram para que o governo saísse das cordas, e ele mesmo preferiu continuar levando bordoadas. Não dá para explicar. Tudo seria muito diferente com lideranças mais sagazes.<br />
</span></p>
</div>
<div id="sdfootnote3">
<p class="western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote3anc" name="sdfootnote3sym">3</a><span lang="pt-BR">Que está estranhamente misturado a grupos ultra-liberais em economia, composto por jovens incultos que importaram suas idéias de neo-conservadores americanos, já desqualificados em seu próprio país.</span></p>
</div>
<div id="sdfootnote4">
<p class="western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/08/27/na-comunidade-das-frustracoes/#sdfootnote4anc" name="sdfootnote4sym">4</a><span lang="pt-BR">No que está muitas vezes enganado, diga-se. O diploma de uma péssima faculdade, na mão de um formando esforçado e ambicioso, pode valer bem mais do que o de muitos colegas que tive da USP.</span></p>
<p class="western">
</div>
</div>
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