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	<title>Arquivos capitalismo - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Thu, 19 Sep 2024 00:26:35 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos capitalismo - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<item>
		<title>A íntima relação entre o trabalho precarizado e o sofrimento psíquico</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 18 Sep 2024 20:28:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[depressão]]></category>
		<category><![CDATA[trabalho]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O filósofo Mark Fisher abre o livro Realismo Capitalista escrevendo sobre como há na sociedade uma sensação de que não apenas o capitalismo é o único sistema político e econômico viável, mas também de que agora é impossível até mesmo imaginar uma alternativa ao capitalismo. Fisher faz uma analogia com uma pessoa depressiva, “que acredita [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p id="viewer-jm5td308">O filósofo Mark Fisher abre o livro <em>Realismo Capitalista </em>escrevendo sobre como há na sociedade uma sensação de que não apenas o capitalismo é o único sistema político e econômico viável, mas também de que agora é impossível até mesmo imaginar uma alternativa ao capitalismo. Fisher faz uma analogia com uma pessoa depressiva, “que acredita que qualquer estado positivo, qualquer esperança, é uma ilusão perigosa”. </p>



<p id="viewer-jm5td308">E depressão e o capitalismo estão intimamente ligados, afirma o sociólogo Gabriel Peters, professor de sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). </p>



<p id="viewer-jm5td308">“A depressão, a ansiedade e o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) possuem fontes sistêmicas, coletivas e estruturais. A lógica da sociedade contemporânea – e do capitalismo tardio, em particular – produz montantes muito significativos de sofrimento e essas experiências de sofrimento socialmente determinadas precisam ser explicadas pela sociologia também”, disse em entrevista durante o <em>I Seminário Mundos do Trabalho: da precarização laboral ao adoecimento mental</em>, promovido pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e os grupos de pesquisa Labor (UFRPE) e Gesto (UFPE).</p>



<p id="viewer-5efgw321">No seminário, Peters citou o livro <em>Fatigue d&#8217;être soi </em>(<em>A fadiga de ser si mesmo</em>, em tradução livre), do antropólogo francês Alain Ehrenberg, para mostrar como o diagnóstico psiquiátrico da depressão acompanhou as transformações do capitalismo tardio. “Ehrenberg elenca o fato de que hoje um componente fundamental no diagnóstico da depressão tem menos a ver com tristeza e mal-estar e mais a ver com aqueles sintomas relacionados à inação, letargia, incapacidade de funcionar”, afirmou Gabriel Peters.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/09/66535fd9-7008-41b0-a37c-b84858b5d95f.jpeg" alt="A imagem mostra um ambiente interno com um homem maduro em pé em frente a uma parede. Ele é pardo, com cabelos escuros levemente cacheados, barba e bigode com alguns fios grisalhos. A parede é parcialmente revestida com azulejos brancos até aproximadamente a metade da altura. Acima dos azulejos, há uma linha decorativa cor marrom e bege com grafismos. O homem está vestindo uma camiseta preta simples e parece estar em uma posição casual, rindo para a câmera. Atrás da pessoa, à esquerda da imagem, há uma planta em vaso verde, que adiciona um elemento natural ao ambiente, que é de outra forma simples." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Gabriel Peters estabelece a relação entre a depressão e as formas contemporâneas do trabalho
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação MCS</span>
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                    </figure>

	


<p id="viewer-fxhbn328">Para o professor, autor do livro <em>Ordem social como problema psíquico: do existencialismo sociológico à epistemologia insana,</em> não surpreende que a depressão se torne um problema de saúde pública para a Organização Mundial da Saúde (OMS) justamente quando se torna a principal causa de incapacitação para o trabalho. Segundo a OMS, em 2019, quase um bilhão de pessoas viviam com algum transtorno mental.</p>



<p id="viewer-gf16a333">“Também não surpreende que boa parte do tratamento clínico da depressão – tanto psicoterapêutico quanto medicamentoso – seja menos voltado para restituir a felicidade ao indivíduo que se tornou infeliz e mais voltado a refuncionalizar esse indivíduo, torná-lo mais uma vez capaz de trabalhar, de interagir socialmente”, afirmou Peters, completando que “essa geração mais nova de antidepressivos são menos pílulas da felicidade e mais pílulas da atividade, para tornar o indivíduo mais uma vez capaz de operar no mundo”.</p>



<p id="viewer-727h4336">Não é apenas com remédios, já que há uma multiplicidade de dispositivos pelos quais os trabalhadores tentam corresponder às exigências do capitalismo. “Por exemplo, quando eu tomo café para combater a sonolência numa reunião de trabalho, eu estou usando um dispositivo neuroquímico; quando eu uso um aplicativo de meditação para relaxar ou para administrar meu tempo eu estou me valendo de um dispositivo tecnológico”, elencou.</p>



<p id="viewer-9qfs4339">Ao mesmo tempo que exige um indivíduo com foco para trabalhar ou estudar por longas jornadas, o mesmo sistema oferece um ambiente repleto de distrações que foram criadas para viciar. “Existe uma expertise em psicologia do vício que foi deliberadamente utilizada no Spotify, no Instagram, no TikTok e em várias outras plataformas para deixar o indivíduo ligado à máquina. Entram também as soluções medicamentosas, que servem tanto para combater transtornos como para otimização do desempenho. A ritalina pode ser prescrita para uma criança por um psiquiatra a partir de um diagnóstico de TDAH, mas pode ser tomada por uma acadêmica que quer virar à noite escrevendo”, exemplifica.</p>



<div class="wp-block-media-text has-media-on-the-right is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:auto 22%"><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Essa miríade de estímulos do capitalismo rege não só o trabalho, mas também o lazer. Peters cita o livro <em>24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono,</em> do crítico cultural estadunidense Jonathan Cary, para mostrar que o sono é o único período do dia em que nós somos inúteis ao capitalismo, tanto como produtores quanto como consumidores. “Se eu não estou trabalhando, mas estou acessando o Instagram ou assistindo a um seriado na Netflix, continuo sendo útil ao capitalismo.</p>
</div><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="474" height="717" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/09/livro-1-247.jpeg" alt="" class="wp-image-65904 size-full"/></figure></div>



<p id="viewer-ckpke342"> É só no momento em que durmo, que mergulho na inconsciência, que eu me torno completamente inútil. O capitalismo tenta alvejar esse período de inutilidade do indivíduo por diversas maneiras, inclusive a via neuroquímica”, disse.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="viewer-ma3j0348">Ansiedade e precarização do trabalho</h2>



<p id="viewer-c46pq351">A precarização imposta aos trabalhadores também tem um componente importante quando se fala de sofrimento psíquico: a ansiedade. Para Peters, tem a ver, sobretudo, com as incertezas em relação ao futuro. “A precarização significa instabilidade no trabalho, incerteza em relação à renda que vai ser retirada do trabalho. Isso por si só já é uma maneira de forçar as pessoas à autoexploração”, enfatizou.</p>



<p id="viewer-406o6354">Peters também critica o discurso do empreendedorismo que tenta refrasear perdas de garantias trabalhistas e perdas de proteção social dos trabalhadores como supostas virtudes. “Em vez de falar da falta de direitos, esse discurso vai elogiar a flexibilidade e a suposta autonomia que se tem para construir o seu próprio horário. Até mesmo vai elogiar a aventura e o risco, que são maneiras, digamos, de dar um componente heroico ao que é uma instabilidade, uma precarização. E, mais uma vez, esse discurso pode penetrar na própria subjetividade dos trabalhadores”.</p>



<p id="viewer-whcfv357">Ele explica que no trabalho contemporâneo existem certas coações para que o trabalhador mantenha, pelo menos, a máscara da <em>persona</em> de empreendedor. “Parte desse trabalho contemporâneo precarizado envolve você vender não só suas competências, mas toda uma personalidade para o mercado. Então, o motorista da Uber é avaliado pelo bom humor, pela gentileza, etc. Todo o discurso gerencial sobre recursos humanos envolve essa ideia, por exemplo, de que você tem que vestir a camisa da empresa, de que você não pode reclamar”, disse.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;Em vez de falar da falta de direitos, se elogia a flexibilidade e a suposta autonomia que se tem para construir o seu próprio horário&#8221;</p>
</div>


<p id="viewer-l3t3n362">É uma forma também de despolitizar o trabalho. “Muitas vezes o trabalhador sofre, mas não encontra um espaço para veicular esse sofrimento. Uma pessoa que vai escrever no LinkedIn sobre a última experiência que teve numa empresa, vai escrever sobre o chefe que a demitiu, só que, na medida em que ela tem a intenção de ser contratada por uma outra empresa, provavelmente ela vai construir uma narrativa rósea do que viveu, vai dizer que aprendeu muito e vai deixar de lado toda espécie de sofrimento que ela pode ter vivenciado até o ponto da demissão”.</p>



<p id="viewer-a6otk365">Para Peters, o indivíduo em depressão se assemelha a um empreendedor colapsado. “O elemento da atividade foi substituído pela inatividade radical e esse é um ponto claro em que o diagnóstico de depressão se encontra com o <em>burnout.</em> É interessante que quando o filósofo Byung-Chul escreve <em>Sociedade do Cansaço</em>, nesse ‘cansaço’ do título está tanto o <em>burnout </em>quanto a depressão”.</p>



<p id="viewer-edllt374">A epidemia de depressão verificada pela OMS é um “alarme civilizacional”, diz Peters, porque o capitalismo exige demais dos corpos dos indivíduos, até o ponto do colapso. “Assim como o desenvolvimento tecnológico não pode continuar sem destruir o próprio ecossistema da Terra, é como se o capitalismo, e esse modelo de subjetividade capitalista, não pudesse continuar funcionando sem deixar de gerar esse montante de milhões e milhões de indivíduos que colapsam no sofrimento depressivo”, afirma.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="viewer-ss9ax377">Um trabalho com propósito</h3>



<p id="viewer-2he2k380">Se o sofrimento psíquico também tem fontes sociais, estruturais e sistêmicas, o combate a esse sofrimento também passa por ações coletivas e políticas. Peters defende a existência de políticas públicas para construir condições de trabalho que protejam a saúde mental dos trabalhadores. “Essa pandemia de depressão não é só um agregado de sofrimentos individuais: o sistema capitalista está exigindo demais dos indivíduos. Não é, obviamente, negar a importância do tratamento individual, da psicologia clínica, até mesmo da psiquiatria, mas é dizer que esse tratamento individualizado é insuficiente”, afirma.</p>



<p>“Se você está numa sociedade adoecedora, a única coisa que um tratamento individual vai poder fazer é tentar garantir sua adaptação maior ou menor a essa sociedade adoecedora sem combater as causas sistêmicas desse adoecimento”, pondera, completando que há múltiplas maneiras de fazer esse combate.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:24% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="707" height="1000" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/09/livro-2-a-ordem-1.jpg" alt="" class="wp-image-65914 size-full"/></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Uma delas é combinar, por exemplo, o trabalho com a partilha do sofrimento com outros trabalhadores e estudantes. “Na vida acadêmica isso é extremamente comum. Somos meio que coagidos para nos apresentarmos uns aos outros como intelectos puros e não como essas criaturas de carne e vísceras que sofrem de insônia, ansiedade, etc. Simplesmente partilhar essas vulnerabilidades em vez de vestir essa máscara da invulnerabilidade, já é um início importante”, acredita.</p>
</div></div>



<p id="viewer-tibdn386">Para o trabalho não só deixar de ser um fator de adoecimento, mas também ser uma fonte de prazer, Peters afirma que a ideia de um trabalho significativo tem de ser reconstruída. “Alguns considerariam utópica, mas acredito em um sistema social que pudesse desvincular, pelo menos em alguma medida, renda e emprego”, diz.</p>



<p id="viewer-m1ib3394">A ideia de renda básica universal, por exemplo, é uma maneira de fazer isso. “Responde ao desemprego como um problema sistêmico e recupera o trabalho como uma atividade significativa. Nesse mundo, o trabalho fundamental da vida da pessoa não é necessariamente o que dá a ela o ganha-pão, mas é o que dá a ela o senso de propósito, seja engajamento comunitário, seja envolvimento artístico e assim por diante.</p>



<p id="viewer-haltv396">O trabalho nunca é só, ou pelo menos nunca deveria ser, o ganha-pão. Se ele é só o ganha-pão, acaba tendo efeitos psicológicos degradantes para o indivíduo”, conclui.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Texto publicado em parceria com a <a href="https://www.coletiva.org/">Revista Coletiva</a>, plataforma de divulgação científica e cultural da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj)</p>
    </div>
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			</item>
		<item>
		<title>Lucro acima da vida: por que você consumiria de quem acha OK milhares morrerem pelo coronavírus?</title>
		<link>https://marcozero.org/lucro-acima-da-vida/</link>
					<comments>https://marcozero.org/lucro-acima-da-vida/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Débora Britto]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Mar 2020 18:47:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Consumo]]></category>
		<category><![CDATA[coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[Vida acima do lucro]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A crise de saúde e também econômica e social desencadeada pela pandemia do coronavírus chegou para acentuar as desigualdades estruturais que o capitalismo fundou, mantém e atualiza. O importante, para o modo de vida capitalista, é manter o lucro. Mesmo que isso custe vidas. Talvez não a sua vida, mas isso foi antes do coronavírus. [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A crise de saúde e também econômica e social desencadeada pela pandemia do coronavírus chegou para acentuar as desigualdades estruturais que o capitalismo fundou, mantém e atualiza. O importante, para o modo de vida capitalista, é manter o lucro. Mesmo que isso custe vidas.</p>



<p>Talvez não a sua vida, mas isso foi antes do coronavírus. Agora, ricos e pobres (estes sim, desde sempre vidas descartáveis) podem ser afetados.Isso não quer dizer que estão em igualdade de condições. </p>



<p>O que isso muda na lógica capitalista? Essa é a pergunta que muitas pessoas estão se fazendo. Sem resposta até agora, mas com uma certeza: esta crise pode abrir caminho para questionar o nosso modo de vida e o sistema capitalista tal como o conhecemos. A começar por retomar a ideia de que o mercado não está nem aí para a vida das pessoas, desde que continuem comprando.</p>



<p>A declaração do empresário paranaense Julio Durski, dono da rede de restaurantes Madero, contra as medidas preventivas e restritivas de combate ao coronavírus, deixou mais evidente o caráter predatório de segmentos empresariais nacionais. Para ele, a roda do mercado não pode parar de girar <a href="https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/03/consequencias-economicas-serao-maiores-do-que-5-ou-7-mil-que-vao-morrer-diz-dono-do-madero.shtml">&#8220;se 5 ou 7 mil pessoas vão morrer&#8221; por conta da pandemia no Brasil</a>.</p>



<p>&#8220;O que fica patente com o coronavírus é que precisamos pensar outras formas de organização social que não seja pelo mercado. O mercado tem um fracasso retumbante nesta crise”, afirma a professora de ciências sociais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Maria Eduarda da Rocha Mota, para quem o que estamos vivendo, hoje, é um sintoma de algo mais geral e estrutural.</p>



<p>Segundo Maria Eduarda, faz parte do próprio modo de ser capitalista o desprezo por tudo que não for o lucro. Depois do pronunciamento do presidente Bolsonaro, na terça (24), ficou ainda mais evidente o compromisso do governo com os grandes empresários em vez de priorizar a saúde da população. Ao contrariar tudo que os organismos internacionais, como a Organização Mundial de Saúde, (OMS) e outros países estão fazendo para conter a pandemia do coronavírus, o atual chefe de Estado brasileiro defendeu um tipo de concepção capitalista ainda mais precário, analisa a socióloga.</p>



<p>&#8220;O discurso do presidente é afinado com uma visão da parte mais tacanha do empresariado brasileiro, de médio porte e que tem uma visão limitada. Pensam simplesmente nos 4 meses que não tem folha de pagamento, não conseguem pensar a longo prazo, em 3 anos, 4 anos. Não conseguem sequer ver além do próprio umbigo, são pessoas que não conseguem ver além da folha contábil”, explica.</p>



<p>Por isso, Maria Eduarda não acredita que estamos vivendo uma exceção. &#8220;Se ele [o mercado] não for regulado, pensado, é isso que sobra. Uma crise como essa só faz evidenciar como esse tipo de mentalidade é incapaz de responder às nossas questões ambientais, de saúde, de sociedade. Se a humanidade for deixada sob o jugo dessa mentalidade, é o que acontece”.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Capitalismo à brasileira</strong></h3>



<p>Ainda pensando as estruturas que já colocaram pobres, negros, povos e comunidades tradicionais em situação de maior vulnerabilidade, Maria Eduarda explica que o próprio capitalismo, no Brasil, nunca conseguiu dar estabilidade para a classe trabalhadora. A tendência é piorar a situação até de quem tem emprego. “O capitalismo brasileiro é problemático pelo tipo de trabalho que ele conseguiu gerar. Temos um grau de precariedade e informalidade muito grande. A industrialização brasileira não foi capaz de gerar trabalho regular”, diz.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Discurso de Bolsonaro se alinha ao que há de mais atrasado no capitalismo nacional. Arte: Thiko</p>
	                
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                    </figure>

	


<p>Além disso, a informalidade vem crescendo exponencialmente nos últimos anos. É o caso de trabalhadores de aplicativos de entrega, por exemplo. Nesse cenário, com a suspensão das atividades econômicas por causa do coronavírus, quando o governo defende a continuidade do trabalho sem qualquer responsabilização de empresas, ele &#8220;condena formais à condição de informais”, avalia.</p>



<p>É importante lembrar que o problema não é só no Brasil. A jornalista canadense Naomi Klein, autora de A Doutrina do Choque: A Ascensão Do Capitalismo Do Desastre, explicou como, nos Estados Unidos, o presidente <a href="https://theintercept.com/2020/03/21/coronavirus-capitalismo-de-desastre/">Trump, lobistas e grandes corporações vêm atuando para enriquecer ainda mais os super ricos e desproteger a população</a> dos efeitos econômicos, sociais e na saúde causados pela pandemia do coronavírus.</p>



<p>O problema é o capitalismo, em si. Já estamos vendo isso por aqui, em terras tupiniquins, com Bolsonaro socorrendo bancos e companhias aéreas.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Como superar o coronavírus e o capitalismo</strong><br></h3>



<p>Alguns filósofos, a exemplo do esloveno Slavoj Zizek, enxergam que o <a href="https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/zizek-ve-o-poder-subversivo-do-coronavirus/">coronavírus pode abrir uma fissura na sociedade</a> para que um outro sistema &#8211; que não o capitalismo, tampouco o socialismo &#8211; surja. Para a socióloga Maria Eduarda Rocha, a crise do coronavírus traz à tona a urgência de reconhecer a importância do Estado.</p>



<p>&#8220;O que a epidemia trás é um senso de urgência de ação do Estado. Não só do Estado, mas de construção de laços comunitários, para além do mercado. O que o momento apresenta é justamente a contradição. E a contradição é a brecha do aprendizado. O presidente que deveria estar protegendo as pessoas, não está. Então a gente tem que colocar o dedo na ferida”, argumenta.</p>



<p>Para a professora, no entanto, a resposta tem que vir, necessariamente, de uma mobilização da sociedade civil que não seja apenas de classe média. Por exemplo, quando funcionárias de telemarketing se recusaram a trabalhar em condições de super exposição ao coronavírus.&#8221;O potencial político de uma crise como essa é perceber como a condição é coletiva. O medo do futuro, a falta de sentido, tudo isso que aparece agora como sendo problema do coronavírus já era um problema do sistema. As pessoas viviam isso na solidão e agora percebem como uma condição coletiva”, explica.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Repensar o consumo, denunciar e boicotar</strong></h2>



<p>A outra ponta desse debate é saber quais são as empresas e quem são os donos de empresas que estão dispostos a colocar pessoas em risco para manterem seus lucros. Para alguns movimentos, o caminho mais estratégico é boicotar quem viola direitos. Isso porque decidir não consumir de determinada corporação é um ato não só político, mas também uma ação objetiva e que surte efeito rápido. Afinal, a perda ou a redução da margem de lucro são os principais temores dos empresários.</p>



<p>Nas redes sociais, vários perfis também passaram a questionar o capitalismo como problema central no combate à pandemia e às violações de direitos de trabalhadores. A página <a href="https://www.instagram.com/coronacapitalismo/">Coronacapitalismo</a> surgiu há uma semana e já tem mais de 33 mil seguidores. A iniciativa é inspirada nos movimentos de boicote à África do Sul para pressionar pelo fim do apartheid e no movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanção (BDS), que defende o fim da colonização e ocupação militar israelense no território da Palestina.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">A página @coronacapitalismo expõe denúncias de abusos praticados por empresas</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O objetivo é simples: reunir denúncias de empresas que estão cometendo violações de expor trabalhadores à contaminação ou medidas de retirada de direitos. O trabalho, por outro lado, é enorme. Só nos primeiros dias a página recebeu, via <a href="https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScp_GTA3OslIApklaUfb_hX8VQU7gZKTM6eNWK41iY4VjbrEg/viewform">formulário disponível online</a>, mais de 3 mil denúncias.</p>



<p>As pessoas envolvidas na iniciativa, de maneira anônima, devido à segurança, fazem análise das denúncias, checam os fatos e dados, produzem conteúdo, revisam para, então, publicar na página. Até o momento, entre as empresas mais denunciadas por trabalhadores estão a Riachuelo, Havan, Bradesco, JBS, Cocobambu, Uber e Itaú. Muitas empresas de call centers também figuram na lista. </p>



<p>“O que nos revolta é que são grandes empresas de praticamente todos os segmentos sociais, que até ano passado vinham ostentando recordes de lucro e que estão nesse momento desrespeitando seus trabalhadores ao colocarem o lucro acima da vida deles, expondo ao vírus ou realizando medidas que precarizam seu trabalho e sua condição de sobrevivência financeira nessa crise”, afirma uma das pessoas organizadoras da página.</p>



<p>O coletivo defende também que o isolamento social &#8220;envolva a transferência imediata de todo trabalho não-essencial para o combate ao coronavírus para funções remotas e <em>home-office </em>e, nos casos que não seja possível essa modalidade de trabalho, que seja concedida licença remunerada aos trabalhadores tanto do salário fixo quanto da média variável dos últimos 3 meses sem férias compulsórias, sem afastamentos sem remuneração, sem reduções de salários e sem demissões nesse período de crise”. <br></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/lucro-acima-da-vida/">Lucro acima da vida: por que você consumiria de quem acha OK milhares morrerem pelo coronavírus?</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>“A armadilha do consumo consciente é culpar o indivíduo pela catástrofe ambiental”, diz Sandra Guimarães</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Jul 2019 18:10:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[ativismo]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Palestina]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Lançado em 2010, o blog Papacapim é uma deliciosa reunião de receitas veganas. Só de ler os textos, que quase sempre contam também a história até se chegar a aquele prato, já dá água na boca, mesmo de quem é onívoro. Produzido pela potiguar Sandra Guimarães, o Papacapim ensinou a cozinhar a uma geração de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Lançado em 2010, o <a href="http://www.papacapim.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">blog Papacapim</a> é uma deliciosa reunião de receitas veganas. Só de ler os textos, que quase sempre contam também a história até se chegar a aquele prato, já dá água na boca, mesmo de quem é onívoro. Produzido pela potiguar Sandra Guimarães, o Papacapim ensinou a cozinhar a uma geração de vegetarianos e veganos. Mas o sucesso do blog está longe de ser somente as receitas: Sandra fala sobre questões ambientais, política, viagens e a causa Palestina, terra que ela visita regularmente.</p>
<p style="text-align: left;">Uma das luta de Sandra é desmistificar o veganismo como uma dieta só para quem pode ter um cozinheiro a seu dispor. E mostrar que a luta pelo bem estar animal vai muito além de uma escolha individual. “Estamos disputando o movimento vegano, porque antigamente era um movimento pequeno aqui no Brasil e de repente cresceu. Que bom que cresceu, mas teve um preço a ser pago, que foi esvaziar o veganismo de política. As pessoas pensaram que seria mais fácil popularizar só focando na dieta baseada em plantas&#8221;, afirma.</p>
<blockquote>
<h3><a href="http://marcozero.org/ativismo-vegano-conheca-o-movimento-que-se-opoe-ao-capitalismo-e-luta-por-justica-social/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Ativismo vegano: conheça o movimento que se opõe ao capitalismo e luta por justiça social</a></h3>
</blockquote>
<p>O outro foco do ativismo de Sandra acontece na causa Palestina. Durantecinco anos promoveu viagens político-veganas pelo território ocupado por Israel,conduzindo ativistas brasileiros. Atualmente, desenvolve com a fotógrafa francesa Anne Paq, o jornalista palestino Ahmad Al-Bazz e o vídeomaker inglês Craig Redmond o projeto multimídia <a href="https://baladirootedresistance.com/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Baladi Rooted Resistence</a>, que mostra agricultores palestinos recuperando a tradição das plantações com sementes creoulas. “Os palestinos só estavam cultivando dois tipos de trigos, que eram de sementes israelenses. Esses agricultores retomaram a tradição local, no que chamaram de agro resistência. É um termo muito forte e bonito”, diz Sandra, que pretende unir as experiências na Palestina com outras formas de agro resistência, como a que ocorre no Sertão nordestino.</p>
<p>Morando há anos na Europa, Sandra Guimarães participou na semana passada do I Encontro Nacional da União Vegana de Ativismo, o Enuva. Entre uma mesa e outra, ela conversou com a Marco Zero Conteúdo sobre os desafios da popularização do veganismo, a ocupação da Palestina, entre outros assuntos.</p>
<p><strong>A luta contra a libertação animal pode ser uma luta vinculada ao capitalismo?</strong></p>
<p>Não, a definição mais utilizada pelo veganismo é a da Vegan Society, que todo mundo ainda usa até hoje essa definição que eles deram: que o veganismo é um estilo de vida que busca excluir na medida do possível a exploração animal da alimentação, do vestuário, do entretenimento. O problema para mim é que o foco está muito no consumo e no estilo de vida. É muito foco no indivíduo e no consumo. É tanto que quando eu falo que eu sou vegana a primeira pergunta é sempre &#8220;você come o que?&#8221;, &#8220;Ah, o seu sapato não é de couro, é de que?&#8221;. Eu não uso mais essa definição. Acho que é limitada e não me representa. Eu uso uma definição que eu acredito: que o veganismo é um posicionamento político que se opõe à objetificação e mercantilização dos animais e se compromete com a luta pela emancipação animal. Aí você já foca nos animais, traz de volta o sujeito do veganismo que é o animal. E não o que eu compro e consumo. Tirando essa coisa de &#8220;Eu sou um indivíduo mais evoluído, sou melhor que você&#8221;. Acho importante o foco no posicionamento político, porque não é uma dieta, não é um estilo de vida. Você se opõe ativamente à opressão. Na prática como você age contra essa opressão, concretamente, dia após dia?</p>
<p><strong>E, dessa forma, fica tudo concentrado no indivíduo.</strong><br />
A armadilha do consumo consciente é colocar a responsabilidade pela catástrofe ambiental no indivíduo. É você com o seu canudo que está poluindo o mar, e não a indústria pesqueira que coloca uma quantidade enorme de plástico nos oceanos com as redes de pesca abandonadas. As indústrias estão poluindo e falam &#8220;tome banho rápido&#8221;, &#8220;feche a torneira enquanto escova os dentes&#8221;, mas a pecuária usa muito, muito mais água do que eu vou usar em todos os banhos da minha vida. É uma maneira de se tirar a responsabilidade dos verdadeiros vilões. Então o veganismo liberal vai neste mesmo sentido de que é sua escolha individual, e você está sendo uma pessoa &#8220;melhor&#8221;. E essa posição de superioridade acaba afastando. Porque as pessoas que estão fazendo esse esforço consciente de despolitizar o veganismo, fazem sempre dizendo que isso é para atrair mais adeptos. Por que se nos associar à esquerda, a direita não vai vir. Se a gente for a favor dos direitos das pessoas LGBT, tem gente que tem problema com isso e não vai vir. Mas quem você quer atrair para o movimento, então? É racista e homofóbico? Mas quem você aliena quando você não se define como antirracista? Você aliena a população negra. Para que lado o movimento vegano vai crescer? É assim que a gente acha que vai veganizar o mundo, sem o povo?</p>
<p><strong>E quais os desafios para se popularizar a dieta vegana no Brasil?</strong><br />
O primeiro desafio é fazer com que as pessoas entendam que o veganismo, a dieta vegetariana, é comer vegetais. E não aquele queijo industrializado vegano que vende no Mundo Verde e custa um rim. Não é isso. Dei uma palestra numa ocupação na reitoria da UFRN e uma estudante falou “é bonito o que você falou, mas não tenho dinheiro para comprar brócolis, não sei onde vende coxinha de jaca”. O maior desafio é que as pessoas entendam que comida vegana é feijão com arroz, farinha, macaxeira, cuscuz, tapioca, batata doce, mungunzá. É espiga de milho, sopa de feijão. Coisas que a gente já come: lógico que todo mundo quer comer uma coisa diferente de vez em quando. Mas é a mesma coisa de dizer &#8220;eu não posso ser carnista, porque eu não tenho dinheiro pra comprar caviar, nem lagosta&#8221;. Você pode ter uma alimentação carnista e comer barato, e pode ter uma alimentação carnista e comer caro. A mesma coisa é com o veganismo: comer naquela loja de superindustrializados ou feijão e arroz com farinha. Outra coisa é a alimentação orgânica. Nós somos o país que mais usa agrotóxicos no mundo, então todo mundo deveria comer comida orgânica. Mas ser vegano é comer comida vegetal. Óbvio que comer orgânicos é melhor, porém não é um imperativo. Quanto custa uma carne orgânica, um queijo orgânico? Em qualquer comparação, comer vegetais é mais barato. A base da alimentação brasileira é vegetal, principalmente aqui no Nordeste.</p>
<p><div id="attachment_17356" style="width: 710px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-17356" class="wp-image-17356 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/07/palestina3.jpg" alt="" width="700" height="464"><p id="caption-attachment-17356" class="wp-caption-text">Tour na Palestina. Foto: Sandra Guimarães</p></div></p>
<p><strong>Em 2005, a Palestina adotou uma série de medidas contra Israel, chamada de BDS. Você pode explicar como funciona o BDS ?</strong><br />
O BDS é uma sigla que significa boicote, desinvestimento e sanções. O boicote é o mais fácil de entender, o desinvestimento é em nível de empresas, que pede que as empresas não invistam em Israel, e sanções, que é em nível de governo, que é mais difícil. Há três tipos de boicote: o econômico, o acadêmico e o cultural. O econômico é não comprar produtos israelenses, o acadêmico é não participar de congressos lá e não fazer parcerias com universidades israelenses, e o boicote cultural é pedir a artistas para que não se apresentem em Israel. Existe desde 2005 e foi um chamado da população civil da Palestina. Isso é muito importante para entender o BDS: não foi de um partido político, de uma organização, não foi Roger Waters (risos). Vários sindicatos, grupos, cooperativas que se juntaram e fizeram esse pedido, inspirados no que aconteceu na África do Sul durante o apartheid. Desde 2005 foram muitas vitórias. Empresas que saíram de Israel, artistas que cancelaram shows. Infelizmente Milton Nascimento não cancelou. mas muito artistas cancelaram, como Shakira e Linn da Quebrada. Mas a maior parte do tempo, a gente coloca pressão no artista, ele cancela, mas não diz que é pelo BDS, porque tem medo de retaliação. Shakira falou, por exemplo, que foi um problema de agenda. Mesmo assim, foi uma vitória pra gente.</p>
<p><strong>O que mudou na Palestina desde que foi adotado o BDS?</strong><br />
O que muda materialmente para o povo palestino se Milton Nascimento não cantar em Israel? Nada. Mas é simbólico: faz com que as pessoas abram um debate e que fique cada vez mais difícil manter essa fachada de democracia. Quanto mais Israel tem medo do BDS, mais eficaz o BDS se torna. Israel não só considera crime o chamado ao BDS dentro de Israel &#8211; você pode pagar multa ou até ir pra cadeia -, como conseguiu com o lobby sionista criminalizar a chamada ao BDS em outros países. O primeiro foi a França, onde é considerado um crime de incitação ao ódio racial. Já teve ativistas que responderam a processos por isso. Eu estava morando em Berlim e no mês que eu saí de lá, em maio, a Alemanha colocou uma lei que diz que falar de BDS é antissemita. A gente vê como Israel está desesperada, se está criminalizando até fora é porque está funcionando. Bolsonaro é sionista e adora criminalizar o ativismo, então isso pode chegar aqui no Brasil também.</p>
<p style="text-align: left;"><a href="http://www.marcozero.org/assine"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-13083" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/01/bannerAssine.jpg" alt="bannerAssine" width="730" height="95"></a></p>
<p><strong>Como você acha que essa relação próxima do governo Bolsonaro com Israel pode afetar o ativismo no Brasil?</strong><br />
Pode parecer algo tão longe da gente &#8220;por que eu vou me preocupar com a Palestina se a população negra está sendo exterminada aqui?&#8221;. Mas a questão Palestina está muito mais perto do que a gente imagina. Há um longo histórico de colaboração militar entre Brasil e Israel, desde a ditadura militar. E continuou. Nos governos Lula e Dilma foram renovados armamentos para o Exército comprados em Israel. Quando teve a intervenção militar no Rio de Janeiro, o topo dos tanques que entraram nas favelas eram de Israel. Para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas foram comprados drones de Israel para patrulhar o espaço aéreo. E não só isso, mas o Brasil também importa de Israel tecnologia de segurança privada e digital. O que acho mais assustador é que o Brasil traz israelenses para treinar a polícia brasileira. É assustador porque Israel é o maior mestre no mundo em reprimir população civil desarmada. A gente pode imaginar que a repressão vai aumentar muito, porque se tem uma coisa que Israel sabe fazer muito bem é isso. E também o controle de segurança. Os palestinos são todos fichados, todos estão em um sistema. Há razões para se ter medo, porque isso pode ser importado. E quanto mais essas relações forem estreitadas, maior vai ser a repressão para o nosso lado. Não é à toa que Netanyahu veio pessoalmente ao Brasil trazer seu apoio. Temos que parar de tratar Israel como um país normal.</p>
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		<title>Naturam expellas (parte 2)</title>
		<link>https://marcozero.org/naturam-expellas-parte-2/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Nov 2015 23:58:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>[N.B.: esta é a segunda parte de um texto sobre a velha questão “homem/natureza”, inspirado no ecocídio ocorrido semana retrasada em Mariana-MG e que está destruindo um dos nossos mais importantes rios.] Por Diego Viana No Para ler sem olhar Na linha do patriarca Na primeira interpretação, fazemos como José Bonifácio: tentamos criar um mundo [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>[<span style="text-decoration: underline;"><em><strong>N.B.:</strong> esta é a segunda parte de um texto sobre a velha questão “homem/natureza”, inspirado no ecocídio ocorrido semana retrasada em Mariana-MG e que está destruindo um dos nossos mais importantes rios.</em></span>]</p>
<p>Por Diego Viana<br />
No<a href="https://vianadiego.wordpress.com/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"> Para ler sem olhar</a></p>
<p><b>Na linha do patriarca</b></p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/josecc81-bonifacc81cio-500-mil-reis.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1339" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/josecc81-bonifacc81cio-500-mil-reis.jpg" alt="josecc81-bonifacc81cio-500-mil-reis" width="550" height="259"></a></p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Na primeira interpretação, fazemos como José Bonifácio: tentamos criar um mundo em que a natureza está fora e a civilização está dentro, exceto pelos jardins de que cuidamos bem e de algumas reservas naturais em que fazemos turismo e evitamos a extinção de nossas espécies preferidas. Mas se tem algo que aprendi com a leitura (na verdade, releitura exaustiva) de Simondon é que qualquer realidade se conhece pelas suas franjas, suas membranas, ali onde ela é obrigada a reafirmar-se na interação com o que passa por seu meio associado.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">E, justamente, o meio associado é aquilo que, estando fora, é constituinte de qualquer idéia de interioridade.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Assim, a civilização contemporânea, no que tem de mais próprio, não se revela nas filas de castanheiras do jardim das Tulherias, nem na ordem-que-se-finge-de-caos (ou o contrário) de Times Square, nem na aparentemente milagrosa melhora dos índices de expectativa de vida ou ocorrência de doenças, registradas pelas estatísticas dos últimos dois séculos. A civilização contemporânea define-se pelas paisagens da Indonésia em chamas, dos <i>tar sands</i> canadenses, da dita “fronteira agrícola” do Mato Grosso, dos subúrbios de Altamira, mas também da Baixada Fluminense, e das barreiras que estouram em Minas Gerais.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Afinal, é ali que ela define o que vai deixar “de fora” e o que vai laboriosamente incorporar “para dentro de si”. Aqui é onde os dados são lançados: no gesto constante de expulsar a natureza para ter Times Square e bons indicadores socioeconômicos; na atividade infatigável de extrair a substância valorada e entregar rejeitos; na mania neurótica de produzir lixo, lixo e lixo.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">(Sobre o lixo, ouça-se o que diz Peter Szendy <a href="https://www.youtube.com/watch?v=FPJnsoli-X8" target="_blank" rel="noopener noreferrer">NESTE LINK</a> – tem legendas.)</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Eu disse que ia tratar da primeira forma possível de interpretar a idéia do “<i>naturam expellas furca</i>”, mas já abro revelando toda a minha discordância dela. São vícios argumentativos, não consigo evitar. Afinal de contas, a idéia de expulsar a natureza, deixando-a do lado de fora do ambiente em que nós mesmos vivemos nossas vidas – a cultura, a civilização, o que for –, à parte um certo número de mediações (arrancar alimentos do seio da terra, calafetar embarcações, cuidar da saúde, aquecer ambientes), tem qualquer coisa de hipostasia.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Como se a natureza fosse um ente bem delineado e concreto, que pudesse ser expulso de um outro ente delineado e concreto, algo que identificamos como nossa verdadeira habitação, a cultura, a civilização. Como se aquele que expulsa não fosse sempre também alguém que, bolas, não pode se arrancar do que ele mesmo considera natural e externo a si próprio! Como se o óleo que alimenta os carros da avenida Paulista, as lâmpadas de Times Square e a jardinagem das Tulherias não misturassem teimosamente o artifício e o natural, o cultural e o físico.</p>
<p class="western" style="text-align: center;" align="JUSTIFY"><b>* * *</b></p>
<p class="western" style="text-align: center;" align="JUSTIFY"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/calor-na-icc81ndia.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1340" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/calor-na-icc81ndia.jpg" alt="calor-na-icc81ndia" width="550" height="310"></a></p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Mas parece que já naturalizamos esse modo de pensar. Com o passar dos séculos, nem mesmo nos lembramos do quanto se teve de argumentar para passar a crer na idéia de que fosse necessário colocar a natureza para fora do nosso mundo (nosso mundo, veja você). Talvez a formulação mais cruel dessa idéia esteja em Hobbes, quando ele diz que a vida no “estado de natureza” não tem “artes, letras ou sociedade”, então é “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”<a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/15/naturam-expellas-parte-2/#sdfootnote1sym" name="sdfootnote1anc"><sup>2</sup></a>;. Aqui, o mesmo poder que funda uma sociedade – civilizada, poderíamos acrescentar – é aquele que extrai o humano da natureza: a natureza é guerra, diz Hobbes. Guerra, medo, ameaça.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Tal cisão radical entre o agente da expulsão (nós, a rigor) e a natureza que é expulsa pode ser identificada, em maior ou menor grau, em todas as descrições – míticas, a propósito, embora não possamos admiti-lo abertamente – que empregam a idéia de um estado de natureza que se oponha à civilização, ao mundo social, político, o que for<a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/15/naturam-expellas-parte-2/#sdfootnote1sym" name="sdfootnote1anc"><sup>3</sup></a>. Algo parecido pode ser lido no <i>Discurso sobre a Desigualdade</i>, de Rousseau – esse malandro que vira o contratualismo de Hobbes de cabeça para baixo. Muito embora ele o afirme em tom de denúncia, quando enxerga na origem da propriedade privada o gesto autoritário do primeiro a dizer “isto aqui é meu”.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">E é preciso levar a sério essa fórmula. Pois determinar que algo – um terreno, por exemplo, e de fato a posse da terra é uma dimensão de primeiríssima importância, como mais tarde vai mostrar com brilhantismo <a href="http://inctpped.ie.ufrj.br/spiderweb/pdf_4/Great_Transformation.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Karl Polanyi</a> a respeito do nascimento do capitalismo – é “de alguém” contém sempre um caráter de despotencialização. Uma parte da autonomia existencial (se posso falar assim) do objeto ou da porção de terra é perdida em nome de uma submissão ao artifício, à simbolização, à linguagem.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/masaccio-expulsacc83o-do-jardim-do-ecc81den.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1342" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/masaccio-expulsacc83o-do-jardim-do-ecc81den.jpg" alt="masaccio-expulsacc83o-do-jardim-do-ecc81den" width="550" height="413"></a></p>
<p class="western" align="JUSTIFY">A terra que era superfície (termo importante!) do planeta, sede da gênese de mundos, ambiente de circulação de entes vivos – humanos aí inclusos –, passa a ser “o terreno de alguém”. O gado que pasta e muge é “o rebanho de alguém”. Objeto de direito comercial. Patrimônio. O que esse ancinho performático faz é expulsar a natureza <i>do plano do discurso</i>, ao recobrir aquilo que era supostamente natural com uma superfície de determinações outras: culturais, financeiras, simbólicas. Um outro tipo de expulsão, como se vê, e igualmente ilusória.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">A propósito da questão discursiva, veja só como é interessante o lado religioso da questão – e não se pode deixar de fora a narração religiosa, que sempre manteve um diálogo de alta proximidade com outras narrativas totalizantes, em particular as metafísicas. No <i>Gênesis</i>, ao homem é dado o direito e a função de nomear todas as coisas, mas isso enquanto ele ainda está no Paraíso, isto é, dentro de algo que poderíamos ler como uma natureza intocada e perfeita, criada por Deus para o usufruto daquela criatura feita à sua imagem e semelhança.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Mas intervém o pecado original e o homem é expulso – note-se: não a natureza – do Jardim do Éden, obrigando-o a viver do suor de seu trabalho e a reproduzir-se com a dor do parto – mas mantendo seu caráter de imagem encarnada do Criador. Daí por diante, aquele que nomeou quando integrado ao Paraíso passará a enfrentar as adversidades de um vale de lágrimas: seria daí, então, que vem a reviravolta nada dialética, a peripécia pela qual torna-se ele mesmo um agente de expulsão da natureza? Será que é por isso que, com o perdão da piada infame, “Paraíso” no mundo dos humanos foi reduzido a um bairro de São Paulo não particularmente mais agradável do que o resto da cidade?</p>
<p class="western" align="CENTER"><b>* * *</b></p>
<p class="western" align="CENTER"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/encyclopedie-diderot.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1343" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/encyclopedie-diderot.jpg" alt="encyclopedie-diderot" width="528" height="400"></a></p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Seja como for, o ápice dessa mitologia que começa a se elaborar em paralelo à modernidade, e tem um caráter ao mesmo tempo titânico e masturbatório, pode ser encontrado (para variar) em Descartes, o estrito dualista das certezas claras e distintas. É no Discurso do Método que ele afirma, sem maiores pudores, que o conhecimento (adivinhe: claro e distinto…) de como funciona a realidade natural poderá fazer do ser humano “como o mestre e possessor da natureza”<a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/15/naturam-expellas-parte-2/#sdfootnote1sym" name="sdfootnote1anc"><sup>4</sup></a>. Aqui, não se expulsa, mas se domina, subjuga e usa, “não só para gozar sem pena de seus frutos, mas sobretudo para a conservação da saúde”…</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Que ironia, hoje, pensar como o usufruto “sem pena” dos frutos da natureza resulta em enormes penas, de furacões a rios de lama, de enchentes a queimadas, de secas a cidades submersas… Cúmulo da ironia: tal domínio e tal usufruto chegaram a um tal nível que a “conservação da saúde” se tornou quase impossível: pense nisso quando estiver em São Paulo e precisar tomar um gole de água carregada de metais pesados.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Mas há duas coisas a notar nesse trecho de Descartes: a primeira é, evidentemente, sua paráfrase do “knowledge is power” de Bacon, autor que ele evidentemente havia lido. Mas Descartes diz algo mais interessante ainda: o conhecimento sobre <i>determinada dimensão da realidade</i> permite ter poder sobre essa mesma dimensão. E o filósofo francês é prudente: não corre o risco de dizer abertamente o que está implícito em seu texto. Afinal, para a mentalidade de seu tempo a natureza já tem um “mestre e possessor”, que atende pelo nome de “Aquele que É”: Deus.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/golfinhos.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1344" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/golfinhos.jpg" alt="golfinhos" width="550" height="367"></a></p>
<p class="western" align="JUSTIFY">O mesmo que, como vimos, entrega à sua criatura dileta o poder de <i>nomear</i> todas as coisas: mas, ora, se a linguagem é performática, então nomear é uma forma de saber. E se saber é controlar, já se pode vislumbrar aonde estamos chegando. Assim, para contornar os riscos de críticas oriundas da cúria – e tais críticas na época poderiam comprometer a vida de alguém até o talo –, Descartes diz abertamente que, ao colocar a natureza como objeto do conhecimento (isolado, portanto) e também da ação, o ser humano está <i>brincando de Deus</i>. Não será o último a fazer essa comparação…</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Segundo ponto, que já antecipa o que vou tratar um pouco mais adiante: Descartes quer que conheçamos “a força e as ações do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus” tão distintamente como conhecemos “os diversos metiês de nossos artesãos”, de modo a podermos “empregá-las do mesmo modo a todos os usos a que podem servir”. O trabalho da natureza sendo como o trabalho do artesão, a técnica deste último deverá tratar de colocá-la sob seu controle, fazendo com que ela sirva a seus próprios desejos e interesses.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Mas aqui é que entra uma questão importante que vai aparecer repetidamente neste texto: se fosse possível ter um conhecimento efetivamente exaustivo dessas forças todas, será que seria possível <i>controlá-las</i>? Se estivermos nós mesmos submetidos a elas, será que podemos reproduzir com sinal invertido o processo de expulsão do Paraíso, saindo nós mesmos dessa infinitude intensiva de forças, a ponto de tê-las sob nosso controle?</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Não poderíamos dizer, ao contrário, que toda convicção de que podemos controlar os potenciais naturais é um indicador de conhecimento faltoso e, por extensão, em se tratando de forças selvagens, arriscado e ilusório? Será essa disputa entre saber e poder, de fato, necessariamente, a relação que se pode nutrir entre a técnica e as forças “do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus”?</p>
<p class="western" align="CENTER"><b>* * *</b></p>
<p class="western" align="CENTER"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/goethe-faust-und-der-pudel-ramberg.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1346" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/11/goethe-faust-und-der-pudel-ramberg.jpg" alt="goethe-faust-und-der-pudel-ramberg" width="550" height="366"></a></p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Chegamos, assim, à origem do problema que, graças a Goethe, passou a ser chamado de <i>faustiano</i>. Foi Goethe que tornou o mito de Fausto algo capaz de abarcar todas as vertentes daquilo que convencionamos nomear <i>modernidade</i> e que já aparece em germe naquilo que discuti nos parágrafos acima. O âmbito religioso, em que o desejo de controlar (ou expulsar) a natureza aparece como pacto com o demônio, voltando-se contra a potência de nomear tal como presenteada por Deus. O desejo de conhecimento como poder para tornar-se “mestre e possessor”. A imposição de valorações de cunho financeiro (e, por extensão, venal) por cima tanto do que se considera uma realidade social quanto do que se considera uma realidade natural.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Marshall Berman, autor do espetacular <i><a href="http://monoskop.org/images/1/1a/Berman_Marshall_All_That_Is_Solid_Melts_into_Air_The_Experience_of_Modernity.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Tudo Que é Sólido Desmancha no Ar</a></i>, tem razão ao chamar atenção para o fato de que as seis décadas necessárias para redigir o Fausto (Goethe começou com 21 anos de idade e só terminou com 82; no ano seguinte, morreu) são o que faz desse gigantesco poema a obra-prima por excelência da modernização. Da década de 1770 aos anos 1830, enquanto o <i>Fausto</i> de Goethe vinha ao mundo, todas as idéias e todas as técnicas que fizeram do ser humano “como mestre e possessor da natureza”, ao menos a seus próprios olhos, vieram ao mundo, a ponto de tirar o fôlego de quem observasse. Foi o tempo da industrialização, do colonialismo, das revoluções burguesas, da derrubada de monarquias – as eras citadas nas obras-primas de Eric Hobsbawm.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Foi também o tempo em que se engendrou a justificativa para todo esse desejo faustiano de dominação e <i>desenvolvimento </i>(eis aí, aliás, um termo capcioso, e que tem sido empregado no Brasil para justificar as maiores atrocidades; sem meias-palavras: crimes!). Para além das relações deus-e-diabo que se lêem na epopéia de Goethe, obras fundadoras como a de Locke afirmam o direito àquela mesma propriedade que Rousseau denunciara, sobrepujando o que poderia ser dito, de maneira não muito rigorosa, mas bastante eficaz, um direito inerente a qualquer objeto: o de ser o que se é. Ou seja, de não receber aquela camada suplementar de simbolização jurídica e linguística que vimos na fórmula do genebrino.</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">Com esse gesto fundador, político, metafísico e semiótico, torna-se um princípio da dita lei natural que a voz do humano (aquele que nomeia todas as coisas…) sobredetermine a essência de um pedaço de terra, uma porção de matéria modificada pelo engenho, um rebanho de animais…</p>
<p class="western" align="JUSTIFY">E como Locke justifica esse direito à propriedade? Pelo trabalho, seja diretamente, seja mediado pela circulação de uma outra força simbólica, o dinheiro que é capaz de contratar (e <i>comandar</i> trabalho, dirá mais tarde Adam Smith, fundando a noção de “valor relativo ou de troca”). Trabalho, técnica, linguagem, um trio poderoso capaz de fazer do ser humano aquele ser “terrível” (<i>deinon</i>) de que fala Sófocles<a class="sdfootnoteanc" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/15/naturam-expellas-parte-2/#sdfootnote1sym" name="sdfootnote1anc"><sup>5</sup></a>, porque é capaz de, ao mesmo tempo, “expulsar” a natureza (do plano do discurso, como já mencionei) e, tendo-a expulsado, tornar-se “como mestre e possessor” dela.</p>
<p><em>Continua</em>…</p>
<p class="western" style="text-align: center;" align="JUSTIFY"><strong>Notas</strong></p>
<div id="sdfootnote2">
<p class="sdfootnote-western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/15/naturam-expellas-parte-2/#sdfootnote1anc" name="sdfootnote1sym">2</a><span lang="pt-BR">. <em><span style="font-size: small;"><span lang="en-GB">“During the time men live without a common power to keep them all in awe, they are in that conditions called war; and such a war, as if of every man, against every man. </span></span><span style="font-size: small;"><span lang="en-US">To this war of every man against every man, this also in consequent; that nothing can be unjust. The notions of right and wrong, justice and injustice have there no place. Where there is no common power, there is no law, where no law, no injustice. Force, and fraud, are in war the cardinal virtues. </span></span><span style="font-size: small;"><span lang="en-GB">No arts; no letters; no society; and which is worst of all, continual fear, and danger of violent death: and the life of man, solitary, poor, nasty, brutish and short.”</span></span></em></span></p>
</div>
<div id="sdfootnote3">
<p class="sdfootnote-western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/15/naturam-expellas-parte-2/#sdfootnote1anc" name="sdfootnote1sym">3</a><span lang="pt-BR">. <em><span style="font-size: small;">Uma exceção notável está em Spinoza, com a distinção entre natureza naturante e natureza naturada. Outra excepcionalidade está em sua dedução do direito civil por dentro do direito natural: “seja ele insensato ou sábio, o homem é sempre uma parte da natureza, e tudo aquilo pelo qual ele é determinado a agir deve ser relacionado à potência da natureza enquanto ela pode ser definida pela natureza de tal ou tal homem”. Por sinal, Spinoza é exceção em muitas coisas! Ainda assim, a diferença entre o direito natural e o direito civil é uma de barração de uma espécie de “direito de todos a tudo” (segundo a potência de cada um em sua natureza) que é na verdade um direito a nada (porque a potência de cada um limita a potência dos demais) que se aproxima bastante do estado de guerra de Hobbes.<br />
</span></em></span></p>
</div>
<div id="sdfootnote4">
<p class="sdfootnote-western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/15/naturam-expellas-parte-2/#sdfootnote1anc" name="sdfootnote1sym">4</a><span lang="pt-BR">.<em><span style="font-size: small;"><em><span style="font-size: small;">“Mais, sitôt que j’ai eu acquis quelques notions générales touchant la physique, et que (…) j’ai remarqué jusques où elles peuvent conduire, et combien elles diffèrent des principes dont on s’est servi jusques à présent, j’ai cru que je ne pouvois les tenir cachées sans pécher grandement contre la loi qui nous oblige à procurer autant qu’il est en nous le bien général de tous les hommes: car elles m’ont fait voir qu’il est possible de parvenir à des connoissances qui soient fort utiles à la vie; (…) on en peut trouver une pratique, par laquelle, connoissant la force et les actions du feu, de l’eau, de l’air, des astres, des cieux, et de tous les autres corps qui nous environnent, aussi distinctement que nous connoissons les divers métiers de nos artisans, nous les pourrions employer en même façon à tous les usages auxquels ils sont propres, et ainsi nous rendre comme maîtres et possesseurs de la nature. Ce qui n’est pas seulement à désirer pour l’invention d’une infinité d’artifices, qui feroient qu’on jouiroit sans aucune peine des fruits de la terre et de toutes les commodités qui s’y trouvent, mais principalement aussi pour la conservation de la santé, laquelle est sans doute le premier bien et le fondement de tous les autres biens de cette vie (…).”</span></em></span></em></span></p>
</div>
<p class="sdfootnote-western"><a class="sdfootnotesym" href="https://vianadiego.wordpress.com/2015/11/15/naturam-expellas-parte-2/#sdfootnote1anc" name="sdfootnote1sym">5</a><span lang="pt-BR">.<em><span style="font-size: small;"><em><span style="font-size: small;"><i>Deinon</i>, como aparece no coro de Antígona:</span></em></span></em></span></p>
<p class="western"><span style="font-family: Times New Roman, serif;"><span style="font-size: small;"><i>Há muitas coisas terríveis e assustadoras (deinon), mas nenhuma / é tão terrível e assustadora quanto o homem. / Ele atravessa, ousado, o mar grisalho, / impulsionado pelo vento sul / tempestuoso, indiferente às vagas / enormes na iminência de abismá-lo; / e exaure a terra eterna, infatigável, / deusa suprema, abrindo-a com o arado / em sua ida e volta, ano após ano, / puxados por seus cavalos. / Ele captura a grei das aves lépidas / e as gerações dos animais selvagens: / e prende a fauna dos profundos mares / nas redes envolventes que produz, / homem de engenho e arte inesgotáveis. / Com suas armadilhas ele prende / a besta agreste nos caminhos íngremes; / e doma o potro de abundante crina, / pondo-lhe na cerviz o mesmo jugo / que amansa o feroz touro das montanhas. / Soube aprender sozinho a usar a fala / e o pensamento mais veloz que o vento / e as leis que disciplinam as cidades, / e a proteger-se das nevascas gélidas, / duras de suportar a céu aberto, / e das adversas chuvas fustigantes; / ocorrem-lhe recursos para tudo / e nada o surpreende sem amparo; / somente contra a morte clamará / em vão por socorro, embora saiba / fugir até de males intratáveis.</i></span></span></p>
<p class="western">
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