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	<title>Arquivos Chico Ludermir - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Thu, 22 Feb 2024 13:18:33 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Chico Ludermir - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>“Me vi sendo a referência de representatividade que eu queria ter tido”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Dec 2019 11:23:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Principal]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[alice júnior]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Chico Ludermir Neste mês de dezembro entrevistei Anne Mota pela quarta vez – nesta ocasião, para o “Programa Entre” da Rádio Universitária Paulo Freire, que apresento semanalmente e que tem parceria com a Marco Zero Conteúdo. Acompanho a trajetória de Anne desde 2013, quando me debrucei sobre sua história, ao lado da de outras [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Por Chico Ludermir</strong> </p>



<p>Neste mês de dezembro entrevistei Anne Mota pela quarta vez – nesta ocasião, para o “Programa Entre” da Rádio Universitária Paulo Freire, que apresento semanalmente e que tem parceria com a Marco Zero Conteúdo. Acompanho a trajetória de Anne desde 2013, quando me debrucei sobre sua história, ao lado da de outras 10 travestis e mulheres trans pernambucanas para o meu livro “A História Incompleta de Brenda e de Outras Mulheres” que vim a publicar em 2016 pela editora Confraria do Vento. Na época, Anne ainda era uma adolescente – antes da transição – e sonhava em ser cantora, inspirada na personagem Anahí, do grupo Rebeldes (RBD), que fazia muito sucesso entre as pessoas de sua geração.  </p>



<p>Ao
longo dos últimos seis anos que separam as duas entrevistas muitas
coisas sucederam e se transformaram –  na vida dela (pessoal e
profissional); na minha; no Brasil e no mundo. Até que ficamos de
frente de novo, no seu quarto, em um apartamento no bairro da Torre.
O ano de 2019 foi um ano icônico na vida profissional de Anne. Aos
21 anos, estreou como atriz no cinema no longa Alice Júnior, já
como protagonista. Mais do que isso, desde que veio ao mundo, o filme
– que conta a história de uma adolescente trans que muda de cidade
– e a atuação de Anne vêm acumulando prêmios em festivais
importantes, como o de Brasília, onde ela ganhou o prêmio de melhor
atuação, que nunca tinha sido dado a uma travesti.</p>



<p>Talvez
seja demasiado pessoal abrir uma entrevista dessa forma. Mas não
haveria outra. Assim como não haveria outra possibilidade de
conduzir a entrevista sem que se atravessassem os nossos encontros
anteriores e nossas memórias partilhadas. As entrevistas também são
dispositivos muito potentes de encontro. E essa o foi de maneira
especial. Nessa conversa intercalamos o tom confessional dos relatos
com perguntas sobre a carreira de atriz e do filme. Partimos de
trechos de sua história contada por mim em livro e passamos por
temas como representatividade trans no cinema e mercado de trabalho
para pessoas trans. “(Com esse papel) eu me vi sendo uma referência
de representatividade que eu queria ter tido”, afirma. 
</p>



<p><strong>Eu
queria começar lendo um pouquinho da tua história para a gente se
conectar de novo com esse momento em que a gente se conheceu e também
para que tu possa, através dessa provocação, contar um pouco da
tua trajetória. </strong>
</p>



<p>“<em>A
mãe de Anne</em></p>



<p>– <em>Anne,
o que tu acha de a gente voltar a colecionar bonecas?, perguntou
Somália evitando abrir os olhos. A gente pode comprar algumas no
shopping e brincar só eu e tu, do jeito que a gente fazia quando era
escondido. O que tu acha? Os olhos fechados pareciam lhe dar a
liberdade de falar sem medo da resposta. <br>
<br>
Sentada no sofá
da sala, acarinhava o rosto da filha recostado sobre suas per-</em></p>



<p><em>nas.
Sentia os cabelos lisos dela se derramarem nas suas coxas, passarem
pelos seus dedos. Tudo isso sem olhar para canto nenhum. Só para
dentro de si e de Anne.</em></p>



<p>– <em>Nos
dias em que eu voltar do trabalho mais cedo, a gente se deita na tua
cama e inventa um monte de história. Enfeita elas, corta cabelo, faz
penteado, maquiagem. O que tu acha? A gente pode até fazer
roupinha&#8230; </em>
</p>



<p><em>Passou
a mão no rosto da menina, sentiu sua pele lisa. Tateou o nariz
pequenino</em></p>



<p><em>e,
lentamente, alcançou as pestanas da filha com as pontas dos dedos.
Também</em></p>



<p><em>estavam
cerradas. “Que bom”, pensou. “Estamos no mesmo lugar”.</em></p>



<p><em>Meu
deus, como ela não queria abrir os olhos. Era raro estar inteira da
forma que</em></p>



<p><em>se
sentia naquele fragmento de domingo. Tão presente, tão segura.
Desejou com</em></p>



<p><em>muita
força aprisionar aquele momento no escuro dos olhos fechados.</em></p>



<p>– <em>Será,
mainha? E se a gente fizer isso, o tempo volta? Eu volto, mainha, no
tempo?</em></p>



<p>– <em>Não
sei, filha, mas o que puder, eu faço. Por ti, eu faço. Tu sabe&#8230;</em></p>



<p><em>O
que Somália queria era precisamente isso: voltar no tempo. Que culpa
sentia por ter deixado aquilo acontecer. Como uma mãe tinha deixado
aquilo acontecer? Dentro de sua casa, com a sua filha, sua única
filha? Que dor sentia aquela mulher, que lhe impedia de abrir os
olhos.</em></p>



<p>– <em>Não,
mainha. Quero não. Já não tou mais na idade de brincar de boneca.</em></p>



<p><em>Mainha,
o tempo passou e, nem que tu queira, ele volta. Tem jeito não,
mainha.</em></p>



<p><em>Tem
jeito não.”</em></p>



<p><strong>Esse
trecho tem muito forte a tua relação com a tua mãe. Esse momento
da brincadeira de boneca escondido. Eu queria te provocar a lembrar e
contar um pouco da tua infância, a partir desse trechinho que eu
acabei de ler. </strong>
</p>



<p>Eu acho que eu tinha uma vivência livre e escondida. Livre, dentro do meu quarto, porque minha mãe sempre foi uma pessoa muito livre de qualquer barreira da sociedade. Não dividia o que uma criança menino ou menina podia ou não fazer. Eu tinha liberdade sim, de ter bonecas e brincar com essas bonecas, só que isso era apenas dentro do meu quarto. Eu mesma já entendia que fora dele eu não ia ser bem vista brincando de boneca – inclusive pelo meu próprio pai. Era por isso que, no próprio conto, é mostrado que eu escondia as bonecas do meu pai, quando meu pai ia para minha casa. Dentro de casa eu era uma criança mais livre, mas fora de casa, eu tinha uma vivência proibida.</p>



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	                </figure>

	


<p>
<strong>Eu me lembro que você estudava em colégio
aqui perto da tua casa e que teve uma situação grave de violência.
Como é que foi a tua vida escolar?</strong></p>



<p>Eu
sempre estudei em colégios particulares de elite. Em um deles eu
sofri bastante homofobia. Acho que a mais grave foi a agressão
física, mesmo. Dentre tantas agressões verbais, houve também a
física.  Quando eu estava subindo as escadas dois garotos que
estavam atrás de mim passaram pela minha frente e falaram: “boiolas
vão atrás”, e me empurraram escada abaixo. Eu sempre sofri muito
preconceito no colégio. Quando eu transicionei continuei sofrendo
transfobia no colégio que eu estudei pós transição. Eu fiz a
transição nos Estados Unidos. Eu tive o privilégio de fazer a
transição no intercâmbio. Quando eu voltei, eu fui estudar no
Colégio Ideia – que inclusive tu fez uma pequena formação pros
professores para receber uma aluna trans. Acabou sendo bom. Mas a
transfobia não vem somente de professores, né? Também tem os
alunos em geral.</p>



<p><strong>Eu
queria voltar só para mais um outro trechinho do livro, porque eu
acho que tem um momento muito bonito da tua primeira infância, que
tu gostava de brincar de palhaço: </strong>
</p>



<p>– <em>Mainha,
me empresta o batom para eu pintar a boca das minhas filhas. Elas são</em></p>



<p><em>meninas,
né? Não tem problema elas pintarem a boca. Eu vou brincar com elas</em></p>



<p><em>de
circo. Eu vou ser o palhaço. Palhaço também pode pintar a boca,
né? Não tem</em></p>



<p><em>problema
palhaço usar batom. Com a maquiagem velha da mãe, contornava a boca
por fora. Mas quando se trancava dentro no quarto, desrespeitava os
limites dos lábios. Invadia a boca com o vermelho e aí a
brincadeira ficava mais gostosa.”</em></p>



<p>Quando
eu era criança – na verdade não era nem criança, que eu tinha 3,
4 anos por aí – minha mãe tinha me fantasiado de palhaço. Ela
tinha colocado batom no meu rosto e a roupa do palhaço também era
muito folgada e a parte de baixo parecia uma saia. Naquela época,
isso me remetia muito a um padrão feminino. Eu me sentia muito bem.
Um, porque eu tava usando um batom, que era um adereço considerado
para o sexo
feminino, e outro pela roupa. Daí eu passei a fazer isso outras
vezes. Eu passei a querer me fantasiar de palhaço outras vezes
porque isso me remetia a uma coisa tão eu, que eu poderia fazer e me
sentir bem e livre. 
</p>



<p><strong>Tu
foi uma pessoa que se entendeu trans muito cedo e que transicionou
cedo também. Conta como foi o processo de identificação dessa tua
transgeneridade. Fala também sobre como tu enxerga esse tema – que
ainda é repleto de tabus e preconceitos – que é relação de
infância e identidade de gênero. </strong>
</p>



<p>Eu me descobri enquanto trans  – o termo trans – com 12 anos. Estava navegando no Youtube e, nos relacionados de um vídeo aleatório, que eu nem lembro qual era, tinha o documentário “<em>My Secret Self</em>”  (Meu Eu Secreto). Era de crianças trans. Exatamente crianças trans. E isso eu tinha 12 anos. Não lembro que ano era exatamente, mas eu tinha 12 anos. Eu assisti o documentário e chorei logo de início. Terminei esse documentário e falei: “Eu sou isso”. Não falei “eu sou trans” ou qualquer coisa. Eu falei “eu sou isso”, porque eu consegui identificar tudo que eu sentia antes. Era uma confusão. Eu estava na terapia desde meus 6 anos de idade, porque meus pais estavam preocupados com meu jeito – entre muitas aspas – diferente. Eu descobri ali que tinha outras pessoas iguais a mim. Outras pessoas que viviam e viveram coisas iguais a mim. Foi naquele momento que eu entendi que eu era trans. Fiquei um mês vendo esse documentário. Depois de um mês, mostrei para minha mãe. Choramos juntas vendo o documentário. Quando terminou o documentário, eu já não falei “eu sou isso”. Eu já falei para minha mãe: “eu sou trans”. Ela não entendeu de início. Ficou muito confusa. Mas eu posso dizer que eu fui um pouco privilegiada porque tenho um tio gay na família. Já tínhamos um espaço mas aberto de diálogo. Eu fui para mais terapia. Ela também foi para terapia junto comigo, para entender mais. Fiquei um tempo sem falar com meu pai. Hoje já estamos muito de boa. Depois disso coisas ruins e coisas boas aconteceram. Uma dessas coisas boas foi que, nesse meio tempo, eu consegui um intercâmbio para poder transicionar nos Estados Unidos.  </p>



<p><strong>E
foi uma transição mais tranquila lá do que seria aqui?</strong></p>



<p>Sim. Na escola de lá tinha um grupo LGBT e eu não era a única pessoa trans.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                </figure>

	


<p>
<strong>Agora</strong><strong> tu vem
de uma maratona de festivais, acumulando diversos prêmios e
reconhecimento. Na primeira vez que eu te entrevistei, tu queria ser
cantora. Agora, mais do que atriz, tu já é uma atriz reconhecida e
premiada. Queria que tu dissesse como tu chega nesse mundo da
atuação? Como é que tu chega no cinema e como chega em Alice
Júnior?</strong></p>



<p>Eu
já tinha feito o teatro quando criança. Não cheguei a sair do
teatro. O teatro é que saiu de mim, porque a escola que eu fazia se
mudou em 2016. Eu voltei a fazer teatro e, logo em seguida, por
questão de destino, houve uma seleção de elenco na internet para a
protagonista trans de um filme que ia contar a história do primeiro
beijo de uma adolescente trans. E aí eu me inscrevi. Mas fiquei
sabendo depois que, quando eu me inscrevi, minha mãe já tinha
mandado uma mensagem para o roteirista do filme dizendo que ela tinha
uma filha trans e que essa filha trans estava interessadíssima em
fazer o filme. 
</p>



<p>A
partir disso eu comecei a fazer várias entrevistas a distância, por
Skype. O filme é curitibano, não é de Recife. Fiz uns testes
também por Skype e fui para Curitiba depois. Em Curitiba fiz outros
testes e fui escalada para ser a protagonista de Alice Júnior. O
filme foi gravado em 2017. É um filme muito leve, muito didático.
Tem uma cena de umas questões bem impactantes. Ele leva a causa
trans de uma maneira muito didática. Você assiste o filme e, eu
considero, é um toque de esperança. O filme acaba sendo um conto de
fadas. Tem muitas coisas reais e tem muitas coisas que são para lhe
dar esperança.</p>



<p>Agora
que o filme lançou, a gente começou a percorrer uma estrada de
festival. Fomos para o de Vitória, Mostra São Paulo, Festival Mix
Brasil, Brasília, Fortaleza, Rio de Janeiro. No  próximo ano, dia 5
de junho, entra em cartaz.</p>



<p><strong>Tu
interpreta uma personagem que tem diversas semelhanças contigo e
certamente tem várias diferenças também. É uma adolescente trans
que passa por questões de violência na escola, que passa por
questões com seu próprio corpo, com sua própria identidade e que
teve uma vivência muito privilegiada também. No caso de Alice, de
ter vivido em uma redoma proporcionada pelo pai. Pensando nesses
paralelos, me conta o que Alice Júnior tem de parecido e de
diferente de você. O que você aprendeu com ela?</strong></p>



<p>Eu acho que a Alice é muito mais empoderada do que eu. Essa diferença é a maior. Porque ela realmente é uma super-heroína. Ela catalisa as pessoas ao seu redor. O que temos em comum é o privilégio da aceitação da família, né? Eu sempre fui muito aceita pela minha mãe – um tempo não pelo meu pai, mas hoje em dia já estamos numa convivência muito boa. Alice também teve isso, né? Ela também tem um canal no youtube, como eu tive. Outra coisa em comum foi o primeiro beijo, que tivemos ambas nessa adolescência. O resto é spoiler e eu não posso dar.</p>



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	                </figure>

	


<p>
<strong>Eu queria saber mais sobre a recepção do
filme. O que essa repercussão do filme tem te trazido – na sua
carreira, na sua família, para outras pessoas trans&#8230;</strong></p>



<p>Eu
comecei a fazer faculdade de teatro esse ano. Quando gravamos o
filme, eu tive a certeza de que isso é o que ia seguir para a vida.
O filme tá tendo repercussão bem grande. Ganhamos prêmios: prêmio
de melhor atriz no Festival de Brasília  (pela primeira vez dado a
uma pessoa trans) e no Mix (Brasil). Com isso, veio uma visibilidade
maior para mim e para a causa. Já estávamos ocupando esses espaços
antes de mim. E é graças a essas outras mulheres trans e homens
trans que estavam nas artes antes de mim, que eu estou agora também.
Mas eu também vejo que estando nesse momento, ocupando os espaços
que eu estou, outras pessoas trans também vão ter a oportunidade de
estar cada vez mais nas artes. 
</p>



<p><strong>E
a recepção de outras pessoas trans? E da tua família?</strong></p>



<p>Na
Mostra de São Paulo, as Mães Pela Diversidade de  São Paulo
levaram crianças e adolescentes trans para assistirem ao filme. Teve
uma menina trans de 9 ou 10 anos que depois da sessão veio
emocionadíssima até mim. Tem a ver com representatividade. Se eu
com 9 anos tivesse visto um filme que tivesse uma adolescente trans,
interpretando uma
atriz, que quer dar o primeiro beijo, eu ficaria extremamente
emocionada. Ela chegou em mim e disse: “Eu te amo. Sou muito tua
fã. Tira uma foto comigo!”. Eu fiquei emocionadíssima. Primeiro
porque isso nunca tinha acontecido comigo. Depois, porque era uma
criança trans. Era uma menina trans que estava falando isso para
mim, né? E daí eu me vi como uma referência para ela. E saber que
eu pude ser referência para ela – e que eu queria ter tido essa
referência – me emocionou e me emociona até agora. 
</p>



<p>Com
minha família, uma boa parte dela, por parte de pai é de Fortaleza.
Tivemos uma exibição no For Rainbow, que é um festival de
Fortaleza. E a minha família por parte de pai foi. Minha avó foi.
Gostaram muito. Quando minha avó soube que eu ganhei o prêmio de
Brasília – que minha vó tem Facebook, super tecnológica – ela
comentou na publicação dizendo: “Parabéns, minha netinha linda”.
Ela nunca tinha me tratado assim (no feminino). Eu fiquei muito
emocionada também. Tenho recebido isso também, pós-filme. 
</p>



<p><strong>Através
desse teu reconhecimento profissional – e social mesmo – as
pessoas próximas, que a gente ama, voltam a entender que podem amar
</strong><strong>a </strong><strong>gente.
É meio esquisito, mas é bom.</strong></p>



<p>É
meio esquisito, mas é bom. A gente aceita esse amor, né? Não é
amor? Então…</p>



<p><strong>Tem
uma pergunta que eu não deixo de fazer a nenhum dos meus
entrevistados e entrevistadas que eu chamo de “Pergunta Entre”.
Quem, nesse momento, nesse mundo, no teu mundo, precisa entrar? </strong>
</p>



<p>A
minha resposta vai terminar sendo muito óbvia, mas eu não posso
deixar de falar. Eu acho que pessoas trans precisam entrar: na
educação, principalmente, porque é um dos primeiros lugares de
onde somos expulsas. Quando sofremos bulliyng e não temos nosso nome
social e nossa ida ao banheiro respeitados&#8230; Não estando na
educação, a gente não está em nenhum canto. Principalmente
pessoas trans negras e periféricas precisam estar e entrar nesses
espaços e serem
respeitadas. Além dos espaços da educação, também precisam
entrar na saúde e também ocupar outros espaços como o que eu estou
ocupando agora – como um Festival de Brasília. 
</p>
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			</item>
		<item>
		<title>“O amor está morto e enterrado”</title>
		<link>https://marcozero.org/o-amor-esta-morto-e-enterrado/</link>
					<comments>https://marcozero.org/o-amor-esta-morto-e-enterrado/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Nov 2019 17:55:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Principal]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Aquenda]]></category>
		<category><![CDATA[Chico Ludermir]]></category>
		<category><![CDATA[Flup]]></category>
		<category><![CDATA[literatura nordeste]]></category>
		<category><![CDATA[Luna Vitrolina]]></category>
		<category><![CDATA[poesia e resistência]]></category>
		<category><![CDATA[slam]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Chico Ludermir, parceria da Marco Zero com o Programa Entre, da Rádio Universitária Paulo Freire Aos 27 anos e uma década de carreira, Luna Vitrolira tem se consolidado como uma das vozes mais ativas da literatura pernambucana. Da poesia sertaneja ao slam, passando pela academia, a poeta se banha em fontes diversas e incorpora [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Chico Ludermir, parceria da Marco Zero com o Programa Entre, da Rádio Universitária Paulo Freire</strong></p>
<p>Aos 27 anos e uma década de carreira, Luna Vitrolira tem se consolidado como uma das vozes mais ativas da literatura pernambucana. Da poesia sertaneja ao slam, passando pela academia, a poeta se banha em fontes diversas e incorpora referências do local e do universal para construir uma obra carregada de identidade própria, que tem extrapolado fronteiras Brasil afora. “Estou em movimento. Em trânsito”, afirma instantes antes de começar a entrevista.</p>
<p>Marcada pela oralidade, a arte de Luna nunca se dissocia do seu corpo de mulher negra nordestina e tem na sua declamação, o clímax. É a partir dele que ela grita sobre o amor, tema do seu primeiro livro <em>Aquenda – o amor às vezes é isso</em>, publicado em 2018 e que concorre ao prêmio Jabuti deste ano na categoria poesia.</p>
<p>Nos encontramos com Luna no Rio de Janeiro, onde a artista participou da Flup, Festa Literária das Periferias. Desde a capital carioca, a poeta queixou-se do que chamou de “padronização” dos slams, denunciou a persistência do preconceito contra os nordestinos e falou sobre o seu livro e a indicação ao prêmio. “Eu posso estar sendo indicada ao prêmio Jabuti, mas quando eu estou na rua, ninguém sabe quem sou eu. Aí continuo sendo apenas uma mana preta que vem do Nordeste”.</p>
<p><strong>Luna, você acabou de publicar seu primeiro livro – diga-se de passagem, com indicação para o prêmio Jabuti, o de maior prestígio do país. Mas você já tem uma trajetória longa que dialoga muito com a poesia oral – declamação, slam, saraus. Queria que você falasse um pouco sobre essa relação entre letra e voz. Sobre o que está escrito, em letras, e o que o seu corpo inteiro fala no momento da declamação.</strong></p>
<p>Eu sou pernambucana. A minha poesia começa no Sertão de Pernambuco. O Sertão de Pernambuco é um lugar onde a poesia oral é realmente protagonista. A gente tá falando de uma literatura que é convencionalmente chamada de popular e que é uma tradição as pessoas declamarem poesia. Meu contato com a literatura começa aí. A partir da voz. Pelo ouvido. Quando eu chego em São José, que eu vejo crianças declamando. Criança de 3, 4 anos de idade já declamando sextilha, décima ou até um cordel inteiro, eu realmente entendo que a relação com a literatura no Sertão é muito diferente da relação na capital. A relação que eu tinha com a literatura antes disso era da escola. Uma leitura que era muito feita para ser trabalhada para o vestibular. Não era algo pela fruição. Não era algo como vivência. Não era algo profundo. Era sempre muito superficial. E ali eu vi que, na real, as pessoas vivem a poesia que fazem. Conversam sobre poesia naturalmente e estão, o tempo inteiro, declamando poesia. E eu me identifiquei com isso. Eu disse: “eu quero isso!”. Eu sempre fui uma pessoa que disse poesia na rua. Já fiz em supermercado, salão de beleza, hospital, shopping, igreja. Já fiz em penitenciária feminina, em construção, para pedreiros&#8230; já passei realmente por vários lugares. Depois de 10 anos eu comecei a entender que para me inserir em outros espaços – que eu também queria participar de festivais dentro e fora de Pernambuco – o livro era importante. Comecei a entender a dimensão política. A relação da escrita, do poder da escrita em detrimento da oralidade. E aí me veio uma questão muito desafiadora que era como transformar tudo isso que eu falo – a palavra falada, a voz, o som – para a palavra registrada. Vou assentar esse texto agora no papel. Aí começou o desafio de pensar o livro. De pensar politicamente a importância da escrita, da palavra que eu declamo falada, mas ela também registrada. Para que ela consiga circular nos espaços, acessar outras pessoas. Para que pudesse também abrir outros caminhos para mim fora de Pernambuco.</p>
<p><strong>A minha primeira entrevista no Programa Entre foi com Una Martins. De uma maneira similar à sua, ela também demorou muito para lançar o primeiro CD, segundo ela, porque achava que o palco, a performance, o corpo em cena eram suficientes. Parece ter sido suficiente para você viver a poesia oral. Mas o corpo tem limitações de onde pode estar. E o mercado, por sua vez, valoriza a publicação, o registro de uma maneira importante.</strong></p>
<p>É muito louco isso, né? Porque para mim a voz e a performance são suficientes. Mas o livro é que vai me levar para esses lugares. Para que eu possa me realizar com a voz e com corpo, fazendo performance e declamando poesias. É o que o mercado pede. Querendo ou não, um livro é um cartão de visita. Você escreve o projeto, manda seu trabalho que você faz e tudo o mais. Mostra o livro e o pessoal vai se interessar. E vai levar a apresentação a partir do livro. É muito louco porque o mercado inverte as coisas.</p>
<p><strong>Eu queria propor um diálogo entre essas tuas referências, inspirações e vivências mais ligadas ao tradicional em São José do Egito, Arcoverde e Tabira com uma poesia oral contemporânea dos slams, que desde 2014 tem ganhado uma força impactante no cenário da poesia oral e da qual você tem participado. Como você enxerga a relação entre a poesia falada do Sertão com essa poesia falada que tem se internacionalizado como uma voz das periferias.</strong></p>
<p>Tem muita coisa em comum. Muita proximidade. Muita semelhança. A única coisa que me incomoda, que é o que eu venho pensando muito, é que aqui (no Rio de Janeiro) o Sertão não é visto como periferia. O Sertão é tão esquecido que a poesia falada – que tem séculos e séculos, que tá ali resistindo – não consegue chegar no protagonismo. A gente vive o momento no Brasil da poesia falada, é o que você tá dizendo, em vários lugares. Em quase todos os estados desse país hoje, a gente tem movimento de slam espalhado por aí. A cultura periférica, ela tá conseguindo se projetar, mas essa cultura periférica do interior de Pernambuco, do Nordeste e do Sertão, também sendo uma poesia falada não consegue se projetar e também não é vista, ainda, como a periferia. É invisibilizada. Então quando eu chego nos espaços, eu sinto um pouco isso. Porque de onde eu venho é também minha militância. É uma coisa também que me incomoda muito no slam. Já participei de vários. É um formato muito padronizado, com essa influência da cultura do hip hop. O tipo do texto, o tipo de performance, o ritmo, a estética, a postura política, a entonação da voz é um lugar que se tornou um formato muito específico e muito fechado. Eu, que venho de Pernambuco, que tenho outras referências, inclusive da poesia popular, acabo não sendo muito bem acolhida, nesse sentido, porque eu tenho uma diversidade temática, tenho uma diversidade estética. Tenho uma diversidade de performance, tenho outro ritmo, uma outra forma de falar. Eu tenho muitas outras influências: o rap também. A cultura do hip hop também, mas não é só isso. Então quando eu chego no slam e falo de amor, por exemplo – que é político… não estou falando nem de amor romântico. Eu estou falando de um lugar do amor, na perspectiva feminista, das feministas, dos feminismos e com fundamento racial também. Mas, como não é o racismo diretamente o tema, você percebe que o acolhimento da plateia não é o mesmo&#8230;</p>
<p><strong>Como se não fosse suficientemente político para aquele espaço?</strong></p>
<p>Exato. Porque se construiu um formato. Que é preciso ter um tipo de texto, um tipo de temática.  Quando vem algo diferente, existe um desequilíbrio: “Nossa! Por que isso tá aqui?”. Quando eu vim para a Flup (Festa Literária das Periferias, no Rio) no ano passado, o (slam) nacional tinha um clima de competição muito tenso. Tem um poema da Jazz (slammer mineira) que fala exatamente sobre isso. “Onde é que está a poesia? Onde é que está o dentro? E até onde a gente vai deixar a nota prevalecer sobre a poesia?”. Inclusive são questionamentos que estão vindo de dentro. As pessoas que estão participando do slam há mais de um ano, dois anos ali, três anos, já estão começando a questionar esse formato. Porque a gente já está o tempo inteiro no mundo, enquanto pessoas negras, periféricas, trans&#8230; os nossos corpos políticos que vêm de vários lugares, se posicionam de diversas formas. A gente já está o tempo inteiro tentando se inserir na sociedade. Quando a gente chega no slam, que é um espaço nosso, por que que a gente também tem que se enquadrar num formato único? Ano passado eu saí pensando muito sobre isso. E agora (no slam deste ano) estou em outro clima. De existir da minha forma, com a minha bagagem, com as minhas vivências. De ser quem eu sou. Tenho muita consciência da poesia que eu faço. A gente precisa começar a inserir outras coisas também. E mostrar que é possível a gente ter liberdade e não alimentar só a dor e a violência. A gente fica alimentando esse lugar do sofrimento, da dor, da violência e reforçando esse lugar e sofrendo muito. Então tem muitas poetas adoecendo. Entrando numa piração de fazer uma poesia específica para batalhar. E quando você vê, a poesia que você escreveu no ano passado ela tá defasada. Pieta (slammer mineira vencedora do slam internacional da Flup de 2019) disse: “Nossa! Tem um poema que eu gosto muito e tal, mas já aconteceu tanta coisa que eu preciso atualizar, tá defasado”. A poesia em si, a poesia tem como ficar defasada? Então o que a gente vem construindo? O que é que a gente quer? Que tipo de poesia que a gente tá fazendo? Então são questionamentos que estão vindo de dentro.</p>
<p><strong>Circular pelo Sudeste nos mostra muito dessas relações de poder que existem entre as regiões do país. Me parece que as pessoas do Rio de Janeiro, de São Paulo ainda entendem muito pouco essa dimensão de opressão do Sudeste sobre o Nordeste. A gente é caricaturizado, exotificado, para falar das formas mais sutis de preconceito. Queria que você me dissesse sobre esses trânsitos. De sair de Pernambuco, do Nordeste e chegar no eixo Rio-São Paulo. Como é que você sente essa recepção que, por muitas vezes minimiza o fato de o Nordeste também ser uma periferia.</strong></p>
<p>Eu sempre senti isso muito forte, mas, do ano passado para cá, é que eu venho sentindo isso com muito mais clareza. Parece que o pessoal do Sudeste se sente fazendo um favor quando recebe alguém do Nordeste. Eu não sei até que ponto as pessoas não percebem que exercem essa relação de poder. Isso é um problema muito grave, a meu ver. Outra coisa que eu ando questionando muito é que eu sou uma pessoa que sempre amou a cultura que é chamada popular. E aí lendo um pouco sobre essa questão da invenção do Nordeste, de como uma ideia do Nordeste se constrói – alimentada pela ideia da miséria, da seca. Quanto a literatura dos romances dos 1930 ajudaram a construir essa caricatura. E o que é que Gilberto Freyre tem a ver com isso, com o congresso regionalista? Estudando tudo isso, eu vejo como o povo é usado como patrimônio do Brasil para justificar uma identidade. Como o Nordeste também é usado para representar a identidade do Brasil, mas não é realmente valorizado. É muito bom dizer assim “Ah! O povo brasileiro, o nordestino, a cultura popular, o patrimônio do Brasil”, e o respeito não existe! Não é verdadeiro. Não é real! Por exemplo, o que nós mesmo fizemos com o Movimento Armorial foi pegar a cultura do povo pobre popular e a acessibilizar para a gente rica e colocar em teatro. Tirar a manifestação da rua e colocar em palco. Se apropriar e levar para a elite sob o argumento de estar unindo a cultura popular e a cultura erudita. O povo acessou isso? Não! Mas é muito bonito o argumento, né? Então se a elite branca pernambucana faz isso com a gente, no Sudeste isso acaba sendo muito pior. Porque vira fetiche. A pessoa fala um “Oxe”, aí vem “ai que bonitinho o jeito que ela fala!”. Parece que tá olhando o animalzinho, fofinho, bichinho. “Fala de novo (pedem). “Ela fala ‘visse’”. Uma escritora que eu admirava muito daqui do Rio me disse isso. É que a Globo inclusive alimenta esse estereótipo. Quando pega um nordestino e coloca como retirante e reforça aquela fala, aquele sotaque. A gente não fala daquele jeito, a gente não tem aquele sotaque!</p>
<p><strong>Por que que não chamam atrizes pernambucanas para fazerem esses papeis, ocuparem esses espaços e se comprometem de fato com a diversidade na representação do país? Por que tem que ser a Suzana Vieira?</strong></p>
<p><strong> </strong>Por que tem que construir uma personagem que vai forçar e que vai cair na caricatura, no estereótipo? E a gente tá aí agora, anos e anos, né?! Vai fazer um século já já dessa história toda do regionalismo, aí a pessoa chega para mim e fala: “Luna, eu amo poesia Regional. Amo conhecer poetas regionais!”. Eu não sou uma poeta regional. O que é uma poeta regional para você? Porque toda poeta vem de uma região. Cai no lugar do fetiche, do exótico. As pessoas acham que estão elogiando, mas é um elogio que acaba sendo muito contraditório. Todo cheio de incoerência. O que eu venho fazendo é me posicionar com relação a isso. As pessoas precisam começar a entender a dimensão do respeito, na prática. Existem várias frentes de militância. As pessoas não vão se comportar desse jeito comigo e sair ilesas. Vão falar isso e eu vou rebater. Eu não vou ficar calada mais! É uma relação de poder muito forte.</p>
<p><strong>Sobre o seu livro Aquenda – o amor às vezes é isso, queria que você me dissesse como você recebeu a indicação ao prêmio. O que isso tem de significado pra você? </strong></p>
<p>O livro me trouxe muitas felicidades. Sempre que a gente dá um passo para frente, questões novas surgem. É bem bom que a gente esteja muito atenta a essas questões novas, para que nada passe despercebido e que a gente esteja sempre refletindo criticamente com os nossos filtros sobre tudo que acontece. O livro me abriu muitas portas. Tenho participado de muito festivais. Tive muitas dificuldades para o livro estar do jeito que está: bonito e tudo mais, porque não é fácil ainda publicar um livro. Mesmo que a gente tenha hoje várias formas de fazer, várias editoras independentes e até a possibilidade da gente construir nosso próprio livro. O meu primeiro (livro) mesmo foi cartonero (artesanal, com capa de papelão). Mas aí eu não tinha o selo. Era um livro que eu mesma fazia para poder fazer meu corre, quando chegava nos eventos, e ter uma grana. E aí como que a gente pode usar tudo isso como uma forma de possibilitar outras pautas? E de usar isso como instrumento político também. O que significa para mim estar no Jabuti no ano em que Conceição Evaristo é a homenageado do prêmio Jabuti. Uma mulher que se candidatou para a Academia Brasileira de Letras e não entrou e está sendo homenageada no Jabuti. Eu vi uma entrevista do Marcelino (Freire) na Folha (de São Paulo) dizendo assim: “Estou cansado de ver minha cara de homem branco estampada nos prêmios. Quero começar desde já uma campanha para Conceição Evaristo concorrer ao Nobel de Literatura”. E aí ouvindo muito as falas de Conceição (Evaristo), ela sempre muito consciente disse: “Aqui (nos espaços de literatura) as pessoas podem me aplaudir de pé. Eu posso ganhar um prêmio, ser homenageada, mas, o preconceito, ele continua. O sofrimento, ele continua!”. Ela sai desse ambiente do trabalho dela, onde ela é reconhecida e quando ela tá na rua ela é só uma mulher negra. Eu posso tá sendo indicada ao prêmio Jabuti, mas quando eu estou na rua, ninguém sabe quem sou eu! Eu continuo sendo apenas uma mana preta aqui no Sudeste que vem do Nordeste e que veio da periferia e que trabalha com oralidade e que é professora também. Enfim&#8230; Até onde esse título também vale? Como, a partir dele, a gente pode refletir e se posicionar? Nós, que somos da literatura oral, que somos da periferia e que estamos nesse movimento da poesia falada, o quanto que a gente precisa também nos legitimar – porque não é o prêmio que nos legitima, somos nós que nos legitimamos – entendeu? Eu fiquei superfeliz com a indicação. Estou superfeliz. Sei que isso é superimportante de diversas maneiras e isso me faz pensar nessas coisas todas.</p>
<p><strong>“O amor às vezes é isso”, é o subtítulo do seu livro Aquenda. Eu queria saber o que o a amor às vezes é? </strong></p>
<p>Na hora que eu comecei a pensar no livro, eu vi que eu falava muito de amor, mas o amor não nesse lugar do subjetivo, que a gente idealiza, sabe? O amor perfeito que a gente vai encontrar o nosso príncipe ou nossa princesa e que vai nos salvar e tudo mais. E quando olhei para minha própria trajetória, analisando meus poemas, vi que o amor estava sempre no lugar do sofrimento, sabe? De você ligar a televisão e ver que uma mulher foi jogada do quarto andar depois de ser espancada pelo cara que dizia “eu te amo” todos os dias. Você sai na rua e fica sabendo que Remis (Carla) foi morta, asfixiada pelo namorado e foi enterrada no terreno baldio. “O amor está morto e enterrado”, eu digo isso no meu livro. E nesse poema onde tem a palavra amor, é o nome Remis. Remis está morta e enterrada. Que amor é esse que tá matando Priscila, Manuela, Ana, Angélica, Remis, Alessandra? Que amor é esse que agride fisicamente, psicologicamente e emocionalmente? Que amor é esse que a gente vem construindo desde a infância e que nos pune e que nos mata? Esse amor que a gente sonha não é real. O amor, na prática, ele é o contrário. Então, o que é o amor de verdade? Pensando numa questão até mais filosófica e histórica, o cristianismo tem muita culpa desse amor agressivo. A gente fica pensando num deus que diz que ama a humanidade, mas que pune, que é vingativo, que está te vigiando. “Cuidado que Deus está vendo”. Um deus que entregou seu filho a morte para salvar a humanidade. Marcelino (Freire) tinha até um texto chamado Amor Cristão, que ele termina dizendo: “Cristo mesmo foi quem nos ensinou que se não houver sangue, meu filho, não é amor.” E como a gente naturalizou, né? Que o ciúme é a prova de amor. Que os conflitos, as brigas apimentam a relação. Que briga de amor acaba na cama e, se você vai ver as poesias, se você vai ouvir as músicas – seja de brega, de pagode, MPB, sertanejo – tudo coloca o amor nesse lugar: no lugar da traição, do sofrimento, da vingança. Em um lugar muito violento. A violência foi naturalizada. Tem um livro chamado A Prostituta Sagrada que diz que na época das sociedades neolíticas e paleolíticas – que eram matrilineares, a mulher era o centro dessas comunidades –existiam os templos das deusas, das prostitutas sagradas, onde os rituais eram feitos com relações sexuais para justamente agradecer e celebrar as deusas do amor. A gente tinha a elevação do espírito através do corpo. Com o tempo, quando a sociedade vai se tornando patriarcal, as casas das prostitutas sagradas, das deusas do amor, se tornaram a casa desse deus, feito à imagem e semelhança dos homens. E nós, mulheres, perdemos as nossas referências de deusas, de feminilidade, de liberdade, de prazer, de poder, de tudo. Porque a referência maior é esse deus à imagem e semelhança dos homens, que é agressivo, que pune, que é violento. Isso não me representa.</p>
<p><strong>Queria te ouvir respondendo à pergunta que eu faço para todos os meus entrevistados e entrevistadas – uma pergunta que parte da polissemia da palavra entre, mas que é também uma expectativa minha de entender qual é projeto, o devir mundo que você sonha. Quem nesse mundo, nesse momento histórico, que corpos, que discursos, que poesias precisam entrar? Quem precisa entrar? </strong></p>
<p>Somos todas e todos nós que já metemos o pé na porta – porque ninguém abriu a porta para dizer “entre”. A gente tá há 500 anos aí, nessa luta toda. Somos nós, mulheres, mulheres negras, mulheres da periferia, pessoas trans, pessoas que estão aí cada vez mais desconstruindo todos esses conceitos arbitrários que querem colocar a gente em caixinhas e nos guardar e nos trancar nesses armários. É a gente que tá entrando com os dois pés na porta. Na verdade, é a gente que vai mudar o mundo para o que a gente quer e que a gente já tá começando a vislumbrar e construir. Somos todas nós.</p>
<blockquote>
<p><div id="attachment_20217" style="width: 937px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/11/Luna-1.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-20217" class="wp-image-20217 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/11/Luna-1.jpg" alt="Luna 1" width="927" height="618"></a><p id="caption-attachment-20217" class="wp-caption-text">Crédito: Rennan Peixe</p></div></p>
<h2 style="text-align: center;">O AMOR</h2>
<h2 style="text-align: center;">o amor é feito bala perdida<br />
que acerta um desavisado</h2>
<h2 style="text-align: center;">ao cruzar a rua<br />
ao dobrar a esquina</h2>
<h2 style="text-align: center;">às vezes vem num soco<br />
às vezes vem num grito</h2>
<h2 style="text-align: center;">o amor às vezes é isso</h2>
<h2 style="text-align: center;">uma panela de água fervendo<br />
no rosto de alguém querido</h2>
<h2 style="text-align: center;">às vezes esmola<br />
às vezes migalha</h2>
<h2 style="text-align: center;">que se devolve com um tiro<br />
ou acaba em facada</h2>
<h2 style="text-align: center;">o amor tem medo da vida</h2>
<h2 style="text-align: center;">uma hora eleva<br />
na outra arrasta</h2>
<h2 style="text-align: center;">desconfia da sorte<br />
tem medo da falta</h2>
<h2 style="text-align: center;">o amor corresponde à entrega<br />
com uma rasteira e às vezes mata<br />
de tirania<br />
de asfixia<br />
de ciúme<br />
de raiva</h2>
<h2 style="text-align: center;">como alguém que se alimenta<br />
e de repente engasga</h2>
</blockquote>
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