Por Chico Ludermir

Neste mês de dezembro entrevistei Anne Mota pela quarta vez – nesta ocasião, para o “Programa Entre” da Rádio Universitária Paulo Freire, que apresento semanalmente e que tem parceria com a Marco Zero Conteúdo. Acompanho a trajetória de Anne desde 2013, quando me debrucei sobre sua história, ao lado da de outras 10 travestis e mulheres trans pernambucanas para o meu livro “A História Incompleta de Brenda e de Outras Mulheres” que vim a publicar em 2016 pela editora Confraria do Vento. Na época, Anne ainda era uma adolescente – antes da transição – e sonhava em ser cantora, inspirada na personagem Anahí, do grupo Rebeldes (RBD), que fazia muito sucesso entre as pessoas de sua geração.

Ao longo dos últimos seis anos que separam as duas entrevistas muitas coisas sucederam e se transformaram – na vida dela (pessoal e profissional); na minha; no Brasil e no mundo. Até que ficamos de frente de novo, no seu quarto, em um apartamento no bairro da Torre. O ano de 2019 foi um ano icônico na vida profissional de Anne. Aos 21 anos, estreou como atriz no cinema no longa Alice Júnior, já como protagonista. Mais do que isso, desde que veio ao mundo, o filme – que conta a história de uma adolescente trans que muda de cidade – e a atuação de Anne vêm acumulando prêmios em festivais importantes, como o de Brasília, onde ela ganhou o prêmio de melhor atuação, que nunca tinha sido dado a uma travesti.

Talvez seja demasiado pessoal abrir uma entrevista dessa forma. Mas não haveria outra. Assim como não haveria outra possibilidade de conduzir a entrevista sem que se atravessassem os nossos encontros anteriores e nossas memórias partilhadas. As entrevistas também são dispositivos muito potentes de encontro. E essa o foi de maneira especial. Nessa conversa intercalamos o tom confessional dos relatos com perguntas sobre a carreira de atriz e do filme. Partimos de trechos de sua história contada por mim em livro e passamos por temas como representatividade trans no cinema e mercado de trabalho para pessoas trans. “(Com esse papel) eu me vi sendo uma referência de representatividade que eu queria ter tido”, afirma.

Eu queria começar lendo um pouquinho da tua história para a gente se conectar de novo com esse momento em que a gente se conheceu e também para que tu possa, através dessa provocação, contar um pouco da tua trajetória.

A mãe de Anne

Anne, o que tu acha de a gente voltar a colecionar bonecas?, perguntou Somália evitando abrir os olhos. A gente pode comprar algumas no shopping e brincar só eu e tu, do jeito que a gente fazia quando era escondido. O que tu acha? Os olhos fechados pareciam lhe dar a liberdade de falar sem medo da resposta.

Sentada no sofá da sala, acarinhava o rosto da filha recostado sobre suas per-

nas. Sentia os cabelos lisos dela se derramarem nas suas coxas, passarem pelos seus dedos. Tudo isso sem olhar para canto nenhum. Só para dentro de si e de Anne.

Nos dias em que eu voltar do trabalho mais cedo, a gente se deita na tua cama e inventa um monte de história. Enfeita elas, corta cabelo, faz penteado, maquiagem. O que tu acha? A gente pode até fazer roupinha…

Passou a mão no rosto da menina, sentiu sua pele lisa. Tateou o nariz pequenino

e, lentamente, alcançou as pestanas da filha com as pontas dos dedos. Também

estavam cerradas. “Que bom”, pensou. “Estamos no mesmo lugar”.

Meu deus, como ela não queria abrir os olhos. Era raro estar inteira da forma que

se sentia naquele fragmento de domingo. Tão presente, tão segura. Desejou com

muita força aprisionar aquele momento no escuro dos olhos fechados.

Será, mainha? E se a gente fizer isso, o tempo volta? Eu volto, mainha, no tempo?

Não sei, filha, mas o que puder, eu faço. Por ti, eu faço. Tu sabe…

O que Somália queria era precisamente isso: voltar no tempo. Que culpa sentia por ter deixado aquilo acontecer. Como uma mãe tinha deixado aquilo acontecer? Dentro de sua casa, com a sua filha, sua única filha? Que dor sentia aquela mulher, que lhe impedia de abrir os olhos.

Não, mainha. Quero não. Já não tou mais na idade de brincar de boneca.

Mainha, o tempo passou e, nem que tu queira, ele volta. Tem jeito não, mainha.

Tem jeito não.”

Esse trecho tem muito forte a tua relação com a tua mãe. Esse momento da brincadeira de boneca escondido. Eu queria te provocar a lembrar e contar um pouco da tua infância, a partir desse trechinho que eu acabei de ler.

Eu acho que eu tinha uma vivência livre e escondida. Livre, dentro do meu quarto, porque minha mãe sempre foi uma pessoa muito livre de qualquer barreira da sociedade. Não dividia o que uma criança menino ou menina podia ou não fazer. Eu tinha liberdade sim, de ter bonecas e brincar com essas bonecas, só que isso era apenas dentro do meu quarto. Eu mesma já entendia que fora dele eu não ia ser bem vista brincando de boneca – inclusive pelo meu próprio pai. Era por isso que, no próprio conto, é mostrado que eu escondia as bonecas do meu pai, quando meu pai ia para minha casa. Dentro de casa eu era uma criança mais livre, mas fora de casa, eu tinha uma vivência proibida.

Eu me lembro que você estudava em colégio aqui perto da tua casa e que teve uma situação grave de violência. Como é que foi a tua vida escolar?

Eu sempre estudei em colégios particulares de elite. Em um deles eu sofri bastante homofobia. Acho que a mais grave foi a agressão física, mesmo. Dentre tantas agressões verbais, houve também a física. Quando eu estava subindo as escadas dois garotos que estavam atrás de mim passaram pela minha frente e falaram: “boiolas vão atrás”, e me empurraram escada abaixo. Eu sempre sofri muito preconceito no colégio. Quando eu transicionei continuei sofrendo transfobia no colégio que eu estudei pós transição. Eu fiz a transição nos Estados Unidos. Eu tive o privilégio de fazer a transição no intercâmbio. Quando eu voltei, eu fui estudar no Colégio Ideia – que inclusive tu fez uma pequena formação pros professores para receber uma aluna trans. Acabou sendo bom. Mas a transfobia não vem somente de professores, né? Também tem os alunos em geral.

Eu queria voltar só para mais um outro trechinho do livro, porque eu acho que tem um momento muito bonito da tua primeira infância, que tu gostava de brincar de palhaço:

Mainha, me empresta o batom para eu pintar a boca das minhas filhas. Elas são

meninas, né? Não tem problema elas pintarem a boca. Eu vou brincar com elas

de circo. Eu vou ser o palhaço. Palhaço também pode pintar a boca, né? Não tem

problema palhaço usar batom. Com a maquiagem velha da mãe, contornava a boca por fora. Mas quando se trancava dentro no quarto, desrespeitava os limites dos lábios. Invadia a boca com o vermelho e aí a brincadeira ficava mais gostosa.”

Quando eu era criança – na verdade não era nem criança, que eu tinha 3, 4 anos por aí – minha mãe tinha me fantasiado de palhaço. Ela tinha colocado batom no meu rosto e a roupa do palhaço também era muito folgada e a parte de baixo parecia uma saia. Naquela época, isso me remetia muito a um padrão feminino. Eu me sentia muito bem. Um, porque eu tava usando um batom, que era um adereço considerado para o sexo feminino, e outro pela roupa. Daí eu passei a fazer isso outras vezes. Eu passei a querer me fantasiar de palhaço outras vezes porque isso me remetia a uma coisa tão eu, que eu poderia fazer e me sentir bem e livre.

Tu foi uma pessoa que se entendeu trans muito cedo e que transicionou cedo também. Conta como foi o processo de identificação dessa tua transgeneridade. Fala também sobre como tu enxerga esse tema – que ainda é repleto de tabus e preconceitos – que é relação de infância e identidade de gênero.

Eu me descobri enquanto trans – o termo trans – com 12 anos. Estava navegando no Youtube e, nos relacionados de um vídeo aleatório, que eu nem lembro qual era, tinha o documentário “My Secret Self” (Meu Eu Secreto). Era de crianças trans. Exatamente crianças trans. E isso eu tinha 12 anos. Não lembro que ano era exatamente, mas eu tinha 12 anos. Eu assisti o documentário e chorei logo de início. Terminei esse documentário e falei: “Eu sou isso”. Não falei “eu sou trans” ou qualquer coisa. Eu falei “eu sou isso”, porque eu consegui identificar tudo que eu sentia antes. Era uma confusão. Eu estava na terapia desde meus 6 anos de idade, porque meus pais estavam preocupados com meu jeito – entre muitas aspas – diferente. Eu descobri ali que tinha outras pessoas iguais a mim. Outras pessoas que viviam e viveram coisas iguais a mim. Foi naquele momento que eu entendi que eu era trans. Fiquei um mês vendo esse documentário. Depois de um mês, mostrei para minha mãe. Choramos juntas vendo o documentário. Quando terminou o documentário, eu já não falei “eu sou isso”. Eu já falei para minha mãe: “eu sou trans”. Ela não entendeu de início. Ficou muito confusa. Mas eu posso dizer que eu fui um pouco privilegiada porque tenho um tio gay na família. Já tínhamos um espaço mas aberto de diálogo. Eu fui para mais terapia. Ela também foi para terapia junto comigo, para entender mais. Fiquei um tempo sem falar com meu pai. Hoje já estamos muito de boa. Depois disso coisas ruins e coisas boas aconteceram. Uma dessas coisas boas foi que, nesse meio tempo, eu consegui um intercâmbio para poder transicionar nos Estados Unidos.

E foi uma transição mais tranquila lá do que seria aqui?

Sim. Na escola de lá tinha um grupo LGBT e eu não era a única pessoa trans.

Agora tu vem de uma maratona de festivais, acumulando diversos prêmios e reconhecimento. Na primeira vez que eu te entrevistei, tu queria ser cantora. Agora, mais do que atriz, tu já é uma atriz reconhecida e premiada. Queria que tu dissesse como tu chega nesse mundo da atuação? Como é que tu chega no cinema e como chega em Alice Júnior?

Eu já tinha feito o teatro quando criança. Não cheguei a sair do teatro. O teatro é que saiu de mim, porque a escola que eu fazia se mudou em 2016. Eu voltei a fazer teatro e, logo em seguida, por questão de destino, houve uma seleção de elenco na internet para a protagonista trans de um filme que ia contar a história do primeiro beijo de uma adolescente trans. E aí eu me inscrevi. Mas fiquei sabendo depois que, quando eu me inscrevi, minha mãe já tinha mandado uma mensagem para o roteirista do filme dizendo que ela tinha uma filha trans e que essa filha trans estava interessadíssima em fazer o filme.

A partir disso eu comecei a fazer várias entrevistas a distância, por Skype. O filme é curitibano, não é de Recife. Fiz uns testes também por Skype e fui para Curitiba depois. Em Curitiba fiz outros testes e fui escalada para ser a protagonista de Alice Júnior. O filme foi gravado em 2017. É um filme muito leve, muito didático. Tem uma cena de umas questões bem impactantes. Ele leva a causa trans de uma maneira muito didática. Você assiste o filme e, eu considero, é um toque de esperança. O filme acaba sendo um conto de fadas. Tem muitas coisas reais e tem muitas coisas que são para lhe dar esperança.

Agora que o filme lançou, a gente começou a percorrer uma estrada de festival. Fomos para o de Vitória, Mostra São Paulo, Festival Mix Brasil, Brasília, Fortaleza, Rio de Janeiro. No próximo ano, dia 5 de junho, entra em cartaz.

Tu interpreta uma personagem que tem diversas semelhanças contigo e certamente tem várias diferenças também. É uma adolescente trans que passa por questões de violência na escola, que passa por questões com seu próprio corpo, com sua própria identidade e que teve uma vivência muito privilegiada também. No caso de Alice, de ter vivido em uma redoma proporcionada pelo pai. Pensando nesses paralelos, me conta o que Alice Júnior tem de parecido e de diferente de você. O que você aprendeu com ela?

Eu acho que a Alice é muito mais empoderada do que eu. Essa diferença é a maior. Porque ela realmente é uma super-heroína. Ela catalisa as pessoas ao seu redor. O que temos em comum é o privilégio da aceitação da família, né? Eu sempre fui muito aceita pela minha mãe – um tempo não pelo meu pai, mas hoje em dia já estamos numa convivência muito boa. Alice também teve isso, né? Ela também tem um canal no youtube, como eu tive. Outra coisa em comum foi o primeiro beijo, que tivemos ambas nessa adolescência. O resto é spoiler e eu não posso dar.

Eu queria saber mais sobre a recepção do filme. O que essa repercussão do filme tem te trazido – na sua carreira, na sua família, para outras pessoas trans…

Eu comecei a fazer faculdade de teatro esse ano. Quando gravamos o filme, eu tive a certeza de que isso é o que ia seguir para a vida. O filme tá tendo repercussão bem grande. Ganhamos prêmios: prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília (pela primeira vez dado a uma pessoa trans) e no Mix (Brasil). Com isso, veio uma visibilidade maior para mim e para a causa. Já estávamos ocupando esses espaços antes de mim. E é graças a essas outras mulheres trans e homens trans que estavam nas artes antes de mim, que eu estou agora também. Mas eu também vejo que estando nesse momento, ocupando os espaços que eu estou, outras pessoas trans também vão ter a oportunidade de estar cada vez mais nas artes.

E a recepção de outras pessoas trans? E da tua família?

Na Mostra de São Paulo, as Mães Pela Diversidade de São Paulo levaram crianças e adolescentes trans para assistirem ao filme. Teve uma menina trans de 9 ou 10 anos que depois da sessão veio emocionadíssima até mim. Tem a ver com representatividade. Se eu com 9 anos tivesse visto um filme que tivesse uma adolescente trans, interpretando uma atriz, que quer dar o primeiro beijo, eu ficaria extremamente emocionada. Ela chegou em mim e disse: “Eu te amo. Sou muito tua fã. Tira uma foto comigo!”. Eu fiquei emocionadíssima. Primeiro porque isso nunca tinha acontecido comigo. Depois, porque era uma criança trans. Era uma menina trans que estava falando isso para mim, né? E daí eu me vi como uma referência para ela. E saber que eu pude ser referência para ela – e que eu queria ter tido essa referência – me emocionou e me emociona até agora.

Com minha família, uma boa parte dela, por parte de pai é de Fortaleza. Tivemos uma exibição no For Rainbow, que é um festival de Fortaleza. E a minha família por parte de pai foi. Minha avó foi. Gostaram muito. Quando minha avó soube que eu ganhei o prêmio de Brasília – que minha vó tem Facebook, super tecnológica – ela comentou na publicação dizendo: “Parabéns, minha netinha linda”. Ela nunca tinha me tratado assim (no feminino). Eu fiquei muito emocionada também. Tenho recebido isso também, pós-filme.

Através desse teu reconhecimento profissional – e social mesmo – as pessoas próximas, que a gente ama, voltam a entender que podem amar a gente. É meio esquisito, mas é bom.

É meio esquisito, mas é bom. A gente aceita esse amor, né? Não é amor? Então…

Tem uma pergunta que eu não deixo de fazer a nenhum dos meus entrevistados e entrevistadas que eu chamo de “Pergunta Entre”. Quem, nesse momento, nesse mundo, no teu mundo, precisa entrar?

A minha resposta vai terminar sendo muito óbvia, mas eu não posso deixar de falar. Eu acho que pessoas trans precisam entrar: na educação, principalmente, porque é um dos primeiros lugares de onde somos expulsas. Quando sofremos bulliyng e não temos nosso nome social e nossa ida ao banheiro respeitados… Não estando na educação, a gente não está em nenhum canto. Principalmente pessoas trans negras e periféricas precisam estar e entrar nesses espaços e serem respeitadas. Além dos espaços da educação, também precisam entrar na saúde e também ocupar outros espaços como o que eu estou ocupando agora – como um Festival de Brasília.