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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Pior do que Bolsonaro? Jornalista explica porque ultradireitista ameaça a democracia na Argentina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Sep 2023 14:21:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Samarone Lima*, com fotos de Sebastián Miquel** A eleição presidencial da Argentina, dia 22 de outubro, pode representar um desastroso retrocesso em um tema que o país se tornou exemplo na América do Sul: o julgamento e prisão dos militares envolvidos em graves violações de Direitos Humanos, logo após a reconquista da democracia. Toda [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Samarone Lima*, com fotos de <a href="https://sebastianmiquel.com.ar/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sebastián Miquel</a></strong>**</p>



<p>A eleição presidencial da Argentina, dia 22 de outubro, pode representar um desastroso retrocesso em um tema que o país se tornou exemplo na América do Sul: o julgamento e prisão dos militares envolvidos em graves violações de Direitos Humanos, logo após a reconquista da democracia.<br><br>Toda a cúpula militar foi julgada e grande parte condenada, com transmissão pelo rádio e TV. Os sobreviventes fizeram comoventes e dolorosos relatos do que sofreram, numa espécie de catarse coletiva, tema do filme <em>1985</em>, do diretor Santiago Mitre, que levou multidões aos cinemas de todo o país, há dois anos.<br><br>Para ter uma idéia da importância da Justiça de Transição, realizada pelos Argentinos, o general Jorge Rafael Videla, que comandou a ditadura de 1976 a 1986, morreu em 17 de maio de 2013 aos 87 anos, no cárcere da prisão de Marcos Paz, onde cumpria pena de prisão perpétua.<br><br>O negacionismo da ditadura faz parte da campanha de Javier Milei, de 52 anos, vencedor das “primárias” (uma pré-eleição onde todos os presidenciáveis disputam), pelo partido Liberdade Avança.<br><br>Economista, novato na política, de extrema direita, tem um discurso que continua faturando alto nas urnas. Fala barbaridades o tempo todo, se declara “anarcocapitalista”, diz que vai “dinamitar” o Banco Central, defende a privatização do sistema de saúde e educação, pretende facilitar o acesso às armas de fogo e chegou a falar de um “novo mercado”, a venda de órgãos.<br><br>Não por acaso (ou inspiração), é admirador do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-SP) e amigo de seu filho, Eduardo Bolsonaro. Os dois aparecem em fotos publicadas em redes sociais, simulando um revólver com os dedos. Milei considera “farsas da esquerda” as mudanças climáticas. Suas mensagens chegam a dois milhões de seguidores, nas redes sociais.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Ataques a um símbolo dos Direitos Humanos</strong></h2>



<p>Como o assunto da ditadura tem um forte impacto no país, coube a à candidata a vice-presidenta de Milei, Victoria Villarruel, fazer o “jogo sujo” da campanha. Frequentadora assídua de programas na TV, tem uma forte presença midiática. Começou a falar da ditadura Argentina pelo ângulo oposto &#8211; defendendo os militares e atacando quem luta por memória, verdade e Justiça.<br><br>Uma de suas propostas foi a de devolver o principal centro clandestino de tortura do país, a onde funcionava a Escola de Mecânica da Armada (ESMA), atualmente o Museu da Memória, aos “seus donos” &#8211; os militares. Entre 1976 e 1983, o local recebeu cinco mil presos. Apenas 10% sobreviveram. Ali, foram roubadas de seus pais 500 crianças.<br><br>Ela colocou em dúvida os graves crimes cometidos no local, com farta documentação dos próprios militares, considerando-os “simples abusos”.<br><br>Victoria achou pouco. Resolveu atacar a presidenta da organização Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, chamando-a de “personagem sinistro”, que vive “um eterno relato” em relação à memória construído em torno da ditadura e dos anos 1970.<br><br>Carlotto, que tem uma filha, Laura Carlotto, desaparecida, teve um filho na prisão, que nunca foi entregue à família. Somente em agosto de 2014, após 36 anos de luta, Estella conseguiu encontrá-lo. Foi rebatizado de Guido Carloto, em homenagem a um tio. Um encontro que emocionou o país.</p>



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	                                        <p class="m-0">Estela de Carlotto foi atacada por candidata a vice de extrema-direita. Crédito: Sebastián Miquel</p>
	                
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<p>Ela preferiu não lançar mais holofotes à candidata da ultradireita:<br><br>“Há que se defender com a verdade e a luta permanentemente. As ofensas, que Deus a perdoe. São coisas que doem, me que Deus a perdoe”.<br><br>Mas advertiu:<br><br>“Ela está dando sinais de que isso de agora não é nada. O que será depois?”</p>



<p>Para entender melhor a ameaça que ronda a Argentina, entrevistamos o jornalista<a href="https://www.voltairenet.org/auteur122929.html?lang=es" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> Gérmán Duschatzk</a>, ex-editor e colunista do jornal das Madres de la Plaza de Mayo, que também atuou como em várias emissoras de rádios e na mídia independente portenha. Ele também professor de redação no curso de Jornalismo do Instituto Universitario Nacional de Derechos Humanos Madres de Plaza de Mayo (IUNMA).</p>



<p>Nesta entrevista para a Marco Zero, ele se diz “profundamente envolvido” na realidade social e política da Argentina, que “sempre o comove”.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>***</strong></p>



<p>Marco Zero<strong>: Como explicar este ascenso da ultradireita na Argentina?</strong></p>



<p><strong>Gérmán Duschatzk:</strong> A primeira coisa que eu considero é que ela aparece num contexto de deterioração social, das identidades políticas e das expectativas reais da sociedade. É expressão de grandes setores da sociedade que não estão dentro do sistema formal de trabalho, com um discurso forte antissistema (político, representativo, tradicional) e de livre mercado. Isso encaixa bem na sensação de solidão frente ao mundo que tem qualquer trabalhador, precarizado, de aplicativo ou autônomo. Para esses setores, está dirigida boa parte dos slogans do Milei e dos parceiros dele.<br><br>A gente passou os quatro anos do governo Macri [Maurício Macri, governou de 2015 a 2019], que propiciaram grandes retrocessos em matéria de direitos e benefícios econômicos das maiorias, revertendo os 12 anos de ciclo de inclusão dos governos do Nestor Kirchner e Cristina Kirchner [ele foi presidente de 2003 a 2007, enquanto sua esposa presidiu o país de 2007 a 2015]. Como parte substancial disso, voltamos a ficar submetidos às exigências do FMI, com uma dívida impossível de pagar nos termos e prazos definidos. Depois chegaram os quatro anos desse governo que está acabando agora [Alberto Fernández tomou posse em 2019], que, no que se relaciona com esse assunto da inclusão, não teve respostas e gerou a maior perda de votos do peronismo na história, fora dos anos de proscrição. A falta de reação do peronismo nacional em frente disso, é produto do governo frustrante desses últimos quatro anos, onde a riqueza só se concentrou mais ainda, tanto que o mudo do trabalho continuou em permanente deterioração.<br><br><strong>O que há de diferença nesta “nova direita” Argentina?</strong><br><br>Essa nova direita, que retoma alguns aspectos da nova direita anterior, que foi o Macri, se encaixa num momento onde as instituições da República estão desacreditadas, produto dessa falta de respostas aos interesses das maiorias.<br><br>Agora, eles vem com tudo. A candidata a vice-presidenta do Milei, Victoria Villarruel, é filha e neta de militares, fez parte da resistência às políticas de direitos humanos e castigo aos crimes de lesa humanidade. Escondida atrás de um discurso que equipara as vítimas de atos da guerrilha com a política de terrorismo de estado, ela nega os crimes da ditadura.<br><br>Ao mesmo tempo, são contra o aborto, os migrantes, a educação sexual integral, a diversidade de gênero. Enfim, tem todo esse rosário de ideias reacionárias.<br><br>O discurso do Milei contra o que ele chama de &#8220;casta&#8221; da política também é bem efetivo, só dirigido contra o peronismo (e tudo o que eles qualificam como socialista, comunista, etc).<br><br><strong>O que representa o ataque a uma pessoa tão importante na luta pelos Direitos Humanos, como Estela de Carlotto?</strong></p>



<p>O ataque contra a Estela é o ataque contra a mais ecumênica das figuras, na luta pelos direitos humanos. As respostas foram variadas, entre pessoas do âmbito dos direitos humanos e outras pessoas s públicas. Foi bastante inédito, porque a Estela não é uma pessoa polêmica, digamos. Não tem um posicionamento de esquerda em geral. Ela é dos direitos humanos, da recuperação dos netos e teve uma adesão definida a Cristina Kirchner. Mas não é de propor coisas relacionadas com a política em geral e, quando emite opinião, costuma ser bastante conciliadora. Ela não dá opiniões sobre a política, se não sobre a democracia. O que ela considera é que é melhor não dar tanto espaço para essas polêmicas, porque é a estratégia delas.<br><br><strong>A declaração da Villarruel foi bastante bem violenta.</strong><br><br>Sim, bem violenta. Parece mais uma estratégia de sempre aparecer. Essa força tem constantemente entrado nas polêmicas que apareceram de um jeito frontal e brutal. Aparecer sempre, ser titular das notícias, polêmicas constantes, é uma estratégia que usam, e parece dar bons resultados.<br><br>Outro dia, li uma matéria que falava como que a maior parte dos votantes do Milei não escolhe pela afinidade com as ideias, mas porque ele é conhecido como personagem, como novidade num cenário político que há oito anos, de dois partidos opostos, que não dão respostas.</p>



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	                                        <p class="m-0">Gérmán Duschatzk. Crédito: Acervo pessoal</p>
	                
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<p><strong>Criar polêmicas parece sempre funcionar bem para essa direita.</strong><br><br>Não sei se você viu, mas o Milei também fez vários comentários bem polêmicos sobre um assunto muito importante para os argentinos, que são as Ilhas Malvinas. Ele, faz tempo, disse se identificar com Margareth Tatcher [primeira-ministra da Inglaterra, que liderou a Guerra das Malvinas]. Agora, a que seria a ministra de relações exteriores dele, falou que no governo deles, se respeitaria a autodeterminação da população das ilhas (que não é autóctone, são ingleses, porque nós, os argentinos fomos expulsos). Também falou de fechar o Conicet (Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas, autarquia que existe desde 1958), que é a instituição pública mais importante em ciência e tecnologia.<br><br><strong>Quanto mais barulho, melhor</strong>?<br><br>Venda de órgãos, venda de crianças, privatização das ruas, vouchers para estudar e se tratar na área da saúde, acabar com a distribuição do dinheiro federal entre as províncias, enfim. Um monte de besteira, realmente, coisas impossíveis, só ditas para aparecer. A mais efetiva, nesse contexto de perda de valor do peso e constante inflação, é a dolarização.<br><br>Mas a eleição real vem daqui a mais de um mês. um mês e meio. Eu não sei qual vai ser o resultado mas não vai ser igual. Por fora disso, um terço real da população com capacidade de eleger, não votou nas primárias.</p>



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	                                        <p class="m-0">Duschatzk acredita que resultado das eleições de outubro será diferente das primárias. Crédito: Sebastián Miquel</p>
	                
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<p><strong>* Jornalista, poeta e escritor, mestre em Estudos da América Latina pela USP</strong></p>



<p><strong>**Editor de fotografia da revista MAIZ, Facultad de Periodismo de la Universidad de la Plata, trabalhou em veículos como Página 12, El País (Espanha) e revista Nova (Brasil). Vencedor do prêmio de Fotografia do Mercosur.</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong><br><br><em>Se você chegou até aqui, já deve saber que colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa </em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>página de doaçã</strong></a><strong><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o</a> </strong><em>ou, se preferir, usar nosso </em><strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em></p><p><strong>Apoie o jornalismo que está do seu lado</strong></p><p><br></p></blockquote>
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		<title>Um país que sumiu do mapa</title>
		<link>https://marcozero.org/um-pais-que-sumiu-do-mapa/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Aug 2021 19:35:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[crise econômica e pandemia]]></category>
		<category><![CDATA[democracia em colapso]]></category>
		<category><![CDATA[democracia no Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[golpe de 2016]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Texto originalmente publicado na newsletter da Marco Zero. Clique aqui para assinar nossa newsletter O relato que ocupará os próximos parágrafos costuma gera reações que vão da tristeza à nostalgia entre as pessoas amigas que já o escutaram. É provável que, registrado por escrito, circulando pela internet entre um público mais diverso e, talvez, mais [&#8230;]</p>
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<p><strong>Texto originalmente publicado na newsletter da Marco Zero. <a href="https://marcozero.us18.list-manage.com/subscribe/post?u=6903930ec168971e947bb728b&amp;id=c1b8b74962">Clique aqui</a> para assinar nossa newsletter</strong></p>



<p>O relato que ocupará os próximos parágrafos costuma gera reações que vão da tristeza à nostalgia entre as pessoas amigas que já o escutaram. É provável que, registrado por escrito, circulando pela internet entre um público mais diverso e, talvez, mais jovem, soe como fantástico, tratando de um tempo e de um país que já não existem.</p>



<p>No entanto, a história que dá a dimensão das expectativas não realizadas e do quanto se tornou difícil viver no Brasil desde 2008, ano em que os fatos narrados aconteceram.</p>



<p>Até aquele ano, várias agências internacionais e fundos europeus que financiavam projetos e entidades da sociedade civil nordestinas que trabalhavam pela redução das desigualdades e na promoção de justiça social tinham escritórios no Recife, cidade que, para algumas delas, sediava toda a operação em território nacional. Então, todas decidiram que era hora de ir embora.</p>



<p>Instituições cuidadosas e responsáveis, convidaram para uma série de reuniões o Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef), em cujo escritório pernambucano este escriba trabalhava. Como, afinal, muitos dos projetos que apoiavam também eram financiados pela agência da ONU para as crianças e adolescentes, a ideia era fazer uma transição para que a decisão de saída do Brasil não criasse problemas para outros parceiros.</p>



<p>Participei de vários desses encontros com a presença dos técnicos e representantes de uma sopa de letrinhas: tinha gente da belga Volens, da norte-americana CRS (a Cáritas dos Estados Unidos), das alemães DED e GTZ, da britânica Oxfam-GB. Mas, por que essas instituições decidiram interromper o apoio financeiro aos projetos brasileiros? As explicações adicionam à história o tom surreal aos olhos de 2021.</p>



<p>As justificativas para a decisão repetiam frases como essas: “O Brasil está resolvido”; “o país caminha para a consolidação de um Estado do bem-estar social nos moldes europeus”; “O Brasil vive um momento de prosperidade e desenvolvimento irreversíveis”; “Os projetos tendem a se tornar política pública e serão financiados pelo próprio Estado brasileiro”; ou ainda “a classe média brasileira já tem condições financeiras de sustentar as ONGs com doações”.</p>



<p>Vivíamos a metade do segundo mandato do presidente Lula e tudo aquilo parecia sólido, principalmente para o olhar dos estrangeiros, que decidiram concentrar seus esforços e investimentos na África. Uma ou outra daquelas entidades manteve apoio a algumas iniciativas ambientais na Amazônia.</p>



<p>Ainda mantenho contatos esporádicos com algumas pessoas que participavam daquelas reuniões. Pelas redes sociais ou whatsapp, elas e eles me dizem que não conseguem entender como nem porquê as elites brasileiras foram capazes de sabotar o próprio país.</p>



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		<item>
		<title>Angela Davis: &#8220;democracia sem mulheres negras não é democracia&#8221;</title>
		<link>https://marcozero.org/angela-davis-democracia-sem-mulheres-negras-nao-e-democracia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 20 Oct 2019 18:12:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Angela Davis]]></category>
		<category><![CDATA[boitempo]]></category>
		<category><![CDATA[democracia em colapso]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Vinícius Andrade, especial para a Marco Zero Conteúdo Uma numerosa plateia lotou no sábado (19) o auditório do Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, para estar com Angela Davis. A conferência foi, a um só tempo, a primeira atividade em sua passagem pelo país e o encerramento do seminário &#8220;Democracia em colapso?&#8221;, organizado pela [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Vinícius Andrade, especial para a Marco Zero Conteúdo</strong></p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/67267359-113C-4C99-99B2-160AEA5ACF1F.png"><img decoding="async" class="wp-image-19605 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/67267359-113C-4C99-99B2-160AEA5ACF1F.png" alt="67267359-113C-4C99-99B2-160AEA5ACF1F" width="156" height="132"></a>Uma numerosa plateia lotou no sábado (19) o auditório do Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, para estar com Angela Davis. A conferência foi, a um só tempo, a primeira atividade em sua passagem pelo país e o encerramento do seminário <strong>&#8220;Democracia em colapso?&#8221;</strong>, organizado pela editora Boitempo em parceria com o Sesc São Paulo, atraindo um público majoritariamente jovem, mas, sobretudo, atento às palavras da ativista e filósofa norte-americana. E Davis, referência no mundo para as lutas feministas negras, anticoloniais e anticapitalistas, esteve empenhada desde o início em encorajar a solidariedade entre as diferentes lutas travadas hoje: &#8220;Marielle Franco sabia que a liberdade é uma luta constante&#8221;.</p>
<p>A frase faz menção ao seu último livro publicado, lançado na sequência de uma autobiografia escrita há trinta anos (quanto ela própria tinha apenas vinte e oito), mas só em 2018 apresentada ao Brasil. E embora a idade possa sugerir uma iniciativa precoce, Angela já havia vivido naquele momento uma série de experiências-limite, como explicou Adriana Ferreira da Silva ao convidá-la ao palco: o tempo em &#8220;Dinamite Hill&#8221; &#8211; bairro assim conhecido pelos recorrentes bombardeiros tramados por supremacistas brancos -, a mudança do sul para o norte do país e a constatação da permanência do racismo, o engajamento no Movimento Black-Power e a filiação ao Partido Comunista, a perseguição do estado, a prisão política e a soltura.</p>
<p>A partir de um ponto de vista para o qual a interseccionalidade é uma condição de possibilidade para uma abordagem efetivamente estrutural das injustiças sociais, em reforço à ideia de que &#8220;quando as mulheres negras se movimentam em direção à liberdade, elas não estão representando apenas a si mesmas&#8221;, Davis confrontou evidências de cerceamento à liberdade &#8220;constitutivas&#8221; da democracia liberal.&nbsp; E a evidência eleita por ela na tarde de ontem, em linha de continuidade com suas vivências nos movimentos e trajetória de estudos, foi o sistema prisional.</p>
<p>Uma reflexão despontou com toda força no decorrer de sua exposição, de que o encarceramento em massa &#8220;é a negação da liberdade transformada em padrão social&#8221;. Pior: a hegemonia da prisão na sociedade norte-americana (e a ativista lembrou que a população carcerária brasileira é a terceira maior do mundo) pode chegar a ser considerada um sinal de que a democracia vai bem, numa evidente inversão dos valores que deveriam ser nutridos em uma sociedade livre. Lá nos Estados Unidos como cá no Brasil, sugere ela, a articulação entre mecanismos prisionais e práticas liberais remete à formação dos estados e permite situarmos as instituições carcerárias como desdobramentos de um passado escravocrata.</p>
<p>Davis trouxe, então, o exemplo de um fato recente ocorrido no Pará e aparentemente ignorado pela maioria da plateia. Policiais militares despiram um grupo de detentos em uma penitenciária estadual e os obrigaram a cantar o hino nacional, usando celulares para registrar a cena. A situação remeteu a filósofa ao conhecido caso de Attica, em 1971, quando os internos de uma prisão de Nova Iorque, ao rebelarem-se contra os maus-tratos sofridos, foram massacrados pela polícia e os sobreviventes obrigados a se arrastarem nus de volta às celas. Aliás, Davis advertiu, mais de uma vez, sobre o uso disseminado de práticas de tortura em espaços prisionais e o que elas revelam sobre nossas instituições.</p>
<p><div id="attachment_19665" style="width: 970px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/Angela-Davis-2.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-19665" class="wp-image-19665 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/Angela-Davis-2.jpg" alt="Angela Davis 2" width="960" height="640"></a><p id="caption-attachment-19665" class="wp-caption-text">Angela Davis dividiu o palco com Adriana Ferreira Silva no seminário Democracia em Colapso, no Sesc Pinheiros, em São Paulo</p></div></p>
<p>Não foi a única vez que a autora demonstrou estar bastante atenta a fatos recentes ocorridos no Brasil. Depois de comparar Jair Bolsonaro a Donald Trump, relacionando ambos a outros presidentes de extrema-direita pelo mundo, criticou o desejo desses governantes de retorno a um período anterior às vitórias por justiça social. &#8220;Esse que está aqui no Brasil parece se identificar com as ditaduras militares e estados policiais, estou correta?&#8221;, interagindo com o público, para, na sequência, afirmar: &#8220;ele quer voltar a um passado no qual os direitos de negros, mulheres e indígenas eram desrespeitados&#8221;.</p>
<p>Por outro lado, Davis não deixou de provocar o público, confessando sentir-se inadequada no papel de representante do feminismo negro e questionando a necessidade de se buscar, aqui no Brasil, uma referência norte-americana: &#8220;Eu acho que aprendo mais com Lélia Gonzalez do que vocês aprenderiam comigo&#8221;. Com Lélia, ela convocou ao desenvolvimento de novas identidades baseadas nas noções de &#8220;Ameráfrica&#8221; e &#8220;Ameríndia&#8221;, alinhadas, por exemplo, ao feminismo negro cultivado através das lideranças femininas presentes no Candomblé.</p>
<p>A provocação não deixou de desenhar um retorno ao início de sua conferência, momento no qual as biografias de mulheres símbolos da força do feminismo negro praticado na América Latina foram celebradas: além de Lélia Gonzalez, Carolina Maria de Jesus, Luiza Bairros, Preta Ferreira. Mais de uma vez, como que didaticamente, Davis ressaltou que essas mulheres &#8220;mudaram a nossa forma de pensar a democracia&#8221; e, mais à frente, que &#8220;uma democracia sem elas, sem mulheres negras, não é uma democracia de forma alguma&#8221;, num visível gesto de resposta ao título do seminário, apenas o primeiro ato de sua visita a terras brasileiras.</p>
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		<title>O debate ecológico é a questão política e social decisiva do século XXI, afirma Michael Lowy</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Oct 2019 11:14:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[crise da democracia]]></category>
		<category><![CDATA[democracia em colapso]]></category>
		<category><![CDATA[ecologia]]></category>
		<category><![CDATA[editora boitempo]]></category>
		<category><![CDATA[Michael Lowy]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Vinícius Andrade, especial para a Marco Zero Conteúdo O debate ecológico é a questão política e social decisiva do século XXI. A afirmação é do sociólogo Michael Lowy, entre a desesperança diante da catástrofe ambiental vivida no planeta e a aposta na sua reversão pela militância ecossocialista. Proferida na mesa de debate &#8220;Crise da [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Vinícius Andrade, especial para a Marco Zero Conteúdo</strong></p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/67267359-113C-4C99-99B2-160AEA5ACF1F.png"><img decoding="async" class="wp-image-19605 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/67267359-113C-4C99-99B2-160AEA5ACF1F.png" alt="67267359-113C-4C99-99B2-160AEA5ACF1F" width="138" height="117"></a>O debate ecológico é a questão política e social decisiva do século XXI. A afirmação é do sociólogo Michael Lowy, entre a desesperança diante da catástrofe ambiental vivida no planeta e a aposta na sua reversão pela militância ecossocialista. Proferida na mesa de debate &#8220;Crise da Democracia e Anticapitalismo no século XXI&#8221; com os também sociólogos Ruy Braga e Sabrina Fernandes, no terceiro dia do seminário internacional <strong>&#8220;Democracia em Colapso?&#8221;</strong>, o seu tom pendeu para a aposta na transformação: juntos, os estudiosos conclamaram a aliança entre periferias urbanas e trabalhadores do campo, reverenciaram o MST como exemplo de vida e luta e argumentaram pela garantia do acesso a serviços públicos.</p>
<p>A reflexão do sociólogo brasileiro, filho de imigrantes judeus, foi precedida de uma inspiradora exposição conduzida por Sabrina Fernandes, autora do importante livro sobre os impasses da esquerda brasileira Sintomas Mórbidos (Autonomia Literária, 2019). Ela reconheceu o momento de baixa mobilização social, mas também recusou os limites de uma postura puramente anti(capistalista): &#8220;é preciso passar do anti para o pró&#8221;. Nesse sentido, alertou: &#8220;se você é explorado, você é classe trabalhadora, não empreendedor&#8221; e, então, defendeu a atuação cotidiana, permanente e ampla de solidariedade entre todas e todos aqueles explorados no país como uma condição para a mudança social efetiva.</p>
<p>Tanto Michael Lowy quanto Sabrina Fernandes salientaram a pertinência do engajamento ecossocialista. Para eles, isso significa perceber e exercitar no dia-a-dia a relação entre processos sociais e questões ambientais. Um exemplo notável no ambiente das cidades é o da alimentação, que pode se tornar um terreno de fortalecimento da agricultura familiar orgânica, sustentável e ecologicamente comprometida. No caso concreto do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, lembrado muitas vezes ao longo do debate, caberia ajudar seus armazéns, apoiar a realização das suas feiras, integrar-se ao seu processo de luta. &#8220;A militância agroecológica é uma política da vida&#8221;, enfatizou Ruy Braga ao final do debate, numa evidente contraposição às políticas de destruição levadas a cabo pelo governo Bolsonaro.</p>
<h3><strong>Perderam o contato com o povo e pronto, diz o escritor Ferréz</strong></h3>
<p>À análise da cientista social Esther Solano sobre o perfil do eleitor de Jair Bolsonaro e ao diagnóstico traçado pelo psicanalista Cristian Dunker para ajudar a explicar as condições de ascensão da extrema-direita no Brasil, apresentados na mesa &#8220;Comunicação e Hegemonia Cultural&#8221;, a primeira da tarde, somou-se o olhar realista e a fala impactante do escritor Ferréz, enraizados na experiência de mais de trinta anos de trabalho e vivência na periferia paulistana. O escritor iniciou sua participação fazendo eco a falas de dias anteriores, como a de Thula Pires: &#8220;Estamos há 500 anos sendo massacrados&#8221;.</p>
<p><div id="attachment_19645" style="width: 970px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/Taba-Benedicto-ferrez.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-19645" class="wp-image-19645 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/Taba-Benedicto-ferrez.jpg" alt="Taba Benedicto ferrez" width="960" height="640"></a><p id="caption-attachment-19645" class="wp-caption-text">Ferréz, Cristian Dunker e Esther Solano debateram Comunicação e Hegemonia Cultural a partir da perspectiva do avanço da extrema-direita no Brasil. Crédito: Taba Benedicto</p></div></p>
<p>Ferréz logo se encarregou de desmontar a hiprocisia da esquerda brasileira branca pertencente à classe média. Por um lado, disposta a combater o discurso bolsonarista, mas, não raras vezes, acomodada em privilégios que perpetuam a exploração aos trabalhadores. Por outro, distante da linguagem da maior parte da população que, para ele, &#8220;vive outra cultura&#8221; O maior erro do campo chamado progressista ou democrático-popular foi, justamente, se afastar da realidade do povo: &#8220;perderem contato (&#8230;) e ponto&#8221;, afirma de maneira categórica o escritor.</p>
<p>Os desafios de comunicação entre os setores à esquerda e a população foram também objeto de reflexão da cientista social Esther Solano. Tendo concentrado suas pesquisas no que chama de bolsonarismo moderado, a autora lembra que o &#8220;pico&#8221; de votos no candidato de extrema-direita se deu em grupos com alta escolaridade, sobretudo homens com ensino superior completo. Solano indica que parte da vitória do discurso bolsonarista teve a ver com a &#8220;moralização da esfera pública&#8221; e o modo como o que é anedótico por parte da esquerda, como a chamada &#8220;mamadeira de piroca&#8221;, mobilizou fortemente afetos de pessoas comuns.</p>
<p>Já Cristian Dunker optou por uma trilha de exposição alinhada à sua formação, oferecendo interessantes <em>insights</em> sobre a psicologia social que envolveu a eleição de Bolsonaro e a aderência ao seu discurso em determinados estratos da sociedade. Para ele, a retórica bolsonarista combinou dois fatores cruciais: o medo fundado na sensação de insegurança vivida nos centros urbanos e a frustração motivada por instabilidades econômicas. A tal perfil de cidadão essa retórica diz: &#8220;você está numa crise de identidade, só que nós temos a cura pra isso: a família&#8221;. O desdobramento dessa operação é a emergência de uma cultura do ódio ao outro, potencializada pelo acesso a tecnologias digitais com as quais ainda não se aprendeu a lidar.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A potência do feminismo negro de Patricia Hill Collins</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Oct 2019 19:15:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[democracia em colapso]]></category>
		<category><![CDATA[editora boitempo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Vinícius Andrade, especial para a Marco Zero Conteúdo A cada mesa de debates que se iniciava no segundo dia do seminário internacional &#8220;Democracia em colapso?&#8221; no Sesc Pinheiros, nesta quarta-feira, 16, Kim Doria, da Boitempo Editorial, insistia para que o público participante aproveitasse os espaços de encontro e troca criados com o evento. A [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Vinícius Andrade, especial para a Marco Zero Conteúdo</strong></p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/67267359-113C-4C99-99B2-160AEA5ACF1F.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19605 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/67267359-113C-4C99-99B2-160AEA5ACF1F.png" alt="67267359-113C-4C99-99B2-160AEA5ACF1F" width="149" height="126"></a>A cada mesa de debates que se iniciava no segundo dia do seminário internacional <strong>&#8220;Democracia em colapso?&#8221;</strong> no Sesc Pinheiros, nesta quarta-feira, 16, Kim Doria, da Boitempo Editorial, insistia para que o público participante aproveitasse os espaços de encontro e troca criados com o evento. A sugestão reflete as discussões feitas ao longo do dia, marcadas pelo esforço coletivo dos debatedores e debatedoras em oferecer críticas, caminhos de enfrentamento e respostas às opressões produzidas pelos principais poderes instituídos em funcionamento na nossa sociedade: o estado, os grupos econômicos, a justiça, a família, a religião.</p>
<p>O destaque foi a presença da socióloga norte-americana Patricia Hill Collins, acolhida por uma calorosa ovação motivada por sua trajetória como pensadora e ativista do feminismo negro, introduzida de maneira cuidadosa pela ativista e pesquisadora Winnie Bueno e comentada com notável engajamento pela historiadora Raquel Barreto. Hill Collins assumiu desde o início de sua apresentação na mesa &#8220;Feminismo negro e a política do empoderamento&#8221; a tarefa de falar sobre política não no sentido formal ou ideológico, mas &#8220;de baixo para cima&#8221;, das pessoas para o mundo, de modo a ressaltar um repertório de apoio, conhecimento e ação a partir do feminismo negro.</p>
<p>Em primeiro lugar, a socióloga tratou de contrapor a ideia, muito recorrente em círculos intelectuais hegemônicos, de que o feminismo negro seja apenas uma &#8220;versão negra&#8221; de algo já existente. E fez isso através da reflexão em torno da noção de cativeiro: lugares, situações e circunstâncias históricas que aprisionam as mulheres negras, objetiva e subjetivamente. Tais circunstâncias se alteram e a palavra cativeiro pode até sumir, observa ela, mas as tecnologias que as sustentam são reinventadas. Diante das situações concretas de opressão, levando em conta raça, classe, gênero, sexualidade, nacionalidade, o feminismo faz então uma pergunta fundamental: &#8220;o que uma pessoa negra precisa no momento para ser livre?&#8221;</p>
<p>O caminho para a resposta está, segundo a autora, nas políticas de empoderamento, que passam por quatro pontos: a esperança capaz de nutrir de força para as &#8220;questões de vida e morte&#8221;; a interseccionalidade, que permite uma análise de como o mundo social molda a experiência das mulheres negras; a tomada de posição, que materializa uma recusa indignada às injustiças sociais; e a ação política, que diz respeito ao enfrentamento de um conjunto particular de desafios. É no curso dessas políticas – complementares, jamais concorrentes – que entrariam formas de ação diversas, das estratégias básicas de sobrevivência, passando por uma política cultural que toma as artes e a estética como fatores de empoderamento negro, até a participação na política institucional ou partidária.</p>
<p><b>&#8220;O que vocês querem é destruir a família? Sim&#8221;, diz Amanda Palh</b>a</p>
<p>A primeira mesa do dia discutiu como visões ligadas à família e à religião, historicamente centrais para a experiência popular brasileira, têm sido mobilizadas hoje no campo da política institucional. Contando com a participação da cientista política Flávia Biroli, da educadora&nbsp;e militante travesti Amanda Palha e do Pastor Henrique Vieira, o debate teve início com uma importante contextualização de Biroli, que revelou que o termo &#8220;ideologia de gênero&#8221; surgiu no seio da Igreja Católica da América Latina, assim usado em documento de 1998 da episcopal peruana, e encontra até hoje nos católicos a sua &#8220;base epistemológica&#8221;, mesmo que atualmente a reação conservadora em torno dele seja puxada por figuras evangélicas.</p>
<p>A contextualização da cientista abriu caminho para as contudentes considerações de Amanda Palha, que, antes de mais nada, fez questão de salientar o desrespeito de parte da esquerda a problemas concretos de LGBTs ao classificar as falas públicas machistas, homofóbicas e transfóbicas da ministra Damares Alves como mera &#8220;cortina de fumaça&#8221;. Mas Amanda Palha fez também um alerta aos movimentos: negar a existência de um desejo aberto de desconstruir o modelo de família tradicional é um retrocesso, contraditório, inclusive, em relação às origens dos movimentos feministas e LGBTs na América Latina, e nada trouxe de proveitoso à luta até aqui. Por isso, indagou e respondeu de um só golpe: &#8220;O que vocês querem é destruir a família? Sim!&#8221;.</p>
<p><div id="attachment_19627" style="width: 970px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/88284978-3AFC-4F68-B167-A101F8CCE5AC.jpeg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-19627" class="size-full wp-image-19627" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/88284978-3AFC-4F68-B167-A101F8CCE5AC.jpeg" alt="Educadora e militante travesti, Amanda Palha provocou a plateia no seminário Democracia em Colapso?" width="960" height="640"></a><p id="caption-attachment-19627" class="wp-caption-text">Educadora e militante travesti, Amanda Palha provocou a plateia no seminário Democracia em Colapso?</p></div></p>
<p>Em participação preocupada em desfazer os estigmas em torno da fé cristã evangélica e da massa de praticantes, o pastor Henrique Vieira argumentou a existência de uma pluralidade de visões dentro das igrejas brasileiras, situando o extremismo neopetencostal como um vetor de conservadorimos antes já dominantes na estrutura de nossa sociedade. Propôs, assim, uma prática religiosa não fundamentalista e, sem perder de vista a maneira pela qual o neoliberalismo econômico vem dilacerando o tecido social nos territórios mais empobrecidos e buscando pontos de contato com a fala de Amanda Paula, também a ressignificação da ideia de família.</p>
<h3><strong>Críticas aos aparatos jurídicos</strong></h3>
<p>Já no debate sobre &#8220;Judicalização da política e politização do judiciário&#8221;, notabilizou-se a análise incisiva da professora de direito Thula Pires sobre o papel do sistema jurídico na perpetuação e consolidação dos processos coloniais, com a qual dialogou o também professor de direito Alysson Mascaro, em uma abordagem macroestrutural da justiça no Brasil, e o especialista em segurança pública Luiz Eduardo Soares. Mas enquanto Luiz Eduardo Soares se concentrou na reflexão sobre a sanha punitivista e proibicionista do Brasil no período pós-reabertura democrática, Thula Pires enfatizou a necessidade de deslocamento do marco temporal: em vez da constituição de 1988, o momento de criação dos cursos de direito no Brasil.</p>
<p>A participação da professora esteve pautada nas referências afrodiaspóricas, ecoando alguns debates do dia anterior ao perceber na &#8220;politização da justiça&#8221; não uma perversão ou anomalia do sistema jurídico, mas a sua razão de ser na lógica capitalista, o motivo para o qual foi fabricado. Mas as ressonâncias entre um dia e outro de debates não pararam por aí. Tanto Thula Pires quanto Alysson Mascaro salientaram que a conquista de direitos no país se deu a despeito da ordem jurídica vigente, o que levou o professor a considerar: &#8220;Nenhum judiciário do mundo pode salvar nenhuma luta do mundo&#8221;.</p>
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		<title>As mulheres empobrecidas são o alvo da nova caça às bruxas, diz Silvia Federici</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Oct 2019 16:29:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[`Silvia Federici]]></category>
		<category><![CDATA[boitempo editorial]]></category>
		<category><![CDATA[democracia em colapso]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Vinícius Andrade, especial para a Marco Zero Conteúdo Hoje o alvo da caça às bruxas são as mulheres empobrecidas. A ideia é defendida pela ativista e pensadora italo-estadunidense Silvia Federici, que não tarda a explicar: não se trata de uma tese, mas de uma constatação inevitável feita a partir de um olhar profundo para [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Vinícius Andrade, especial para a Marco Zero Conteúdo</strong></p>
<p><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/67267359-113C-4C99-99B2-160AEA5ACF1F.png"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-19605 alignleft" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/10/67267359-113C-4C99-99B2-160AEA5ACF1F.png" alt="67267359-113C-4C99-99B2-160AEA5ACF1F" width="208" height="176"></a>Hoje o alvo da caça às bruxas são as mulheres empobrecidas. A ideia é defendida pela ativista e pensadora italo-estadunidense Silvia Federici, que não tarda a explicar: não se trata de uma tese, mas de uma constatação inevitável feita a partir de um olhar profundo para a história na perspectiva daquelas que a vivenciaram de modo &#8220;mais excruciante&#8221; – as mulheres e, sobretudo, as mulheres negras. Foi dessa forma que a feminista arrematou ontem (15) a sua participação no<strong> seminário &#8220;Democracia em colapso?&#8217; </strong>(organizado pela Boitempo Editorial e o Sesc São Paulo), depois de iniciar somando outra indagação à pergunta que dá título ao evento: houve, de fato, algum momento em que o capitalismo dominante nos últimos séculos foi democrático?</p>
<p>Ao lado da ativista e empresária Eliane Dias e da pesquisadora e escritora Bianca Santana em conversa inspirada na sua mais recente publicação, o livro <em>Mulheres e caça às bruxas </em>(Boitempo,2019), Federici demonstrou a impossibilidade de separação entre a história de luta contra o capitalismo e a história das lutas feministas, antiracistas e anticoloniais. Olhar estruturalista saudado por Bianca Santana – responsável por introduzir a edição brasileira do livro – no diálogo entre elas: &#8220;A Silvia é uma das poucas autoras brancas que conheço que vê centralidade na pauta racial, (&#8230;) é uma lição para a esquerda branca brasileira&#8221;.</p>
<p>O exemplo principal trabalhado pela convidada na noite de ontem foi o das chamadas &#8220;Nonwhite Welfare Mothers&#8221;, mulheres negras que se organizaram e lutaram, nos anos 60 e 70 nos Estados Unidos, pelo reconhecimento e devida remuneração ao trabalho realizado em ambiente doméstico. Trabalhadoras, educadoras e lutadoras, essas mulheres foram mais tarde, nos anos 90, criminalizadas e acusadas de parasitar o Estado, ilustrando o argumento sustentado pela pesquisadora de que, a cada período de &#8220;crise&#8221; capitalista, estratégias violentas foram relançadas com a finalidade de esconder a exploração às mulheres.</p>
<p>Federici faz questão de salientar, aliás, o uso do termo &#8220;empobrecidas&#8221;. Se o capitalismo se esforçou, de maneira consciente, em precarizar as condições materiais de vida dessas mulheres, jamais podemos nos referir a elas como pobres, pelo contrário; temos o dever de utilizar um termo que chame atenção para as causas históricas que explicam tal pauperização. O acesso ao trabalho remunerado, o direito ao voto e&nbsp; justiça reprodutiva (que envolve o direito ao aborto seguro) são discussões que possuem relação decisiva com as adversidades enfrentadas pelas mulheres empurradas para circunstâncias de pobreza.</p>
<p>Se ficou a cargo de Federici traçar, de certo modo, um diagnóstico e apontar algumas resistências travadas nos Estados Unidos e na Europa, Bianca Santana valorizou as lutas em curso no Brasil e as lutadoras que as movimentam, citando nominalmente Anielle Franco, do Instituto Marielle Franco, as congressistas Áurea Carolina e Talíria Petrone, Neta Serejo e Selma Dealdina da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, Deise Benedito e Suelo Carneiro, da Coalizão Negra por Direitos, entre outras ativistas em atuação no momento no país.</p>
<p>Responsável por conduzir a mediação do debate, Eliane Dias fez comentários pontuais, mas nem por isso menos contundentes, vocalizando também algumas perguntas do público. Um dos problemas enfatizados por ela foi o ataque às mulheres negras sob a forma de ataque aos seus filhos: &#8220;Nós dizíamos há algum tempo que talvez eles viessem pegar os nossos filhos dos nossos leitos&#8221;. A ativista lembrou do encarceramento em massa, uma maneira de &#8220;alimentar a escravidão&#8221;, processo alargado nos &#8220;governos que nós defendemos&#8221;, como advertiu Bianca Santana através de dados expressivos registrados até 2013.</p>
<p>Debatedoras e público participante, inspirados pela data comemorativa do dia dos professores, estiveram em sintonia a respeito do fato de que, hoje no Brasil, a criminalização da atividade docente, em projetos como o Escola sem Partido, é uma forma contemporânea de caça às bruxas, na medida em que a maioria das pessoas responsáveis pela educação em espaços formais e não-formais são mulheres, especialmente mulheres negras. Ao se referir às tentativas de apagamento das trajetórias coletivas e individuais de negros, mulheres e indígenas dos livros didáticos, Federici conclui: &#8220;Eles querem reescrever a história, porque a história é perigosa&#8221;.</p>
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