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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Cessar-fogo?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Mar 2024 12:17:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Fanáutico]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na noite em que a Federação Pernambucana de Futebol e a Polícia Militar decidiram que os clássicos entre Santa Cruz x Sport pelas semifinais do campeonato estadual serão realizados com torcida única, as lideranças das três principais torcidas organizadas do estado costuravam um “tratado de paz” no auditório do Sindicato dos Metalúrgicos, no centro do [&#8230;]</p>
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<p>Na noite em que a Federação Pernambucana de Futebol e a Polícia Militar decidiram que os clássicos entre Santa Cruz x Sport pelas semifinais do campeonato estadual serão realizados com torcida única, as lideranças das três principais torcidas organizadas do estado costuravam um “tratado de paz” no auditório do Sindicato dos Metalúrgicos, no centro do Recife. O encontro foi iniciativa dos próprios torcedores e não contou com a presença de nenhuma autoridade.</p>



<p>Já houve outras tentativas de se fazer algo parecido antes, mas essa foi a primeira vez em que uma negociação entre as torcidas acontece em um momento de tensão extrema, dias após o ataque ao ônibus da delegação do Fortaleza e às vésperas de jogos decisivos. Único veículo de mídia presente, a Marco Zero acompanhou a reunião do início ao fim.</p>



<p>Não se pode dizer que os líderes da Fanáutico, Jovem do Sport e Inferno Coral (atualmente Explosão Coral) não se expressam uns com os outros com clareza, em linguagem crua, sem arrodeios. “Se a gente for começar a falar das feridas abertas que temos, não vamos acabar nunca. Todas as três torcidas têm culpa no cartório. Agora não tem mais jeito, o que a gente tem de fazer é se alinhar”, disse o alvirrubro Arthur, da Fanáutico. Pouco antes, ele havia dito que “não adianta, a PM não vai dar respaldo ao que for combinado aqui, a gente é que tem de ter hombridade para respeitar o pacto”.</p>



<p>Na mesma linha sem-papas-na-língua, Erivam, da Explosão/Inferno, fez uma provocação aos demais diretores: “nós da liderança temos de nos conscientizar que também ajuda a ter violência. Por exemplo: quando os componentes pedem dinheiro pra botar gasolina no carro pra dar umas voltas, a gente sabe que os caras vão partir pra briga com o pessoal de vocês, mas, mesmo assim, a gente dá dinheiro”.</p>



<p>Ninguém contestou.</p>



<p>Respeitado até pelos adversários por sua coragem e desempenho nas brigas de rua, Carlos Renato, o Renatinho, fez um dos mais enfáticos discursos pela paz entre as organizadas: “A gente tem de fazer essa parada andar, a gente tem de dar as mãos e passar essa visão para os nossos irmãos na rua. Se o componente vê a gente com as ideias abraçadas, vai aceitar nosso pacto. Se isso tivesse acontecido há uns dez anos, a gente estaria em outro patamar”.</p>



<p>Quando fala em “outro patamar”, Renatinho inclui também o aspecto financeiro. “Qual é a empresa que vai querer patrocinar um negócio com morte, confusão, destruição?”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Líderes admitem que também têm culpa pela violência. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo
</p>
	                
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Os termos do tratado de paz</strong></h2>



<p>Para entender a importância do que foi combinado na reunião seria preciso conhecer a dinâmica da relação entre as torcidas, incluindo alguns simbolismos que parecem misteriosos a quem não é desse universo, caso deste repórter e da maioria dos leitores da Marco Zero. Pra começar, “sede e estádio são sagrados”. Traduzindo: uma torcida não pode atacar a sede da outra nem brigar dentro dos estádios. Isso é tão importante que o coordenador regional da Associação Nacional das Torcidas Organizadas (Anatorg), Adriano Costa, incluiu esse item na pauta da reunião.</p>



<p>O primeiro a garantir que seu grupo vai se manter longe da sede das rivais foi o torcedor do Náutico. “Pra gente, isso acabou, não vai ter mais”, cravou Arthur. Durante o debate desse ponto, alguém do auditório falou que “se forem na nossa sede vão ser recebidos à bala…”</p>



<p>Ivison Tavares, também conhecido como Pastor, um evangélico que foi líder das brigas de rua e hoje é advogado, defendendo tanto torcedores organizados quanto PMs acusados de crimes, cortou a fala enfaticamente: “não tem mais isso ‘se forem lá…’, não, não tem de ter. Acabou. Ponto. Fim”.</p>



<p>Antes de chegar a notícia que o clássico do próximo sábado será com torcida única, os torcedores debateram exaustivamente como reduzir os riscos das brigas nas ruas e avenidas a caminho do estádio. Aqui cabe uma explicação: a maior parte dos confrontos violentos acontece no trajeto dos “bondes”, ou seja, os grandes grupos que saem dos bairros de ônibus, metrô ou mesmo a pé. Ficou claro que o “pessoal dos bairros” preocupa – e muito – as lideranças das torcidas. Teria sido um desses grupos que emboscou o ônibus do Fortaleza no Curado.</p>



<p>Se a torcida do Sport puder ir ao clássico no Arruda, ficou acertado que os tricolores só vão iniciar seu deslocamento às 13h, quando os rubro-negros estiverem todos concentrados diante da sede do Sport, na Ilha do Retiro. Os líderes rivais assumiram o compromisso de manter a transparência, avisando uns aos outros onde estão os “bondes”. Nas ruas do entorno dos estádios, também está acertado que as lideranças vão ficar atentos para “apagar os incêndios”, principalmente apartando pequenas brigas que podem se tornar em pancadaria generalizada antes ou depois do jogo.</p>



<p>Serão enviados ofícios a PM pedindo escolta, informando horários, trajetos e pontos de concentração. Mesmo que seja negado, todos consideraram importante a formalização para “resguardar juridicamente as diretorias das torcidas”.</p>



<p>Se realmente a próxima partida acontecer com torcida única, as lideranças da Jovem se comprometeram a deixar o caminho livre para os tricolores, mas admitem que há sempre o risco de grupos isolados – ou, no caso da torcida do Sport, a oposição à atual diretoria da torcida &#8211; tomarem a iniciativa de atacar alguém.</p>



<p>Também ficou pactuado que o acerto vale para todos os jogos de agora em diante.</p>



<p>Em relação à torcida única, o advogado Renan Castro, da Comissão de Direitos Humanos da OAB e integrante do Centro Popular de Direitos Humanos (CPDH), acompanhou a reunião e, no final, disse estar à disposição caso as organizadas queiram dar entrada numa Ação Civil Pública para tentar assegurar o direito da torcida do Sport ir ao jogo no Arruda. E vice-versa.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Sem consenso</strong></h3>



<p>Um ponto, no entanto, ficou em aberto, sem que os torcedores alcançassem um consenso: o que fazer se integrantes da torcida, isolada ou coletivamente, violarem o acordo de paz?</p>



<p>Os participantes reconhecem que, ao menos em um primeiro momento, será inevitável que isso aconteça. Para Pastor, o que vai determinar o sucesso do pacto será a resposta das diretorias das organizadas que, em meio a outras tentativas de pacificação, teriam sido complacentes com os violentos ou mesmo recomeçando a “guerra”. O advogado da Jovem pediu que se considerasse a possibilidade de “entregar” os nomes dos responsáveis para ajudar o trabalho da polícia.</p>



<p>“Não que eu seja a favor disso, mas é preciso fazer algo diferente porque o que está em jogo é a existência das nossas instituições e a liberdade das lideranças porque a nova <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/L14597.htm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Lei Geral dos Esportes</a> responsabiliza os dirigentes de torcidas pelos danos causados”, alertou.</p>



<p>O alvirrubro Arthur descartou a possibilidade de agir dessa maneira: “não vamos ser x-9 [o mesmo que dedo-duro, delator]”. O coordenador da Explosão/Inferno havia dito que &#8220;a gente tá preferindo ter 500 caras que honrem o bagulho [a instituição] do que 4.000 maloqueiros&#8221;, mas não deixou claro qual a posição da sua organizada.</p>



<p>Adriano Costa explicou a Anatorg se posicionou contra a delação e explicou o porquê: “O Estado vai garantir a vida dos dirigentes de torcidas que entregarem seus componentes para a Polícia? Não vai”.</p>



<p>No final, Costa, anunciou que a entidade pretende organizar um encontro de todas as torcidas organizadas do estado ainda este ano.</p>



<p>Enquanto posavam juntos para a foto simbólica, os participantes do encontro comentavam que o sucesso do tratado de paz neste momento é decisivo para as organizadas. Ao menos entre os “cabeças” há um certo cansaço das cenas de violência: “a gente também tem famílias, queremos viver nossas vidas”, comentou o rubro-negro Renatinho.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/para-as-autoridades-de-pernambuco-as-torcidas-organizadas-nao-existem-e-isso-gera-mais-violencia/" class="titulo">Para as autoridades de Pernambuco, as torcidas organizadas não existem. E isso gera mais violência</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/violencia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Violência</a>
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		<title>Para as autoridades de Pernambuco, as torcidas organizadas não existem. E isso gera mais violência</title>
		<link>https://marcozero.org/para-as-autoridades-de-pernambuco-as-torcidas-organizadas-nao-existem-e-isso-gera-mais-violencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 May 2023 21:52:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Fanáutico]]></category>
		<category><![CDATA[Inferno Coral]]></category>
		<category><![CDATA[polícia em Pernambuco]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por George Lucas* As maiores torcidas organizadas do Náutico, Santa Cruz e Sport existem ou não? A resposta parece óbvia, mas não é assim tão simples, afinal para o Ministério Público, a Polícia Militar e as autoridades pernambucanas, a Torcida Jovem Fanáutico, a Torcida Organizada Inferno Coral e a Torcida Jovem do Sport simplesmente não [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por George Lucas*</strong></p>



<p>As maiores torcidas organizadas do Náutico, Santa Cruz e Sport existem ou não? A resposta parece óbvia, mas não é assim tão simples, afinal para o Ministério Público, a Polícia Militar e as autoridades pernambucanas, a Torcida Jovem Fanáutico, a Torcida Organizada Inferno Coral e a Torcida Jovem do Sport simplesmente não existem. Isso porque tiveram seus respectivos CNPJs cancelados e foram oficialmente dissolvidas em 2020, depois de proibidas de ir para os estádios desde 2014.<br><br>Mesmo assim, as três têm sede, lojas, comercializam produtos, brigam entre si e ocupam setores específicos dos estádios, ainda que ninguém possa ir aos jogos usando camisas com seus símbolos ou nomes. No entanto, como elas “não existem”, o poder público não monitora esses grandes grupos de torcedores organizados, indiferença que contribuiria para a violência nos dias de futebol, impactando também os torcedores comuns, não organizados, que aos poucos também vão perdendo o direito de torcer.</p>



<p>Desde o começo da década passada, após a clara posição do Ministério Público Estadual favorável à extinção dessas três torcidas, artefatos utilizados por torcedores começaram a ser vetados nos estádios. Primeiro, foram as bandeiras de mastro, em seguida sinalizadores, esses proibidos nacionalmente, devido ao incidente da torcida do Corinthians na Bolívia, que vitimou um torcedor em 2012.</p>



<p>Até o rádio de pilha, usado por tantos torcedores nos estádios, foi vetado em 2022, pois, segundo a PM-PE, era necessária &#8220;prevenção à violência, devido ao risco de esses objetos serem arremessados ou utilizados em possíveis brigas de torcidas&#8221;. Após pressão da mídia, o rádio voltou a ser liberado. Antes do radinho, pela mesma razão durante seis anos (de 2009 a 2015) foi proibido tomar cerveja nos estádios pernambucanos.</p>



<p>Tantas restrições geraram mais protestos que resultados, a exemplo do movimento #liberaafesta. De fato, a festa foi liberada, mas de forma restrita. O Governo de Pernambuco, ao lado do Grupo de Trabalho de Futebol, que não inclui em suas reuniões torcedores, (apenas órgãos públicos, clubes, e a Federação Pernambucana de Futebol), liberou a volta das bandeiras com mastro e bateria, essa última autorizada desde o ano passado, mas com alguns limites a serem seguidos.</p>



<p>Curiosamente, há uma condição para a festa acontecer: não pode ser realizada nas gerais dos estádios (setor atrás do gol), onde ficam as torcidas organizadas, que, segundo as mesmas autoridades, sequer existem. Mais uma vez, o paradoxo.</p>



<p>Diretores da Torcida Organizada Inferno Coral, expressaram seu ponto de vista sobre essas restrições:</p>



<p>&#8220;Eles estudam tanto, mas só que quem vive é a gente. A gente sabe qual é a melhor forma de se fazer”, diz João Paulo, o <em>JP</em>, diretor financeiro. Em seguida, <em>Cláudio BZC</em>, presidente da torcida, Erivan, vice-presidente, e Raul, diretor, completam enumerando a série de artefatos presentes nos estádios que possuem potencial de perigo maior que um bambu (mastro da bandeira), como facas, espetos de churrasco e gás de cozinha, usados pelos comerciantes e gasoseiros em dias de jogo.</p>



<p>Os torcedores corais também criticam a “extinção fake” das organizadas: “Se um componente faz uma violência, Cláudio, que é o presidente, não pode responder, como fizeram no Rio. Eles fazem isso, excluem CNPJ, mas outros assumem ou se abre outro. Isso não vai acabar. A torcida organizada só se acaba se o clube acabar,”, fala <em>JP</em>.</p>



<p>Igor Moura, da Fanáutico, conta sobre os trâmites para conseguir entrar no estádio com materiais como bandeirão e faixas. &#8220;Sim, todo jogo, 48 horas antes a gente envia ofício com solicitação pro Choque (diz ele sobre enviar o documento real a ser enviado pela entidade &#8220;inexistente&#8221; para a Polícia Militar), mas só sabemos a resposta na hora do jogo. Cada um que se vire, sem diálogo&#8221;.</p>



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	                                        <p class="m-0">Igor Moura, da torcida Fanáutico. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Violência naturalizada</strong></h2>



<p>A falta de diálogo abre caminho para a violência por parte dos policiais em dias de jogos. Todos os dirigentes das três organizadas que falaram com este repórter &#8211; Igor, <em>BZC</em>, Erivan, Raul, <em>JP</em>, além de Carlos Renato, o Renatinho e Jefferson Moura, o <em>Gel</em>, da Torcida Jovem, responderam com bastante naturalidade quando perguntados se já sofreram violência nos estádios.</p>



<p>&#8220;O que eles fazem, não só com a organizada, mas com o povão, pai de família. Já começa na entrada do estádio, apertada&#8221;, conta <em>BZC</em>, da Inferno Coral, que também fala sobre agressões com spray de pimenta e intimidações por parte dos soldados da cavalaria. Renatinho, da TJS, demonstra posicionamento semelhante, afirmando que, atualmente, em todos os setores da Ilha do Retiro se vê cenas de truculência policial na entrada dos jogos.</p>



<p>Uma torcedora do Sport, sem vínculos com qualquer organizada do clube, ouvida pela reportagem, contou sobre tumultos causados pelo Batalhão de Choque no dia da final da Copa do Nordeste, disputada por Sport x Ceará. Na ocasião, a diretoria rubro-negra vendeu mais ingressos que a atual capacidade liberada de seu estádio, o que deixou vários torcedores do lado de fora.</p>



<p>&#8220;Todo mundo do lado de fora tinha ingresso, e tinha muita gente! A gente ficou espremido na entrada da arquibancada frontal e, quando deu 21h, simplesmente fecharam os portões e o Choque e a cavalaria começaram a &#8216;rebocar&#8217; os torcedores para a Abdias de Carvalho, não deixaram ficar nem na pracinha. Além de que teve muita bomba e tiro a troco de nada&#8221;, conta a rubro-negra, que teve um amigo ferido por uma bomba de efeito moral no pé. Ela optou por não se identificar.</p>



<p>É claro que as três torcidas também têm sua parcela de responsabilidade. Não há como negar seus repertórios de provocações, estímulo à violência e sequência de ataques a rivais. “Não (sobre se essas músicas podem incentivar os componentes a brigar), e hoje em dia esses cantos estão proibidos dentro do estádio. Não pode falar o nome da torcida organizada. A gente preza por cantar pelo Náutico e incentivar o time em campo, esquecer os rivais”, diz Igor, da Fanáutico, também chamado de Iguinho. Ele completa: “Poxa, eu tento ao máximo esquecer o nome dos ‘alemão’ do outro lado. Meu negócio é apoiar o Náutico dentro de campo, a gente canta pelo time os 90 minutos”.</p>



<p><em>JP</em>, da Inferno Coral, prefere relativizar o peso das as músicas. &#8220;Acho que não influencia, não. Os MCs de funk de São Paulo e Rio cantam o que vivem, por exemplo. Os das torcidas só estão cantando o que acontece. Cabe a cada um deixar se influenciar&#8221;. Raul, também da organizada tricolor, faz uma interpretação pragmática.&#8221;É um tipo de diversão. Eles lá fazem a mesma coisa e aí os daqui respondem. No mundo das organizadas isso aí existe. A violência não parte de uma música, já está impregnada”.</p>



<p>Um dos integrantes da Jovem do Sport explicou que as músicas são criadas por MCs querendo se promover, e que a diretoria da torcida não tem poder de veto. E também não parecem se importar em se ver associada à violência.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Homofobia pode</h3>



<p>Se músicas com referências às entidades rivais não podem ser cantadas nos estádios, ninguém vê problemas nos gritos e músicas com versos homofóbicos. A exaltação da virilidade e masculinidade constante são características comuns a todas a quase todas organizadas do país, apesar de alguns dirigentes recifenses garantirem não fazer restrições ao público LGBTQIA nas arquibancadas ou na própria organizada.</p>



<p>&#8220;Independente da organizada, a gente respeita todas as classes, até porque isso é um crime. Já chegou gente aqui comprando material na loja e recebemos de forma normal, tratando com respeito&#8221;, é o que diz <em>JP</em>.</p>



<p>Pela TJS, Renatinho preferiu não adentrar ao tema, demonstrando indiferença, mas contou que, pessoalmente, não tem preconceitos, embora admita ser uma dificuldade impor um pensamento na torcida “por ser muito grande”.</p>



<p>Incomodado, Igor Moura, da Fanáutico, foi quem deu um posicionamento mais claro – e preconceituoso. Após pedir para a reportagem cortar a gravação e ter a pergunta reformulada, ele deu sua resposta. “Não mexendo com nós, tá de boa. Cada um no seu canto”.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Afinal, por que tanta briga?</strong></h3>



<p>É provável que a principal curiosidade a respeito das organizadas é entender o porquê de tantas brigas. O poder público parece nunca ter demonstrado preocupação em encontrar a raiz (ou raízes) do problema, mas, os próprios dirigentes das organizadas tentam demonstrar o caminho para se descobrir de onde vêm a natureza dos confrontos.</p>



<p>“Quando acabaram os bailes, eles se infiltraram nas torcidas, aí rolava muita briga. Mas nós mesmos, na torcida, intervimos nisso aí”, diz Erivan, da TOIC. De acordo com essa justificativa, no começo dos anos 2000, bailes funk eram populares nas comunidades do Recife, muitos bairros aproveitavam a ocasião para criar rivalidades e, assim, brigar. Tudo muito semelhante ao que acontece nas torcidas hoje.</p>



<p>As próprias representações de diferentes bairros no interior da Inferno chegaram a brigar entre si há alguns anos, o que exigiu intervenção da diretoria. De acordo com a versão desses torcedores, os protagonistas dessas brigas são jovens de periferia, sem acesso a espaços de lazer e cultura, que se identificam tanto com as organizações, que partem para violência para demonstrar superioridade. Algo que Raul, da torcida tricolor, define como o “ego da comunidade”.</p>



<p>Quais seriam consequências dessas brigas? A versão dos responsáveis pelas torcidas é diferente daquelas veiculadas pelas autoridades e pela mídia tradicional. Os dirigentes asseguram que, quando há confrontos, a diretoria contacta os monitores dos bairros, tentam entender o que aconteceu, e, se necessário punem os brigões. “A questão é que sem a ajuda das autoridades, que enxergam as torcidas como extintas, fica difícil prevenir”, afirma <em>Gel</em>, vice-presidente da TJS.</p>



<p>&#8220;A gente tem contato com todos os monitores de bairro. E isso é muito simples de resolver. A gente sabe de onde sai uma quantidade de pessoas muito grande, então o Choque pode fazer a escolta do bairro até o estádio. Mas não, eles só querem dar escolta a partir desse ponto (referindo-se à sede). A gente não vai acabar com a violência, mas tem ideias para minimizar ela&#8221;, explica o vice-presidente da torcida rubro-negra.</p>



<p>Entre os representantes das torcidas entrevistados, os torcedores do Santa Cruz e do Sport se mostraram mais dispostos a dialogar com os adversários, como já aconteceu no passado. Em 2015, Jovem e Inferno promoveram a campanha “Clássico da Paz,” com direito à música gravada pelos MCs das torcidas. Dois anos depois, foi a vez de Fanáutico e Inferno Coral protestarem juntas contra a Secretaria de Defesa Social e Federação Pernambucana de Futebol, por fazerem com que Náutico e Santa Cruz jogassem no mesmo dia na Arena de Pernambuco.</p>



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	                                        <p class="m-0">Jefferson Moura e Carlos Renato, da Torcida Jovem, Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>“Se for pro benefício da nossa entidade,nada mais justo que a gente sentar e conversar com Fanáutico e Inferno Coral, junto com a governadora, o Batalhão de Choque, os órgãos públicos&#8221;, diz Renatinho, da Jovem. &#8220;O diálogo, creio eu que se tiver a parceria entre as torcidas e os órgãos públicos vai melhorar muito. Porque o trabalho em conjunto ajuda a cada um dizer do que tá precisando [&#8230;] A volta das entidades, o que for melhoria para Inferno, Jovem e Fanáutico, a gente tá disposto a se sentar com qualquer um&#8221;, conta <em>BZC</em>, da Inferno Coral.</p>



<p>O alvirrubro Igor foi reticente, dizendo que hoje não existe diálogo entre as três rivais, o que só ocorrer com intermediação da Anatorg (Associação Nacional de Torcidas Organizadas).</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O que ninguém publica</strong></h3>



<p>Durante as entrevistas, os dirigentes das organizadas guardam alguns ressentimentos. Um deles, repetidos por todos, seria o não reconhecimento da mídia aos projetos que tocam em suas respectivas comunidades. “Isso era um trabalho que deveria ser do governo, né velho? A gente já criou um projeto social para afastar a criançada da droga, que é o Timbu Fighters, onde damos aula de artes marciais. E aí a gente tá tirando as crianças da droga, até os próprios componentes, fazendo eles praticarem esportes”, diz o alvirrubro Igor, da Fanáutico.</p>



<p>&#8220;A TJS influencia a molecada a não ir para o crime por meio de ações sociais. A gente tem várias academias nos bairros, como no Ibura. Quando uma criança tá lá, são três, quatro horas de relógio ocupando a mente. A gente queria ser ouvido porque a sociedade e a mídia só mostram o lado da violência. Temos vários pontos que trazem recursos benéficos para a comunidade que não são divulgados, como ações sociais, treinamento, doação de sangue&#8221;, fala <em>Gel.</em></p>



<p>&#8220;A mídia não mostra isso nunca. Ela vai mostrar simplesmente o lado negativo da torcida, que é um fato pequeno, mas que se torna grande e mancha o nome da entidade&#8221;, acrescenta Renatinho, presidente da TJS.</p>



<p>“O papel da Inferno Coral é o que a gente puder fazer, a gente faz. Como eu falei, a gente faz ação social. A gente sempre escuta pra ajudar, quem tiver precisando de ajuda em uma feira, qualquer coisa. Aqui a gente não tem essa de quem é rico ou quem é pobre. Aqui todo mundo é igual, aqui a ideia de todo mundo vale”, conta <em>BZC</em>.</p>



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	                                        <p class="m-0">Diretoria da Inferno Coral na sede própria, perto do Arruda. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>O que diz o Ministério Público de Pernambuco</strong></h3>



<p>O Ministério Público, instituição apontada como inacessível pelos torcedores, aceitou responder os questionamentos da nossa reportagem. Quem concedeu entrevista, por telefone, foi o promotor José Bispo, da Promotoria de Justiça do Torcedor. Ele relembra que a Promotoria de Justiça do Torcedor foi criada porque se fazia necessário um órgão que tivesse condições de exercer o Estatuto do Torcedor. “Tomamos medidas de cunho cível, como a proibição das organizadas, após clamor público. Todos acharam que seria a solução e percebemos que a sociedade queria isso, e o MPPE, com a ajuda do Governo Paulo Câmara e a SDS-PE, o fizemos em 2020”&#8221;, explica José Bispo.</p>



<p>Ao ser perguntado se a exclusão do CNPJ das três maiores organizadas gerou efeito concreto na diminuição da violência e do porquê ainda existirem pessoas que dizem ser da TJF, TOIC OU TJS, visto que foram extintas, o promotor diz não entender “torcedores que ainda se dizem dessas entidades inexistentes”, e completa afirmando que os bons torcedores não sentem falta dessas torcidas, que, segundo ele, antes de serem dissolvidas, participavam de reuniões com o Ministério Público e demais órgãos.</p>



<p>O promotor também defende a eficácia das restrições impostas aos torcedores, não apenas aos organizados: Todo lugar requer regras de organização. Os maus torcedores arremessavam esses objetos no campo&#8221;, fala Bispo. Ele também completa, após ser questionado, que qualquer objeto arremessado no gramado rende punição. No caso, como prevê o Estatuto do Torcedor, prisão que varia de dois a seis anos.</p>



<p>A explicação dada por Bispo para o MP exigir do poder público o cadastramento biométrico dos torcedores organizados é de ordem financeira: “Em 2014, o Ministério dos Esportes ensaiou um plano para cadastrar todos de forma biométrica, mas não seguiu adiante pois chegou-se à conclusão que era muito caro”, informa o promotor, que também acrescenta que TJF, TOIC e TJS chegaram a enviar, antes da extinção, uma lista com seus membros associados para o Choque. O documento, segundos os policiais, não tinha nenhuma credibilidade.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>No Brasil existe um estádio com reconhecimento biométrico: a Arena da Baixada. O Athletico Paranaense arca com as despesas do equipamento para todo seu estádio de 40 mil lugares. O clube também conta com o apoio logístico do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR), Secretaria de Segurança Pública do Paraná (SESP), Instituto de Identificação do Paraná, Detran-PR e a Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná (Celepar). Palmeiras e Goiás também arcam com a identificação de torcedores em seus mandos, utilizando reconhecimento facial.</p></blockquote>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>E a Polícia Militar?</strong></h4>



<p>A reportagem também tentou contato com o Batalhão de Choque para obter respostas a questionamentos sobre indisponibilidade para diálogo com as organizadas e vários relatos de truculência nos estádios, mas não obteve, até o momento, nenhum retorno.</p>



<p><strong>*Jornalista</strong></p>



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