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	<title>Arquivos festa de são pedro - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Thu, 22 Feb 2024 13:56:41 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos festa de são pedro - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Aqui, todo mundo é rainha</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Jun 2021 15:51:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Layane Lima* As quadrilhas juninas, originalmente, foram narradas como um casamento fictício entre um noivo e uma noiva, comemorando a relação conjugal e religiosa de uma sexualidade heterossexual. Mas, apesar dos tantos desafios, as quadrilhas se transformaram em espaços de sociabilidade não só de grupos heterossexuais e cisgêneros, mas também de pessoas gays, transgêneras, travestis [&#8230;]</p>
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<p id="dda1"><em>Layane Lima</em>*</p>



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<p id="2197">As quadrilhas juninas, originalmente, foram narradas como um casamento fictício entre um noivo e uma noiva, comemorando a relação conjugal e religiosa de uma sexualidade heterossexual. Mas, apesar dos tantos desafios, as quadrilhas se transformaram em espaços de sociabilidade não só de grupos heterossexuais e cisgêneros, mas também de pessoas gays, transgêneras, travestis e outros grupos LGBTQIA+. Aqui, três mulheres, Cléo, Ranuzia e Nadine, falam sobre suas experiências nos grupos juninos — seus relatos mostram que toda tradição só se mantém relevante quando se abre também às mudanças do mundo.</p>



<h2 class="wp-block-heading">“<strong>A quadrilha junina representa liberdade&#8221;</strong></h2>



<p id="1fa7">Quadrilheira, produtora de eventos, atriz, rainha do milho e modelo plus size, Cléo Henry, de 41 anos, cresceu no bairro do Ibura, Recife, e sempre gostou de estar envolvida com grupos juninos — criança, entrou para a quadrilha mirim Cocota na Roça. A produtora já fez parte de conhecidos grupos juninos de Pernambuco, como o Origem Nordestina, Zabumba e Junina Tradição. Atualmente, faz parte da Quadrilha JuninaLumiar, campeã de concursos estaduais e regionais e pioneira entre os grupos pernambucanos a incorporar gays e mulheres trans dançando como damas.</p>



<p id="0b7d">Em 2001, participando de uma quadrilha no Sítio Trindade, um dos principais espaços para as atividades juninas do Recife, Cléo conheceu a quadrilha junina Lumiar e, em 2006, foi escolhida como a noiva do grupo, um posto importante dentro da quadrilha. O melhor estava por vir: naquele ano, Cléo obteve o título de melhor noiva de Pernambuco, sendo a primeira mulher transgênera a ganhar a premiação. A partir disso, ela fez outros papéis como noiva e ganhou competições a nível nacional.</p>



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	                                        <p class="m-0">Cléo foi a primeira mulher transgênera eleita como a melhor noiva de quadrilha do Estado, em 2006. Crédito: Arquivo Pessoal</p>
	                
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<p id="226f">A quadrilheira conta que sempre foi muito bem acolhida por todos os grupos que participou, mas no início, a maior dificuldade de aceitação foi dentro de casa. “Minha família não aceitava meu gênero. Mas hoje em dia, me aplaudem em qualquer palco, me amam mais ainda. Eu sempre tive respeito por todo mundo, e hoje sou igualmente respeitada”, relata. A modelo é uma das Divas Lumiar, e há todos os anos uma expectativa por seu figurino e performance. “É um hobby, um amor, e quando não se tem, sentimos falta dessa liberdade e de ter o carinho do público”.</p>



<p id="eee9">Para Cléo Henry, a quadrilha é muito mais que um espaço de inclusão, é também uma oportunidade para se profissionalizar. Foi através da quadrilha que ela se tornou uma das maiores produtoras de Pernambuco. “A quadrilha junina representa um ato de liberdade e expressão. O grupo junino hoje é de suma importância para esse agregar do movimento LGBTQIA+. Ele cativa, acolhe e profissionaliza as pessoas”, comenta.</p>



<h2 class="wp-block-heading">“<strong>Um espaço de denúncia”</strong></h2>



<p id="f415">Há 123 quilômetros de Cléo, na cidade de Caruaru, estão Ranuzia Netta e Nadine Nunes, duas mulheres militantes das Marcha Mundial das Mulheres e participantes da quadrilha Pulando as Fogueiras do Patriarcado. A primeira Marcha Mundial das Mulheres em Caruaru aconteceu em 2014.</p>



<p id="f228">A quadrilha Pulando as Fogueiras do Patriarcado (PFP) surge em 2017 com a ideia de aproveitar a festa que caracteriza Caruaru como o maior e melhor São João do Mundo (há quem diga que é em Campina Grande, mas isso é papo para outra hora…), e para protagonizar a luta das mulheres. “Se essa nossa luta é todos os dias, precisamos fazer deste espaço de festejo, um espaço de denúncia”, explicou a pedagoga Ranúzia Netta.</p>



<p id="dd8f">Ranúzia, 30, vem de uma família muito religiosa, e, quando era criança, participava de todas as festividades juninas. Foi por muito tempo “mascote” de uma quadrilha estilizada da cidade, mas, antes de entrar no grupo junino da Marcha, passou um bom período sem participar do São João: o conservadorismo latente do modus operandi das quadrilhas (a de Ranúzia era ligada a uma paróquia) passou a incomodá-la.</p>



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	                                        <p class="m-0">A festa da Marcha Mundial das Mulheres ocupa as ruas de Caruaru durante o período junino. Crédito: Arquivo Pessoal</p>
	                
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<p id="2a68">Assim, se roupas de São João são tipicamente caipiras, com mulheres usando vestidos coloridos e tranças no cabelo, na PFP elas possuem a liberdade de vestir com o que se identificam. “Não usamos apenas saias de chita, quem quiser pode ir com calça e blusa do movimento. A quadrilha é livre e aberta, respeitando a sexualidade e identidade de gênero das pessoas”, ressalta.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A quadrilha é de quem chegar</strong></h2>



<p id="ecc7">Foi através do grito de liberdade “estou na rua para lutar por um projeto colorido, antirracista e popular”, que a professora e escritora NadineNunes, 26, conheceu as meninas da Marcha, em 2017. Nadine conta que não gostava de falar sobre política, até descobrir através da Marcha que todo ato também pode ser político. “Fui entendendo que dava para fazer a revolução e seguir na luta também no acolhimento, levantando bandeira e dançando. É um espaço aberto para todos, todas e todes”, conta.</p>



<p id="85d2">Também vinda de uma família religiosa, Nadine teve uma criação evangélica e restrita, o que a impediu de realizar quando criança o sonho de se tornar rainha do milho. Ao falar sobre a quadrilha como espaço de agregação para o público LGBTQIA+, ela lembra que deixou de participar de muitas comemorações juninas — até que se aproximou da quadrilha da Marcha. “Depois disso todo mundo virou rainha. Foi o lugar em que eu pude entender de fato a dor do que é o patriarcado, como ele que confunde a gente, nosso gênero e sexualidade”. Para Nadine, a quadrilha é liberdade. “Temos espaço, podemos dançar com a nossa companheira sem sermos humilhadas, sem olhar torto, sem assédio e sem alguém para vir lhe perguntar quem é o homem da relação.”</p>



<p id="63a8">A professora acredita que o espaço e a liberdade da mulher, antes do pátio de dança, devem ser conquistados dentro de casa. “Nesse contexto de pandemia muitas mulheres estão em casa com abusadores e abusadoras. Quando eu fui para a primeira quadrilha feminista, estava em casa com a minha agressora. Com a quadrilha, eu consegui sair, eu consegui dançar. Como disse Paulo Gustavo ‘sorrir é um ato de resistência’”, conta.</p>



<p id="10cd">De acordo com o Instituto DataFolha, a violência contra a mulher durante a pandemia foi um dos fatores agravados pelo isolamento social. Uma a cada quatro mulheres foi vítima de algum tipo de violência durante o período e até então já são mais de 1.300 casos de <a href="https://www.meionorte.com/policia/feminicidio-marido-desfere-facadas-contra-esposa-e-foge-416072">feminicídio</a> no Brasil.</p>



<p><strong>LEIA MAIS</strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/palloma-e-o-caminho-da-festa/">Palloma e o caminho da festa</a></strong></p>



<p><a href="https://marcozero.org/quando-jhonatan-deixou-manu-brilhar/"><strong>Quando Jhonatan deixou Manu brilhar</strong></a></p>



<p><a href="https://marcozero.org/um-sao-joao-drag-queen/"><strong>Um São João drag queen</strong></a></p>



<p><strong>* Matéria produzida pelo projeto de extensão Reportagens Especiais do Observatório da Vida Agreste (OVA), parceiro da Marco Zero Conteúdo. O OVA está ligado ao Curso de Comunicação Social da UFPE/Centro Acadêmico do Agreste (CAA).</strong></p>
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		<item>
		<title>Palloma e o caminho da festa</title>
		<link>https://marcozero.org/palloma-e-o-caminho-da-festa/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Géssica Amorim]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Jun 2021 15:50:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Foi sob grande tensão que Palloma Sales, 22 anos, se apresentou como rainha da quadrilha junina Sanfonar, em 2013, nas festas de São João do município de Afogados da Ingazeira, no sertão de Pernambuco. Palloma é mulher transgênera e, na época, iniciava um processo de transição que lhe tornou possível a abertura para um caminho [&#8230;]</p>
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<p id="6eec">Foi sob grande tensão que Palloma Sales, 22 anos, se apresentou como rainha da quadrilha junina Sanfonar, em 2013, nas festas de São João do município de Afogados da Ingazeira, no sertão de Pernambuco. Palloma é mulher transgênera e, na época, iniciava um processo de transição que lhe tornou possível a abertura para um caminho de identificação e adequação que pode ser custoso, árduo, mas libertador. Era a primeira vez que a dançarina se apresentava ocupando o posto de rainha do grupo. A quadrilha, que até hoje tem Palloma como integrante e rainha, também fazia a sua estreia nas festas juninas do município.</p>



<p id="3863">A expectativa com relação à recepção e reação do público ao espetáculo preocupava Palloma e os seus colegas de dança. Imaginava-se que, talvez, as reações fossem negativas, hostis e que pudessem desestabilizá-la. No entanto, Palloma afirma que a apresentação surpreendeu a todos positivamente. “Na hora, passou um filme na minha cabeça. Existia a tensão, o medo, mas, ao mesmo tempo, eu sentia que era a hora de mostrar o meu trabalho, de mostrar para aquela população, para a sociedade, que nós, mulheres trans, nós, da comunidade LGBTQIA+, somos resistência. A gente é força, é luta. Foi melhor do que eu esperava. Hoje eu sou reconhecida como dançarina, na minha cidade. Essa estreia foi a minha melhor apresentação. Nos surpreendeu de forma positiva”.</p>



<p id="8843">Palloma Sales começou a dançar aos nove anos. Ela conta que, desde criança, sempre sonhou em assumir um dos postos máximos de uma quadrilha junina. “Eu usava saia, vestidos e sonhava em dançar na posição de rainha, mesmo”. Em 2013, Palloma realizou este sonho e também iniciou, por conta própria, aos 15 anos, um processo de transição hormonal. No ano passado, ela chegou a consultar uma endocrinologista, mas não conseguiu pagar pelo tratamento indicado pela profissional da área da saúde. “No comecinho de 2020 eu fui a uma endócrino. Eu tinha pouco conhecimento sobre o uso de hormônios e, quando comecei, foi por conta própria, mesmo. E hoje eu ainda continuo assim. Eu sei que isso pode prejudicar a minha saúde, mas não tive condições de comprar o que foi indicado pela médica”. Segundo Palloma, em média, os hormônios receitados pela endocrinologista custam entre 60 e 70 reais.</p>



<p id="cf72">Antes de iniciar o seu processo de transição, Palloma tinha medo do que poderia acontecer, caso decidisse fazer o contrário do que a sociedade lhe exigia — e ainda exige. Ela conta que o ano de sua estreia como rainha de quadrilha foi decisivo para o início das mudanças que ela pretendia realizar no seu corpo e na sua vida. “Aquele foi o ano em que eu me realizei, o ano em que eu me senti Palloma. Antes, eu ganhava roupas, ganhava acessórios, maquiagem, só que eu tinha medo de usar. Eu ia guardando, juntando. Eu também comprava e guardava. Depois, eu passei a usar tudo, a me vestir e andar como eu sempre quis”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Desde criança, a dançarina queria assumir o posto de rainha em uma quadrilha. Para sua alegria, conseguiu.. Crédito: Arquivo Pessoal</p>
	                
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<p id="7506">Em 2015, Palloma deu entrada num processo para a alteração do nome que antes constava na sua certidão de nascimento. Só em 2018 o nome que ela escolheu para registrar era oficial, acompanhado dos sobrenomes de sua família. Agora, em todos os seus documentos consta Palloma de Almeida Lima. O “Sales” ficou de fora. Por alguma razão, que Palloma não sabe dizer qual é, o nome não foi aceito pelo cartório.</p>



<p id="6243">Atualmente, Palloma trabalha como auxiliar de serviços gerais na prefeitura de Afogados da Ingazeira. Ela interrompeu os estudos depois de concluir o primeiro ano do ensino médio, mas pretende voltar a estudar quando a pandemia passar. Depois disso, Palloma irá procurar por um curso que lhe ajude a aprimorar as suas habilidades e o seu conhecimento sobre a dança.</p>



<p id="8721">Assim como em 2020, as apresentações de 2021 da quadrilha junina Sanfonar foram realizadas e transmitidas através de lives no canal que o grupo tem no YouTube. Palloma ocupa o posto de rainha mais uma vez.</p>



<p><strong>LEIA MAIS</strong></p>



<p><a href="https://marcozero.org/aqui-todo-mundo-e-rainha/"><strong>Aqui, todo mundo é rainha</strong></a></p>



<p><a href="https://marcozero.org/quando-jhonatan-deixou-manu-brilhar/"><strong>Quando Jhonatan deixou Manu brilhar</strong></a></p>



<p><a href="https://marcozero.org/um-sao-joao-drag-queen/"><strong>Um São João drag queen</strong></a></p>



<p><strong>* Matéria produzida pelo projeto de extensão Reportagens Especiais do Observatório da Vida Agreste (OVA), parceiro da Marco Zero Conteúdo. O OVA está ligado ao Curso de Comunicação Social da UFPE/Centro Acadêmico do Agreste (CAA). </strong></p>
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		<item>
		<title>Quando Jhonatan deixou Manu brilhar</title>
		<link>https://marcozero.org/quando-jhonatan-deixou-manu-brilhar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Jun 2021 15:50:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
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		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[pessoas trans]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Maria Souza* “Nas quadrilhas juninas eu sou quem sempre quis ser, uma mulher”, é assim que Manuelly Tavares, 25 anos, dançarina e costureira, descreve a importância vital da festa de São João em sua vida. Manu nasceu na zona rural de Surubim, cidade do Agreste de Pernambuco, a 118 quilômetros de Recife. Recentemente, foi morar [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>Maria Souza</em>*</p>



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<p>“Nas quadrilhas juninas eu sou quem sempre quis ser, uma mulher”, é assim que Manuelly Tavares, 25 anos, dançarina e costureira, descreve a importância vital da festa de São João em sua vida. Manu nasceu na zona rural de Surubim, cidade do Agreste de Pernambuco, a 118 quilômetros de Recife. Recentemente, foi morar com a mãe e os irmãos em Caruaru, um dos principais pólos juninos do Brasil. Além da mudança de cidade, Manu deu outro grande passo em sua vida: em 2020, começou a terapia hormonal que julgou necessária em sua transição e identificação e, depois de seis anos como quadrilheira, teve a oportunidade de se apresentar como dama. Até então, a dançarina só tinha participado das festas juninas como Jhonatan, mesmo se entendendo como uma mulher. Foi na Flor do Caruá, grupo junino de Caruaru, que Manu começou a vivenciar seu sonho: “coloquei o vestido, fiz uma maquiagem, botei aplique no cabelo. Nunca tinha dançado como Manu. Até então, só Jhonatan”.</p>



<p id="2c31">Os festejos juninos no Brasil constituem um campo de práticas que envolvem questões políticas, culturais, sociais e econômicas. É durante as quadrilhas, dança típica do mês junino, que muitos dançarinos conseguem socializar a própria identidade sexual. Quando estão se apresentando como damas, vivem e respiram um sonho sem o peso do preconceito nas costas. “Amo dançar. Faço isso desde 2014, mas antes não me sentia livre. Talvez porque não tinha a mentalidade que tenho hoje, em relação ao meu corpo, minha sexualidade, de entender quem eu sou. Dançar como sempre quis, como uma mulher, uma pessoa transexual”, diz Manu.</p>



<p id="b155">Como uma manifestação ancorada em um discurso que aciona constantemente a ideia de tradição e o heterocentrismo, as quadrilhas já foram um universo desafiante para pessoas LGBTQIA+. No entanto, para Dárcio Fernandes 23, coreógrafo de festivais juninos, as quadrilhas têm hoje um papel de acolhimento para esse público. “As quadrilhas estão oferecendo cada vez mais espaço para mostrarmos o que temos de melhor. Muitas vezes, sofremos com essas questões da sociedade, o preconceito enraizado. Os grupos juninos têm um acolhimento incrível, como uma família”.</p>



<p id="cbcf">Dárcio relembra que as quadrilhas e os grupos juninos assumiram um papel muito importante em sua vida, o de aceitação. “Tinha uma barreira que era grande. Sempre tive vontade de dançar como dama, mas algo me impedia de realizar esse sonho. Eu era muito aquele tipo de pessoa que se preocupava com o que as pessoas poderiam pensar ou falar. Nunca pensei em dançar de dama na minha cidade [Casinhas, Pernambuco], porque todos me conhecem e poderiam me olhar diferente.”</p>



<p id="cfda">Depois de ouvir coisas do tipo “a cidade não está preparada para isso”, Dárcio percebeu que não era exatamente Casinhas que precisava estar preparada para a visibilidade de gays e trans nas quadrilhas, mas sim o público que deveria entender que esses sujeitos sempre estiveram lá. “Já dancei como dama, cavalheiro, mas hoje me vejo muito mais como dama. Tem um trocadilho que meus amigos usam, o São João é trans, o São João transborda. Transborda de brilho, alegria, entusiasmo, de acolhimento.”</p>



<p id="121d">Eduardo Santos, 26, quadrilheiro desde criança, começou a dançar profissionalmente em 2019 ao lado do seu namorado Vinícius Bertocini, 23, educador físico. Ambos encontram nos festivais juninos um espaço para externar histórias, conquistas e anseios. “Hoje podemos ver muitos homens cisgêneros dançando como damas, além de pessoas transexuais, não é algo impactante. O público está entendendo esses espaços culturais como um meio de diversidade de pessoas LGBTQIA+”, pontua Eduardo.</p>



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	                                        <p class="m-0">Os namorados Vinícius e Eduardo se apresentam juntos em quadrilhas, mas não ainda como um casal. Crédito: Arquivo Pessoal</p>
	                
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<p id="7388">Apesar de perceber estas evoluções, Vinícius acredita que ainda existe um preconceito enraizado no meio junino. “Temos um certo receio de dançar juntos, como um casal, apesar da maioria das damas do ciclo juninos serem gays, travestis ou trans. Já interpretei vários personagens masculinos, inclusive Lampião, que é símbolo de virilidade, mas foi como dama que me senti aceito, como realmente sou”.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Pandemia e os festivais juninos</strong></h2>



<p>Com a pandemia da Covid-19, decretada em março de 2020 pela Organização Mundial da Saúde, os quadrilheiros, assim como toda a sociedade precisaram adaptar suas atividades. Já são dois anos sem as tradicionais festas juninas, que reúnem pessoas e todo o Brasil para celebrar a cultura e a diversidade. Com medidas rígidas de distanciamento físico e quarentena, quadrilheiros de todo o país, realizam até o fim deste mês arraiais totalmente digitais, com transmissão ao vivo (lives) no Instagram e Youtube. Dárcio Fernandes explica que foi uma maneira de se adaptar e manter viva a festa. “Mesmo sem ser presencial, com contato direto com o público, não deixamos a tradição parar.<strong>&#8220;</strong></p>



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<p><strong>* Matéria produzida pelo projeto de extensão Reportagens Especiais do Observatório da Vida Agreste (OVA), parceiro da Marco Zero Conteúdo. O OVA está ligado ao Curso de Comunicação Social da UFPE do Centro Acadêmico do Agreste (CAA).</strong></p>
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		<title>Um São João drag queen</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Jun 2021 15:49:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[festa de são joão]]></category>
		<category><![CDATA[festa de são pedro]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Cladisson* Berva Nascimento tem 24 anos e é uma das pessoas que fazem parte de transformações dentro das expressões culturais atualmente. Artista LGBTQIAP+, começou a dançar no ano de 2016 depois que foi convidado por um amigo para participar de uma quadrilha junina. Antes, assistia apresentações da dança no YouTube e Polo dos Brincantes, um [&#8230;]</p>
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<p><em>Cladisson</em>*</p>



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<p id="591a">Berva Nascimento tem 24 anos e é uma das pessoas que fazem parte de transformações dentro das expressões culturais atualmente. Artista LGBTQIAP+, começou a dançar no ano de 2016 depois que foi convidado por um amigo para participar de uma quadrilha junina. Antes, assistia apresentações da dança no YouTube e Polo dos Brincantes, um dos espaços que fazem parte da programação do São João em Caruaru, região Agreste de Pernambuco. “Sempre achei lindo. Mas o encanto e amor pela quadrilha foi logo após o convite”.</p>



<p id="d46c">Somente em 2018 recebeu o convite para dançar como dama na quadrilha Junina Luz do Candeeiro. Quando aceitou, lembra que recebeu muito apoio dos outros integrantes. Todos ficaram bem surpresos quando, no ensaio seguinte, já apareceu montada de Beatriz, sua drag queen. “Era o que eu me identificava mais: o luxo das damas, o close, a saia e tudo. Sempre fui apaixonado, porém nunca tive coragem e tinha muito medo de dançar [como dama], pois não sabia se a quadrilha deixaria”, lembra o brincante.</p>



<p id="86e9">Berva destaca a importância que o São João tem em sua vida, pois considera o momento mais esperado do ano. “Beatriz é o meu segundo eu e trazer ela no arraial é me sentir realizado em mostrar meu talento”. Nas redes sociais faz questão de demonstrar seu orgulho pela personagem: “Sou forte, sou guerreira e vou calar a boca de todos. Vão ter que aceitar uma drag sim. Uma drag linda, maquiada e cheirosa! Uma drag que já enfrentou a homofobia, que luta todos os dias contra isso! E saibam que eu nunca vou me calar! Eu sou muito forte sim!”, escreveu em uma das publicações.</p>



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	                                        <p class="m-0">Berva diz que já enfrentou a homofobia, mas não abre mão do espaço conquistado nas quadrilhas das festas juninas. Crédito: Arquivo Pessoal</p>
	                
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<p id="e96c">O jovem enfatiza que, na quadrilha, uma “drag queen sempre se comporta como uma dama com leveza, carisma e muito close!”. Percebe as mudanças que a cultura popular passa e considera muito importante a presença de pessoas LGBTQIAP+ nas quadrilhas: “as gays, trans, travestis e drags estão ocupando seus espaços nos arraiais”. Mais três drags e uma trans também fazem parte da equipe. Ele reconhece que sua participação como brincante o fez entender mais sobre si mesmo: “eu tinha que dançar como me sentia à vontade e foi daí que decidi dançar como dama, onde me identifiquei”.</p>



<p id="c195">O artista fala que já recebeu uns olhares estranhos do público enquanto dançava de drag, mas que foi sempre respeitado pelos componentes das duas quadrilhas que fez parte. Lembra também que antigamente, em Maceió, drag queens não podiam dançar como damas, apenas mulheres cis eram permitidas. “Mas isso já foi resolvido. Nunca tive problema com isso”.</p>



<p id="42a2">Sobre a presenças de pessoas LGBTQIAP+ na cultura popular e especificamente nas quadrilhas juninas, Berva acredita ser importante para mostrar ao público que “não devemos julgar ou opinar sobre algo ou alguém, mas sim respeitar que todos podem participar de qualquer coisa”.</p>



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<p><strong>* Matéria produzida pelo projeto de extensão Reportagens Especiais do Observatório da Vida Agreste (OVA), parceiro da Marco Zero Conteúdo. O OVA está ligado ao Curso de Comunicação Social da UFPE do Centro Acadêmico do Agreste (CAA).</strong></p>
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