Quadrilheira, produtora de eventos, atriz, rainha do milho e modelo plus size, Cléo Henry tem papel de destaque nas quadrilhas juninas há 15 anos. Crédito: Arquivo Pessoal

Layane Lima*

As quadrilhas juninas, originalmente, foram narradas como um casamento fictício entre um noivo e uma noiva, comemorando a relação conjugal e religiosa de uma sexualidade heterossexual. Mas, apesar dos tantos desafios, as quadrilhas se transformaram em espaços de sociabilidade não só de grupos heterossexuais e cisgêneros, mas também de pessoas gays, transgêneras, travestis e outros grupos LGBTQIA+. Aqui, três mulheres, Cléo, Ranuzia e Nadine, falam sobre suas experiências nos grupos juninos — seus relatos mostram que toda tradição só se mantém relevante quando se abre também às mudanças do mundo.

A quadrilha junina representa liberdade”

Quadrilheira, produtora de eventos, atriz, rainha do milho e modelo plus size, Cléo Henry, de 41 anos, cresceu no bairro do Ibura, Recife, e sempre gostou de estar envolvida com grupos juninos — criança, entrou para a quadrilha mirim Cocota na Roça. A produtora já fez parte de conhecidos grupos juninos de Pernambuco, como o Origem Nordestina, Zabumba e Junina Tradição. Atualmente, faz parte da Quadrilha JuninaLumiar, campeã de concursos estaduais e regionais e pioneira entre os grupos pernambucanos a incorporar gays e mulheres trans dançando como damas.

Em 2001, participando de uma quadrilha no Sítio Trindade, um dos principais espaços para as atividades juninas do Recife, Cléo conheceu a quadrilha junina Lumiar e, em 2006, foi escolhida como a noiva do grupo, um posto importante dentro da quadrilha. O melhor estava por vir: naquele ano, Cléo obteve o título de melhor noiva de Pernambuco, sendo a primeira mulher transgênera a ganhar a premiação. A partir disso, ela fez outros papéis como noiva e ganhou competições a nível nacional.

Cléo foi a primeira mulher transgênera eleita como a melhor noiva de quadrilha do Estado, em 2006. Crédito: Arquivo Pessoal

A quadrilheira conta que sempre foi muito bem acolhida por todos os grupos que participou, mas no início, a maior dificuldade de aceitação foi dentro de casa. “Minha família não aceitava meu gênero. Mas hoje em dia, me aplaudem em qualquer palco, me amam mais ainda. Eu sempre tive respeito por todo mundo, e hoje sou igualmente respeitada”, relata. A modelo é uma das Divas Lumiar, e há todos os anos uma expectativa por seu figurino e performance. “É um hobby, um amor, e quando não se tem, sentimos falta dessa liberdade e de ter o carinho do público”.

Para Cléo Henry, a quadrilha é muito mais que um espaço de inclusão, é também uma oportunidade para se profissionalizar. Foi através da quadrilha que ela se tornou uma das maiores produtoras de Pernambuco. “A quadrilha junina representa um ato de liberdade e expressão. O grupo junino hoje é de suma importância para esse agregar do movimento LGBTQIA+. Ele cativa, acolhe e profissionaliza as pessoas”, comenta.

Um espaço de denúncia”

Há 123 quilômetros de Cléo, na cidade de Caruaru, estão Ranuzia Netta e Nadine Nunes, duas mulheres militantes das Marcha Mundial das Mulheres e participantes da quadrilha Pulando as Fogueiras do Patriarcado. A primeira Marcha Mundial das Mulheres em Caruaru aconteceu em 2014.

A quadrilha Pulando as Fogueiras do Patriarcado (PFP) surge em 2017 com a ideia de aproveitar a festa que caracteriza Caruaru como o maior e melhor São João do Mundo (há quem diga que é em Campina Grande, mas isso é papo para outra hora…), e para protagonizar a luta das mulheres. “Se essa nossa luta é todos os dias, precisamos fazer deste espaço de festejo, um espaço de denúncia”, explicou a pedagoga Ranúzia Netta.

Ranúzia, 30, vem de uma família muito religiosa, e, quando era criança, participava de todas as festividades juninas. Foi por muito tempo “mascote” de uma quadrilha estilizada da cidade, mas, antes de entrar no grupo junino da Marcha, passou um bom período sem participar do São João: o conservadorismo latente do modus operandi das quadrilhas (a de Ranúzia era ligada a uma paróquia) passou a incomodá-la.

A festa da Marcha Mundial das Mulheres ocupa as ruas de Caruaru durante o período junino. Crédito: Arquivo Pessoal

Assim, se roupas de São João são tipicamente caipiras, com mulheres usando vestidos coloridos e tranças no cabelo, na PFP elas possuem a liberdade de vestir com o que se identificam. “Não usamos apenas saias de chita, quem quiser pode ir com calça e blusa do movimento. A quadrilha é livre e aberta, respeitando a sexualidade e identidade de gênero das pessoas”, ressalta.

A quadrilha é de quem chegar

Foi através do grito de liberdade “estou na rua para lutar por um projeto colorido, antirracista e popular”, que a professora e escritora NadineNunes, 26, conheceu as meninas da Marcha, em 2017. Nadine conta que não gostava de falar sobre política, até descobrir através da Marcha que todo ato também pode ser político. “Fui entendendo que dava para fazer a revolução e seguir na luta também no acolhimento, levantando bandeira e dançando. É um espaço aberto para todos, todas e todes”, conta.

Também vinda de uma família religiosa, Nadine teve uma criação evangélica e restrita, o que a impediu de realizar quando criança o sonho de se tornar rainha do milho. Ao falar sobre a quadrilha como espaço de agregação para o público LGBTQIA+, ela lembra que deixou de participar de muitas comemorações juninas — até que se aproximou da quadrilha da Marcha. “Depois disso todo mundo virou rainha. Foi o lugar em que eu pude entender de fato a dor do que é o patriarcado, como ele que confunde a gente, nosso gênero e sexualidade”. Para Nadine, a quadrilha é liberdade. “Temos espaço, podemos dançar com a nossa companheira sem sermos humilhadas, sem olhar torto, sem assédio e sem alguém para vir lhe perguntar quem é o homem da relação.”

A professora acredita que o espaço e a liberdade da mulher, antes do pátio de dança, devem ser conquistados dentro de casa. “Nesse contexto de pandemia muitas mulheres estão em casa com abusadores e abusadoras. Quando eu fui para a primeira quadrilha feminista, estava em casa com a minha agressora. Com a quadrilha, eu consegui sair, eu consegui dançar. Como disse Paulo Gustavo ‘sorrir é um ato de resistência’”, conta.

De acordo com o Instituto DataFolha, a violência contra a mulher durante a pandemia foi um dos fatores agravados pelo isolamento social. Uma a cada quatro mulheres foi vítima de algum tipo de violência durante o período e até então já são mais de 1.300 casos de feminicídio no Brasil.

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* Matéria produzida pelo projeto de extensão Reportagens Especiais do Observatório da Vida Agreste (OVA), parceiro da Marco Zero Conteúdo. O OVA está ligado ao Curso de Comunicação Social da UFPE/Centro Acadêmico do Agreste (CAA).