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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<item>
		<title>Haut: a ascensão e queda da construtora que prometia luxo e civilidade no Recife</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Jun 2025 19:23:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[Haut]]></category>
		<category><![CDATA[mercado imobiliario]]></category>
		<category><![CDATA[Recife]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A anestesiologista Anna Karla Arraes se preparava para entrar no centro cirúrgico quando recebeu uma ligação. Era urgente: vizinhos de uma obra da construtora Haut, no Poço da Panela, estavam cobrando uma resolução para as 31 piscinas cheias de água acumulada da chuva. O local estava abandonado há meses e os casos de dengue disparavam [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A anestesiologista Anna Karla Arraes se preparava para entrar no centro cirúrgico quando recebeu uma ligação. Era urgente: vizinhos de uma obra da construtora Haut, no Poço da Panela, estavam cobrando uma resolução para as 31 piscinas cheias de água acumulada da chuva. O local estava abandonado há meses e os casos de dengue disparavam no Recife. A vigilância ambiental do município já estava no local. “Como médica, eu sabia do perigo que era aquilo, ainda mais que na época estávamos na pandemia da covid-19”, contou Anna Karla à Marco Zero, em dezembro de 2024. Ela então fez diversas ligações para tentar achar um jeito de esvaziar as piscinas.</p>



<p>O estresse foi tão grande que Anna Karla acabou aquele dia na emergência do hospital em que trabalhava, com um pico de pressão alta.</p>



<p>Ao contrário do que possa parecer, Anna Karla nunca foi sócia, nem tampouco dona da Haut. Como dezenas de outras pessoas (leia depoimentos ao longo dos textos), ela se considera lesada pela empresa: investiu R$ 2 milhões para comprar uma das casas do condomínio Arbo, que deveria ter ficado pronto em 2022, mas nunca finalizado pela Haut. Com o sumiço da construtora, teve que assumir obrigações inesperadas, como as das piscinas.</p>



<p>Desde o ano passado, a Marco Zero conversou com mais de duas dezenas de pessoas sobre a Haut e sobre Thiago Monteiro, o fundador da construtora disruptiva que está deixando clientes sem imóveis, fornecedores sem pagamento, investidores imobiliários sem retorno e funcionários sem receber verbas de direitos trabalhistas. É uma teia complexa: a Haut atuou em campos diversos — construtora, incorporadora, hotelaria e no mercado de capitais –, mas em todos eles com inabilidade e, acreditam alguns, má fé.</p>



<p>Falar da Haut é também falar de um certo sonho de cidade. A Haut não queria ser uma construtora qualquer. “Dá para fazer diferente”, era um dos slogans que usava. Surgiu ambiciosa no final de 2016, apostando não só na beleza arrojada dos seus projetos arquitetônicos, mas em um conceito de integração radical entre as edificações e o ambiente urbano.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/cohaut01-1024x768.jpg" alt="A imagem mostra um espaço urbano arborizado e bem cuidado, com pessoas caminhando, andando de bicicleta e brincando. Em primeiro plano, há um caminho pavimentado de blocos intertravados, cercado por vegetação. À esquerda, há árvores grandes e frondosas que oferecem sombra. À direita, vê-se uma casa térrea de estilo antigo, com paredes claras, janelas com venezianas brancas e um telhado de duas águas. Mais ao fundo, há um edifício moderno de vários andares com sacadas repletas de plantas, contrastando com a casa antiga. No centro da imagem, um caminho de madeira leva ao interior do terreno, onde se vê mais vegetação, incluindo uma árvore com folhas longas e pendentes. Diversas pessoas estão presentes no ambiente: uma mulher empurrando uma bicicleta, crianças brincando de bicicleta e patinete, adultos conversando, e uma mulher caminhando com um cachorro. O clima é de tranquilidade e convivência comunitária ao ar livre." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">No Poço da Panela, o edifício co-haut 001 seria totalmente aberto, conectando duas ruas
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução/Haut</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">Ascensão meteórica</h2>



<p>No Recife, não é novidade construtoras que querem – e umas até conseguem – moldar a cidade.</p>



<p>Após o movimento Ocupe Estelita, em 2014, conceitos de urbanismo como gentileza urbana foram (re)incorporados ao vocabulário dos recifenses. Em uma metrópole que se acostumou a prédios reproduzidos em série com fachadas de pastilha cerâmica, muros altos e cercas elétricas, a Haut chegou como um sopro de civilidade e beleza em projetos com <em>halls</em> vazados que conectavam ruas e jardins que se estendiam para as calçadas.</p>



<p>Na faculdade de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde Thiago se formou em 2005, ele era considerado por professores voltados para o mercado imobiliário como um prodígio. O trabalho de conclusão de curso dele foi uma readequação do prédio do INSS, na Avenida Guararapes. Assim que se formou, foi contratado pela empresa do professor Roberto Montezuma, da UFPE, onde já fazia estágio.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/haut-incorporadora-de-luxo-quebrada-foi-vendida-para-engenheiro-por-apenas-r-200-mil/" class="titulo">Haut: incorporadora de luxo &#8220;quebrada&#8221; foi vendida para engenheiro por apenas R$ 200 mil</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/moradia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Moradia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>Em entrevista para a Marco Zero (leia mais adiante), Thiago Monteiro contou que a Haut nasceu de duas grandes inspirações: o museu Guggenheim, em Bilbao, na Espanha, e o trabalho do arquiteto e urbanista Jaime Lerner, que foi por três vezes prefeito de Curitiba. Ambos pela transformação visionária: Lerner com a “acupuntura urbana” no planejamento das cidades e o museu de Bilbao pelo impacto que uma única edificação pode gerar.</p>



<p>“Sempre acreditei na arquitetura como um instrumento de transformação urbana e humana muito grande”, disse Thiago à MZ. “Além de você comprometer aquela paisagem por 50, 100, 200 anos, existe um impacto muito grande de um edifício no tecido urbano. São mais carros e pessoas circulando. Uma sobrecarga na estrutura de esgoto, consumo de energia, lixo. Gera mais sombra, atrapalha a ventilação, tira a privacidade. Construir um prédio existe uma responsabilidade muito grande”, completou.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><span style="font-weight: 400;">O militar Marcelo Bione, morador de João Pessoa, define como “a pior possível” sua experiência com a Haut. “Conheci essa empresa em julho de 2020. Comprei uma unidade num prédio que seria construído em Boa Viagem. Seriam 36 meses de obras, com entrega programada para outubro de 2023. Daqui a pouco faz dois anos de atraso e a única coisa que a construtora fez foi demolir as edificações que tinham no terreno”, reclama. “Eu perguntava ‘quando é que a obra começa?’ e me enviavam cronogramas que não se concretizavam. Passei a acompanhar outras obras também e comecei a ficar preocupado: estava tudo atrasado”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi pelo instagram que ele conheceu a Haut. Logo se encantou pelas belas imagens dos projetos. “Era uma construtora que colocava muita coisa no Instagram, muita imagem bonita, que chamavam a atenção. Mas depois comecei a perceber que eram todas imagens renderizadas, ilustrativas. Uma construtora não vive de imagem bonitinha no Instagram. Vive de obra, cumprir o prazo e entrega. E eu comecei a ver que realmente ali não tinha condição”, diz. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2022, ele já havia pagado o valor de R$ 400 mil em um apartamento de 50 </span>m<sup>2</sup><span style="font-weight: 400;">. Decidiu fazer o distrato com a Haut, que concordou em devolver o valor com correção monetária em dez parcelas. “Só pagaram a primeira e depois não pagaram mais. Eu tive também informação de que assim foi feito com outros clientes”, alerta. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bione conta que depois soube por um advogado que o projeto do edifício nem havia sido aprovado pela prefeitura. “Era um prédio de estrutura metálica, não era uma alvenaria convencional e o projeto não foi aprovado. Ou seja, venderam sem nem ter essa licença de construção”, reclama. “Eu acho que tem muita gente enganada. Muita gente foi enganada por essa empresa, que passa longe de ser uma construtora séria”.</span></p>
        </div>
    </div>



<p>Para dentro das edificações, a intenção da Haut também era de integração. No Arbo, a área de serviços seria comum, com lavadoras e secadoras compartilhadas. No prédio do Poço da Panela, haveria um item de convivência em cada andar: sala de ginástica no primeiro, coworking no terceiro. Em todos, havia a idílica promessa de carros elétricos da BMW para uso compartilhado pelos condôminos.</p>



<p>Tudo isso era embalado em acabamentos de alto padrão. Nada do cafona porcelanato frio e brilhante. Ao invés de alvenaria, estruturas de metal ou concreto. Pias viriam da Alemanha, balcões seriam de mármore de Carrara. “Porque o novo luxo é muito mais sobre sentir-se único do que ser exclusivo”, dizia outro slogan da construtora.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Sinais do fracasso</h2>



<p>Ao contrário de lindos edifícios integrados à cidade, o legado da Haut para o Recife hoje é um rastro de carcaças, terrenos baldios e incontáveis reclamações de vizinhos sobre focos de dengue e depredações. Todos em bairros recifenses considerados nobres. A antiga sede da Haut no Poço da Panela – um casarão restaurado do século 19 onde, no mesmo terreno, foi erguido o prédio co-haut 001 –, está coberta por mato e o topo do edifício, como mostram as imagens de drone feitas pela MZ, acumula água parada.</p>



<p>No Pina, o esqueleto do que seria o prédio co-haut 003 chegou a ser depredado – e pode ser devolvido pela Justiça para os antigos donos. Na rua Ana Camelo Gomes, em Boa Viagem, uma casa foi demolida e o prédio de 14 andares prometido aos compradores não saiu do chão. O único ‘morador’ do Arbo foi um homem em situação de rua que passou algumas noites abrigado na construção abandonada, antes de ser expulso.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/53758430354_eda9f72dc8_c-300x169.jpg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/53758430354_eda9f72dc8_c.jpg" alt="A imagem mostra uma vista aérea de um prédio em construção. A construção ocupa a maior parte do centro da imagem e tem um formato retangular com um corredor estreito e sinuoso no meio, criando uma aparência quase labiríntica. A estrutura ainda está inacabada — é possível ver os blocos de concreto, as paredes sem acabamento e áreas abertas onde os andares ainda estão sendo erguidos. Ao redor do prédio, há bastante vegetação e árvores, especialmente do lado esquerdo e na parte inferior da imagem. À direita, há casas térreas com telhados de telha vermelha, sendo que uma delas tem uma piscina retangular de cor azul no quintal. Há também uma área de terra batida, com grama esparsa, como se fosse um quintal ou lote vazio. A cena mostra claramente o contraste entre a construção urbana e o ambiente residencial com natureza ao redor, evidenciando um espaço em transformação." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Piscinas do condomínio Arbo cheias de água parada em foto de maio de 2024
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Para muitos, o sonho da casa própria bonita, arrojada e sustentável está agora nas mãos da Justiça. No Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), são mais de 20 processos contra a empresa, de clientes e de fornecedores. Na Justiça do Trabalho, a Haut enfrenta 27 ações em tramitação ou arquivadas provisoriamente, espalhadas por 15 varas do Recife e de Olinda. Recentemente, o Ministério Público de Pernambuco instaurou um inquérito civil para apurar eventuais violações ao Código de Defesa do Consumidor pela Haut. </p>



<p>Famílias também foram destroçadas: uma mulher passou o único bem, o apartamento onde a família morava, como sinal para a compra de um imóvel da Haut. Hoje, mora de aluguel e viu sua família se dividir. Envergonhada, preferiu não ter seu nome nessa reportagem.</p>



<p>Terrenistas – pessoas que permutam o terreno e recebem unidades dos empreendimentos – estão pagando pelo que deveria ser uma troca ou entrando na Justiça para desfazer o contrato com a Haut.</p>



<p>Até o ano passado, quando a MZ começou a apurar essa reportagem, muitos clientes preferiam não falar sobre a derrocada da Haut. A esperança era que a empresa conseguiria financiamento e terminar as obras, ainda que todas as construções da Haut estivessem paradas desde, pelo menos, 2023. Temiam que notícias sobre a paralisação dos empreendimentos prejudicasse as vendas, afastasse investidores, e, consequentemente, a retomada das obras.</p>



<p>Mas em março veio um sinal de alerta: Thiago Monteiro, então único sócio, vendeu a Haut para uma única pessoa, Marcelo Brandão, um engenheiro de classe média, que já admite ter comprado uma “empresa quebrada”. <strong><a href="https://marcozero.org/haut-incorporadora-de-luxo-quebrada-foi-vendida-para-engenheiro-por-apenas-r-200-mil/">Clique aqui para ler mais detalhes sobre essa operação.</a> </strong></p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><span style="font-weight: 400;">A servidora pública Renata Ferraz fechou negócio com a Haut em 2021, no escritório no empresarial JCPM. “A estrutura era linda. Logo na entrada tinha um café, com um balcão bem bonito, e havia um modelo do apartamento lá dentro, de como ele iria ficar quando fosse entregue”, conta ela, que comprou um flat no co-haut 003, no Pina. “Prometiam um monte de diferenciais: que iam colocar carros elétricos compartilhados, da BMW. Mas isso não existia no contrato”, lembra. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Renata Ferraz se diz enganada pela Haut, “vítima de um golpe”. Isso porque na hora da venda não foi informada que o edifício não tinha as devidas licenças para ser construído. “Quando eu questionava os atrasos, falavam que faltava o memorial e outras documentações. A Haut não foi clara sobre isso na hora da venda. Se eles não estavam com toda a documentação, como é que já estavam lançando o empreendimento? Marcelo Brandão me disse que o cohaut-003 não tinha participação da CVPar, mas tinha uma placa dessa investidora na frente do cohaut-003”, questiona Renata. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Renata pagou R$ 280 mil e o apartamento já está quitado. “Comprei para investimento. E foi um investimento que foi por água abaixo”, lamenta. </span></p>
        </div>
    </div>



<h3 class="wp-block-heading">Ostentação e convencimento</h3>



<p>Quem chegava nos primeiros anos da Haut ao nono andar do empresarial JCPM, se deparava com uma vista fabulosa do mar da bacia do Pina. O atendimento no então escritório da construtora era personalíssimo. Muitas vezes, os projetos eram apresentados para pequenos grupos de clientes – como médicos e advogados – ou até um a um. Com clientes que gastavam milhões, o próprio Thiago Monteiro fazia a apresentação.</p>



<p>Um cliente, que pediu para não ter seu nome divulgado, contou que esteve em uma reunião que foi um almoço completo: entrada, prato principal e sobremesa. “Havia qualquer bebida alcoólica que você quisesse”, contou. A recepção do escritório era uma bancada, com um <em>chef</em> de cozinha atendendo aos clientes, ora como uma cafeteria, ora como um buffet.</p>



<p>Em um tema, todos os ouvidos pela Marco Zero nesta reportagem são unânimes: Thiago Monteiro tem uma personalidade magnética. Bonito e bem articulado, ele falava dos seus projetos com encantamento e confiança. Genial foi um termo que apareceu com recorrência quando compradores de imóveis da Haut falavam das ideias de Thiago sobre arquitetura.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/54593186038_f49a897a2a_c.jpg" alt="A imagem mostra a parte superior de um prédio alto e robusto, feito de concreto aparente, com janelas de vidro escuro. No topo, há uma superfície que reflete o céu, possivelmente um reservatório ou laje molhada. Em destaque, está escrita a palavra “HAUT” em letras brancas. A fachada exibe sinais de desgaste e sujeira, dando um aspecto envelhecido à construção. Ao fundo, vê-se uma grande cidade com muitos prédios altos. O céu está azul com nuvens esparsas e a luz do sol cria sombras suaves, sugerindo fim de tarde." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Obra do co-haut 001 estava na metade quando foi abandonada
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Duas pessoas, em entrevistas distintas, fizeram o seguinte comentário sobre ele: “Sabe o encantador de serpentes? Thiago Monteiro é um encantador de pessoas”.</p>



<p>O ex-dono da Haut também marcava presença em grupos de gestores, como o Lide Pernambuco. Na imprensa, a Haut era incensada como a uma construtora que iria reinventar o mercado imobiliário do Recife, adepta de um novo luxo discreto e sofisticado. Em uma entrevista para uma revista recifense em janeiro de 2017, quatro meses após o lançamento da Haut, Thiago Monteiro dizia que não queria ser apenas mais um no mercado imobiliário. “O meu objetivo sempre foi contribuir positivamente à vida das pessoas e da cidade. E é exatamente isso que a Haut vai proporcionar: para o alto e além”, disse, na entrevista.</p>



<p>Thiago levava um estilo de vida nada discreto. Em conversa reservada com a reportagem, um corretor de imóveis lembrou de um evento do mercado imobiliário em que Thiago Monteiro chegou dirigindo uma SUV da fabricante alemã Porsche, um modelo exclusivo e imponente, segundo o profissional. “Era uma ostentação. Um carro que custava coisa de R$ 1 milhão”, recordou. Thiago viajava com frequência. É entendido não só de arquitetura, como de artes e cultura em geral. “É um homem bastante culto. Sabe conversar”, disse um conhecido dele, também em reserva.</p>



<p>Cria da zona sul, Thiago Monteiro passou a morar em uma cobertura duplex com 600 m2 e piscina privativa no edifício Bétula, na Avenida Boa Viagem. Decorado no mesmo estilo contemporâneo dos projetos que assina, o apartamento ficou à venda no ano passado por R$ 4,7 milhões. Agora, já está por R$ 8,2 milhões. O imóvel está registrado em nome da Haut.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/cohaut003imagemrender-1024x570.png" alt="A imagem mostra a fachada de um edifício moderno, com varandas cheias de plantas e estrutura em madeira clara. No térreo, há um espaço envidraçado com pessoas sentadas, sugerindo um café ou área de convivência. A calçada é larga e arborizada, com bancos, árvores e vegetação abundante. Diversas pessoas estão presentes: algumas passeiam, outras conversam ou caminham com crianças e cães. O ambiente transmite uma sensação de urbanismo acolhedor e sustentável. Na entrada, uma placa identifica o local como “CO-HAUT 003”. O cenário é vibrante, acessível e voltado à comunidade." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Imagem ilustrativa de como ficaria fachada do edifício no Pina
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução/Haut</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	

	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Hotel pede de volta esqueleto de prédio</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">Entre as várias ações contra a Haut na Justiça, uma delas chama atenção pelo efeito cascata que pode provocar. A Acary Hotelaria cedeu para a Haut o esqueleto de um hotel no Pina, zona sul do Recife, que teve a construção paralisada em 2023. Foi um contrato de permuta, no qual a Haut iria terminar a obra – que não mais seria um hotel, mas um prédio com pequenos apartamentos – e repassaria muitas das unidades para a Acary. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A Haut não chegou nem perto de concluir a obra na rua Vicência. Com isso, a Acary pediu o imóvel de volta, já que a Haut não cumpriu com sua parte do contrato. É uma ação avaliada em R$ 28 milhões. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No começo de junho, o escritório de advocacia da Haut pediu que esse processo tramitasse em segredo de Justiça, alegando que “versa sobre direito à imagem comercial e contém documentos protegidos por sigilo comercial” e que a “a publicidade irrestrita aos atos processuais (&#8230;) causará danos irreparáveis à imagem empresarial” da Haut, prejudicando “sobremaneira os esforços de reestruturação societária e recuperação dos empreendimentos em curso”. O texto também afirma que a Haut está com novo sócio “comprometido com a retomada de projetos”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Até a última vez que a Marco Zero acessou o processo, também no começo de junho, não havia ainda decisão sobre o segredo de Justiça. No processo que o condomínio Arbo ajuizou contra a Haut o escritório também pediu sigilo, o que foi negado. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra ação na Justiça com efeito cascata é de um condomínio de 18 casas em um loteamento de luxo na praia de Serrambi, no litoral sul. A associação do loteamento entrou na Justiça ainda em 2019 para impedir a Haut de construir as unidades lá, alegando que em cada lote só era permitido um imóvel unifamiliar. Só neste ano saiu a sentença com força de mandado, ainda em primeira instância, que impede a Haut de construir no local – e, caso já tenha construído, terá que demolir. Há ações na Justiça de clientes que compraram unidades no Imerso, como o condomínio foi chamado, pediram distrato e não receberam os valores. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O ramo da hotelaria sempre foi uma ambição para a Haut. Thiago Monteiro é – ou era – sócio da hotelaria Raiz do Brasil, que tem empreendimentos de sucesso, como os hotéis boutique Pedras do Patacho e Casa Brasileira, no litoral alagoano, de frente para o mar quente e verde da praia do Patacho. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em agosto de 2020, ele anunciou na sede da prefeitura do Recife, ao lado do então prefeito Geraldo Júlio, investimentos de R$ 46 milhões e geração de 240 empregos diretos e indiretos para a construção do Haut Hotel Boutique &amp; Experience, no Segundo Jardim do bairro de Boa Viagem. O projeto de hotel foi abortado, virou um edifício de apartamentos e a obra parou ainda nas bases da edificação. </span></p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">A Haut começa a ruir</h3>



<p>“Você acha que muita gente comprou os apartamentos da Haut sem nem fazer conta, por quê? Os projetos eram sensacionais. Ele cobrava o preço de mercado, mas os materiais que ele colocava para esses projetos encareciam muito a obra e não dava para pagar com o que ele cobrava. Havia projetos de apartamentos com piscina na varanda. Não pode ser daquele jeito, a prefeitura não aprova o projeto. Mas ele colocava mesmo assim”, contou o mesmo corretor que mencionou a SUV Porsche. &#8220;Teve corretor que mudou de profissão depois de trabalhar para a Haut. Imagina toda a tua carteira de cliente investindo num produto que nunca recebeu?”.</p>



<p>No mercado imobiliário, o burburinho de que a Haut não andava bem das pernas começou ainda em setembro de 2022. A construtora ficou três meses sem pagar aluguel e o empresarial JCPM acionou a Justiça. A sentença de despejo contra a Haut se espalhou em grupos de WhatsApp – o processo foi arquivado após a construtora quitar a dívida e se mudar para o casarão restaurado no mesmo terreno do co-haut 001, na rua do Chacon.</p>



<p>A Haut apresentou pelo menos 11 empreendimentos ao mercado imobiliário. Apenas três foram entregues nesses quase nove anos de existência. Um em João Pessoa, um prédio de esquina em um terreno de 500m2, o condomínio Marée, em Serrambi, e o loft BRMX, que foi finalizado por outra construtora.</p>



<p>A Haut era uma empresa ansiosa, que atropelava etapas. Anunciou pelo menos sete empreendimentos no Recife em um espaço de quatro anos, antes de ter concluído sequer um único prédio na capital. Em 2020, chegou a divulgar no <a href="https://hautco.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">site dela</a> um empreendimento no Recife Antigo usando a foto de um terreno que ainda estava em negociações. Teve que fazer um post se retratando.</p>



<p>Em meados de 2023, a conta do instagram da Haut restringiu os comentários. Havia uma tentativa de ainda manter a imagem da construtora. Ainda hoje, quando há comentários contrários à empresa, várias pessoas aparecem para defender Thiago Monteiro e a Haut. Inclusive dentro do próprio grupo de WhatsApp de compradores da Haut.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/54594418109_38d0583953_c.jpg" alt="A foto mostra um prédio alto e inacabado, visto de cima por um drone, localizado em uma área urbana próxima à praia. A construção tem cerca de dez andares, com a estrutura de concreto exposta, sem janelas ou acabamentos, e um grande cilindro vertical de concreto ao centro, provavelmente o poço do elevador. Há uma tela laranja de proteção ao redor do topo da obra. Ao redor do prédio, há outros edifícios altos, modernos e finalizados, formando uma paisagem urbana densa. À esquerda, uma avenida movimentada com carros e calçadas largas acompanha a linha de prédios. Ao fundo, vê-se o mar azul e uma faixa de areia clara com algumas árvores, indicando proximidade com a orla. O contraste entre o prédio em obras e os arranha-céus modernos evidencia a transição ou abandono daquela estrutura." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Acary Hotelaria tenta recuperar na Justiça imóvel onde seria o co-haut 003
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>“Existe uma tropa de choque que fica dando sustentabilidade ao Thiago nas redes sociais, dizendo que ele é uma pessoa incrível, que ele é um vanguardista, que ele mudou todo o mercado imobiliário na região Nordeste”, comenta o advogado e mestre em Direito Constitucional Ygor Werner de Oliveira, que atua em processos contra a empresa. “São pessoas vinculadas à Haut, de alguma forma: quando você vai ver os perfis, são sempre arquitetos, pessoas da área comercial, pessoas que trabalham com imóveis”, aponta.</p>



<p>Recentemente, até a possibilidade de execução dos belos projetos da Haut tem sido questionada. Tentando levantar os papéis do condomínio Arbo, a síndica Anna Karla descobriu que o imóvel que havia comprado era menor do que estava no contrato. “O projeto apresentado aos clientes era um, o aprovado na prefeitura era outro e o que efetivamente era levado para o canteiro de obras era ainda diferente. O meu imóvel mesmo perdeu muitos metros quadrados entre esses projetos”, conta. Em outra construção, o co-haut 001, uma estrutura que seria de aço foi trocada por alvenaria, por conta do custo.</p>



<p>Clientes ouvidos pela reportagem estranharam o motivo de nenhuma obra da Haut ter sido adesivada como embargada. A Marco Zero entrou em contato com a prefeitura do Recife para saber sobre a licença de construção de alguns imóveis da Haut e para saber se, ao longo dos anos de funcionamento da construtora, foi aberto algum processo administrativo ou há alguma fiscalização em andamento contra a Haut por irregularidades construtivas ou de licenciamento. Ainda não recebemos resposta.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Confusão entre CNPJ e CPF?</strong></h3>



<p>Há dois anos, uma primeira cliente da Haut procurou o advogado Ygor Werner de Oliveira. “De lá pra cá esse sentimento de desconfiança em relação à Haut foi aumentando e se alastrando”, conta Werner, que chegou a ser contactado por aproximadamente 15 clientes da construtora preocupados com os atrasos nas obras.</p>



<p>Mas, para o advogado, o cenário mudou e está muito bem delineado: não se trata mais de obras em atraso, mas de contratos não cumpridos. “A inexecução decorreu unicamente de um comportamento negligente, omisso e irresponsável perpetrado pela Haut. Todos os clientes quitaram seus contratos. Incrivelmente, muitos clientes compraram esses imóveis à vista, muitos compraram mais de uma unidade dentro do mesmo prédio. O prejuízo financeiro é altíssimo”, comenta.</p>



<p>O advogado vai além. “É importante que seja dito que Thiago Monteiro já tinha uma noção da inexecução desses contratos há um certo tempo e continuou vendendo esses imóveis. Muitos desses imóveis sequer possuíam os documentos mínimos necessários para que fossem comercializados, como o memorial de incorporação, documentos basilares para que qualquer empreendimento seja devidamente construído ou comercializado”, diz o advogado.</p>



<p>“Thiago Monteiro já sabia que esses dois empreendimentos – o co-haut 002 e o co-haut 003 &#8211; não poderiam ser executados. Mas ele continuou se locupletando (enriquecendo) com essas vendas, mesmo sabendo que essas obras não seriam entregues aos compradores”, denuncia. “Por isso, de um tempo pra cá, estamos também considerando a possibilidade de estelionato. Ou seja, não é somente uma situação de inexecução contratual é possivelmente também uma situação de estelionato, porque subjetivamente ele já sabia que não era possível executar essas obras e continuou comercializando unidades e induzindo compradores ao erro”, explica o advogado.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/54593283845_acee8995a1_c.jpg" alt="A foto mostra uma casa térrea, simples e de aparência antiga, com paredes brancas, janelas com venezianas brancas e telhado de telhas vermelhas. A casa está parcialmente encoberta por vegetação alta e densa, com arbustos e árvores ao redor, dando a impressão de abandono ou pouca manutenção do terreno. À direita, próximo ao solo, há uma placa informativa com texto e imagem, indicando que pode haver um projeto em desenvolvimento para o local. Ao fundo, parcialmente visível por trás das árvores, aparece um edifício moderno de vários andares com fachada de vidro e madeira clara, contrastando fortemente com a casa antiga em primeiro plano." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Antiga sede da Haut no Poço da Panela está abandonada
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
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<p>Ygor Werner contou que conversou com pessoas próximas de Thiago Monteiro. “E muitos falaram do estilo de vida nababesco que ele possui, ou possuía. Um altíssimo padrão de vida, com um comportamento de ostentação”, conta. “E muito desse declínio da Haut talvez se deva a isso: uma pessoa que confundiu o patrimônio da pessoa jurídica com o patrimônio pessoal. E que tinha um estilo de vida extremamente, digamos, peculiar”.</p>



<p>Apesar de ter vendido a empresa em março deste ano, Thiago ainda pode ser responsabilizado civilmente e criminalmente pela Haut. “Existe um prazo de responsabilidade prevista pelo Código Civil e ele vai permanecer pelos próximos anos ainda solidariamente responsável por todos os problemas gerados em razão dessas inexecuções contratuais. O patrimônio pessoal dele também pode ser revertido para a quitação dessas dívidas. E não só ele. Se eventualmente a Justiça entender que a Haut faz parte de um grupo econômico, então as outras empresas pertencentes ao grupo também podem responder solidariamente”, diz o advogado.</p>



<p>Para ele, a saída de Thiago Monteiro da Haut foi justamente para evitar a ocorrência da figura de grupo econômico. “Isso geraria um flanco para que outras empresas ligadas a ele pudessem ser também responsabilizadas por essa dívida da Haut. Uma dessas empresas é o Hotel Pedras do Patacho, um patrimônio altamente rentável”, acredita.</p>



<p>Para recuperar o valor investido pelos clientes, Werner de Oliveira aponta não só a judicialização, mas tratativas administrativas. “Haja vista que existe, talvez, a figura de um novo investidor. Estamos vendo como é que ele [o novo dono, Marcelo Brandão] vai proceder em relação a esses adquirentes que foram lesados”, diz.</p>



<p>Em uma decisão de maio deste ano, o juiz Marcos Garcez de Menezes Júnior determinou a indisponibilidade dos bens da Haut. “(…) há claro risco de dilapidação do patrimônio pelos réus. Demais disso, foram apresentados contundentes indícios de que a primeira demandada (Haut) está em situação de franca insolvência, possuindo contra si diversas ações judiciais nas quais se questiona o inadimplemento contratual da Haut em relação a obrigações financeiras assumidas perante sócios da empresa, prestadores de serviços, o Município do Recife, dentre outros”, dizia um trecho da sentença, ainda em primeira instância, assim como quase todos os processos contra a construtora.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Ministério Público de Pernambuco instaura inquérito contra a Haut por violação a direitos do consumidor</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">Após a denúncia de um dos compradores de um apartamento da Haut, o Ministério Público de Pernambuco (MPP) instaurou no dia 27 de maio um inquérito civil contra a empresa. O objetivo é investigar supostas práticas abusivas e ilícitos relacionados à paralisação de obras, a falta de comunicação com consumidores e a não devolução de valores. A investigação busca apurar a responsabilidade da empresa e dos sócios, antigos e atuais, além de verificar a regularidade dos empreendimentos e a aplicação do Código de Defesa do Consumidor. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O MPPE busca esclarecer a regularidade dos empreendimentos, seus licenciamentos e possíveis implicações criminais envolvendo a Haut. O MPPE também intimou Thiago Monteiro e o novo dono Marcelo Brandão a prestarem esclarecimentos sobre a venda da empresa e suas condições contratuais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como parte das diligências iniciais, o Ministério Público notificou a Haut para que a empresa detalhe os motivos da paralisação das obras, indique os empreendimentos e seus estágios atuais, e apresente um cronograma atualizado para retomada e conclusão. A empresa também deve apresentar um plano concreto de devolução de valores aos consumidores que não desejarem a continuidade do contrato, caso a conclusão das obras se mostre inviável.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, o MPPE solicitou as seguintes informações aos órgãos abaixo: </span></p>
<ul>
<li><span style="font-weight: 400;">Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Pernambuco (CREA-PE) e Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU/PE): devem informar ao MPPE se há registro de projetos vinculados aos empreendimentos da Haut e se estes estão regulares.</span></li>
<li><span style="font-weight: 400;">Prefeitura Municipal do Recife (e outros municípios): devem informar se os empreendimentos possuem alvarás de construção vigentes, certidões de regularidade e eventuais registros de autuações, embargos ou interdições.</span></li>
<li><span style="font-weight: 400;">Receita Federal do Brasil e JUCEPE: devem encaminhar as informações cadastrais atualizadas da empresa e de seus sócios, tanto os atuais quanto os anteriores.</span></li>
</ul>
<p><span style="font-weight: 400;">A apuração está sendo conduzida pelo promotor de Justiça Maviael de Souza Silva, da </span><span style="font-weight: 400;">16ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania da Capital.</span></p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">Fundador da Haut acredita na reestruturação da empresa</h3>



<p>Era a tarde de uma terça-feira quando a Marco Zero entrou em contato com Thiago Monteiro. Ele respondeu de pronto e já agendou a entrevista para o dia seguinte, online. Estava em São Paulo, onde está morando. Na entrevista por vídeo, Thiago foi assertivo ao admitir erros e fracassos. Disse que não houve má fé, mas má gestão.</p>



<p>“Não é fácil dentro da confusão você parar e melhorar a comunicação com os clientes, por exemplo. Foi um erro nosso”, disse.</p>



<p>Antes de fundar a Haut em outubro de 2016 com apenas R$ 500 mil e três funcionários, Thiago era sócio da construtora MaxPlural. Diz que saiu porque sentia que seus projetos eram tolhidos para ficarem mais comerciais. “E eu queria ir para o mercado de luxo porque eu enxergava nele uma vitrine necessária para que as pessoas pudessem entender do que a arquitetura é capaz. O luxo nunca foi uma intenção. Sempre foi um meio para que os projetos e empreendimentos da Haut tivessem visibilidade”, conta.</p>



<p>Pela câmara, Thiago mostrou na mão uma pequena tatuagem com o logo da Haut. Diz que a empresa era mais que um sonho, era seu filho. Para Thiago, não tinha quem passasse sem reação pelos projetos da Haut. “Tem quem não gosta. Detona. Acha legal. Acha importante. Acha estranho. Acha ruim. Acha improvável. Seja lá o que for, as pessoas conhecem a Haut”, acredita. “A arquitetura do Recife perdeu a autoralidade. Tudo é muito padronizado. Tanto do alto luxo, quanto do Minha Casa, Minha Vida. Recife foi muito doutrinada na cartilha da Encol, um modelo industrializado de construção”, critica.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><span style="font-weight: 400;">A médica Anna Sady comprou um apartamento de 31,3 metros quadrados no prédio Co-haut 001, no Poço da Panela. Pagou à vista R$239.760,00. “Comprei para morar, quando estiver mais velha. O projeto é de um flat, mas com muitas áreas coletivas. Tive a impressão que não iria ficar muito tempo sozinha”, afirmou para MZ. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na época, o valor não era diferente das concorrentes, mas a Haut tinha várias vantagens. “A proposta era diferente, para mim. Era uma área integrada ao meio ambiente. Vai de uma rua a outra sem muros, com lojas, coworking, etc. E em cada andar tem uma área comum: lavanderia, ginástica, cozinha, TV, etc”, relembra. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2023, ela notou que nada ia bem. “Mas Thiago Monteiro em nenhum momento falou ou notificou que não estava bem financeiramente. Diz na imprensa que vendeu a Haut, mas para mim isso não está claro. No (CNPJ) do prédio ele ainda é sócio. Ele vendeu só a incorporadora e continua sócio nos empreendimentos individuais? Não sei. Nada foi dito por ele e muito menos pelo Marcelo Brandão. O projeto é bom, mas são péssimos executores e extremamente desrespeitosos e descompromissados”, diz.</span></p>
        </div>
    </div>



<p>A precificação dos imóveis abaixo do que deveria cobrir todos os custos e a pandemia são apontadas por ele como fatores de desestabilização da Haut. “O aço aumentou em 86% na pandemia. O Arbo e o Co-haut 001 eram obras em estrutura metálica. Tem todo aquele trauma (dos compradores), mas no contrato tem uma cláusula também que fala de força maior, uma tempestade, um furacão, um terremoto. Não tem como achar que acabou o lockdown e a vida voltou ao normal”, justifica.</p>



<p>Outro fator que Thiago Monteiro credita ao abandono das obras é um boicote do mercado imobiliário contra a Haut. “Desde 2023, a Haut não consegue vender um único apartamento”, afirma. “A Haut nunca teve muita facilidade de vender. É uma empresa que já nasceu com sua credibilidade colocada em risco. Será que essa conta fecha? Será que não é inovador demais? Sempre foi difícil vender os empreendimentos, até porque a empresa é muito jovem. A empresa começou sem caixa”, diz.</p>



<p>Para driblar essa credibilidade em risco e a falta de caixa, Thiago Monteiro diz que apostou no escritório do JCPM. O local foi pensado para ser um chamariz para os clientes. “Eu precisava criar um ambiente em que as pessoas entendessem minimamente o que a gente é, colocar um impacto da vista. Eu precisei me apoiar nisso inicialmente para garantir o mínimo de credibilidade. O JCPM não aceita qualquer empreendimento lá. Existe um certo filtro. Então a minha estratégia foi que estar naquele ambiente seria um estimulador nas vendas, passaria essa credibilidade”, confessa.</p>



<p>Diz que os dois <em>chefs</em> de cozinha contratados pela Haut – e que tanto impactou clientes ouvidos nesta reportagem – recebiam um salário mínimo – que depois subiu para um salário e meio – e que vieram do Senac. “A questão não estava nos chefes de cozinha. A questão estava na inovação de criar uma cozinha no lugar da recepção”, diz.</p>



<p>Mas o plano do JCPM foi um fracasso. Thiago diz que a falta de pagamento do aluguel foi por conta de uma troca de funcionários.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:44% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="822" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/SnapInsta.to_72648045_168552384332899_5319225879891416301_n-1-822x1024.jpg" alt="" class="wp-image-71314 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/SnapInsta.to_72648045_168552384332899_5319225879891416301_n-1-822x1024.jpg 822w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/SnapInsta.to_72648045_168552384332899_5319225879891416301_n-1-241x300.jpg 241w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/SnapInsta.to_72648045_168552384332899_5319225879891416301_n-1-768x957.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/SnapInsta.to_72648045_168552384332899_5319225879891416301_n-1-150x187.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/SnapInsta.to_72648045_168552384332899_5319225879891416301_n-1.jpg 1080w" sizes="(max-width: 822px) 100vw, 822px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>“Muitas empresas passam por situações de aperto, mas ninguém fica encaminhando (processo) em grupo de WhatsApp. A Haut sempre foi um objeto de muito olhar, de muita crítica, de muita gente acompanhando de perto. Quando isso veio (o despejo) tornou as coisas mais difíceis”, diz, com certa mágoa.</p>



<p>Outra tentativa de reestruturação que Thiago cita veio em março de 2022 com a entrada da Haut no mercado de capitais em 2022. Também não deu certo <strong>(<a href="https://marcozero.org/haut-incorporadora-de-luxo-quebrada-foi-vendida-para-engenheiro-por-apenas-r-200-mil/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">leia aqui)</a></strong>.</p>
</div></div>



<p>Sem vender, em 2023 a Haut parou de construir. “Deixamos de ser construtores. Passamos a ser só incorporadores. Nesse intervalo, um investidor novo construiu uma construtora chamada Habitat, muito boa”, diz Thiago, se referindo a Valdemar Bezerra, tema da <a href="https://marcozero.org/haut-incorporadora-de-luxo-quebrada-foi-vendida-para-engenheiro-por-apenas-r-200-mil/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">outra reportagem da MZ </a>sobre a Haut.</p>



<p>Thiago nega que tenha usado dinheiro das obras da Haut em benefício próprio. Sobre o imenso imóvel em que morava na avenida Boa Viagem diz que segue em nome da Haut e que foi levado pelo novo proprietário. Sobre a SUV da Porsche, diz que custou apenas R$ 250 mil e que comprou ainda na época da MaxPlural por meio de um consórcio da Rodobens no qual pagava mensalidades de R$ 3 mil. “Não tive filhos”, disse, justificando a despesa. “E já passei esse carro pra frente”.</p>



<p>Thiago diz que o papel dele na Haut era supervisionar a concepção de produto, a captação de investidores e a estratégia comercial. “Não sou gestor. Mas eu trouxe gestores para dentro do negócio. Meu papel era montar um bom time. Trouxe, na época, os melhores, pelo menos assim eu enxergava. Teve, inclusive, diretor-geral da Moura Dubeux durante 12 anos, que tocava 70 obras simultaneamente no Nordeste. Chegou lá e fez um ótimo trabalho durante dois anos. Mas é aquela história: a empresa é muito jovem e ainda não tinha, talvez, os seus processos muito bem estruturados”, admite.</p>



<p>Quase nada na Hauta era terceirizado e ele conta que, na época da pandemia, chegou a ter mais de 60 funcionários. “Eu não vou culpar o mercado. Se o mercado não tem segurança de comprar o meu produto, a culpa é minha. Ou seja, eu poderia lá atrás de ter melhorado a credibilidade, ter feito sociedade para alguns empreendimentos, ter dividido meu risco”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/arb_4965_13082020_foto_andrea_rego_barros-1.jpg" alt="A imagem mostra o prefeito do Recife, Geraldo Julio, e Thiago Monteiro sentados em um sofá preto, conversando. Ambos usam máscaras faciais — Geraldo com máscara branca e Thiago com máscara preta com a palavra “HAUT”. Geraldo veste paletó azul e jeans; Thiago está com terno cinza claro e lenço rosa no bolso. Thiago gesticula com a mão, sugerindo que está explicando algo. Ao fundo, há uma grande imagem da cidade do Recife ao entardecer, com prédios iluminados e reflexo das luzes na água." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">O então prefeito Geraldo Julio (PSB) e Thiago Monteiro no lançamento do hotel em 2021
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Foto: Andréa Rego Barros/PCR/Arquivo</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Thiago garante que há mais ativos que passivos na Haut. Segundo ele, a Haut tem hoje entre R$ 110 e R$ 115 milhões em estoque de futuros possíveis apartamentos. “E para terminar as obras, precisaria de R$ 54 milhões. Por exemplo,n o Edifício Haut [em Boa Viagem], dos 15 apartamentos, só um foi vendido. E ainda tinha parcelas a pagar e chaves a receber. No co-haut 001, na rua do Chacon, tem quase 50 apartamentos em estoque. O do Pina [o co-haut 003] tem quase 40 apartamentos que não foram vendidos”, afirma. “O problema era a minha capacidade de resolver isso”, diz.</p>



<p>Para destravar a Haut, Thiago afirma que a única solução que viu foi vender a empresa. E aposta no comprador, Marcelo Brandão, para essa empreitada. “Não é uma questão de opção. Ele tem por obrigação honrar todos os compromissos da empresa, seja com cliente, seja com fornecedor, seja com bancos, seja com [processos] trabalhistas. Ele chegou com essa consciência de que teria que honrar com todos esses compromissos”, garante.</p>



<p>Muitos clientes estranharam que Thiago Monteiro ainda aparece como sócio nos CNPJs dos empreendimentos – por lei, cada edifício tem que ter sua própria pessoa jurídica, para evitar que o dinheiro de uma obra vá para outra. Thiago afirma que, por contrato, saiu de tudo ligado à Haut e que deve ser o tempo de alguma burocracia para retirar o nome dele das obras. “Marcelo assumiu o compromisso com todas as obras”, ratifica.<br><br>O arquiteto sabe que ainda passará alguns anos respondendo judicialmente pela Haut. Diz que não vai mais abrir construtora ou incorporadora. Os projetos em São Paulo, como do Artsy Hotel, no Itaim Bibi, foram cancelados. E a Auth, nova aposta dele por lá, vai trabalhar somente com projetos de arquitetura. &#8220;Agora, um arquiteto que tem uma experiência de incorporação. Isso tem me ajudado inclusive a fechar contratos porque eu conheço a dor do incorporador. Tudo isso que eu passei veio para eu amadurecer não só como ser humano, mas como profissional”.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><span style="font-weight: 400;">Morando fora do Brasil, em 2020 o empresário Rafael* (nome fictício) estava procurando um apartamento no Recife quando um corretor apresentou a Haut para ele. “O corretor falou que a Haut estava crescendo muito em Recife. E, realmente, na época, havia um marketing enorme”, lembra. “Eu estava quase comprando um outro apartamento que estava quase pronto e o corretor me convenceu a comprar o da Haut. Falou que era uma exclusividade: ‘você é o primeiro comprador deste prédio (o co-haut 002), mas ele (Thiago) já tem todos esses outros prédios em obras’. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Rafael foi atraído pelo projeto arquitetônico e pelas promessas da Haut. “O que ele estava criando fez muito sentido para mim: a inovação, a integração com a cidade, a preocupação com o meio ambiente. Seria um prédio bem arborizado”, recorda. “Uma das coisas que eles falavam sempre é que não precisava ter um estacionamento fixo, era rotativo, porque eles deixavam de três a quatro BMWs elétricas lá embaixo, para quem precisasse usar”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O apartamento, com quase 100 m</span><sup>2</sup><span style="font-weight: 400;">, tinha no projeto uma piscina na varanda. “Era como se quase todos os apartamentos do prédio fossem uma cobertura”, diz ele, que entre 2020 e 2021 pagou 80% dos R$ 680 mil do preço do apartamento para a Haut. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A Haut prometeu o prédio para dezembro de 2022. Depois, dezembro de 2023. “Sempre eram falsas promessas. Depois descobri que a prefeitura nem havia aprovado o projeto do prédio e eles estavam vendendo sem ter a autorização real de construção!, conta Rafael, que depois também descobriu que o contrato que tinha com a Haut era de pré-lançamento e não de lançamento. “O mundo imobiliário entende essas diferenças, o cliente não. No meu contrato colocaram uma cláusula que só dariam direitos legais a quem comprou, caso quisesse cancelar, depois do lançamento. Mas o lançamento nunca existiu. O prédio nem chegou a sair do chão. Só ficou lá a placa na frente do terreno. Então, de certa forma, existia uma má fé desde a criação do contrato em 2020”, acredita. </span></p>
        </div>
    </div>



<p></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/haut-a-ascensao-e-queda-da-construtora-que-prometia-luxo-e-civilidade-no-recife/">Haut: a ascensão e queda da construtora que prometia luxo e civilidade no Recife</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Haut: incorporadora de luxo &#8220;quebrada&#8221; foi vendida para engenheiro por apenas R$ 200 mil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Jun 2025 19:21:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[Haut]]></category>
		<category><![CDATA[Mercado Imobiliário]]></category>
		<category><![CDATA[Recife]]></category>
		<category><![CDATA[urbanismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Durante os quase nove anos em que esteve à frente da Haut, Thiago Monteiro teve alguns sócios – um deles, Raphael Freitas, saiu em 2022 e colocou a empresa na Justiça para receber cinco meses de um salário de R$ 30 mil –, mas ele era oficialmente o único dono quando a empresa foi vendida. [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Durante os quase nove anos em que esteve à frente da Haut, Thiago Monteiro teve alguns sócios – um deles, Raphael Freitas, saiu em 2022 e colocou a empresa na Justiça para receber cinco meses de um salário de R$ 30 mil –, mas ele era oficialmente o único dono quando a empresa foi vendida. O capital social declarado era de R$ 2,7 milhões e a Haut foi inteiramente comprada por uma única empresa por apenas R$ 200 mil, no dia 10 de março de 2025, de acordo com o documento de alteração do contrato social da Haut, ao qual a Marco Zero teve acesso.</p>



<p>A empresa que comprou a Haut é a Engebrand Construções e Serviços Ltda, que tem como endereço um coworking na rua do Futuro, nas Graças. A principal atividade da empresa é a “construção de obras de arte especiais”. Aberta em fevereiro de 2019, a Engebrand tem um capital social de R$ 104.500 e um único sócio: o engenheiro Marcelo Jorge Fernandes Brandão Filho.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/haut-a-ascensao-e-queda-da-construtora-que-prometia-luxo-e-civilidade-no-recife/" class="titulo">Haut: a ascensão e queda da construtora que prometia luxo e civilidade no Recife</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/moradia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Moradia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>Para clientes e para a Marco Zero, Thiago Monteiro apresentou Marcelo Brandão, que tem 41 anos, como um ótimo gestor, um engenheiro com ampla experiência. A pessoa que finalmente vai destravar as obras da Haut.</p>



<p>Clientes que entraram em contato com Marcelo recentemente têm recebido uma mensagem padrão: “primeiramente estou me ambientando e pediria que você enviasse para [e-mail do escritório de advocacia que defende a Haut] os contratos e comprovantes da sua aquisição para eu ja conversar com mais informações” (sic).</p>



<p>Mas, ao contrário do que a mensagem faz pensar, a Haut não é uma desconhecida para Marcelo Brandão.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/54594536690_9a7e62c602_c-300x169.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/54594536690_9a7e62c602_c.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/54594536690_9a7e62c602_c.jpg" alt="A imagem mostra uma construção inacabada, com estrutura de concreto e vergalhões expostos, indicando que a obra foi interrompida antes de avançar. Há muito entulho, madeiras e ferros espalhados pelo canteiro. Dois trabalhadores com capacetes aparecem na parte superior da laje. O local é cercado por um muro verde com grades e está localizado em uma calçada de paralelepípedos. Um painel fixado na frente exibe o nome HAUT e uma imagem publicitária do prédio planejado. Ao redor, há prédios já concluídos, como um edifício rosa e um galpão cinza. A cena sugere abandono ou paralisação da obra." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Obra onde seria o edifício Haut, no segundo jardim de Boa Viagem
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>No final de 2023, vários clientes receberam uma mensagem da então gerente de relacionamento da Haut, Carol Guimarães, que dizia que “2024 será um ano de concretas realizações” e anunciava dois novos sócios: “Valdemar Bezerra &#8211; cliente Haut desse 2018 &#8211; que entra muito bem acompanhado e assessorado tecnicamente por seu sócio, Marcelo Brandão, engenheiro civil com vasta experiência no ramo de construções”.</p>



<p>A mesma mensagem dizia que Thiago Monteiro seguia “como sócio, fundador e arquiteto capitão do time Haut, e agora mais do que nunca exclusivamente à frente do desenvolvimento de novos empreendimentos e novas frentes de atuação do grupo”.</p>



<p>A servidora pública Renata Ferraz conta que em janeiro de 2024 foi até a sede da Haut acompanhada de um advogado para saber quando seu apartamento iria ser entregue. Ela havia comprado uma unidade no co-haut 003, no Pina, o prédio que seria construído no esqueleto do hotel. “Marcelo Brandão se apresentou como sócio da Haut e me atendeu. Perguntei porque haviam tirado o elevador de carga das obras do prédio e ele disse que estavam enxugando custos. Ele não entrou agora na Haut, não está de “gaiato no navio”. Ele já sabe da situação da empresa há muito tempo”, argumenta Renata, lembrando que, na época, não saiu confiante da reunião com Brandão. “Ele era muito informal e falava cheio de gíria. Tanto que, após a reunião, meu advogado já me alertou que o prédio não iria sair”.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><span style="font-weight: 400;">Foi pelo instagram que Eduardo* (nome fictício, o comprador da Haut não quis se identificar nesta reportagem) conheceu a Haut. Em janeiro de 2021, fechou a compra de um flat no co-haut 003, no escritório da Haut no JCMP. “Custava uns R$ 300 mil. Paguei metade à vista. Pela proposta que eles tinham, eu achei que era um preço atraente”, lembra. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Era um prédio bem moderno, com uma arquitetura super diferenciada. Ia ter uma parte embaixo, que ia ser uma área aberta e a Haut até ia entregar dois carros elétricos da BMW”, relata Eduardo. “Era prometido para junho de 2023. Ou seja, fez dois anos de atraso agora”, lamenta. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eduardo conta que a comunicação da empresa com os clientes sempre foi ruim e funcionários eram trocados rotineiramente. “Os relatórios de acompanhamento da obra eram muito inconstantes. E se via muito pouco progresso. Começou a atrasar, atrasar, atrasar. Aí, eles já mal respondiam. Para vender, fizeram a proposição de atrair, de fazer um negócio super diferenciado. Depois, era tudo muito amador”, lembra. “Teve uma época que anunciaram um diretor do mercado de engenharia, que era da Moura Dubeux. Mas, no final do dia, a Haut nunca pagou ninguém. E nada foi entregue”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo dos anos, Eduardo teve contato telefônico algumas vezes com Thiago Monteiro. No mais recente, ele contou que havia vendido a Haut para Marcelo Brandão. “Disse também  que estava vendo um grupo de investidores que ia bancar essa continuação das obras e honrar os compromissos. Essa é a última conversa dele. Também disse que estava colocando a cobertura dele em Boa Viagem nos ativos da Haut”, conta Eduardo, que não colocou a construtora na Justiça. “Vou esperar mais um pouco para ver se tem alguma boa notícia nesse contexto, se destrava as obras com os investidores. A Justiça demora muito”. </span></p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">Empresa de um homem só</h2>



<p>Marcelo Brandão conversou com a Marco Zero. Primeiramente, voltou a dizer que está se inteirando do que é a Haut e afirmou que não havia sido sócio da empresa anteriormente.</p>



<p>Quando a reportagem informou sobre o depoimento da cliente, Brandão disse que naquela época passou menos de um mês na construtora. “A gente estava em negociações, mas não avançou. Aí essas negociações voltaram agora em 2025, entendeu? E foi a que eu concretizei, entendeu?”, disse.</p>



<p>Por várias vezes reforçou que está sozinho nessa empreitada da Haut e que vai “assumir as consequências”. Quando Marcelo Brandão diz que está sozinho, não significa apenas que ele é o único dono. Significa também que a empresa – com dezenas de ações na Justiça e vários prédios para entregar aos clientes – não tem nenhum funcionário.</p>



<p>Para a Marco Zero, Thiago Monteiro disse que Marcelo Brandão fez uma &#8220;análise profunda nos empreendimentos (da Haut). Ele analisou não só do ponto de vista técnico, mas do ponto de vista de passivos, ativos, os compromissos assumidos”.</p>



<p>Quando a MZ perguntou à Brandão se ele fez as contas e a Haut tinha mais ativos que passivos, ele respondeu: “Rapaz, fiz. Entendeu? É desafiador. O desafio é a quantidade de pessoas envolvidas no negócio, entendeu? Se fosse uma pessoa só, uma conta de mais e de menos&#8230; mas tem muita gente envolvida. Por exemplo, uma ação [judicial] de um cara pode travar tudo”.</p>



<p>“Tipo assim, eu adquiri uma empresa quebrada. Essa é a realidade, entendeu? A Haut não tem equipe, não tem local, não tem nada”, disse para a Marco Zero. “Foi essa coisa que eu comprei: uma empresa quebrada, certo? E aí eu tô estudando soluções para cada empreendimento. Seja passando pela Haut construir ou outra [construtora] que venha a construir. Mas que se organize o mínimo possível para que valha a pena para alguém vir terminar. Mas a Haut hoje não tem ninguém, só tem eu”.</p>



<p>Para os clientes, Marcelo não deu qualquer expectativa sobre o término das obras, dizendo que não tinha nenhum cronograma para as soluções para a Haut. Nem previsão de quando terá um cronograma.</p>



<p>Disse que fez um acordo diretamente com Thiago Monteiro porque viu uma oportunidade e que não se arrepende da compra. “Eu não sou um cara que é milionário, entendeu? Então, assim, pra quem é do meu padrão, as oportunidades estão nos desafios”, afirmou.</p>



<p>“Foi uma decisão minha, pessoal, de topar esse desafio. Todo o passivo da Haut hoje está no meu nome, entendeu? Toda a responsabilidade pelo que vier a vir é minha. Porém, não fui eu que fiz chegar nesse momento. Marcelo Brandão não fez nada que fizesse a Haut chegar onde ela chegou. Eu sou uma pessoa que tô pra dar soluções, entendeu? Tem terrenista, tem comprador, tem gente que investiu muito recurso, tem pessoal que comprou os imóveis de boa fé, tem tudo isso. E dentro desse contexto, eu vou estudando e dando soluções para cada empreendimento. Eu sou um cara do mercado, sou um cara acostumado a esses desafios, entendeu?”, explicou. “Eu tô pegando um negócio no vermelho que eu tenho que dar a virada. Então, assim, vão sendo construídas soluções. Estou me debruçando sobre os números, sobre tudo. Mas, assim, vai haver solução para todos, entendeu?”, prometeu.</p>



<p>Quando questionado quais as qualificações que tem para apontar as soluções para os imbróglios da Haut – que não são poucos, são de naturezas diferentes e incluem vários processos – Marcelo confirmou que trabalhou na construtora Habitat, mas não passou 20 anos na construtora Camargo Côrrea, como informaram alguns clientes que tiveram contato com ele. “Vinte anos não, sou novinho”, brincou.</p>



<p>“Rapaz, veja, não tenho diferencial, não tem o que eu dizer sobre mim não, entendeu? Eu me acho um cara que consigo resolver, entendeu? E a prova é que eu botei meu nome, entendeu? Então assim, tô arriscando”, disse. “Pode ser que não dê certo. E eu vou arcar com as consequências, mas tô arriscando, entendeu?”.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O que une a Habitat à Haut</h2>



<p>O outro nome citado como sócio da Haut naquela mensagem no final de 2023 é o de Valdemar Bezerra, pecuarista, um dos donos da loja de artigos rurais Supranor e também proprietário da construtora Habitat. Apesar de ter negócios ligados tanto à Haut quanto a Marcelo Brandão, não consta oficialmente como sócio da empresa nem agora, nem quando Thiago Monteiro vendeu a empresa.</p>



<p>Aberta em 2020, a Habitat Construtora tem sede no mesmo endereço da Supranor, na Iputinga. Fundada em 1970 pelo pai e um tio de Valdemar, a empresa é o carro chefe dos negócios do pecuarista. Valdemar e Thiago Monteiro teriam se conhecido por conta do prédio <em>loft</em> BMRX, o único projeto da Haut que foi concretizado no Recife, na Estrada do Encanamento, em Casa Forte. Valdemar comprou um triplex no prédio.</p>



<p>O BMRX era um dos projetos mais deslumbrantes da Haut. Dez unidades de 219 a 311 m<sup>2</sup> (ou 340 m<sup>2</sup>, a depender da fonte) com piscinas na varanda – uma das constantes nos projetos de luxo da Haut – e um pé direito duplo, com seis metros de altura. No topo, o prédio se abria em uma curva revestida por um metal de cor vermelho ferrugem. Não haveria muro e o jardim era integrado com a calçada. Plantas em cascatas desceriam de canteiros nas janelas.</p>



<p>E, claro, não seria a Haut se o projeto também não tivesse carros elétricos da BMW para uso compartilhado.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/WhatsApp-Image-2025-06-19-at-14.31.20-300x200.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/WhatsApp-Image-2025-06-19-at-14.31.20.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/WhatsApp-Image-2025-06-19-at-14.31.20.jpeg" alt="A imagem mostra um prédio moderno e estreito de vários andares, com um design arquitetônico marcante: cada andar parece levemente deslocado em relação ao anterior, criando uma aparência de blocos empilhados de forma irregular. A fachada tem janelas amplas e sacadas envidraçadas com detalhes coloridos em tons de azul, vermelho e verde. Na frente do prédio há um muro de obra ainda em pé, pintado com arte urbana nas cores laranja e preto, com linhas abstratas. No centro do muro, há um pequeno símbolo com a letra “H” estilizada. À esquerda, vê-se uma loja chamada “OCLOV Ótica”, com fachada branca e preta, e à direita, outra loja de nome “ELYSIUM”. Ao fundo, há diversos prédios altos residenciais, compondo um cenário urbano verticalizado. O céu está parcialmente nublado" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Obra sem placas visíveis da obra do BMRX, em foto de maio de 2024
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Assim que o BMRX começou a ser construído, havia bancos na calçada, debaixo de uma árvore. Era uma das gentilezas urbanas tão propaladas pela Haut. Foi nessa época que esta repórter da<a href="https://marcozero.org/haut-a-ascensao-e-queda-da-construtora-que-prometia-luxo-e-civilidade-no-recife/"> Marco Zero começou a ficar atenta à construtora</a>, já que a nossa redação fica próxima do BMRX. O edifício, aliás, chegou a se chamar<em> loft</em> Burle Marx, antes de levar um processo por direitos autorais da empresa que gerencia o espólio do célebre paisagista, falecido em 1994.</p>



<p>Como a Haut paralisou as obras, os condôminos se juntaram em 2024 e decidiram continuar a construção a um custo de R$ 10 milhões. Condômino, Valdemar convenceu os demais compradores a contratar sua própria construtora, a Habitat. A obra foi entregue no começo desse ano – ainda que nenhuma placa de construção estivesse visível durante o período em que a Habitat assumiu (nem da Haut) e que não conste nenhum registro no site de licenciamento urbano da prefeitura do Recife para o endereço (Estrada do Encanamento, 827).</p>



<p>Parte da arrojada beleza das imagens renderizadas se perdeu: não há a curva no topo, as piscinas na varanda deram lugar a tanques e o revestimento vermelho não se concretizou. As gentilezas urbanas também foram retiradas, não há jardim na calçada e uma grade fecha o prédio. Ainda assim, é um prédio que se sobressai na paisagem. Um apartamento no primeiro andar está à venda por R$ 4,5 milhões.</p>



<p>Há uma ligação mais antiga de Valdemar com a Haut do que a mensagem do final de 2023: um processo judicial iniciado em julho de 2023 movido pela Haut sobre a compra de um apartamento de luxo em Casa Amarela tem como parte interessada a empresa Rural Shop. Essa empresa tem como sede o endereço da Supranor e como único sócio um funcionário da loja de Valdemar. </p>



<p>A ligação mais recente entre Habitat e Haut está no fato da construtora de Valdemar ter sido contratada para terminar as obras do condomínio Arbo, no Poço da Panela, após distrato do condomínio com a Haut neste ano. “Foi a construtora que aceitou continuar a obra. Outras que procuramos disseram que era uma obra muito difícil, que ia levar muito tempo para fazer levantamento da estrutura e finalizar, e que não valia a pena pelas complicações do projeto. Também escolhemos a Habitat porque foi quem terminou o BMRX”, explicou a síndica Anna Karla. Ao que tudo indica, a Haut também deve ter unidades no Arbo, como tinha em todos os outros empreendimentos que lançou.</p>



<p>A MZ tentou contato com Valdemar Bezerra e enviou algumas perguntas para ele sobre a relação dele com a Haut, se o prédio BMRX tem o Habite-se (documento que atesta que o imóvel foi construído ou reformado conforme a legislação e está apto a ser habitado), porque não tinha placa na obra e se a Habitat deve entrar em outra obra da Haut, mas o empresário não respondeu.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Denúncia anônima ligou Habitat à associação condenada pelo TCU </span>

		<p><span style="font-weight: 400;">Em 2023, a Habitat foi alvo de uma <a href="https://www.brasildefato.com.br/2023/01/26/mpf-recebe-denuncia-de-fraude-em-programa-de-credito-habitacional-em-pernambuco/" target="_blank" rel="noopener">matéria do Brasil de Fato</a> sobre uma suposta fraude em um programa de crédito habitacional em Pernambuco. A matéria informava que uma denúncia havia sido feito ao Ministério Público Federal (MPF) por pessoas não identificadas no texto. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“(&#8230;) a acusação recente é de que os convênios (com o Incra) seriam executados pela Habitat Construtora E Incorporadora LTDA., empresa supostamente ligada a um amigo do presidente da associação. Para além da terceirização da execução do Crédito Habitacional para uma empresa não habilitada a realizar o programa, os associados afirmam que várias casas nunca chegaram a ser construídas. As que tiveram a construção finalizada, segundo a denúncia, apresentam uma qualidade de construção inferior aos valores que deveriam ser empregados”, diz trecho da matéria, que traz a denúncia que a Associação de Orientação às Cooperativas do Nordeste (Assocene) havia se mudado para o endereço da Supranor. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">À MZ, o MPF confirmou que a denúncia foi registrada. O órgão instaurou dois procedimentos para apurar supostas irregularidades praticadas pela Assocene: um deles levou à instauração de um inquérito policial; o outro segue os trâmites da apuração interna extrajudicial do MPF. Ambos estão sob sigilo e o MPF não pode dar detalhes para não prejudicar o andamento das investigações. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em fevereiro deste ano, o Tribunal de Contas da União (TCU) julgou irregulares as contas da Associação de Orientação às Cooperativas do Nordeste e de Mônica Barbosa Correia e de Valter de Carvalho, sócios da ong, em outro programa desenvolvido pela Caixa Econômica, “Fortalecer e Aperfeiçoar as Ações de Dinamização Econômica dos Territórios Rurais no Nordeste, Norte de Minas Gerais e Norte do Espírito Santo”. Foram condenados a pagar R$ 1.735.279,41, atualizada “monetariamente e acrescida dos juros de mora, calculados a partir de 30/12/2014 até a data da efetiva quitação do débito”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro projeto da Assocene, de 2021, também com o Incra, previa a construção de 17 unidades habitacionais no município de Ceará-Mirim, no Rio Grande do Norte. O responsável técnico e “representante por procuração do presidente da Associação” era o engenheiro Marcelo Brandão, o mesmo que é o dono da Haut. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">Os negócios da Haut no mercado de capitais</h3>



<p>Há ainda um outro fator complicador para as finanças da Haut e para os compradores dos imóveis. É que a empresa entrou em uma parceria com o fundo de investimentos CVPar para vender quotas dos empreendimentos da Haut, como investimentos imobiliários. No Reclame Aqui, algumas pessoas que fizeram investimentos na empresa afirmam que não receberam os lucros prometidos – de 14,03% ao ano.</p>



<p>Em março de 2022, quando a Haut já apresentava atraso em algumas obras, a parceria com a CVPar Business Capital foi anunciada como a primeira vez que uma construtora nordestina ia para o mercado de capitais. Mesmo sem nada entregue no Recife, a Haut anunciou que havia recebido o registro da CVM para emissão do seu primeiro CRI, no valor inicial de R$ 15 milhões, que seria parte de um total de R$ 91 milhões que estariam disponíveis para investimentos exclusivamente na Haut.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/irapuadantasethiago-822x1024.jpg" alt="A foto mostra dois homens sentados lado a lado em uma mesa branca, sorrindo para a câmera enquanto assinam um documento. Ambos estão bem vestidos, com camisas sociais brancas de mangas dobradas. O homem à esquerda é Irapuã Dantas, ele tem barba cheia, cabelo escuro na altura do pescoço e segura uma caneta sobre os papéis. O homem à direita é Thiago Monteiro, ele também tem barba, usa óculos de aro redondo e um relógio metálico no pulso esquerdo; ele também está assinando o documento. Ao fundo, há um ambiente de escritório moderno com divisórias de vidro, mesas organizadas e pessoas trabalhando em computadores. A cena transmite um momento de formalização, como a assinatura de um contrato ou parceria." class="" loading="lazy" width="661">
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	                                        <p class="m-0">O diretor da CVPar Irapuã Dantas e Thiago Monteiro na divulgação da parceria
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução/Instagram Haut</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“Uma captação como essa exige uma pesada diligência por parte do fundo e um mínimo de governança da nossa parte. Por isso, além do capital aportado, ficamos super felizes e orgulhosos com essa chancela”, falou Thiago Monteiro à época, em texto postado no <a href="https://hautco.com.br/">site da Haut</a>.</p>



<p>O mesmo texto dizia que a primeira captação seria destinada à conclusão de quatro empreendimentos no Recife e que a Haut já tinha vendido R$ 241 milhões dos R$ 411 milhões em valor geral de vendas.</p>



<p>Em entrevista à Marco Zero, Thiago Monteiro disse que a parceria incluía o investimento em uma obra como compromisso, com a promessa de mais outras duas obras. “Isso não aconteceu. Inclusive, nenhuma dessas obras era uma operação de um CRI”, ressalta. “Dos R$ 15 milhões (que a Haut esperava), a gente só recebeu cerca de R$ 9,5 milhões. Mas não por culpa deles, mas por uma dificuldade de captação no próprio mercado, que era um ano eleitoral. A Faria Lima travou, o juros já estavam muito altos, 14% ao ano, com a promessa de que iria baixar e até agora não baixou. Então, acho que o investidor deixa o dinheiro aplicado e não coloca no<em> real estate</em> (bens imóveis)”, disse o fundador da Haut.</p>



<p>Em meados do ano passado, o banco BTG Pactual emitiu um comunicado de fato relevante retirando 76% do fundo do co-haut 001 da CVPar para um um outro fundo, de maior risco. A securitazadora Habitasec mostra três títulos da Haut no seu portfólio, dos quais um já se encontra inadimplente. São títulos de risco, sem garantias do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) ou mesmo de quem vendeu. Mas entre as garantias oferecidas para quem comprava o CRI estava a alienação fiduciária do co-haut 001.</p>



    <div class="lista mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #EBEB01;">
        <span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Glossário</span>

                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>1. </span>Mercado de capitais &#8211; Sistema financeiro que permite a captação de recursos através da emissão de títulos, como ações e debêntures. Nesse mercado, os investidores compram títulos com o objetivo de obter lucros a partir dos juros ou da valorização desses ativos.</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>2. </span>Alienação fiduciária &#8211; Transferência de um bem do devedor para o credor, como garantia de pagamento.</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>3. </span>Securitizadora &#8211; Empresa que compra dívidas de outras empresas para depois transformar esses direitos em títulos negociáveis no mercado de capitais.</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>4. </span>CRI &#8211; É um título que representa um direito de crédito sobre recebíveis imobiliários.Ou seja, o investidor recebe pagamentos futuros relacionados a esses recebíveis, como parcelas de financiamentos imobiliários, aluguéis ou vendas de empreendimentos.</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>5. </span>CVPar &#8211; Empresa ligada ao banco BTG Pactual, com sedes em Fortaleza e São Paulo. A Cvpar se diz especialista em buscar as “melhores alternativas de investimentos e soluções financeiras” e atua com a venda de títulos imobiliários, entre outros. </p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>6. </span>Stakeholders &#8211; Partes interessadas em uma organização ou projeto, como investidores, acionistas e clientes</p>
            </div>
            </div>



<p>Na entrevista à Marco Zero, Marcelo Brandão disse que a CVPar investiu dinheiro em “algumas das obras da Haut” e que “tem as garantias lá dele”. Brandão não quis detalhar como é a participação da CVPar nos empreendimentos da Haut afirmando que são assuntos internos e complexos.</p>



<p>“A CVPar consta no contrato de alguns compradores, mas não no meu”, diz a compradora de uma unidade do co-haut 001, Anna Sady. A MZ não conseguiu falar com nenhum cliente que tivesse também a CVPar no contrato.</p>



<p>Um dos poucos clientes que já conseguiu falar com Brandão repassou em um grupo que o novo dono da Haut disse que a CVPar é a “dona” do Co-haut 001 e que a negociação será mais burocrática, atrasando o término do prédio na rua do Chacon que é, de longe, a obra mais adiantada da Haut – com 49,4% de avanço da obra, de acordo com um relatório da consultoria Trinus, enviado para a Marco Zero por Thiago Monteiro. O mesmo relatório, feito em julho de 2024, estabelece que, em um cronograma de 12 meses, seriam necessários R$ 13.588.400,00 para terminar a obra.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/53753881595_b1d6f7876d_c-1.jpg" alt="A imagem mostra a estrutura de um edifício em construção ou abandonado, visto de baixo para cima, com vários andares de concreto ainda sem acabamento ou fechamentos nas fachadas. O prédio tem aparência inacabada, com vigas e colunas expostas. Em frente à construção, há dois grandes painéis de publicidade unidos lado a lado, montados sobre um suporte metálico. O painel da esquerda é verde e exibe o logotipo e nome da empresa cvpar, com o texto “inteligência e movimento imobiliário”. O painel da direita é marrom escuro e traz o logotipo da marca Haut. Abaixo dos logotipos estão os respectivos perfis no Instagram: @cvpar.business e @haut.ar. A cena se passa em um dia nublado, com céu cinza, e há árvores ao lado esquerdo e fios elétricos visíveis no alto da imagem, indicando uma área urbana." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">&#8220;Empreendimento 100% financiado&#8221;: co-haut 003 com placa da CVPar e da Haut, em maio de 2024.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>No papel, o co-haut 001 pertence à Haut e a Thiago Monteiro – que diz que está na burocracia para sair da sociedade, deixando apenas a Haut.</p>



<p>A Marco Zero entrou em contato com o departamento jurídico da CVPar para saber qual é a participação dela na Haut, nas obras da empresa e se ela pretende investir no término das obras do co-haut 001, ou de outros imóveis da Haut.</p>



<p>Em nota, a CVPar disse que é importante “esclarecer que a CVPar não possui qualquer envolvimento na gestão ou execução do projeto em questão”. E que atua unicamente como representantes dos investidores. “Assim como outros <em>stakeholders</em>, também fomos surpreendidos pela inadimplência do projeto e atualmente estamos acompanhando as providências adotadas pela Habitasec para recuperação do crédito”, afirmou, em nota. A CVPar não explicou qual seria sua participação no co-haut 003. Na placa que havia na frente da obra, como se vê na foto da Marco Zero, acima do logo da CVPar se lia: &#8220;Empreendimento 100% financiado&#8221;.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Confira a nota completa da CVPar:</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">A CVPar é uma gestora de investimentos, e o fundo imobiliário CVPR11 faz alocações em operações de crédito imobiliário residencial sob mandato de seus investidores. Em setembro de 2022, o CVPR11 adquiriu uma participação como cotista em um Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI) estruturado pela Securitizadora  Habitasec, cujo ativo-alvo é o empreendimento “co-haut 001”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É importante esclarecer que a CVPar não possui qualquer envolvimento na gestão ou execução do projeto em questão. Atuamos unicamente como representantes dos investidores nessa estrutura. Assim como outros <em>stakeholders</em>, também fomos surpreendidos pela inadimplência do projeto e atualmente estamos acompanhando as providências adotadas pela Habitasec para recuperação do crédito.</span></p>
	</div>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><span style="font-weight: 400;">Acostumado a comprar imóveis em leilões, em agosto de 2019 o engenheiro eletricista Bruno Guerra comprou seu primeiro imóvel na planta, como um investimento. A expectativa era receber uma das 120 unidades do co-haut 001 em dezembro de 2022. Bruno fez a compra à vista, pagando R$ 205 mil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2023, a mais avançada das construções da Haut paralisou de vez. “Tivemos 2024 inteiro sem obras e já estamos na metade de 2025”, reclama o engenheiro. “Eu entendo que pode ter havido um desequilíbrio financeiro do empreendimento face ao aumento de custos da pandemia, mas eles nunca marcaram a reunião com os adquirentes e propuseram um novo acordo. Nunca demonstraram dificuldade. Muitas pessoas compraram apartamentos após o início da pandemia, então a Haut já deveria saber que os custos tinham aumentado”, cobra. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de muito tentar, Bruno e outros compradores conseguiram uma reunião com Thiago Monteiro em 2024. Foi na praça de alimentação do aeroporto do Recife, antes do ex-sócio da Haut embarcar em uma viagem. “Ele, muito simpático, disse que tinha uma construtora de Goiânia (GO) que estava querendo entrar no mercado pernambucano e poderia fazer uma parceria com a Haut”, lembra. “Ele abriu o computador e mostrou uma planilha. Disse que no co-haut 001 havia não lembro quantas unidades no nome da Haut e que a venda delas pagaria o resto da obra, que estavam sem dinheiro em caixa”, conta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bruno ainda não entrou na Justiça, mas pretende. “A falta de comunicação da Haut com a gente nos deixou em um limiar: Quando é que deixa de ser uma obra atrasada pra ser uma obra que não vai ser entregue?”</span></p>
        </div>
    </div>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/haut-incorporadora-de-luxo-quebrada-foi-vendida-para-engenheiro-por-apenas-r-200-mil/">Haut: incorporadora de luxo &#8220;quebrada&#8221; foi vendida para engenheiro por apenas R$ 200 mil</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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