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	<title>Arquivos liberalismo - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos liberalismo - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>&#8220;Bolsonaro Gourmet&#8221;: Na UFPE, Amoêdo defende cortes nas universidades e critica protestos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 May 2019 10:59:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo Crônico]]></category>
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		<category><![CDATA[liberalismo]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Quinze minutos antes da hora marcada para a palestra de João Amoêdo, candidato do partido Novo derrotado à Presidência da República com 2,5% dos votos, a fila era grande no auditório do Centro de Tecnologia e Geociências (CTG) da UFPE. No sol quente do começo da tarde, o que chamava atenção era a predominância de estudantes do sexo masculino – chutaria em 99%. Na fila, as conversas iam de como escapar da convocação militar e do porquê de não terem ido aos protestos pela educação (“se fosse somente contra os cortes&#8230;”) até uma teoria da suposta superioridade do carteado em relação às ciências exatas. Vez ou outra, alguém furava a fila. Ninguém reclamava.</p>
<p>Lá dentro, o ar-condicionado era fraco e o auditório lotado ainda ganhou cadeiras de plástico para acomodar mais estudantes. O evento foi promovido pelo Clube Frei Caneca, uma agremiação de cerca de 60 alunos que considera liberdade sinônimo de liberalismo. Fizeram uma longa apresentação sobre o clube, entremeada de muitas críticas ao “viés ideológico” das universidades em geral e um quê de recalque.</p>
<p>Olhando para a plateia do palco, uma das participantes ainda soltou que “é difícil um evento liberal juntar tantas mulheres como hoje”. Olhei com cara de choque para o lado, mas não fui correspondida. Todos pareciam concordar.</p>
<p>Por incrível que pareça, o clube não se diz de direita. Ao invés dessa denominação, o porta-voz do Clube recomenda a instalação de um aplicativo do Diagrama de Nolan para que “cada um se conheça melhor”.</p>
<div id="attachment_15837" style="width: 310px" class="wp-caption alignleft"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15837" class="size-medium wp-image-15837" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/05/amoedo2-300x203.jpg" alt="Fila para ouvir Amôedo. Foto: MCS/MZ" width="300" height="203"><p id="caption-attachment-15837" class="wp-caption-text">Fila para ouvir Amoêdo. Foto: MCS/MZ</p></div>
<p>Antes de Amoêdo chegar, houve palestra de um tal de Edísio Pereira Neto apresentando sua empresa de criptomoeda. O que parecia meio deslocado, ganhou ares de trolagem quando ele jogou a seguinte pergunta para a plateia: “Tem algum virgem aqui?”. Espanto, seguido de risadinhas. Ao lado, um grito tímido: “Ninguém”. Edísio, enfim, retoma a fala para discorrer sobre como os impostos são ruins, como os políticos são maus, como ele soube inovar, etc, etc, etc. (ah, o &#8216;virgem&#8217; era sobre o uso de criptomoeda).</p>
<p>Quando finalmente João Amoêdo subiu ao palco – do jeito de sempre: camisa branca, calça social, cabelo bem cortado – foram muitos os aplausos e assobios. Novamente o representante do Frei Caneca, que não se apresentou, fez uma rápida introdução: voltou a falar que as universidades são movidas por um pensamento único, mas desta vez tentou ser mais enfático, quase colérico. Não funcionou muito.</p>
<p>João Amoêdo começou em um tom bem mais conciliatório que o do estudante. O tema era “As reformas que o Brasil precisa”, mas durante a apresentação ele basicamente forneceu dados sobre previdência e dívida pública – muitas vezes com slides que não citavam a fonte das informações ou a fonte estava ilegível. Outras vezes, a fonte era o Banco Mundial ou o Todos pela Educação, organização criada por empresários (entre eles, Viviane Sena e Jorge Gerdau).</p>
<p>Entre um e outro dado, Amoêdo despeja chavões sobre empreendedorismo para a plateia e comprova todos os lugares-comuns sobre ele. É quase uma fábrica de memes para página de humor “Empreendedor nem é gente”. Para ele, o principal problema do Brasil parece ser a autoestima. Afirma chavões do tipo “Não há atalhos” e “Não há almoço grátis”. Sim, Amoêdo não surpreende. Mas a plateia vibra.</p>
<p>Diz que o Brasil tem que copiar o que deu certo em outros lugares – ele genuinamente parece desconsiderar as inúmeras idiossincrasias deste imenso país. Cheio de preconceitos, cita a Índia – “nunca fui, mas parece ser um tumulto lá” – como exemplo de certificação digital. “Se um país daquele conseguiu, o Brasil também consegue”.</p>
<p>O último slide é um resumo do que aqueles homens que lotaram o auditório querem tanto acreditar: “Você é o salvador que a pátria precisa”.</p>
<h2>Ir para às ruas só se for a favor da Reforma da Previdência</h2>
<p>Se na apresentação Amoêdo parece um coach sem criatividade, é na seção de perguntas e respostas que ele mostra porque ganhou o apelido de “Bolsonaro Gourmet”. Ele pode ter uma presença mais afável, certamente fala de modo menos ríspido e seu português é claro, mas as diferenças acabam aí. Em certo ponto, ele até reconheceu: “O problema desse governo é a forma, não o conteúdo”.</p>
<p>E vamos ao conteúdo de Amoêdo. Ele defendeu os cortes na Educação e ainda citou a conta de 3,5% do ministro da Educação Abraham Weintraub – que desconsidera que quase 90% das despesas das universidades são com pagamento de pessoal e, na verdade, os cortes chegam a 30% da manutenção das instituições. Disse que era melhor ter tirado o R$ 1,7 bilhão do fundo partidário, mas que não via grandes problemas em tirá-los do ensino federal.</p>
<div id="attachment_15838" style="width: 310px" class="wp-caption alignleft"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15838" class="size-medium wp-image-15838" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/05/amoedo3-300x218.jpg" alt="Amoêdo na UFPE. Foto: Clube Frei Caneca" width="300" height="218"><p id="caption-attachment-15838" class="wp-caption-text">Amoêdo na UFPE. Foto: Clube Frei Caneca</p></div>
<p>Defendeu que as universidades públicas cobrem mensalidades. Quem pode pagar, paga. Quem não pode, não teria bolsa: seria um financiamento. “Mas não como o Fies, que colocou uma quantidade enorme de financiamentos. Isso só beneficiou os grandes grupos educacionais”, criticou.</p>
<p>Parece que para Amoêdo o curso superior deve ser algo para poucos. Ele falou que os investimentos públicos devem ir para a educação básica e fundamental – “Para não criar um <em>gap</em> cognitivo que não se pode corrigir depois”.</p>
<p>A fala mais “bolsonarista” – em termos de fuga da realidade e anti-intelectualidade – foi quando afirmou que quando se investe nas universidades o principal beneficiado é o próprio indivíduo. “Quem se aproveita da educação superior é o cidadão. A pessoa se forma em engenharia, medicina e o ganho é dela. Por que obrigar a sociedade a pagar isso para ele?”, afirmou, para uma plateia que não deu um “ai”. Amoêdo simplesmente deslegitimou os benefícios do trabalho intelectual para o benefício da sociedade: um médico formado a mais, não traz benefício além do próprio ganho. Tudo mantendo uma entonação de voz que Bolsonaro jamais conseguiria.</p>
<p>E, coerentemente, ele desacreditou os atos pela educação que ocorreram na quarta (15) pelo País, achando tudo um exagero. “A população deveria estar nas ruas era para pedir que a Reforma da Previdência fosse aprovada logo”, disse, sendo aplaudido pelos estudantes presentes.</p>
<p>Sobre a previdência, Amoêdo quer apenas celeridade. Não propôs nenhuma mudança na reforma sugerida por Bolsonaro. Mas no mundo alternativo que ele vende, o ideal mesmo seria assim: “Viver em um ambiente de muita liberdade econômica, empreender, ganhar dinheiro e depois se aposentar com essa riqueza&#8221;. Não vale rir.</p>
<p>Neste mundo paralelo onde o capitalismo é essa perfeição toda, Amoêdo também traz um aviso para quem não deseja ser empreendedor: “se você trabalhar com muito afinco, como se fosse o dono, você vai ter riquezas da mesma forma”. Anotou?</p>
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		<title>A disputa política nas periferias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Jul 2015 18:12:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Agência Publica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em entrevista à Agência Pública, o professor Gabriel Feltran, do Centro de Estudos da Metrópole da USP, fala sobre como se dá a polarização política nas comunidades periféricas Por Marina Amaral Da Agência Pública O jovem brasileiro da periferia passa cada vez mais longe da polarização esquerda versus direita, explica o professor Gabriel Feltran, do Centro [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>				<em>Em entrevista à Agência Pública, o professor Gabriel Feltran, do Centro de Estudos da Metrópole da USP, fala sobre como se dá a polarização política nas comunidades periféricas</em></p>
<p>Por Marina Amaral<br />
Da <a href="http://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Agência Pública</a></p>
<div id="attachment_887" style="width: 270px" class="wp-caption alignright"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/07/gabriel-feltran.jpg"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-887" class="size-full wp-image-887" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2015/07/gabriel-feltran.jpg" alt="Gabriel Feltran, professor do Centro de Estudos da Metrópole da USP" width="260" height="335" /></a><p id="caption-attachment-887" class="wp-caption-text">Gabriel Feltran, professor do Centro de Estudos da Metrópole da USP</p></div>
<p>O jovem brasileiro da periferia passa cada vez mais longe da polarização esquerda <em>versus</em> direita, explica o professor Gabriel Feltran, do Centro de Estudos da Metrópole da USP. No entanto, para o professor, a agenda da meritocracia, da redução do papel do Estado e da “liberdade individual” é fortemente rechaçada. “O pentecostalismo, a possibilidade de consumir, a polaridade racial ou a ‘vida loka’ são hoje matrizes de elaboração das próprias vidas muito mais importantes do que a ‘esquerda’ institucional. E essas matrizes movem o cenário político para direção ainda desconhecida.” Leia a entrevista, concedida durante a apuração da reportagem “<a href="http://apublica.org/2015/06/a-nova-roupa-da-direita/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">A Nova Roupa da Direita</a>“.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b>Como a polarização entre direita e esquerda que se vê principalmente nas redes sociais chega aos meninos da periferia, das favelas?</b></p>
<p>Boa parte dos meninos e meninas das favelas vive a “crítica ao sistema” de modo muito intenso e cotidiano. A polarização entre os “bacanas, playboys, madames” e os “pretos, pobres, periféricos” é cada vez mais clara dos dois lados. Em geral, jovens pobres são muito mais críticos do que as “esquerdas” da Vila Madalena. Mas o registro pelo qual essa crítica social é expressa, nas periferias, passa cada vez mais longe da polarização esquerda <em>versus</em> direita ou de uma elaboração discursiva nos marcos da política tradicional. Passa pelas letras de rap, pela estética do funk, pela racialização, pelo estilo de vida, ou seja, por outros caminhos. Não é o registro da política institucional, dos movimentos de esquerda tradicionais, que abriga as noções críticas que eles carregam. O pentecostalismo, a possibilidade de consumir, a polaridade racial ou a “vida loka” são hoje matrizes de elaboração das próprias vidas muito mais importantes do que a “esquerda” institucional. E essas matrizes movem o cenário político para direção ainda desconhecida. O que se percebe, transitando entre favelas e elites, é que a metáfora da guerra (inimigos a combater) parece fazer mais sentido para pensar a política hoje do que a metáfora da democracia (comunidade de cidadãos).</p>
<p><b>No sentido que se ouve tanto “não me representa” em relação aos políticos, como seria?</b></p>
<p>Tenho trabalhado com a ideia de regimes normativos distintos. Não há só uma lei ou um direito no estado de São Paulo. Há diversas, e se vive operando um repertório de normas, plausibilidades. Se você foi roubado na favela, não deve chamar a polícia, mas os irmãos do PCC. Se tem um problema de saúde, vai ao posto. Se o problema é trabalhista, vai à Justiça do Trabalho. Se é um filho no crack, tem um pastor para ouvi-lo, encaminhá-lo a uma clínica. Cada um desses encaminhamentos, entretanto, opera com valores, códigos de conduta e princípios morais distintos. A política institucional é só um código a mais, na verdade distante, que se aciona quando e como possível.</p>
<p><b>Houve uma grande queda de votos no PT nas periferias nas últimas eleições. A que o senhor atribui essa guinada? É uma virada à direita ou simplesmente descontentamento com o PT?</b></p>
<p>Há bastante tempo o sindicalismo operário, a Igreja Católica e os grupos de esquerda militante, base inicial do PT, abandonaram o trabalho de base nas favelas, periferias, que fizeram intensamente até os anos 80. O PT passou a disputar postos de poder estatal e, principalmente, de mercado. Suas “bases” reais são no empresariado e em partidos de aluguel há tempos. Há outros grupos, entretanto, disputando corações e mentes nas periferias: pastores, MCs, irmãos e disciplinas, grupos de autoajuda, entre vários outros. No momento da eleição, parte significativa desses atores não trabalha pelo PT, mas por outros candidatos.</p>
<p><b>Essa juventude com quem o senhor trabalha participou das manifestações contra o governo? Em caso positivo, por quê?</b></p>
<p>Não participou, não. Talvez haja exceções, mas seguramente não organicamente. Nas favelas, quase todo jovem sabe que essas falas “contra o governo Dilma” são, na verdade, elitismo e racismo mal disfarçados. A pauta da “corrupção” reforça a ideia de que todos são corruptos.</p>
<p><b>A juventude da direita tem em seus principais pontos a “meritocracia”, a redução do papel do Estado – e das políticas públicas –, a defesa da propriedade privada e da “liberdade individual”. De que modo essa agenda poderia atrair a juventude negra, pobre e excluída? A ideia do “individuo contra o Estado” tem algum apelo?</b></p>
<p>Essa agenda é fortemente rechaçada nas periferias, claro. Um “preto” sabe o quanto a meritocracia é perversa, o quanto há bloqueios para que ele chegue às universidades, o quanto o país é desigual. Conhece a hipocrisia das nossas elites, porque trabalha como lixeiro, catador, entregador de panfleto, motoboy, servente, atendente, auxiliar de serviços gerais, garçom. E também como camelô, faxineiro, flanelinha, cambista, sem falar dos mercados criminalizados. São Paulo tem 1 milhão de ex-presidiários, mais de 200 mil presos, dezenas de milhares em unidades de internação, clínicas de reabilitação, albergues. Só a cidade de São Paulo tem mais de 10 mil moradores de rua. As famílias diretas dessas pessoas, submetidas a todo tipo de humilhação cotidiana, somam de 15% a 20% da população do estado. Essas pessoas convivem com os “brancos” de uma posição específica, que permite muita reflexão, muita compreensão. E trocam muitas percepções entre elas, construindo valores e posições bem consistentes. Em suma, eles conhecem “o sistema”; meu trabalho de pesquisa é, basicamente, <i>traduzir</i> esses saberes numa gramática compreensível também para outros setores sociais.</p>
<p><b>O fato de o Lula ser operário, nordestino, muda alguma coisa? </b></p>
<p>Faz toda a diferença, claro. Mas Lula é Lula, Dilma é Dilma, Haddad é Haddad. As experiências pessoais importam, mas não é a lógica de partidos políticos a que mais importa, como eu dizia.</p>
<p>E<b>ssa polarização “playboys” e “pretos”. Tem preto que vira playboy ou quer virar playboy?</b></p>
<p>Tem sim, mas como os Racionais já diziam, há quase 20 anos, aí um “Preto Tipo A” vira um “neguinho”. Querer consumir as mesmas marcas ou desejar as mesmas motos dos “playboys” não se faz para se parecer com eles. Esse consumo é, ao contrário, elaborado como uma afronta a eles. Você não me queria aqui, mas aqui estou. Uma coisa é você ser pobre e andar de ônibus. Outra é ser pobre e andar com uma moto 1100 cilindradas. Ou não é?</p>
<p><strong>A</strong><b> escola, uma profissão, isso é visto como possibilidade de melhoria de vida?</b></p>
<p>Claro que sim, demais. Tomar o metrô às 11h da noite é ver uma multidão de jovens das periferias voltando da faculdade, depois de um dia todo de trabalho. O mercado de trabalho é praticamente bloqueado para quem não teve estudo. Por isso mesmo, para os que não conseguiram estudar, sendo ainda jovens, só restam os mercados mais subalternos: informais e, sobretudo, ilegais. Quem não quer isso para si, tendo o mínimo de condições, vai fazer jornada tripla e tentar se formar. Ainda assim, terá muita dificuldade para competir com os filhos das classes médias e elites no mercado<b>.</b></p>
<p><b>Tem playboy que pode ser mano ou não tem como?</b></p>
<p>A comunidade política que se elabora nas periferias tem como base uma atitude, o “proceder”, fortemente moralizado – paz, justiça, liberdade, igualdade, união são valores muito prezados. E não são universais; sabe-se que os inimigos não agem assim, e inimigos estão tanto dentro quanto fora das periferias. Alguém que “defende o pobre no tribunal”, por exemplo, pode ser visto como parceiro, aliado. Mas alguém que quer parecer malandro, falando “gíria”, não<b>.</b></p>
<p>Há fronteiras muito tensas que permitem passagens controladas, reguladas, entre os lados. Fronteiras que dependem das situações, das reputações, das performances sociais cotidianas. Mas hoje essa polaridade é muito forte. Quando ando com meninos do fundo das favelas pela cidade, reparo no estranhamento absoluto que essas companhias produzem. Quando eu mesmo ando pelas favelas, pelas biqueiras, bares, pela cracolândia, vejo como minha presença também causa estranhamento ali. Mas sem dúvida, as favelas são muito mais inclusivas, menos preconceituosas, e muito menos perigosas para o estrangeiro do que os ambientes de elite.</p>
<p><b>E a religião? É uma ponte de inserção?</b></p>
<p>Na perspectiva com que trabalhamos, em grupo, não há exclusão. Há muita opressão, mas ninguém está fora do social. O dinheiro que se ganha com o tráfico de drogas, por exemplo, é gasto no shopping center, alimentando o mercado formal. Colocar centenas de milhares na cadeia não os isola do mundo social, mas, ao contrário, os inscreve muito fortemente no mundo reflexivo, crítico e criminal ao mesmo tempo.</p>
<p>A enorme maioria dos moradores das periferias são religiosos, de religiões tão díspares quanto o catolicismo, o pentecostalismo e o candomblé. Os evangélicos têm tido cada vez mais presença na disputa de recursos estatais, de comunicação, de mercado, de ações sociais e de construção das concepções de mundo.</p>
<p>&nbsp;		</p>
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