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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>A delegada, o coronel e os livros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Oct 2025 15:45:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Caruaru]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em que tipo de empreendimento um casal formado por uma delegada da Polícia Civil e um coronel da Polícia Militar decidiu investir depois que ela se aposentou e ele foi para a reserva? Se você não escolheu a última opção, preferindo as mais óbvias, lamento informar: você se precipitou. Na contramão dos estereótipos dos profissionais [&#8230;]</p>
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<p>Em que tipo de empreendimento um casal formado por uma delegada da Polícia Civil e um coronel da Polícia Militar decidiu investir depois que ela se aposentou e ele foi para a reserva?</p>



    <div class="lista mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #EBEB01;">
        <span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>1. </span>Empresa de vigilância privada;</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>2. </span>Clube de tiro;</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>3. </span>Cursinho para jovens interessados em prestar concurso para a polícia;</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>4. </span>Loja de armas;</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>5. </span>Livraria especializada em literatura universal e autores de esquerda, com exposições de arte e debates sobre temas progressistas.</p>
            </div>
            </div>



<p>Se você não escolheu a última opção, preferindo as mais óbvias, lamento informar: você se precipitou.</p>



<p>Na contramão dos estereótipos dos profissionais de segurança e da realidade do mercado editorial brasileiro, a delegada Rita de Cássia Valença e o coronel Givanildo dos Santos apostaram no interesse dos caruaruenses em ler clássicos, literatura contemporânea e ensaios sobre a revolução proletária.</p>



<p>Sejamos sinceros, quem escolheu a opção “1” acertou parcialmente.</p>



<p>O coronel Givanildo é dono de uma empresa de “gerenciamento de riscos” que já funcionava no mesmo prédio em que a <a href="https://www.instagram.com/cultural_livraria_cafeteria">Livraria Cultural</a> foi instalada em maio deste ano. A decisão de abrir um estabelecimento que funcionasse como espaço cultural foi de Rita, recém-aposentada: “revisitei muito o meu passado, percebi que queria algo completamente diferente de lidar com violência e crime. Sempre que pensava em abrir uma empresa ou negócio, a primeira palavra que me vinha à mente eram os livros”.</p>



<p>Em dois pavimentos, o térreo e um mezanino, a loja do casal de policiais está longe de ser uma megalivraria como a falida Cultura do Paço Alfândega, principal referência de Rita de Cássia. Mesmo assim, tem dois pavimentos, o térreo e o mezanino o que, convenhamos, parece imensa para uma cidade como Caruaru.</p>



<p>Espalhadas pela loja, há homenagens a livreiros e produtores culturais, com destaque para Tarcísio Pereira, o criador da famosa Livro 7. “Não o conheci pessoalmente, mas admiramos muito o legado dele”, admite a delegada, que, na juventude, pensou em cursar Biblioteconomia antes de optar por Direito.</p>



<p>O mais surpreendente é o conteúdo de suas prateleiras. Logo na entrada, há um espaço dedicado a livros que tratam de revoluções populares: soviética, sandinista, zapatista, vietnamita, cubana ou a comuna de Paris.</p>



<p>Entre as estantes ou por trás do balcão da cafeteria, a proprietária circula com seu boné verde-oliva com bandeirinha de Cuba e estrela vermelha. “O livro ainda é uma das formas mais potentes de resistência, de educação e de cuidado com o outro. A livraria é o meu jeito de contribuir para um mundo mais consciente e sensível”, explica a delegada.</p>



<p>O posicionamento da esposa, expresso na decoração e no acervo para que nenhum cliente tenha dúvidas, não incomoda o coronel Givanildo, um oficial que já foi comandante do batalhão de policiamento de Caruaru. “Partilhamos com grande força o pensamento político social, e isso, tornou mais prazeroso realizar em conjunto a construção deste ambiente de livros”, resumiu Givanildo.</p>



<p>“Muitos colegas esperavam que eu abrisse um clube de tiro, mas fizemos um clube de livros”. Givanildo é bom em frases de efeito, como se confirmará mais adiante.</p>





<h2 class="wp-block-heading">Vendas surpreendem</h2>



<p>E o público ainda compra livros? Em Caruaru não falta clientela, garante Givanildo. “Desde o início o movimento nos surpreende positivamente, não sei se é porque havia uma carência desse tipo de estabelecimento aqui na cidade, mas nosso resultado de vendas está ótimo, não temos do que reclamar”, explica o coronel da reserva e livreiro iniciante.</p>



<p>Segundo o casal, um dos trunfos do empreendimento é o modelo de negócios adotado. “Não é só uma livraria, é um espaço cultural, um ponto de encontro, um ambiente para pequenos eventos”, explica Rita de Cássia. Segundo ela, o desafio é manter o público interessado: “este é um trabalho permanente, as atividades precisam ser bem pensadas para que as pessoas sintam prazer em descobrir o quanto a leitura e o conhecimento podem ser fascinantes”.</p>



<p>Os livros que vão parar nas estantes são escolhidos sob critérios inegociáveis. Inflexíveis mesmo. “Nosso acervo é voltado à filosofia, história do mundo, história do Brasil, antropologia, psicologia e literatura”, explica a delegada, ressalvando que é preciso energia para conter as editoras que tentam empurrar apenas os gêneros que vendem milhões.</p>



<p>Bem humorado, seu marido faz a lista dos gêneros que, de jeito nenhum, são vendidos na Cultural: “não trabalhamos com livros de autoajuda, coach, pseudociência e dogmas religiosos!”</p>



<p></p>
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		<title>Motivos para ler &#8220;O avesso da pele&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Erika Muniz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Mar 2024 13:39:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[censura]]></category>
		<category><![CDATA[extrema-direita]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[livros]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quanto de reflexão crítica, poesia e identificação com os personagens é capaz de morar em 189 páginas de uma obra literária? A leitura do livro O Avesso da Pele (2020), de Jeferson Tenório, vencedor do Prêmio Jabuti de Romance Literário em 2021 traz muitos temas relevantes para a história do Brasil. Da complexidade das relações [&#8230;]</p>
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<p>Quanto de reflexão crítica, poesia e identificação com os personagens é capaz de morar em 189 páginas de uma obra literária? A leitura do livro <em>O Avesso da Pele</em> (2020), de Jeferson Tenório, vencedor do Prêmio Jabuti de Romance Literário em 2021 traz muitos temas relevantes para a história do Brasil. Da complexidade das relações étnico-raciais no país às subjetividades de homens negros, o romance aborda questões cruciais para a nossa sociedade.</p>



<p>Nascido no Rio de Janeiro, Jeferson Tenório, que também já publicou os romances <em>O Beijo na Parede</em> (2013) e <em>Estela Sem Deus</em> (2018), é radicado em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul – estado majoritariamente habitado por pessoas brancas. E é nesse cenário, localizado na região Sul que a narrativa se passa, trazendo a emocionante história da família de Pedro, o narrador, a cada capítulo.</p>



<p>Incluído no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), do Ministério da Educação (MEC), <em>O Avesso da Pele</em> vem sendo alvo de censura. Em vídeo postado pela diretora da Escola Estadual de Ensino Médio Ernesto Alves de Oliveira, na cidade de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, o livro foi criticado. Houve também ações de censura destinadas à obra pelo Núcleo Regional da Educação de Curitiba, no Paraná, além das ordens de recolhimento pela Secretaria Estadual de Educação de Goiás e do Mato Grosso do Sul.</p>



<p>Por conta da repercussão desses episódios autoritários, diversos artistas, personalidades e instituições ligadas às artes, à leitura e à educação – além da Companhia das Letras, editora responsável pela publicação de <em>O Avesso da Pele</em> – se posicionaram e publicaram notas em repúdio à censura e em defesa do autor e do livro.</p>



<p>Em entrevista exclusiva, o escritor Jeferson Tenório conversou sobre o romance <em>O Avesso da Pele</em>, como recebe as notícias de censura, como percebe a importância de políticas voltadas à leitura no país e conta um pouco sobre o processo de escrita por trás dessa obra.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Marco Zero<strong> &#8211; Qual é a sua maior alegria como escritor?</strong></p>



<p><strong>Jeferson Tenório </strong>&#8211; Minha maior alegria como escritor é conseguir ser lido, principalmente por quem está se formando como leitor. Um dos meus projetos literários é de formação de leitores. Escrevo os meus livros pensando nesse público – alguém que está se formando ainda como leitor.</p>



<p><strong>Em</strong><em><strong> O Avesso da Pele </strong></em><strong>(2020), você traça – entre outros temas – a subjetividade de um homem negro no nosso país. Queria que você contasse como foi a escrita desse livro e os atravessamentos dessa obra para você.</strong></p>



<p>O <em>Avesso da Pele</em> (2020) foi pensado já há muitos anos, antes mesmo de eu escrever o livro anterior, que é o <em>Estela Sem Deus</em> (2018). Eu já vinha pensando em escrever sobre a história de um professor que tinha dificuldades na escola e tinha dificuldades também com o filho. No primeiro momento, era fazer uma análise sobre esse professor, fazendo uma crítica também ao sistema educacional. Essa era a premissa do livro. Com o passar dos anos, fui percebendo que outros temas poderiam também entrar nesse livro, a questão racial acabou aparecendo e a violência policial também. Percebi que o tema principal do livro seria essa relação entre pai e filho e o quanto essa relação estava sendo atravessada por todas essas questões que passam pela violência e pelo racismo. Quando, em 2019, fechei o contrato com a editora, decidi pegar tudo o que eu já tinha pensado e comecei de fato a escrever o livro. Demorei em torno de um ano e meio para escrever. Esse processo de você escrever um personagem negro e as suas subjetividades partem daí, primeiro, de contar essa relação entre pai e filho e depois ver as peculiaridades. Ou seja, o que faz esse personagem negro que seja diferente de outras vivências, levando em consideração que é uma pessoa que vive no sul do país, onde majoritariamente as pessoas são brancas.<br><br><strong>A obra </strong><em><strong>O Avesso da Pele </strong></em><strong>(2020) vem sofrendo censura. Primeiro, por uma professora do Rio Grande do Sul, mas também foi pelo Núcleo Regional de Educação, no Paraná, além de Goiás, </strong><strong>onde,</strong><strong> inclusive, o governado</strong><strong>r Ronaldo Caiado (União Brasil) admitiu não ter lido o livro. </strong><strong>Como você recebe esses episódios e o que, na sua percepção, significa para a sociedade brasileira?</strong></p>



<p>Acho que é um ato que não é desconhecido. A gente já tem um histórico de recolha de livros, de proibições, de censura. É algo que já aconteceu na história do Brasil. Acho que o diferencial de hoje é que a gente tem o apoio das redes sociais, que é muito forte. De certo modo, a gente aprendeu também a reagir de maneira contundente. Foi o que aconteceu agora com <em>O Avesso</em>. Eu recebi muitas notas de apoio, pessoas, instituições, políticos, escritores, colegas se posicionando. Isso demonstra o quanto é grave, o quanto a gente entendeu que é grave essa recolha de livros. E também nos deixa atento para entender que há uma sofisticação desses atos autoritários. Para a recolha dos livros, o argumento que se utilizou é de que eles estavam sendo recolhidos para uma “avaliação pedagógica”, sendo que a gente sabe que os livros já foram avaliados. <em>O Avesso da Pele </em>já foi avaliado. Então, a gente tem aí um discurso autoritário, mas que vem disfarçado de um argumento pedagógico. Acho que a gente tem que ficar bastante atento, é muito sério o que está acontecendo e a gente não pode normalizar esse tipo de ação.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;A gente precisa de mais livrarias, menos farmácias. Menos farmácias, mais livrarias!&#8221;</p>
</div>


<p><strong>Se você não fosse escritor e professor, o que você gostaria de ser ou você acha que seria?</strong></p>



<p>Eu, sinceramente, não sei. Costumo dizer que a minha carteira de trabalho é um mosaico de carimbos de tantos lugares que já passei e que eu não me senti a vontade. Trabalhei com muitas coisas antes de me tornar professor. O lugar onde eu mais me senti confortável e que me dava motivação foi a sala de aula. Então, não consigo perceber o que eu faria se não fosse professor ou escritor. Acho que eu só consigo fazer isso da minha vida. Dar aulas e escrever.<br><br><strong>Como é conciliar esses dois ofícios?</strong></p>



<p>Estou fora da sala de aula desde 2022, fazem dois anos que saí. Eu dava aula em escolas públicas e particulares e, depois que <em>O Avesso da Pele</em> foi publicado, comecei a ter muita demanda de viagens e de palestras. Então, hoje a minha relação com a escola é diferente, é uma relação de eu ir na escola para falar com os alunos sobre o livro. Mas sinto bastante falta desse ambiente escolar, da troca de ideias na sala de aula.<br><br><strong>Qual a importância de políticas voltadas à formação de um público leitor e de fomento à leitura no Brasil?</strong></p>



<p>Acho que a gente tem tido bons projetos de leitura, sejam por políticas públicas ou por iniciativas das escolas. Há um trabalho sendo feito pelos professores em sala de aula, principalmente no Ensino Fundamental. No Ensino Fundamental I, o trabalho de valorização do livro, do autor, da leitura é ainda mais forte. O que falta talvez sejam projetos de lei que deem continuação a essas políticas públicas para que, se um próximo governo venha, elas não deixem de existir. É o que acontece, uma descontinuação de projetos de leitura, seja no ambiente estadual, federal, municipal. Acho que a gente precisa de leis que garanta que esses projetos sigam em frente. Além disso, a gente não pode achar que a escola é o único espaço de formação de leitores. Ela é um espaço importante. A gente precisa de bibliotecas comunitárias públicas. A gente precisa de mais livrarias, menos farmácias. Menos farmácias, mais livrarias! A gente precisa ter acesso ao livro de maneira mais fácil, mais barata. A própria confecção do livro, as editoras precisam de incentivos fiscais para conseguirem publicar mais livros, a circulação de autores pelo Brasil, mais festivais literários, mais bibliotecas nas escolas. É uma série de ações que eu acho que fazem com que a gente tenha, de fato, a formação de um público leitor.</p>



<p><br><strong>Vi que, após esses episódios de censura, </strong><em><strong>O Avesso da Pele</strong></em><strong> (2020) teve um aumento de vendas de mais de 1000%, querendo ou não vai chegar a mais pessoas. Como você recebe essa notícia?</strong></p>



<p>Acho que é efeito da censura. A censura e a proibição acabam atiçando a curiosidade das pessoas. Acho que também é uma reação positiva, no sentido de as pessoas entenderem que: “Bom, se estão proibindo, então, vamos comprar o livro, vamos distribuí-lo, vamos fazê-lo chegar em mais lugares.” Acho isso muito positivo, mexe também com o sistema editorial. Você tem aí livreiros envolvidos, gráficas, a própria editora, eu. Então, movimenta todo um sistema editorial. Isso é ótimo, é maravilhoso. Agora, o que me preocupa, e acho que é uma questão que a gente tem que pensar, é o que motiva as pessoas a irem atrás de um livro. Se a gente partir dessa ideia de que um livro só é procurado quando ele tem eventos extraordinários ou quando ele sofre algum tipo de violência, algum tipo de censura, é preocupante, porque a leitura não pode ser algo extraordinário – ou seja, eu não posso ir atrás do livro só porque ele foi censurado. Acho que a gente também tem que ter políticas públicas, incentivos de leitura que normalizem a presença do livro na sociedade e na vida das pessoas. Somos um país de quase 250 milhões de pessoas e o público leitor não chega a 2% de toda essa população. É pouca gente tendo acesso ao livro. Acho que a gente precisa pensar as motivações e, nesse sentido, até tenho brincado que a extrema-direita tem sido mais eficiente para levar as pessoas a lerem o livro.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/jeferson-debate.jpeg" alt="Foto colorida de um grupo de pessoas reunidas em um ambiente interno, onde uma mulher branco de cabelos loiros encaracolados que escondem seu rosto está falando ao microfone, enquanto as outras estão ouvindo atentamente. Entre as que estão ouvindo, sentado em uma poltrona marrom em frente a ela está Jeferson Tenório, homem negro, de cabelos curtos e barba preta já com fios grisalhos, vestindo uma camisa preta, com as pernas cruzadas. Parece ser um momento de comunicação e engajamento. em um debate ou roda de conversa." class="" loading="lazy" width="642">
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	                                        <p class="m-0">Escritor largou emprego de professor para atender a convites para eventos 
</p>
	                
                                            <span>Crédito; Instagram/@jeferson.tenorio.9</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Antes de um grande escritor, há um grande leitor. Como a escrita começou a fazer parte da sua vida?</strong></p>



<p>A escrita começou muito cedo, ela começou bem antes da leitura. Sempre fui uma pessoa muito imaginativa, uma pessoa que gostava de brincar sozinho. Isso me levou a criar histórias muito cedo. Aos 13, 14 anos, eu já tinha vários diários que escrevia sobre a minha vida. Mas eu não era um leitor, na verdade. Fui alfabetizado, fui para a escola, houve algumas tentativas das professoras de me fazerem ler, mas era algo que não me atraía. A leitura era algo que não estava nos meus planos. Aos 18 anos, escrevi a minha primeira novela, chamada<em> O perdão do destino</em>. Nunca foi publicada e nem será publicada. Era uma história bastante ruim, mas era a minha primeira tentativa de construir uma narrativa longa. Depois quando entrei na universidade, já aos 24 anos, no curso de Letras, eu comecei a ler literatura. Ali, eu percebi o quanto era difícil escrever. Tive acesso a Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Shakespeare e assim por diante. Fiquei um tempo, uns três ou quatro anos, sem escrever. Até que eu voltei já como leitor. Aí, comecei a escrever poemas, depois vieram os contos e depois vieram os romances. Mas a escrita sempre esteve presente em mim. Ela foi anterior à leitura.</p>



<p><strong>Como você percebe o avanço da extrema-direita nos últimos anos – sobretudo no sul do Brasil, que como você disse, há um maior número de pessoas brancas?</strong></p>



<p>Acho que essa extrema-direita, que tem ganhado espaço, de uma maneira que é assustadora, porque ela não causa muitos alardes. Por exemplo, a gente tem células nazistas sendo encontradas em Santa Catarina. Parece-me, pelas notícias, que essa questão está bem séria. Acredito que devem ter também em outros lugares. No sul do país, como é uma região majoritariamente de pessoas brancas, a situação das pessoas negras é muito delicada, principalmente no interior dos estados, tanto no Paraná, quanto Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, onde você tem uma tradição muito forte de imigrantes europeus e culturalmente também ela é valorizada. Essa valorização acaba apagando a contribuição de pessoas negras nesses estados. E consequentemente também vem junto o preconceito, o racismo. Há algumas propostas, principalmente no Rio Grande do Sul que eu tenho acompanhado mais, da bancada negra de vereadores que foi eleita em Porto Alegre, por exemplo, que tem se debruçado também em valorizar a cultura negra em Porto Alegre e também no Rio Grande do Sul, demonstrando o quanto a formação do estado deve muito também à população negra. Vejo que há esse esforço, de também trazer essa valorização. De certo modo, <em>O Avesso da Pele</em> também é um livro sobre isso, de valorizar a contribuição da cultura negra para a construção do estado.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;&#8230;somos seres políticos. Não tem como fazer literatura, sem acreditar na política&#8221;.</p>
</div>


<p><strong>Você acredita na política?</strong></p>



<p>Sim, acredito na política, acredito que somos seres políticos. Não tem como fazer literatura, sem acreditar na política.<br><br><strong>E no amor, você acredita?</strong></p>



<p>Também! Acho que esse é um tema bem interessante, principalmente, para nós, escritores negros, que temos que ser sempre combativos, que estar sempre militando e denunciando. Aí o afeto e o amor, eles acabam ficando meio de lado. Nos meus livros, sempre procuro contrabalancear isso. Em <em>O Avesso</em>, quando vou tratar do “avesso da pele”, ou seja, dos afetos, procuro justamente humanizar os meus personagens pelo amor, pelo afeto, pelas relações que se estabelecem com as outras pessoas. Acho que é um tema bem importante e acredito muito. É um sentimento transformador.<br><br><strong>O que você desejaria para o Brasil?</strong></p>



<p>Muitas coisas, mas talvez o que mais desejaria e que acho que mudaria o Brasil seria, pelo menos, a diminuição da desigualdade. Desigualdade em todos os setores, seja desigualdade racial, de gênero, econômica. Diminuir ou terminar a desigualdade é o que eu desejaria para o Brasil.</p>



<p><strong>Qual o livro, verso ou texto que de tão bom, você gostaria de ter escrito?</strong></p>



<p>Acho que tem momentos da minha vida que vou escolhendo livros que me atravessam nesses termos. Mas acho que ultimamente o que tem mais me provocado e sustentado também as coisas que eu penso é o livro <em>Terra Estranha </em>(1962), do James Baldwin, escritor norte-americano. Ele foi um dos primeiros autores negros que eu li. Ele tem uma passagem muito interessante nesse livro, que depois que um personagem negro morre, dois personagens brancos conversam. Esses dois eram muito amigos dele e um dos dois diz o seguinte: “Como pode? A gente viveu no mesmo bairro, a gente viveu as mesmas coisas, os dois eram pobres e por que isso aconteceu com ele?” Ele se questiona porque o personagem negro morreu. A outra personagem branca responde: “Claro que todos nós passamos pelas mesmas coisas. Fomos pobres, sofremos a violência por causa da miséria, mas uma coisa é você passar por isso por circunstâncias da vida e outra coisa é você passar por isso por causa da cor da pele.” Acho que isso é muito significativo. Você tem a contingência da vida de você passar por determinadas situações, mas isso é agravado por causa da cor da pele, que é algo que você não pode arrancar, que você não pode tirar e guardar no bolso. Acho que é uma reflexão que eu gostaria de ter tido, que eu gostaria de ter escrito.</p>



<p><strong>Em 2021, </strong><em><strong>O Avesso da Pele</strong></em><strong> venceu o prêmio Jabuti, na categoria de melhor romance literário. O que você percebe que mudou para você, como escritor, e em relação à validação do livro?</strong></p>



<p>O Jabuti é um prêmio bastante reconhecido, bastante importante. Lembro que quando eu fui indicado, fui olhar o histórico dos autores que já tinham ganhado e fiquei bastante ansioso porque, imagina, escritores que sempre admirei: Jorge Amado, Clarice Lispector, Rubem Fonseca, autores que ganharam o prêmio Jabuti de melhor romance literário. Ele tem esse apelo, esse reconhecimento. Mesmo as pessoas que não são ligadas ao mundo do livro, reconhecem que é um prêmio importante. E o livro já vinha numa caminhada de reconhecimentos de leitores, de crítica e tal. Quando chega o prêmio Jabuti, no final de 2021, quando virou para 2022, eu já não consegui mais ficar na escola porque a quantidade de convites, feiras, festivais que tinha que participar começou a ficar muito grande e não consegui mais conciliar a sala de aula com essas viagens. Nesse ponto de vista, acho que o prêmio Jabuti abriu muitas portas para mim. Continua abrindo. Mas sobretudo acho que tem esse selo de reconhecimento: “leiam porque foi reconhecido pelo Jabuti.” Acho que nesse sentido é bem interessante.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;&#8230;a leitura não pode ser algo extraordinário – não posso ir atrás do livro só porque ele foi censurado&#8221;.</p>
</div>


<p><br><strong>Sobre instituições ligadas às letras no Brasil, elas ainda são espaços – tanto de ideias, mas também quanto à presença – de predomínio de pessoas brancas. Mas Machado de Assis era um homem negro, que a história tentou enbranquecer. Agora, falando da Academia Brasileira de Letras, que Machado foi um dos fundadores, e que, recentemente, elegeu a historiadora Lilia Schwarcz, além de Gilberto Gil e Ailton Krenak que também foram eleitos “imortais” há pouco tempo. Mas a escritora Conceição Evaristo, que é um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea, não recebeu esse título. Como você percebe a importância de existir uma maior pluralidade em instituições ligadas às letras no país?</strong></p>



<p>Acho que o caso da ABL é mais peculiar. Porque, primeiro, não se trata de uma instituição pública, é uma instituição privada. Aí, eles estabelecem critérios. Esses critérios também têm a ver com toda uma tradição da Academia, que eu desconheço totalmente, o que sei é de reportagens. É também um lugar que por ter uma tradição tão longa, demora acho que bastante para conseguir acompanhar os movimentos da sociedade. Nesse sentido, a ABL é um pouco conservadora de entender os movimentos da sociedade e de agir também rapidamente. No caso da Conceição Evaristo, acho que a não entrada da Conceição, quem sai perdendo é a Academia de Letras. Isso eu já disse outras vezes. Quem está perdendo é a Academia Brasileira de Letras, de não ter uma intelectual, uma escritora como a Conceição Evaristo. Por outro lado, a não entrada da Conceição, de certo modo, também abalou a ABL, que foi bastante criticada e isso fez com que, de certo modo, pavimentasse a entrada de escritores que não fazem parte desse perfil que a gente está acostumado a ver. Então, a entrada do Gilberto Gil, Ailton Krenak. A entrada da Lilia Schwarcz, acho que ela é uma das poucas intelectuais brancas, no Brasil, que se debruça sobre a questão racial há muitos anos. Na década de 1990, ela já estava escrevendo e escreveu um livro bastante importante chamado <em>O Espetáculo das Raças</em> (1993). Foi por onde comecei o meu letramento racial. Enquanto os intelectuais brancos não estavam falando sobre isso, pelo menos a Lilia já estava falando. Então, não é uma coisa de moda, é um percurso que é bastante importante. Acho que a entrada dela lá também deve ser comemorada, nesse sentido, de alguém que é aliado, porque todas as pessoas brancas foram beneficiadas pelo processo escravagista. Todas. Mas nem todas as pessoas brancas são signatárias do racismo. Nem todas as pessoas brancas são racistas, essa é a questão. As pessoas brancas que são aliadas, a gente tem que dialogar, que conversar e essas pessoas, que são aliadas, podem usar o seu prestígio, o seu privilégio para conseguir minimizar o racismo e promover ações antirracistas. E mais do que isso, fazer com que a branquitude se pense. Acho que é uma pena que a Conceição não entrou e acho que é um lugar merecido para ela. Mas também fico feliz que quem tenha entrado seja uma pessoa como a Lilia, que é alguém comprometida com a causa. E não é de agora.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/03/jeferson-livro-suecia.jpeg" alt="Foto colorida de diversos livros expostos em uma livraria. Os títulos dos livros estão em sueco, entre eles uma edição de capa dura de O avesso da pele, cujo título em sueco é Hudens avigsida. A capa do livro é semelhante à edição brasileira, com ilustração de homem negro sem camisa, sobre um trampolim, prestes a mergulhar em uma piscina azul claro." class="" loading="lazy" width="509">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">&#8220;O avesso na pele&#8221; exposto em livraria na Suécia
</p>
	                
                                            <span>Crédito; Instagram/@jeferson.tenorio.9</span>
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<p><strong>Para muitos leitores seus, você se torna uma referência, a partir da experiência da leitura de suas obras. O que você gostaria de dizer, antes de finalizarmos, para seus leitores, sobretudo os daqui de Pernambuco que vão ler ou já leram seus livros?</strong></p>



<p>Já estive no Recife algumas vezes, é uma cidade que gosto muito. Gosto muito de voltar a Pernambuco e, nas vezes que fui, vi coisas muito bonitas. Embora <em>O Avesso da Pele</em> tenha sido escrito dentro do contexto do sul, as pessoas se identificam com várias passagens do livro. Isso me deixa muito feliz e contente: fazer um livro que vem de um lugar específico, mas que as pessoas de outros lugares conseguem se identificar. Então, fico muito grato aos leitores de Pernambuco, nas escolas em que eu fui. E faço um convite para quem não leu ainda chegar n’<em>O Avesso da Pele</em>.</p>
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		<title>Seborreia, seu Souza e a resistência dos livreiros de rua no centro do Recife</title>
		<link>https://marcozero.org/seborreia-seu-souza-e-a-resistencia-dos-livreiros-de-rua-no-centro-do-recife/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Jan 2024 23:01:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Avenida Guararapes]]></category>
		<category><![CDATA[livreiros]]></category>
		<category><![CDATA[livros]]></category>
		<category><![CDATA[prefeitura do Recife]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Livros de diferentes temas e gêneros cuidadosamente organizados nas calçadas da avenida Guararapes. Quem passa não deixa de reparar, mesmo que às pressas, com o trabalho dos livreiros de rua. São, no mínimo, 50 anos de histórias e resistência com a sucessão de gerações apaixonadas por literatura. Apaixonados pelos encontros, pelo olho no olho e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Livros de diferentes temas e gêneros cuidadosamente organizados nas calçadas da avenida Guararapes. Quem passa não deixa de reparar, mesmo que às pressas, com o trabalho dos livreiros de rua. São, no mínimo, 50 anos de histórias e resistência com a sucessão de gerações apaixonadas por literatura.</p>



<p>Apaixonados pelos encontros, pelo olho no olho e pela troca que a leitura pode proporcionar. A área conhecida por alguns como &#8220;polo livresco&#8221;, abarca aproximadamente 20 livreiros, em sua maioria homens, que ganham a vida há anos com a venda de livros usados.</p>



<p>É possível enxergar as marcas do tempo em vários deles, basta parar para conversar um pouco sobre o assunto para perceber que essas marcas guardam muita experiência e conhecimentos sobre áreas distintas, fruto da proximidade diária com os livros.</p>



<p>Entre os livreiros de longa data está Oliveiros Souza, um senhor de 72 anos de idade, onde 50 são dedicados à venda de livros e mais de 30 à venda de obras usadas na calçada do prédio lilás, onde funcionou, durante poucos anos, uma faculdade particular. Religiosamente, de segunda a sábado, o homem sai do bairro de Sapucaia, em Olinda, para exercer sua profissão com toda a dedicação que poderia ter.</p>



<p>“Uma coisa que eu admiro muito é o meu trabalho. Nunca larguei os livros, porque sempre gostei de ler, já li muita coisa boa, muitos autores bons”, afirma seu Souza, figura muito conhecida naquela região da cidade. Mas as transformações do tempo também impactaram o trabalho desses profissionais.</p>



<p>“Tem um ditado que diz: nada substitui um livro. Mas depois que a tecnologia avançou, veio o celular, veio o computador, aí diminuíram as vendas. A gente já teve ocasiões de vender muitos livros aqui, anteriormente, sabe? Agora, a gente vende mais devagar. Mas sempre vende, porque quem gosta de livro não quer saber de outra coisa”, reforça.</p>



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	                                        <p class="m-0">Elizeu Espíndola e Oliveiros Souza, diferentes gerações de livreiros de rua do Recife. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo 
</p>
	                
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<p>Essa mesma paixão e a capacidade de ver nas obras literárias pontos chaves para quebrar paradigmas e transformar percepções sociais, sobretudo nos territórios do Recife, fez com que o educador social Elizeu Espíndola, criasse o <a href="https://www.instagram.com/seborreia_recife/">Seborreia Recife</a>.</p>



<p>“A gente faz aquilo que chamamos de intervenção cultural literária na cidade. Para mim, o sebo guarda uma semelhança com os ambulantes, com o comércio de rua, e tá dentro de uma particularidade que eu chamo de agentes culturais do asfalto. Que é o livreiro, o artista de rua, o músico, o cara que tá ali trampando com artes, com desenhos. Então, essa categoria de trabalhadores do asfalto contribui para o desenvolvimento de uma cidade”, declara Elizeu.</p>



<p>Diferente dos livreiros de rua tradicionais, Elizeu encontrou uma outra forma de circular com os livros, itinerante. Seborreia nasceu em 2018 também no centro do Recife, mas com a pandemia surgiu a necessidade de reinventar essas &#8220;intervenções culturais literárias&#8221;.</p>



<p>Hoje, a maior concentração das vendas de livros acontece de forma virtual. Na descrição da página do instagram o segmento é claro: somos uma sebo independente, virtual e andante do Recife. Para isso acontecer, a curadoria é realizada com os livreiros que permanecem nas ruas. Sempre que possível, o homem de 47 anos, sai na missão de garimpar obras que direcionem o olhar do leitor para as nuances da sociedade.</p>



<p>As temáticas giram em torno de dois eixos: cultura e ciências humanas, duas paixões do livreiro. Priorizando obras de grandes pensadores das humanidades e títulos de autores regionais, livros que não estão em evidência nas estantes das grandes livrarias &#8211; as poucas que sobraram. “A gente vem com esse sonho de ocupar a cidade que amamos como um direito nosso. Com essas intervenções para despertar e fomentar cada vez mais a formação de sujeitos críticos”,reitera.</p>



<p>Elizeu define o sebo como “um rio encantado, habitado por espécies também encantadas que lançam as iscas que fisgam esse personagem, esquizofrênico e insaciável, que é o leitor, sempre ávido por conhecimento e aventuras”.</p>



<p>Mas esse amor e a necessidade de compartilhar não é recente. Elizeu recorda que só depois de dois anos de Seborreia se deu conta que esteve presente como protagonista na construção de duas bibliotecas na igreja evangélica em que frequentava durante a adolescência.</p>



<p>“Depois fui fazendo as pontes com isso, com o quanto me dava prazer em estar aumentando esse espaço, ou seja, não apenas usar o espaço dessa relação com o livro como uma coisa particular minha. Mas o quanto desde aquele momento percebi que isso não podia ser algo que está contido apenas em mim, havia a necessidade de compartilhar com outras pessoas”, relembra.</p>



<p>Para ele, ocupar esse lugar de livreiro é existir como um “guardião que é responsável por manter as margens limpas e acessíveis e garantir a preservação e a renovação das espécies”. Com a capacidade de circular e promover, não só a reflexão, mas a troca e o diálogo com os leitores.</p>





<h2 class="wp-block-heading">Livreiros versus prefeitura</h2>



<p>Apesar de ser uma atividade tradicional do centro, os sebistas e livreiros dizem que são ignorados pela prefeitura do Recife, inclusive nos debates do projeto Recentro. Há 50 anos, todos os domingos, acontece a feira de livros, também na Guararapes. No entanto, quando começou o projeto<a href="https://www2.recife.pe.gov.br/noticias/11/04/2022/projeto-viva-guararapes-anima-populacao-com-vasta-programacao-no-centro-do" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> Viva Guararapes</a>, projeto da gestão municipal para ocupar e movimentar a avenida, conhecida pela insegurança principalmente aos finais de semana, esses livreiros foram remanejados para a entrada da Praça do Sebo.</p>



<p>“A prefeitura decidiu por invisibilizar a feira [nos dias do Viva Guararapes], quem chega aqui nem sabe que existe esse evento há 50 anos. É uma grande crítica que eu tenho sobre a maneira como essa gente tem gerido a cidade”, afirma Elizeu.</p>



<p>Mas essa invisibilização não acontece apenas na Guararapes, em agosto deste ano, Elizeu teve seu acervo apreendido por uma equipe da prefeitura durante uma de suas intervenções itinerantes,  que acontecia próximo ao 20º Festival A Letra e a Voz no Recife, no Recife Antigo.</p>



<p>Ironicamente, um livreiro de rua não poderia ocupar um espaço, escolhido estrategicamente por traz da feira, para &#8220;não incomodar ninguém&#8221;.A crítica não é ao evento, já que a proposta é trazer diferentes formas de arte e, também, a cultura e a poesia negra e periférica para evidência, mas como a Prefeitura pensa a exposição dessa cultura deve acontecer. </p>



<p>Elizeu relembra que um agente do Recentro chegou com seguranças questionando e dizendo que aquele não era uma forma de expor, se liberasse para ele, outras pessoas chegariam e seria um caos. &#8220;Então eu questionei: eu não entendo, outros livreiros de rua podendo ocupar esse espaço cultural, em um evento literário, pra vocês isso aqui é uma desordem? É aquela ideia de que quem ocupa a rua vai sofrer sempre desse estigma, tá ligado? E eu penso que é muito ao contrário&#8221;, afirma o livreiro que até hoje está com o material apreendido. </p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/recentro-e-mais-um-programa-de-revitalizacao-do-centro-do-recife-que-precisa-concretizar-projetos/" class="titulo">Recentro é mais um programa de revitalização do centro do Recife que precisa concretizar projetos</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/territorio/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Território</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p></p>
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		<title>A fé e o fuzil: como as igrejas evangélicas e o PCC mudaram o mundo do crime</title>
		<link>https://marcozero.org/a-fe-o-fuzil-como-as-igrejas-evangelicas-e-o-pcc-mudaram-o-mundo-do-crime/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Oct 2023 19:54:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Principal]]></category>
		<category><![CDATA[igrejas neopentecostais]]></category>
		<category><![CDATA[livros]]></category>
		<category><![CDATA[PCC]]></category>
		<category><![CDATA[Violência]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Samarone Lima* O jornalista Bruno Paes Manso trabalhava na redação da revista Veja, em 1999, quando recebeu uma pauta especial: investigar o que estava por trás da febre de chacinas, que se tornara rotina em Paulo. Só naquele ano, foram 78, com 274 mortos.Não imaginaria que a primeira entrevista, com um matador, iria levá-lo [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Samarone Lima*</strong></p>



<p>O jornalista Bruno Paes Manso trabalhava na redação da revista Veja, em 1999, quando recebeu uma pauta especial: investigar o que estava por trás da febre de chacinas, que se tornara rotina em Paulo. Só naquele ano, foram 78, com 274 mortos.<br><br>Não imaginaria que a primeira entrevista, com um matador, iria levá-lo a uma jornada pessoal, que transformaria sua própria maneira de ver a periferia, as relações humanas, e sua própria trajetória como jornalista. Tinha 28 anos e descobriu um universo paralelo de brutalidade e violência &#8211; o universo dos matadores.<br><br>Resolveu continuar as entrevistas, para tentar entender o que estava por trás daquele mundo. Homens que já tinham matado muita gente, mas não demonstraram nenhum arrependimento, e tinham certeza absoluta que nenhuma das vítimas era inocente.<br><br>“Fiquei muito, muito impactado com esse material. Eram pessoas que moravam a cinco quilômetros de mim. Além de afirmarem que nunca tinham matado nenhum inocente, me explicavam sobre o ciclo de vingança, sobre a guerra que eles se envolviam, uma guerra territorial e havia uma certa moralidade que eles compartilhavam”.<br><br>Ele cita a aproximação com Alexandre, uma de suas fontes, preso em 1998, e condenado a 58 anos de prisão. Quem ajudou na aproximação foi uma ex-professora do criminoso no ensino fundamental, Jucileide Mauger, conhecida como Tia Ju, que se tornou diretora da escola Oliveira Vianna, no Jardim Ângela. Ela explicou como fazer contato com Alexandre na prisão para que Bruno enviasse a primeira correspondência, perguntando se topava conversar. Reservei para o final do parágrafo uma informação que vale por dezenas de balanços policiais: “Jucicleide me contou que, entre os anos 1980 e 1990, quando dava aulas na escola [do ensino fundamental], perdeu mais de 100 alunos assassinados”.</p>



<p>O jornalista foi tomado pelo tema. Seguiu pesquisando, entrevistando, fazendo conexões, descobrindo novas fontes. Para ter mais ferramentas, na busca da compreensão daquele mundo tão complexo em que a violência é um beco sem saída, buscou novas ferramentas: entrou num mestrado da Universidade de São Paulo (USP) e virou pesquisador.<br><br>O primeiro livro que publicou, em 2005, revela suas buscas: <em>O homem X: uma reportagem sobre a alma do assassino de São Paulo</em> (Record).</p>



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	                                        <p class="m-0">Bruno Paes Manso. Crédito: Instagram @manso.b</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Não é comum jornalistas buscarem a alma de seus entrevistados. No máximo, com algum tempo e paciência, algumas revelações mais profundas.<br><br>Suas pesquisas chegaram a outro fenômeno que nasceu na Casa de Custódia de Taubaté, em 1993, mudando a forma de gerenciar e controlar a violência: o Primeiro Comando da Capital (PCC).<br><br>Em 2018, Bruno publicou<em> A guerra: A ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil</em> (Todavia).<br><br>O mundo da criminalidade passou por uma nova transformação radical. Uma espécie de novo paradigma surgiu. Por decreto, estupros nas prisões foram proibidos, bem como o uso do crack. Com o passar do tempo, até para matar, era preciso apresentar justificativas e ter autorização da organização. Os velhos matadores, de gatilho fácil, perderam a força da justiça com as próprias mãos. Os fuzis tinham agora gerenciamento e era preciso obediência ao Comando.<br><br>Ao refazer contato com vários matadores, para novas entrevistas, ficou surpreso com um novo fenômeno: muitos deles tinham largado os revólveres, por causa da Bíblia. Eram agora ex-matadores, evangélicos cujo novo trabalho, ao invés do gatilho, era salvar almas do caminho do mal.<br><br>Nas conversas com esses homens que tinham se arrependido, ao passar por conversões das igrejas pentecostais, mudando completamente o comportamento, refazendo a vida e passando a lutar contra o mal, a Bíblia se tornava a nova arma. Era, na verdade, um mar de gente que adotava uma nova postura para viver, muito mais que sobreviver. Para isso, o “Não matarás” virou algo importante.<br><br>Era mais uma face do fenômeno que avança no Brasil de forma irreversível, cuja forma mais visível era quase caricata, com pastores ocupando grande parte da grade da TV, grandes templos e o crescimento das bancadas evangélicas em todo o país.<br><br>Em 1982, o Brasil tinha 12,1 mil templos evangélicos. Em 2022, eram 178.511 – uma média de 11 novos templos por dia.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A fé e o fuzil</strong></h2>



<p>Depois de 40 anos quase ininterruptos de crescimento, nos anos 2000 São Paulo passou a testemunhar uma queda contínua no número de assassinatos. Era algo inédito, porque nada impactante havia acontecido nas políticas de Segurança Pública. Ano após ano essa redução seguiria firme e, depois de duas décadas, alcançaria mais de 80% de queda, levando a taxa de homicídios a se tornar a menor entre todos os estados brasileiros.</p>



<p>O que teria acontecido? Melhor: o que está acontecendo? Esta é a principal questão a ser respondida pelo novo livro de Bruno Paes Manso, <em>A fé e o fuzil: Crime e religião no Brasil do século XXI </em>(Todavia).</p>



<p>O livro vai em busca de resposta para perguntas complexas:</p>



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<p>De que modo o crime no Brasil se transformou com o crescimento das igrejas evangélicas a partir dos anos 1990? Como trajetórias individuais de criminosos foram afetadas a partir do contato com as novas denominações religiosas? Quais respostas as igrejas evangélicas oferecem que o catolicismo tradicional não oferecia? Como se relacionam o crescimento evangélico e o fluxo migratório para as cidades, decisivo para a compreensão do crime no país? De que modo valores conservadores associados às denominações evangélicas se tornaram centrais para a política brasileira?</p>



<p>Um parágrafo do livro parece sintetizar esta série de fatores aleatórios, que parecem não ter conexões, mas se tornam uma percepção de quem estava procurando, por muito tempo, uma resposta &#8211; ou o fio da meada:</p>



<p>“Tanto o PCC como as igrejas pentecostais são instituições criadas pelos pobres, para os pobres, que produziram novos discursos capazes de reprogramar as mentes. O novo Brasil pobre e urbano começava a inventar formas de se governar. Elas nasciam da miséria, nas ruas esburacadas das periferias, nas igrejas evangélicas e nas prisões, e eram alternativas de gerar ordem e propósito, que, nas décadas seguintes, ajudariam a definir o futuro brasileiro”.</p>



<p>Enquanto o Estado oferece uma polícia violenta, despreparada, presídios lotados, leis cada vez mais severas, para buscar, inutilmente, “controle e ordem”, os evangélicos pentecostais foram ampliando seus domínios com a força de suas mensagens.</p>



<p>Mais que mensagens. No livro, em diversos relatos, os pentecostais surgem para dar aos pobres “um pacote de crenças que os faça vencer neste mundo que já está pronto e que um dia pode acabar”.</p>



<p>A luta, portanto, não é individual.</p>



<p>“Para sobreviver, é preciso criar redes e ganhar dinheiro, encarar a realidade sem depender de favores”.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O exército precisa crescer</h3>



<p>Um aspecto abordado pelo livro é a “batalha espiritual” travada com apoio dos canais de comunicação em massa, celulares e redes, igrejas grandes e pequenas, espalhadas por bairros pobres. As mensagens precisam ser contagiantes, dar respostas convincentes, estimular atitudes práticas, furar as bolhas, chegar aos lugares onde estão os mais vulneráveis.</p>



<p>“A busca deve ser feita entre os que mais precisam, dentro dos presídios, asilos, hospitais; nas cracolândias, abrigos, favelas; entregando sopas, alimentos, cestas básicas, roupas, tudo na tentativa de estabelecer vínculos e promover transformações individuais e apontar caminhos”, acrescenta o jornalista.</p>



<p>“Autoridade, ordem, propósito, redes de apoio. De repente, uma a nova forma de poder definia a direção do futuro do Brasil. Quanto mais popular e abrangente, mais a mensagem se normaliza e faz parte da cultura”.</p>



<p>Esta mensagem é recorrente, na vida dos brasileiros.<br><br>“Pode ser vista no show sertanejo ou na final do campeonato de futebol, na celebração dos gols e das vitórias mais importantes, quando o crente aponta os dedos indicadores para cima, como se compartilhassem com Deus os sucessos de sua vida”.</p>



<p><strong>* Jornalista, poeta e escritor, mestre em Estudos da América Latina pela USP</strong></p>



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