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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>A rezadeira do sertão do Moxotó que atrai gente de todo o Brasil à procura de bençãos, orações e proteção</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Géssica Amorim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Nov 2021 21:19:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Dona Helena Alves de Siqueira, 77, é uma das rezadeiras mais famosas do sertão do Moxotó. Moradora do povoado Mulungu, zona rural de Custódia, há mais de 50 anos, ela recebe em sua casa, todos os dias, pessoas que recorrem aos seus conhecimentos espirituais, buscando cura e proteção para o corpo e o espírito.&#160;&#160; Segundo [&#8230;]</p>
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<p>Dona Helena Alves de Siqueira, 77, é uma das rezadeiras mais famosas do sertão do Moxotó. Moradora do povoado Mulungu, zona rural de Custódia, há mais de 50 anos, ela recebe em sua casa, todos os dias, pessoas que recorrem aos seus conhecimentos espirituais, buscando cura e proteção para o corpo e o espírito.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Segundo dona Helena, o seu dom foi revelado em sonho, quando ela completou 22 anos. “Eu vi uma luz muito forte onde eu estava dormindo com meus filhos. E nesse tempo, não tinha energia, não tinha iluminação. Eu pensei que o candeeiro tinha caído e queimado a casa. Uma mulher muito bonita apareceu em meu sonho e me disse que eu tinha esse dom. Que eu tinha a missão de receber em minha casa pelo menos seis pessoas para rezar, benzer. Eu não sei ler, mas, graças a Deus, sei passar a palavra”. </p>



<p>Os visitantes de dona Helena, que ela costuma chamar de “pacientes”, são fiéis. Fazem visitas frequentes e chegam de toda parte. O povoado Mulungu recebe pessoas de outras cidades, de outros estados e até de outras regiões. “ Vem gente de Recife, Serra Talhada, Juazeiro do Norte, de&nbsp; Minas Gerais e também São Paulo. Se eu for dizer a você o tanto de gente que frequenta aqui, você não vai acreditar ”, conta a rezadeira.</p>



<p>Essa não é primeira vez que visito a casa de orações de dona Helena. Quem primeiro me levou até lá foi o meu amigo e conterrâneo Augusto Moraes, jornalista de sensibilidade admirável. Desde a nossa última visita, muita coisa mudou. O local onde acontecem as reuniões, que, no início, era improvisado num pequeno quarto pegado à casa de dona Helena, foi reformado e ganhou mais espaço. As fotografias de fiéis que tomavam as paredes do antigo quartinho &#8211; agora todo pintado de branco &#8211; foram retiradas e guardadas.</p>



<p>Parece uma casa nova, onde, inclusive, dona Helena se prepara para encerrar a sua missão. Ela pretende passar o seu posto para José Mateus, um de seus 17 netos. Dos descendentes da rezadeira, ele é o único que, segundo ela, demonstra ter nascido com o mesmo dom. “Ela me descobriu quando eu tinha 12 anos. Eu via e escutava muitas coisas, quando era pequeno. Cansava de ver. Era vulto, voz. Sonhava com muitas coisas. A minha mãe dizia que era coisa da minha cabeça, até eu contar a vó Helena. Quando comecei a frequentar as reuniões, os guias espirituais dela me revelaram como o sucessor”, conta Mateus.</p>



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	                                        <p class="m-0">O neto José Mateus, de 17 anos, é o herdeiro espiritual de dona Helena. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>Quando conversamos, Mateus estava se preparando para ir até Custódia, fazer a primeira prova do Enem deste ano. Ele quer ser psicólogo e deseja manter a casa de orações ativa mesmo depois de se formar. “Acredito que eu não poderei atender todos os dias, como minha vó atende, mas quero manter a casa aberta. E ela também vai continuar rezando de olhado, benzendo as pessoas. Só não vai poder mais fazer os trabalhos com os seus guias espirituais”.&nbsp;</p>



<p>Os guias espirituais a que Mateus se refere seriam os espíritos de duas das oito beatas que viviam em torno do padre Cícero Romão, Maria de Araújo e Joanna Tertulina de Jesus (a beata Mocinha), frequentemente citadas como testemunhas dos supostos milagres do padre do Juazeiro. Dona Helena &#8220;trabalhou&#8221; com a beata Maria Araújo durante 18 anos e, depois, seguiu com a beata Mocinha, com quem &#8220;trabalha&#8221; até hoje. Quanto aos guias espirituais de Mateus, que são outros, o rapaz diz que só poderá revelá-los quando assumir o lugar de sua avó.</p>



<p>Mateus não demonstra insegurança quando perguntado se está pronto para levar adiante a missão, o prestígio e a confiança que dona Helena conquistou. “Na verdade, eu não acho que estou pronto. Eu tenho certeza. Como a minha avó Helena sempre fala, eu nasci pronto pra isso. Eu também já não tenho escolha, tenho que estar preparado”.</p>



<p> Mesmo com o sol forte e as condições precárias das estradas de terra que dão acesso à casa da rezadeira, o seu espaço de oração nunca está vazio. Há mais de dez anos, o agricultor Manoel Oliveira, 58, morador de Rio da Barra, distrito do município de Sertânia, visita dona Helena com frequência. “Quem vem pra cá, tem que ter fé, mesmo. As estradas do jeito que estão, fica ruim pra passar carro baixo. Além da necessidade, tem que acreditar. Hoje eu vim do Rio da Barra  trazendo o meu neto para fechar o corpo. Com dona Helena, tudo sempre dá certo”.</p>



<p>Dona Helena não cobra nenhum valor pelas consultas espirituais que oferece a quem lhe procura. Cada um retribui como quer ou como pode. “Nunca cobrei um centavo de ninguém. Já vi várias pessoas chegando aqui amarradas até com corrente de arado. Quem me deu a missão não me permite fazer isso e eu também não quero cobrar. Eu vivo pra ajudar as pessoas”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Dona Helena preparou sua casa para &#8220;encerrar sua missão&#8221;. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo</p>
	                
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		<title>Técnica, misticismo ou intuição? A tradição de achar água usando gravetos segue viva no sertão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Géssica Amorim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Jun 2021 14:42:00 +0000</pubDate>
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<p>Já faz 23 anos que a agricultora Maria do Socorro Teodoro, 57, é conhecida por ter boa energia para marcar poço. Moradora do povoado Aroeira, zona rural do município de Betânia, no Sertão do Moxotó, ela garante nunca ter falhado numa indicação. Usando uma forquilha improvisada, em formato de “Y”, retirada de um galho de árvore qualquer, ela caminha por um algum terreno que contenha recursos hídricos, com o propósito de indicar o local exato para a perfuração de um poço artesiano.&nbsp;</p>



<p>O método usado por Socorro é chamado de hidroestesia. A sua prática é derivada da radiestesia, técnica que mede a sensibilidade humana às radiações que são emitidas pelos vários materiais encontrados no subsolo, como minérios, petróleo ou, como nesse caso, água. O método não é considerado como científico, mas sim como algo artesanal, mas que facilita a vida de agricultores por todo o planeta há milhares de anos.&nbsp;</p>



<p>No século XIX, o explorador irlandês Thomas Joseph Hutchinson, em seu livro <em>Two Years in Peru</em> (Dois anos no Peru), publicado em 1873, na Inglaterra, traz registros de documentos arqueológicos peruanos datados de pelo menos 9.000 a.C., que mostram evidências do uso da hidroestesia na América Latina, para a busca de água no subsolo, já naquela época. No Egito, em 1949, nas cavernas de Tassili, foram descobertas pinturas rupestres que indicam o mesmo uso da técnica no continente africano há mais de 8 mil anos.&nbsp;</p>



<p>Os instrumentos usados para a prática da hidroestesia, em geral, são pêndulos, forquilhas em forma de “Y” e antenas em forma de “L”, feitas com fios de cobre.&nbsp;</p>



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	                                        <p class="m-0">Socorro Teodoro em seu sítio. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>Para a agricultora Socorro Teodoro, basta o uso da forquilha em formato de “Y”. Ao chegar a um determinado terreno, onde pretende fazer a marcação para a perfuração de um poço artesiano, de pés descalços, ela se prepara para caminhar e observar o movimento da forquilha. À medida que Socorro caminha, o graveto faz um giro de 180 graus, apontando para o chão e indicando o local onde existem veios de água para perfuração.&nbsp;</p>



<p>A primeira vez que Socorro marcou um poço foi em 1998, numa roça que até hoje pertence à sua família.&nbsp; Na época, foi cavado sem o auxílio das máquinas perfuratrizes, que, tecnicamente, são mais adequadas para a perfuração de poços. Foi com a ajuda de pessoas da sua família que, com poucas ferramentas, cavando 10 metros de profundidade, que Socorro encontrou um veio d’água com vazão de mais de 5 mil litros por hora. A água do poço até hoje serve para o cultivo de pasto e alguns tipos de legumes plantados na propriedade. Ao todo, Socorro Teodoro já marcou mais de 60 poços. Segundo ela, todos deram água. Alguns, marcados e perfurados em povoados vizinhos ao seu, chegaram a uma vazão de mais de 7 mil litros.&nbsp;</p>



<p>Com anos de experiência, a agricultora determinou um limite de apenas duas marcações por dia, pelo cansaço que a atividade traz ao corpo e à mente, como também por respeito a um dom que, ela garante, foi Deus quem lhe deu. “Eu só marco 2 poços por dia. Mais do que isso, não dá certo. Primeiro, porque a gente fica esmorecida, sem energia. Depois, porque a gente tem que respeitar o dom que Deus nos deu. Se foi ele quem deu, não pode abusar, exagerar. Água é uma riqueza”.&nbsp;</p>



<p>Socorro não vive em função daquilo que considera um dom divino, mas cobra R$ 100,00, valor quase simbólico para a valiosa tarefa de encontrar água no sertão.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Dom descoberto por acaso</h2>



<p>Também no sertão do Moxotó, dessa vez na zona rural do município de Custódia, no povoado do Caldeirão, o agricultor José Armando (conhecido na região como Mano), de 53 anos, marca poços há mais de dez anos. Da mesma forma que Socorro, ele também cobra pelo &#8220;serviço&#8221;, mas o preço da sua mão-de-obra é maior: R$ 300,00</p>



<p>Mano costuma usar em suas marcações uma forquilha e também duas antenas de cobre, que, ao passarem por cima de um veio d’água, se cruzam nas mãos do agricultor, indicando o local para a perfuração do poço. Com os dois instrumentos, Mano consegue obter resultados satisfatórios na busca de água pela sua região e em outros lugares para onde é chamado.&nbsp;</p>



<p>Só no povoado do Caldeirão, ele já marcou mais de 14 poços. O que foi marcado e perfurado no quintal da sua casa tem uma vazão de mais de 4 mil litros por hora. A água não é apropriada para o consumo humano, mas serve para o cultivo de frutas e legumes para toda a sua família.&nbsp;</p>



<p>Armando descobriu que tinha boa energia para marcar poços por acaso. Ele acompanhava um amigo que também é hidroestesista e decidiu tentar usar a forquilha da mesma maneira que via o amigo usá-la. A tentativa de Armando o surpreendeu positivamente. Ele também tinha sensibilidade para encontrar água embaixo da terra. “Eu fiz o teste só por brincadeira. Vi um amigo meu fazendo e fui testar também. Aí deu certo, eu fui desenvolvendo e aprimorando. Às vezes, a gente tem a energia boa e não sabe. Tem que praticar, ir desenvolvendo mesmo”.&nbsp;</p>



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	                                        <p class="m-0">Armando aprendeu a encontrar água com um amigo em Custódia. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>A prática radiestésica já foi considerada bruxaria e condenada pela Inquisição, na Europa medieval. Muitos radiestesistas foram perseguidos, torturados e mortos pela Igreja Católica por fazerem uso da “vara de adivinhação”, como era chamada a forquilha em forma de “Y”. No entanto, pela utilidade da técnica para a descoberta de água e outras riquezas naturais, muitos nobres e soberanos continuaram a utilizá-la sem qualquer prejuízo.&nbsp;</p>



<p>Quem estuda e tem interesse pela radiestesia costuma dizer que não são todos os seres humanos que conseguem desenvolver a habilidade para praticá-la. Supostamente, o radiestesista é como uma “antena” de captação de alguns tipos de energia. Alguns de nós, através da prática ou apenas do nível de sensibilidade, conseguem se destacar e decodificar sinais emitidos pela natureza.&nbsp;</p>



<p>No sertão, Socorro Teodoro e José Armando, considerados bruxos ou não, ajudam a levar água para quem precisa. São conhecidos em seus povoados como “sabidos”, pessoas que são admiradas por possuírem um “dom” ou uma habilidade que pouca gente tem ou pode desenvolver.</p>
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