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Técnica, misticismo ou intuição? A tradição de achar água usando gravetos segue viva no sertão

Géssica Amorim / 23/06/2021
Agricultora Maria do Socorro Teodoro

Já faz 23 anos que a agricultora Maria do Socorro Teodoro, 57, é conhecida por ter boa energia para marcar poço. Moradora do povoado Aroeira, zona rural do município de Betânia, no Sertão do Moxotó, ela garante nunca ter falhado numa indicação. Usando uma forquilha improvisada, em formato de “Y”, retirada de um galho de árvore qualquer, ela caminha por um algum terreno que contenha recursos hídricos, com o propósito de indicar o local exato para a perfuração de um poço artesiano. 

O método usado por Socorro é chamado de hidroestesia. A sua prática é derivada da radiestesia, técnica que mede a sensibilidade humana às radiações que são emitidas pelos vários materiais encontrados no subsolo, como minérios, petróleo ou, como nesse caso, água. O método não é considerado como científico, mas sim como algo artesanal, mas que facilita a vida de agricultores por todo o planeta há milhares de anos. 

No século XIX, o explorador irlandês Thomas Joseph Hutchinson, em seu livro Two Years in Peru (Dois anos no Peru), publicado em 1873, na Inglaterra, traz registros de documentos arqueológicos peruanos datados de pelo menos 9.000 a.C., que mostram evidências do uso da hidroestesia na América Latina, para a busca de água no subsolo, já naquela época. No Egito, em 1949, nas cavernas de Tassili, foram descobertas pinturas rupestres que indicam o mesmo uso da técnica no continente africano há mais de 8 mil anos. 

Os instrumentos usados para a prática da hidroestesia, em geral, são pêndulos, forquilhas em forma de “Y” e antenas em forma de “L”, feitas com fios de cobre. 

Agricultora Maria do Socorro Teodoro

Socorro Teodoro em seu sítio. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

Para a agricultora Socorro Teodoro, basta o uso da forquilha em formato de “Y”. Ao chegar a um determinado terreno, onde pretende fazer a marcação para a perfuração de um poço artesiano, de pés descalços, ela se prepara para caminhar e observar o movimento da forquilha. À medida que Socorro caminha, o graveto faz um giro de 180 graus, apontando para o chão e indicando o local onde existem veios de água para perfuração. 

A primeira vez que Socorro marcou um poço foi em 1998, numa roça que até hoje pertence à sua família.  Na época, foi cavado sem o auxílio das máquinas perfuratrizes, que, tecnicamente, são mais adequadas para a perfuração de poços. Foi com a ajuda de pessoas da sua família que, com poucas ferramentas, cavando 10 metros de profundidade, que Socorro encontrou um veio d’água com vazão de mais de 5 mil litros por hora. A água do poço até hoje serve para o cultivo de pasto e alguns tipos de legumes plantados na propriedade. Ao todo, Socorro Teodoro já marcou mais de 60 poços. Segundo ela, todos deram água. Alguns, marcados e perfurados em povoados vizinhos ao seu, chegaram a uma vazão de mais de 7 mil litros. 

Com anos de experiência, a agricultora determinou um limite de apenas duas marcações por dia, pelo cansaço que a atividade traz ao corpo e à mente, como também por respeito a um dom que, ela garante, foi Deus quem lhe deu. “Eu só marco 2 poços por dia. Mais do que isso, não dá certo. Primeiro, porque a gente fica esmorecida, sem energia. Depois, porque a gente tem que respeitar o dom que Deus nos deu. Se foi ele quem deu, não pode abusar, exagerar. Água é uma riqueza”. 

Socorro não vive em função daquilo que considera um dom divino, mas cobra R$ 100,00, valor quase simbólico para a valiosa tarefa de encontrar água no sertão.

Dom descoberto por acaso

Também no sertão do Moxotó, dessa vez na zona rural do município de Custódia, no povoado do Caldeirão, o agricultor José Armando (conhecido na região como Mano), de 53 anos, marca poços há mais de dez anos. Da mesma forma que Socorro, ele também cobra pelo “serviço”, mas o preço da sua mão-de-obra é maior: R$ 300,00

Mano costuma usar em suas marcações uma forquilha e também duas antenas de cobre, que, ao passarem por cima de um veio d’água, se cruzam nas mãos do agricultor, indicando o local para a perfuração do poço. Com os dois instrumentos, Mano consegue obter resultados satisfatórios na busca de água pela sua região e em outros lugares para onde é chamado. 

Só no povoado do Caldeirão, ele já marcou mais de 14 poços. O que foi marcado e perfurado no quintal da sua casa tem uma vazão de mais de 4 mil litros por hora. A água não é apropriada para o consumo humano, mas serve para o cultivo de frutas e legumes para toda a sua família. 

Armando descobriu que tinha boa energia para marcar poços por acaso. Ele acompanhava um amigo que também é hidroestesista e decidiu tentar usar a forquilha da mesma maneira que via o amigo usá-la. A tentativa de Armando o surpreendeu positivamente. Ele também tinha sensibilidade para encontrar água embaixo da terra. “Eu fiz o teste só por brincadeira. Vi um amigo meu fazendo e fui testar também. Aí deu certo, eu fui desenvolvendo e aprimorando. Às vezes, a gente tem a energia boa e não sabe. Tem que praticar, ir desenvolvendo mesmo”. 

José Armando hidroestesista

Armando aprendeu a encontrar água com um amigo em Custódia. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

A prática radiestésica já foi considerada bruxaria e condenada pela Inquisição, na Europa medieval. Muitos radiestesistas foram perseguidos, torturados e mortos pela Igreja Católica por fazerem uso da “vara de adivinhação”, como era chamada a forquilha em forma de “Y”. No entanto, pela utilidade da técnica para a descoberta de água e outras riquezas naturais, muitos nobres e soberanos continuaram a utilizá-la sem qualquer prejuízo. 

Quem estuda e tem interesse pela radiestesia costuma dizer que não são todos os seres humanos que conseguem desenvolver a habilidade para praticá-la. Supostamente, o radiestesista é como uma “antena” de captação de alguns tipos de energia. Alguns de nós, através da prática ou apenas do nível de sensibilidade, conseguem se destacar e decodificar sinais emitidos pela natureza. 

No sertão, Socorro Teodoro e José Armando, considerados bruxos ou não, ajudam a levar água para quem precisa. São conhecidos em seus povoados como “sabidos”, pessoas que são admiradas por possuírem um “dom” ou uma habilidade que pouca gente tem ou pode desenvolver.