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	<title>Arquivos mulher na política - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos mulher na política - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Eleições 2022: Pernambuco feminiza a linguagem e a política</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 Nov 2022 18:00:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Juliana Romão* A história de Pernambuco ganhou um novo capítulo político e linguístico em 2022. As eleições moveram para o feminino as forças políticas mais importantes no estado, com Raquel Lyra (PSDB) a primeira governadora ao lado da vice Priscila Krause (Cidadania), após uma igualmente inédita disputa feminina contra Marília Arraes (Solidariedade) e a [&#8230;]</p>
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<p><strong>Por Juliana Romão*</strong></p>



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<p>A história de Pernambuco ganhou um novo capítulo político e linguístico em 2022. As eleições moveram para o feminino as forças políticas mais importantes no estado, com Raquel Lyra (PSDB) a primeira governadora ao lado da vice Priscila Krause (Cidadania), após uma igualmente inédita disputa feminina contra Marília Arraes (Solidariedade) e a vitória da primeira senadora do estado, Teresa Leitão (PT). Uma guinada ao mesmo tempo conservadora e progressista.</p>



<p>Contrariando as projeções, foram as mulheres que reconduziram a direita tradicional ao comando estadual após 16 anos de gestão do PSB. A vitória de Raquel e Priscila, aliançada ao centro e à extrema-direita pernambucanas, nova oposição ao Governo Federal com Lula na presidência, redesenha as forças políticas locais. A dupla feminina – nunca no Brasil uma chapa só de mulheres venceu no executivo, encontrará apoio numa Assembleia Legislativa mais conservadora e extremista, tendo nomes do PP e do PL de Bolsonaro como os mais votados, e uma bancada pernambucana na Câmara Federal com três mulheres, a maior da história, embora ainda mínima em relação aos 22 homens eleitos, a maioria nomes de famílias tradicionais da política. A esquerda estadual só terá maioria no Senado Federal.</p>



<p>Além da orientação ideológica dos próprios partidos das eleitas, a correlação de forças tende a <em>endireitar</em> mais o governo de Raquel, só não se sabe o quanto e de que forma a agenda conservadora se manifestará nos nomes para as pastas, na estrutura e endereçamento de prioridades. O tom da relação com o governo federal modulará as animosidades locais e é ponto de muita expectativa pela declaração de “não declarar” voto à presidência ressoada por Raquel durante a campanha.</p>



<p>É certo que a inédita lente de gênero no topo da hierarquia estadual impactará a gestão, ao trazer outros pontos de vista e interesses ao debate público. O fato de ser mulher, no entanto, não representa necessariamente avanços nos direitos sociais ou das próprias mulheres. O gênero importa, mas é insuficiente sozinho. Para transformar as estruturas e promover mudanças reais, deve estar compromissado com uma agenda de justiça social, que enfrente as desigualdades raciais (tema ausente da campanha) e econômicas, centrando as políticas na população feminina, a maior e mais vulnerável do estado. Melhorar a vida delas é qualificar exponencialmente todo o entorno. Neste sentido, a presença de mulheres realmente diversas na gestão e a abertura para uma ainda distante aproximação com os movimentos sociais e de mulheres seria uma sinalização bastante importante, apesar de improvável. A ver.</p>



<p>Do ponto de vista linguístico, a reviravolta foi mais progressista. O processo eleitoral reverteu temporariamente a invisibilidade narrativa que acompanha as mulheres políticas por sua baixíssima participação nos espaços de poder. Pernambuco proporcionou um momento raro na cena política de um país em que a maioria da população (52%) e do eleitorado (53%) é minoria nos espaços de decisão. Raquel agora se soma à governadora reeleita do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), e serão as únicas em todo o país.</p>



<p>Enquanto forem poucas, o feminino estará ocultado na fala cotidiana. Vale lembrar a primeira e até agora única presidenta da história do Brasil, Dilma Rousseff (PT), que teve o pedido para ser chamada de presidentA desprezado pela grande mídia e pela elite. Não era uma rejeição à palavra, mas ao poder que ela significa – uma mulher na cadeira máxima.</p>



<p>A linguagem emoldura as relações de poder, por isso nossa fala serve para manipular e emudecer, abastecendo posições de mundo dominantes, mas pode ser ferramenta de mudança e democratização, quando ativada em outra direção. A campanha local e os resultados das urnas promoveram esse contramovimento, empurrando em sentido “anti-horário” as engrenagens da língua para reconhecer e visibilizar as mulheres políticas nas narrativas. Não todas, como sabemos, mas de forma suficientemente contundente a evidenciar que o apoio político-partidário real torna candidatas tão competitivas quanto qualquer candidato.</p>



<p>A presença de mais mulheres, sobretudo as negras, indígenas, PCDs, LBTs altera o ecossistema ao redistribuir poder, reconfigurando agendas, demandas e prioridades. Não é trivial. A representatividade diversa reverbera na forma como falamos e pensamos, o que por sua vez ativa novos símbolos e, num círculo positivo de transformação, amplia a semelhança entre a foto do poder e a da população.</p>



<p>Estas eleições não apresentaram a diversidade necessária, apenas as mulheres brancas, com herança política de família competiram com chances de vitória. Ainda assim, houve a mobilização de um imaginário pouco acessado pelo eleitorado, de protagonismo feminino no poder executivo, o que se via não correspondia às palavras habitualmente usadas no masculino: “os candidatos”, “os entrevistados”, “os eleitores”.</p>



<p>Já no primeiro turno, as candidaturas de Teresa leitão e Marília Arraes mantiveram liderança estável nas diversas pesquisas de intenção de voto, tendo necessariamente que ser citadas e consideradas prioritárias nas coberturas, análises sobre o pleito e nas estratégias de campanha de todas as outras candidaturas, a maioria masculinas.</p>



<p>Essa <strong>presença</strong> demandou um suave deslocamento narrativo, começando pela flexão de gênero &#8211; senadora/senador, governadora/governador, candidata/candidato – e avançando em outras searas. Para conversar sobre as eleições, eleitoras, eleitores, imprensa, equipes de campanha, analistas, instituições, todo mundo foi instado a corresponder gênero e cargo em disputa.</p>



<p>A flexão é a ponta visível de toda uma metamorfose que acontece na mente, passando por um chacoalhar das expectativas quanto à capacidade das mulheres, da ambição política de outras mulheres e meninas, de reforço à superação das desigualdades, desmonte de estereótipos e de reparação da trajetória de desvantagens que o feminino plural e o diverso enfrentam para acessar as estruturas institucionais. Falar é fazer.</p>



<p>No segundo turno, o protagonismo inevitável das duas candidatas travou a tendência da fala perspectivada no masculino. Se a disputa fosse entre uma candidata e um candidato, a força centrífuga da hegemonia social dominaria as sentenças: “os candidatos em disputa”, “eles debaterão hoje”.</p>



<p>Não houve atalho para ausentar da linguagem o marcador feminino que dominou o processo: duas mulheres em campanha pelo comando do executivo estadual, visíveis e ativas em debates públicos, explicando propostas, articulando, concedendo entrevistas, sendo as falas mais aguardadas nos espaços, notícia diária nos jornais, rádios, tvs, redes sociais, vocalizando a si mesmas como políticas, em primeira pessoa e com o próprio timbre de voz.</p>



<p>O outro lado da moeda, no entanto, indica que não estamos num novo tempo, apenas demos um passo na jornada de enfrentamento às desigualdades, lembremos que o Brasil segura a lanterna dos indicadores mundiais de representação feminina na política. Além da ausência de mulheres negras no debate, inúmeras situações preconceituosas e sexistas tiveram palco ao longo da campanha, com reforço a estereótipos e cobranças desproporcionais, desconectadas da política e nunca direcionada a candidatos.</p>



<p>Foram recorrentes as especulações em torno do uso eleitoral do infarto fulminante do marido de Raquel, patrulhamento de roupas, cabelos e estética em geral. A demanda popular incorporada nas estratégias das campanhas garantiu o lugar de esposa-mãe negritado nas posturas e nos discursos, como uma autorização social para que ambas possam estar na política, sem falar nos questionamentos sobre como se daria a licença-maternidade caso Marília, grávida, fosse eleita.</p>



<p>A postura mais contida das candidatas muitas vezes tentou neutralizar o próprio feminino, talvez como estratégia preventiva às recorrentes associações a destemperos, “agressividade”, “pouca firmeza”, muito isso, pouco aquilo, num julgamento implacável ao gênero, que pesa nos ombros de toda e qualquer mulher na cena pública, mais ainda se ela for negra, periférica, trans. E a política? vem depois do julgamento. É caro o pedágio para estar na vida pública.</p>



<p>Elas transpuseram violências intrapartidárias e inúmeras barreiras até tornarem-se “socialmente” visíveis, conquistando o direito de “existir” na correlação de forças políticas e nas referências de fala. Não aleatoriamente, e por isso mesmo a visibilidade pontual não esteve franqueada às demais. As candidatas negras, LBTs e periféricas em geral receberam menos recursos, vivenciaram mais violências, usaram menos o microfone.</p>



<p>Raquel Lyra, Teresa Leitão e Marília Arraes participaram das eleições com estrutura e financiamento, o contrário da usual prática partidária de baixíssimo apoio real às candidatas. Atuaram em posição de destaque, ocupando a mesa principal e o centro do debate público. Estiveram no poder <strong>com poder</strong>.</p>



<p>Essa diferença é premissa das cotas eleitorais de gênero e raça, exigir dos partidos candidaturas femininas diversas e competitivas – presença, recursos e visibilidade – para equilibrar minimamente a disputa desigual e superar a sub-representação. Vem daí a imensa resistência partidária em cumprir a lei: mulheres plurais competitivas são eleitas, se multiplicam e impõem a distribuição do poder político e linguístico.</p>



<p>*<strong>Juliana Romão pesquisa a interseção entre gênero, linguagem e política. Consultora em comunicação política, jornalista e mestra em Comunicação (UnB). É cofundadora e cogestora do projeto-ação Meu Voto Será Feminista, integrante da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma Política e da Frente Pelo Avanço dos Direitos das Mulheres. <a href="mailto:julianagromao@gmail.com">julianagromao@gmail.com</a></strong></p>



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<p></p>
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		<title>E se Marielle fosse vereadora no Nordeste?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Mar 2019 20:00:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[Ingrid Farias]]></category>
		<category><![CDATA[marielle franco]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="p1"><strong>Ingrid Farias*</strong></p>
<p class="p1">Hoje faz um ano da execução que arrancou de nós uma das maiores lideranças políticas que nosso país já teve, Marielle Franco, assassinada juntamente com seu motorista Anderson Alves, provocando o maior levante já visto em memória de um legado de luta e resistência nesse país. Não apenas por ser uma mulher na política, mas por ser uma mulher negra, lésbica, favelada, a atuação de Marielle incomodou a estrutura patriarcal que, até então, poucas vezes foi questionada por mulheres. Durante esses 12 meses vivemos de resistir e organizar as mulheres, em especial as mulheres negras e faveladas, mas por aqui no Nordeste também vivemos de nos perguntar: e se Marielle fosse vereadora aqui no Nordeste? E se ela tivesse sido assassinada numa cidade em outra região do país, essa repercussão seria tão grandiosa? Na verdade, sempre me pergunto se Marielle fosse vereadora em uma cidade nordestina, se o próprio mandato dela e suas ações tão aguerridas seriam também repercutidas com a mesma intensidade. Essas perguntas nos estremecem por dentro, estremecem o corpo das mulheres negras e nordestinas que têm o sonho de ousar disputar os espaços históricos de poder.</p>
<p class="p1">Conheci a companheira Marielle na construção do grupo político Partida, e sempre nos encontramos nas trincheiras da luta por uma nova política de drogas, pauta que ela sempre levou aos espaços denunciando o modelo de proibição das drogas como um projeto racista de segurança pública. Eu, militante da pauta antiproibicionista há 13 anos, Mari, militante da segurança pública há muito mais. Resolvi escrever esse texto porque, assim como muitas sementes desse país, eu também desejo ocupar &#8211; com toda força e resistência, como Marielle o fez &#8211; as eleições para vereança em 2020. Meu nome é Ingrid Farias, sou uma mulher negra, bisexual, mãe, favelada e nordestina. E essa última identidade me fez pensar esses dias como seria a repercussão de uma execução como essa, se o território fosse esse que eu vivo, o Recife, uma cidade de 2 milhões de habitantes e que também referenda uma lógica violenta e patriarcal nos espaços públicos e, em especial, nos espaços políticos de poder.</p>
<p class="p1">Um levantamento feito pelo portal de notícias G1 aponta que, de 2017 para cá, o número de políticos assassinados no Nordeste/Norte é o maior do Brasil. Foram 24 homicídios nas duas regiões, e 16 nas outras três, sendo 6 no Sudeste. Essa realidade me fez perceber que, mesmo esses dados sendo tão alarmantes, nós não lembramos o nome de nenhuma dessas mulheres assassinadas aqui no Nordeste por ousarem, como Marielle, ocupar a política.</p>
<p class="p1">São casos como esses que apontam uma lógica perversa sobre em que territórios acontecem os fatos que pautam a história do nosso País, que viram notícia. Há muito anos, em minha militância, faço a denúncia da existência de uma cultura que invisibiliza politicamente todas as experiências de resistência e luta que acontecem fora da região Sudeste (eixo Rio-São Paulo). Cultura essa que, além de invisibilizar, torna seletiva a comoção dos corpos que tombam no Sudeste e dos que tombam no Nordeste. Não há dúvida que as execuções e a violência estatal sempre recaem sobre os corpos negros e pobres em qualquer região deste país. Mas ainda assim é importante denunciar o fato de que não lembramos dos nomes das crianças vítimas de bala perdida no Nordeste ou em outras regiões; ou o nome das mulheres que também tiveram seus corpos arrastados pela violência policial; ou mesmo aquelas militantes indígenas que são queimadas vivas em nome do grande capital. A ausência de memória sobre as vítimas do genocídio é um sinal mórbido de como a comoção e levante popular acontecem em torno de uma narrativa hegemônica territorial centrada numa região do país, assim como era desde da era do açúcar e do café.</p>
<p class="p1">Marielle foi eleita num contexto muito importante da luta feminista negra no Brasil, somando-se à crescente e revolucionária organização política de nós, mulheres negras e populares, marcadas pela realização da Marcha das Mulheres Negras em 2015, a formação de diversos coletivos de mulheres negras, jovens e faveladas entre 2013 e 2016, e o reconhecimento de intelectuais negras fundamentais para descolonizar o conhecimento. Foi nesse contexto político que Marielle se elegeu, porque a luta feminista de nós mulheres pretas já não mais topava estar a reboque de qualquer outra luta. E isso não diminuía outras pautas; pelo contrário, indicava o aprofundamento de uma estratégia histórica para o fim das desigualdades e do racismo: TER AS NOSSAS MULHERES NEGRAS NO PODER!</p>
<p class="p1">E é com essa reflexão, sobre ter as nossas no poder, que provoco a indagação sobre quais são os corpos atualmente que carregam o legado de Marielle? Quem são aqueles que falam “em seu nome”, quem são aqueles que tomam para si sua história e, muitas vezes, colocam em suas contas pessoais e redes sociais a existência e resistência dessa mulher? Essas perguntas devem ser feitas e recebidas com muita tranquilidade, pois não daremos nenhum passo atrás no que acreditamos como projeto de sociedade. E, no nosso projeto de sociedade, nós falamos por nós mesmas!</p>
<p class="p1">Marielle não é legado de um partido, nem mesmo de um grupo. Marielle é legado de um levante histórico de mulheres negras que jamais se curvaram a nenhum projeto individual, e que sempre conduziram sua revolução de forma coletiva, subversiva. É preciso estar atentas e fortes para não permitir que, por anos a fio, seja mais uma mulher negra que “carregue” homens brancos em legados de revolução. As sementes de Marielle são do nosso povo preto não mais permitindo nenhum caso de racismo nos supermercados, nos bancos ou nas ruas, repudiando casos de LGBTfobia, machismo; é nossa juventude negra protestando, se organizando e alterando realidades cristalizadas pelo racismo e machismo. Esse é o legado de Marielle!</p>
<p class="p1">Já o legado invisível das mulheres negras nordestinas, das poucas mulheres negras eleitas nos últimos anos, nesse ainda precisamos jogar luz. Precisamos falar, nos incomodar. Não quero, como aponta a necropolítica de Achille Mbambe, referendar a história do meu povo pela dor, pela morte. Não quero que lembrem apenas dos nomes daqueles que tombaram nos campos de batalha de uma sociedade estruturada pelo racismo. Quero que lembrem agora, em vida, do nome das nossas mulheres negras eleitas: Leninha em Belo Horizonte, Marta e Olívia na Bahia, Jô Cavalcanti e Robyoncé Lima em Pernambuco. Lembrem das negras que nos oferecem outros olhares para sonhar com nosso aquilombamento, como as poetas Maria Firmino, Bione, Debora Aguiar, e também de nossas intelectuais que revolucionam um conhecimento cristalizado como Denise Botelho, Vilma Reis, Valdenice Raimundo. Quero a lembrança de todas elas, de todas que, dia a dia, resistem e EXISTEM fora do eixo pautado como o centro do mundo (RJ e SP).</p>
<p class="p1">Com esse texto não tenho nenhuma pretensão de chegar a certezas absolutas, e tomo como exemplo a feminista negra portuguesa Grada Kilomba. Escrevo hoje com o sentido de questionar para provocar a descolonização de nosso pensamento coletivo, de nossas certezas inabaláveis. O caso de Marielle repercutiu de forma tão potente em todo país não apenas porque Marielle era uma gigante em sua atuação e existência. Mas se Marielle fosse vereadora em outra região do país, a repercussão de seu caso e de seu legado teriam tanta adesão? Quantas são as mulheres negras parlamentares no Nordeste ou em outras regiões desse país que vocês sabem o nome?</p>
<p class="p1">Provocar desconfortos é necessário para estimular a alteração de cenários cristalizados por certezas inabaláveis construídas pela colonização. Nós, mulheres negras, continuaremos resistindo não só por Marielle, mas para que cada uma de nós não precise morrer para ser lembrada ou amada. Queremos reconhecimento de nossos nomes em placas nas salas das Câmara das Deputadas, do Senado, prefeituras. Somos sementes e árvores bem enraizadas. E nossa primavera preta feminista não vai parar de estremecer a branquitude e seus privilégios.</p>
<p class="p1"><strong>*Coordenadora da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas e do Coletivo de Mães Feministas de PE</strong></p>
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		<title>Mulheres negras no poder potencializam a reestruturação da esquerda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Débora Britto]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Dec 2018 12:27:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Forjadas nos movimentos sociais e nas práticas coletivas de mulheres negras que, de modo ancestral, já praticam o mantra recentemente difundido de não soltar as mãos de ninguém, Mônica Francisco e Áurea Carolina, eleitas deputada estadual pelo Rio de Janeiro e deputada federal por Minas Gerais, respectivamente, são forças políticas que estão reorganizando a esquerda [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Forjadas nos movimentos sociais e nas práticas coletivas de mulheres negras que, de modo ancestral, já praticam o mantra recentemente difundido de não soltar as mãos de ninguém, Mônica Francisco e Áurea Carolina, eleitas deputada estadual pelo Rio de Janeiro e deputada federal por Minas Gerais, respectivamente, são forças políticas que estão reorganizando a esquerda brasileira. As duas se candidataram pelo Psol e constroem não apenas o partido, mas o campo da esquerda a partir de uma visão crítica.</p>
<p>Não à toa, as duas emergências políticas e subjetivas que essas mulheres representam trazem aprendizados e reflexões para o momento político brasileiro. Sem pedir licença e sem tutela das estruturas e correntes tradicionais, mesmo dentro do Psol, suas eleições mostraram uma força que não estava contabilizada nas assembleias de esquerda &#8211; nem na conta das direitas tradicionais &#8211; e surpreendem pela nova forma de fazer política.</p>
<p>O desafio colocado para as duas parlamentares é gigante: construir mandatos que continuem próximos dos movimentos sociais, que reencantem as pessoas pela política, e com atuação propositiva no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A multiplicação de quadros também é uma preocupação de ambas, que lembraram a colega de partido e amiga Marielle Franco como símbolo da importância de ter mais mulheres nos espaços de poder.</p>
<p>Áurea Carolina foi a vereadora mais bem votada de Belo Horizonte nas eleições de 2016 e fundou a Gabinetona, experiência de mandato coletivo compartilhado com a vereadora Cida Falabella, e a articulação para ocupar a política institucional intitulada <em>Muitas</em>. Já Mônica Francisco, ativista com mais de 30 anos de lutas nas favelas cariocas, integrou o gabinete de Marielle Franco e era incentivada por ela a disputar um mandato. Foi após a execução da vereadora, em março deste ano, que ela aceitou a missão.</p>
<p>No Recife para um debate sobre os desafios das mulheres no atual cenário político, as duas deputadas eleitas foram entrevistadas com exclusividade pela Marco Zero Conteúdo.</p>
<p><div id="attachment_11963" style="width: 410px" class="wp-caption alignright"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_013.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-11963" class="wp-image-11963" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_013-200x300.jpg" alt="30/11/2018. Recife, entrevista com as deputadas Áurea Carolina de Freitas e Silva, Federal em Belo Horizonte, e Mônica Francisco, Estadual no Rio de Janeiro. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="400" height="599"></a><p id="caption-attachment-11963" class="wp-caption-text">Feminista evangélica, Mônica Francisco compôs o mandato de Marielle Franco e ocupará uma cadeira na Alerj em 2019</p></div></p>
<p><b>Mônica Francisco: o desafio de construir um mandato quilombo</b></p>
<p>Há muita discussão por que mandato quilombo se não tem só preto, só preta. Mas a gente pode ter um problema com o movimento negro. Eu estou tentando recuperar o sentido de um mandato quilombo pensando nesse momento de que um mandato é uma ferramenta.</p>
<p>Até 14 de março a gente tinha um pensando, depois outro. Depois da prisão de Lula, depois da intervenção federal também mudou. Depois das eleições, com esse resultado o dia a dia de um mandato já vira outra coisa fora do que a gente tem como clássico de um mandato. <strong>O sentido do mandato quilombo é você se reorganizar, se reestruturar, criar estratégias que venho chamando de tecnologias de guerrilha. Os nossos coletivos na vida já faziam isso para garantir sua sobrevivência e a gente agora traz para o mandato.</strong> É muito difícil separar essa nossa personalidade de movimento dessa nova tecnologia de guerrilha que a gente tem e que tem que ser ao mesmo tempo um quilombo no sentido de acolher os movimento sociais, a sociedade civil organizada e de estar alinhada na luta, na convergência daquilo que a gente entende como pautas prioritárias e fundamentais</p>
<p>A gente precisa, às vezes, despertar as pessoas para esse momento que estamos vivendo, o que é esse contexto. As nossas vidas estão de fato em risco. Desde o risco da morte, de sermos mortas de alguma maneira, mas também a nossa vida em sociedade está em risco. O projeto que a esquerda veio construindo está em risco, está em xeque. Vemos agora o avanço de um projeto conservador que é muito maior do que nós e que passa pela submissão e aniquilação das mulheres pretas, principalmente.</p>
<p>A gente está no momento em que o mandato não é só o espaço de construção de projetos de lei. As pessoas querem saber como vai ser o mandato, mas é o tempo em que a gente tem que formular, em que tem que estruturar justamente para não cair na reatividade. Porque a gente não está lidando com imbecis. Podem ser rasos no sentido da política. A gente está lidando com um sentimento neofascista que não tem apreço por nada. Porque eles não precisam de nada que a gente precisa. A gente deixa de ser parlamentar, a gente vai voltar para o nossos lugar, esses caras não.</p>
<p>Minha experiência parlamentar foi na assessoria de Mariellle Franco. A gente vem com o que a gente tem de elementos dessa experiência, mas, para além disso, temos a relação com os movimentos sociais. É preciso não perder essa dimensão da realidade, do território. Eu sou favelada, não fazer essa desconexão é uma forma de preparar para o mandato. Porque assim a gente faz uma leitura da realidade, nesse contexto de extrema instabilidade democrática que a gente está vivendo, da dificuldade de ocupar esse espaço no parlamento, da histórica negação da capacidade cognitiva, de produzir e formular política pública.</p>
<p><div id="attachment_11962" style="width: 410px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_012.jpg"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-11962" class="wp-image-11962" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_012-200x300.jpg" alt="30/11/2018. Recife, entrevista com as deputadas Áurea Carolina de Freitas e Silva, Federal em Belo Horizonte, e Mônica Francisco, Estadual no Rio de Janeiro. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="400" height="599"></a><p id="caption-attachment-11962" class="wp-caption-text">Áurea Carolina foi a vereadora mais votada em 2016, em Belo Horizonte, e tem experiência de mandato coletivo com Gabinetona</p></div></p>
<p><strong>Áurea Carolina: o</strong><b>cupando a política coletivamente</b></p>
<p>O que nos sustenta é uma trajetória de atuação em movimentos sociais, em lutas muito diversas, em construções que ora alcançam a institucionalidade, ora estão mais multiplicadas nos territórios. A Gabinetona em Belo Horizonte foi uma super construção de mandato coletivo, aberto, popular. É nossa matriz para chegar na Câmara dos Deputados. Em Minas, elegemos deputada estadual Andrea de Jesus, das <em>Muitas</em>. O mandato em Belo Horizonte agora vai ser expandido em três esferas. A gente já tem um antecedente de vivência dentro do sistema político que nos traz alguns aprendizados, uma atenção e alguns alertas.</p>
<p>Nas últimas semanas estamos em transição e planejando essa expansão. Eu localizo meu preparo nessa reunião de parceiras, pessoas que são mais diretas da articulação política. É com essas pessoas que estamos tecendo essa rede do mandato. Além disso, estou cuidado do preparo subjetivo também. Estou muito consciente de que preciso ter espaço meu de reflexão, de descanso, de formação própria e autocuidado. Nem sempre consigo colocar em prática, mas estou consciente disso e é um amparo que vem dessas outras mulheres que atravessaram esses espaços antes.</p>
<p>No Congresso eles vão fazer de tudo para fritar a gente na reatividade. A gente está a todo momento tentando pegar ar. A gente não pode ficar na resposta quente às provocações. A gente vai ter que desenvolver alguma sagacidade para continuar as denúncias, mas também pautar. Nós já estamos pautando, mas temos que pautar cada vez mais para tentar equilibrar isso. <strong>Não podemos ficar reféns de uma armação intencional deles para consumir todas as nossas energias. A gente pede capacidade organizativa. O vira voto foi isso, em vez de ficar falando de fascismo, a gente foi construir o vínculo com as pessoas. Entendo que nossos mandatos são recursos a serviço das lutas. A gente usa para fazer formação. Isso expande nosso potencial, não fica só ali reagindo</strong>.</p>
<p>O vira voto escapou completamente do controle dos partidos, dos movimentos mais tradicionais. A cidadania ativa se deu conta de que precisava fazer alguma coisa, tinha que virar o resultado e foi para cima, para a rua. Se não fosse o vira voto a gente tinha levado uma balaiada. E a gente demonstrou com essa rebeldia crítica, não muito consciente, mas efetiva, que tem outros jeitos de conectar essa rede.</p>
<blockquote><p><strong>Limites e desafios das esquerdas: i<span style="color: #000000;">nterseccionalidade, construção do Psol e estratégias para 2019</span></strong></p></blockquote>
<p><div id="attachment_11965" style="width: 460px" class="wp-caption alignright"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_016-e1543662048649.jpg"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-11965" class="wp-image-11965" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_016-e1543662048649-300x200.jpg" alt="30/11/2018. Recife, entrevista com as deputadas Áurea Carolina de Freitas e Silva, Federal em Belo Horizonte, e Mônica Francisco, Estadual no Rio de Janeiro. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="450" height="300"></a><p id="caption-attachment-11965" class="wp-caption-text">Mônica Francisco (Psol), deputada estadual pelo Rio.</p></div></p>
<p><strong>Mônica Francisco</strong> &#8211; Nossa presença nesse contexto, casualmente ou não, e de estar no Psol significa uma reorganização da esquerda. Quando se fala em reorganização da esquerda, essa disputa de narrativa está muito na boca dos homens brancos da esquerda, das figuras que de alguma maneira são as figuras que capitanearam a esquerda até esse momento e que falam desse nirvana de união da esquerda, ou de unidade das esquerdas, ou reorganização das esquerdas no Brasil frente ao avanço desse neofascismo. Essa já é com certeza. Se não é pelo menos o processo inicial dessa reorganização da esquerda que se reorganiza a partir das mulheres, das mulheres negras. <strong>As mulheres negras são a vanguarda. Tenho quase que certeza profética de que as mulheres negras são a vanguarda da reorganização da esquerda</strong>.</p>
<p>Claro que com contra ofensivas que virão. O marco disso foi a execução da Marielle, mas não só. É também um horizonte para que a gente se debruce quando a gente está discutindo cuidados e redes de segurança e prudência, cuidado com a vida mesmo, sobrevivência. Porque isso também é extremamente traumático para a esquerda machista.</p>
<p>É muito traumático esse desconcerto que a nossa presença traz nesse cenário porque a gente é tachada como não puro sangue do partido, mas por outro lado, olhando da nossa perspectiva, dessa vanguarda feminista, a gente é a resposta que o partido ou os partidos estão construindo &#8211; não digo individualmente, mas esse coletivo de mulheres negras e que avançam nessa bancada feminista &#8211; com essa outra dinâmica mais alinhada aos movimentos sociais. Essa relação é dinâmica e quando chega dentro do partido isso é um choque, mas isso é um processo de reorganização da esquerda que passa pelo acesso das mulheres negras.</p>
<p>É uma resposta da própria dinâmica histórica da política. Acho que a gente só vai ter dimensão daqui a uns cinco anos porque a gente está fazendo a história agora. É uma reorganização fora da narrativa tradicional que vem dos homens brancos, sindicalistas. Quando a gente diz que a classe tem cor e tem gênero, ela é localizada socialmente em um determinado lugar. Não dá para pensar reorganização da esquerda sem repensar classe trabalhadora nesse contexto. A gente tem que pensar o que é o trabalho e pensar nas outras formas de trabalho. E há um discurso que avançou e cresceu exponencialmente depois de 2013 de fora partido, fora bandeira, fora sindicato, que está sob ataque e que a gente tem que, de alguma maneira, defender. É um momento para muita reflexão.<b></b></p>
<p>Lembrei da nossa cultura antropofágica. Lembrei de um artigo do Michel Lowy que diz que a gente tem que recuperar o marxismo revolucionário e a utopia surrealista. Que loucura para falar de Exu. Porque é isso, é essa outra cara que chega , que é outra coisa. A gente precisa digerir, ruminar esse marxismo que não cabe mais na nossa leitura. Ou é interseccional ou não é. Não tem como construir política na prática, de verdade, sem interseccionalizar a pauta. Não é racializar o debate, é colocar o racismo no centro do debate marxista. É outra lógica e a gente vem trazendo isso tudo para dentro e causa um rebuliço necessário. É a famosa dialética marxista revolucionária. O que vai dar isso a gente ainda vai ver. Não dá para pensar política hoje desde o micro ao macro sem pensar nas dimensões espirituais, seja da nossa conexão com o todo, as relações que a gente tem que arrumar.</p>
<p><div id="attachment_11957" style="width: 460px" class="wp-caption alignleft"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_022-e1543662266620.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-11957" class="wp-image-11957" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2018/11/301118MZC_Deputadas_022-e1543662266620-300x200.jpg" alt="30/11/2018. Recife, entrevista com as deputadas Áurea Carolina de Freitas e Silva, Federal em Belo Horizonte, e Mônica Francisco, Estadual no Rio de Janeiro. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo" width="450" height="300"></a><p id="caption-attachment-11957" class="wp-caption-text">Áurea Carolina (Psol), deputada federal eleita por Minas Gerais.</p></div></p>
<p><strong>Áurea Carolina</strong>&#8211; Eles ficam falando de união, de unificação, reorganização desse campo genérico das esquerdas, mas têm uma atitude extremamente hegemonista e competitiva. Na prática, a maior parte das figuras que têm influência nos partidos e nas grandes organizações do campo continuam reproduzindo as suas formas viciadas de se relacionar. Não adianta falar em unidade, em aproximação, se o gesto é sempre o contrário. A gente viu isso nas eleições. Até mesmo na competição entre os partidos. O que foi a trama do PT tirando o PSB e o que isso impactou efetivamente no resultado eleitoral? Isso é só um exemplo muito evidente para nós. E como que isso desce até o nível imediato da convivência. Eles não têm autoridade ética para reivindicar essa unificação porque eles se desconectaram completamente da forma e do conteúdo das coisas que eles dizem e fazem. Isso para nós é muito mais caro, nas práticas feministas, negras, periféricas. Não dá para a gente ficar separando essas coisas. Claro que nem sempre a gente consegue resolver, mas a gente tem uma tradição no sentido de uma experiência e não como enquadramento normativo, de fazer mais aquilo que a gente diz. A gente vê como construímos uma comunidade de ajuda mútua, de possibilitar a vida das pessoas.</p>
<p><strong>Não basta reorganizar. Se você tira uma peça, muda de lugar, você move. Eu gosto da provocação da Rob (Robeyoncé Lima, codeputada das <em>Juntas</em> eleita para a Alepe) que falou sobre desconfigurar. Você desprograma, dá um curto circuito. Quando você desconfigura o sistema surta. Eu gosto dessa ideia de desconfigurar, de transformar, que não é simplesmente mover os atores.</strong> A gente precisa ter outras atitudes mentais. E a questão da unidade é isso. Precisa contar com os saberes que hoje são desconfortáveis dentro dos partidos, que são um incômodo. Não contavam que a gente seria essa grande força de renovação. Nós estamos indo na dianteira, fora do cálculo deles. Eles não esperavam, fomos sem pedir autorização.</p>
<p>Esses controladores dos partidos tudo que fazem é tentar conter a própria dinâmica da dialética, como se pudessem determinar uma unificação. Aí não contavam com a gente, nós escapamos do plano, só que nós somos um dado da realidade não previsto pela maior parte deles. Uma outra coisa é que a gente precisa lidar com essa multiplicidade de experiências, mesmo que elas sejam mais ou menos problemáticas, mais ou menos hierárquicas, para tentar enfrentar os ataques cada vez mais pesados que estão vindo aí. A gente tem que construir os lugares de mais confiança e ir fazendo pontes. Nós somos criaturas de fronteira, a gente atravessa muitos mundos. Exu faz isso. A gente tem que ter mais essas mediações. Entre os nossos espaços mais seguros com esses outros espaços que são de menos confiança, menos proximidade. A minha inserção no partido eu vejo dessa forma. Não é um espaço totalmente seguro para mim, mas eu consigo criar uma retaguarda em outros lugares que me permitem fazer uma travessia ali. Da mesma forma, transpondo do partido para uma relação com outro partido ou com outros movimentos, a gente tem que ter essa percepção. Se não for assim a gente não tem condição de sobreviver coletivamente. Aí é que está a generosidade que o momento exige, mas não como uma bondade, mas sim como estratégia. Por mais problemática que seja essa rede das esquerdas, ela precisa operar com algum grau de cooperação e virar rede efetivamente e não um apanhado de organizações que vive sempre em rota de colisão. Se tem uma unidade possível, no sentido mais geral, eu acho que é essa.</p>
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