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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Em &#8216;Trapaça&#8217;, a memória de um repórter é a chave para entender a história</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Dec 2019 11:00:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[impeachment de Collor]]></category>
		<category><![CDATA[Luís Costa Pinto]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Collor]]></category>
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<p>A grande sacada de Luís Costa Pinto foi avisar logo na epígrafe “Aqui nem tudo é verdade, mas tudo pode ter sido verdade”. Ao abrir mão da pretensão de contar ou registrar a história do impeachment de Fernando Collor no primeiro volume de <em>Trapaça</em>, o jornalista e escritor obteve como resultado um texto solto, leve, com uma pegada próxima a de roteiros de filmes como <em>Spotlight</em> ou <em>The Post, </em>nos quais as vísceras de uma cobertura jornalística são escancaradas diante do cidadão comum que nunca pensou em pisar numa redação.</p>



<p>Se <em>Trapaça </em>não virar filme ou minissérie será um sintoma dos precários limites da indústria brasileira do audiovisual.</p>



<p>Livre do compromisso histórico, Costa Pinto buscou na memória seu principal instrumento para recontar os bastidores da entrevista com Pedro Collor, o irmão caçula do então presidente da República. A entrevista publicada pela Veja foi o rastilho de pólvora que implodiu o governo. </p>



<p>Quando a memória não ajudou, Lula, como é mais conhecido por parentes, colegas de profissão e fontes, recorreu, deliberada ou intuitivamente, à imaginação. E memória e imaginação misturadas, como se sabe, oferecem as saídas literárias para os impasses da escrita. </p>



<p>O livro é dividido em duas grandes partes. O ritmo da primeira é mais intenso: é ali que se conta as tratativas para a entrevista. É também uma aula de jornalismo e de como lidar com uma fonte tão problemática quanto explosiva, como lembra Xico Sá no prefácio. </p>



<p>A segunda, porém, descortina um horizonte mais amplo, com cenários, personagens e movimentos invisíveis aos olhos de quem acompanhou tudo pela tela da TV ou por manchetes dos veículos impressos. Nessa parte, Lula conta como se deram as intrincadas negociações na CPI &#8211; com a participação de José Genoíno (foto), que compareceu ao lançamento -, no Congresso, nas Forças Armadas e mesmo dentro do governo Collor. </p>



<p>Exatamente quando o autor é menos protagonista e mais coadjuvante, a narrativa torna-se mais reveladora. Se ao contar os bastidores da entrevista, a memória o levou novamente ao epicentro, quando assume um papel secundário, o tempo ofereceu uma visão mais ampla, em perspectiva, de onde é possível ver todas as peças se mexendo &#8211; inclusive os concorrentes na luta pela notícia.</p>



<p>Em meio a acontecimentos tão ricos, com tantos significados históricos e personagens emblemáticos da história recente, <em>Trapaça </em>também é uma delicada declaração de amor. Contar mais do que isso é dar <em>spoiler</em>.</p>



<p>Quando fez a entrevista mais importante de sua carreira – e uma das mais emblemáticas do jornalismo brasileiro – Lula Costa Pinto tinha escassos 23 anos. É fácil perceber que ele não está sentado em cima das glórias desse feito da juventude. Ele consegue um distanciamento não apenas temporal, mas alicerçado em reflexão e amadurecimento. A distância, por sua vez, carrega a sinceridade de um homem de 51 anos capaz de entender criticamente como fez parte de um ambiente carregado de competição e vaidade. Isso vale tanto para a redação da Veja quanto para Brasília.</p>



<p>Os defeitos do livro não podem ser debitados exclusivamente da conta do autor. O uso exagerado de trechos da tipologia itálica chega a confundir e atrapalhar, principalmente quando palavras soltas em tipologia convencional aparecem no meio de parágrafos em itálico. O diálogo do autor/narrador com seu leitor contemporâneo se sustenta sem o apelo a esse recurso fácil. O que faltou, no caso, foi atenção do editor.</p>



<p>Na conta do autor, no entanto, fica registrado o pecado de querer explicar tudo ou quase tudo &#8211; contextos e circunstâncias, o que, às vezes, torna inverossímeis determinados diálogos ou telefonemas. Esses pecadilhos estão longe de ser capitais ou imperdoáveis. O quadro geral os torna irrelevantes. </p>



<p><em>Trapaça </em>é o testemunho do apogeu da indústria da notícia no Brasil, com suas imensas redações, sucursais estruturadas pelo Brasil e hierarquia vertical. Uma indústria que corria contra o relógio, as limitações gráficas ou a “bomba” no telejornal, não contra o tsunami das redes sociais.</p>
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