A grande sacada de Luís Costa Pinto foi avisar logo na epígrafe “Aqui nem tudo é verdade, mas tudo pode ter sido verdade”. Ao abrir mão da pretensão de contar ou registrar a história do impeachment de Fernando Collor no primeiro volume de Trapaça, o jornalista e escritor obteve como resultado um texto solto, leve, com uma pegada próxima a de roteiros de filmes como Spotlight ou The Post, nos quais as vísceras de uma cobertura jornalística são escancaradas diante do cidadão comum que nunca pensou em pisar numa redação.

Se Trapaça não virar filme ou minissérie será um sintoma dos precários limites da indústria brasileira do audiovisual.

Livre do compromisso histórico, Costa Pinto buscou na memória seu principal instrumento para recontar os bastidores da entrevista com Pedro Collor, o irmão caçula do então presidente da República. A entrevista publicada pela Veja foi o rastilho de pólvora que implodiu o governo.

Quando a memória não ajudou, Lula, como é mais conhecido por parentes, colegas de profissão e fontes, recorreu, deliberada ou intuitivamente, à imaginação. E memória e imaginação misturadas, como se sabe, oferecem as saídas literárias para os impasses da escrita.

O livro é dividido em duas grandes partes. O ritmo da primeira é mais intenso: é ali que se conta as tratativas para a entrevista. É também uma aula de jornalismo e de como lidar com uma fonte tão problemática quanto explosiva, como lembra Xico Sá no prefácio.

A segunda, porém, descortina um horizonte mais amplo, com cenários, personagens e movimentos invisíveis aos olhos de quem acompanhou tudo pela tela da TV ou por manchetes dos veículos impressos. Nessa parte, Lula conta como se deram as intrincadas negociações na CPI – com a participação de José Genoíno (foto), que compareceu ao lançamento -, no Congresso, nas Forças Armadas e mesmo dentro do governo Collor.

Exatamente quando o autor é menos protagonista e mais coadjuvante, a narrativa torna-se mais reveladora. Se ao contar os bastidores da entrevista, a memória o levou novamente ao epicentro, quando assume um papel secundário, o tempo ofereceu uma visão mais ampla, em perspectiva, de onde é possível ver todas as peças se mexendo – inclusive os concorrentes na luta pela notícia.

Em meio a acontecimentos tão ricos, com tantos significados históricos e personagens emblemáticos da história recente, Trapaça também é uma delicada declaração de amor. Contar mais do que isso é dar spoiler.

Quando fez a entrevista mais importante de sua carreira – e uma das mais emblemáticas do jornalismo brasileiro – Lula Costa Pinto tinha escassos 23 anos. É fácil perceber que ele não está sentado em cima das glórias desse feito da juventude. Ele consegue um distanciamento não apenas temporal, mas alicerçado em reflexão e amadurecimento. A distância, por sua vez, carrega a sinceridade de um homem de 51 anos capaz de entender criticamente como fez parte de um ambiente carregado de competição e vaidade. Isso vale tanto para a redação da Veja quanto para Brasília.

Os defeitos do livro não podem ser debitados exclusivamente da conta do autor. O uso exagerado de trechos da tipologia itálica chega a confundir e atrapalhar, principalmente quando palavras soltas em tipologia convencional aparecem no meio de parágrafos em itálico. O diálogo do autor/narrador com seu leitor contemporâneo se sustenta sem o apelo a esse recurso fácil. O que faltou, no caso, foi atenção do editor.

Na conta do autor, no entanto, fica registrado o pecado de querer explicar tudo ou quase tudo – contextos e circunstâncias, o que, às vezes, torna inverossímeis determinados diálogos ou telefonemas. Esses pecadilhos estão longe de ser capitais ou imperdoáveis. O quadro geral os torna irrelevantes.

Trapaça é o testemunho do apogeu da indústria da notícia no Brasil, com suas imensas redações, sucursais estruturadas pelo Brasil e hierarquia vertical. Uma indústria que corria contra o relógio, as limitações gráficas ou a “bomba” no telejornal, não contra o tsunami das redes sociais.