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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Porque as autoridades, a FPF-PE e os dirigentes de clubes são culpados pela violência entre torcedores</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Jan 2024 21:44:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>por Adriano Costa* O Grupo de Trabalho do Futebol no Estado é um fórum que conta com a presença da Secretária de Defesa Social de Pernambuco, Poder Judiciário, Ministério Público Estadual, Federação Pernambucana de Futebol, clubes de futebol, polícias Militar, Civil e Corpo de Bombeiros. Menos a participação efetiva da sociedade civil organizada, incluindo aí [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Adriano Costa*</strong></p>



<p>O Grupo de Trabalho do Futebol no Estado é um fórum que conta com a presença da Secretária de Defesa Social de Pernambuco, Poder Judiciário, Ministério Público Estadual, Federação Pernambucana de Futebol, clubes de futebol, polícias Militar, Civil e Corpo de Bombeiros. Menos a participação efetiva da sociedade civil organizada, incluindo aí a representação de torcedores, torcedoras e torcidas.</p>



<p>A reivindicação para que isso aconteça não é nova.</p>



<p>Em 3 de dezembro de 2021 foi realizada uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) por iniciativa da então deputada estadual Teresa Leitão (PT), que recebeu o apelo de uma representação de torcedores dos três maiores times de Pernambuco junto à Associação Nacional de Torcidas Organizadas (Anatorg). Naquele encontro ficou encaminhado que, um Grupo de Trabalho reunindo representantes de instituições públicas e da sociedade civil seria formado, porém isso nunca ocorreu.</p>



<p>Durante a semana, a coordenação regional da Anatorg no Nordeste encaminhou ofício para todos os órgãos organizadores de eventos esportivos no estado e que fazem parte do atual GT. O documento, evocando o artigo 151 da nova Lei Geral de Esportes, que deixa claro que “é direito do espectador a implementação de planos de ação referentes a segurança, a transporte e a contingências durante a realização de eventos esportivos com público superior a 20.000 (vinte mil) pessoas”, se colocou à disposição em construir com muito diálogo junto às torcidas, movimentos, “barra bravas”, clubes e torcedores organizados, a elaboração de um plano de segurança para os clássicos entre Náutico, Santa Cruz e Sport pelo campeonato pernambucano.</p>



<p>Tal ofício foi protocalado na Grande Recife sob o número 0050500003.000360/2024-21, na secretaria de Defesa Social (protocolo 3900000003.000381/2024-72), e no Comando Geral da PMPE (3900000015.000227/2024-61), sendo encaminhado ao comandante-geral. Em nenhum dos casos, houve qualquer resposta. A Torcida Explosão Coral chegou inclusive a organizar um plano logístico, enviado para a coordenação regional da Anatorg e notificou as autoridades sobre trajetos e necessidades de escolta policial. Tal plano previa pontos de concentração em Maranguape (Paulista), ao norte; em Jaboatão Centro, ao oeste; em Prazeres (Jaboatão dos Guararapes), ao sul, além de um ponto de concentração geral da torcida na rua do Hospício, centro do Recife.</p>



<p>O plano informa ainda sobre o trajeto em caminhada da rua do Hospício até a Estação Recife do Metrô, de onde saiu um metrô expresso com a torcida tricolor, rumo ao terminal do TIP, onde estava previsto um esquema especial de policiamento que iria fazer a escolta até a Arena, mas esse destacamento policial não chegou. A torcida, então, seguiu em caminhada do TIP pela BR-232 até a entrada da área de visitantes. Eram pelo menos duas mil pessoas andando por mais de cinco quilômetros.</p>



<p>Há uns 500 metros para a entrada dos visitantes na Arena Pernambuco, ainda não se via sinal da escolta policial, tornando mais real a possibilidade de confrontos, o que acabou não acontecendo porque o grupo vinha sendo conduzido pelas lideranças da torcida organizada, que evitou o embate e aguardou o deslocamento do Batalhão de Choque em direção ao grupo.</p>



<p>É importante destacar que, durante toda a semana, o clube mandante descumpriu o artigo 143 da Lei Geral de Esportes (“É direito do espectador que os ingressos para as partidas integrantes de competições em que compitam atletas profissionais sejam colocados à venda até 48 horas antes do início da partida correspondente”), pois só liberou a compra apenas após uma abertura de processo em liminar solicitando gratuidade feita pela Anatorg na tarde da sexta-feira, 19 de janeiro. Com isso, faltando apenas 30 horas para o espetáculo iniciaram as vendas, com esgotamento imediato de ingressos meia entrada e, logo após, inteira, mesmo com vendas apenas virtuais.</p>



<p>Somente a uma hora do início da partida os portões para a torcida visitante foram abertos, mas com apenas três catracas funcionando, o que obrigou o uso de maquinetas para leitura de QR CODE dos ingressos. O resultado está nas redes sociais: sobram vídeos nas redes sociais com relatos de desumanidade, pisoteamento, maus tratos, violência policial, esmagamento, tortura, uso de cacetetes e spray de pimenta. mesmo sendo uma arena planejada para uma Copa do Mundo, foi proposital.</p>



<p>Em nota veiculada no site oficial do clube, o Sport Club do Recife, deixa claro que houve erros no GT, principalmente ao considerar a previsão de duas mil torcedores visitantes. A inoperância do diálogo do GT tem se deslocado da realidade da arquibancada e, por essa razão, toma decisões irresponsáveis.</p>



<p>Cabe à governadora Raquel Lyra e a SDS/PE intervir e reorganizar com urgência as forças policiais que fazem a segurança dos eventos esportivos em Pernambuco, com a abertura de um canal direto com a sociedade civil e comunidade pernambucana de torcedores.</p>



<p>O GT que atua subordinado ao Governo do Estado pode, pela Lei Geral de Esportes, ser responsabilizados judicialmente pelos problemas de segurança e organização deste sábado, 20 de janeiro, , como diz o artigo 149, “a responsabilidade pela segurança do espectador em evento esportivo será da organização esportiva diretamente responsável pela realização do evento esportivo e de seus dirigentes”.</p>



<p>As cenas confrontos entre torcedores na Região Metropolitana na manhã de sábado, com três pessoas baleadas perto do terminal integrado Pelópidas da Silveira, em Paulista, não aconteceram por acaso. Se os torcedores envolvidos são os atores da violência, as decisões do Grupo de Trabalho são responsáveis pela direção, montagem de palco e criação do cenário onde os protagonistas da barbárie atuam.</p>



<p><strong>*Adriano Costa é coordenador regional da Associação Nacional de Torcidas Organizadas (Anatorg) no Nordeste</strong></p>



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<p><br></p>
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		<title>Com recursos do estado de Pernambuco, PMs youtubers ganham fama e dinheiro com vídeos monetizados</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Sep 2023 18:53:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por George Lucas O policiamento e a preservação da ordem pública já não são mais o único papel da Polícia Militar de Pernambuco. Ao menos&#160;não extraoficialmente. Agora, alguns policiais militares adicionam à sua rotina os cortes, as edições, os roteiros e demais atribuições de um YouTuber para gravarem suas próprias operações. E essa prática contribui [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por George Lucas</strong></p>



<p>O policiamento e a preservação da ordem pública já não são mais o único papel da Polícia Militar de Pernambuco. Ao menos&nbsp;não extraoficialmente. Agora, alguns policiais militares adicionam à sua rotina os cortes, as edições, os roteiros e demais atribuições de um YouTuber para gravarem suas próprias operações. E essa prática contribui para a&nbsp; espetacularização do crime e a naturalização da violência e do racismo.</p>



<p>Se antes apenas programas sensacionalistas de TV utilizavam do crime e de operações policiais para conquistarem pontos de audiência, agora os policiais da PMPE fazem o mesmo em seus canais do YouTube. Assim como aqueles programas, os canais de policiais pernambucanos, como Águia 95 (914 mil inscritos), Águia em Ação (320 mil inscritos), Olhos de Águia (241 mil inscritos), criam bordões, vinhetas, trilhas sonoras dramáticas e utilizam do deboche com a imagem de cidadãos abordados e detidos para atingir a popularidade. Nos vídeos, que alcançam milhares de visualizações não apenas no YouTube, mas também em outras plataformas e redes sociais, fica explícito o racismo enraizado nas atividades do dia a dia de um policial. As operações concentram-se na periferia e a maioria das pessoas abordadas pelos policiais é negra.</p>



<p>Questionamos à Polícia Militar se as filmagens são realizadas usando câmeras da própria PMPE, que, a priori, serviriam para assegurar tanto a vida da população quanto a do policial ao registrar as operações, servindo como prova para contrariar falsas denúncias. A corporação não confirmou o uso de câmeras da instituição, mas confirmou que a prática tem incomodado o comando. Em e-mail enviado para a MZ, a assessoria de imprensa da PMPE informou que “o fato de policiais militares estarem fazendo uso de vídeos monetizados em redes sociais está sendo monitorado pela Secretaria de Defesa Social, através da Corregedoria Geral da SDS”.</p>



<p>Em um vídeo do canal Águia 95, por exemplo, uma equipe do batalhão das Ronda Ostensiva Com Apoio de Motocicletas (Rocam) entra na casa de uma senhora. Na casa, também funcionava uma barbearia, onde foram abordados jovens que estavam portando maconha. A proprietária da residência, revoltada com a invasão de sua propriedade, não demonstrou simpatia à ação dos policiais e acabou ridicularizada pelo dono do canal, que na <a href="https://www.youtube.com/watch?v=KjwoyFmGRaI&amp;t">edição distorceu a imagem da mulher com uma música de apologia às drogas</a>. Para entrar em residências ou estabelecimentos comerciais é preciso mandado judicial, exceto quando há fundadas razões, justificadas pelas circunstâncias do caso concreto, de que está ocorrendo situação de flagrante delito, conforme <a href="https://www.jusbrasil.com.br/artigos/stf-define-limites-para-entrada-da-policia-em-domicilio-sem-autorizacao-judicial/920455582#:~:text=O%20Plen%C3%A1rio%20do%20STF%20concluiu%20o%20julgamento%20do,da%20autoridade%20e%20de%20nulidade%20dos%20atos%20praticados%E2%80%9D.">definiu o Supremo Tribunal Federal, em 2015</a>.]</p>



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	                                        <p class="m-0">Canais de PMs têm edição profissional. Crédito: Captura de imagem do YouTube</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O Águia 95 não publica apenas vídeos do policial Afonso Henrique, dono do canal, mas também de outros seus colegas de farda. Afonso, inclusive, não parece se importar muito em postar registros de operações com delitos e falas polêmicas dos próprios policiais.&nbsp;</p>



<p>Em um vídeo de uma operação de mandado judicial, ao prender um fugitivo, um policial, identificado por Afonso como Águia 66 (na Rocam é comum que os policiais ganhem apelidos como esse), debocha ao prender o infrator.<a href="https://www.youtube.com/watch?v=ER4mj1xO_fU&amp;t"> “E se eu jogasse ele daqui, hein? Pode não, os direitos humanos não deixam”</a>, disse o PM, segurando um preso em cima de uma laje.</p>



<p>Afonso também não tem constrangimento em demonstrar seu posicionamento político. No dia 30 de junho deste ano, em sua conta do Instagram, onde tem 140 mil seguidores, o PM mostrou-se contrário à decisão do STF em deixar o ex-presidente Jair Bolsonaro inelegível, por conta da disseminação de fake News no processo eleitoral. Para criticar a ação, o PM postou um trecho do filme Tropa de Elite, aonde o personagem Capitão Nascimento fala a clássica frase “O sistema é Foda”. <a href="https://www.instagram.com/p/CuIAmQruApT/">Dentre as hashtags, estava a tag #bolsonaro.</a></p>



<p>Oex-presidente Jair Bolsonaro, por sinal, é claramente favorável a operações policiais com alto índice de mortes e uso de truculência por parte dos PMs. Em 2022, ele deixou de incluir no balanço anual de violações de Direitos Humanos a violência policial.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Do Youtube Para a Política</strong></h2>



<p>Brasil afora, outros policiais também aproveitam e criam sensacionalismo em registros de suas operações para ganhar fama. O PM Gabriel Monteiro, do Rio de Janeiro, ficou famoso nacionalmente com vídeos que variam de suas ações policiais, fiscalizações em universidades públicas, e até ações “altruístas” com crianças carentes, o que o fez atingir a marca de 6 milhões de inscritos em seu canal do Youtube. Gabriel, com o poder massivo das redes, acabou eleito vereador, sendo cassado e preso, em 2022, por estupro.</p>



<p>O delegado da Cunha, esse não militar, mas policial civil paulista, também entrou na política. Ele foi eleito deputado federal por São Paulo em 2022 graças a fama conquistada com filmagens de operações para seu canal de mais de 3 milhões de inscritos. O delegado se envolveu em polêmica ao simular um resgate de sequestro em 2021 e postá-lo como ação policial verdadeira no Youtube.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Lucro nas redes</strong></h3>



<p>Monteiro e Da Cunha não são os únicos casos de policiais que utilizaram de suas profissões nas redes para se elegerem e consequentemente mudar de vida. Graças aos likes e seguidores conquistados na internet por meio de vídeos das operações em que participam, vários policiais adentraram na política, ou até montam seus próprios empreendimentos, como é o caso de André Coelho, também da PMPE.</p>



<p>André, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=7ltOpsyCymQ&amp;t=1498s&amp;pp=ygUTY2hhcHVsZXRhZGEgcG9kY2FzdA%3D%3D">em entrevista ao Chapuletada Podcast,</a> declarou que gravar a rotina de um policial era um de seus principais motivadores para entrar na PMPE. Ele também não ocultou o motivo de sua reprovação na primeira tentativa de entrar na organização: &#8220;agressividade excessiva&#8221;. </p>



<p>Hoje na PMPE, André tem um podcast onde entrevista PMs. A sua rede principal é o instagram, onde tem 50 mil seguidores e ganha relevância com vídeos de treinamentos policiais, abordagens, interrogatórios e ações de criminosos. Com os insights das postagens sensacionalistas de seu insta, André ganha possíveis alunos para seu curso de PM, naturaliza a violência policial e ganha dinheiro com isso.</p>



<p>Os canais não escondem que são monetizados, com anúncios sendo veiculados rotineiramente ao longo dos vídeos. Alguns, como o Águia em Ação, promovem sorteios de iPhone11 para quem doar 25 centavos, além de ter lins de patrocinadores na descrição dos vídeos, como é o caso de uma <a href="https://www.instagram.com/aguiaracessorios19/">loja de acessórios para câmeras</a>.</p>



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	                                        <p class="m-0">Por 25 centavos, policial da Rocam faz sorteio de iPhone 11 pelo YouTube. Crédito: captura de imagem do YouTube</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>OBS: O texto foi corrigido às 10h32 min do dia 20 de setembro. Onde se lê &#8220;uso de violência excessiva&#8221; como motivo de reprovação do PM André Coelho no concurso público, o termo foi substituído por &#8220;agressividade excessiva&#8221;, trecho retirado de sua fala no podcast.</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p></p><p><strong>Uma questão importante!</strong><br><br><em>Se você chegou até aqui, já deve saber que colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa </em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>página de doaçã</strong></a><strong><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o</a> </strong><em>ou, se preferir, usar nosso </em><strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em></p><p><strong>Apoie o jornalismo que está do seu lado</strong></p></blockquote>



<p></p>
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		<title>Para as autoridades de Pernambuco, as torcidas organizadas não existem. E isso gera mais violência</title>
		<link>https://marcozero.org/para-as-autoridades-de-pernambuco-as-torcidas-organizadas-nao-existem-e-isso-gera-mais-violencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 May 2023 21:52:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Fanáutico]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por George Lucas* As maiores torcidas organizadas do Náutico, Santa Cruz e Sport existem ou não? A resposta parece óbvia, mas não é assim tão simples, afinal para o Ministério Público, a Polícia Militar e as autoridades pernambucanas, a Torcida Jovem Fanáutico, a Torcida Organizada Inferno Coral e a Torcida Jovem do Sport simplesmente não [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por George Lucas*</strong></p>



<p>As maiores torcidas organizadas do Náutico, Santa Cruz e Sport existem ou não? A resposta parece óbvia, mas não é assim tão simples, afinal para o Ministério Público, a Polícia Militar e as autoridades pernambucanas, a Torcida Jovem Fanáutico, a Torcida Organizada Inferno Coral e a Torcida Jovem do Sport simplesmente não existem. Isso porque tiveram seus respectivos CNPJs cancelados e foram oficialmente dissolvidas em 2020, depois de proibidas de ir para os estádios desde 2014.<br><br>Mesmo assim, as três têm sede, lojas, comercializam produtos, brigam entre si e ocupam setores específicos dos estádios, ainda que ninguém possa ir aos jogos usando camisas com seus símbolos ou nomes. No entanto, como elas “não existem”, o poder público não monitora esses grandes grupos de torcedores organizados, indiferença que contribuiria para a violência nos dias de futebol, impactando também os torcedores comuns, não organizados, que aos poucos também vão perdendo o direito de torcer.</p>



<p>Desde o começo da década passada, após a clara posição do Ministério Público Estadual favorável à extinção dessas três torcidas, artefatos utilizados por torcedores começaram a ser vetados nos estádios. Primeiro, foram as bandeiras de mastro, em seguida sinalizadores, esses proibidos nacionalmente, devido ao incidente da torcida do Corinthians na Bolívia, que vitimou um torcedor em 2012.</p>



<p>Até o rádio de pilha, usado por tantos torcedores nos estádios, foi vetado em 2022, pois, segundo a PM-PE, era necessária &#8220;prevenção à violência, devido ao risco de esses objetos serem arremessados ou utilizados em possíveis brigas de torcidas&#8221;. Após pressão da mídia, o rádio voltou a ser liberado. Antes do radinho, pela mesma razão durante seis anos (de 2009 a 2015) foi proibido tomar cerveja nos estádios pernambucanos.</p>



<p>Tantas restrições geraram mais protestos que resultados, a exemplo do movimento #liberaafesta. De fato, a festa foi liberada, mas de forma restrita. O Governo de Pernambuco, ao lado do Grupo de Trabalho de Futebol, que não inclui em suas reuniões torcedores, (apenas órgãos públicos, clubes, e a Federação Pernambucana de Futebol), liberou a volta das bandeiras com mastro e bateria, essa última autorizada desde o ano passado, mas com alguns limites a serem seguidos.</p>



<p>Curiosamente, há uma condição para a festa acontecer: não pode ser realizada nas gerais dos estádios (setor atrás do gol), onde ficam as torcidas organizadas, que, segundo as mesmas autoridades, sequer existem. Mais uma vez, o paradoxo.</p>



<p>Diretores da Torcida Organizada Inferno Coral, expressaram seu ponto de vista sobre essas restrições:</p>



<p>&#8220;Eles estudam tanto, mas só que quem vive é a gente. A gente sabe qual é a melhor forma de se fazer”, diz João Paulo, o <em>JP</em>, diretor financeiro. Em seguida, <em>Cláudio BZC</em>, presidente da torcida, Erivan, vice-presidente, e Raul, diretor, completam enumerando a série de artefatos presentes nos estádios que possuem potencial de perigo maior que um bambu (mastro da bandeira), como facas, espetos de churrasco e gás de cozinha, usados pelos comerciantes e gasoseiros em dias de jogo.</p>



<p>Os torcedores corais também criticam a “extinção fake” das organizadas: “Se um componente faz uma violência, Cláudio, que é o presidente, não pode responder, como fizeram no Rio. Eles fazem isso, excluem CNPJ, mas outros assumem ou se abre outro. Isso não vai acabar. A torcida organizada só se acaba se o clube acabar,”, fala <em>JP</em>.</p>



<p>Igor Moura, da Fanáutico, conta sobre os trâmites para conseguir entrar no estádio com materiais como bandeirão e faixas. &#8220;Sim, todo jogo, 48 horas antes a gente envia ofício com solicitação pro Choque (diz ele sobre enviar o documento real a ser enviado pela entidade &#8220;inexistente&#8221; para a Polícia Militar), mas só sabemos a resposta na hora do jogo. Cada um que se vire, sem diálogo&#8221;.</p>



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	                                        <p class="m-0">Igor Moura, da torcida Fanáutico. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Violência naturalizada</strong></h2>



<p>A falta de diálogo abre caminho para a violência por parte dos policiais em dias de jogos. Todos os dirigentes das três organizadas que falaram com este repórter &#8211; Igor, <em>BZC</em>, Erivan, Raul, <em>JP</em>, além de Carlos Renato, o Renatinho e Jefferson Moura, o <em>Gel</em>, da Torcida Jovem, responderam com bastante naturalidade quando perguntados se já sofreram violência nos estádios.</p>



<p>&#8220;O que eles fazem, não só com a organizada, mas com o povão, pai de família. Já começa na entrada do estádio, apertada&#8221;, conta <em>BZC</em>, da Inferno Coral, que também fala sobre agressões com spray de pimenta e intimidações por parte dos soldados da cavalaria. Renatinho, da TJS, demonstra posicionamento semelhante, afirmando que, atualmente, em todos os setores da Ilha do Retiro se vê cenas de truculência policial na entrada dos jogos.</p>



<p>Uma torcedora do Sport, sem vínculos com qualquer organizada do clube, ouvida pela reportagem, contou sobre tumultos causados pelo Batalhão de Choque no dia da final da Copa do Nordeste, disputada por Sport x Ceará. Na ocasião, a diretoria rubro-negra vendeu mais ingressos que a atual capacidade liberada de seu estádio, o que deixou vários torcedores do lado de fora.</p>



<p>&#8220;Todo mundo do lado de fora tinha ingresso, e tinha muita gente! A gente ficou espremido na entrada da arquibancada frontal e, quando deu 21h, simplesmente fecharam os portões e o Choque e a cavalaria começaram a &#8216;rebocar&#8217; os torcedores para a Abdias de Carvalho, não deixaram ficar nem na pracinha. Além de que teve muita bomba e tiro a troco de nada&#8221;, conta a rubro-negra, que teve um amigo ferido por uma bomba de efeito moral no pé. Ela optou por não se identificar.</p>



<p>É claro que as três torcidas também têm sua parcela de responsabilidade. Não há como negar seus repertórios de provocações, estímulo à violência e sequência de ataques a rivais. “Não (sobre se essas músicas podem incentivar os componentes a brigar), e hoje em dia esses cantos estão proibidos dentro do estádio. Não pode falar o nome da torcida organizada. A gente preza por cantar pelo Náutico e incentivar o time em campo, esquecer os rivais”, diz Igor, da Fanáutico, também chamado de Iguinho. Ele completa: “Poxa, eu tento ao máximo esquecer o nome dos ‘alemão’ do outro lado. Meu negócio é apoiar o Náutico dentro de campo, a gente canta pelo time os 90 minutos”.</p>



<p><em>JP</em>, da Inferno Coral, prefere relativizar o peso das as músicas. &#8220;Acho que não influencia, não. Os MCs de funk de São Paulo e Rio cantam o que vivem, por exemplo. Os das torcidas só estão cantando o que acontece. Cabe a cada um deixar se influenciar&#8221;. Raul, também da organizada tricolor, faz uma interpretação pragmática.&#8221;É um tipo de diversão. Eles lá fazem a mesma coisa e aí os daqui respondem. No mundo das organizadas isso aí existe. A violência não parte de uma música, já está impregnada”.</p>



<p>Um dos integrantes da Jovem do Sport explicou que as músicas são criadas por MCs querendo se promover, e que a diretoria da torcida não tem poder de veto. E também não parecem se importar em se ver associada à violência.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Homofobia pode</h3>



<p>Se músicas com referências às entidades rivais não podem ser cantadas nos estádios, ninguém vê problemas nos gritos e músicas com versos homofóbicos. A exaltação da virilidade e masculinidade constante são características comuns a todas a quase todas organizadas do país, apesar de alguns dirigentes recifenses garantirem não fazer restrições ao público LGBTQIA nas arquibancadas ou na própria organizada.</p>



<p>&#8220;Independente da organizada, a gente respeita todas as classes, até porque isso é um crime. Já chegou gente aqui comprando material na loja e recebemos de forma normal, tratando com respeito&#8221;, é o que diz <em>JP</em>.</p>



<p>Pela TJS, Renatinho preferiu não adentrar ao tema, demonstrando indiferença, mas contou que, pessoalmente, não tem preconceitos, embora admita ser uma dificuldade impor um pensamento na torcida “por ser muito grande”.</p>



<p>Incomodado, Igor Moura, da Fanáutico, foi quem deu um posicionamento mais claro – e preconceituoso. Após pedir para a reportagem cortar a gravação e ter a pergunta reformulada, ele deu sua resposta. “Não mexendo com nós, tá de boa. Cada um no seu canto”.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Afinal, por que tanta briga?</strong></h3>



<p>É provável que a principal curiosidade a respeito das organizadas é entender o porquê de tantas brigas. O poder público parece nunca ter demonstrado preocupação em encontrar a raiz (ou raízes) do problema, mas, os próprios dirigentes das organizadas tentam demonstrar o caminho para se descobrir de onde vêm a natureza dos confrontos.</p>



<p>“Quando acabaram os bailes, eles se infiltraram nas torcidas, aí rolava muita briga. Mas nós mesmos, na torcida, intervimos nisso aí”, diz Erivan, da TOIC. De acordo com essa justificativa, no começo dos anos 2000, bailes funk eram populares nas comunidades do Recife, muitos bairros aproveitavam a ocasião para criar rivalidades e, assim, brigar. Tudo muito semelhante ao que acontece nas torcidas hoje.</p>



<p>As próprias representações de diferentes bairros no interior da Inferno chegaram a brigar entre si há alguns anos, o que exigiu intervenção da diretoria. De acordo com a versão desses torcedores, os protagonistas dessas brigas são jovens de periferia, sem acesso a espaços de lazer e cultura, que se identificam tanto com as organizações, que partem para violência para demonstrar superioridade. Algo que Raul, da torcida tricolor, define como o “ego da comunidade”.</p>



<p>Quais seriam consequências dessas brigas? A versão dos responsáveis pelas torcidas é diferente daquelas veiculadas pelas autoridades e pela mídia tradicional. Os dirigentes asseguram que, quando há confrontos, a diretoria contacta os monitores dos bairros, tentam entender o que aconteceu, e, se necessário punem os brigões. “A questão é que sem a ajuda das autoridades, que enxergam as torcidas como extintas, fica difícil prevenir”, afirma <em>Gel</em>, vice-presidente da TJS.</p>



<p>&#8220;A gente tem contato com todos os monitores de bairro. E isso é muito simples de resolver. A gente sabe de onde sai uma quantidade de pessoas muito grande, então o Choque pode fazer a escolta do bairro até o estádio. Mas não, eles só querem dar escolta a partir desse ponto (referindo-se à sede). A gente não vai acabar com a violência, mas tem ideias para minimizar ela&#8221;, explica o vice-presidente da torcida rubro-negra.</p>



<p>Entre os representantes das torcidas entrevistados, os torcedores do Santa Cruz e do Sport se mostraram mais dispostos a dialogar com os adversários, como já aconteceu no passado. Em 2015, Jovem e Inferno promoveram a campanha “Clássico da Paz,” com direito à música gravada pelos MCs das torcidas. Dois anos depois, foi a vez de Fanáutico e Inferno Coral protestarem juntas contra a Secretaria de Defesa Social e Federação Pernambucana de Futebol, por fazerem com que Náutico e Santa Cruz jogassem no mesmo dia na Arena de Pernambuco.</p>



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	                                        <p class="m-0">Jefferson Moura e Carlos Renato, da Torcida Jovem, Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>“Se for pro benefício da nossa entidade,nada mais justo que a gente sentar e conversar com Fanáutico e Inferno Coral, junto com a governadora, o Batalhão de Choque, os órgãos públicos&#8221;, diz Renatinho, da Jovem. &#8220;O diálogo, creio eu que se tiver a parceria entre as torcidas e os órgãos públicos vai melhorar muito. Porque o trabalho em conjunto ajuda a cada um dizer do que tá precisando [&#8230;] A volta das entidades, o que for melhoria para Inferno, Jovem e Fanáutico, a gente tá disposto a se sentar com qualquer um&#8221;, conta <em>BZC</em>, da Inferno Coral.</p>



<p>O alvirrubro Igor foi reticente, dizendo que hoje não existe diálogo entre as três rivais, o que só ocorrer com intermediação da Anatorg (Associação Nacional de Torcidas Organizadas).</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O que ninguém publica</strong></h3>



<p>Durante as entrevistas, os dirigentes das organizadas guardam alguns ressentimentos. Um deles, repetidos por todos, seria o não reconhecimento da mídia aos projetos que tocam em suas respectivas comunidades. “Isso era um trabalho que deveria ser do governo, né velho? A gente já criou um projeto social para afastar a criançada da droga, que é o Timbu Fighters, onde damos aula de artes marciais. E aí a gente tá tirando as crianças da droga, até os próprios componentes, fazendo eles praticarem esportes”, diz o alvirrubro Igor, da Fanáutico.</p>



<p>&#8220;A TJS influencia a molecada a não ir para o crime por meio de ações sociais. A gente tem várias academias nos bairros, como no Ibura. Quando uma criança tá lá, são três, quatro horas de relógio ocupando a mente. A gente queria ser ouvido porque a sociedade e a mídia só mostram o lado da violência. Temos vários pontos que trazem recursos benéficos para a comunidade que não são divulgados, como ações sociais, treinamento, doação de sangue&#8221;, fala <em>Gel.</em></p>



<p>&#8220;A mídia não mostra isso nunca. Ela vai mostrar simplesmente o lado negativo da torcida, que é um fato pequeno, mas que se torna grande e mancha o nome da entidade&#8221;, acrescenta Renatinho, presidente da TJS.</p>



<p>“O papel da Inferno Coral é o que a gente puder fazer, a gente faz. Como eu falei, a gente faz ação social. A gente sempre escuta pra ajudar, quem tiver precisando de ajuda em uma feira, qualquer coisa. Aqui a gente não tem essa de quem é rico ou quem é pobre. Aqui todo mundo é igual, aqui a ideia de todo mundo vale”, conta <em>BZC</em>.</p>



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	                                        <p class="m-0">Diretoria da Inferno Coral na sede própria, perto do Arruda. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>O que diz o Ministério Público de Pernambuco</strong></h3>



<p>O Ministério Público, instituição apontada como inacessível pelos torcedores, aceitou responder os questionamentos da nossa reportagem. Quem concedeu entrevista, por telefone, foi o promotor José Bispo, da Promotoria de Justiça do Torcedor. Ele relembra que a Promotoria de Justiça do Torcedor foi criada porque se fazia necessário um órgão que tivesse condições de exercer o Estatuto do Torcedor. “Tomamos medidas de cunho cível, como a proibição das organizadas, após clamor público. Todos acharam que seria a solução e percebemos que a sociedade queria isso, e o MPPE, com a ajuda do Governo Paulo Câmara e a SDS-PE, o fizemos em 2020”&#8221;, explica José Bispo.</p>



<p>Ao ser perguntado se a exclusão do CNPJ das três maiores organizadas gerou efeito concreto na diminuição da violência e do porquê ainda existirem pessoas que dizem ser da TJF, TOIC OU TJS, visto que foram extintas, o promotor diz não entender “torcedores que ainda se dizem dessas entidades inexistentes”, e completa afirmando que os bons torcedores não sentem falta dessas torcidas, que, segundo ele, antes de serem dissolvidas, participavam de reuniões com o Ministério Público e demais órgãos.</p>



<p>O promotor também defende a eficácia das restrições impostas aos torcedores, não apenas aos organizados: Todo lugar requer regras de organização. Os maus torcedores arremessavam esses objetos no campo&#8221;, fala Bispo. Ele também completa, após ser questionado, que qualquer objeto arremessado no gramado rende punição. No caso, como prevê o Estatuto do Torcedor, prisão que varia de dois a seis anos.</p>



<p>A explicação dada por Bispo para o MP exigir do poder público o cadastramento biométrico dos torcedores organizados é de ordem financeira: “Em 2014, o Ministério dos Esportes ensaiou um plano para cadastrar todos de forma biométrica, mas não seguiu adiante pois chegou-se à conclusão que era muito caro”, informa o promotor, que também acrescenta que TJF, TOIC e TJS chegaram a enviar, antes da extinção, uma lista com seus membros associados para o Choque. O documento, segundos os policiais, não tinha nenhuma credibilidade.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>No Brasil existe um estádio com reconhecimento biométrico: a Arena da Baixada. O Athletico Paranaense arca com as despesas do equipamento para todo seu estádio de 40 mil lugares. O clube também conta com o apoio logístico do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR), Secretaria de Segurança Pública do Paraná (SESP), Instituto de Identificação do Paraná, Detran-PR e a Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná (Celepar). Palmeiras e Goiás também arcam com a identificação de torcedores em seus mandos, utilizando reconhecimento facial.</p></blockquote>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>E a Polícia Militar?</strong></h4>



<p>A reportagem também tentou contato com o Batalhão de Choque para obter respostas a questionamentos sobre indisponibilidade para diálogo com as organizadas e vários relatos de truculência nos estádios, mas não obteve, até o momento, nenhum retorno.</p>



<p><strong>*Jornalista</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><cite><em>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa</em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>página de doaçã</strong></a><strong><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o</a></strong><em>ou, se preferir, usar nosso</em><strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em><br><br><strong>Apoie o jornalismo que está do seu lado</strong></cite></blockquote>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/para-as-autoridades-de-pernambuco-as-torcidas-organizadas-nao-existem-e-isso-gera-mais-violencia/">Para as autoridades de Pernambuco, as torcidas organizadas não existem. E isso gera mais violência</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Moradores de Porto de Galinhas vivem noite de terror após protestar contra violência da PM</title>
		<link>https://marcozero.org/moradores-de-porto-de-galinhas-vivem-noite-de-terror/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Apr 2022 21:13:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Governo de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[Governo de Pernambuco direitos humanos]]></category>
		<category><![CDATA[polícia em Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[policia militar]]></category>
		<category><![CDATA[porto de galinhas]]></category>
		<category><![CDATA[violência da PM]]></category>
		<category><![CDATA[Violência em Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[violência policial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“A gente voltou a viver em uma ditadura? Onde é que a gente vai protestar contra o assassinato de uma criança e a polícia vem nos atacar?” Esse é o questionamento de uma moradora que está aterrorizada e incrédula diante da ações violentas da Polícia Militar de Pernambuco nos últimos dias na praia de Porto [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>“A gente voltou a viver em uma ditadura? Onde é que a gente vai protestar contra o assassinato de uma criança e a polícia vem nos atacar?” Esse é o questionamento de uma moradora que está aterrorizada e incrédula diante da ações violentas da Polícia Militar de Pernambuco nos últimos dias na praia de Porto de Galinhas, em Ipojuca, no litoral Sul de Pernambuco.</p>



<p>No dia 30 de março, após o assassinato de Heloysa Gabrielle, de apenas seis anos &#8211; atingida no peito por uma bala durante uma perseguição policial, enquanto brincava na rua da casa de sua avó &#8211; , os moradores da cidade litorânea resolveram protestar e cobrar por justiça. Porém, ao invés de receber acolhida e ser escutada pelas autoridades de segurança do Governo do Estado, a população relata que está sendo ainda mais intimidada pela PM.</p>



<p>Vídeos que circulam nas redes sociais mostram a ostensiva operação policial que foi instaurada em Porto de Galinhas na noite dessa quinta-feira, 31 de março. De acordo com uma publicação do próprio governador Paulo Câmara, o objetivo da ação é “restabelecer a tranquilidade no Litoral Sul”. Não é isso que dizem os moradores.</p>



<figure class="wp-block-embed aligncenter is-type-rich is-provider-twitter wp-block-embed-twitter"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<blockquote class="twitter-tweet" data-width="500" data-dnt="true"><p lang="pt" dir="ltr">Estamos trabalhando de forma integrada com nossas forças operativas e ainda nesta noite de quinta-feira estamos reforçando o efetivo para restabelecer a tranquilidade no Litoral Sul.</p>&mdash; Paulo Câmara (@paulocamaraofc) <a href="https://twitter.com/paulocamaraofc/status/1509699432077484035?ref_src=twsrc%5Etfw">April 1, 2022</a></blockquote><script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Violência intensificada nos últimos meses</strong></h2>



<p>Residente de uma rua próxima onde aconteceu o assassinato da menina Heloysa Gabrielle, a moradora de Porto de Galinhas &#8211; que não será identificar nesta reportagem para que não sofra represálias por parte da PM -, revela que a violência policial tem sido constante na região nos últimos meses.</p>



<p>“A gente tem percebido que, desde dezembro do ano passado, houve um aumento nas ações da polícia aqui na cidade e a situação se agravou ainda mais no mês de março, principalmente depois do dia 17, quando três adolescentes foram assassinados em uma dessas operações da polícia. No dia 19 de março, houve outra operação na cidade, era meio-dia quando a polícia chegou atirando. Eles estavam encapuzados, como sempre, e com as armas expostas. Como era sábado, não tinha muita gente na rua e ninguém se feriu. Infelizmente, na quarta-feira [30 de março], quando os policiais chegaram atirando mais uma vez, era feriado na cidade, aniversário de Ipojuca e, por isso, tinham muitas crianças brincando na rua, e uma das balas atingiu Heloysa”, disse.</p>



<p>A moradora relembra o dia do ocorrido e se emociona ao afirmar que seu filho também estava brincando na rua no momento dos disparos e poderia ter sido vítima da polícia. “A gente ouviu três tiros, as crianças entraram correndo e depois ouvimos mais dois tiros. A polícia alega que houve troca de tiros, mas não houve, eles estão mentindo. O que as pessoas que estavam na hora viram foi um carro da polícia, com policiais armados apontando as armas pra fora das janelas, perseguindo um rapaz que estava empinando uma moto, mas não houve confronto. Depois dos disparos eu só ouvi choro, muito choro e eu, que estava na rua ao lado, não consegui entender direito o que havia acontecido”.</p>



<p>Segundo a entrevistada, logo após o ocorrido, ao saber da morte da criança, a comunidade se uniu para promover uma manifestação pacífica. Além disso, em comum acordo, integrantes das associações de turismo e comerciantes da cidade decidiram, por conta própria, decretar três dias de luto e paralisaram as atividades durante este período.</p>



<p>“Nós não fechamos as portas dos nossos estabelecimentos por medo de tráfico e das facções criminosas, como a polícia saiu dizendo por aí, foi um protesto nosso, para saber o motivo do Estado ter matado uma criança de seis anos e pedir um apoio jurídico”, declarou uma comerciante, que disse ainda acreditar que alguns estabelecimentos voltaram a funcionar nesta sexta-feira por pressão dos policiais.&#8221;Fiquei sabendo que uma padaria foi obrigada a abrir para servir o café da manhã a 50 policiais&#8221;, disse.</p>





<p>Com medo de sair de casa, esta moradora afirma que, desde a manhã de 31 de março, policiais circulam encapuzados e armados pelas ruas de Porto de Galinhas, bombas são disparadas contra a população e helicópteros da polícia sobrevoam as casas em voos rasantes. Durante a entrevista por telefone, foi possível ouvir o ruído dos rotores das aeronaves que sobrevoavam a área.</p>



<p>Para a entrevistada, o que acontece na cidade é o retrato da opressão: “A comunidade perde uma criança de seis anos e ainda tem que ficar presa dentro de casa porque a mesma polícia que assassinou agora está tocando o terror na população?”, questiona.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>“A gente nunca viu nada parecido”</strong></h3>



<p>“Eles [policiais] estão buscando algo que nem nós moradores sabemos o que é, porque não há necessidade dessa quantidade de policiais aqui em Porto, não há necessidade de tantas agressões e violências que a gente está vivendo aqui”. Outra mulher que também pede para não ser identificada por medo de sofrer intimidação, relata os dias de terror vividos na comunidade de Salinas, em Porto de Galinhas.</p>



<p>A grande quantidade de policiais que ocuparam a cidade, citada pela moradora, foi uma medida adotada pelo próprio Governo do Estado. Em nota enviada à imprensa, na noite dessa quinta-feira, 31 de março, a assessoria do governador informou:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>“O governador Paulo Câmara determinou o reforço da segurança em Porto de Galinhas, no município de Ipojuca, na noite desta quinta-feira (31.03). Cerca de 250 homens das polícias Militar e Civil se concentraram na sede da PMPE, no Derby, para seguir em comboio para o litoral sul do Estado.</strong></p><p><strong>Paulo Câmara monitorou os protestos em Porto de Galinhas durante todo o dia, ao lado do secretário estadual de Defesa Social, Humberto Freire, e do comandante da PMPE, coronel Roberto Santana. As manifestações ocorreram em vários pontos da cidade de Ipojuca, por causa da morte de uma criança de seis anos, vítima de um disparo de arma de fogo durante um confronto entre policiais e dois suspeitos, na comunidade das Salinas”.</strong></p></blockquote>



<p>Se as operações policiais já estavam acontecendo com mais frequência desde o início de março, os protestos pela morte de Heloysa Gabrielle agravaram ainda mais a situação. De acordo com a moradora, parece ter sido um pretexto para que “a polícia pudesse invadir de vez usando a desculpa do combate ao tráfico de drogas”.Ela descreve como a chegada dos policiais à cidade modificou o cotidiano da população:</p>



<p>“Desde 17 de março, todos os dias têm operações violentas da polícia aqui. E não importa a hora do dia, eles não estão preocupados com a segurança dos moradores. Os policiais chegaram a quebrar os quebra-molas das ruas para poder correr mais com os carros. Eu já vi uma mãe com sua criança no colo quase sendo atropelada pelo carro da polícia em uma dessas ruas, já vi os policiais apontando arma para idosos. Nós tínhamos que sair de casa com todos os documentos e havia até a recomendação para sairmos sempre com a farda do trabalho, porque eles estavam abordando todo mundo e alguns chegaram a ser agredidos. Um dia, eu testemunhei um rapaz que levou tapas dos policiais porque estava mexendo no celular e eles acharam que ele estava passando informações para alguém”.</p>



<p>A moradora enfatiza o abuso de autoridade exercido pelos policiais que, segundo ela, andam pelas ruas portando armas de grosso calibre apontadas para os moradores, além de estarem sempre encapuzados. Ela diz ainda que muitos deles ordenam que os moradores permaneçam dentro de casa e ameaçam os que desobedecem.“Os policiais já chegam atirando sem se importar quem está na mira. É uma situação muito aterrorizante porque a gente nunca viu nada parecido acontecer aqui em Porto de Galinhas”, declara.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                                        <p class="m-0">Crianças, amigos e parentes da garota Heloysa protestam contra violência policial e pedem punição aos assassinos. Crédito: Rayanne Carlota</p>
	                
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Apoio das organizações sociais</strong></h3>



<p>Nesta sexta-feira, 1º de abril, representantes de diversas instituições e organizações sociais de garantia aos direitos humanosparticiparam de uma reunião com os moradores da cidade de Porto de Galinhas. Entre as entidades presentes na reunião, estavam as comissões de Direitos Humanos, de Advocacia Popular, de Segurança Pública da secção pernambucana da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PE), Articulação Negra de Pernambuco, Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop) e  comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Pernambuco.</p>



<p>O objetivo do encontro é prestar apoio jurídico e psicossocial à família de Heloysa Gabrielle e também aos moradores da cidade que denunciam as ações violentas da polícia, a fim de abrir um diálogo com a Secretaria de Defesa Social para resolver a situação atual na cidade do Litoral Sul.</p>



<p>“A população não está se sentindo ameaçada por outros moradores ou pelo tráfico, ela está se sentindo ameaçada pelo aparato policial que está chegando na cidade. Os moradores estão protestando contra a violência da própria polícia e do Estado, que matou uma criança de seis anos e três adolescentes no mês de março. Para quê tanta polícia em uma cidade que tem um contingente populacional pequeno?”, contestou Igor Travassos, comunicador da Articulação Negra de Pernambuco.</p>



<p>No final da tarde, parentes e amigos da menina Heloysa Gabrielle, de seis anos &#8211; morta após ser atingida por um disparo de arma de fogo efetuado pela polícia -, realizaram mais um ato pedindo justiça.</p>



<p>O ato aconteceu de forma pacífica na cidade de Porto de Galinhas, onde a criança foi assassinada. Vestidos de branco e carregando bolas brancas, os manifestantes caminharam pacificamente pelas ruas da comunidade da Salinas em direção ao centro da cidade. Sob a justificativa de fazer a escolta ou a proteção dos participantes, policiais militares acompanharam a manifestação armados com fuzis.</p>



<p><em><strong>Esta reportagem foi produzida com apoio do<a href="http://www.reportfortheworld.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">Report for the World</a>, uma iniciativa do<a href="http://www.thegroundtruthproject.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">The GroundTruth Project.</a></strong></em></p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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		<title>A violência policial contra a juventude negra de Pernambuco e o silêncio da classe média</title>
		<link>https://marcozero.org/a-violencia-policial-contra-a-juventude-negra-de-pernambuco-e-o-silencio-da-classe-media/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 20 Oct 2017 21:00:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[aumento do efetivo policial]]></category>
		<category><![CDATA[Pacto pela Vida]]></category>
		<category><![CDATA[polícia em Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[violência policial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Danilo tomava uma cerveja na parada de ônibus em frente a uma lanchonete que vendia clone de coxinha na UR-11, às 21h30, depois de um longo dia de trabalho, quando várias viaturas da Polícia Militar fecharam a rua. Começou o inferno. “Mão na parede!, tá reclamando do que?”, tapa na lata de cerveja, ajoelha no [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Danilo tomava uma cerveja na parada de ônibus em frente a uma lanchonete que vendia clone de coxinha na UR-11, às 21h30, depois de um longo dia de trabalho, quando várias viaturas da Polícia Militar fecharam a rua. Começou o inferno. “Mão na parede!, tá reclamando do que?”, tapa na lata de cerveja, ajoelha no chão!, algema na mão. Vai parar na gaiola na parte de trás da viatura com outro jovem menor de idade que também reclamou da abordagem truculenta. “Tá reclamando do quê? Quando a gente aborda vocês é para ficar calado”.</p>
<p>Mais de uma hora depois, quando a operação acabou, foi liberado. “Tudo que eu imaginava é que eles iam me levar e fazer sangrar. Fui feliz para casa porque voltei vivo”.</p>
<p>Cleonice estava preocupada. Uma ideia não saia da cabeça dela: “ele vai me matar”. Ela decidiu se levantar e sair para conversar com o PM do lado de fora da UPA da PE-15. Foi franca na abordagem: “Eu vim aqui falar com você porque tô com medo que você me mate”. Ela havia filmado o policial discutindo com um casal de idosos que reclamava da demora no atendimento. “Cala a boca!”, disse o PM para a mulher do senhor cadeirante. Um jovem de bermuda e cabelo pintado tentou defender a senhora e foi expulso da UPA pelo policial.</p>
<p>A recepcionista dedurou. “Aquela mulher ali gravou tudo”. O PM mandou Cleonice entregar o celular. Ela não entregou. Mandou ela se levantar e sair da UPA. Ela não saiu. Outros policiais chegaram, “ficavam entrando e saindo, olhando para mim e rindo”.</p>
<p>Agora, já do lado de fora, ela disse que tinha mandado o vídeo para alguns amigos (para se proteger), mas que não iria divulgar nada nas redes sociais. Fechou o acordo. O PM disse que também tinha a foto dela.</p>
<blockquote><p><iframe src="https://www.youtube.com/embed/lqQaWoSb-1M" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p></blockquote>
<p>Gleydson se agachou, abriu a mochila que fora jogada abruptamente no chão e pegou os dois volumes (O que é espiritismo de Allan Kardec e um livro de Vygotsky). Mostrou aos policiais. “Sou professor. Sou um aliado de vocês. Meu trabalho também é contra a violência”. Foi colocado no camburão. “Me chamaram de doido… me chamaram de doido… eu, um professor, um professor deve ser respeitado por um policial – os professores deveriam ser escoltados para casa, não é? &#8211; fui tratado como um cão sarnento”.</p>
<p>Depois de algum tempo veio a sentença da Justiça: desacato à autoridade.</p>
<p>Quando o ônibus da linha Cabo/Cohab parou na blitz em Prazeres, perto do posto Shell, Gilmara já pressentia o que vinha pela frente. Os policiais subiram no ônibus e abordaram ela e outros dois jovens negros. Não era a primeira vez que isso acontecia naquele mesmo local. Uma policial pediu a bolsa de Gilmara para fazer a revista. A senhora branca, sentada do lado, perguntou se também seria revistada. “Não, senhora. Tá tudo certo. Boa noite”. Gilmara lembrou quando um policial disse para ela uma vez que quando fosse abordada pela PM colocasse a mão na cabeça e ficasse calada. Esse é o procedimento. “Se mandam colocar a mão pra frente (quando está sentada no ônibus) é porque você é uma suspeita”. Não esqueça. Esse é o procedimento.</p>
<p>Danilo Pedro (29), Cleonice Saraiva (29), Gleydson Góes (29) e Gilmara Santana (22) têm algo em comum. São jovens, negros, moradores da periferia e atuam em movimentos de resistência da juventude negra em Pernambuco. Danilo reside no Ibura, é tatuador e um apoiador dos festivais de hip-hop nas comunidades, ajuda a divulgar e a patrocinar os eventos oferecendo o serviço gratuito de tatuagem. Cleonice mora na Cidade Tabajara, integra o movimento nacional do Coletivo Juntos e tem um canal no Youtube em que promove discussões sobre racismo e direitos humanos, o 100% Negra. Gleydson é integrante do Fórum de Juventudes do Cabo, ator e autor de teatro e professor de inglês. Morador do bairro de São Francisco, foi candidato a prefeito pelo Psol em 2016. Gilmara também mora no Cabo. Foi coordenadora de Igualdade Racial do município e é representante da rede ciberativista negra de Pernambuco.</p>
<blockquote>
<h2><strong>O Governo mostra as suas armas</strong></h2>
<p>Desde pequenos, Danilo, Cleonice, Gleydson e Gilmara aprenderam da pior forma possível que mais policiais nas ruas não significa mais segurança. Não para eles. Quando ligam a TV e veem a nova propaganda do Governo de Pernambuco anunciando a contratação de mais 4.500 mil policiais, 1.400 viaturas e a criação do BOPE (Batalhão de Operações Especiais), eles sabem muito bem quem vai ser protegido e quem vai ser atacado com “pulso firme” pelo braço armado do Estado.</p>
<p>O Governo do Estado está apostando em mais policiais nas ruas e no estímulo às abordagens para conter o aumento da violência em Pernambuco. Por isso enviou e aprovou em primeira discussão no plenário da Assembleia Legislativa, na terça-feira (17), o Projeto de Lei 1596/2017 que amplia a gratificação por produtividade de policiais civis e militares implementada desde 2011 com o nome de Gratificação Pacto pela Vida (GPPV).</p>
<p>Às bonificações previstas para cumprimento de mandado de prisão, apreensão de jovens envolvidos em atos infracionais e apreensão de crack e cocaína foi somada também a apreensão de armas. Em resumo: os policiais que fizerem mais apreensões e prisões vão ter um incremento nos seus salários, seguindo um sistema de pontuação pré-definido. Para apreensão de arma de fogo, o bônus será de R$ 2 mil a R$ 700,00. As apreensões de crack (a partir de 12 gramas) serão remuneradas entre R$ 1.000,00 e R$ 250,00 com teto no número de beneficiados por unidade operacional.</p>
<p>Na prática, o Governo corre contra o tempo – estamos a um ano das eleições &#8211; para reduzir o desgaste político com a piora dos índices do Pacto pela Vida. Criado em 2007 e monitorado diretamente pelo governador Eduardo Campos (PSB), o Pacto tornou-se uma referência nacional ao reduzir de forma significativa o número de homicídios em Pernambuco. Em 2007 foram 4.591 assassinatos. A partir daí começou uma trajetória descendente até alcançar a marca de 3.100 em 2013. Desde então os crimes letais não param de crescer. Em 2016, chegaram a 4.479 e entre janeiro e setembro deste ano já somam 4.145.</p>
<p>A conjugação de mais policiais nas ruas e o incentivo financeiro para que eles intensifiquem as abordagens na Região Metropolitana do Recife são motivo de apreensão para integrantes dos movimentos de negros e negras que atuam nas periferias contra a violência institucionalizada do Estado.</p></blockquote>
<h3><strong>Fiquei sem carteira, boné e direitos&#8230;</strong></h3>
<p>O protesto nos últimos dias de 2016 já estava no fim, chegando ao Cais de Santa Rita, quando um grupo colocou fogo num boneco. Henrique viu quando a “PM de farda preta” chegou. “Era tiro de bala de borracha para todo lado. Um advogado foi atingido na barriga”. Henrique estava com o megafone, puxando o protesto contra o aumento da passagem de ônibus. Saiu correndo quando, de repente, foi puxado abruptamente pela gola. “Respeite a polícia”, ouviu. “Fiquei sem nada, carteira, boné, megafone, direitos… Fizeram isso para dizer que eu era vagabundo, que não tava no protesto”. Foi parar na gaiola da viatura. Desacato à autoridade.</p>
<p>Por uma hora e meia a soltura de Henrique foi negociada. Em troca, os policiais queriam o fim imediato do protesto e a dispersão dos manifestantes, conta o jovem. “De 20 em 20 minutos vinha um falar comigo. Quem eu era? Que eu soubesse que na próxima vez ia dar em morte… Cuidado com minha família…”. Estava passando mal quando foi solto. “Não devolveram boné, sandália… Devolveram carteira e celular porque o advogado popular que estava lá falou com eles”. Tinham ainda um recado para Henrique. “O comandante me disse que se me visse de novo por ali ia me prender”.</p>
<p>Há alguns dias, um novo susto. Henrique e o namorado estavam no Curado, bairro onde reside, quando viram a viatura parar de um lado do beco. Em menos de dois minutos, os policiais deram a volta e os abordaram pelo outro lado. “Mão na cabeça. Encosta na parede!”. A sogra da irmã dele foi avisada e correu para o local. Disse aos policiais que os dois jovens eram dali, conhecidos, de família. O PM informou que tratava-se de uma operação de rotina. Foram liberados.</p>
<blockquote><p><iframe src="https://www.youtube.com/embed/CxqMrUVpEDE" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p></blockquote>
<p>Jéssica tinha acabado de sair de uma reunião sobre orçamento municipal. Estava chocada com os parcos recursos previstos para a Secretaria da Juventude em 2018. Mas ia ficar ainda mais chocada com o que viu na Conde da Boa Vista, na altura da FAFIRE. Dez policiais abordaram dois jovens (um sem camisa e outro com bermuda folgada). Cinco seguiram a pé na ronda pela avenida, outros cinco ficaram por mais de 1 hora na abordagem ostensiva aos garotos negros. Um constrangimento presenciado por dezenas e dezenas de pessoas que passavam pelo local.</p>
<p>No domingo, há duas semanas, foi uma amiga de Jéssica que presenciou o mesmo tipo de abordagem. Desta vez no sítio histórico de Olinda. De novo, jovens negros foram parados e colocados de frente para a parede, mãos na cabeça. Calados. Yane Mendes simulou que estava tirando uma selfie para poder fotografar os policiais abordando o grupo de jovens (é dela a foto em destaque na abertura deste texto). Tanto no caso da Conde da Boa Vista, no centro do Recife, quanto em Olinda, o mesmo procedimento. “Eles estão sempre com a mão sobre a arma. Em posição de confronto e ameaça”.</p>
<h3><strong>Não tenho nada, só a vontade de seguir sorrindo&#8230;</strong></h3>
<p>Yane publicou uma postagem na sua página no facebook. Escreveu um texto desafogo (como ela chama)&nbsp; sobre o que viu: /Me solta doutor eu não tenho nada aqui comigo a não ser a vontade de seguir sorrindo/ele olhou para mim e disse: olha a tua cor, abaixa a cabeça, pega o busão. 5 minutos te dou./ Tô só fazendo meu trabalho que é proteger os brancos aqui do lado/E eu com medo do forgado vou para casa revoltado ainda por cima calado/ porque têm vários deles do meu lado com aquele olhar apontado/ me deixando com os olhos arregalados/ coração acelerado e hoje sou só mais um humilhado/.</p>
<p>Levi é educador cultural. Trabalha com dança, hip-hop, street dance, break. Promove festas e eventos de rua em bairros da periferia da Região Metropolitana do Recife. Mora em Três Carneiros. Já se acostumou a ouvir pedido de ajuda financeira de policiais para realizarem rondas e policiamento nas festas. “Se você não der o dinheiro eles não fazem a ronda. Podem provocar alguma confusão. Um tiro para o alto. Ou dar o baculejo no pessoal. Apreender menores com cigarro de maconha. Culpar os organizadores por aliciamento de menores. Como vamos poder nos responsabilizar por todos que estão ali?”.</p>
<p>As abordagens truculentas da Polícia Militar fazem parte da rotina no Ibura e em Três Carneiros.&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um amigo mecânico de Levi, cabelo rastafari, foi pego com um cigarro de maconha na UR-5. “Cadê o dinheiro da renda?”, o policial perguntou. Ele tirou a cerveja da mão do amigo de Levi, bebeu a Heineken todinha, e ainda ficou com o cigarro. Um outro jovem flagrado com uma trouxinha de maconha no terminal de ônibus em Três Carneiros Alto teve que mastigar e engolir a erva. “Todo mundo viu. O policial ainda comprou uma água com gás ali e mandou o rapaz botar tudo na boca e comer na frente dele. Mastigar tudinho”.</p>
<p>Henrique Alves (19), Jéssica Vanessa (22) e Levi Costa (32) também militam em movimentos que atuam a partir das periferias do Grande Recife na defesa dos direitos dos jovens negros e negras. Henrique é colega de Cleonice no Coletivo Juntos. Jéssica é fotógrafa, integra o Fórum de Juventudes de Pernambuco e preside o Centro de Comunicação e Juventude (CCJ).</p>
<p>A reportagem da Marco Zero Conteúdo conheceu Henrique, Jéssica, Levi, Gilmara, Cleonice e Gleydson no dia 6 de outubro quando eles participaram no plenarinho da Câmara Municipal do Recife do debate Cada Vida Importa sobre a violência que vitima a juventude pernambucana.&nbsp; Na mesa estavam o deputado estadual cearense, Renato Roseno (Psol), o vereador Ivan Moraes (Psol), os sociólogos e estudiosos de segurança Ana Paula Portella e José Luiz Ratton (mentor do Pacto pela Vida), o coordenador do Unicef para o Nordeste, Robert Glass, e Jéssica, representando o Fórum das Juventudes de Pernambuco. A reportagem entrou em contato com as pessoas que estavam na plateia e se pronunciaram contra os abusos policiais. Marcou entrevista com cada uma delas para que pudessem relatar sua experiência cotidiana com a polícia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><iframe src="https://www.youtube.com/embed/kMuHsSm6bYQ" width="386" height="217" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p></blockquote>
<h3><strong>O “baculejo” na Jaqueira e o silêncio da classe média</strong></h3>
<p>Enquanto essa reportagem era escrita uma postagem no facebook chamou a atenção do repórter. Um texto de Fabiano Guerra relatando a abordagem policial a jovens no final da tarde da última sexta-feira, dia13, no Parque da Jaqueira. “Vários jovens, a sua imensa maioria menores de idade, estavam naquele círculo central. Uns dançando, outros conversando, mais uns tantos andando de patins ou skate, ou seja, se divertindo. Eis que surge 1 policial acompanhado de 6 novatos&#8230; Os novatos estavam de chapéu laranja novinhos em folha&#8230; Eles abordam todos os jovens com certa arrogância e com arma em punho. As crianças e adolescentes sem documentos levavam um esporro monstro e eram obrigados a deixar o Parque da Jaqueira e irem pra casa. Os que tinham documentos levavam o mesmo esporro e também foram obrigados a deixar o parque. Todos, sem exceção, foram revistados com direito àquela tradicional batida nos ovos e em alguns casos (forçados a) abaixar o calção”.</p>
<p>Fabiano conta que ele, a mulher e o filho e muitas outras pessoas de classe média não foram abordadas pelos PMs. E segue o relato: “Ao final, o policial mais antigo conversa com os novatos como quem encerrou uma aula de campo e diz para eles que caso precise de algo mais é só passar um rádio que a viatura mais próxima virá”.</p>
<p>Fabiano termina a postagem com duas perguntas: “É assim que se resolve o problema de segurança pública no estado? Alguém adivinha a cor da pele dos jovens abordados?”.</p>
<p>A reportagem entrou em contato com Fabiano para saber se ele tinha gravado a cena ou tirado fotos. “Não tirei, não gravei. Fiquei com receio. Vi que um dos policiais estava de olho. Tive medo. Até porque eu estava ali com o meu filho”. Segundo ele, nenhum dos adultos que presenciou a cena tentou interferir ou questionou a maneira como a Polícia Militar abordou os jovens de periferia que se divertiam no parque público. “Eles revistaram de forma brutal crianças de 10, 12 anos. Encostaram na parede, mandaram colocar as mãos na cabeça, abrir as pernas. Alguns tiveram até que baixar o calção. Todos foram expulsos da Jaqueira. Tudo isso na frente de muita gente. Sem nenhuma contestação”, relatou.</p>
<p>O silêncio é uma arma invisível em favor dos abusos policiais. Os agentes fardados do Estado contam com ele. O repórter que assina este texto presenciou recentemente abordagem de policiais na Estrada do Arraial, em Casa Amarela, e também não registrou a cena. A viatura da PM parou do nada, encostou na calçada. Dois policiais saíram do carro. Mandaram um rapaz negro encostar no muro com as mãos na cabeça. Fizeram uma revista rápida nos bolsos. Pediram carteira e documentos… Retornaram para o carro e seguiram sua ronda… deixando para trás medo, humilhação e um silêncio pesado, interrompido pelo toque estridente da sirene da própria viatura que seguia lenta (e temida) pela rua.</p>
<h3><strong>Escravidão e política higienista: aqui e agora</strong></h3>
<p>Gilmara não tem dúvida. O trabalho da polícia é manter a população negra afastada dos espaços públicos centrais do Recife. O racismo traz com ele a questão da ocupação do território. E é assim em todo o Brasil desde o fim da escravidão. “A polícia foi criada depois da escravidão para evitar que os negros ocupassem a zona central. Para que eles não chegassem à cidade. Estou falando de higienização. Tirar os negros do convívio com as pessoas não-negras. Negro tem que ficar na periferia. Era assim no passado e é assim agora”.</p>
<p>Para Gilmara, o aumento do efetivo militar nas ruas das grandes cidades pernambucanas não vai garantir segurança para todos. “Mais policiais na rua significa segurança para algumas pessoas em alguns espaços. Não para nós. Na Conde da Boa Vista tem policial em toda esquina. Quem você acha que vai ser pego por lá para ir à delegacia? Tem lugares que não vou mais. E horários que não saio de casa. O tráfico ocupa o território na comunidade. E ficamos à merce da PM para andar na cidade”.</p>
<p>O Marco Zero, cartão postal do Centro do Recife, é um símbolo da higienização mencionada por Gilmara. Ela diz que já presenciou os policiais na Ponte Giratória, no Cais de Santa Rita, fazendo triagem de quem entra e quem não entra na área. “Vi os policiais pararem de forma agressiva um grupo de adolescentes. Não deixaram eles passarem. Mandaram eles voltarem. No Marco Zero abordam um determinado perfil de pessoas. Outras não são abordadas”. O relato segue o mesmo modelo do que Fabiano Guerra presenciou no Parque da Jaqueira.</p>
<p>[Best_Wordpress_Gallery id=&#8221;19&#8243; gal_title=&#8221;Cotidiano da violência policial&#8221;]</p>
<p>“No Marco Zero. É fato. Mas não acontece só ali. Aconteceu também no Parque do Baobá. A polícia chegou e montou o paredão. Só de negros. Só pra eles tem a abordagem truculenta. Questão é social e é racial. Tiram esse direito da gente. Do espaço público. Se tem um grupo de jovem da periferia dão toque de recolher. Não temos direito de andar na rua. Andar em grupo é uma forma de nos protegermos. A polícia já acha que queremos fazer confusão. Para eles só a gente rouba. Não é só no Marco Zero. Acontece nos parques e praças da cidade. Na Jaqueira”, explica Jéssica.</p>
<p>A reportagem da Marco Zero encontrou no facebook menção à abordagem no Parque do Baobá e foto também, datada de de 15 de abril, referindo-se a ação do Grupo Tático Operacional da Guarda Municipal do Recife.<br />
<iframe loading="lazy" src="https://www.youtube.com/embed/vsekTLfkagY" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<h3><strong>Quem é você pra desfazer o meu trabalho?</strong></h3>
<p>Parques, praças e… escolas públicas. O cerco policial também está presente nos estabelecimentos públicos de educação fundamental e de ensino médio, segundo os relatos de Gleydson e Henrique. Gleydson, que já foi professor voluntário de inglês na Funase do Cabo e em escolas públicas da cidade, presenciou recentemente uma abordagem de policiais a dois estudantes em frente à Escola Municipal Armínio Guilherme dos Santos, no Alto da Saudade, bairro de São Francisco, no Cabo. Amigos dos jovens correram para a casa de Gleydson para pedir ajuda.</p>
<p>Antes de sair de casa, Gleydson trocou de roupa. Colocou uma calça. Diz que é importante estar arrumado para obter algum tipo de respeito. Ele disse aos policiais que era uma liderança comunitária da região, conhecia os meninos. Foi retrucado: “Você é o que? Só por que é liderança acha que pode desfazer o meu trabalho é?”. Segundo Gleydson, o policial também agrediu verbalmente a coordenadora da escola. “São pessoas como você e ela que atrapalham nosso serviço. Olha o tamanho dele!”, disse, colocando um dos jovens, bem mais alto do que Gleydson, ao lado do professor.</p>
<p>Depois de muita conversa, os dois jovens foram liberados. Um deles mostrou para Gleydson as marcas de vermelhidão na altura da costela. Antes de ir embora, o professor tentou sensibilizar os policiais. “Como o governo dá para vocês a tarefa de ir buscar cigarro de maconha no bolso de estudante? Você acha que o professor, o estudante e a diretora são seus inimigos? Vocês têm que ter papel mais relevante na sociedade. Mas vocês não estão se vendo desse modo”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h2><strong>Governo foca em policiamento&nbsp;</strong><strong>e investe pouco em informação&nbsp;</strong><strong>e trabalho de inteligência</strong></h2>
<p>Dados consolidados de 2014 e divulgados pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2016 apontam Pernambuco como o sétimo estado brasileiro com o maior efetivo de policiais militares, contabilizando 19.519 integrantes da força em dezembro daquele ano. O estado ocupa a quarta colocação quanto ao total de policiais civis, com 5.679. Pernambuco tem a sétima maior população entre os estados brasileiros, com pouco mais de 9,4 milhões de habitantes.</p>
<p>Embora a propaganda do Governo do Estado exalte os investimentos no trabalho de inteligência da polícia, os dados comparativos entre os estados apresentados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2016 mostram baixa alocação de recursos para a área. Considerando os últimos dados consolidados que permitem a comparação entre os estados, relativos ao ano de 2015, Pernambuco é o quarto que mais gasta recursos na atividade de policiamento (R$ 1.738.372.078,33), mas ocupa apenas a 14a colocação em investimento em informação e inteligência (R$ 991.361,25). Com o detalhe de que estamos falando de um universo de 19 estados que disponibilizaram as informações.</p>
<p>&#8220;A falência da investigação é endêmica (no Brasil). Como as polícias são sobrecarregadas, são seletivas, e essa seletividade abre espaço para critérios discricionários e para a corrupção. Além disso, a polícia ostensiva sempre recebeu preferência em ralação à polícia de investigação. As PMs têm um contingente sempre maior que o da Polícia Civil&#8221;, explica Ignácio Cano, professor da Uerj, citado pela jornalista e mestre em sociologia, Fernanda Mena, no livro A Violência Policial no Brasil e os Desafios para a Sua Superação (Boitempo, 2015).</p>
<p>Com ampla experiência teórica e também de gestão, o professor de sociologia e ex-secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, é um crí­tico do que ele chama de criminalização da pobreza, associando-a, entre outras questões, à prioridade dada nos estados ao policiamento ostensivo e às prisões em flagrante: &#8220;os crimes passí­veis de flagrante são aqueles que acontecem nas ruas, portanto, sob um filtro social, territorial e racial&#8221;.</p></blockquote>
<h3><strong>Toque de recolher nas calçadas do Cabo</strong></h3>
<p>A interferência da polícia no cotidiano dos jovens que vivem no Cabo é muito grande. A presença dos policiais não tem significado mais segurança para os jovens na cidade que detém o título de décima mais violenta do Brasil entre aquelas com mais de 100 mil habitantes, de acordo com o Atlas da Violência 2017, com taxa de 85,3 mortos por 100 mil/hab (147 homicídios e 24 mortes violentas por causa indeterminada em 2015). “Eles decretam uma espécie de toque de recolher. Passam nas calçadas de noite mandando os jovens para casa. Dão baculejo e mandam todos se recolherem às suas residências. Agora eu tenho uma pergunta à Secretaria de Defesa Social: como é que eles não acham as pessoas que trazem as drogas para cá?”, questiona Gleydson.</p>
<blockquote><p><iframe loading="lazy" src="https://www.youtube.com/embed/QEQdWPOWOZ0" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p></blockquote>
<p>Henrique conta que há duas semanas houve uma abordagem policial à noite na Escola Edmur Arlindo de Oliveira, no Curado IV, em Jaboatão dos Guararapes. Diz que os estudantes foram colocados na quadra para uma revista. Uma viatura ficou estacionada na frente da escola. Dois policiais entraram e três ficaram fora. Dois jovens possuíam cigarros de maconha. Os dois foram detidos. Uma menina perguntou para um deles se queria que ela avisasse à mãe. Henrique conta que a menina foi puxada por um dos PMs e retirada da escola. “Chegou a pegar a algema, mas a coordenadora intercedeu nessa hora”.</p>
<p>“São os novos PMs, os laranjinhas (em referência ao boné laranja). Tá todo mundo com medo. Toda abordagem parte do princípio de que você é bandido. Já veem o indivíduo como criminoso. A questão da humanização que eles não têm. A abordagem já é uma forma de punir a pessoa. Não é um procedimento que pode levar a pessoa a cumprir a pena. Na verdade, a abordagem já é a punição”. São as palavras de Henrique.</p>
<p>“Não é guerra contra a violência. É guerra contra a pobreza. Quem morre são os jovens. Negros e pobres. Dos dois lados”.</p>
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<h2><strong>Violência vitima os policiais. Eles também&nbsp;</strong><strong>são </strong><strong>negros, pobres </strong><strong>e moradores de periferia</strong></h2>
<p>Henrique tem razão sobre as vítimas dessa “guerra contra a pobreza”. Morrem os dois lados. Entre 2009 e 2015, 2.572 policiais foram mortos, um número mais alto do que o registrado em qualquer outro país do mundo. Segundo cálculos apresentados pelo presidente da Associação Nacional de Praças, Elisandro Lotim, no relatório do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2016,&nbsp; a quantidade de policiais mortos no Brasil em um único ano equivale à somatória de 98 anos na Inglaterra.</p>
<p>“Nesta guerra de todos contra todos, um fator chama a atenção. Tanto as vítimas policiais quanto as vítimas da sociedade, regra geral, possuem a mesma origem. No caso dos policiais, são os praças (soldados, cabos, sargentos e subtenentes), e, no caso das vítimas da sociedade, a grande maioria é oriunda das periferias. A questão que se coloca, a partir desta constatação é: por que os “sem camisa” estão matando os “descamisados”, e vice-versa?”, indaga Elisandro.</p>
<p>Ao invés de fomentar políticas públicas pautadas na lógica da redução de enfrentamentos, o Estado faz justamente o oposto, critica o presidente da Associação dos Praças. Para ele, os discursos e as&nbsp; ações do Poder Público estimulam enfrentamentos que resultam em ações letais e visam o controle social no sentido da manutenção do status quo. “Na medida em que o Estado abre mão de políticas educacionais, ou se omite na questão dos direitos sociais e utiliza as forças de segurança como forma de contenção social dos “excluídos”, ele incentiva confrontos que tornam policiais e população potenciais vítimas, e, no caso dos policiais, vítimas dúplices, visto que quando confrontado, o Estado não raras vezes culpa o policial, seja por ter agido ou por ter morrido”.</p></blockquote>
<h3><strong>Você fica esperando, mas sabe que vai acontecer</strong></h3>
<p>Henrique diz que há um código nas comunidades. Sempre que tem abordagem policial as pessoas vão para a rua para ver o que está acontecendo. Podem até não se manifestarem, mas ficam de olho. “Temos que olhar para evitar o pior. Todo mundo sai para ver e depois falar. Para depois contar. Anotar a placa da viatura&#8230;”. Continua: “Os policiais não informam nada. Que tipo de operação é aquela, por que estão ali, não perguntam quem é da família… O medo é frequente. Você fica só esperando, mas você sabe que vai acontecer”.</p>
<p>“Porque é negro ou tem tatuagem já nos veem como marginal. Independente de fazermos trabalho de rua, é trabalho do mesmo jeito. Abordam de forma equivocada, truculenta. É violência institucional. Minha família é de militares e eles sempre me dizem: cuidado, eles estão sem treinamento”, completa Levi, integrante do movimento Frente Favela Brasil, que tem entre os seus maiores incentivadores o fundador da Central Única de Favelas (CUFA) e escritor Celso Athaíde.</p>
<h3><strong>Nossa saúde mental é o tempo todo massacrada</strong></h3>
<p>Para Gilmara, a mídia pernambucana e nacional contribui para a criminalização da juventude negra da periferia. “Chamam os jovens de marginais. Associam o tráfico aos negros da periferia. Fazem discurso para reforçar que o Estado atue de forma dura para combater essas pessoas perigosas”.&nbsp; As vítimas viram algozes nos programas policiais que tomam as rádios e as TVs pernambucanas e a capa dos tablóides populares. Discurso reverberado na campanha publicitária do Governo do Estado.</p>
<blockquote><p><iframe loading="lazy" src="https://www.youtube.com/embed/jDSjaMSK768" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p></blockquote>
<p>“Você tem que ver a alegria de um jovem quando ganha um emprego. Manda foto de uniforme. Muda o perfil do facebook. Mas Cardinot e Datena dizem que são todos almas sebosas. Fazem a sociedade ter medo deles. Aqui não tem almas sebosas. Aqui tem os esquecidos e desesperados. Quando não são mortos, se matam”, desabafa Gleydson, preocupado com a frequência de suicídios entre os jovens no Cabo de Santo Agostinho.</p>
<p>“Nossa saúde mental é o tempo todo massacrada”, diz Gilmara.</p>
<p>Massacrada foi como se sentiu Cleonice ao presenciar uma abordagem policial há duas semanas, num domingo, numa estação de ônibus na PE-15. Ela afirma que presenciou uma cena de espancamento. “Os policiais chegaram, eram todos homens e jovens, e mandaram homens e mulheres encostarem na parede. Já gritaram: “se olhar para trás, apanha!” Uma menina disse a um policial que ele não podia revistá-la (ela só pode ser revistada por uma policial mulher). Chamaram de puta, rapariga, vagabunda. Murro nas costas… Fiquei estatelada. Tive medo de filmar”.</p>
<h3><strong>Você não pode olhar para eles. Também não pode falar</strong></h3>
<p>“Eles estão espalhados. Percebemos que estão parando todos os homens negros. Cabelo pintado, bermuda Seaway&#8230; Parando e abordando de forma violenta. Cidade Tabajara, Bultrins, Ilha do Maruím… Esses PMs novos não têm preparo. Estão sempre com mão na arma. Você não pode olhar para eles, também não pode falar com eles”. Segundo todos os relatos feitos à reportagem da Marco Zero Conteúdo, qualquer movimento ou contestação à arbitrariedade pode ser enquadrado como “desacato à autoridade”.</p>
<p>Cleonice foi revistada por um policial no Carnaval de 2016 na Rua 13 de Maio, em Olinda. “Ele mexeu na minha bolsa. Eu disse que meu celular estava lá”. Resposta: “E eu quero teu celular, puta?”.</p>
<p>Ela diz que já presenciou e ouviu muitas histórias de abusos. “Eles fazem você beber loló. Mandam tirar a roupa toda e ir pra casa. É um sinal de autoridade, mostram que podem te humilhar. Tapa, murro. Loló na cara. O ladrão não tem autoridade. Te assalta e vai embora. O PM pode te tornar um bandido. Te condena. Não tem preparo estrutural. Nem para proteger. Veja a questão do tiroteio em favela. Não parece que tem gente ali. Criança. Eles entram e atiram. Colocam a vida de todos em risco. Mais policiais na periferia é motivo para nos sentirmos menos e não mais protegidos”.</p>
<p>As abordagens aumentaram no sítio histórico de Olinda, conta Cleonice. “Não é uma abordagem educada. Eles não explicam que se trata de uma questão de segurança. Se for educada, você entende. Mas não é. Nos sentimos muito reféns. Não nos sentimos seguros nem pelos traficantes, nem pela polícia. Eles nos seguem com o olhar. Tenho medo de chegar à noite no meu bairro e a polícia estar por lá”.</p>
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<h2><strong>Pedidos de entrevista à SDS e à PM</strong></h2>
<p>Durante a semana em que realizava as conversas com Cleonice, Gilmara, Gleydson, Levi, Danilo, Henrique e Jéssica, a reportagem da Marco Zero Conteúdo entrou em contato com a assessoria de comunicação da Secretaria de Defesa Social, na quarta-feira (11), solicitando entrevista com um representante da SDS para tratar da política de segurança pública em Pernambuco, no contexto do aumento do efetivo policial e do projeto enviado à Assembleia ampliando a política de bonificação dos policiais militares por cumprimento de mandados de prisão, apreensão de jovens envolvidos em atos infracionais, apreensão de crack e armas de fogo.</p>
<p>A assessoria pediu que enviássemos um e-mail com a demanda. O que foi feito ainda na quarta-feira e no qual explicitamos que iríamos abordar também o tipo de treinamento que estava sendo dado aos novos policiais e a política de apuração e punição aos abusos praticados pelos integrantes das forças de segurança pública. Na sexta-feira (13), a reportagem fez novo contato com a assessoria, que confirmou o recebimento do e-mail e ficou de dar retorno sobre a demanda. O que não aconteceu até a data da publicação deste material.</p>
<p>Diante do silêncio da SDS, na quinta-feira (19), a Marco Zero Conteúdo procurou a assessoria de comunicação da Polícia Militar de Pernambuco. Também fomos orientados a enviar e-mail com a demanda. No e-mail, solicitamos entrevista com representante da instituição para repercutir a série de abusos policiais relatados pelas fontes da matéria, apontando a “abordagem diferenciada da PM nas ruas, direcionada para, segundo alegam, constranger os jovens negros, pobres e da periferia, restringindo inclusive sua circulação em alguns ambientes públicos da cidade nos fins de semana, como o Parque da Jaqueira”. Pedimos resposta à demanda até às 18h da quinta, mas a assessoria informou que não daria para cumprir este prazo e ficou de nos contatar quando tivesse uma resposta. Na manhã da sexta (20) reforçamos o pedido, informando que a reportagem seria publicada no final do dia.</p>
<p>O espaço para o posicionamento da SDS e da Polícia Militar permanece aberto para publicação no site e nas redes sociais da Marco Zero Conteúdo.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/a-violencia-policial-contra-a-juventude-negra-de-pernambuco-e-o-silencio-da-classe-media/">A violência policial contra a juventude negra de Pernambuco e o silêncio da classe média</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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