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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>A batalha pela liberdade do produtor cultural Ojuara</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 04 May 2019 11:56:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[gajop]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O produtor cultural Ojuara, 25 anos, está preso há mais de oito meses. Ele é réu primário. Tem endereço fixo e uma atividade remunerada. O Ministério Público de Pernambuco é favorável a que espere o julgamento em liberdade. Pela letra da lei, sua prisão temporária pela suspeita de tráfico de 3,2 quilos de maconha já seria questionável. A circunstância de como ele foi detido, e mantido preso, torna o caso emblemático, expondo o despreparo da polícia e a morosidade do Judiciário. Além de tudo, Ojuara se diz inocente. E quem o conhece não tem dúvidas: ele estava no lugar errado, na hora errada.</p>
<p>Primeiro, é preciso saber quem é Juan Ruiz Santana, conhecido como Ojuara. Ele trabalha há anos fomentando a cultura nas periferias do Grande Recife. Descobre novos talentos, organiza festas e shows, produzindo o merchandising e vendendo os ingressos. Baile da Favela, Baile da Braba e 9K Sessions são algumas dessas festas – 9K é o nome do selo e produtora que ele criou.</p>
<blockquote><p><a href="http://marcozero.org/passinho-ele-perdeu-um-olho-por-causa-da-policia-e-teve-a-protese-ocular-negada-pelo-estado/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Passinho: ele perdeu um olho por causa da polícia, e o Estado negou a prótese</a></p></blockquote>
<p>Nos corres, Ojuara defendia que o jovem da periferia não está destinado ao crime. Há uma saída pela arte, pelo rap, pelo hip-hop, pelo bregafunk. Ajudava novos talentos a gravar de graça. Diomedes Chinaski, Mc Leozinho, Schnneider, Sevchenko e Elloco são exemplos de alguns artistas que já tocaram em eventos que ele produziu.</p>
<p>Agora, vamos ao dia da prisão. Foi em 17 de agosto do ano passado, uma sexta-feira. Ojuara havia ido repor ingressos do Baile da Favela – edição que ia contar com MV Bill &#8211; na loja e estúdio de tatuagem Hellcife Ink Tatoo, no Edifício Continental, perto da Rua do Sol. Era algo que ele fazia com frequência, como também ia em outros estabelecimentos e casas de shows. Era parte do trabalho. A namorada, a estudante de Direito Aryádne Melo, ia passar de carro para buscá-lo. Um amigo, Breno Williams, chegou no estúdio para pegar R$ 20 com Ojuara para ochá de bebê de um colega em comum.</p>
<p>Aryádne se atrasou.</p>
<p>Nesse meio tempo, se desencadeou uma sequencia de acontecimentos que terminariam por levar Ojuara para o Centro de Triagem Professor Everardo Luna (Cotel). Ele estava no estúdio quando pelo menos três homens surgiram gritando. Todos que estavam lá correram, inclusive o dono do local, Swelligton Dias. Era Swell, como é conhecido, que os homens procuravam. Deram um tiro na direção dele, mas atingiram a parede.</p>
<p>Assustado, Ojuara correu para a sala vizinha. Os homens, descobriria logo depois, eram policiais civis à paisana da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa, a DHPP. Levaram Ojuara para a sala do estúdio. Já tinham revirado tudo. Encontraram os tais 3,2 quilos de maconha escondidos na geladeira do estúdio, diz o inquérito policial. De Swelligton, nem sinal. Breno também conseguiu fugir. Só Ojuara foi levado parao DHPP, que fica no Cordeiro, e autuado em flagrante pelo artigo 33 da lei 11.343/2006, que trata sobre o tráfico de drogas.</p>
<p>Na delegacia, não foi comunicado que poderia se recusar a prestar depoimento, não foi dito que ele tinha direito a um advogado e ele também não falou com a família antes de depor – só pôde ligar para o pai após testemunhar. “Ele foi torturado psicológica e fisicamente”, diz o advogado de Ojuara, Victor Oliveira.</p>
<p>Aryádne chegou na delegacia às 17h. Disseram queo namorado não estava mais lá. Ela insistiu. Continuaram a negar. Por volta das 21h, ela viu quando o trouxeram para tirar a foto para a ficha criminal. Não conseguiu falar com ele ali. Em todo o tempo, Ojuara manteve sua inocência. Também não acusou Swell – desconhecia se ele traficava ou não.</p>
<p>&#8220;Na verdade, a polícia quis prender Ojuara para disfarçar sua incompetência em não prender Swelligton. Se tivessem chegado calmamente, teriam feito o flagrante do dono da loja e Ojuara seria uma testemunha&#8221;, acredita o advogado.</p>
<p>Para livrar o flagrante, Swell compareceu à delegacia três dias depois, acompanhado de um advogado. Afirmou que Ojuara era inocente e que a maconha pertencia a uma mulher chamada Patrícia, e que ele desconhecia o paradeiro dela. Sobre uma balança de precisão encontrada no estúdio, ele disse que era para pesar as pratas que vendia. Swell responde ao processo em liberdade. O Ministério Público não acreditou na versão dele: ele é considerado o principal suspeito do crime pelo qual Ojuara está preso.</p>
<p>Breno Williams compareceu na delegacia horas depois da prisão do amigo. Prestou depoimento e no inquérito foi colocado como testemunha e como suspeito &#8211; o que é estranho, já que ainda valeria o flagrante, se fosse o caso. Ele ainda não foi intimado a fazer sua defesa inicial na Justiça</p>
<h2>A intransigência do judiciário</h2>
<p>Na audiência de custódia, Ojuara contou para Aryádne que a juíza nem olhou na cara nele. O caso foi encaminhado para a 4ªVara Criminal, do juiz Gilvan Macêdo dos Santos. O então advogado de Ojuara pediu a revogação da prisão em primeira instância e sumiu. E o pedido passou meses lá sem mudança.</p>
<blockquote><p>E aqui, um breve parênteses, caso você esteja achando o nome do juiz conhecido: no final de 2017 ele lançou o livro “A discriminação do gênero-homem no Brasil em face à Lei Maria da Penha”. Nele, defendia que os homens eram injustiçados pela lei. Houve polêmica e ocorreram dois cancelamentos do lançamento. “A lei está contribuindo para a destruição de muitas famílias”, afirmou o juiz, em <a href="https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2018/02/entrevista-com-juiz-gilvan-macedo-dos-santos.html" target="_blank" rel="noopener noreferrer">entrevista à revista Galileu</a>. <a href="//www.folhape.com.br/noticias/noticias/cotidiano/2017/12/20/NWS,52911,70,449,NOTICIAS,2190-AUTOR-CHAMA-EXAGERO-REPERCUSSAO-LIVRO-SOBRE-LEI-MARIA-PENHA.aspx%20" target="_blank" rel="noopener noreferrer">À Folha de Pernambuco</a>, disse que “quando os conflitos começam entre ambos, havendo o conhecimento da Lei Maria da Penha, muitas mulheres provocam os homens&#8221;.</p></blockquote>
<p>Em dezembro, o rapper Diomedes Chinaski postou um pedido de ajuda para Ojuara. Era preciso um novo advogado. A família já havia tido problemas com dois – um deles, nem OAB tinha. Foi quando o criminalista Victor Oliveira, conhecido de Diomedes, entrou no caso. Logo lembrou: já havia “defendido” Ojuara antes. Um mês antes de ele ser preso, os dois estavam em um bar no Festival de Inverno de Garanhuns, quando Ojuara pagou uma cerveja e o atendente o cobrou de novo. “Eu ‘testemunhei’ a favor dele e nos apresentamos”, relembra Victor.</p>
<p>O Gabinete de Assistência Jurídica Popular, o Gajop, também entrou no caso, com a advogada Thaisi Bauer. Passaram a trabalhar juntos. Na primeira instância, o MP opinou pelo deferimento da soltura, com uso de monitoramento eletrônico.</p>
<p>Em 20 de março, o juiz Gilson Macêdo dos Santos negou o pedido. Era esperado. Desde que assumiu a 4ª Vara Criminal, em 2016, este juiz nunca revogou prisão de acusados de tráfico de drogas.</p>
<div id="attachment_15451" style="width: 1010px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15451" class="size-full wp-image-15451" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/05/ojuara1.jpg" alt="Amigos e familiares de Ojuara em frente ao tribunal de Justiça de Pernambuco, no dia em que o julgamento do habes corpus foi adiado. Foto: Beto Figueroa" width="1000" height="667"><p id="caption-attachment-15451" class="wp-caption-text">Amigos e familiares de Ojuara em frente ao tribunal de Justiça de Pernambuco, no dia em que o julgamento do habes corpus foi adiado. Foto: Beto Figueroa</p></div>
<p>O despacho que ele fez é curto e genérico. Um terço das 14 linhas foi usado para citar dados gerais da violência em Pernambuco “em média, 7 ônibus são assaltados todos os dias em Recife. Os levantamentos indicam, ainda, que neste Estado, nos últimos dois meses, houveram (sic) 12 assaltos a bancos; 6 mulheres foram estupradas a cada dia; além de ocorrerem 225 crimes violentos contra o patrimônio diariamente”, escreveu o juiz, justificando a manutenção da prisão apenas pela gravidade do crime.</p>
<p>O pedido de habeas corpus já havia sido protocolado, antes mesmo da decisão sobre a revogação da prisão. Era para ser algo rápido, mas levou mais de um mês para o julgamento do HC entrar na pauta. Novamente, o MP opinou pela soltura de Ojuara. Na terça-feira passada, cerca de 40 amigos, amigas, familiares e ativistas foram até o Tribunal de Justiça, na Praça da República. Pouco antes do julgamento, ficaram sabendo do adiamento. O desembargador responsável estava de licença médica.</p>
<p>Agora, a esperança tem nova data: nesta terça-feira, 7 de maio, a partir das 14h. É um julgamento rápido, em que é decidido se o suspeito deve ou não ser mantido preso enquanto se desenrola o processo. Há uma sustentação oral de no máximo 15 minutos, que será feita pelo advogado Victor Oliveira, e depois o desembargador se pronuncia. Amigos, parentes e integrantes da cena do hip-hop pernambucana já estão mobilizados para acompanhar a sessão.</p>
<h3>Mobilização cultural</h3>
<p>A prisão de Ojuara caiu como uma bomba na cena musical pernambucana. Com 800 mil ouvintes mensais no Spotify, Diomedes Chinaski é um dos amigos mais próximos de Ojuara. E um dos rappers mais talentosos da sua geração. Os dois se conheceram há mais de dez anos quando Ojuara ainda não tinha adotado esse nome. &#8220;Era só Juan&#8221;, conta Diomedes, do Rio de Janeiro, onde se apresenta neste fim de semana. No início da carreira, um ajudava o outro a pagar almoço e passagem de ônibus.</p>
<p>Mesmo com a agenda cheia, Diomedes insistiu em dar seu depoimento para esta reportagem. &#8220;Ojuara é um cara que percebeu o quanto que a gente, que é de periferia, que tem um estereótipo de favela, é desacreditado e excluído&#8221;.</p>
<div id="attachment_15453" style="width: 262px" class="wp-caption alignleft"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15453" class="wp-image-15453 size-medium" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/05/diomedes2-252x300.jpg" alt="Diomedees Chinaski" width="252" height="300"><p id="caption-attachment-15453" class="wp-caption-text">Diomedes Chinaski</p></div>
<p>Em vídeos nas redes sociais e nos shows, o artista não deixou que os oito meses de prisão de Ojuara fossem esquecidos. &#8220;Você pega um jovem de periferia com um potencial criador &#8211; um cara sensível, que foi um dos primeiros a alertar para a necessidade de se conscientizar sobre o machismo nos bailes. Aí você pega esse cara e o coloca na cadeia e acha que está resolvendo alguma coisa. Que tipo de política (contra as drogas) é essa? Infelizmente estamos vendo outros casos no Brasil, como o de Rennan da Penha (do Baile da Gaiola, no Rio de Janeiro, preso e condenado por tráfico)&#8221;.</p>
<p>Diomedes destaca a questão social na prisão de Ojuara. &#8220;Não tem como você não morar na periferia e não conhecer alguém que use drogas, que faça assaltos. É impossível. E você não vai renegar a amizade dessa pessoa. Mas é aquela parada&#8230;qual jovem de classe média seria preso por uma droga que não estaria com ele, que estaria escondida dentro de uma loja, um lugar público? Nenhum. A gente sabe como pesa o fato de ser de Abreu e Lima, a gente sabe como pesa a questão social&#8221;.</p>
<p>&#8220;Existe um código nas ruas de que se a parada é sua, você não pode envolver outras pessoas que não estão mexendo, não estão se envolvendo. Foi muito triste Ojuara ser preso nisso, porque ele não sabia que havia droga ali. A pessoa foi covarde com ele. Foi logo em um momento em que 9K estava decolando muito e ele estava muito feliz. As coisas estavam começando a dar certo financeiramente e acontece isso&#8221;, lamentou Diomedes.</p>
<h4>Entre o desespero e esperança</h4>
<p>O Cotel fica em Abreu e Lima, mas é como se fosse uma filial do inferno: celas superlotadas de homens que passam meses, e até anos, amontoados à espera de um julgamento. Na primeira visita de Aryádne a Juan eles não imaginavam que a estadia ali iria durar tanto. “Ele estava péssimo, mas esperançoso. Afinal, ele não era o dono da loja. Assim como ele estava ali, qualquer outra pessoa poderia estar”, lembra.</p>
<p>Nos dias, semanas e meses que se passaram desde então, a esperança se alternou com o desespero. A primeira visita de Victor a Ojuara foi em dezembro. “Ele estava muito abalado psicologicamente, mas passando muita verdade no que dizia. Ele não via a hora de voltar a trabalhar. Estava muito preocupado com a mãe, pois era ele quem complementava a renda dentro de casa”, diz.</p>
<p>Por conta da falta de higiene na prisão, Ojuara está com uma infecção contagiosa na pele. A família levou remédios, mas não adiantou. “Outros presos também estão com a doença, o ambiente é péssimo&#8230;não há assistência nenhuma ali dentro”, diz Aryádne, entre a tristeza e a indignação. “Ele está muito ansioso com o julgamento do habeas corpus, mas eu digo que graças a Deus que ele está vivo. Porque os policiais atiraram quando entraram no estúdio e poderiam ter atingido ele”.</p>
<p>No Facebook de Ojuara há várias fotos dele com uma criança. Pergunto se é filho dele. “É sobrinho. O outro sobrinho nasceu faz um mês”, responde Aryádne. Pede que eu não fale com a mãe dele – ela fica muito emocionada ao falar do filho.</p>
<p>Perto de se formar em Direito pela Unicap, Aryádne já conhecia como a Justiça funcionava. E segue chocada. “No começo do curso, pensamos que as coisas acontecem do jeito que está escrito na lei. Mas na maior parte a prática é muito diferente, é muito do juízo de valor de cada juiz. Você já foi em um julgamento? Às vezes o juiz só diz ‘provido’ ou ‘não provido’. E é isso. Não percebem que estão lidando com vidas”.</p>
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